20 de mai. de 2012

Thanks Robin Gibb - Bee Gees

Morreu neste domingo o músico britânico Robin Gibb, um dos três irmãos que formaram o grupo Bee Gees, mundialmente famoso nos anos 1960. 

Gibb, de 62 anos, estava em tratamento contra um câncer de cólon e fígado, segundo sua família. Ele deu início a sua carreira musical quando formou o grupo com seus irmãos Barry e Maurice, em 1958. A banda está entre as mais bem sucedidas de todos os tempos. Seus maiores sucessos são as músicas que fizeram parte da trilha sonora do filme "Embalos de Sábado à Noite", como "Stayin' Alive" e "How Deep is Your Love". 

Em um comunicado, a família de Gibb disse estar anunciando sua morte com "profunda tristeza". Robin Gibb sofria de câncer há muitos anos e ficou em coma por 12 dias em abril, depois de contrair pneumonia. Seu irmão gêmeo, Maurice, morreu em 2003.




Blue Moon


Blue Moon

- words by lorenz hart, music by richard rodgers


Blue moon, you saw me standing alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own


Blue moon, you knew just what i was there for
You heard me saying a prayer for
Someone i really could care for


And then there suddenly appeared before me
The only one my arms will ever hold
I heard somebody whisper, "please adore me"
And when i looked, the moon had turned to gold


Blue moon, now I'm no longer alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own

Lua Azul

Lua azul, você me viu na maior solidão
Sem um sonho no meu coração
Sem um amor pare ser meu


Lua azul, você sabia porque eu estava lá
Você ouviu as minhas preces
Por alguem que eu realmente poderia cuidar.


Então de repente, apareceu na minha frente
A unica que meus braços vão querer abraçar
Eu ouvi alguem sussurrar, "por favor, me ame"
E quando eu olhei, a lua se tornou dourada.


Lua azul, agora não estou mais sozinho
Sem um sonho no meu coração
Sem um amor para ser meu.

19 de mai. de 2012

Toda mulher sonha em ter filhos. Hein?!?



Difícil dizer em que momento ficou estabelecido o padrão de que mulher só é completa se gerar um filho. Mesmo assim, muitas mulheres perdem noites e noites de sono pensando nisso – quiçá mais do que as necessárias para cuidar de um bebê. 

As dúvidas que surgem com o sentimento de obrigação de ser mãe são muitas: filho é a etapa natural depois do casamento? Ele vai garantir companhia para quando eu ficar velha? Só deveria pensar em filhos depois de casar? Estou preparada para abrir mão de parte da minha vida – e da minha carreira – para criar uma criança? E, mais importante: eu quero esse bebê ou é isso que os outros esperam de mim?

A resposta para todas essas perguntas é: calma. Melhor do que tentar suprir expectativas (suas, de sua mãe, de suas amigas, do seu marido) é tirar o peso dessa decisão. Mesmo na sociedade do “pode tudo”, em que as mulheres trabalham, sustentam casas, se separam se não estão satisfeitas no casamento, vivem solteiras se assim quiserem e blá-blá-blá, a maternidade é tratada como se fosse a única possibilidade de a mulher se tornar plenamente realizada. 

A psicanalista Cecília Faria, professora doutora da Faculdade de Psicologia da PUC- SP, discorda. “Não é nem nunca foi preciso ter filhos para ser feliz. Existe uma mística em volta da maternidade que vem sendo alimentada há muito tempo. Nas últimas décadas, parte da medicina focou em desenvolver meios para que as mulheres com dificuldade para engravidar conseguissem realizar esse sonho, e isso reforça a necessidade de a mulher gerar uma criança”, opina. Claro que os avanços da medicina são bem-vindos, aumentando a possibilidade de ser mãe – mas o desejo só é válido se for genuíno,particular, e não de quem segue um padrão sem se questionar. Não ter filhos não faz ninguém ser “menos mulher”. 

Para a psicóloga Cecília Faria, a cobrança social em torno da maternidade vem das próprias mulheres basicamente porque o relógio biológico não é um mito, mas uma condição fisiológica. “A menstruação é uma frustração mensal. O sangue reforça a ideia de que a mulher não conseguiu alcançar o que seu corpo esperava dela. Quando ela atinge uns 35 anos, o corpo grita para que complete aquela etapa”, afirma. 

Tempo integral 

Além disso, existe a expectativa social, para a qual chama a atenção a psicanalista Diana Corso, autora de Fadas no divã. “Na revolução industrial [no século 18], com o surgimento da burguesia, as mulheres agregaram à função de geradoras, a de criadoras. Então, mesmo que dentro de casa, a mulher ganhou um papel social: é a que cuida, organiza, abnega, e que se realiza com tudo isso.” Para ela, o fato de hoje existir uma liberdade para fazer as escolhas que quiser faz com que a mulher acabe se perdendo. Na opinião de Cecília, a frustração feminina é causada em parte pela sociedade, que, apesar de incentivar as mulheres a serem mães, não facilita o papel de quem escolhe ter carreira e filhos. “A sociedade está preocupada com produção, somente. Tanto que as mulheres que trabalham e engravidam precisam ser amparadas por lei para poder ficar cuidando de seus filhos.” 

