31 de jan. de 2009

No bar do mineiro

Uma garota inteiramente nua entra no bar do mineiro e pede uma cachaça. Ele prepara a bebida e ao passar-lhe o copo, debruça-se sobre o balcão para observá-la atentamente. Pouco depois a garota pede outra cachaça e o mineirinho volta adebruçar-se sobre o balcão. Ela se irrita:- Você nunca viu uma mulher nua? Educadamente, o mineirinho responde:- Mais claru qui vi sô, bão dimais, tô é querendo sabê dondi ocê vai tirar o dinheiro pra pagá as cachaça!
Picture by Édouard Manet

Pensar grande

O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a sua cabeça. Alto.
Coco Chanel

Surpreender-se

Surpreender-se, estranhar-se, é começar a entender.
José Ortega Y Gasset

29 de jan. de 2009

O menor conto de fadas do mundo

Era uma vez uma linda moça que perguntou a um lindo rapaz:- Você quer casar comigo? Ele respondeu:- Não!!!! E a moça viveu feliz para sempre, foi viajar, vivia fazendo compras, conheceu muuuuitos outros rapazes, visitou muitos lugares, foi morar na praia, trocou de carro, redecorou sua casa, sempre estava sorrindo e de bom humor, pois não tinha sogra, não tinha que lavar, passar, nunca lhe faltava nada, bebia champanhe com as amigas sempre que estava com vontade e ninguém mandava nela. O rapaz ficou barrigudo, careca, a bunda murchou, o perú caiu, ficou sozinho e pobre, pois nenhum homem constrói nada sem uma Mulher.

O caminho

O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
João Guimarães Rosa

Baralho da vida

A vida não consiste em ter boas cartas na mão, e sim em jogar bem as que se tem
Josh Billings

Menino triste

Que queres, menino triste? que me páras no farol? Que sonho escuro que viste, Pois teus olhos não têm sol? Tua madrasta é a rua, com seu cimento gelado. E de noite, nem a lua te dá um olhar de trocado… Quem te largou neste mundo, para catares esmola? Se roubas, és vagabundo… Mas quem te roubou a escola? E quem te arrancou da mão um brinquedo e uma esperança? Quem te tirou, sem perdão, o direito a ser criança? Tua escola é a calçada, que freqüentas todo em trapos. Se o dia não rende nada, logo apanhas uns sopapos.
Menino, no olhar me imploras muito mais do que um favor. Querias que tuas horas fossem preenchidas de amor! Mas o que vês são os carros! Passam depressa, sem dó. Os sorrisos te são raros. O Brasil te deixa só. Minha poesia já chora: os meninos são milhões. Será que o povo de agora perdeu os seus corações?
Vá correndo, minha Musa pedir ao homem tão duro, que das riquezas abusa, que reparta seu futuro! Poderá haver perdão, dizei-me vós, Senhor Deus, para a megera nação que assim trata os filhos seus? E a Musa conclama alto, com resquícios de esperança: Brasil, não jogues no asfalto A alma de uma criança! Dora Incontri

28 de jan. de 2009

Mais britânicos morreram no Titanic porque 'fizeram fila'

Mais passageiros britânicos morreram no naufrágio do navio Titanic porque fizeram fila para chegar aos barcos salva-vidas, enquanto americanos não fizeram cerimônia ao abrir caminho, disse um pesquisador da Austrália. O pesquisador afirma que os resultados de seu trabalho mostram que "a base cultural" das pessoas a bordo teve papel significativo na tragédia. Cerca de 53% das pessoas a bordo eram britânicos e proporcionalmente havia menos deles entre os sobreviventes. Vinte por cento eram americanos. Segundo David Savage, economista da Universidade de Tecnologia de Queensland, os americanos tiveram uma probabilidade 8,5% maior de sobreviver do que outras nacionalidades, como suecos e irlandeses. Já os britânicos tiveram uma probabilidade 7% menor de sobreviver. O navio, que tinha pouco mais de 2,2 mil pessoas a bordo, chocou-se contra um iceberg e afundou em 1912, quando fazia sua viagem inaugural da Grã-Bretanha para os Estados Unidos. No total, 1.517 pessoas morreram. Havia apenas 20 barcos salva-vidas para transportar 1.178 pessoas. Mulheres e crianças "Parece que no Titanic a regra social de 'mulheres e crianças primeiro' foi seguida, pois proporcionalmente mais mulheres do que homens e quase todas as crianças a bordo sobreviveram", disse Savage, de acordo como o jornal australiano Brisbane Times. As mulheres tiveram uma probabilidade até 52% maior de sobrevivência do que homens, de acordo com o estudo. No caso de mulheres com crianças, essa probabilidade aumentou 74%. Aqueles com até 15 anos de idade tiveram uma probabilidade 32% maior de sobreviver em comparação a pessoas com 51 anos ou mais.
BBC

Quando mudo de atitude, torno-me mais feliz

É impossível falar em mudança de hábitos sem mencionar a ética do caráter. Acredito que se uma pessoa deseja de fato ser feliz, ela tem, por obrigação, de avaliar profundamente seus hábitos positivos e negativos, e em seguida, partir para a ação no sentido da transformação e aprimoramento do caráter. Vamos continuar falando um pouco mais sobre dor e sofrimento. Você já parou para pensar em como muitas vezes nós mesmos provocamos a nossa dor? Se nos orientarmos pelas palavras do nosso querido Dalai Lama, "...costumamos aumentar nossa dor e sofrimento, sendo excessivamente sensíveis, reagindo com exagero a fatos insignificantes e às vezes levando as coisas para um lado muito pessoal...". Pare, por favor, por um minuto e avalie quantas vezes por dia você faz o que exatamente nos diz o Dalai Lama? Vou lhe propor um exercício: olhe para o céu, para o horizonte, para as estrelas, para a lua, o sol brilhando no céu. Imagine agora a imensidão do Universo, mas imagine de fato. Feche os olhos e sinta sua imensidão, sua grandeza, e agora, imagine você, seu tamanho diante desse mesmo Universo!... Imagine-se agora como um espírito individualizado, você, eu, seu vizinho, seus pais, seus filhos, amigos, irmãos, marido, mulher, namorado, namorada, as pessoas na rua, no seu trabalho, imagine a todos como espíritos, com uma série de vidas consecutivas, uma história de pessoas com seus limites, dificuldades, dores, paixões, amores. Apenas imagine, exercite sua imaginação. Percebe como somos todos iguais, limitados? Agora, pare para refletir sobre a luta pessoal de cada uma dessas pessoas. Pare e avalie um a um. Imagine-os como seres humanos em luta individual, independente do que representam para você. Olhe-os como almas individualizadas. Isente-se por um momento do raciocínio limitado, deixe de ser, por um minuto que seja, o centro do seu Universo. Observe como um espectador e perceba os limites e dificuldades que cada uma dessas pessoas enfrenta todos os dias. Agora, voltamos à frase do Dalai Lama. Você já percebeu que, quando levamos qualquer coisa que fazem para o lado pessoal, ou seja, quando achamos que o mundo está contra nós, estamos construindo nosso próprio sofrimento? Quando esse comportamento se torna um hábito, além de nos tornarmos insuportáveis ao convívio social, ele pode ser uma grande fonte de infelicidade. Se você é daquele tipo de pessoa que se irrita com facilidade com o comportamento alheio, não aceita as pessoas como são, não consegue rir de suas próprias falhas, pode acreditar, você é um forte candidato a ser um construtor da própria infelicidade. Se pararmos para observar a atitude alheia como algo feito deliberadamente contra nós, estamos perdidos. Essa atitude é parte de um hábito. Quando percebemos, já entramos na energia. Os hábitos diários controlam as nossas vidas, diz Yogananda, portanto, mãos à obra em direção à mudança! Vamos refletir sobre as questões do carma em relação à nossa acomodação em algum hábito. Ouço algumas pessoas dizerem: Ah, deve ser o carma, o que eu posso fazer...? Essa é uma compreensão errada da doutrina do carma. Carma, em sânscrito, quer dizer ação! A desculpa do carma muitas vezes nos isenta da responsabilidade da iniciativa e do esforço, da coragem e da luta para transformar uma situação presente em algo maior e mais construtivo. Sempre existe algo importante a ser feito por cada um de nós, em nosso processo cármico. Muitas vezes não estamos prontos para a mudança, mas mesmo assim, devemos continuar atentos para a necessidade de mudar. Não devemos perder de vista essa necessidade, construindo o momento em que estaremos prontos para a virada. Existem ambientes e pessoas que nos invadem, nos violentam de alguma maneira, a ponto de nos sentirmos infelizes. Culpamos o carma muitas vezes, por não conseguirmos nos libertar dessa situação de aprisionamento que carregamos em nossos corações. Sabemos que precisamos mudar, tomar uma atitude, mas ainda não nos sentimos preparados. Mas, mesmo sabendo que não estamos preparados, não devemos perder de vista as necessidades de mudança, de tomar uma atitude necessária à mudança e construção de uma vida mais feliz. O carma não é uma energia passiva, pois carma, como já disse, significa ação! Qualquer movimento que fazemos em direção da melhoria de nossas vidas só poderá nos ajudar na construção de um carma mais positivo. O passado justifica o presente e assim construímos uma nova vida, com consciência no presente e uma saborosa colheita no futuro. Pensando e agindo nesse sentido, você se transforma em senhor de seu próprio processo cármico, senhor absoluto de sua vida, se torna independente interna e externamente. Pare e reflita o que está fazendo no sentido de contribuir para essa construção. Pense, pois você também é responsável pelo desenrolar de sua vida no presente. Mas também não é necessário assumir toda a responsabilidade. É importante o reconhecimento de nossas falhas para a recuperação de algo mais positivo dentro de nós, mas em seguida ao reconhecimento, devemos transformá-las, sem carregar um lamaçal de culpas junto de nós. Limpar os mal entendidos, desculpar pelos nossos erros, sim, mas auto-punição, nunca! Errare humanun est! (errar é humano!) Não podemos permitir que a culpa nos arremesse em um poço lamacento, não podemos nos censurar e punir por nossos erros indefinidamente. A auto-punição é o caminho mais curto para a infelicidade. Quando nos olhamos de frente, aceitamos nossas falhas e limites e nos perdoamos, assumimos nossos erros com mais facilidade, mais tolerância, menos culpa, percebemos que somos humanos e aceitamos o humano que pertence a todos nós. Com dignidade, consigo olhar para o outro, seja esse outro quem for, sem culpa, e aceito o limite e as falhas alheias com muito mais tolerância e tranquilidade. Eunice Ferrari

