31 de jul. de 2009
Boas ações
Mulheres também são infiéis
Divórcio prejudica saúde por longo tempo
30 de jul. de 2009
O que é a vida?
Não acredite
A Paixão Segundo G.H
29 de jul. de 2009
Gastadores tendem a se casar com poupadores
Tire os espinhos da pele
28 de jul. de 2009
Quanto mais
Risco de câncer cai à metade com 30 minutos de exercícios ao dia
Cura pela melodia
26 de jul. de 2009
Como um médico com excesso de peso convence o paciente a emagrecer?
Comprovação da Teoria da Relatividade de Einstein
Diz que o povo abarrotou a igreja, em frente do acampamento onde tinham sido instaladas as lunetas e equipamentos de medição dos gringos. As senhoras, terços enrolados nas mãos em prece, achavam que o mundo ia se acabar. Diz que algumas corriam pelas ruas batendo panelas, na esperança de espantar os maus espíritos. Já as grávidas foram trancafiadas em seus quartos desde o dia anterior para que não gerassem filhos escuros como as trevas. E diz que às 8 horas, 58 minutos e 28 segundos da manhã do dia 29 de maio de 1919, a sombra da Lua cobriu por completo a circunferência do Sol. Os galos, confusos, puseram-se a cantar como se fosse noite. E, por não mais que cinco minutos, as estrelas saltaram aos olhos dos cientistas maravilhados. O eclipse, acompanhado por uma equipe de astrônomos ingleses, americanos e brasileiros, mudaria não apenas a rotina dos então cerca de 6 mil habitantes da pequena Sobral, a 235 quilômetros de Fortaleza, no Ceará, mas os próprios rumos da ciência naquele início do século 20.
À época, a cidade, que tem hoje 155 mil habitantes e é conhecida por ser a terra natal dos irmãos políticos Cid e Ciro Gomes, era iluminada por lampiões e puxada por charretes e carroças. Foi essa espantosa expedição científica que levou o primeiro automóvel visto por lá, um Ford Modelo T, o famoso Ford Bigode. E as mães sobralenses, sobressaltadas, recomendavam às crianças que não se metessem com o carro "para ele não ‘pisar’ nelas", diverte-se o físico cearense Emerson Ferreira de Almeida, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú.
Aos 38 anos, Emerson é o responsável pelo Museu do Eclipse, erguido há dez anos pelo então prefeito e atual governador Cid Gomes na praça central, da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, local exato onde os astrônomos primeiro fincaram suas lunetas. O que levou alguns dos mais proeminentes cientistas do mundo àquele vilarejo perdido no interior do Ceará foi um conjunto de condições astronômicas e atmosféricas indispensáveis para a realização de um ambicioso experimento.
A equipe chefiada pelo astrônomo inglês Arthur Eddington desejava testar a teoria da relatividade geral, publicada em 1915 por um então desconhecido Albert Einstein, afirmando que a massa dos corpos celestes deforma o espaço próximo a eles, de modo que um raio luminoso se curva para seguir tal deformação - a chamada "deflexão da luz pela gravidade". Até então, a teoria da gravitação universal, de Isaac Newton, admitia que a gravidade dos corpos celestes atraía a luz, mas sem deformação do espaço. A única maneira de se verificar quem estava mais próximo da verdade em sua explicação da "curvatura da luz" seria fotografando a posição das estrelas durante um eclipse total do Sol, em uma região da Terra em que o fenômeno fosse perfeitamente observável. "Sabia-se que em 1919 a sombra da Lua passaria exatamente por Sobral.
E a cidade foi escolhida para o experimento, com a Ilha Príncipe, possessão portuguesa na costa ocidental da África", conta Emerson. Pode-se imaginar as dificuldades de logística naqueles anos conturbados que sucederam à 1ª Guerra Mundial. Ainda assim, com o apoio de Frank Dyson, o Astrônomo Real, e de autoridades científicas norte-americanas, Eddington angariou as necessárias £ 1.100, uma pequena fortuna à época, e organizou duas equipes: uma para Sobral, outra para Príncipe. Além de tudo isso, era preciso contar com condições climáticas favoráveis no dia da coleta dos dados. Para o azar de Eddington, que preferiu a Ilha Príncipe, São Pedro não ajudou: o dia amanheceu chuvoso e, das 16 fotos gravadas em placas de vidro emulsificadas, apenas duas imagens se mostraram úteis - ainda que imprecisas. Em Sobral, reza a lenda que as nuvens se abriram no momento em que o eclipse se formava.