O melhor antídoto para lidar com tanta expectativa é entender que, seja qual for a escolha, nada vai garantir felicidade plena – tampouco transformar a vida num caos. A seguir, cinco mulheres que optaram por diferentes caminhos contam como descobriram, com ou sem a maternidade, que não é possível ter nem controlar tudo. No fim das contas, a tentativa de “acertar” (seja lá o que isso signifique) se mostra inútil. Escolha nenhuma livra ninguém de conflitos, medos, dúvidas, vazios. Nem ter – ou deixar de ter – filhos. 

Hoje, nunca mais

Isabel Moreira, 40 anos, sempre quis ter uma família e, por consequência, ser mãe. “Adoraria ver a minha projeção andando por aí, porque filho é uma projeção, né?”, diz. “Careta” assumida, ela explica que sempre atrelou a ideia de filho a uma família completa. “Não tenho nada contra quem faz produção independente, mas cresci em uma família muito ausente, pouco estruturada, e decidi que, se fosse para ter um filho, seria com alguém legal que topasse formar um núcleo presente.” Só que a “conjunção astral” de período fértil, pessoa legal e vontade de ser mãe não aconteceu. Bel foi casada durante nove anos (está separada há oito meses, por razões que nada têm a ver com maternidade, ou a falta dela) e sentiu o relógio biológico bater forte dos 30 aos 35 anos. 
“Eu quis muito. Queria a família Doriana, que nem esses adesivos de carro que têm a mãe, o pai, os dois filhos, o cachorro e o gato. Só que, quando comecei a falar do assunto, meu marido foi categórico: ‘Ó, se você quiser ter filhos, não é comigo que isso vai acontecer’.”

Foi difícil para a produtora, que foi aconselhada pelas amigas a aproveitar uma noite de bebedeira do marido para “esquecerem” da camisinha. “Mas isso ia contra a minha vontade de só ter um filho se fosse numa situação legal”, explica. Ficou com isso na cabeça durante sete anos, se perguntando se estava disposta a abrir mão daquela vontade, até que se deparou com uma foto do filho recém-nascido de um ex-namorado. “Não fiquei chorosa, pensando ‘poderia ter sido eu’. Não senti nenhum vazio e foi ali que saquei que realmente não preciso de um filho”, explica. Bel sabe, porém, o peso que isso teve em sua vida – principalmente para os outros. “O problema é que as pessoas não aceitam isso. No começo até falava mais sobre o assunto. Depois, parei de me explicar. Não devo nada a ninguém.” Isso não quer dizer, no entanto, que ela esteja isenta de julgamentos. Depois da fase do “e aí, quando vem o de vocês?”, ouvido em almoços em família e chás de bebê – a que ela faz questão de ir, porque adora crianças –, agora Bel é vista quase como uma ameaça.“É como se eu não valesse nada porque não tenho filho. Não sei o que é amor, não sei o que é cuidar de outra pessoa, me doar... E, ao mesmo tempo, acham que minha vida é perfeita, que não tenho problemas.

Não sou a pessoa mais feliz do mundo e nem com tempo sobrando só porque não tenho filho. Mas também não acho que vou morrer sozinha só porque não tem alguém para me amar incondicionalmente. Acho ruim projetar na criança um buraco seu”, provoca. 

O mundo não acabou

“Se tiver um filho não posso mais morrer!”, pensava a diretora de arte Lucia Farias, 31 anos, quando engravidou de Alice. A ideia de ser mãe representava para ela o máximo da perda de liberdade. Por isso, não ter filhos era uma decisão pensada com o marido, um fotógrafo com quem está desde 2001. “Não cabia um filho na minha vida”, explica ela, que nasceu no Rio Grande do Sul e mora em São Paulo há uma década. Só que um dia o casal não usou preservativo e, semanas depois, ela viu o sinal de positivo no teste de farmácia. “Pensei: ‘Fodeu!’. E senti raiva”, lembra. Decidiu abortar – nem quis ouvir o coraçãozinho do bebê na consulta para não mudar de ideia. Mas se assustou quando soube dos riscos do procedimento, como uma possível hemorragia e ruptura do útero. “Pensei que, se acontecesse algo comigo, o sofrimento que geraria seria maior do que o de ter um filho. Então, decidimos seguir.” E, já que era para ter, ela fez questão de receber a filha em um parto natural (sem anestesia).

Hoje, três anos depois, Lucia não tem mais tanto tempo para elucubrações. “A realidade é mais leve do que ficar imaginando como seria. É um dia por vez. Vamos lidando com os desafios à medida que aparecem. Hoje, tenho um ser com quem me ocupar, dedicar energia, tempo.” E uma ansiedade que sempre a acompanhou na vida está mais light desde a chegada de Alice. “Tomo atitudes mais pensadas, estou menos crítica”, avalia. Agora, o que importa para ela, acima de tudo, é o bem- estar de Alice. Desde bebê, leva a menina do escritório a festas na casa de amigos. E isso comprova o que ela considera sua grande descoberta pós-maternidade: “Sou a mesma Lucia, não mudei minha vida”.

