19 de mar. de 2008

Memória das Minhas Putas Tristes


Enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos.
Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza.
Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio.
Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma mas um signo do Zodíaco.
Gabriel García Marquez
Picture by Paul Cézanne

Um caso de Jung

Paciente e depois amante de Jung, a russa Sabina Spielrein tornou-se teórica brilhante da psicanálise e elaborou a formulação pioneira da pulsão de morte Em 23 de outubro de 1906, Jung escreveu a Freud: "Estou aplicando atualmente o seu método ao tratamento de uma histeria. É um caso difícil: uma estudante russa de 20 anos, doente há seis anos... Primeiro trauma por volta dos 3, 4 anos...". Na carta, pedia o parecer de Freud sobre um dos sintomas: um estranho ritual "auto-erótico" ao evacuar. Freud respondeu que o "trauma aos 4 anos teria reavivado traços de memória do primeiro ou segundo ano..." e recomendou seus escritos sobre auto-erotismo anal. Jung manteve Freud informado durante o tratamento, sem nomear a paciente e, sobretudo, sem revelar que a análise tinha evoluído para um relacionamento amoroso. Ele tinha 30 anos; ela, 20. Graças ao tratamento, ou à relação amorosa, a paciente, Sabina Spielrein, curou-se, terminou o curso de medicina, e em 1911 defendeu uma tese brilhante, "O conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia (demência precoce)", em que analisa uma paciente sua, antes tratada por Jung e, como ela, apaixonada por ele. Uma experiência clínica única: a médica e a paciente, ambas cativadas pelo amor por Jung; uma, apenas liberta de uma psicose, a escutar outra em pleno transtorno psicótico. Uma curiosa forma de auto-análise. O texto de Sabina, lapidar para a teoria psicanalítica, conclui: "O inconsciente libera o presente no passado... o futuro individual torna-se um passado geral filogenético e, ao mesmo tempo, este último assume para o indivíduo o valor do futuro. Assim, vemos o inconsciente como algo que existe fora do tempo ou que é, ao mesmo tempo, presente, passado e futuro" (S. Spielrein, em A. Carotenuto e C. Trombetta. Diario di una segretta simmetria, Sabina Spielrein tra Jung e Freud. Astrolabio-Ubaldini, 1980). Mas a obra-prima de Sabina é de 1912, A destruição como causa do nascimento, que traz a formulação pioneira do conceito de pulsão (ou instinto) de morte: o medo, a ansiedade ou as vivências defensivas, que acompanham o instinto de procriação resultam de "sensações que correspondem à componente destrutiva do instinto sexual". Para ela, os casos de auto-erotismo, e mesmo "o auto-erotismo psíquico" (que ela enxerga em Nietzsche), mostram a face destrutiva do impulso sexual. O amor pela própria imagem, transformada no sexo oposto, leva à autodestruição no seu próprio sexo. "Por isso, nos casos de isolamento auto-erótico... achamos tão freqüentemente a componente homossexual".Em março de 1909, Jung confessara a Freud: "... uma paciente, que há alguns anos livrei, com extrema dedicação, de uma gravíssima neurose, desiludiu minha confiança e minha amizade no modo mais ofensivo que se possa imaginar. Provocou um terrível escândalo unicamente porque renunciei ao prazer de dar-lhe um filho" (S. Freud e K.G. Jung, Correspondance, t. I, 1906-1909, Gallimard, 1975). Teria sido essa renúncia uma vivência defensiva ou um caso de angústia diante do instinto de procriação, como escreveria Sabina? E o "terrivel escândalo", a ruptura, emancipadora, da ligação com Jung, que antecedeu as obras principais dela, não seria um caso típico a mostrar "a destruição como causa do nascimento"?
Isaias Pessotti Picture by Juan Gris

A alma do outro


"No relacionamento amoroso, familiar ou amigo
acredito que partilhar a vida com alguém que
valha a pena é enriquecê-la.
Permanecer numa
relação desgastada é suicídio emocional,
é desperdício de vida"

"A alma do outro é uma floresta escura", disse o poeta Rainer Maria Rilke, meu único autor de cabeceira.

A vida vai nos ensinando quanto isso é verdade. Pais e filhos, irmãos, amigos e amantes podem conviver décadas a fio, podem ter uma relação intensa, podem se divertir juntos e sofrer juntos, ter gostos parecidos ou complementares, ser interessantes uns para os outros, superar grandes conflitos – mas persiste o lado avesso, o atrás da máscara, que nunca se expõe nem se dissipa.

Nem todos os mal-entendidos, mágoas e brigas se dão porque somos maus, mas por problemas de comunicação. Porque até a morte nos conheceremos pouco, porque não sabemos como agir. Se nem sei direito quem sou, como conhecer melhor o outro, meu pai, meu filho, meu parceiro, meu amigo – e como agir direito?

Neste momento escrevo, como já disse, um livro sobre o silêncio. Começou como um ensaio na linha de O Rio do Meio e Perdas & Ganhos, mas acabou se tornando um romance, em pleno processo de elaboração. Isso me faz refletir mais agudamente sobre a questão da comunicação e sua por vezes dramática dificuldade, pois nos mal-entendidos reside muito sofrimento desnecessário.

Amor e amizade transitam entre esses dois "eus" que se relacionam em harmonia e conflito: afeto, generosidade, atenção, cuidados, desejo de partilhamento ou de vida em comum, vontade de fazer e ser um bem, e de obter do outro o que para a gente é um bem, o complicado respeito ao espaço do outro, formam um campo de batalha e uma ponte. Pontes podem ser precárias, estradas têm buracos, caminhos escondem armadilhas inconscientes que preparamos para nossos próprios passos em direção do outro. O que está mergulhado no inconsciente é nosso maior tesouro e o mais insidioso perigo.

Pensar sobre a incomunicabilidade ou esse espaço dela em todos os relacionamentos significa pensar no silêncio: a palavra que devia ter sido pronunciada, mas ficou fechada na garganta e era hora de falar; o silêncio que não foi erguido no momento exato – e era o momento de calar.
Mas, como escrevi várias vezes, a gente não sabia. É a incomunicabilidade, não por maldade ou jogo de poder, mas por alienação ou simples impossibilidade. Anos depois poderá vir a cobrança: por que naquela hora você não disse isso? Ou: por que naquele momento você disse aquilo?

Relacionar-se é uma aventura, fonte de alegria e risco de desgosto. Na relação defrontam-se personalidades, dialogam neuroses, esgrimem sonhos e reina o desejo de manipular disfarçado de delicadeza, necessidade ou até carinho. Difícil? Difícil sem dúvida, mas sem essa viagem emocional a existência é um deserto sem miragens.

No relacionamento amoroso, familiar ou amigo acredito que partilhar a vida com alguém que valha a pena é enriquecê-la; permanecer numa relação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida. Entre fixar e romper, o conflito e o medo do erro.
Somos todos pobres humanos, somos todos frágeis e aflitos, todos precisamos amar e ser amados, mas às vezes laços inconscientes enredam nossos passos e fecham nosso coração.

