11 de mai. de 2012

Musica grudenta

As músicas têm uma capacidade incrível de grudarem nas nossas cabeças, e ficarem ecoando sem parar em nosso pensamento, atrapalhando a concentração em qualquer outra atividade. Como repórter de ciências, resolvi descobrir por que isso acontece.

Há várias semanas, em uma manhã de domingo, eu estava em casa e, de uma hora para outra, três palavras surgiram na minha cabeça: Funky Cold Medina.
Esse é o nome de uma música do rapper Tone Loc, que, fiquei sabendo recentemente, fez muito sucesso nos anos 1990. Eu ouvira a canção pela primeira vez na noite anterior, em bar de caraoquê.
Por mais que eu tentasse parar de pensar na música, a letra da canção não saía da minha cabeça. Eu passei quase dois dias até conseguir finalmente esquecer a música.
A pesquisadora Vicky Williamson, especializada em psicologia da música, resolveu estudar o fenômeno de músicas que grudam na cabeça depois de perceber que havia pouca literatura científica sobre o assunto.
Ela descobriu que há diversos termos diferentes em inglês usados pelos cientistas para descrever o fenômeno: "stuck-song syndrome" (ou síndrome da canção empacada), "sticky music" (canção pegajosa), "cognitive itch" (coceira cognitiva) ou "earworm" (verme de ouvido).
Williamson participou de um programa de rádio da BBC perguntando aos ouvintes quais "músicas pegajosas" estavam os afligindo recentemente. Ela também reuniu relatos e experiências em uma pesquisa feita no seu site.
Estresse
Com base nesses dados, ela chegou a alguns resultados surpreendentes.
"Quando analisei mais de mil canções pegajosas, percebi que apenas meia dúzia havia sido citada mais de uma vez - o que mostra quão heterogênea foi a resposta das pessoas. É um fenômeno muito individual", diz Williamson.
Hoje a pesquisadora já possui mais de 2,5 mil relatos. Ela diz que algumas músicas são mais pegajosas simplesmente por estarem em evidência em filmes e seriados de televisão.
É o caso da canção Don't Stop Believing, do conjunto Foreigner, que no começo da sua pesquisa era uma das mais citadas. Na época, a música havia voltado às paradas graças ao seu uso no musical americano Glee.
A psicóloga passou então a tentar entender quais mecanismos desencadeiam o fenômeno.
O primeiro dos fatores é a exposição. A música precisa ter sido ouvida recentemente. Outro é a repetição: quanto mais frequente a música toca, maior é a chance de ela grudar na cabeça de quem ouve.
No entanto, muitas músicas podem ser "despertadas" por memórias ou ambientes ao nosso redor.
Williamson explica que passou por esse tipo de experiência quando viu uma caixa de sapatos antiga em seu escritório.
"A caixa era de uma loja chamada Faith. Só de ler essa palavra, minha cabeça percorreu uma trilha de memórias até chegar à canção Faith, de George Michael. Dali em diante, eu passei o resto da tarde com a música na cabeça", conta a pesquisadora, que resolveu tirar a caixa do escritório.
Outro fator é o estresse. Uma das entrevistadas disse que quando ela tinha 16 anos - durante uma época de exames escolares estressantes - ela ficou com a música "Nathan Jones" do Bananarama em sua cabeça por dias.
Agora, a entrevistada diz ouvir a música em sua cabeça toda vez que vive algum momento de estresse.
Memória musical
Há algumas teorias que tentam explicar por que uma música gruda na cabeça das pessoas.
Williamson diz que isso pode ser parte de um fenômeno mais amplo, conhecido como memória involuntária. Outra manifestação de memória involuntária é quando alguém fica com vontade de comer algo por se lembrar de uma comida.
Há uma série de motivos que fazem com que isso aconteça também na música. Primeiro pela música ser um estímulo multi-sensorial, que é sensível a vários fatores externos.
"Segundo porque a música é codificada de forma muito pessoal e emocional, e sabemos que tudo que é codificado com conotações pessoais e emocionais é mais fácil de ser lembrado pela memória", afirma Williamson.
Outros especialistas sugerem que o fenômeno é explicado pela forma como os humanos se desenvolveram.
"Por um longo período, nós precisávamos lembrar informações do tipo: onde fica o poço mais próximo, que tipos de comidas são venenosas e como tratar feridas para evitar infecções", diz Daniel Levitin, da Universidade McGill, de Montreal, especialista em neurociência da música.
Como a escrita só foi inventada há cinco mil anos, enquanto os humanos existem há 200 mil anos, a música foi usada por muito tempo como técnica de memorização, explica Levitin.
Essa prática, segundo ele, continua até hoje, sobretudo em culturas com forte tradição oral.
Levitin diz que a combinação de ritmos, rimas e melodia faz com que músicas sejam mais fáceis de se memorizar do que apenas palavras.
Aos que querem se livrar de uma canção pegajosa, Levitin sugere: "Pense em outra música, que talvez possa expulsar a canção da sua cabeça".
Vicky Williamson está buscando a melhor "cura" para músicas grudentas. Uma das táticas que ela tem explorado é praticar outras atividades, como palavras-cruzadas ou corrida.
BBC 