Ela também descobriu que o marido é um paizão que divide as tarefas desde que a mulher voltou a trabalhar. Com ele, Lucia começou a frequentar um pediatra que até hoje os ajuda a dissolver conflitos sobre a educação da filha – o que evita as típicas brigas de casais que levam à separação muitas famílias. “Às vezes quero obrigar a Alice a comer, e o pai não, então conversamos com o pediatra. Em muitos casos, a conclusão é que cada um tem o seu jeito de lidar e é preciso respeitar as diferenças”, conta. Na parte que lhe toca, ela está tranquila. “Mesmo sabendo que um dia vou morrer, fico feliz por estar criando um ser humano da melhor maneira que posso!”, comemora. 

Mãe, eu?

Aos 22 anos, Alessandra, uma menina do interior de Minas Gerais, decidiu ganhar “a cidade grande”. Partiu para São Paulo e, enquanto aprendia o ofício de manicure, se descobriu grávida do namorado. “Ele era uma pessoa difícil, aparecia quando queria e eu aceitava”, admite. E não sentiu a alegria que costuma ser associada à maternidade. 

“Aquele filho significava parar tudo o que estava fazendo e voltar para Minas”, diz ela, que logo decidiu abortar. Na primeira consulta médica descobriu que o feto já tinha quatro meses. “Mesmo assim perguntei sobre um aborto e o médico disse que ninguém faria”, lembra. “Primeiro fiquei desesperada, depois brava comigo e com o pai, que, se fosse mais presente, poderia me ajudar na decisão. Passei duas semanas usando roupas largas para esconder a barriga.” Passado algum tempo, Alessandra assumiu que não queria aquele filho. “Não estava preparada.” Sem saber o que fazer, pediu ajuda a uma amiga, quetinha uma história de adoção na família. Acabou chegando a uma agência onde o processo é feito de forma ilegal, sem consentimento ou parecer do Estado. O casal interessado no bebê de Alessandra deu suporte financeiro e psicológico até o fim da gravidez, o que ela reconhece ter sido imprescindível para que o processo ficasse um pouco mais fácil. Mesmo assim, assume que foi a coisa mais difícil que já fez.

“Não é fácil entender que seu filho, que cresceu na sua barriga, vai ser mais feliz com outras pessoas”, diz. Ela lembra que era difícil ter aquele barrigão, as colegas perguntando o sexo e o nome, e ela sem saber o que dizer. “Para os desconhecidos, criava uma história, que estava casada e que ia parar de trabalhar para criar o nenê.”

Com o fim da gravidez, os sonhos deram lugar à realidade. Alessandra teve parto normal e pouco contato com a criança. A mãe adotiva tinha tomado hormônios para produzir leite e foi quem o alimentou desde o nascimento. “Foi muito dolorido voltar pra casa sem o bebê. Passei mal, queria conversar com alguém, mas não podia. Para piorar, acabei mudando de emprego e de casa para garantir que o mínimo possível de pessoas soubesse o que tinha acontecido. Uma semana após o parto, me vi sozinha, com o corpo inchado e sem bebê. Foi a pior semana da minha vida. Sofro até hoje por não poder contar isso a minha família. Eles não entenderiam – minha mãe não falaria mais comigo. Imagina passar pelo maior trauma da sua vida e não compartilhar?”

Hoje, depois de sete anos de muita terapia, Alessandra entendeu que não se arrepende da sua decisão, mas sim de não ter condições de proporcionar a vida que queria para a criança. Mesmo sete anos depois, o assunto ainda é a pauta de 70% das sessões com a psicóloga. Alguns traumas, porém, já foram superados. “Sei que minha vida e a dele são muito melhores por isso. Não tenho a sensação de que é meu filho que está por aí porque mãe é quem cria. Se eu resolvesse procurá-lo, ele seria o filho de outra pessoa”, desabafa. Mas Alessandra ainda alimenta o sonho de ser mãe. “Acredito que vou achar um homem para casar e formar uma família direito”, aposta. 

* O nome é fictício para proteger a identidade da entrevistada

Três de uma vez

A empresária Ieda Cotrim, 40 anos, estava casada há cinco quando o filho da mesma idade pediu um irmãozinho. “Um estava bom, mas topei engravidar de novo.” No primeiro ultrassom, surpresa: três corações pulsavam em seu ventre. “Achei que fosse piada.” Saindo do consultório, ela e o marido sentaram na calçada e se olharam. “Falei: ‘Agora vamos ter que ficar juntos mesmo’”, conta.

A ironia está no fato de que Ieda frequentava academia e praia desde a adolescência e estressava sempre que via uma celulite. Além disso, sempre gostou “de coisa boa”, e o padrão financeiro da família estava em ascensão. Porém, pelos oito meses que se seguiram, nada mais importava. “Pensei que daria para ter uma babá, mas quando os bebês chegaram vi que precisava de duas em tempo integral.” Só que, quando as candidatas se deparavam com as planilhas nos berços (lembrando a hora que cada um havia sido trocado e alimentado) e com o serviço triplicado, fugiam – às vezes no mesmo dia.“Passaram umas 30 pessoas pela minha casa. Toda noite, eu ajoelhava e perguntava: ‘Quando terei minha vida de volta?’.”