27 de jan. de 2009

No Pants Subway Ride 2009

A guerra dos hemisférios cerebrais

Uma proteína que funciona como um imã e outra, espécie de comparsa, que a ajuda a atrair mais neurônios para o lado esquerdo do cérebro. Não é uma competição equilibrada, mas o resultado final é desejável: que os hemisférios cerebrais sejam distintos tanto do ponto de vista anatômico como funcional. Especializados, eles trabalham de forma mais eficiente. A assimetria hemisférica do cérebro já é conhecida há muito tempo, mas só agora os cientistas começam a entender como ela é esculpida. Pesquisadores da University College de Londres, Inglaterra, descobriram que uma proteína chamada Fgf8, encontrada em ambos os lados, orienta a migração de células nervosas. Seria uma luta justa se outra proteína, conhecida como Nodal, presente apenas no lado esquerdo, não facilitasse o trabalho da Fgf8 nessa mesma metade. Embora a pesquisa tenha sido feita com peixes paulistinha (Danio rerio), os cientistas esperam resultados semelhantes em outras espécies e inclusive no ser humano, pois a assimetria hemisférica é um fenômeno amplamente difundido no reino animal e se manifesta logo na vida embrionária. Em humanos, evidências como essa, podem ajudar a entender por que alguns distúrbios psiquiátricos, como a esquizofrenia, estão associados a hemisférios cerebrais menos assimétricos. O estudo foi publicado na revista Neuron.
Mente & Cerebro

Crise

"Vou fazer um slideshow para você. Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes. Quem sabe até já se acostumou com elas. Começa com aquelas crianças famintas da África. Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele. Aquelas com moscas nos olhos. Os slides se sucedem. Êxodos de populações inteiras. Gente faminta. Gente pobre. Gente sem futuro. Durante décadas, vimos essas imagens. No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto. Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados. São imagens de miséria que comovem. São imagens que criam plataformas de governo. Criam ONGs. Criam entidades. Criam movimentos sociais. A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza. Ano após ano, discutiu-se o que fazer. Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta. Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo. Resolver, capicce? Extinguir. Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta. Não sei como calcularam este número. Mas digamos que esteja subestimado. Digamos que seja o dobro. Ou o triplo. Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo. Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse. Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse. Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia. Bancos e investidores. Como uma pessoa comentou, é uma pena que esse texto só esteja em blogs e não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar. Se quiser, repasse, se não, o que importa? "O nosso almoço tá garantido mesmo..." Atribuído ao Muniz Neto - diretor de criação e sócio da Bullet

26 de jan. de 2009

The Curious Case of Benjamin Button Movie Trailer

Diários

DIÁRIO DELA...
No domingo à noite ele estava estranho. Saímos e fomos até um bar para tomar um drink. A conversa não estava muito animada, de maneira que pensei em irmos um lugar mais íntimo. Fomos a um restaurante e ele ainda agindo de modo estranho. Perguntei o que era, e ele disse que nada, que não era eu. Mas não fiquei muito convencida. No caminho para casa,no carro, disse-lhe que o amava muito e que ele era muito importante pra mim. Ele limitou-se a passar o braço por cima dos meus ombros. Finalmente chegamos em casa e eu já estava pensando se ele iria me deixar! Por isso tentei fazê-lo falar, mas sem me dar muita bola ligou a televisão, e sentou-se com um olhar distante que parecia estar me dizendo que estava tudo acabado entre nós. Por fim, embora relutante, disse que ia me deitar. Mais ou menos 10 minutos ele veio se deitar também e, para minha surpresa correspondeu aos meus avanços, e fizemos amor. Mas depois ele ainda parecia muito distraído e adormeceu. Comecei a chorar, chorei até adormecer. Já não sei o que fazer. Tenho quase certeza que ele tem alguém e que a minha vida é um autêntico desastre.
DIÁRIO DELE... O meu time perdeu. Fiquei chateado a noite toda. Pelo menos dei umazinha. Mas ainda tô chateado... time de pernas de pau.

Diamantes

Nunca desvalorize ninguém
Guarde cada pessoa perto do seu coração
Porque um dia você pode acordar
E perceber que você perdeu um diamante
Enquanto você estava muito ocupado colecionando pedras.

Aditivos para a mente

Sem se preocupar com efeitos colaterais, pessoas saudáveis usam remédios contra distúrbios psiquiátricos e até hipertensão para melhorar o funcionamento do cérebro
Indicados para quem sofre de depressão, hiperatividade ou distúrbios do sono, remédios como Ritalina, Stavigile e outros têm sido usados por um tipo diferente de consumidor. Eles começam a ocupar a farmácia particular de pessoas saudáveis interessadas em melhorar a memória, o humor e a atenção. São indivíduos que querem se sentir "mais do que bem". Conhecida no meio acadêmico como aprimoramento neurológico, ou neuroenhancement, a prática, polêmica, foi defendida recentemente por pesquisadores de sete universidades americanas e britânicas.
Em um manifesto publicado pela revista científica Nature, eles pedem a regulamentação e a liberação de drogas do gênero a quem quiser apenas turbinar o cérebro. Alegam que a medida responderia a uma demanda que acreditam ser irreversível. Nos Estados Unidos, por exemplo, 7% dos estudantes universitários já usaram medicamentos do tipo para melhorar o desempenho. No Brasil, embora o debate ainda esteja começando, é possível encontrar usuários.
As preferidas do momento são as chamadas smart drugs, ou drogas da inteligência, que atuam no aprimoramento da cognição. A mais comum é a Ritalina, indicada contra o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Sua substância ativa dinamiza a comunicação entre as células dos lobos frontais, áreas cerebrais associadas à razão e ao raciocínio. Embora psiquiatras alertem que o remédio não deve ser tomado sem receita médica - efeitos colaterais incluem insônia, perda de apetite e dores gástricas -, as advertências não têm sido suficientes para impedir a procura.
Como no caso da estudante de enfermagem carioca J. S., 18 anos, que toma o medicamento para dar conta da carga de leitura exigida pela universidade: "Uso quando estou desatenta e preciso ler." As compras são acertadas pelo site de relacionamentos Orkut e enviadas pelo correio por um portador de hiperatividade que vende o medicamento com ágio.
O doping cerebral também se vale de anfetaminas, estimulantes do sistema nervoso que deixam as pessoas mais atentas, e beta-bloqueadores, contra hipertensão, que dilatam os vasos sanguíneos e diminuem a ansiedade. Inclui ainda drogas para manter as pessoas acordadas ou combater a perda da memória. Sem falar nos antidepressivos. De fato, pesquisadores da Universidade de São Paulo notaram que doses mínimas desses remédios podem causar uma sensação de bemestar em até 30% de usuários saudáveis.
"Eles ficaram mais tolerantes, autoconfiantes e eficientes", diz Clarice Gorenstein, uma das coordenadoras do trabalho. Mas o uso sem acompanhamento pode ter efeitos indesejados. "A tristeza depois vinha mais forte", conta a estilista carioca Márcia Martins de Lima Mendonça, 49 anos, que tomou antidepressivos por conta própria por mais de dez anos.
A chamada cosmética neurológica gera debates éticos consideráveis. A principal preocupação é quanto à segurança: não se conhecem os resultados do uso não-médico dessas substâncias no longo prazo. No caso específico da Ritalina, indaga-se ainda, por exemplo, se não haveria o risco de os consumidores depositarem excesso de atenção em algum assunto ou atividade. "Ninguém pode prever", diz a psicóloga Luciana Caliman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela pesquisa a percepção da opinião pública brasileira sobre o uso nãomédico da medicação. Na opinião da psicanalista Ana Rosa Trachtenberg, a procura por essas opções pode ser resultado da pouca tolerância atual para o sofrimento e frustrações inerentes à vida. "Assim como as pessoas recorrem a tudo para ter um corpo bonito, agora usam a medicina para buscar a perfeição da mente", diz.
Gustavo de Almeida e Maíra Magro