9 de mai. de 2012

Amor de mãe

Um pai pode negligenciar seu filho, irmãos e irmãs podem se tornar inimigos inveterados; maridos podem abandonar suas esposas, e esposas os seus maridos. Mas o amor de uma mãe resiste a tudo
Washington Irving

Amparo necessário

Honrar o pai e a mãe não é somente respeitá-los, mas também assisti-los nas suas necessidades; proporcionar-lhes o repouso na velhice; cercá-los de solicitude, como eles fizeram por nós na infância.
Allan Kardec

Ano Comum

Ó mãe, regressa a mim. 
Embala-me no tempo em que os teus lábios rebentavam de ternura. 
Ó mãe, ó minha mãe, ó rio de água pura, correndo pelas veias. 
Pelo vento. 

Ó mãe, que és mãe de Deus, que és mãe de mim e mãe de Antero e de Camões, e mãe de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. 

E são assim uma espécie de filhos de ninguém. 
Abre o teu ventre, mãe. Acorda. 
Vem parir-me. 
E vem sofrer a minha dor uma vez mais. 
Morrer de amor por mim. 
Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais. 

Ó mãe, ó minha mãe. 

Ó pátria. Ó minha pena. 
Que me pariste, assim, temperamental. 
Mãe de Ulisses, de Guevara e mãe de Helena. 
E mãe da minha dor universal. 
Joaquim Pessoa

Trabalho incansável

Dedicado especialmente à D. Dora
O trabalho de um homem é de sol a sol, mas o trabalho de uma mãe nunca termina

Poderosa pílula - Acomplia


Acaba de ser liberado no Brasil o Acomplia, um remédio audacioso que, ao mesmo tempo, ataca a obesidade, melhora o colesterol e a diabete. Um dia ele poderá ajudar você


Os brasileiros empenhados em vencer a obesidade e seus perigosos desdobramentos têm um aliado novo e poderoso. Chega ao Brasil até o final de julho a primeira pílula que ataca de uma só vez a obesidade e os conhecidos e temidos vilões a ela associados. Além de combater a gordura, melhora o HDL, o colesterol bom que protege o coração, e diminui as chances de manifestar diabete, uma doença que se tornou epidemia mundial e que aumenta drasticamente os riscos de problemas cardíacos e circulatórios. O super-remédio, o rimonabanto, fabricado com o nome comercial de Acomplia, da gigante farmacêutica Sanofi-Aventis, é o primeiro de uma nova classe que combate todos esses problemas ao mesmo tempo, de um modo abrangente e inédito. Aprovado no final de abril pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, é considerado audacioso e com potencial para tirar muita gente do perfil de risco para doenças cardiovasculares, as que mais matam no mundo. O medicamento já tem venda liberada em países da Europa e aguarda autorização do FDA para entrar no mercado americano. Ao que tudo indica, será o mais novo blockbuster. O termo é aplicado para designar remédios de grande sucesso como os medicamentos Viagra e Cialis, para disfunção erétil, Lipitor, para redução do colesterol, e o anticoagulante Plavix.

Na prática, ele pode ser a esperada solução para pessoas que estão realmente muito acima do peso e para aqueles que convivem com alguns quilinhos, situados especialmente no abdome, e convivem com algum vilões cardiovasculares. Os mais comuns são a diabete tipo dois, adquirida ao longo da vida, e alterações nos níveis de colesterol e triglicérides, outra das gorduras circulantes no organismo. “Quem soma esses três fatores de risco tem três vezes mais chances de ter um infarto”, diz o cardiologista Álvaro Avezum, diretor de pesquisa do Instituto Dante Pazzanese, de São Paulo. Quando esses sintomas aparecem em conjunto, caracterizam o que alguns especialistas chamam de síndrome metabólica. A lista, encabeçada pelo aumento da circunferência abdominal – a medida-limite é de 94 centímetros em homens e 80 para mulheres, inclui a pressão alta, baixos níveis de HDL, elevação do triglicérides (um tipo de gordura) e também da glicose no sangue, evidenciado a resistência à insulina, o hormônio que abre a porta das células para a entrada da glicose. No Brasil, essa sobreposição de sintomas possivelmente atinge três em cada dez pessoas.