Ieda conta que mal dormiu ou olhou para o marido por dois anos. Enquanto ele tocava a joalheria que eles abriram em São José dos Campos, onde moram, no interior paulista, ela trocava fraldas e amamentava crianças em série, preparava comida e colocava o trio para dormir. O tempo também passava para Pedro, o primogênito. “Perdi uma parte do crescimento dele. Sinto falta de ter visto ele ser alfabetizado”, lembra ela. “Queria ter feito lição de casa com cada um, mas não dá quando se tem três de uma vez. Fiz o melhor que consegui”, pondera. Ela reconhece como maior aprendizado ter tirado o foco dos pequenos problemas que antes a desestabilizavam. 

“Hoje não me importo se engordo 2 quilos ou se vejo uma celulite. Meus filhos valem muito mais que isso, e aprendi a me aceitar como sou.”

Ela também sabe que o padrão de vida da família estaria mais alto se não tivesse tido mais três filhos, “mas o que importa é que eles estão bem”, garante. Hoje, os trigêmeos (Eduardo, Flavio e Caio) estão com 8 anos, o mais velho, com 13, e ela não troca por nada a satisfação de ver a mesa cheia. Agora se prepara para a adolescência de Pedro. Mas não abre mão do tempo que tem para o marido, os amigos, as viagens e para si.

Família margarina? 

Casar e ter filhos era o sonho da artista plástica Bianca Rego, 29 anos. Aos 21, ela realizou a primeira parte: casou-se, com um publicitário, e quis engravidar três anos depois. “Todo mês comprava teste de farmácia antes de a menstruação atrasar. Uma piração”, lembra. A fase durou um ano. Até que resolveram ir ao médico. Mas não chegaram à consulta: foi só desencanar para descobrir que estava esperando Theo. Nas palavras dela, a gestação foi “mágica”. Ao contrário do que se queixam muitas mulheres, o pai da criança embarcou na gravidez desde o início. “Minhas amigas contam que os homens só se veem como pais quando o bebê nasce. Mas o meu marido sentia até enjoo comigo. Era ótimo porque tinha com quem compartilhar”, diz.

O efeito colateral, porém, era se irritar em momentos em que ele, por exemplo, falava para a médica que a mulher não havia se alimentado como deveria. “Eu tinha feito o que ele estava dizendo que não fiz, só que meu marido não tinha visto e falava com a médica algo que eu devia falar”, lembra. Hoje, Theo tem 4 anos e os dois entenderam que é fundamental cada um ocupar seu papel na educação. “Tem momentos em que a criança só quer a mãe, quando está doente ou tem pesadelo, por exemplo. Se o pai quiser participar vai atrapalhar”, afirma. Embora se sinta realizada com a maternidade e passe metade do dia com o filho, admite que a experiência não a transformou em uma mulher completamente feliz ou satisfeita. “Eu, que queria tanto um filho, tive com o homem que amo e mesmo assim passo momentos difíceis... Fico imaginando o que passam mulheres que não desejaram ou foram mães solteiras.”

A primeira dificuldade à qual se refere ela sentiu quando chegou da maternidade. “Depois de mamar, o Theo chorou por três horas. Foi desesperador.” Quando foi trocar a fralda, entrou em pânico. “Senti medo de não conseguir fazer nada sozinha, de não ser capaz de criar aquela criança. Mas passou logo essa sensação.” Bianca também sofria para amamentar, pois seu seio inflamava. “Me sentiria impotente se não conseguisse, mas amamentei até ele ter quase 1 ano. Acho uma loucura ninguém ter me contado esses perrengues. Faço questão de dizer o que acontece na real para minhas amigas.” Mesmo assim, ela pensa em ter mais filhos. Mas já sabe que isso é só uma opção – e não garantia de felicidade.

Ariane Abdallah, Luciana Obinski

O “jeitinho” destroçado


O antigo “homem cordial” aproxima-se da extinção, numa sociedade que passou a ter horror ao diálogo

Cena 1: o “eu” comercial

Numa feira em Paris (praça Monge), pedi uma dúzia de figos. Lá você não pode e servir da fruta, como aqui. É o feirante que as coloca no saquinho. E vi que ele colocou dois figos avariados. Reclamei. E ouvi a seguinte resposta:

- Por que o senhor acha que EU deveria ficar com todos os figos estragados para mim?

Fiquei sem reação. Havia algum tipo de justiça embutida na sua frase. Não a justiça que imagino, nem a que desejo, mas posso supor uma longa história de transações, talvez vindas do tempo da Revolução Francesa, até se chegar a essa formulação de que o inservível também deve ser repartido com critério de igualdade.

Cena 2: aos vencedores, as bananas – o “nós” comercial 

Fiquei imaginando como, no Brasil, é a negociação de uma dúzia de bananas. Você sempre pode escolher uma 13ª, se uma das aderidas ao cacho não estiver perfeita. O feirante poderá, gentilmente, lhe oferecer ainda uma 14ª. Ele não “arca com o prejuízo”. Sabe que aquela operação comercial é uma em uma longa série. Você voltará, comprará por anos seguidos, diluindo aquela “banana a mais” em infinitas transações. Ele aposta que aquela relação pessoal transcenderá a operação comercial momentânea. É o ciclo longo das trocas comerciais que permite incluir ações cujo objetivo não é o lucro imediato.