A balança tem de ser acionada: prevalecem conflitos ásperos e a hostilidade, ou a ternura e aqueles conflitos que ajudam a crescer e amar melhor, a se conhecer melhor e melhor enxergar o outro? O olhar precisa ser atento: mais coisas negativas ou mais gestos positivos? Mais alegria ou mais sofrimento? Mais esperança ou mais resignação?

Cabe a cada um de nós decidir, e isso exige auto-exame, avaliação. Posso dizer que sempre vale a pena, sobretudo vale a pena apostar quando ainda existe afeto e interesse, quando o outro continua sendo um desafio em lugar de um tédio, e quando, entre pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes, continua a disposição de descobrir mais e melhor quem é esse outro, o que deseja, de que precisa, o que pode – o que lhe é possível fazer.

Em certas fases, é preciso matar a cada dia um leão; em outras, estamos num oásis. Não há receitas a não ser abertura, sinceridade, humildade que não é rebaixamento. Além do amor, naturalmente, mas esse às vezes é um luxo, como a alegria, que poucos se permitem.
Seja como for, com alguma sorte e boa vontade a alma do outro pode também ser a doce fonte da vida.
Lya Luft
Picture by Kasimir Malevich

18 de mar. de 2008

Nossa memória


Nem tudo que está na memória é lembrado. Outras vezes, lembramos fatos que não são exatamente como aconteceram, e sim como gostaríamos que tivessem ocorrido. Gostamos também de glamourizar as coisas. Somos todos saudosistas. Uns mais, outros menos. Temos mais saudade de nós mesmos do que do passado.
Tostão - Psiquiatra, ex-jogador de futebol

A vida e a inquietude



A vida é em geral alegre.
O que nos torna injustos em relação a ela é que a alegria não é recordada.
Ao contrário, a inquietude, essa, permanece.
Jean Paulhan
Picture by John Singer Sargent

A força da alegria


A alegria evita mil males e prolonga a vida
William Shakespeare
Picture by Chris Consani



Existe felicidade depois dos 40?


Chegando aos 40? Aos 50?

Com aquele sentimento de que a vida está passando – ou já passou por você?
Ou te deixou comendo poeira no caminho? Pois você não está sozinho. Na verdade, uma nova pesquisa mostra que outras pessoas nessa faixa etária no mundo todo – ou pelo menos uma porção significativa delas – compartilham sua dor.

Mas não se preocupe: se você respirar fundo e seguir em frente, as coisas vão melhorar depois de passar por esse quebra-molas da estrada da vida chamado “meia idade”. Após coletar dados de 2 milhões de pessoas de 80 países diferentes, ao longo de 35 anos, pesquisadores do Dartmouth College em Hanover, nos Estados Unidos, e da University of Warwick em Coventry, na Inglaterra, concluíram que realmente existe um padrão nos níveis de depressão e felicidade relacionado à idade, e que nos deixa mais tristonhos nesse período da vida.

De acordo com o estudo, que deve ser publicado na revista especializada Social Science & Medicine, a felicidade segue uma curva em “U”: atinge seu nível mais alto no começo e no final da vida, e seu ponto mais baixo na meia idade. Os pesquisadores descobriram que o pico de depressão tanto para homens quanto para mulheres no Reino Unido acontece mais ou menos aos 44 anos; nos Estados Unidos, as mulheres ficam deprimidas aos 40 anos, em média, e os homens quando chegam aos 50. Eles encontraram um padrão similar em mais 70 países.

Então, qual seria a raiz desse mergulho na depressão? Os autores do estudo, os economistas Andrew Oswald, da Warwick University, e David Blanchflower, do Dartmouth, ainda não sabem ao certo. Mas especulam que a crise não ocorre por causa de acontecimentos que acabam com a esperança (como o divórcio ou uma demissão), mas porque “alguma coisa acontece lá no fundo” – nas palavras de Oswald –, pois o sentimento não é pontual, mas se apodera das pessoas aos poucos. “É claro que algumas pessoas sofrem mais que as outras, mas o efeito mediano é muito disseminado.

A crise acomete homens e mulheres, casados e solteiros, pobres e ricos e pessoas com filhos ou não”, afirma Oswald. “Ninguém sabe ainda o porquê dessa consistência.” “A causa da curva em U, e de formato similar em partes diferentes do mundo desenvolvido e em desenvolvimento, também é desconhecida.
No entanto, uma possibilidade é a de que as pessoas aprendem a se adaptar aos seus pontos fortes e fracos, e na meia idade suprimem suas aspirações mais impossíveis”, ele nota. “A segunda possibilidade é a de que pessoas mais alegres sistematicamente vivem mais.

Uma terceira é que acontece um tipo de processo de comparação, no qual as pessoas que já viram gente de sua idade morrer passam a dar mais valor ao tempo que ainda têm de vida. Talvez as pessoas aprendam, de alguma forma, a apreciar o que já viveram de bom.” A boa notícia é que os dados mostram que a maioria das pessoas emerge desse poço de melancolia aos 55 anos, mais ou menos. E “aos 70 anos, se ainda estiver bem fisicamente, então você será, em média, tão feliz e mentalmente saudável quando um jovenzinho de 20 anos”, garante Oswald. “Talvez, perceber que esses sentimentos são completamente normais na meia idade pode até ajudar as pessoas a sobreviverem melhor a essa fase”. Mas fique sabendo que nem todo mundo concorda.

Outros estudos têm mostrado curvas similares em muitos países, mas há exceções: em alguns países, as pessoas de meia idade são simplesmente felizes. Na verdade, chegar a essa idade em algumas partes do mundo é considerado motivo de orgulho (imagine só!). Mas se você não é um desses quarentões animados, lembre-se: hoje tudo pode parecer muito pior, mas não vai demorar muito para chegar aos 55 – e na crista da onda.
Lisa Stein

17 de mar. de 2008

Alegrias passageiras


As alegrias passageiras encobrem os males eternos que elas próprias causam
Blaise Pascal
Picture by Felicity Charlton

Agruras de ser doutor


Obter um diploma universitário no Brasil nunca foi tarefa muito fácil. Ao contrário da América espanhola, que conheceu o ensino universitário no século XVI, por aqui, este luxo só deu as caras em pleno século XIX, e de maneira tímida.

Nos “obscuros” três séculos de colônia, “ser doutor” era uma missão quase impossível. Em uma terra rude, selvagem, de cotidiano pobre, desprovida de livros, bibliotecas, e mesmo de escolas, quem quisesse e pudesse obter um diploma universitário tinha de ir para a distante Europa. E poucos, bem poucos, podiam e queriam se deslocar tanto somente para se instruir, coisa de diminuta utilidade no dia a dia dos trópicos.

Uma política articulada da metrópole, interessada em evitar que as “luzes” entrassem na colônia e o “espírito de revolta” contaminasse os oprimidos colonos? Ora, nem os colonos viviam num calabouço, nem a dita metrópole era tão precavida e vigilante.