25 de jan. de 2009

Cada um com a sua cerveja

O hobby de fazer a própria bebida conquista novos artesãos que partilham suas criações em confrarias Quando eles se encontram para tomar cerveja, as reuniões costumam durar horas. Mas a diversão começa muito antes. Para os cervejeiros artesanais, a graça está no preparo da bebida.
E eles não se contentam apenas em produzir para consumo próprio, mas compartilham suas receitas em clubes e confrarias.
"É possível fazer em casa pelo menos 400 variedades diferentes", explica o "cervejólogo" Edu Passarelli, que faz sua própria cerveja.
Os cervejeiros de fim de semana garantem que bastam alguns equipamentos básicos (leia quadro) e um espaço de cerca de dois metros quadrados para começar a produção. Os kits têm preços entre R$ 500 e R$ 1 mil. Como parte dos ingredientes é importada, o custo varia, mas Passarelli, que é dono do bar Melograno, em São Paulo, afirma que com R$ 30 é possível produzir cerca de 30 litros.
O passatempo deu tão certo para os amigos Dudu Toledo, dono de uma produtora, e Luis Fabiani, consultor econômico, que eles criaram a Microcervejaria Nacional FT. Os sócios recebem pedidos de três restaurantes em São Paulo para criar cervejas exclusivas - eles consomem 700 litros mensais. "Esse mercado é muito interessante porque a galera gosta de trocar figurinha, é movida pela paixão", diz Toledo.
O gerente de TI Alex Wirz Vieira fez a primeira cerveja há dois anos. Ele e os amigos se uniram para criar a Associação de Cervejeiros Artesanais Paulista (Acerva), uma confraria para trocar receitas, dicas e, claro, beber as criações de cada um dos 25 sócios. "Nós trocamos garrafas e fazemos encontros para produzir juntos, além de nos encontrarmos nos bares", afirma Vieira. Existem associações da Acerva também no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.
"Hoje, o Brasil vive uma revolução das cervejas especiais", comemora Marco Falcone, da Cervejaria Falke Bier, em Minas Gerais. Ele fez as primeiras por hobby, em 1988, e atualmente ensina quem está interessado em aprender. É o caso do estudante de medicina Daniel Motta, 23 anos, que começou há um ano e, hoje, faz uma receita diferente por mês. "A família e os amigos têm uma reação incrível", comemora Motta. "Cada um que entra traz mais cinco, dez pessoas. Não é só o prazer de desenvolver um alimento; a cerveja socializa", filosofa Falcone.
Verônica Mambrini

A mulher e o poder

Escrever sobre homens e poder seria de um óbvio ululante. O poder transforma, e nem sempre para melhor. É preciso saber lidar com ele, para que não nos deforme. A pergunta sobre como as mulheres exercem cargos de mando tem várias respostas, e eu já fiz o teste: desde "estão maravilhosas", "estão poderosas", até "andam muito loucas, mandonas demais". Mulheres são gente: seres humanos, complexos e desvalidos como todos. A vida é que andou se complicando muito desde que mulheres (tão poucas, ainda!) começaram a assumir algum poder. A velocidade com que as mudanças sociais acontecem hoje é perturbadora e, embora nossos avós também dissessem "Nossa! Como este ano passou rápido!", hoje nossa vida se transforma em mera correria se a gente não cuidar. Tudo é agora, tudo é imediato, e tudo é aqui e rapidinho. Gaza e Washington acontecem no nosso café-da-manhã. Com o poder acontece o mesmo que ocorre com o tempo: ou o transformamos em nosso bicho de estimação ou ele nos devora. O bicho de estimação a gente aceita, brinca com ele, gosta dele, adapta-se a ele em certas coisas, nem o ignora nem o bota fora. Mas, se o maltratamos, se o detestamos, ele cresce, vira uma fera e nos come. Já que mulheres no poder são quase uma novidade, é sobre isso que me interessa refletir aqui. Não faz tanto tempo que começamos a assumir funções de ministra, prefeita, governadora, cientista, motorista de táxi e ônibus, reitora, e tantas outras. Não fôramos preparadas para enfrentar esse amigo/inimigo, o poder. Sendo pioneiras, e sem modelos a seguir, a quem deveríamos recorrer, em quem nos inspirar à frente do país, do ministério, dos empregados da estância, dos colegas lidando com grandes máquinas agrícolas ou à frente de sindicatos? Restava-nos a imagem dos homens. Algumas pensaram em igualar-se a eles, com jeitos e trejeitos de capataz furioso ou comandante carrancudo, isto é, virando a caricatura de homens poderosos. Pior que eles, por estarem inseguras, sendo prepotentes. Outras tentaram disfarçar esse poder com exageros de sedução: muitas foram educadas para agradar, não para mandar, e o espectro da mulher sozinha existe. De um homem sozinho, dizem que está "aproveitando a vida", mas da mulher sozinha eventualmente se comenta: "Coitada, ninguém a quis". E não adianta reclamar: essa ainda é uma realidade burra, um preconceito idiota, mas não falecido. Com todo esse dilema, corre-se em busca de um "jeito feminino de exercer o poder". Isso existe? Tem de ser buscado? E o que será, afinal: um jeito delicado, doce ou cor-de-rosa? Que os deuses nos livrem disso. Talvez seja apenas um jeito humano, pois é o que todos somos: cheios de fragilidade e força, de qualidades e defeitos, todos em última análise com medo de não ser atendidos. Um professor iniciante tinha tanto pavor de não ser respeitado pelos alunos que abusava de punições, notas baixas, gritos e até socos na mesa, que provocavam, estes sim, riso nos adolescentes. O mais positivo pode ser as mulheres, sobre as quais aqui especialmente escrevo, tentarem ser naturais. Nem ir ao posto de comando vestidas de freira ou militar, cheias de convencionalismos, ar gélido e voz de metal, nem sedutoras por medo de perder a feminilidade (seja lá o que pensam que isso é). Ser apenas uma pessoa a quem o poder foi dado pela sorte, pelo destino, pelo mérito (o melhor de todos), por algum concurso, enfim, pelos caminhos da profissão, e tentar fazer isso da melhor forma possível. Para exercer o poder não é preciso nem beleza nem feiura, nem coisa alguma além de preparo e capacidade, humanidade, ética, honradez, informação, entendimento do outro, respeito pelo outro para que ele também nos respeite. Para homens e mulheres o comando é difícil, é solitário. E, acreditem, exige cuidado: porque, se pode ajudar, pode também contaminar. Nada melhor do que agir com simplicidade, lucidez e alguma bem-humorada autocrítica, em qualquer posto e em qualquer circunstância desta nossa vida. Lya Luft

Depressão é maior entre jovens, mulheres e mais pobres

Os jovens de 18 a 29 anos, as mulheres e as pessoas das classes C e D são os que mais apresentam quadros de depressão no Estado de São Paulo. O mapa da doença foi traçado com base em uma pesquisa realizada pelo Instituto Ibope para a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) em agosto. De um universo de 793 pessoas entrevistadas, 22% – 174 indivíduos – revelaram ter os sintomas básicos de depressão, como tristeza, desânimo, sentimento de não ter mais gosto por nada e perda do interesse e prazer.
Desse total, 81% informaram que o cansaço e a falta de energia são mais freqüentes enquanto que os pensamentos ruins aparecem com menor incidência, afetando 56% dos entrevistados. Os jovens depressivos somaram 25 % do total de pessoas ouvidas, as mulheres 27% e 25% pertencem às classes C e D.Para a presidente da Abrata, Helena Calil, professora titular de Psicobiologia da Unifesp-EPM, a pesquisa demonstra que a doença é comum nos dias de hoje, o que torna a sua aceitação mais fácil e ajuda as pessoas a buscarem orientação médica e tratamento.
Ela destaca, porém, que tradicionalmente apenas os sintomas emocionais são o foco do tratamento da depressão. “Sabemos da existência de manifestações físicas que podem mascarar o diagnóstico e complicar o tratamento dos pacientes.”