Pois bem. Faz pouco tempo que a Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou uma lei, já em vigor, que proíbe a venda de bananas por dúzia nas feiras. Assim como é proibido fumar em bares e restaurantes, e tantas outras coisas que, pouco a pouco, vão sendo proibidas aqui e ali. São leis miúdas, que enquadram os cidadãos em novas normas que, vistas em conjunto, parecem indicar o surgimento do “Estado de irrelevância máxima”, depois do Estado de “tolerância zero”. Mas, por quê?

O cordial 

Filosofar sobre a história é hábito que vem de longe e, entre nós, gerou o mito do homem cordial. Pouco desse mito se deve a Sergio Buarque de Holanda e seu modernista “Raízes do Brasil”. De verdade ele esteve entranhado em nós mesmos por séculos, como chave conveniente de compreensão das relações sociais entre brasileiros.

Esse mito nos conta que as relações familiares, de amizade e intimidade, precedem as relações públicas. Por isso a lei que contrarie essas afinidades parece sempre uma violência, preferindo-se sempre o “jeitinho” para acomodar as situações onde interesses contraditórios se apresentam. Recentemente os legisladores renunciaram a esse mito, trabalhando com afinco pela sua destruição. A questão é: em seu lugar instalarão um ideal melhor de relação entre brasileiros?

O “jeitinho” não nos diz da igualdade, mas dos ajustes frente às desigualdades notáveis. É um mecanismo transacional cujo resultado é satisfatório para ambas as partes. Ninguém se sente lesado publicamente, embora, no íntimo, possa não estar plenamente satisfeito. O “jeitinho” desfaz impasses, funciona como um fluido social numa sociedade marcada por contrastes.

A mitologia sobre a nação brasileira construiu-se entre os anos 1870 e 1930. De todas as idéias discutidas no período, acabaram prevalecendo aquelas que falavam de um povo cordial, de uma nação católica, da miscigenação superadora dos preconceitos raciais e assim por diante. Mas, nas últimas décadas, esse mito vem sendo paulatinamente destruído.

Religião, raça e foie gras 

Tomemos a religião. Antes, além do catolicismo, que entrou em crise mundial, falava-se no sincretismo religioso: o candomblé era genuinamente “nacional”. Uma religião popular que convivia bem com o catolicismo ortodoxo das elites. Mas, “para sair da crise”, os católicos lançaram produtos de apelo mais populares, como o movimento de “renovação carismática”.

O relaxamento do rito ortodoxo romano, a laicização do culto, visava também enfrentar a propagação das igrejas protestantes e pentecostais. Hoje a população crente se divide em uma infinidade de confissões religiosas que mais se assemelham a times de futebol. Nessa feição, tornou-se uma espécie de “escuderia’’ e escorregou da esfera privada da vida para a esfera pública. A sua ostentação tornou-se motivo de orgulho.

Comprei recentemente um pacotinho de biscoitos que estampava: “Deus é fiel!”. Provavelmente seus produtores não esperam ganhar o mercado dos ateus ou católicos. Deus fiel é o nome de um nicho de mercado, seja de biscoitos ou de fé.

Recentemente, um intelectual, defensor de primeira hora da candidatura de Marina Silva à Presidência, não se sentiu à vontade para vir a público e -declarando-se adepto do “darwinismo generalizado” (sic) e não vendo necessidade da candidata ser categórica sobre assuntos como “educação científica separada da religiosa nas escolas confessionais”- afirmar que, “antes de tudo, não se deve esquecer que são questões sobre as quais há sérias controvérsias ético-científicas que racham a sociedade brasileira”? Via ele nos adversários uma certa intransigência “porque ela assume sua condição de evangélica”1.

O presidente Geisel era luterano. Talvez por isso mesmo aprovou o divórcio. Mas pouco se alardeava sobre sua opção religiosa. Era um assunto privado, como a sua viuvez. Por que, hoje, alguém se sente estimulado a de definir publicamente em termos religiosos, mesmo quando visa presidir todos os brasileiros? Por que se erigiram “sérias controvérsias” onde estava certo que religião é religião, ciência é ciência?

Tomemos outro exemplo. As relações raciais no Brasil. Pretos e brancos são “iguais” perante a lei, embora saibamos que as relações históricas entre ambos sempre foram de dominação. O que resultou na cor da pobreza: ricos são invariavelmente brancos, pretos são em sua esmagadora maioria pobres. E os pobres são a maioria da população.

Foi José Sarney (!) que recentemente registrou que o IBGE havia constatado que os negros, “pardos” e índios são, pela primeira vez na história, a maioria da população brasileira, restringindo-se os que se autodeclaram brancos a 48,4%2. Para ele, o sonho racista do século 19, que antevia o branqueamento, cede ao peso forte da miscigenação triunfante.

Talvez por isso mesmo, entre as camadas populares, o preconceito de cor não grassou como nos países de anglo-saxões. Todos os pobres sabem que tem um mesmo destino miserável, independente da cor da pele. E brancos pobres e negros se casam, produzindo mulatos. Brancos ricos evitam os negros como parceiros matrimoniais. Mas o que pode fazê-los mudar, senão uma nova cultura e educação?