Deixemos de lado está visão maniqueísta e melodramática da história do Brasil. Portugal foi, ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, um país pouquíssimo letrado e, o que é pior, com uma população que sempre demonstrou um interesse muito pequeno pela cultura e pela educação formal -as estatísticas da União Européia, até hoje, demonstram isso. O que esperar de gente dotada de tal bagagem cultural? Uma “Atenas dos trópicos”? Além do mais, sobreviver na colônia, para a imensa maioria da população, não constituía tarefa simples e ser cultivado era um fausto absolutamente dispensável.

É verdade que um nobre, mesmo da colônia -e há muitos-, deveria parecer nobre e portar-se como tal. Nesse sentido, ostentar um título de doutor, manter uns poucos livros em casa e até mesmo cultivar as belas letras ajudava, mas, por aqui, tais dotes estavam longe de ser imprescindíveis para as pessoas de qualidade. Trocando em miúdos, a formação escolar e os bens de cultura não eram prioridades na escala de valores da sociedade colonial brasileira, nem para a sua parcela pobre, nem para a rica. O prestígio da educação era tão diminuto que mesmo a sua ostentação como traço de distinção de classe não significava grande coisa nestas terras quentes.

É verdade que um nobre, mesmo da colônia -e há muitos-, deveria parecer nobre e portar-se como tal. Nesse sentido, ostentar um título de doutor, manter uns poucos livros em casa e até mesmo cultivar as belas letras ajudava, mas, por aqui, tais dotes estavam longe de ser imprescindíveis para as pessoas de qualidade. Trocando em miúdos, a formação escolar e os bens de cultura não eram prioridades na escala de valores da sociedade colonial brasileira, nem para a sua parcela pobre, nem para a rica.
O prestígio da educação era tão diminuto que mesmo a sua ostentação como traço de distinção de classe não significava grande coisa nestas terras quentes. Os colonos, pois, se não tinham muitos meios de obter um título de doutor, também não davam lá muita importância para isso. Ao contrário, ainda que a valorização de “sinais de cultura” não estivesse ausente da sociedade colonial, para o prestígio de um homem branco e bem nascido contavam muito mais a vestimenta dos seus escravos e a beleza dos seus cavalos, do que a sua seleta biblioteca, a sua variada cultura ou o seu belo diploma de doutor escrito em latim.

Em 1827, porém, depois de banhar-se nas “tímidas luzes” trazidas por D. João VI, o Brasil independente abriu as suas primeiras fábricas de produção de doutores, “fabriquetas” ainda: duas faculdades de Direito, uma em São Paulo -berço, entre outras coisas, daquela chusma de imitadores de Byron que cantavam o “mal do século”-, e outra em Recife -de onde também saíram suas pérolas, como o exótico Tobias Barreto, que editava, em 1870, um jornal na culta língua alemã em, pasmem, Escada, uma cidadezinha de Pernambuco, que hoje, no alvorecer do século XXI, conta com modestos 45.000 habitantes.
Meia década mais tarde, as duas unidades de Direito ganharam companhia. Depois de “incansáveis esforços” de um punhado de profissionais agrupados na Sociedade de Medicina da Corte, surgiram, em 1832, mais dois cursos universitários, ambos de Medicina, um em Salvador, outro no Rio de Janeiro. Essas quatro fabriquetas de “homens de rara inteligência”, como se costumava dizer, foi tudo que construímos ao longo do século XIX, frustrando aqueles que, como Joaquim Norberto de Sousa e Silva, sonhavam com uma fábrica bem maior, sonhavam com a instalação, depois de 1822, de uma portentosa Universidade do Brasil -coisa que, como sabemos, só viria a ocorrer na década de 30 do século XX, com a fundação da USP.
Mas, se o avanço do ensino universitário não foi nada exuberante, o mesmo não se pode dizer do prestígio daqueles que podiam trilhá-lo: os doutores. É só abrirmos os romances ou passarmos os olhos pelos jornais do século XIX para nos apercebermos disso. Há centenas de doutores nestes mundos, a maior parte deles ocupando posições sociais desejáveis e a esmagadora maioria egressa das quatro instituições que tínhamos então à mão -afora, é claro, os muitíssimo afortunados, formados na Europa. Eram modelos a serem seguidos: orgulho das famílias, objeto do desejo das boas moças casadoiras, peças indispensáveis para o andamento do Estado, enfim, exemplares acabados do que se entendia por “homens civilizados”.

O prestígio era tanto que o título virou sinônimo de “rico e poderoso” e desenvolveu-se o estranho hábito de atribuí-lo a todo e qualquer indivíduo que demonstrasse ter algum “berço”, ainda tal que indivíduo jamais tivesse passado pelos bancos de uma universidade. Ficou-nos, também, desses tempos de penúria dos meios para obtê-lo mas de sobrevalorização simbólica do título, uma série de outros “vícios”, entre os quais: o gosto pela ostentação de saber, não propriamente pelo seu cultivo, a crença de que o falar difícil é mostra de inteligência e berço -coisas inseparáveis na cabeça de muitos- e, sobretudo, o hábito elitista e pouco democrático de encarar o conhecimento formal como coisa de gente rica e bem nascida. Isso, no entanto, são histórias de um passado distante.
O Brasil coetâneo tem uma outra cara. É verdade que não ampliamos enormemente o ensino universitário de qualidade, nem criamos meios mais democráticos de acesso à academia, nem, tampouco, fomentamos uma visão menos elitista do ensino e do “cultivar-se. Todavia, promovemos um movimento mais sutil, menos trabalhoso e, a seu modo, muitíssimo eficiente: invertemos os termos da equação e transmutamos aqueles tão invejados doutores de outrora em “esnobes” que -como disse há tempos um político local, dando voz a um sentimento do senso comum brasileiro- “têm a bunda virada para o Brasil e a cara para Paris”.

Nesta terra de gente vaidosa e exibida, mas com poucas oportunidades para o “cultivar-se”, a inversão prosperou a tal ponto que não é incomum ouvir da boca de intelectuais e acadêmicos posições radicalmente antiintelectuais e juízos que indicam pouquíssima estima pelo saber que deveriam transmitir.

Daí, por certo, terem soado tão mal as considerações do sociólogo Fernando Henrique Cardoso acerca da ignorância do presidente e do seu ruidoso desapreço pela educação formal. Ainda mais FHC, um homem que se tem na conta de uma mistura de Descartes com o candomblé, mas que é visto por uma parcela expressiva da gente obreira e singela deste iletrado país como o “tipo ideal” do doutor de “bunda virada para o Brasil”.
Jean Marcel Carvalho França
Picture by Hans Hofmann

16 de mar. de 2008

A mulher que se ama...


Apenas em torno de uma mulher que ama se pode formar uma família.
Friedrich Schlegel
Picture by Henry Lamb

O futuro


Eu nunca penso no futuro.
Ele não tarda a chegar.
Albert Einstein
Picture by Terry Frost

A fé


A fé é a mais elevada paixão de todos os homens.
Soren Kierkegaard
Picture by Lexden L. Pocock

D. João


Em março são completados 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, após curta passagem pela Bahia. Para muitos pode ser apenas curiosidade histórica, “acidente napoleônico”, pois a família real trocou Portugal pelo Brasil fugindo da invasão comandada pelo general Andoche Junot.