24 de jan. de 2009

Relaxar é mais eficaz que dieta para emagrecer

Relaxar pode ser uma forma mais eficaz de perder peso do que fazer dieta, sugeriu um estudo da Universidade de Otago, na Nova Zelândia. A pesquisa acompanhou por dois anos o progresso de 225 mulheres com o peso acima da média e obesas que, divididas em três grupos, participaram de programas diferentes que incluíam meditação e visualização positiva; exercício físico e nutrição e folhetos com informações nutricionais. Cada programa tinha a duração de dez semanas. O primeiro grupo foi o que teve mais sucesso na perda de peso - uma média de 2,5 quilos. "Nós descobrimos que a intervenção mais bem sucedida envolveu o intenso treinamento em técnicas de relaxamento ao mesmo tempo em que equipamos as mulheres para reconhecerem e evitarem estresse que leva (uma pessoa) a comer", disse a co-autora da pesquisa, Caroline Horwath, do Departamento de Nutrição Humana. Longo prazo Horwath disse que o fato de os programas "terem sucesso em impedir o aumento do peso por 12 meses é um resultado muito positivo". A pesquisa mostrou que mostrou que a abordagem dietética tradicional de restringir tanto calorias quanto tipos de alimento traz poucos resultados em se conseguir a perda de peso no longo prazo, afirmou Horwath."Dentro de cinco anos, várias pessoas em dieta recuperaram o peso que perderam e acabam mais pesadas do que quando começaram. Elas também tendem a desenvolver atitudes muito insalubres em relação a comida e perdem sua habilidade natural para reconhecer quando estão com fome ou saciadas. " A abordagem sem dieta se concentra em melhorar o estilo de vida para reforçar a saúde independentemente da perda de peso, disse a pesquisadora." Todos os três tipos de intervenção no estudo encorajaram mulheres a se libertarem de dietas crônicas e a fazerem mudanças sustentáveis no seu estilo de vida. Isto incluiu prestar atenção na sensação de fome e saciedade, ao invés de se concentrar na perda de peso." "Nós fornecemos ferramentas para ajudá-las a lidar com pensamentos, emoções e atitudes para encorajá-las a recuperar o prazer de comer como uma atividade natural ligada à fome ao invés de ao estresse." O programa, adaptado de um desenvolvido pela Harvard Mind-Body Medical Institute, mostrou uma melhoria significativa na redução de sintomas psicológicos como ansiedade e depressão e sintomas médicos como dor, fadiga e insônia, concluiu Horwath.
American Journal of Health Promotion.

Assim deve ser o historiador

Assim pois, para mim, deve ser o historiador: sem medo, insubornável, livre e amigo da franqueza e da verdade: como diz o poeta cômico, alguém que chame figos de figos e a gamela de gamela; Alguém que não admita nem omita nada por ódio ou por amizade; Que a ninguém poupe, nem respeite, nem humilhe; que seja juiz equânime, benevolente com todos até o ponto de não dar a um mais do que o devido; Estrangeiro nos livros, sem cidade, autônomo, sem rei, não se preocupando com o que achará este ou aquele, mas dizendo o que se passou. Luciano de Samósata
Picture by Joadoor

Depressão pós-sexo: disfunção cerebral ou razões psicológicas?

Como todo mundo sabe, sexo é gostoso. Será? Nos últimos anos, cruzei com diversos pacientes para quem o sexo não só não traz prazer, como aparentemente também causa danos. Um paciente, um jovem de 20 e poucos anos, descreveu dessa forma: "Após o sexo, me sinto dolorido e deprimido por um dia."Fora isso, ele tinha uma ficha limpa de saúde, tanto médica quanto psiquiátrica: bem adaptado, trabalhador, vários amigos e uma família unida. Acredite, eu poderia ter inventado facilmente uma explicação. Ele tinha conflitos ocultos a respeito de sexo, ou sentimentos ambivalentes sobre sua parceira. Quem não tem?Porém, por mais que eu procurasse, não podia encontrar uma boa explicação. Embora seus sintomas e sofrimento fossem bastante reais, eu disse a ele que ele não tinha nenhum grande problema psiquiátrico precisando de tratamento. O rapaz estava claramente desapontado quando deixou meu consultório.Não pensei muito a respeito desse caso até algum tempo atrás, quando conheci outro paciente com uma queixa similar. Ela tinha 32 anos e enfrentava um período de quatro a seis horas de intensa depressão e irritabilidade após um orgasmo, fosse sozinha ou com um parceiro. Era tão desagradável que ela estava começando a evitar o sexo.Recentemente, um colega psicanalista - conhecido por sua habilidade em descobrir psicopatologias - me ligou para falar de mais um caso. Ele estava intrigado com um rapaz de 24 anos psiquiatricamente saudável, exceto pela intensa depressão que durava por várias horas após o sexo.Não há nada de estranho em um pouco de tristeza após o prazer sexual. Como diz o ditado, depois do sexo todos os animais ficam tristes. Mas esses pacientes enfrentavam uma depressão intensa, forte e longa demais para ser considerada mera tristeza. Ainda assim, é difícil resistir à tentação de especular sobre explicações psicológicas de comportamento sexual. Psiquiatras brincam ao dizer que tudo tem a ver com sexo, exceto o próprio, o que é outra forma de dizer que praticamente todo comportamento humano é permeado com significado sexual oculto. Pode ser, mas fiquei pensando se, nesses casos, não poderia ser algo simples, como uma peculiaridade na neurobiologia do sexo capaz de fazer esses pacientes se sentirem péssimos.Pouco se sabe sobre o que ocorre no cérebro durante o sexo. Em 2005, Dr. Gert Holstege, da Universidade de Groningen, na Holanda, usou a tomografia por emissão de pósitrons para mapear o cérebro de homens e mulheres durante orgasmos. Ele descobriu, entre outras alterações, uma aguda diminuição na atividade das amídalas cerebelosas, a região do cérebro envolvida no processamento de estímulos atemorizantes. Além de causar prazer, o sexo claramente reduz o medo e a ansiedade.A antropóloga Helen E. Fisher, de Rutgers, usou imagens de ressonância magnética funcional para analisar mais amplamente os circuitos neurais do amor romântico. Ela mostrou a um grupo de jovens, onde todos estariam apaixonados, uma foto do ser amado ou de uma pessoa neutra. Os participantes mostraram uma demarcada ativação no circuito de recompensa de dopamina apenas em resposta ao ser amado, similar à resposta cerebral a outras recompensas, como dinheiro e comida. Será que alguns pacientes possuem uma atividade de retorno particularmente forte na amídala cerebelosa após orgasmos, o que os faria sentir-se mal? A literatura de pesquisa é praticamente silenciosa sobre a depressão induzida pelo sexo, mas uma busca no Google revelou diversos sites e salas de bate-papo para algo chamado de tristeza pós-coito. Quem diria? Ali, pude ler várias descrições quase idênticas às de meus pacientes, com relatos de diversos remédios para a enfermidade. Quando os médicos realizam os tratamentos usuais sem nenhum resultado ou se veem, como no meu caso, em território desconhecido e com poucas evidências sobre o que fazer, eles podem considerar os tratamentos conhecidos como "de romance". Muitas vezes, você elabora tal tratamento com base em sua especulação sobre a biologia fundamental da síndrome. Isso pode envolver a utilização de medicamentos aprovados em situações para as quais eles raramente seriam prescritos. Uma dica de um possível tratamento é que o Prozac e seus primos, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), normalmente interferem em algum grau no funcionamento sexual. A serotonina faz bem para o humor, mas seu excesso no cérebro ou medula espinhal é decididamente ruim para o sexo. Pensei que se eu pudesse, de alguma forma, modular a resposta sexual de meus pacientes, torná-la menos intensa, isso poderia embotar o estado emocional negativo posterior. Em outras palavras, eu exploraria os efeitos colaterais geralmente indesejáveis das ISRSs para possíveis efeitos terapêuticos. Como pode lhe contar qualquer um que já tenha tomado esses remédios para depressão, pode levar algumas semanas para que se sintam melhor, mas os efeitos colaterais, como a disfunção sexual, muitas vezes são imediatos. Para os meus pacientes, isso acabou se tornando uma vantagem. Depois de apenas duas semanas com ISRS, ambos disseram que apesar do sexo estar sendo menos intensamente prazeroso, não se seguiu nenhuma queda emocional. Agora, há pelo menos três razões possíveis para meus pacientes se sentirem melhor: um, a droga funcionou; dois, ela teve um efeito placebo; ou três, houve uma flutuação aleatória nos sintomas - eles teriam melhorado mesmo sem nenhum tratamento.Sugeri parar o tratamento, recomeçando-o caso o problema retornasse. Nos dois casos, os sintomas voltaram e foram abatidos com o remédio - sugerindo, com base nesta amostragem reconhecidamente pequena, que o efeito do medicamento foi real. Se esses pacientes me ensinaram algo, é que os problemas sexuais nem sempre indicam problemas psicológicos sombrios e profundos. A verdade é que o órgão sexual mais importante dos humanos é, na verdade, o cérebro. O sexo pode ser o mais físico dos atos, mas a depressão também pode ser física - e algumas vezes não significativa mais que uma peculiaridade da biologia.
Richard A. Friedman - The New York Times

23 de jan. de 2009

Nas ruas do Brasil, crianças invisíveis

Murilo é um menino curioso. Tem 11 anos e é conhecido como alemão, por conta de seus cabelos loiros e pele clara. 


Gosta de conversar, brincar e contar piadas. Laura é vaidosa, usa batom, brincos e diz ter 16 anos, mas não aparenta mais de 13. 


Sua diversão preferida é fazer de conta que é modelo. Uelinton, de 11, é tímido e calado, mas adora brincar de pega-pega e polícia-e-ladrão com seu amigo Fabrício, de 13, que ostenta, orgulhoso, um sorriso maroto e um bigode bem ralo de quem começa a viver os primeiros dias da adolescência. 


Laura tem nas mãos fotografias. Diz que um homem sempre a procura por lá para tirar fotos suas. Em troca, a deixa ficar com algumas cópias, onde ela aparece sorrindo e em poses erotizadas. Todas essas crianças, que tiveram seus nomes trocados nesta reportagem, moram juntas. Quando faz calor, brincam. 