O Estado tomou as suas precauções contra o racismo que porventura pudesse se manifestar na esfera pública. A Lei Afonso Arinos, por exemplo. Mas agora surge um projeto denominado Estatuto da Igualdade Racial, que, além de reafirmar a legislação existente contra a discriminação racial na esfera pública, cria um fundo público para financiar “ações inclusivas” voltadas para os negros. Uma generalização da questão das cotas nas universidades. Uma legislação que, ao recriar a polarização negro/branco, que a mitologia sobre a nação suprimiu, divide os pobres em beneficiados e não-beneficiados por essas políticas públicas.

Vejamos outro exemplo. Há gente no mundo que acha o canino um dente criminoso. Querem que o Estado regule seu uso. Nada de comer foie gras, pois a sua produção faz o animal sofrer. Daí é um passo para se exigir dos frigoríficos (antigos matadouros...) que adotem “métodos humanitários de abate” (sic).

O multiculturalismo, a militância ambientalista, a crise das religiões –fenômenos mundiais, enfim-, tudo tem contribuído para dividir os brasileiros segundo novos recortes e novas normas de relacionamento entre os diferentes. A vida privada, as relações interpessoais vão se estreitando, e o Estado se insinua como árbitro de sujeitos que, antes, se acreditava, sempre encontrariam termos de convivência satisfatórios.

O caso do Estatuto da Igualdade Racial é bem interessante. Num país onde, por imposições democráticas, “raça” se tornou um status eletivo, autodeclaratório, como se pode conceber que, por uma autodeclaração, alguém possa acessar fundos públicos de forma legítima?

É uma subversão legal sem precedentes, a violação da igualdade republicana da lei. Ao tratar “pobres negros” de modo diferente de “pobres brancos” cinde-se irremediavelmente a maioria da população. E nem mesmo se pode alegar “justiça social”, pois os recursos dos impostos ordinários que financiariam essa política não penalizam a riqueza de modo preciso e dirigido.

Todos sabemos do papel crucial que Gilberto Freyre desempenhou ao reverter o valor ideológico da raça na formação social brasileira. O que antes parecia negativo, se tornou claramente positivo. Outros intelectuais, como Manoel Bomfim, mostraram como o critério de escolha racial só era admissível no plano doméstico, isto é, das escolhas matrimoniais –coisa com a qual Darwin, o campeão da igualdade racial, jamais discordaria: só no plano subjetivo os aspectos secundários da raça poderiam ser levados em conta3.

Isso nos diferenciava fortemente dos países anglo-saxões, onde as diferenças raciais foram objeto de legislação discriminatória. Para nós, brasileiros, nunca fez sentido esse tratamento, até essa proposta de Estatuto da Igualdade Racial.

O “outro” fraco e desprotegido 

É impressionante como o Estado se projeta como defensor do “outro” na legislação que proíbe fumar em locais públicos. A legislação paulista, mais rígida do que a federal –que aposta mais na “separação” do que no “banimento”- é, em muitos círculos sociais, comemorada como a voz e o direito dos fracos e oprimidos pelo fumo. Como se o acomodamento de interesses contraditórios fosse absolutamente impossível.

É por esta senda –a debilidade do “outro”– que avançam as novas normas que, pouco a pouco, vão destroçando o jeitinho brasileiro. Antevê-se, assim, uma sociedade que tem horror ao diálogo, às relações de camaradagem, à transação entre sujeitos privados. Desenha-se uma cidadania apoiada no “não pode” e na divisão regrada: racial, religiosa, de hábitos de consumo e assim por diante. É difícil imaginar que, por essa via, chegaremos a um Brasil melhor.

Cena 3: o direito ao desgosto 

Percorro uma festa popular em Mazagão, Amapá. Infinitas barracas improvisadas oferecem uma variedade enorme de músicas. Tão alto, que um som sufoca o outro, tecendo uma ininteligibilidade geral. Estilos populares de gosto mais que duvidoso. Comento com minha anfitriã:

- Essa situação é horrível! Não se consegue um único lugar de paz para os ouvidos.

E ela responde, indignada:

- Vocês (sic) precisam aprender a respeitar o gosto dos outros!

Ok, pensei com meus botões. Mas quando é que vão aprender a respeitar o desgosto dos outros?

Mais do que para o mundo chato, caminhamos a passos largos para um mundo repressivo, onde a cordialidade e o jeitinho serão meras curiosidades históricas. Inicia-se a época da arqueologia do brasileiro, extinto ao se transformar em cidadão globalizado.

Carlos Alberto Dória

17 de mai. de 2012

Posso Ter Notícias de Quem Já Morreu?

A saudade de entes queridos que já deixaram a vida física tortura aqueles que ficaram. Isto é humano, afinal os laços de convivência e amizade jamais se perdem. Como esquecer os pais, filhos, cônjuges e autênticos amigos que já não estão mais conosco na convivência diária? Impossível. 

Por isso vem a saudade, muitas vezes doída... 

Mas, a imortalidade da alma, caro leitor, é algo palpável. Sim, palpável pelo raciocínio. Basta pensar na inutilidade de toda esperança, de toda luta, de tantos vínculos de amor, se tudo se acabasse com a morte... Incoerente, não é mesmo? Incoerente inclusive com a grandeza e bondade de Deus, Pai justo e sábio, que não criaria os filhos para depois acabar com eles... e pior, em tão pouco tempo. 