Mas a chegada da corte alterou profundamente as condições do Brasil e, entre outros efeitos, abriu espaço para a pesquisa científica, ao mesmo tempo que permitiu a impressão de livros e jornais pela criação da Imprensa Régia. Ainda assim, a chegada da corte – na verdade em séqüito de 15 mil pessoas a bordo de 35 embarcações – continua motivo de chacota e ironia. É verdade que a condição dos fugitivos não era nada confortável.

Relatos de testemunhas dizem que exalavam um odor insuportável, atormentados por pulgas e piolhos, sem contar o embaraço representado por d. Maria, a Louca, mãe de d. João.
Ela resistira em deixar Portugal, determinada a enfrentar as tropas do general “Tempestade” – como Junot era conhecido –, e, no Rio, ainda lamentava com um repetitivo “Ai, Jesus!”, intercalado por impropérios. D. João é uma personagem controvertida nesse cenário aparentemente confuso, mas a ele devemos uma base histórica de ciência no Brasil, ainda que não se possa dizer que tenha sido um homem de cultura. De sensibilidade, sem dúvida.

Os problemas do príncipe português começavam por seu porte físico, baixo e atarracado, estendendo-se para o que sua mulher – a venenosa d. Carlota Joaquina – considerava “falta de autoridade”. D. Carlota não ajudou em nada a minimizar as dificuldades. Ao contrário, contribuiu para piorar a situação todo o tempo em que esteve no Brasil, até 1821. Registros históricos relatam incidentes criados por ela e seu autoritário corpo de segurança envolvendo representações diplomáticas estrangeiras. E ela se deliciava com tudo isso.

Filha de Carlos IV da Espanha e de Maria Luisa – a fogosa rainha que brigou com a duquesa de Alba por ciúmes de Goya, pintor dos reis de Espanha e autor de um de seus retratos –, era bisneta de Luís XV. Fisicamente é descrita como uma criatura baixa, feia e disforme, portando alguma barba e um indisfarçável bigode. O cronista Paulo Setúbal garante que ela apreciava a fumaça inebriante da Cannabis sativa e teve liberdades íntimas até com um jardineiro real. De irrefutável, sabe-se que d. Carlota odiava o Brasil e manipulou o que pôde para uma submissão à Espanha, com talento para tecer a intriga palaciana.

Todo esse conjunto de elementos contribui para a interpretação de uma fuga apressada e pouco corajosa da família real para o Brasil, situação que talvez valha a pena ser reconsiderada às vésperas do 200º aniversário desse acontecimento. E isso por várias razões, entre elas a compreensão de como a ciência se implantou e se desenvolveu por aqui.
O primeiro convite para uma revisão nesse sentido foi feito em 1909, com a publicação de D. João VI no Brasil, do diplomata e historiador pernambucano Manuel de Oliveira Lima (1867-1928). Oliveira Lima, entre outras considerações, revê a estratégia de fuga da corte, substituindo por astúcia e premeditação o que sempre se considerou fraqueza e frouxidão.
Com a mudança para o Brasil, avalia Oliveira Lima, a monarquia dos Bragança escapou da humilhação que deixou prostradas outras realezas européias, caso dos Bourbon da Espanha e da Itália, do rei da Prússia e do monarca austríaco.A primeira prova de uma pretensa sagacidade portuguesa?

Nada disso. Considere o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 com a Espanha (Castela) para ampliação dos limites portugueses de 100 para 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Antes mesmo de Colombo ter feito sua viagem de descobrimento, em 1492, cosmógrafos portugueses tinham consciência de seu erro – idéia de que ele havia atingido as Índias.
Portugal obteve sucesso em Tordesilhas, negociando diretamente com os reis católicos Fernando e Isabel, e dessa forma assegurou parte do território brasileiro de que seguramente tinha conhecimento, dissimulado pelo que ficou conhecido como Política do Sigilo.

Há quem sustente que os espanhóis acataram Tordesilhas por esperar estabelecer a união ibérica pela estratégia de casamentos reais. A união acabou se dando, entre 1580 e 1640, por outras razões. Mas a verdade é que Portugal, já em fins do século 15, tinha domínio dos mares superior ao da Espanha. E sagacidade para negociar, levando em conta desvantagens como pequeno território e reduzida população, ao menos em comparação à Espanha.
À época da chegada da corte, vários problemas afligiam a coroa portuguesa. A restauração dos Bragança – após o intervalo de domínio espanhol, pela morte de d. Sebastião, o Desejado – custara caro. O apoio da Inglaterra a essa emancipação significou o casamento da infanta d. Catarina, filha de d. João IV, com o rei Carlos II da Inglaterra, acompanhado de dote de 2 milhões de cruzados e a entrega de Tânger, na África, e Bombaim, na Índia.
A expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro – a região mais rica da colônia, pela produção de açúcar – em 1654 também implicara uma indenização definida pelo Tratado de Paz de Haia, de 4 milhões de cruzados, acompanhada da entrega do Ceilão e das ilhas Molucas.

A volatilização de patrimônios e a perda de renda fizeram com que, às vésperas da partida da corte, Portugal estivesse engolfado em dificuldades financeiras, com rarefação do fluxo de ouro e diamantes do Brasil, que atingiu o auge por volta de 1750. A corte chegou com tudo que pôde carregar, incluindo sobras de somas envolvidas na tentativa de negociar neutralidade com a França. Talvez a carga mais valiosa tenham sido as máquinas de impressão vindas da Inglaterra e ainda não desencaixotadas, além dos 60 mil exemplares de livros que deram origem à Biblioteca Real, ainda em 1808, transformada depois em Biblioteca Pública. À biblioteca somaram-se o Horto Real, depois Jardim Botânico, e o Banco do Brasil, entre outros.

A irrupção da ciência no Brasil – criação de instituições de saúde e preparação de médicos em substituição aos barbeiros, academia militar etc. – se deu pelas mãos de d. João VI, em quem Oliveira Lima enxergou um homem paciente e generoso, dividindo personalidade com um glutão.

Quando a corte desembarcou no Rio, a primeira atividade científica no Brasil, a observação e descrição do céu austral – incluindo o Cruzeiro do Sul – por Mestre João, estava para completar 308 anos. Pode-se falar de ciência no Brasil apenas a partir de 1808.
Homens como José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) não só contribuíram para a consolidação da pesquisa aqui como conquistaram prestígio internacional e, metaforicamente, acenaram – ao mesmo tempo que desejaram – com implantar nos trópicos uma nação desenvolvida, nos moldes dos países europeus onde estudaram.
Dois séculos depois da abertura de d. João, o mecenato capaz de estimular a produção, divulgação e aumento da atividade científica no Brasil praticamente inexiste, ao contrário do que ocorre em países como os Estados Unidos. A astronomia internacional, especialmente a cosmologia, só atingiu o estágio atual com a construção de observatórios como os de Monte Wilson e Palomar, resultado de generosa filantropia privada americana. Por aqui, nada disso sensibiliza.
Ulisses Capozzoli

15 de mar. de 2008

Vôo noturno

Na fogueira da aurora eu me consumo
e ressuscito entre os lençóis da noite
para tecer meu ninho de discórdias
do teu coração.