Quando o tempo está frio ou chuvoso, preferem se agasalhar com um cobertor e observar o vaivém constante dos automóveis que passam diante de sua casa, que na verdade é apenas um chão de terra coberto com um tecido esfarrapado sob um viaduto na região do Vale do Anhangabaú, no centro da cidade de São Paulo. São crianças que dormem nas ruas, em total vulnerabilidade. Entender o perfil delas não é nada simples. Não há uma metodologia única, em todo o país, para estudar quem e quantas são, ou mesmo como sobrevivem. 


Elas não estão nos censos promovidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e as informações sobre esse fenômeno urbano normalmente repousam nas pastas das secretarias de assistência social dos municípios. Segundo estimativas da Campanha Nacional Criança Não é de Rua, uma iniciativa de organizações da sociedade civil e do poder público, cerca de 25 mil crianças passam as noites nas ruas das cidades brasileiras. O total é incerto, porque a maioria dos municípios não conta com uma pesquisa sobre o tema. "Sabemos quantas cabeças de gado andam nas pastagens do país, mas não podemos dar um número certo de crianças nas ruas simplesmente porque esse dado não existe", afirma Bernardo Rosemeyer, coordenador da campanha e dirigente da ONG O Pequeno Nazareno, de Fortaleza, que atende 110 crianças ex-moradoras de rua.

Na capital do Ceará, há cerca de 300 vivendo nas ruas. Foi a partir dessa experiência de recuperação que, em 2005, nasceu a mobilização. Lançada no Senado Federal, na Comissão de Assuntos Sociais, a rede já se espalha por 21 estados. "Não podemos conviver com o fato de crianças morarem nas ruas. O direito natural de alguém nessa situação é ter oportunidade de mudar sua trajetória", diz Rosemeyer. São quatro os principais pontos defendidos pela campanha: a necessidade de dados concretos sobre o número de meninos e meninas nas ruas; a adoção de uma conceituação única sobre o que é uma criança em situação de rua; a presença de educadores capacitados, que possam conhecer o histórico de vida dessas crianças, e um investimento maciço em suas famílias. 


"Se elas não podem retornar a sua casa, então o país está pisoteando um direito básico, que é o do acolhimento." Rosemeyer espera reunir representantes de todo o país em 2009 para reivindicar do governo federal uma política nacional de combate a essa situação enfrentada por crianças e adolescentes. Para se ter uma ideia de como o Brasil tem tratado a questão, a primeira pesquisa nacional sobre a população de rua, concluída no início de 2008, deixou de fora dados sobre menores de idade. A explicação do Ministério do Desenvolvimento Social para essa lacuna foi que já havia diversas ações voltadas para esse público. Na cidade de São Paulo, estima-se que cerca de 2 mil crianças vivam pelas ruas. 


Dessas, pelo menos 400 moram sob viadutos, praças ou dormem nas calçadas. A informação é da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que a pedido da prefeitura municipal realizou em 2007 o Censo de Crianças e Adolescentes em Situação de Rua na Cidade de São Paulo. Segundo o levantamento, foram contadas, durante uma tarde de sexta-feira, 1.842 crianças e adolescentes morando ou trabalhando na rua, na capital. 


"Podemos identificar três grupos de crianças: as que voltam todos os dias para casa e mantêm seus vínculos familiares; as que já perderam os laços com a família e moram na rua e por fim aquelas que estão no meio do caminho. Passam dias longe de casa, retornam e depois voltam às ruas", observa a coordenadora da pesquisa, Silvia Maria Schor, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo. O levantamento mostrou que 16% dos meninos e meninas tinham até 6 anos de idade. A maioria – 55% – estava na faixa entre 12 e 17, e 29%, entre 7 e 11 anos. "A permanência de crianças nas ruas é uma tragédia evitável. É uma situação que reflete claramente a problemática familiar. 


Em grande parte dos casos, no entanto, os conflitos e dificuldades podem ser solucionados ou minimizados, desde que o poder público se empenhe na criação de políticas que, efetivamente, respondam às demandas dessas famílias", afirma Silvia. A professora acredita que as atuais políticas apenas escondem o problema. "Se não houver um trabalho sério, essas crianças apenas sairão de um lugar para aparecer em outro." Das crianças e adolescentes ouvidos por Silvia e sua equipe, 50% afirmaram voltar para casa todos os dias, enquanto 27% retornam uma vez ou menos por semana, e o restante, 23%, não fazem isso nunca. O tempo médio de vivência nas ruas é de três anos. 


"A gente não tem nenhuma informação sobre o que acontece com essas crianças depois que elas deixam as ruas. Não há dados precisos se elas voltam para casa, são institucionalizadas ou acabam morrendo", admite Silvia. Violência Na sede do Projeto Meninos e Meninas de Rua, em São Bernardo do Campo (SP), uma página do Estatuto da Criança e do Adolescente manchada de sangue está emoldurada na parede, como uma triste ilustração do destino dessas crianças. "Isso [a mancha de sangue] ocorreu quando um menino de nosso projeto foi abordado por policiais militares. Ao ser revistado, ele mostrou o Estatuto para os agentes, que ficaram enraivecidos pela ‘arrogância’ do menino em reivindicar seus direitos. Bateram a cabeça dele no chão e gritaram: ‘Seu direito é este!’, enquanto lhe esfregavam o papel no rosto ensanguentado", explica Marco Antonio da Silva, coordenador da ONG. Pouco mais de um ano depois, o mesmo menino foi encontrado morto, e os assassinos nunca foram identificados. 


"Na rua essas crianças estão sujeitas a todo tipo de agressão. São expostas à violência e é comum que reproduzam isso como forma de sobrevivência. Mas, é só olhar, são apenas crianças", explica Marquinhos, como gosta de ser chamado. Marquinhos tem 39 anos, mas já viu e viveu boa parte da história dos direitos das crianças e adolescentes no Brasil. Passou seus dias de menino nas ruas de São Bernardo do Campo, onde vivia e trabalhava. Foi um dos primeiros participantes do Projeto Meninos e Meninas de Rua, instituição que nasceu no ABC Paulista e em 2008 completou 25 anos, com uma trajetória de atuação na defesa dos direitos de crianças e adolescentes. 


"Tudo começou quando religiosos, universitários e outros voluntários começaram a ir às ruas para saber quem eram essas crianças. Era um ato político. Imagine: um ‘cidadão de bem’ sentado ao lado dos ‘moleques’ nas ruas", relembra. Logo o grupo se organizou nacionalmente. Em 1986, com o apoio de outras instituições, como a República do Pequeno Vendedor, de Belém, 430 crianças e adolescentes em situação de rua foram levadas a Brasília, onde aconteceu o primeiro encontro nacional. "Não existe nada parecido na história: um grupo de crianças em situação de alta vulnerabilidade se reunindo para discutir seus direitos como cidadãos." O encontro voltou a acontecer em 1989, dessa vez para denunciar o assassinato de crianças nas ruas. "Levamos 40 nomes apenas aqui do ABC. Entre eles, os da Chacina dos Vianas", lembra Marquinhos. "Chacina dos Vianas" foi o nome dado ao assassinato de 6 meninos, no dia 3 de setembro de 1987, na sede do projeto, que na época ficava na Rua dos Vianas, no centro de São Bernardo do Campo.


Eles estavam dormindo quando um grupo armado invadiu o local e os matou. "Aconteceu no lugar onde, em tese, deveríamos protegê-los", lamenta. A segunda edição do encontro serviu para trazer a público a situação de violência a que as crianças moradoras de rua eram submetidas, principalmente por grupos de extermínio pagos por comerciantes para "dar um sumiço" nos garotos. "A Anistia Internacional criticou o Brasil, alegando que o país havia descoberto um modo de resolver o problema das crianças de rua: matando-as", lembra Marquinhos, explicando que as denúncias serviram também para que o governo federal assumisse um compromisso, por intermédio da Convenção Internacional dos Direitos Humanos, com a Organização das Nações Unidas (ONU) para melhorar a situação da infância no Brasil. Atraso Se cumprisse o acordado, o Brasil teria de, pelo menos, encaminhar a cada cinco anos um levantamento sobre a situação da infância no país à ONU. "Ocorre que, desde 1990, data de assinatura do compromisso, o país encaminhou apenas um relatório. Esse documento é uma espécie de prestação de contas sobre as obrigações assumidas", explica Djalma Costa, coordenador da Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Anced). 


"Há diversos grupos de crianças nos quais houve pouco avanço. Um deles é o daquelas em situação de rua, que são as mais vulneráveis." Entre as instruções da convenção está a criação de um plano nacional de proteção aos direitos das crianças. "É uma recomendação da ONU. O país precisa ter uma estratégia para conjugar todos os esforços municipais", explica Costa. Outro importante ponto que também não é respeitado é a instituição de um órgão suficientemente independente e ágil, capaz de fazer valer os direitos das crianças em situação de rua. "Não há nenhuma instância que possa obrigar um prefeito, governador ou presidente a cumprir a determinação imediata de que nenhuma criança esteja nas ruas. Você pode até ir à Justiça, mas isso levará tempo." 