Para quê tudo isso, então? 

A lógica e o bom senso indicam que continuamos, após a morte, a ser o que éramos e prosseguindo o progresso através de novas oportunidades. Se somos adeptos de qualquer religião, somos pois, espiritualistas. Isso implica que aceitamos a continuidade da vida após a morte do corpo. Se a vida continua, nossos seres queridos estão em algum lugar. E também devem sentir saudades, não é mesmo? E não poderiam nos visitar, estar conosco? Qual o absurdo dessa idéia? 

O único obstáculo é que agora utilizam corpo diferente do nosso. São invisíveis aos nossos olhos, mas continuam a existir, conservam seus gostos, idéias, emoções e sentimentos; mantém seus interesses e buscam o ideal que se dedicavam quando na Terra. Pois bem, e podemos ter notícias deles? 

Sim, podemos. É comum que enviem notícias através dos sonhos, das intuições. 

E muitas vezes através da mediunidade, em comunicações escritas ou verbais. Mas neste caso, é preciso muito cuidado. Cuidado para não sermos enganados por médiuns charlatães que tiram proveio da credulidade humana. 

Por outro lado, para enviar ou receber notícias, há que se considerar o mérito e as condições morais/espirituais/emocionais das partes envolvidas. As condições de quem já partiu são muito variadas e dependem da vida moral que a pessoa adotava quando na vida física. O mérito de quem deseja notícia, as condições para que uma comunicação aconteça tem também grande peso na ocorrência do fenômeno. 

Por esta razão, é preciso conhecer o assunto antes de envolver-se com ele. E para entender recomendamos os livros O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec. 
Orson Carrara

11 de mai. de 2012

Como iniciar um bom dia


Comece o dia na luz da Oração.
O amor de Deus nunca falha.

Aceite qualquer dificuldade sem discutir.
Hoje é o tempo de fazer o melhor.

Trabalhe com alegria.
O preguiçoso, ainda mesmo quando se mostre num pedestal de ouro maciço, é um cadáver que pensa.

Faça o bem o quanto possa.
Cada criatura transita entre as próprias criações.

Valorize os minutos.
Tudo volta, com exceção da hora perdida.

Aprenda a obedecer no culto das próprias obrigações.
Se você não acredita na disciplina, observe um carro sem freio.

Estime a simplicidade.
O luxo é o mausoléu dos que se avizinham da morte.

Perdoe sem condições.
Irritar-se é o melhor processo de perder.

Use a gentileza, mas, de modo especial dentro da própria casa.
Experimente atender os familiares como você trata as visitas.

Em favor de sua paz conserve fidelidade a si mesmo.
Lembre-se de que, no dia do Calvário, a massa aplaudia a causa triunfante dos crucificadores, mas o Cristo, solitário e vencido, era a causa de Deus.
André Luis

Musica grudenta

As músicas têm uma capacidade incrível de grudarem nas nossas cabeças, e ficarem ecoando sem parar em nosso pensamento, atrapalhando a concentração em qualquer outra atividade. Como repórter de ciências, resolvi descobrir por que isso acontece.