A minha pena – faca de dois gumes –
ao mesmo tempo fere e acaricia;
as minhas asas - guarda-sóis se abertas,
quando fechadas, grades de prisão.

Trago nas veias sangue canibal:
bebo esperanças, mastigo ilusões
e, às vezes, sorvo sonhos matinais.

Portanto não se engane: sou poeta
em cujo peito dorme um troglodita
que traz no coração pluma e punhal.
Antonio Juraci Siqueira
Picture by Carlos de Haes

Uma cena


Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
— o belo horror do real
que nem consciência nítida
ou lúcida, clara, exata,
não como é visto sol a pino
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.
Olga Savary
Picture by Norman Parkinson

A riqueza sem preço de Belém

“Menina, coma a goma! Ela é boa porque forra o estomago e protege do ácido do tucupi. E olha que eu não coloquei muita para você...” Desse modo, entre medicinal e maternal, a senhora procura convencer a turista de que o tacacá deve ser consumido do modo como foi apresentado, sem aquelas simplificações que sempre se procura impor às comidas regionais, como ao vatapá baiano, hoje já feito na versão “para paulista”.

Mas, ao contrário do comedimento da pimenta baiana, em Belém a gosma da goma é uma proteção, um antídoto contra qualquer excesso que já vem incluído na iguaria.
Criada em 1621 por Felipe III da Espanha, a capitania do Gram-Pará Maranhão, tendo passado por subdivisões em 1755, só veio a se integrar de fato ao Brasil na Independência, em 1822. Daí em diante suas rendas deveriam ajudar a sustentar a burocracia da corte em território brasileiro. Mas ali, ainda durante o século 19, falava-se a “língua geral” que os jesuítas, expulsos pelo Marquês de Pombal, improvisaram num misto de português e tupi. Talvez por essa história ainda se tenha a estranha sensação de que o Brasil está de costas para o Pará, assim como o Pará está de costas para o Brasil. Nenhum parece depender do outro.

De fato, é um destino longínquo. Custa tanto ir a Belém quanto a Paris. Para um turista do Sul ou do Sudeste, só o raciocínio utilitário suscitado pelo uso de milhagem aérea doméstica aponta em direção ao Pará. E, claro, um certo apelo moderno pelo “exótico” ajuda a vislumbrar ali a valorizada Amazônia.
Manaus é a “capital real” da Amazônia, devorada pela lógica mercantilista da sua zona franca. Belém é a “capital ideal” da Amazônia, ainda não totalmente afetada pelo capitalismo transnacional. Ali, o isolamento histórico é uma virtude notável.
Apesar das ruas largas, cujo traçado no início do século 20 mostra uma mesma influência francesa que se fez sentir também no Rio de Janeiro, Belém é uma cidade que não esconde sua feição antiga.
Os casarões coloniais, muitos em fase de restauração, não foram destruídos até agora pela voragem imobiliária. Galos cantam em sinfonia de madrugada, em pleno coração da cidade. As avenidas arborizadas com mangueiras remetem a um tempo em que certamente não havia carros como hoje, mas nem por isso foram arrancadas como seriam árvores paulistanas que atrapalham o trânsito. Ao contrário, o capitalismo teve que se adaptar: há seguros de veículos com cláusula de danos provocados por mangas...
O comércio de frutas locais nas ruas, além da marginalidade que todo tipo de camelô exprime, revela uma economia de subsistência tentacular, que une locais distantes às margens do grande rio ao núcleo urbano. Os gadgets chineses ainda não têm a mesma importância que as frutas da época.

O rio preside a cidade. Há um esforço para voltar a expansão urbana para o traçado do rio Guamá, como se a civilização devesse seguir sempre os caprichos da natureza. Novas avenidas são desenhadas, dando a direção dos negócios imobiliários, onde começam a surgir condomínios modernos, guetos de classe média. Ainda que haja uma “miamização” da orla, talvez ela não pressione a cidade de forma tão destrutiva como ocorre com outras cidades, pois aponta no sentido de uma zona de escape sobre territórios novos. O rio dirige e limita.

Nos próximos anos, 5 mil novos leitos hoteleiros de quatro e cinco estrelas serão disponíveis na cidade, onde hoje existe quase nada. O aeroporto já está dimensionado para o futuro. A restauração de locais forjados para a visitação turística, que até dois, três anos atrás não ocupavam mais de um dia do visitante, hoje já podem preencher de três a quatro dias. Não há dúvida: o boom turístico acontecerá em breve.
Ao contrário de destinos como os do litoral nordestino, que oferecem sol o ano todo, Belém oferece chuva o ano todo. Meses nos quais chove todo dia alternam-se como outros, nos quais chove o dia todo -brincam os habitantes da cidade. Este “clima de Macondo”, que Garcia Márquez imortalizou, é a marca da Amazônia. Mas, além de se molhar à beça em qualquer trajeto que se faça por mais de uma hora a pé, o visitante se depara com outros ineditismos.

A cozinha que sai da água
Se fosse possível definir em poucas palavras a cozinha paraense, teríamos que nos entregar às metáforas aquáticas. As coisas saem da água, do brejo, da beira-rio, para mergulhar em alguma espécie de caldo saboroso ao qual em geral se acrescenta, como “terra firme”, um tanto de farinha de mandioca.
A culinária gira em torno do rio e dos caldos; como a cidade de Belém, em cujo horizonte sempre se vê uma nesga do Guamá. É uma cozinha palafitada, onde nem se quer os limites entre o rio e o mar são muito claros, conforme mostrou o recente episódio de uma baleia que foi encontrar o seu fim mais de 100 km longe do mar; como a deliciosa pescada amarela que, sendo um peixe comum a todo o litoral brasileiro, só encontra um sabor excepcional em Belém, talvez graças à água doce na qual transita e se alimenta antes de mergulhar nas panelas.
Um panorama vivo dessa cozinha é dado por uma visita ao Mercado Ver-o-peso. Mesmo sucessivas reformas não foram capazes de descaracterizá-lo, como aconteceu ao Mercado Municipal de São Paulo ou, mais remotamente, ao Mercado Modelo de Salvador, onde sequer deixaram frutas e legumes como décor...

A onda de “refuncionalização” dos mercados parece ter preservado poucos destes no mundo. O Boqueria, em Barcelona; o Ver-o-peso, em Belém, são exemplos que escaparam com vida. A “refuncionalização” dos Armazéns das Docas do porto de Belém, bem ao lado do mercado, salvou-o, e pode-se dizer que a sua última reforma até o melhorou, em termos de higiene. Uma sorte danada.

Frutas in natura e em polpa, farinhas em enorme variedade, peixes, ervas, mezinhas, galinhas caipiras em pé, para abate; alguns exemplares de orquídeas amazônicas; quase tudo alheio ao turista, mostrando que o impulso dessa economia quase nada deve aos de fora -em geral alemães, americanos e franceses, mais do que brasileiros. É uma realidade tão pouco óbvia que, em geral, exige um intérprete. Como Paulo Martins.