Segundo ele, é essa falta de responsabilização que faz da questão um "jogo de empurra" ou dá origem a políticas de cunho estético, que buscam apenas "maquiar" o problema. Não é apenas no Brasil, porém, que crianças vivem nas ruas. O fenômeno atinge meninos e meninas de diversas partes do mundo, principalmente nas capitais dos países mais pobres. Segundo estimativas da ONG inglesa Consortium for Street Children, há no Quênia 250 mil crianças nessas condições; na Etiópia, 150 mil; em Bangladesh, 445 mil e na Índia, 11 milhões. O antropólogo Benedito Rodrigues dos Santos comparou as crianças de São Paulo com as de Nova York e publicou as conclusões em sua tese de doutorado pela Universidade de Berkeley, na Califórnia. De acordo com ele, os meninos e meninas de rua brasileiros e norte-americanos apresentam semelhanças na forma como fogem de casa e como se mantêm nas ruas. Entre as crianças entrevistadas nos Estados Unidos, 50% afirmaram ter deixado sua casa devido à violência doméstica, e apenas 7% reclamaram da questão econômica. No Brasil os números são de 60% e 40%, respectivamente. A grande diferença, segundo o antropólogo, está no enfrentamento do drama. Em Nova York, há políticas como o pagamento de US$ 600 mensais para casais que desejam acolher um menor que tenha saído de casa e por algum motivo não possa voltar para lá, além de uma rede de abrigos com boa infraestrutura e recursos. 


Já em São Paulo, a prefeitura conta apenas com o programa municipal São Paulo Protege, que funciona por meio de abordagens nas ruas, feitas por educadores, mas cujo atendimento não dá conta do número necessário de crianças. Quando há interesse voluntário dos meninos e meninas pela rede de abrigos, eles são encaminhados a um dos Centros de Referência da Criança e do Adolescente (Creca). A cidade conta com 18 casas desse tipo. "As crianças deveriam ficar, no máximo, dois meses, e depois ser reinseridas em sua família ou encaminhadas para um abrigo. O problema é que os abrigos estão todos cheios, e muitas não podem retornar a seu lar", explica Marilia Mastrocolla de Almeida, coordenadora de um Creca no centro da cidade. São 25 crianças no antigo casarão. Lá elas não têm uma rotina planejada. "Normalmente passam o dia assistindo à televisão ou brincando", explica ela. É uma opção mais digna do que morar nas ruas. "Mas, infelizmente, muitas crianças nos procuram e nem sempre podemos acolhê-las, devido ao limite de vagas." Casa vazia Na opinião de Irene Rizzini, do Departamento de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e diretora do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (Ciespi), o país não está conseguindo enfrentar adequadamente o problema. 


"Estudos mostram que o ‘ir para as ruas’ é um processo que começa com a ausência de recursos em casa ou mesmo com a questão que identificamos como fenômeno da casa vazia", explica a pesquisadora, autora de Vida nas Ruas – Crianças e Adolescentes nas Ruas: Trajetórias Inevitáveis? Segundo ela, muitos pais passam os dias fora e deixam as crianças sozinhas, sem a supervisão de um adulto. "Isso é um grande facilitador, causado principalmente por questões econômicas. A casa vazia tem até um sentido simbólico, já que demonstra que não existe preocupação com o desenvolvimento da criança." A pesquisadora observa também que o cenário tem piorado nos últimos 20 anos, desde quando começou a se dedicar ao estudo desse fenômeno. "Hoje existem crianças muito jovens, com 7 ou 8 anos, que já têm acesso a armas e drogas, como o crack. É uma situação absolutamente dramática". Ela lamenta também o provável desfecho da história da maioria das crianças. "Elas correm um risco altíssimo de não sobreviver." 


 Mesmo com esse prognóstico sombrio, as ruas continuam exercendo fascínio sobre os meninos e meninas do país, que buscam nos grandes centros uma atitude de afirmação contra toda sorte de abusos e ausências. É o que acredita o psiquiatra Auro Danny Lescher, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do Projeto Quixote, que atende crianças e adolescentes em situação de rua na capital paulista. Ele entende como uma busca por sobrevivência a ‘fuga para a rua’, mas vê nesse drama uma situação semelhante à vivenciada por imigrantes, exilados, estrangeiros e soldados no front. 


"É aí que entra o uso das drogas, que têm uma função anestésica. Imagine o que é para uma criança estar no centro da cidade, longe de suas referências e de seus pais", diz o psiquiatra, ao explicar por que 90% das crianças e adolescentes em situação de rua usam drogas. Lescher sugere que deveria ser atribuído a essas crianças o mesmo status humanitário dos refugiados urbanos, capacitando-as a receber a proteção e ajuda que a ONU disponibiliza a quem foge de um conflito armado, por exemplo. Ele recorre a seu personagem literário predileto, dom Quixote, para refletir sobre o drama urbano. 


"Quixote só recobrou a lucidez pouco antes de morrer. Fica uma pergunta para nossa sociedade em relação às crianças: será que voltaremos à lucidez a tempo de mudar a situação atual, ou morreremos sem ver essa transformação?", questiona, indignado com a brutalidade urbana. 
Marcelo Santos