A ação mais enaltecida do rimonabanto é sobre o acúmulo de gordura abdominal, aquela que muita gente insiste em chamar de barriguinha de chope. “A melhor indicação é para as pessoas que têm acúmulo de gordura abdominal. Ela se infiltra entre os órgãos e produz substâncias que aumentam o risco de doenças cardiovasculares. Tudo isso estimula a elevação do colesterol e outros problemas”, explica o cardiologista Antônio Carlos Chagas, chefe do setor de aterosclerose do Instituto do Coração da Universidade de São Paulo. No caso do diabetes, o efeito se explica porque a ação do remédio facilita o trabalho da insulina, o hormônio encarregado de levar o açúcar para dentro das células. “A diabete surge quando o pâncreas foi muito exigido e não consegue mais produzir insulina”, explica o médico Antônio Roberto Chacra, chefe do serviço de endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo.

Em várias frentes

A explicação para a ação múltipla e revolucionária do Acomplia é seu mecanismo inédito de ação. Ele usa um caminho já estudado, mas até agora jamais utilizado pela medicina como via terapêutica. Trata-se do sistema endocanabinóide, situado em uma área do cérebro que regula as emoções e que está envolvido em atividades importantes como a regulação do gasto e formação de estoques de energia e nas sensações de recompensa e prazer. A estrutura ficou conhecida na década de 1960 durante os estudos para entender onde a maconha agia no organismo. A pesquisa revelou que as substâncias ativas da Cannabis sativa, o nome científico da maconha, dirigiam-se a pontos específicos das células, os receptores CB1. Como uma chave que encontra a fechadura perfeita, o encontro das moléculas com os receptores dava o acesso ao sistema. Ou seja, garantia a ação da substância sobre ele. O avanço da pesquisa revelou a presença de receptores iguais a esses nos músculos, na gordura, no intestino e no fígado. Todos eles estão associados, de algum modo, aos mecanismos de controle das reservas energéticas do corpo. Quando são estimulados, avisam o cérebro de que está na hora de providenciar novo suprimento de substâncias que ativem os centros de prazer. Uma das manifestações dessa ativação é a famosa “larica”, o desejo de comer doces que acomete algumas pessoas depois de umas baforadas de cannabis. Feita a descoberta, os cientistas decidiram criar uma molécula com o poder de bloquear essas “fechaduras” da célula. Desse processo surgiu o rimonabanto.

A expectativa em torno do remédio é enorme e outras companhias farmacêuticas já estudam drogas que façam o mesmo percurso no corpo. Ainda que nas pesquisas iniciais ele tenha mostrado efeito emagrecedor e insinuado uma boa ação antitabagismo, os estudos mostraram que seu poder maior é sobre as gorduras. “O rimonabanto tem uma propriedade única, que é diminuir a formação de gorduras pelo organismo e aumentar a sua queima. Isso ocorre especialmente na gordura abdominal, que também melhora o controle das taxas de açúcar no sangue. Todos esses efeitos indicam que será de grande ajuda para prevenir doenças cardiovasculares”, explica o endocrinologista Amélio de Godoy Matos, do Instituto Estadual de Endocrinologia e Diabetes do Rio de Janeiro, que participa de estudos sobre o medicamento iniciados recentemente no Brasil.
Diante dos efeitos comprovados pelos estudos, vários médicos já receitam o Acomplia. O cardiologista Álvaro Avezum. “É um recurso valioso para diminuir as chances de pessoas com vários fatores de risco de terem um problema cardiovascular”, garante Avezum. Com a indicação, o executivo Miguel Teodoro da Purificação perdeu 12 centímetros de cintura, aumentou o colesterol bom e começa a ter mais controle da diabete. “Custou caro, mas eu mereço. Fiz um procedimento para desobstruir as artérias do coração e quero o melhor para me colocar em forma. Comecei até a fazer exercícios”, diz ele, que chegou a pagar R$ 395 reais por uma caixa importada com 28 comprimidos. “Minha expectativa é que o preço baixe ao chegar ao Brasil”, diz. Na verdade, o preço do Acomplia deverá ser estipulado dentro de 30 a 60 dias. A estimativa é que será cerca de 30% mais barato do que os valores cobrados pelas importadoras.