Com a aparência física que beira a de um guru indiano, Paulo Martins é um pioneiro. Há mais de 20 anos sua família possui o restaurante “Lá em Casa”, agora definitivamente sob sua direção após a morte recente de sua mãe, Anna Maria. Em meio ao caos que é a “cozinha paraense”, esse restaurante se dedica a fixar um menu que possa ser reconhecido como “regional” não só pelos guias de turismo mas em qualquer parte do mundo.

Fazer uma ementa é essencialmente discriminar, incluir e excluir, firmando a visão do todo. Maniçoba, feijão manteiguinha de Santarém, várias farofas aproveitando a enorme diversidade de farinhas de mandioca, caldeiradas, tucupi, pato; peixes como o filhote, a pescada amarela, o tambaqui, o pirarucu e o tucunaré; o jambu com sua sensação “elétrica” na boca; frutas como o bacuri e a taperebá -tudo isso expressa opções que deixam de lado coisas igualmente interessantes para o investigador gastronômico mas que, no conjunto, apresentam o risco de desenraizar por completo o turista, atirando-o num abismo sem fundo.

Paulo busca criar um solo firme para a culinária local, eis o seu pioneirismo. Também por isso pagou do próprio bolso estudos que permitiram a descrição e tipificação do tucupi, em fase de registro oficial. Ele pretende criar o tucupi “DOC” e exportá-lo, ganhando o mundo com esse produto que, hoje, só aparece na alta gastronomia através de pratos elaborados por Alex Atala, em São Paulo, ou em ensaios dos modernos espanhóis.

A viagem gastronômica de Adrià
Paulo Martins está por trás de muita coisa que Alex Atala faz. Por isso, 2008 promete ser um ano decisivo, estratégico. Ferran Adrià deverá vir ao Brasil e, dentre suas exigências, figura uma estada com Paulo Martins em breve viagem de exploração gastronômica pelo rio Amazonas. O Brasil, desde 1500, se descobre de fora para dentro. Mas parece que isso já começou, e Paulo Martins, que cultiva velha relação com Adrià, sabe disso muito bem.

Fica-se sabendo, à boca pequena, que o “aerolula” já fez “escala técnica” em Belém só para recolher umas porções de picadinho de peixe de Paulo Martins para recepção oficial. Paulo Martins não confirma nem desmente. Prefere lembrar que, em breve, irá fazer um dos seus jantares em Beirute, e que já recusou fazer o mesmo nos Estados Unidos, pois não se dispõe a ir a Brasília fazer entrevista na embaixada americana para obter o necessário visto. “Se eles me convidam, deviam saber se eu posso ou não entrar nos Estados Unidos, não é?” Tem sua lógica.

Um museu da riqueza amazônica
Nua e crua, a biodiversidade é um tema chatíssimo. Coisa de ONG, não da gente. Mas quando se visita o Museu Emílio Goeldi, a abstração se desfaz em tantas materializações que ganha outro significado.
Aquele péssimo desenho da vitória-régia, ou aquela foto aguada dos livros de geografia, cedem lugar para algo realmente exuberante neste quadrilátero de Belém que existe como instituição científica desde pelo menos 1820.

A fundação do Museu visava criar uma base local para coleções de flora e fauna, além de etnográfica, procuradas de forma crescente desde as viagens dos naturalistas pioneiros, como a conhecida dupla Spix e Martius.

Em vez de só se coletar espécimes que integrariam coleções de museus europeus, por que não constituir no Brasil um museu que desse uma idéia dessa riqueza amazônica? Assim, a formação do museu e a designação, pelo imperador, do suíço Emílio Goeldi para dirigi-lo, estão na raiz do nascimento das ciências naturais no Brasil. O melhor da cerâmica marajoara e tapajônica; espécimes raríssimos da nossa flora (como arvores frutíferas provenientes do alto Rio Negro), um zoológico pequeno e expressivo, encontram-se no Museu Goeldi. Lá a velha legenda dos livros escolares -“Anta ou tapir”- se corporifica.

Com uma história, cheia de altos e baixos, semeada de abandonos e retomadas, está há pelo menos uma década em boa fase, graças às administrações de Peter Mann e Ima Vieira. Prova disso é a sua linha editorial, onde surgem coisas importantíssimas, como a edição anotada de um texto setecentista de Antonio Giuseppe Landi.

Publica-se coisas raríssimas, preciosas, em edições que logo se esgotam. Como um livro sobre frutas comestíveis da Amazônia, do recém falecido botânico Paulo Cavalcante. É uma cultura à parte, só acessível para as pessoas antenadas nas instituições científicas, ainda que possam ser de interesse bem mais amplo.

O museu é o principal foco de visitação dos estrangeiros em Belém. É uma maravilha muito mais maravilhosa do que o Cristo Redentor do Rio de Janeiro; escondida, sequer foi a votos dos que escolheram a obviedade carioca. Nem mesmo as empresas adeptas da Lei Rouanet descobriram o manancial de possibilidades que o Museu Goeldi encerra. Assim é Belém. Um recôndito de nós mesmos, uma dignidade insuspeita, uma fronteira do capitalismo moderno, uma riqueza ainda sem preço.
Carlos Alberto Dória
Homenagem singela à Lucilene Barbalho

14 de mar. de 2008

Vaidade desnecessária


Normalmente, são tão poucas as diferenças de homem para homem que não há motivo nenhum para sermos vaidosos
Baron de Montesquieu
Picture by Hyacinthe Rigaud










Luis XIV

Verdadeiro amor


Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação
Guy Maupassant
Picture David Gérard

Feng Shui - Viver em harmonia


Agradeça tudo de bom que a vida tem lhe tem proporcionado. Realize um desejo.
Reorganize seu lar, ele é o seu paraíso na terra, deve ser sempre abençoado para ser transformado em um recanto de paz.

Limpe os armários, desfaça-se do que não usa, desfazendo-se do velho, além de ajudar um irmão necessitado, também estará abrindo espaço para a entrada de algo novo, evite usar toalhas e lençóis rasgados, além de utensílios trincados. Tire os novos das embalagens, utilize o que tem de melhor.

Enquanto arruma a casa, lembre-se dos momentos felizes, coloque fotografias da família unida e feliz. Mantenha a cozinha sempre limpa e organizada, pois a cozinha é o lugar sagrado onde vão ser preparados os alimentos.

Espalhe flores e frutas pelo local. Faça sua oração antes de preparar a refeição. Faça um prato especial para todos os que ama e que também a amam muito. Pense em harmonia e paz.

O lixo possui muita energia negativa. Evite seu acúmulo. Enquanto transforma seu cantinho em um lugar especial e acolhedor, aproveite para harmonizar-se interiormente.

Perdoe-se, procure esquecer o que passou, programe-se para a felicidade cultivando pensamento positivos, você tem esse direito! Nunca duvide de sua capacidade. Imagine sempre acontecimentos agradáveis, abrace seus familiares e amigos.