22 de jan. de 2009

Os limites do capital são os limites da Terra

Uma semana após o estouro da bolha econômico-financeira, no dia 23 de setembro, ocorreu o assim chamado Earth Overshoot Day, quer dizer, "o dia da ultrapassagem da Terra".
Grandes institutos que acompanham sistematicamente o estado da Terra anunciaram: a partir deste dia o consumo da humanidade ultrapassou em 40% a capacidade de suporte e regeneração do sistema-Terra. Traduzindo: a humanidade está consumindo um planeta inteiro e mais 40% dele que não existe. O resultado é a manifestação insofismável da insustentabilidade global da Terra e do sistema de produção e consumo imperante. Entramos no vermelho e assim não poderemos continuar porque não temos mais fundos para cobrir nossas dívidas ecológicas. Esta notícia, alarmante e ameaçadora, ganhou apenas algumas linhas na parte internacional dos jornais, ao contrário da outra que até hoje ocupa as manchetes dos meios de comunicação e os principais noticiários de televisão. Lógico, nem poderia ser diferente. O que estrutura as sociedades mundiais, como há muitos anos o analisou Polaniy em seu famoso livro A Grande Transformação, não é nem a política nem a ética e muito menos a ecologia, mas unicamente a economia. Tudo virou mercadoria, inclusive a própria Terra. E a economia submeteu a si a política e mandou para o limbo a ética. Até hoje somos castigados dia a dia a ler mais e mais relatórios e análises da crise econômico-financeira como se somente ela constituisse a realidade realmente existente. Tudo o mais é secundarizado ou silenciado. A discussão dominante se restringe a esta questão: que correções importa fazer para salvar o capitalismo e regular os mercados? Assim poderíamos continuar as usual a fazer nossos negócios dentro da lógica própria do capital que é: quanto posso ganhar com o menor investimento possível, no lapso de tempo mais curto e com mais chances de aumentar o meu poder de competição e de acumulação? Tudo isso tem um preço: a delapidação da natureza e o esquecimento da solidariedade generacional para com os que virão depois de nós. Eles precisam também satisfazer suas necessidades e habitar um planeta minimamente saudável. Mas esta não é a preocupação nem o discurso dos principais atores econômicos mundiais mesmo da maioria dos Estados, como o brasileiro que, nesta questão, é administrado por analfabetos ecológicos. Poucos são os que colocam a questão axial: afinal se trata de salvar osistema ou resolver os problemas da humanidade? Esta é constituída em grande parte por sobreviventes de uma tribulação que não conhece pausa nem fim,provocada exatamente por um sistema econômico e por políticas que beneficiam apenas 20% da humanidade, deixando os demais 80% a comer migualhas ou entregues à sua própria sorte. Curiosamente, as vitimas que são a maioria sequer estão presentes ou representadas nos foros em que se discute o caos econômico atual. E pour cause, para o mercado são tidos como zeros econômicos, pois o que produzem e o que consomem é irrelevante para contabilidade geral do sistema. A crise atual constitui uma oportunidade única de a humanidade parar, pensar, ver onde se cometeram erros, como evitá-los e que rumos novos devemos conjuntamente construir para sair da crise, preservar a natureza e projetar um horizonte de esperança, promissor para toda a comunidade de vida, incluídas as pessoas humanas. Trata-se sem mais nem menos de articular um novo padrão de produção e de consumo com uma repartição mais equânime dos benefícios naturais e tecnológicos, respeitando a capacidade de suporte de cada ecosistema, do conjunto do sistema-Terra e vivendo em harmonia com anatureza. Milkahil Gorbachev, presidente da Cruz Verde Internacional e um dos principais animadores da Carta da Terra, grupo o qual pertenço, advertiu recentemente: Precisamos de um novo paradigma de civilização porque o atual chegou ao seu fim e exauriu suas possibilidades. Temos que chegar a um consenso sobre novos valores. Em 30 ou 40 anos a Terra poderá existir sem nós.
A busca de um novo paradigma civilizatório é condição de nossa sobrevivência como espécie.
Assim como está não podemos continuar. Na última página de seu livro A era dos extremos diz enfaticamente Eric Hobsbawm: Nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. Tem de mudar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão. Importa entender que estamos enredados em quatro grandes crises: duas conjunturais – a econômica e a alimentar – e duas estruturais – a energética e a climática. Todas elas estão interligadas e a solução deve ser includente. Não dá para se ater apenas à questão econômica, como é predominante nos debates atuais. Deve-se começar pelas crises estruturais pois que se não forem bem encaminhadas, tornarão insustentáveis todas as demais. As crises estruturais, portanto, são as que mais atenção merecem. A crise energética revela que a matriz baseada na energia fóssil que movimenta 80% da máquina produtiva mundial tem dias contados. Ou inventamos energias alternativas ou entraremos em poucos anos num incomensurável colapso. A crise climática possui traços de tragédia. Não estamos indo ao encontro dela. Já estamos dentro dela. A Terra já começou a se aquecer. A roda começou a girar e nao há mais como pará-la, apenas diminuir sua velocidade ao minimizar seus efeitos catastróficos e ao adaptar-se a ela. Bilhões e bilhões de dólares devem ser investidos anualmente para estabilzar o clima entorno de 2 a 3 graus Celsius já que seu aquecimento poderá ficar entre 1,6 a 6 graus, o que poderia configurar uma devastação gigantesca da biodiversidade e o holocausto de milhões de seres humanos. De todas as formas, mesmo mitigado, este aquecimento vai produzir transtornos significativos no equilíbrio climático da Terra e provocar nos próximos anos cerca de 150-200 milhões de refugiados climáticos segundo dados fornecidos pelo atual Presidente da Assembléia Geral da ONU, Miguel d'Escoto, em seu discurso inaugural em meados de outubro de 2008. E estes dificilmente aceitarão o veredito de morte sobre suas vidas. Romperão fronteiras nacionais, desestabilizando politicamente muitas nações. Estas duas crises estruturais vão inviabilizar o projeto do capital. Ele partia do falso pressuposto de que a Terra é uma espécie de baú do qual podemos tirar recursos indefinidamente. Hoje ficou claro que a Terra é um planeta pequeno, velho e limitado que não suporta um projeto de exploração ilimitada. Em 1961 precisávamos de metade da Terra para atender as demandas humanas. Em 1981 empatávamos: precisávamos de um Terra inteira. Em 1995 já ultrapassamos em 10% de sua capacidade de regeneração, mas era ainda suportável. Em 2008 passamos de 40% e a Terra está dando sinais inequívocos de que já não agüenta mais. Se mantivermos o crescimento do PIB mundial entre 2-3% ao ano, em 2050 vamos precisar de duas Terras, o que é impossível. Mas não chegaremos lá. Resta ainda lembrar que entre 1900 quando a humanidade tinha 1,6 bilhões de habitantes e 2008 com 6,7 bilhões, o consumo aumentou 16 vezes. Se os paises ricos quissessem generalizar para toda a humanidade o seu bem-estar - cálculos já foram feitos - iríamos precisar de duas Terras iguais a nossa. A crise de 1929 dava por descontada a sustentabilidade da Terra. A nossa não pode mais contar com este fato e com a abundancia dos recursos naturais. Nenhuma solução meramente econômica da crise pode suprir este déficit da Terra. Não considerar este dado torna a análise manca naquilo que é a determinação fundamental e a nova centralidade. Tudo isso nos convence de que a crise do capital não é crise cíclica. É crise terminal. Em 300 anos de hegemonia praticamente mundial, esse modo de produção com sua expressão política, o liberalismo, destruiu com sua voracidade desenfreada, as bases que o sustentam: a força de trabalho, substituindo-a pela máquina e a natureza devastando-a a ponto de ela não conseguir, sozinha, se auto-regenerar. Por mais estragemas que seus ideólogos vindos da tradição marxiana, keneysiana ou outras tentem inventar saídas para este corpo moribundo, elas não serão capazes de reanimá-lo. Suas dores não são de parto de um novo ser mas dores de um moribundo. Ele não morrerá nem hoje nem amanhã. Possui capacidade de prolongar sua agonia mas esgotou sua virtualidade de nos oferecer um futuro dicernível. Quem o está matando não somos nós, já que não nos cabe matá-lo mas superá-lo, na boa tradição marxiana bem lembrada por Chico Oliveria em sua lúcida entrevista, mas a própria natureza e a Terra. Repetimos: os limites do capitalismo são os limites da Terra. Já encostamos nestes limites tanto da Terra quanto do capitalismo. A continuar seremos destruídos por Gaia pois ela, no processo evolucionário, sempre elimina aquelas espécies que de forma persistente e continuada ameaçam a todas as demais. Nós, homo sapiens e demens, nos fizemos, na dura expressão do grande biólogo E. Wilson, o Satã da Terra, quando nossa vocação era o de sermos seu cuidador, guardião e anjo bom. Para onde iremos? Nem o Papa nem o Dalai Lama, nem Barack Obama nem muito menos os economistas nos poderão apontar uma solução. Mas pelo menos podemos indicar uma direção. Se esta estiver certa, o caminho poderá fazer curvas, subir e descer e até conhecer atalhos, esta direção nos levará a uma terrana qual os seres humanos podem ainda viver humananente e tratar com cuidado, com compaixão e com amor a Terra, Pacha Mama, Nana e nossa Grande Mãe. Esta direção, como tantos outros já o assinalaram, se assenta nestes cinco eixos: (1) um uso sustentável, responsável e solidário dos limitados recursos e serviços da natureza; (2) o valor de uso dos bens deve ter prioridade sobre seu valor de troca; (3) um controle democrático deve ser construído nas relações sociais, especialmente sobre os mercados e os capitais especulativos; (4) o ethos mínimo mundial deve nascer do intercâmbio multicultural, dando ênfase à ética do cuidado, da compaixão, da cooperação e da responsabilidade universal; (5) a espiritualidade, como expressão da singularidade humana e não como monopólio das religiões, deve ser incentivada como uma espécie de aura benfazeja que acompanha a trajetória humana, pois ancora o ser humano e a história numa dimensão para além do espaço e do tempo, conferindo sentido à nossa curta passagem poreste pequeno planeta. Devemos crer, como nos ensinam os cosmólogos contemporâneos, nas virtualidades escondidas naquela Energia de fundo da qual tudo provém, que sustenta o universo, que atua por detrás de cada ser e que subjaz a todos os eventos históricos e que permite emergências surpreendentes. É do caos que nasce a nova ordem. Devemos fazer de tudo para que o atual caos não seja destrutivo mas criativo. Então sobrevivemos com o mesmo destino da Terra, a única casa comum que temos para morar.
Leonardo Boff

Tendência suicida

Leio os principais comentaristas econômicos dos grandes jornais do Rio e de São Paulo. Aprendo muito com eles, porque venho de outra área do saber. Mas, na minha opinião, eles continuam aplicando a cartilha neoliberal, o que os impede de ter um pensamento mais crítico. Ainda utilizam a interpretação clássica dos ciclos do capitalismo depois da abundância, sem perceber a mudança substancial do estado da Terra ocorrida nos últimos tempos. Por isso, noto neles uma certa cegueira em um nível profundo de seu paradigma. Comentam a crise que irrompeu no centro do sistema e apontam o desmoronamento de suas teses mestras, mas continuam com a crença ilusória de que o mesmo modelo que nos trouxe a desgraça, ainda pode nos tirar dela. Esta visão míope impede que levem em consideração os limites da Terra, os quais impõem limites ao projeto do capital. Esses limites foram ultrapassados em 30%. A Terra dá claros sinais de que não agüenta mais. Ou seja, a sustentabilidade entrou em um processo de crise planetária. Cresce cada vez mais a convicção de que não basta com fazer acertos. Estamos obrigados a mudar de rumo se queremos evitar o pior, que seria ir em direção a um colapso sistêmico certo. O sistema em crise, digamos seu nome, é, quanto ao seu modo de produção, o capitalismo. E sua expressão política é o neoliberalismo, que responde fundamentalmente às seguintes questões: como ganhar mais com o mínimo de investimento, no menor tempo possível e aumentando ainda mais seu poder? O sistema dá como óbvia a submissão total da natureza e a desconsideração das necessidades das gerações futuras. Esse pretendido desenvolvimento tem se mostrado insustentável, porque em todos os lugares em que se instalou criou desigualdades sociais graves, devastou a natureza e consumiu seus recursos muito acima do nível de reposição. Na verdade, trata-se de um crescimento apenas material, que se mede em termos de benefícios econômicos, não de um desenvolvimento integral. O grave disto é que a lógica deste sistema se opõe diretamente à lógica da vida. A primeira é linear, regida pela competição, tende à uniformização tecnológica, ao monocultivo e à acumulação privada. A outra, a da vida, é complexa, incentiva a diversidade, as interdependências, as complementaridades e reforça a cooperação na procura pelo bem de todos. Este modelo também produz, mas para servir à vida e não para servir exclusivamente ao lucro, e tem como objetivo o equilíbrio com a natureza, a harmonia com a comunidade da vida e a inclusão de todos os seres humanos. Opta por viver melhor com menos. Paul Krugman, editorialista do New York Times, denunciou valentemente (Jornal do Brasil, 20/12/08) que não há diferença básica entre os procedimentos de B. Madoff, que fraudou 50 bilhões de dólares a muitas pessoas e instituições, e os especuladores de Wall Street, que enganaram milhares de investidores e pulverizaram, também, grandes fortunas. Ele conclui: "o que estamos vendo agora são as conseqüências de um mundo que enlouqueceu". Esta loucura é conjuntural ou sistêmica? Penso que é sistêmica, porque pertence à própria dinâmica do capitalismo: para acumular, mantém grande parte da humanidade em situação de escravidão "pro tempore" e põe em perigo a base que o sustenta: a natureza com seus recursos e serviços. Cabe a pergunta: será que não existe aí uma pulsão suicida, inerente ao capitalismo como projeto civilizatório, uma pulsão que tenta explorar de maneira ilimitada um planeta que sabemos que é limitado? É como se toda a humanidade sentisse que é empurrada para dentro de uma corrente violentíssima, e não conseguisse mais sair dela. Não há dúvida de que o destino seria a morte. Será que é a marca inscrita em nosso atual DNA civilizatório, rascunhado há mais de dois milhões de anos, quando surgiu o homo habilis, aquela espécie de humanos que, pela primeira vez, começou a usar instrumentos em seu afã por dominar a natureza, que potencializou-se com a revolução agrária no neolítico e culminou no atual estágio de ânsia de dominação completa da natureza e da vida? Se continuarmos nesse caminho, onde iremos chegar? Como somos seres inteligentes e com um imenso arsenal de meios de saber e de fazer, não é impossível que consigamos reorientar nosso curso civilizatório, dando maior centralidade à vida que ao lucro, ao bem comum em vez de ao benefício individual. Então, poderíamos salvar-nos in extremis e ainda teríamos pela frente um futuro que almejar. Leonardo Boff