E 7 das 16 tentativas de registro feitas pelo grupo encabeçado pelo britânico Charles Davidson e pelo irlandês Andrew Crommelin, com a ajuda do brasileiro Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, saíram impecáveis. Para se comparar o desvio da luz das estrelas com e sem a presença do Sol e provar o efeito da gravidade do astro rei sobre ele era preciso fotografar o mesmo campo celeste em uma noite clara e em condições análogas. Os astrônomos aguardaram dois meses no Brasil pelo momento certo, período durante o qual compreensivelmente optaram pela brisa costeira de Fortaleza. "Finalmente pudemos sair do clima enervante de Sobral", registra em seus diários um encalorado Crommelin. Completada a fase de coleta de dados, veio a de medição das placas fotográficas com as posições das estrelas à noite e durante o eclipse, processo delicado e penoso. Os números obtidos iriam mostrar se a teoria newtoniana continuava a mais correta ou fora desbancada pelas equações de um jovem, e até então anônimo, físico alemão de cabelos desgrenhados.
No dia 6 de novembro de 1919, durante a reunião do Joint Eclipse Meeting, em Londres, Eddington e Dyson enfim apresentaram os resultados. O matemático e filósofo Alfred North Whitehead, presente ao evento, descreveu a cena: "Havia um elemento dramático naquele cerimonial tão cênico e tradicional, o qual se dava tendo como pano de fundo um retrato de Newton, que nos lembrava que a maior das generalizações científicas acabava, naquele exato momento, após mais de dois séculos, de receber a sua primeira modificação". Einstein estava certo. Nas palavras do historiador inglês Paul Johnson, "o mundo moderno começou em 29 de maio de 1919, quando fotografias de um eclipse solar, tiradas na Ilha Príncipe, na África Ocidental, e em Sobral, no Brasil, confirmaram a verdade da nova teoria do universo".
O mistério que permanece é por que a saga de Sobral continua tão pouco conhecida no Brasil e no mundo. Dentro da própria comunidade científica internacional prevalece uma tendência a sobrevalorizar a expedição à Ilha Príncipe em detrimento de Sobral. "A superioridade dos dados de Sobral é bem clara", sustenta o astrônomo Augusto Damineli, professor titular do Instituto de Astronomia Geofísica e Ciências Atmosféricas, da USP. "A memória se perdeu ao longo do tempo talvez porque o Observatório de Greenwich, de onde vinham os astrônomos que foram para Sobral, perdeu importância após a 2ª Guerra Mundial.
Já o de Cambridge, de onde eram os que foram para a Ilha Príncipe, adquiriu importância crescente." Damineli acredita que a polêmica terá destaque na Assembleia Geral da União Astronômica Internacional, em agosto, no Rio de Janeiro. O maior interessado, porém, jamais deixou de pôr luz nos méritos da experiência cearense. Durante sua passagem pelo Rio, em 1925, já convertido em gênio da ciência e celebridade mundial, Albert Einstein reconheceu, em uma entrevista a Assis Chateaubriand: "A questão que minha mente formulou foi respondida pelo radiante céu do Brasil".
Ivan Marsiglia
24 de jul. de 2009
Arsenico
Sou gay e agora?
Novo prognóstico para o câncer pode ser uma quimioterapia mais longa
23 de jul. de 2009
Brincar de Antônimo
O pessoal tava tomando 'umas' num bar de beira de estrada, quando um Paulistinha metido a esperto, diz pra um caipira:
- Ô Zé! Vamos brincar de antônimo?
- O que co sor falô?
- Brincar de antônimo. Quer dizer, uma coisa contrária da outra! Por exemplo: alto e baixo, forte e fraco…
- Ah!…. intindi! então, vamu brincá!
- O que vai valê?
- Uma cerveja. Eu começo tá?
Começaram a brincadeira, e o espertalhão disse:
- Gordo?
E o caipira:
- Magro!
- Homem?
- Muié!
- Preto?
- Branco!
E o espertalhão:
- Verde?
- Verde? Nada! Verde num tem antônimo não…
- Claro que tem!
- Então exprica…
- Maduro!
- Ai, caraio! pirdi a aposta. Vamo de novo, valendo uma Cx de cerveja?
Mas desta vece ieu cumeço.
- Pode começar!
- Saúde?
- Doença!
- Molhado?
- Seco!
Aí o caipira disse:
- Agora ocê vai si lascá, seu fiu duma égua! Qué vê só?
- Fumo?
- Não, não! Para! Peraí… fumo não tem antônimo!
- Claro que tem, uai!