Peça que o seu Anjo da Guarda vá na sua frente e prepare seu caminho. Ame, respeite e valorize essa pessoa perfeita e maravilhosa que você é. Agradeça a vida e sinta-se renovada a cada dia.
Lembre-se sempre: Você nasceu para ser feliz!

Cristina Pilan Oliveira
Picture by Salvador Dali

O cérebro humano


O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio, você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.
Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar:

Nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade.

Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo.

Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e "apagando" as experiências duplicadas. Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente.

Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo. Como acontece?

Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa , no lugar de repetir realmente a experiência).
Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa são apagados de sua noção de passagem do tempo.

Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações enfim as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo.

Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década. Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a rotina.
Não me entenda mal.

A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos. Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo:

M & M (Mude e Marque)

Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos.

Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas.

Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia). Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes. Seja diferente.

Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos em outras palavras : Viva!
Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo.

E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais vivo do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.
Cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes. Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?

Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

Escreva em tAmaNhos diFeRenTes e em Cores di f E rEn tEs !
Crie. recorte, pinte, rasgue, molhe, dobre, picote, invente, reinvente.
Viva!
Picture by Roger Broders

13 de mar. de 2008

Sol do Chile


À Mari,

Tenho pena do homem
que morrer sem antes amar
uma loira à luz de velas.
O preto de sua roupa misturado
com o roxo do vinho
criam um ar de paraíso hedonista.
As curvas se destacam
com o pressionar das minhas mãos.
A voz mansa provoca agora
um turbilhão de arrepios.
Os cachos de cabelo há muito
já viraram pétalas de rosas.
A sala transforma-se em um cubículo
que não cabe mais um grão de areia.
A certeza da eternidade some
e dá lugar ao imenso prazer.
O medo me alcança
pois o homem que esquecer o que é amar
uma loira à luz de velas já é digno de pena.
Thiago Albino
Picture by Howard Behrens

Louvor


Merecem louvor os homens que em si mesmos encontraram o impulso, e subiram nos seus próprios ombros
Sêneca
Picture by Rene Magritte

Religião e epilepsia


Um dos temas atuais mais palpitantes em neurociências é saber "onde" estão as redes neurais cerebrais que codificam a crença (ou a fé).

Localizacionistas apostam no lobo temporal, e tal convicção se fundamenta na religiosidade das pessoas que sofreram lesão nessa área.

Trabalhos científicos enfatizam o fato de que portadores de epilepsia do lobo temporal desenvolvem religiosidade exacerbada. Entre casos famosos mencionados encontra-se o pintor Vincent Van Gogh. Qual teria sido a origem do seu fervor religioso, levando-o a tornar-se um pregador tão obstinadamente preocupado com seus deveres que acabou expulso de sua seita? Numa tentativa de compreender melhor o fervor religioso despertado em pessoas com lesão temporal o neurologista Vilayanur Ramachandran estudou dois pacientes epiléticos do lobo temporal, ambos com tendência espiritualista exacerbada.

Submeteu-os a um experimento simples, conectando-lhes ao braço um eletrodo que capta impulsos elétricos na pele quando a pessoa é envolvida por alguma emoção. Numa tela de computador assistiam a figuras neutras (como bola de tênis, árvore e quadro-negro) intercaladas com imagens de sexo, violência, símbolos religiosos e palavras alusivas a Deus. Para surpresa dos examinadores, os impulsos mais intensos não se deram com cenas violentas ou eróticas: naqueles dois epiléticos do lobo temporal, a intensidade aumentava nitidamente quando os pacientes viam imagens religiosas.

Assim, seria lícito supor - por mais absurdo que possa parecer - que existem áreas no cérebro cujos circuitos são especializados em fé ou apego religioso? É exatamente aí que se inicia a penumbra do nosso conhecimento. Talvez por isso os neurocientistas tenham se negado sistematicamente a dedicar tempo de pesquisa ao tema.
Um epilético com lesão no lobo temporal e que desenvolvera religiosidade exacerbada quando não havia nele nenhum vestígio de interesse religioso antes da cirurgia causadora da lesão contou-me que, ocasionalmente, sofre uma crise em que tem a nítida sensação de sair do corpo, uma evidente sensação extra-sensorial. Relatos como esse se encaixam na experiência tornada pública em 2001 por Olaf Blanke. Ele colheu o extraordinário relato de uma paciente que passou por uma experiência extra-sensorial quando teve o giro angular direito estimulado por uma corrente elétrica.

Ela estava se submentendo a cirurgia de crânio para a retirada de áreas geradoras de descargas epiléticas no lobo temporal.Esse tipo de operação geralmente se faz sob anestesia local, pois é importante que o paciente esteja acordado para orientar os médicos quanto à sensação experimentada em cada área estimulada. Assim, colocam-se delicadamente eletrodos sobre o córtex cerebral, e desencadeia-se uma estimulação elétrica enquanto se aguarda a reação do paciente. Dessa forma, faz-se um mapa das áreas cerebrais próximas à lesão, permitindo identificar o local, remover precisamente a área afetada e preservar as áreas sadias das vizinhanças.

Quando neurocirurgiões estimularam o giro angular (região próxima à porção mais posterior do lobo temporal), a paciente relatou a sensação de levitar. Os estímulos foram repetidos várias vezes, e, numa delas, ela se referiu à sensação extracorpórea; estava a cerca de 2 metros distante do próprio corpo, perto do teto da sala, observando os médicos operar sua cabeça.Até que ponto o resultado desses experimentos se superpõem? Pode uma avaria nas redes neurais que parecem governar a fé desencadear uma crença que não existia ou estava adormecida? E qual o papel do giro angular na sustentação da imagem corporal? Por que a estimulação dessa área cortical projeta para o paciente sua imagem fora do corpo?

Que papel a evolução atribuiu ao lobo temporal no controle das nossas crenças? Se nossos genes são de fato "egoístas", a que atribuir a crença ilimitada em outra vida, em outra dimensão? E por que tais crenças se tornam acentuadas quando estruturas do lobo temporal são atingidas? Respostas a essas questões talvez sejam um dos maiores desafios para as neurociências.
Edson Amâncio - Neurocirurgião
Picture Claude Monet

Carências afetivas


Muito tenho lido, ouvido e comentado acerca das famosas carências afetivas e gostaria de dividir com vocês algumas reflexões sobre o assunto.
Quando se manifestam estas carências? no carinho que não nos deram, na falta da compreensão das nossas necessidades, do apoio que não nos foi dado, da atenção que nos é negada?
Ou seja, nos sentimos carentes quando depositamos nossas expectativas, anseios e desejos em uma felicidade distante de nós, damos a Deus, religião, pessoas, a responsabilidade de nos fazer felizes, porque nos sentimos incapazes de conseguir com o próprio empenho. O que fazemos então? corremos atrás de um substituto para que nos supra aquilo que outra pessoa nos negou.