21 de jan. de 2009

As diferenças de Pixar e Dreamworks

Desenho não é coisa só de criança há um bom tempo. E isso se deve - e em muito - a Pixar (de Toy Story, Procurando Nemo, Wall-E, etc.) e a Dreamworks Animation (de Shrek, Madagascar, Kung-Fu Panda, etc.). Equilibrando humor hora ingênuo, hora sarcástico, e por vezes até malicioso - no caso da Dreamworks -, a roteiros descolados e uma infinidade de referências pop, suas produções ganharam adultos e crianças. E mais: essas animações - principalmente da Pixar - têm se mostrado uma das únicas garantias de boa diversão oferecida pelo cinema. Mas, apesar das aparentes semelhanças, esses gigantes são bem diferentes. Pioneira e criativa
Desde que a Pixar (conjunção fonética de ''pixel'' e ''arte'') revolucionou o cinema, com o aclamado Toy Story, de 1995 - primeiro filme feito em computação gráfica - a história se repete. A cada produção, ela nos apresenta novos carismáticos personagens - talvez por isso, o peixinho Nemo, o astronauta Buzz Lightyear e o robô Wall-E são para os pequenos de hoje o que Mickey, Bela e Simba foram para gerações anteriores. O segredo está não só na excelência técnica, mas também na criatividade dos argumentos e na originalidade das abordagens. Na prática, o que se vê é a mais consistente e - até hoje - ininterrupta sequência de sucessos do cinema. Ao todo, são nove produções - sendo uma continuação, justamente de Toy Story - que arrecadaram nos cinemas U$S 5 bilhões e conquistaram 24 indicações e seis prêmios Oscar. A companhia, que começou como uma divisão da Industrial Light & Magic, do diretor George Lucas (de Guerra nas Estrelas), apenas ganhou o nome Pixar ao ser comprada, em 1986, por Steve Jobs (ele mesmo, o pai do iPod e iPhone). Hoje, a Pixar pertence a Disney, que desembolsou, em janeiro de 2007, U$S 7,4 bilhões por ela, e tornou Jobs seu maior acionista. Apesar disso, os departamentos de animação dos estúdios continuam a trabalhar separados, porém sob o comando de um mesmo homem. Seu nome: John Lasseter, do pioneiro Toy Story, que curiosamente foi despedido da Disney no início dos anos 80 ao sugerir um desenho em computação gráfica, algo considerado caro e sem futuro. Não por acaso, a nova animação da Disney (que inventou esse gênero), Bolt, é seu melhor desenho desde O Rei Leão, de 1994. A Pixar atualmente prepara o lançamento de Up. O filme, que chega em junho, de cara encanta pela curiosa e inventiva história: vendedor de bexigas de 78 anos chamado Carl Fredricksen resolve amarrar milhares delas à sua casa e sair voando; o que Carl não sabe é que um escoteiro de 8 anos embarcou sem querer nesta aventura. O ótimo trailer está disponível em www.pixar.com/featurefilms/up. Além disso, o título marca a adesão do estúdio, que produz só desenhos em computação, a onda de filmes em 3D. Testado e aprovado Três anos depois da Pixar lançar Toy Story, a Dreamworks apresentou sua primeira animação em computação. Formiguinhaz, lançado, em 1998, já mostrava algumas das suas principais características, como o uso de dubladores super-famosos, como Woody Allen, Sharon Stone, Sylvester Stallone e Gene Hackman. Apesar do início pouco empolgante, a Dreamworks não demorou a mostrar suas armas, a mais evidente os roteiros pra lá de irreverentes. Com Shrek, em 2001, ela não só conquistou crítica e público, como satirizou, da primeira a última cena, a Disney. Em uma paródia a Cinderela, Fiona fazia dueto com um passarinho, até levá-lo à morte com seus agudos. Já em outra cena, Branca de Neve e - novamente - Cinderela resolviam suas desavenças no tapa. As piadas renderam boas risadas e meio bilhão de dólares aos cofres do estúdio. Assim, passados três anos, lá veio a Dreamworks nos oferecer mais do mesmo. Shrek 2 potencializava o que havia agradado na primeira versão e era superior ao antecessor. Resultado: maior bilheteria da história de um desenho - marca que ainda se mantém. A partir daí, o fato é que de repente o modelo testado e aprovado em Shrek virou fórmula - muito bem sucedida, é verdade. Entre os altos e baixos, que se seguiram, Madagascar e Kung-Fu Panda foram os filmes mais rentáveis. Logo, o primeiro deu origem a uma continuação em cartaz no País e já tem uma segunda anunciada, o mesmo vale para o longa do panda Po que deve ganhar uma sequência em 2011. Antes disso, em 2010, será a vez de Shrek fazer sua quarta aparição. Ao todo, a Dreamworks já produziu 12 animações digitais - sendo três continuações - que juntas arrecadaram U$S 5,1 bilhões no cinema e conquistaram cinco indicações e um prêmio Oscar . Atualmente, a Dreamworks trabalha em Monstros vs. Alienígenas, que estreia em abril e será seu primeiro filme em 3D. Na verdade, Dreamworks e Pixar anunciaram que a partir deste ano todas as suas produções serão exibidas no formato. De qualquer forma, o novo longa promete ser uma sátira aos filmes B da década de 50 - olha a fórmula ''Shrek'' aí de novo (Kung-Fu Panda também era uma sátira, no caso, dos filmes de artes marciais). O longa conta a história de uma garota gigante que luta ao lado de simpáticos monstros contra alienígenas. O trailer recheado de referências pop está disponível em www.paramountpictures.com.br. Ao contrário da Pixar, a Dreamworks já se aventurou pela animação 2D e pela animação stop-motion, com os bons A Fuga das Galinhas e Wallace & Gromit (ganhador de um Oscar). Atualmente, a Dreamworks parece presa a uma fórmula que invariavelmente envolve ''bichinhos fofos'' que se comportam como humanos e/ou vivem conosco. A Pixar, por sua vez, investe em histórias que fogem do lugar comum e impressionam pela variedade de temas. Celeiro Criativo A ascensão desses dois estúdios fez com que até o Oscar se rendesse, criando em 2002 o prêmio para melhor animação. De lá pra cá, em três oportunidades a Pixar sagrou-se vencedora e a Dreamworks em duas. Neste ano, Wall-E e Kung-Fu Panda são apostas certeiras entre os finalistas. Mas, para muitos especialistas, o longa da Pixar pode ir além. E se tornar o segundo desenho a conquistar uma vaga para o prêmio de melhor filme - o primeiro foi A Bela e a Fera, da Disney, em 1992. A lista de indicados do Oscar sai na quinta-feira (22). Hoje a Pixar, muito mais do que ser a marca mais forte quando o assunto é animação digital - posto que ela divide com a Dreamworks, e logo atrás vem a Blue Sky, de A Era do Gelo -, é indiscutivelmente o maior celeiro criativo do cinema americano. Um ateliê cuja criatividade dos seus artesãos parece não ter fim. Além disso, a Pixar é chefiada por um artista, o diretor John Lasseter, de Toy Story. Já a Dreamworks tem como todo-poderoso um homem de negócios, o produtor Jeffrey Katzenberg, ex-executivo da Disney. Eis uma pequena diferença que explica muita coisa.
Bruno Galo

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