Os cuidados

Apesar de ter múltiplas ações, o Acomplia não é uma pílula mágica e tem seus efeitos colaterais. “Ele não pode ser tomado por pessoas com depressão e sintomas fortes de ansiedade”, explica a endocrinologista Maria Fernanda Barca, do grupo de tireóide do Hospital das Clínicas de São Paulo. A experiência da carioca Fátima Vasconcellos, da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, confirma o risco, indicado na bula. “Tenho um paciente que perdeu dez quilos com o rimonabanto, mas ele ficou deprimido. Queixou-se também de ficar irritado e perdeu o interesse por sexo. Realmente, não é indicado para pacientes com problemas psiquiátricos”, diz ela. A endocrinologista Fernanda tem mais de 70 pacientes usando o produto. Uma delas é Clara Elisabeth Rabinovich. Depois de tentar perder peso com muitos medicamentos diferentes, ela começou o tratamento com o Acomplia há seis meses. “Não sou muito gorda, mas preciso controlar o peso e domar o colesterol. Tomo estatina, mas ao usar esse novo medicamento perdi peso e barriga, o colesterol bom subiu e eu não sofri mudanças de humor como nas outras vezes”, explica ela.

Esperanças

Como ainda é um medicamento novo, os médicos não sabem ao certo por quanto tempo ele deve ser tomado. Para o endocrinologista Godoy, talvez venha a ser tomado regularmente e por tempo prolongado como as estatinas, os remédios milagrosos para controle do colesterol que se tornaram rotina para proteger o coração de milhares de brasileiros. “Como a obesidade é uma questão crônica, pode ser que seja tomado por longos períodos”, arrisca. Outros acreditam que ele pode normalizar o funcionamento do organismo. “Precisamos acompanhar seu uso prolongado. Por enquanto, tenho pacientes tomando há cerca de 120 dias”, diz o cardiologista Avezum.
Sempre que surge um produto como esse, todo mundo quer tomar. É o que acontece com a jovem carioca Karina de Melo, 20 anos, que deposita imensas esperanças na nova droga. “Gosto de comer arroz, lasanha e chocolate também é meu fraco. Como não faço exercício, não consigo emagrecer. Saí à família de meu pai, que tem tendência a engordar. Quem sabe esse remédio pode me ajudar. Só não sei se vou ter dinheiro para comprar”, explica. Outra grande dúvida é sobre os benefícios para mulheres magras que desejam livrar-se da incômoda barriguinha. Elas devem ou não pedir aos seus médicos que indiquem o remédio? “Depende. Não é um remédio para quem quer perder apenas dois quilos. Ele só pode ser recomendando para quem tenha algum outro problema como alterações nas gorduras do sangue”, explica o endocrinologista Chacra.
Dúvidas

O carioca Walmir Coutinho, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, acha importante baixar um pouco a bola do remédio para que não chegue ao mercado como se fosse uma pílula mágica. Ele indica o produto para alguns de seus pacientes. “Outros medicamentos disponíveis podem ser tão eficientes como o rimonabanto. O sucesso do tratamento está relacionado com o diagnóstico correto dos fatores de risco e das características do paciente. Na verdade, nenhum remédio resolve o problema da obesidade, apenas ajuda na solução. Não existem milagres, como as pessoas gostariam. O mais importante é mudar os hábitos alimentares e manter a atividade física”, explica. Em outras palavras: é fundamental que o paciente também faça a sua parte.
Celina Côrtes e Mônica Tarantino

6 de mai. de 2012

Mar

Homem livre, tu sempre gostarás do mar.
Charles Baudelaire

Liberdade

Aqui nesta praia onde 
Não há nenhum vestígio de impureza, 
Aqui onde há somente 
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade, 
Aqui o tempo apaixonadamente 
Encontra a própria liberdade. 
Sophia de Mello Breyner Andresen

Cézanne


Ramuz empreendeu uma breve e inhabitual viagem, ou peregrinação, para conhecer a cidade do pintor Cézanne, com quem tanto se identificava, e aprender algo do ambiente no qual o artista viveu. 

Entretanto, rapidamente se deu conta que não encontraria o que estava procurando, o próprio Cézanne. Com efeito:

Por que vir procurá-lo aqui, quando ele não estava mais, quando ele nem podia mais estar aqui? Era a pergunta que eu ficava repetindo. Precisava dele ainda vivo.

Só tive de sair da cidade; ela não é grande. [...]

Ainda não se conseguia enxergar nada, por causa dos muros, dominados apenas, a uma distância regular, pelo cume de um cipreste ou por copas de folhagens redondas; mas quando aquele que eu procurava se ergueu enfim diante de mim, ele se ergueu de todos os lugares ao redor, saltando contra minha face.