É um círculo vicioso, uma eterna procura. Carência, ao contrário, deveria funcionar para nós como um alerta de que aquele setor precisa mais da nossa atenção, que precisamos de Auto-Amor. Nesta visão, ela deixa de ser algo que falta em nós por culpa de alguém e passa a ser algo que se manifesta em nós quando estamos precisando nos cuidar mais. De que maneira lidar deter ou incentivar o auto-amor? Estou convencida da eficácia de algumas mudanças internas:

1) Deixar de lado a visão separatista, ou seja, parar de nos dar várias classificações como: sou orgulhosa, sou vaidosa, sou ciumenta, sou egoísta... nossa tendência de nos apegar excessivamente a coisas e pessoas vem porque nos separamos do nosso eu divino, gerando insegurança e um constante medo da perda daquilo que depositamos nossa segurança.

2) Nos encarar como Seres Divinos, com conquistas a realizar, é verdade, mas filhos gerados pelo grande amor de nosso Pai - Deus.

3) Praticar o bem. Quanto mais descobrimos que dentro de cada um de nós existe uma enorme capacidade de doar amor, nos sentimos mais fortes e capazes de lidar com nossas próprias limitações.Temos sempre duas opções diante das carências: Ou somos médicos de nossas dores ou seremos eternas vítimas delas. Descobrir o potencial de amor e auto-amor que existe dentro de nós mesmos, nos faz optar e responsabilizar pela nossa felicidade.

Deste modo passaremos a cultivar o amor dentro de nós mesmos, pelos outros e por nós mesmos sem a preocuoação e sem culpa, sem cobranças ou patrulhamento. Não mais para agradar aos outros, para dar satisfação a sociedade ou para ter a aprovação de Deus (Este nos ama em qualquer situação), mas pelo prazer que amor nos traz. Deixemos que os sentimentos imaturos venham, ouçamos nossas carências, precisamos nos aceitar e conhecer para identificar quem nós somos, mas com Auto-Amor, curaremos a nós mesmos e supriremos aquilo que nos falta. Me despeço de vocês com o famoso cumprimento do Nepal - Namastê - ou seja, O Deus que habita em mim cumprimenta o Deus que habita em você.
Lucilene Barbalho
Picture by Claude Monet

12 de mar. de 2008

Entrega


A maior parte dos homens do mundo, por vaidade, por desconfiança, por medo da infelicidade, só se entregam ao amor de uma mulher após a intimidade
Stendhal
Picture by Guido Reni

Vontade e consciência


Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência
Aristóteles
picture by Mariano Marsal

Delicadeza


Só é capaz de se comportar com delicadeza quem tem necessidade dessa mesma delicadeza
Hermann Hesse
Picture by Francisco de Goya

Se fosse...


Se fosse Deus teria piedade do coração dos homens
Maurice Maeterlinck
Picture by Roger van der Weyden

A dor


Normalmente, a ausência de dor é apenas a condição física necessária para que o indivíduo sinta o mundo; somente quando o corpo não está irritado, e devido à irritação voltado para dentro de si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar normalmente e receber o que lhes é oferecido.
A ausência de dor geralmente só é «sentida» no breve intervalo entre a dor e a não-dor; mas a sensação que corresponde ao conceito de felicidade do sensualista é a libertação da dor, e não a sua ausência. A intensidade de tal sensação é indubitável; na verdade, só a sensação da própria dor pode igualá-la.
Hannah Arendt
Picture by José de Ribera

Santas e anoréxicas


Na idade média, gordura era sinal de prosperidade e beleza. Tal exuberância causou indignação entre jovens religiosas, que passaram a recusar alimento
Por muitos e muitos milênios, e ainda hoje, para vastos contingentes populacionais a falta de alimento, não o excesso deste, constituía ameaça à saúde. Magreza era um perigo; estava associada com muitas doenças, sobretudo a tuberculose. Gordura, pelo contrário, era sinal de saúde.
Estes conceitos mudaram radicalmente. Obesidade, sabe-se hoje, predispõe a doenças. O obeso é, não raro, olhado com irritação; afinal, comer é uma forma primária, e fácil, de gratificação; remete à oralidade da infância. O obeso ocupa espaço, num mundo em que a expressão “estou buscando meu espaço” é constantemente repetida.
Obesidade gera culpa e é combatida com providências às vezes drásticas. Mulheres jovens, sobretudo, restringem dramaticamente a ingestão de alimentos, não raro chegando à anorexia nervosa, uma situação que, entre parênteses, só no século XIX foi rotulada como doença. Uma doença para a qual chamaram a atenção os óbitos da cantora americana Karen Carpenter e, mais recentemente, da modelo brasileira Ana Carolina Reston Macan.A anorexia começou a se tornar visível no início da Idade Moderna.
Depois de séculos de pobreza medieval, a Europa entrou num período de prosperidade: as pessoas das classes mais elevadas passaram a se vestir bem, morar bem, comer bem – e muito. A gordura era sinal de prosperidade e, nas mulheres, de beleza, como mostram os quadros de Rubens (1577-1640). Esta exuberância suscitou protestos que, sobretudo entre religiosas jovens, tomaram a forma de recusa do alimento. Um exemplo clássico é o de Santa Catarina de Siena. Nascida em 1347, ela foi educada por uma mãe dominadora, com quem tinha uma relação conflituosa. Muito cedo começou a ter visões místicas e, a partir daí, passou a recusar o alimento e a se flagelar. Só comia alguns vegetais e frutas para não chocar demasiadamente as pessoas com quem convivia.
A fragilidade de seu corpo antecipava uma morte precoce e, de fato, faleceu aos 33 anos. Já Santa Maria Madalena de Pazzi (1566-1607) via a vontade de comer como tentação do Diabo; Santa Rosa de Lima (1586-1617), além de jejuar, usava cilício e dormia em cama forrada de cacos de vidro, espinhos e pedras. Às sextas-feiras, dia da Paixão de Cristo, Santa Verônica Giuliana (1660-1727) ingeria apenas cinco sementes de laranja, evocando as cinco chagas de Jesus.
Séculos depois, movida por motivação similar, uma escritora francesa também ficaria conhecida pela anorexia: Simone Weil (1909-1943). De uma culta e abastada família judaica, Weil muito cedo tornou-se militante esquerdista e foi trabalhar como operária numa fábrica: penosa experiência, que retratou em La condition ouvrière (A condição operária). Deixou o judaísmo e passou a praticar um cristianismo peculiar, místico. Seu ascetismo manifestava-se na recusa de alimentos, coisa que aliás vinha desde a infância: aos 5 anos negava-se a comer açúcar, porque o uso do produto era racionado entre soldados franceses que lutavam na Primeira Guerra.
Durante a Segunda Guerra, exilada nos Estados Unidos, limitava-se a ingerir o equivalente das rações dadas aos seus concidadãos na França ocupada: sentia-se culpada por ter alimento quando tanta gente passava fome e por ser poupada da guerra enquanto tantos soldados morriam. Seguiu-se a desnutrição, agravando a tuberculose de que já sofria; e, por fim, faleceu em Londres, onde tentava participar da resistência contra os nazistas. Sua trágica existência, mostra, entre outras coisas, que o alimento pode ter um aspecto simbólico importante. Tão importante que às vezes é capaz de ceifar vidas.
Moacyr Scliar
Picture by Rubens

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