- Então diz aí:qual o antônimo de fumo?
- Vortemo!
Até Descartes já sabia!
Recentemente, um amigo esteve a ponto de esmurrar o computador. Havia dias que sua navegação na Internet lembrava os tempos da linha discada. Resolveu ligar para a empresa fornecedora do serviço de banda larga.
Começou seu tormento. Demorou até que alguém pudesse atendê-lo. Paciente, ele explicou o que ocorria. A moça não lhe deu resposta imediata. Pediu “um minutinho”. Depois de um tempo, retornou e lhe pediu uma série de dados “para confirmação”. Solicitou mais “um minutinho”. Aí, perguntou-lhe, mais uma vez, o que estava ocorrendo. Ele respondeu:
- Mas eu já disse o que ocorreu.
- São os procedimentos, senhor – decretou a atendente, automaticamente.
O jeito foi repetir toda a história. A atendente quis mais “um minutinho”. Depois, informou que algumas áreas da cidade estavam experimentando alguma lentidão. Ele insistiu, afirmando que o problema perdurava havia quase uma semana. Ela pediu mais “um minutinho”...
Eu sei. Até você já está ficando irritado. Acertei? Pois esse é o modelo de atendimento vigente em muitas grandes empresas. Inúmeras checagens e poucas respostas.
No caso citado, a funcionária acabou por aconselhar meu amigo a chamar um técnico para checar a fiação doméstica. Frustrado, ele já estava para desligar, quando a funcionária recitou uma longa proposta de contratação –paga, é claro– de um serviço de reparos e de um sistema antivírus. Falta de “simancol”.
Ele aguardou silenciosamente, pronunciou um “não” educado, agradeceu e desligou. Suspirou, saiu e foi cuidar dos seus cachorros. Esses, sim, capazes de entendê-lo.
Todo mundo sabe que esse tipo de atendimento é inadequado, mas por que o padrão é mantido?
Talvez porque as pessoas não pensem fora da caixa. Talvez porque muitas empresas ainda sejam negligentes no serviço ao cliente. Tempos atrás, a revista Operations & Fulfillment pesquisou 158 empresas e constatou que cerca de 25% delas não mediam formalmente o atendimento ao cliente.
Isso é grave. A situação é ainda pior, quando as companhias realizam pesquisas cujos resultados alimentam justamente a conduta inadequada de seus colaboradores.
Ora, o francês René Descartes lançou luz sobre a questão dos padrões de aferição da realidade há muito tempo. Em 1637, ele lançou o clássico “Discurso do Método”, um tratado matemático e filosófico para conduzir o pensamento humano. Esse saber ordenado foi fundamental para a constituição da ciência moderna. Está na base de estudos dos mais diversos campos do interesse humano, da sociologia à medicina, da física ao marketing.
O sábio Peter Drucker, aliás, tinha uma frase curtinha para expor sua preocupação com o tema: “Não existe gerenciamento sem medidas”. Segundo ele, métricas confiáveis são fundamentais à tomada de decisão nas mais distintas áreas da gestão.
Mas, afinal, o que acontece? Na verdade, muitas das pesquisas internas são elaboradas a partir de metodologias viciadas. O objetivo não é detectar o erro e buscar soluções, mas buscar uma justificativa para que as coisas sejam mantidas do jeito que estão.
Conforme o padrão adotado pela empresa de telefonia, o serviço da atendente pode ter sido considerado excelente. Afinal, meu amigo não chamou o supervisor, não xingou a interlocutora e nem pediu o cancelamento de sua assinatura. Se não há briga feia, muitos serviços de atendimento tendem a considerar que a missão foi cumprida a contento. A razão é bem simples: muitos estudos se concentram em verificar se o funcionário é eficiente, e não se o cliente está satisfeito.
Para ser confiável, uma pesquisa do gênero precisa ser conduzida por um agente externo ao setor, criterioso e independente. E mais: é necessário que ouça as pessoas e confira a efetividade do serviço.
Vale advertir que algumas pessoas simplesmente desistem de reclamar, porque não aguentam chateação. Outras, porque foram atendidas com simpatia, mesmo que seus problemas não tenham sido resolvidos. Esses são os “falsos satisfeitos” que contaminam os dados de pesquisas menos rigorosas.
Depois de tudo isso, também é preciso garantir que os dados obtidos sejam devidamente tabulados, comparados e interpretados. Muita pesquisa boa acaba gerando projetos sem pé nem cabeça, porque muitos executivos não estão preparados para decifrar o mistério de tabelas e gráficos.