Esta ruína marcada obliquamente por uma fenda larga, coberta de um telhado de uma só aba; estas superposições de rochedos cinzentos em camadas e bancadas horizontais, entre as quais há como que andares gramados; as altas toras retorcidas e ruivas dos pinheiros que parecem se entrecruzar ao acaso com uma encosta ao fundo, e no entanto é uma lei rígida que decide sua orientação; a maneira pela qual este galho, de um verde surdo, parece ter sido esfregado de cima para baixo na própria tela do céu; estes agrupamentos, estas aproximações, o encaixe, o maciço, o essencial do conjunto, e acima disto tudo, o céu que é o valor mais escuro, mais até do que os verdes da sombra, quando a hora assustadora do meio-dia destaca, um após o outro, os volumes: para onde quer que eu me virasse, ali estava ele, não havia mais nada além dele...

O lugar onde ele se encontra é aqui, pensava eu (e em outros lugares, sem dúvida, já que ele está em todas as mentes), porém eu procurava situá-lo, exteriormente, se é que se pode dizer, procurando pelo alicerce: eis o alicerce, de bela rocha, assim como convinha. Era mesmo, lá longe, esta pirâmide de telhados com uma torre que a corava, parecida com um cajado fincado num monte de pedras; eram mesmo estas linhas inclinadas, estas linhas tortas, tão belas na sua inclinação, tão belas por serem tortas; era mesmo também esta solidão. Ali, a pedra e a arquitetura reinam sós: a presença humana não intervém. Eu me lembrava das suas paisagens pintadas: o homem não aparece nunca nelas, quero dizer, o homem tal como ali o encontramos, mesmo que raramente, por causa da aridez do solo, e não há nem lavoura, nem pasto. Em que me importa nele a hora, e a vida, digamos, social? O que impele tantos outros a "animar" a natureza é precisamente que neles ela não tem alma. 

De modo que eles reúnem mulheres em torno do chafariz, eles se agarram ao "tema"; a anedota sobrevém naturalmente por eles se situarem no acidental. Aqui, uma nudez quase geológica. Tem a árvore, tem a rocha, e só. E tem o muro também, mas muro ainda é solo, já que é inteiramente feito de rocha, o próprio solo, que de uma marretada posso desagregar, para erguer uma nova construção. Ali também, totalidade. E quando, enfim, o homem está à vista, qualquer transeunte que ele pare na estrada pedindo para que sirva de modelo, ele o considera assim como a paisagem, isoladamente, por ele mesmo. Retratos, figuras de bebedores, jogadores de baralho, mulheres de roupão em velhas poltronas, a paisagem está ali ausente; nenhum outro pano de fundo a não ser a cor cinza de uma parede ou os desenhos fora de moda de um papel de parede. A roupa, o jeito, o gesto, talvez sejam "exatos" e perfeitamente caracterizados, mas tanto faz para nós! Novamente, aqui, o volume, apenas o volume – e o sentimento, de tanta grandeza, tão atuante, tão nobre às vezes por ser contido, enquanto outros o vilipendiam e, por o conhecerem apenas superficialmente, o espalham superficialmente no arranjo e no "tema"; mas aqui ele é profundo e intimamente mesclado com a carne, com os nervos, com o sangue, ele próprio sendo substância, e é apenas pela forma que Cézanne pretende expressá-lo. [...]

Foram muitos os pintores que, com efeito, instalaram a sua tela aqui, neste pobre país de aquarelistas! Provença fácil, exterior, Provença de efeitos, Provença de manchas, com este "belo" sol cantado nas óperas: ah! a Provença dele, por contraste, esta Provença grave, austera, sombria com intensidade, surda, ficando por baixo, toda de harmonias foscas, estas vizinhanças das cores azuis e verdes que estão na base de tudo, e este cinza derramado por toda parte, que expressa a profundeza, e que expressa a poeira, porque a luz, afinal, é poeira, para quem enxerga além da superfície e do acidente. Uma natureza quase espanhola, com esta espécie de paixão contida, que murmura sem gesticular; uma terrível unidade católica da mente e do sentimento, uma terrível obrigação de conter tudo nessa unidade.

Como ele está presente, como ele está só, como todo o resto desmorona! Como tudo é ensaio, esboço, pequena mentira, como tudo é momentâneo perto dele!
Charles-Ferdinand Ramuz

5 de mai. de 2012

Nossas pontes do dia a dia

Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida — ninguém, exceto tu, só tu. 
Nietzsche

Persistência

As pessoas que resolviam as coisas em geral tinham muita persistência e um pouco de sorte. 

Se a gente persistisse o bastante, a sorte em geral chegava. 

Mas a maioria das pessoas não podia esperar a sorte, por isso desistia. 
Charles Bukowski

Aposte na simplicidade para ser feliz


Felizmente existe a ideia da simplicidade, e esta é, digamos, simples desde sua origem. 

A palavra é formada por duas outras de origem latina: sin, que significa único, um só, e plex, que quer dizer dobra. Ser simples significa ter uma só dobra, ao contrário do complexo, que tem várias. Simples! 
Simplificar significa evitar a complexidade e criar uma vida sem mistérios? Há uma diferença fundamental entre ser simples e ser simplório. Os simples resolvem a complexidade, os simplórios a evitam. 

Eu conheço pessoas sofisticadas, intelectualizadas, que levam uma vida plena, realizam trabalhos difíceis, apreciam leituras profundas e têm hábitos peculiares. 

E continuam sendo pessoas descomplicadas. Conheço também pessoas simplórias, com pouca profundidade, que realizam trabalhos repetitivos, que têm poucas ambições, que apreciam rotinas e evitam os sustos de uma vida aventurosa. E mesmo assim são pessoas complicadas, para elas tudo é muito difícil, em geral impossível.

Não há um paradoxo em construir uma vida simples em meio à vida moderna, cada vez mais exigente? Hiroshi criou a Ecovila Clareando, uma comunidade autossustentável no interior de São Paulo que atrai gente comprometida com a natureza e com seus valores, como a sustentabilidade, sem a ingenuidade das "sociedades alternativas" de antigamente, mas tendo a simplicidade como filosofia. Ele planta e produz praticamente tudo o que precisa para se alimentar, domina as técnicas de construção ecológica e de produção de energia limpa. Mas não é um isolado, viaja, participa de congressos, dá palestras, toca violão, compõe músicas. E é alegre em tempo integral.

Goldberg é professor da New York University, onde faz pesquisas sobre o cérebro humano, e consegue falar sobre seu funcionamento de maneira compreensível. Escreveu alguns livros, entre eles O Paradoxo da Sabedoria, em que afirma que, apesar do envelhecimento do cérebro, a mente pode manter-se jovem. Seus textos são o melhor exemplo de como se pode simplificar o complexo, pois são sobre neurofisiologia, mas qualquer um entende.

Eu não poderia imaginar vidas mais diferentes e, ao mesmo tempo, mais parecidas. Ambos carregam uma leveza própria das pessoas que decidiram não complicar, sem abrir mão de seus desejos, projetos, pequenos luxos, enfim, da vida normal. Pessoas assim, que fazem a opção da simplicidade, têm alguns traços comuns. Identifico cinco deles:

1. São desapegadas: não acumulam coisas, fazem uso racional de suas posses, doam o que não vão usar mais.

2. São assertivas: vão direto ao ponto com naturalidade, mesmo que seja para dizer não, sem medo de decepcionar, não "enrolam" nem sofisticam o vocabulário desnecessariamente.

3. Enxergam beleza em tudo: em uma flor no campo e em um quadro de Renoir; em uma modinha de viola e em uma sinfonia de Mahler; em um pastel de feira e na alta gastronomia.

4. Têm bom humor: são capazes de rir de si mesmas e, mesmo diante das dificuldades, fazem comentários engraçados, reduzindo os problemas à dimensão do trivial.

5. São honestas: consideram a verdade acima de tudo, pois ela é sempre simples e, ainda que possa ser dura, é a maneira mais segura de se relacionar com o mundo.

Ser simples, definitivamente, não é abrir mão de nada. É possível apreciar o conforto, a sofisticação intelectual, as artes, o prazer da culinária, a aventura das viagens e continuar sendo simples.

Pois ser simples não é contentar-se apenas com o mínimo para manter-se fisicamente vivo, uma vez que não somos só corpo, também somos imaginação, intelecto, sensibilidade e alma. E esta última é, sim, simples, mas não é pequena, a não ser, é claro, que a pessoa queira.
Eugenio Mussak

Simplicidade

Na simplicidade aprendemos que reconhecer um erro não nos diminui, mas nos engrandece, e que as pessoas não existem para nos admirar, mas para compartilhar conosco a beleza da existência.
Roberto Shinyashiki

4 de mai. de 2012

Va Pensiero




No dia 12 de março de 2011 a Itália festejava os 150 anos de sua criação, ocasião em que a Ópera de Roma apresentou a ópera Nabucco de Verdi, símbolo da unificação do país, que invocava a escravidão dos Judeus na Babilônia, uma obra não só musical mas, também, política à época em que a Itália estava sujeita ao império dos Habsburgos (1840).. 