Além disso, muitas empresas ainda não desenvolveram uma contabilidade inteligente, isto é, capaz de determinar o impacto do atendimento nos resultados financeiros.
Nessas corporações, não se conhece o tamanho do prejuízo em razão do atendimento ruim. E, pior, não se determina quanto a empresa poderia lucrar, se oferecesse um atendimento adequado. Do ponto de vista da estratégia competitiva, esse é um problema básico que muitas empresas não sabem ou não querem resolver, especialmente em setores monopolizados.
Se existe esse sério desvio, também é verdade que aí se esconde uma grande oportunidade de diferenciação de mercado. Vejamos alguns passos que podem ser adotados por um executivo bem disposto e de mente arejada:
- realizar pesquisas periódicas e refinar o método; - focar a satisfação do cliente e não a eficiência burocrática do atendente; - estabelecer uma ligação dinâmica entre a satisfação do cliente e o resultado gerado.
Por fim, é preciso pensar na diversidade e na singularização. Por vezes, diante da TV, eu me imponho um agradável exercício: penso em como minha empresa poderia atender, com educação e eficiência, os personagens que desfilam pela tela.
Como é que lidaríamos com os trotes do Bart Simpson? E com a avareza do Tio Patinhas? E com as obsessões do Peter, de “Uma Família da Pesada”? E o que dizer das suscetibilidades das moças de “Sex and the City”?
Quem faz essa reflexão logo percebe que não pode adotar uma cartilha padronizada para o atendimento. Como adotar sempre o mesmo procedimento, se as pessoas são cada vez mais diferentes?
Carlos Alberto Júlio Picture by Salvador Dali
22 de jul. de 2009
Cuidado com a Consciência pesada
Dois quintos dos infernos
Brain Gym
O Brain Gym promete deixar nossas mentes mais fortes e flexíveis: o truque é achar o prazer A base de tudo é uma descoberta que começou em experimentos dos anos 60, mas que se cravou como verdade há pouco mais de dez anos, quando Mike Mezernich, um cientista de San Francisco, arrancou um dedo de uma macaca para dar uma mãozinha ao ser humano. Com seu cérebro devidamente mapeado, a decepada chimpanzé rapidamente mostrou que novas conexões e caminhos se formaram no seu córtex. A área encefálica que cuidava do saudoso dedo ganhou novas funções. Foi o dedinho que faltava para derrubar sólidas muralhas nas ciências cerebrais. Acreditava-se que, depois de certa idade, estamos condenados a perder neurônios e conexões que jamais serão refeitas.
Esquece. Lembre disso: o cérebro cria, sim, novos neurônios e novas e mais eficazes conexões. Tudo o que ele precisa é de vontade – e treino. Munido de cobaias, humana inclusa, Mike e sua equipe foram descobrindo as formas mais eficazes, e menos cruéis, de deixar cérebros tinindo. E, assim como o condicionamento físico planejado fez nas últimas décadas, os polichinelos mentais de Mike estão mudando o que significa envelhecer. Vovó não esquece a lista de compras A comparação com exercícios para o corpo não é exagerada. Há séculos sabe-se que quem se mexe mais em geral tem uma saúde mais longeva. Mas foi apenas quando a ciência entrou na jogada que surgiu uma nova cultura fitness, em que cada exercício tem função específica e em que frequência e intensidade determinam resultados.
Da mesma forma, gente que lê, estuda, conversa, viaja e pensa mais profundamente tende a ter uma mente mais ágil e duradoura. Mas só agora estamos começando a moldar as primeiras ginásticas localizadas, as musculações cerebrais. Por isso o “gah-dah” e tantos outros jogos de uma simplicidade por vezes irritante foram desenvolvidos por Mezernich. Agem direta e minuciosamente nos centros básicos por onde os sentidos são primeiro processados.
Quanto mais esforço para reconhecer as diferenças entre fonemas (ou de imagens em outro exercício), mais seu cérebro azeita a capacidade de entender informações externas. A premissa é simples: “Quanto melhor o input, melhor o processamento”, explica o brasileiro Rogério Panizutti, um dos pesquisadores no laboratório de Mike Mezernich na UCSF. Rogério está em San Francisco para seu doutorado, e conversamos assim que ele voltou de Tóquio, onde foi apresentar uma das pesquisas que saíram do laboratório.