Sylvio Berlusconi assistia, pessoalmente, à apresentação, que era dirigida pelo maestro Riccardo Muti. Antes da apresentação o prefeito de Roma, Gianni Alemanno – ex-ministro do governo Berlusconi, discursou, protestando contra os cortes nas verbas da cultura, o que contribuiu para politizar o evento. 

Como Muti declararia ao TIME, houve, já de início, uma incomum ovação, clima que se transformou numa verdadeira «noite de revolução » quando sentiu uma atmosfera de tensão ao se iniciar os acordes do coral « Va pensiero » o famoso hino contra a dominação. « Há situações que não se pode descrever, mas apenas sentir ; o silêncio absoluto do público, na expecativa do hino ; clima que se transforma em fervor aos primeiros acordes do mesmo. A reação visceral do público quando o côro entoa – ‘Ó minha pátria, tão bela e perdida’ - ».


Ao terminar o hino os aplausos da platéia interrompem a ópera e o público se manifesta com gritos de « bis », « viva Itália », « viva Verdi » . Das galerias são lançados papéis com mensagens políticas.

Não sendo usual dar bis durante uma ópera, e embora Muti já o tenha feito uma vez em 1986, no teatro À La Scala de Milão, o maestro hesitou pois, como ele depois disse : « não cabia um simples bis ; havia de ter um propósito particular ». Dado que o público já havia revelado seu sentimento patriótico fez com que o maestro se voltasse no púlpito e encarasse o púlblico, e com ele o próprio Berlusconi. 


Fazendo-se silêncio, pronunciou-se da seguinte forma, e reagindo a um grito de « longa vida à Itália » disse Riccardo Muti :

« Sim, longa vida à Itália mas ... [aplausos]. Não tenho mais 30 anos e já vivi a minha vida, mas como um italiano que percorreu o mundo, tenho vergonha do que se passa no meu país. Portanto aquieço a vosso pedido de bis para o Va Pensiero. Isto não se deve apenas à alegria patriótica que senti em todos, mas porque nesta noite, enquanto eu dirigia o côro que canatava ‘ Ó meu pais, belo e perdido’, eu pensava que a continuarmos assim mataremos a cultura sobre a qual se assenta a história da Itália.. Neste caso, nós, nossa pátria, será verdadeiramente ‘bela e perdida. [aplausos retumbantes, incluindo os artistas da peça]


Reina aqui um ‘clima italiano’ ; eu, Muti me calei por longos anos. Gostaria agora...   nós deveriamos dar sentido à este canto ; como estamos em nossa casa, o teatro da capital, e com um côro que cantou magnificamente, e que é magnificamente acompanhado, se for de vosso agrado, proponho que todos se juntem a nós para cantarmos juntos. »


Foi assim que Muti convidou o público a cantar o Côro dos Escravos. Pessoas se levantaram. Toda a ópera de Roma se levantou... O coral também se levantou. Foi um momento magnífico na ópera ! Vê-se, também, o pranto dos artistas.
Aquela noite não foi apenas uma apresentação do Nabuco mas, sobretudo, uma declaração do teatro da capital dirigida aos políticos.

Mulher...

Mulher: a mais nua das carnes vivas e aquela cujo brilho é o mais suave. 
Antoine de Saint-Exupéry

O amor e o mar

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. 
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. 
Carlos Drummond de Andrade


Dedicado ao Gugu, amigo-irmão de primeira hora

Negar amor a uma mulher

Negar amor a uma mulher encantadora e linda é coisa que não se deve fazer em hipótese alguma, pois isso é gravíssimo pecado: Deus castiga... 
Augusto Branco

Sonhos

O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente. 
Sigmund Freud

Metade

Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba 
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer 
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção. 
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade também 
Oswaldo Montenegro

3 de mai. de 2012

Crianças

Não devemos explicar nada a uma criança, é preciso maravilhá-la.
Marina Tsvetana

O meu castelo imaginário

Se para sonhar é preciso
fugir da realidade,
subirei a alto castelo
criarei a minha verdade.

Aí me isolarei
a sós com a minha fantasia
e para sempre viverei
só momentos de alegria.

Levar-te-ei comigo
para o meu paraíso artificial,
quimera intemporal,
onde serei feliz contigo.

Se tal lugar existisse
há muito que lá estaria.

Um lugar onde não sucumbisse
a fantasia, 
a alegria,
a magia…

Um lugar onde resistisse
à maldade,
à crueldade,
à realidade…

Um lugar onde fugisse
à opressão,
à humilhação,
à resignação…

Um lugar que não existe
senão na imaginação!
Célia Gil

Persevere, persevere, persevere

José Carlos de Lucca
Nunca pense em desistir. A perseverança encontra-se no alicerce da vitória. Na vida vence quem não entrega os pontos antes do fim do jogo. 

Jesus declarou: "aquele que perseverar até o fim será salvo".

Os obstáculos são naturais e previsíveis, por isso não espere viver sem eles;  estão lá para serem superados e mostrarem quanto voce é capaz.

Você não teria chegado aonde chegou não fossem os problemas que o promoveram na vida. Depois de um problema solucionada, você ficou mais forte, mais confiante e até se surpreendeu com a força e capacidade que passou a ter para superar os desafios.

As pessoas que hoje desfrutam de uma vida satisfatória não foram privilegiadas por Deus. Elas também enfrentaram e ainda enfrentam muitos impedimentos  apenas não desistiram diante da luta e prosseguem firmes em seus propósitos de contentamento. 

Norman Vicent Peale, por exemplo, ministro religioso nos Estados Unidos, havia escrito seu primeiro livro e o apresentou a diversas editoras com o objetivo de publica-lo. Mas nenhuma delas se interessou pela obra. 

Depois de tantas portas fechadas, ele desistiu de seu intento e estava prestes a jogar os manuscritos do seu sonhado livro na lata do lixo, quando sua esposa pediu que ele esperasse um pouco mais, pois ela tentaria encontrar uma editora. 

E encontrou. O livro foi publicado e estima-se ter vendido milhões de exemplares em todo mundo.

Não jogue seus sonhos na lata do lixo.
José Carlos De Lucca

Cura e Libertação


A prova (doença) não vem para esmagar, vem como um trampolim para nos impulsionar a uma vida mais produtiva e feliz. 

Muitas pessoas me dizem que mudaram sua vida para melhor depois que passaram por uma doença grave. 

Ante a perspectiva da morte que a doença trazia, elas fizeram transformações tão radicais que reavivaram suas forças interiores de tal modo que a doença se curou pelo forte impulso da renovação interior...

A doença surge como mensageira da vida, desde que lhe atendamos aos impositivos da renovação interior... muitas pessoas passaram a experimentar uma vida substancialmente melhor depois que a doença retirou a negatividade que estava enraizada em seus corpos.

O sofrimento, por si só, não muda ninguém. O que muda é o aprendizado que cada um é capaz de fazer diante da dor que nos visita. Chico Xavier ensina que diante dos obstáculos da vida cada um pode ser abismo ou ponte.

A melhor escolha que cada um pode fazer em sua vida é o AMOR. Sofremos porque não escolhemos o amor nas mais diversas situações existências

José Carlos De Lucca

1 de mai. de 2012

Crises


Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.
Platão

Ame-se

Ame-se por ter a coragem de nascer no plano físico e de empreender esta jornada tão difícil. 

Ame-se pela conexão que você tem com o poder do universo. 

Ame-se pela maravilhosa condição humana, pela sua vulnerabilidade, pela sua perplexidade, até pela sua ignorância. 

Ame-se pela criança que você é. Você está aqui, na sua inocência, para crescer e aprender
Shakti Gawain

Amor-próprio

É preciso não confundir o amor-próprio e o amor de si mesmo, duas paixões muito diferentes pela sua natureza e pelos seus efeitos. 

O amor de si mesmo é um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua própria conservação, e que, dirigido no homem pela razão e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-próprio é apenas um sentimento relativo, factício e nascido na sociedade, que leva cada indivíduo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente, e que é a verdadeira fonte da honra. 

Bem entendido isso, repito que, no nosso estado primitivo, no verdadeiro estado de natureza, o amor-próprio não existe; porque, cada homem em particular olhando a si mesmo como o único espectador que o observa, como o único ser no universo que toma interesse por ele, como o único juiz do seu próprio mérito, não é possível que um sentimento que teve origem em comparações que ele não é capaz de fazer possa germinar na sua alma. 

Pela mesma razão, esse homem não poderia ter ódio nem desejo de vingança, paixões que só podem nascer da opinião de alguma ofensa recebida. E, como é o desprezo ou a intenção de prejudicar, e não o mal, que constitui a ofensa, homens que não se sabem apreciar nem se comparar podem fazer-se muitas violências mútuas para tirar alguma vantagem, sem jamais se ofenderem reciprocamente. 

Numa palavra, cada homem, vendo os seus semelhantes apenas como veria os animais de outra espécie, pode arrebatar a presa ao mais fraco ou ceder a sua ao mais forte, sem encarar essas rapinagens senão como acontecimentos naturais, sem o menor movimento de insolência ou de despeito, e sem outra paixão que a dor ou a alegria de um bom ou mau sucesso. 
Jean-Jacques Rousseau

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