E não ficou exatamente surpreso ao ver o aumento enorme nos estudos sobre plasticidade cerebral. Ele é testemunha ocular do mercado em expansão que essa ciência está se tornando quando aplicada ao varejo. Mike Mezernich, seu chefe e mentor, mal pisa no laboratório de tão ocupado com seminários e com a divulgação de seus produtos. Por enquanto são dois softwares lançados pela PositScience, a empresa que Mike fundou para comercializar os resultados práticos de suas pesquisas. A PositScience tem um andar todo em um edifício no centro de San Francisco, mas muitas salas e corredores vazios. Eles sabem que o futuro vai tratar de lotar o espaço. Por enquanto, fotos de idosos, seus clientes primordiais, anunciam os resultados.
Desde o depoimento de uma senhora que não esquece mais a lista de compra no mercado ao vovô que retomou a vida sexual depois de comprar o Brain Fitness – o primeiro programa lançado. É uma caixa que custa US$ 350 que poderia levantar muitas suspeitas de comercialismo ou promessas exageradas. Não fosse a estatura e seriedade científica de Mike e sua equipe. Explicar as minúcias de como os exercícios agem tomaria um espaço que a revista não dispõe e uma bagagem científica que o presente repórter tristemente não carrega. Mas algo nisso tudo é crucial, e dá pistas do que o cérebro, no fim das contas, quer de nós: prazer. Mais importante do que quebra-cabeças e jogos de identificação de sons, a chave que destrava nossos miolos é o sistema de recompensas. Sem um sentimento, vago que seja, agradável, não há santo que remodele o cérebro. Ou melhor. sofrimento e tédio também remodelam. Se prazer te deixa mais ligeiro, meu caro, stress e falta de propósito vão cuidar de te deixar tapado. Microfúria e recompensa Primeiro, direto e reto: não há milagre.
A ciência já pode afirmar categoricamente que o cérebro atinge seu pico de performance pouco antes dos 30 anos de idade. Depois disso a ladeira desce. O que os exercícios oferecem é a chance de puxar o freio de mão. Ou, quem sabe, achar um jeito de continuar subindo. Começo o treino com algo simples: identificar se determinado som vai do grave para o agudo (tuínnn) ou do agudo para o grave (tiúnnn). Lendo parece fácil, e a princípio é. Mas vai acelerando, os bipes ficam mais curtos e sutis. E nossa atenção pode ser traiçoeira como uma próstata. Depois de 10 min dos 15 programados cometo erros tolos por estar com a cabeça em outro assunto. Mas cada erro que me causa uma microfúria, o suficiente para domar meu foco e acertar os próximos 5 min seguidos. De fato, o “plim” de cada acerto começa a ser cada vez mais prazeroso. Um misto de orgulho de ás do fliperama e a expectativa de que aquilo era um passo rumo ao upgrade do meu cérebro. Sistema de recompensa: ativado.
A facilidade tira um pouco da graça, mas passada a primeira meia hora sinto, de fato, que um esforço foi feito. Por dias o treino segue, e me dedico também ao outro software, InSight, elaborado para o campo visual e a memorização. Tenho que distinguir entre formas e cores e recordar sequências que vão ficando mais complexas quando acerto. O fato é que, dia após dia, a coisa vai ficando fácil e mais fácil. Ou melhor, eu vou ficando mais rápido e eficaz nas manobras. Porque a dificuldade se mantém a mesma. O software dá um jeito de deixar a tarefa difícil na mesma medida.
Dormir é mais complicado toda vez que me exercito antes da cama. E me sinto exausto toda vez que faço uma jornada dupla, um programa depois do outro. Uma leve alteração de percepção me acompanha no cotidiano. Uma atenção mais natural e aguda aos sons que me cercam. Levo em conta sua duração e sutilezas. Um chiado de um carro freando pode ser decomposto em dois ou três estágios sem que eu pense sobre o assunto. Trajetos de folhas caindo e insetos no ar me parecem mais legíveis, ou estou mais atento para isso. Não posso dizer que minha memória melhorou, não há parâmetros porque nunca me senti especialmente amnésico, nem agora me sinto um poço de recordações.
Mas se há algo a ser tirado dessa experiência, e desta reportagem, é uma atenção maior ao que atenção significa. Que entre suas duas orelhas existe um cérebro, e que ele responde diretamente a como você o trata. Portanto, se cuida. Um veredito para o Brain Fitness? Funciona. Bote fé. Isso é, se você tem fé na imprensa. O que, em si, é sinal de que uma ginástica mental lhe faria muito bem.
21 de jul. de 2009
O meu olhar
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro(Fernando Pessoa)
20 de jul. de 2009
Lógica Espírita
Mentiras ao léu