Há várias semanas, em uma manhã de domingo, eu estava em casa e, de uma hora para outra, três palavras surgiram na minha cabeça: Funky Cold Medina.
Esse é o nome de uma música do rapper Tone Loc, que, fiquei sabendo recentemente, fez muito sucesso nos anos 1990. Eu ouvira a canção pela primeira vez na noite anterior, em bar de caraoquê.
Por mais que eu tentasse parar de pensar na música, a letra da canção não saía da minha cabeça. Eu passei quase dois dias até conseguir finalmente esquecer a música.
A pesquisadora Vicky Williamson, especializada em psicologia da música, resolveu estudar o fenômeno de músicas que grudam na cabeça depois de perceber que havia pouca literatura científica sobre o assunto.
Ela descobriu que há diversos termos diferentes em inglês usados pelos cientistas para descrever o fenômeno: "stuck-song syndrome" (ou síndrome da canção empacada), "sticky music" (canção pegajosa), "cognitive itch" (coceira cognitiva) ou "earworm" (verme de ouvido).
Williamson participou de um programa de rádio da BBC perguntando aos ouvintes quais "músicas pegajosas" estavam os afligindo recentemente. Ela também reuniu relatos e experiências em uma pesquisa feita no seu site.
Estresse
Com base nesses dados, ela chegou a alguns resultados surpreendentes.
"Quando analisei mais de mil canções pegajosas, percebi que apenas meia dúzia havia sido citada mais de uma vez - o que mostra quão heterogênea foi a resposta das pessoas. É um fenômeno muito individual", diz Williamson.
Hoje a pesquisadora já possui mais de 2,5 mil relatos. Ela diz que algumas músicas são mais pegajosas simplesmente por estarem em evidência em filmes e seriados de televisão.
É o caso da canção Don't Stop Believing, do conjunto Foreigner, que no começo da sua pesquisa era uma das mais citadas. Na época, a música havia voltado às paradas graças ao seu uso no musical americano Glee.
A psicóloga passou então a tentar entender quais mecanismos desencadeiam o fenômeno.
O primeiro dos fatores é a exposição. A música precisa ter sido ouvida recentemente. Outro é a repetição: quanto mais frequente a música toca, maior é a chance de ela grudar na cabeça de quem ouve.
No entanto, muitas músicas podem ser "despertadas" por memórias ou ambientes ao nosso redor.
Williamson explica que passou por esse tipo de experiência quando viu uma caixa de sapatos antiga em seu escritório.
"A caixa era de uma loja chamada Faith. Só de ler essa palavra, minha cabeça percorreu uma trilha de memórias até chegar à canção Faith, de George Michael. Dali em diante, eu passei o resto da tarde com a música na cabeça", conta a pesquisadora, que resolveu tirar a caixa do escritório.
Outro fator é o estresse. Uma das entrevistadas disse que quando ela tinha 16 anos - durante uma época de exames escolares estressantes - ela ficou com a música "Nathan Jones" do Bananarama em sua cabeça por dias.
Agora, a entrevistada diz ouvir a música em sua cabeça toda vez que vive algum momento de estresse.
Memória musical
Há algumas teorias que tentam explicar por que uma música gruda na cabeça das pessoas.
Williamson diz que isso pode ser parte de um fenômeno mais amplo, conhecido como memória involuntária. Outra manifestação de memória involuntária é quando alguém fica com vontade de comer algo por se lembrar de uma comida.
Há uma série de motivos que fazem com que isso aconteça também na música. Primeiro pela música ser um estímulo multi-sensorial, que é sensível a vários fatores externos.
"Segundo porque a música é codificada de forma muito pessoal e emocional, e sabemos que tudo que é codificado com conotações pessoais e emocionais é mais fácil de ser lembrado pela memória", afirma Williamson.
Outros especialistas sugerem que o fenômeno é explicado pela forma como os humanos se desenvolveram.
"Por um longo período, nós precisávamos lembrar informações do tipo: onde fica o poço mais próximo, que tipos de comidas são venenosas e como tratar feridas para evitar infecções", diz Daniel Levitin, da Universidade McGill, de Montreal, especialista em neurociência da música.
Como a escrita só foi inventada há cinco mil anos, enquanto os humanos existem há 200 mil anos, a música foi usada por muito tempo como técnica de memorização, explica Levitin.
Essa prática, segundo ele, continua até hoje, sobretudo em culturas com forte tradição oral.
Levitin diz que a combinação de ritmos, rimas e melodia faz com que músicas sejam mais fáceis de se memorizar do que apenas palavras.
Aos que querem se livrar de uma canção pegajosa, Levitin sugere: "Pense em outra música, que talvez possa expulsar a canção da sua cabeça".
Vicky Williamson está buscando a melhor "cura" para músicas grudentas. Uma das táticas que ela tem explorado é praticar outras atividades, como palavras-cruzadas ou corrida.
BBC 

9 de mai. de 2012

Amor de mãe

Um pai pode negligenciar seu filho, irmãos e irmãs podem se tornar inimigos inveterados; maridos podem abandonar suas esposas, e esposas os seus maridos. Mas o amor de uma mãe resiste a tudo
Washington Irving

Amparo necessário

Honrar o pai e a mãe não é somente respeitá-los, mas também assisti-los nas suas necessidades; proporcionar-lhes o repouso na velhice; cercá-los de solicitude, como eles fizeram por nós na infância.
Allan Kardec

Ano Comum

Ó mãe, regressa a mim. 
Embala-me no tempo em que os teus lábios rebentavam de ternura. 
Ó mãe, ó minha mãe, ó rio de água pura, correndo pelas veias. 
Pelo vento. 

Ó mãe, que és mãe de Deus, que és mãe de mim e mãe de Antero e de Camões, e mãe de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. 

E são assim uma espécie de filhos de ninguém. 
Abre o teu ventre, mãe. Acorda. 
Vem parir-me. 
E vem sofrer a minha dor uma vez mais. 
Morrer de amor por mim. 
Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais. 

Ó mãe, ó minha mãe. 

Ó pátria. Ó minha pena. 
Que me pariste, assim, temperamental. 
Mãe de Ulisses, de Guevara e mãe de Helena. 
E mãe da minha dor universal. 
Joaquim Pessoa

Trabalho incansável

Dedicado especialmente à D. Dora
O trabalho de um homem é de sol a sol, mas o trabalho de uma mãe nunca termina

Poderosa pílula - Acomplia


Acaba de ser liberado no Brasil o Acomplia, um remédio audacioso que, ao mesmo tempo, ataca a obesidade, melhora o colesterol e a diabete. Um dia ele poderá ajudar você


Os brasileiros empenhados em vencer a obesidade e seus perigosos desdobramentos têm um aliado novo e poderoso. Chega ao Brasil até o final de julho a primeira pílula que ataca de uma só vez a obesidade e os conhecidos e temidos vilões a ela associados. Além de combater a gordura, melhora o HDL, o colesterol bom que protege o coração, e diminui as chances de manifestar diabete, uma doença que se tornou epidemia mundial e que aumenta drasticamente os riscos de problemas cardíacos e circulatórios. O super-remédio, o rimonabanto, fabricado com o nome comercial de Acomplia, da gigante farmacêutica Sanofi-Aventis, é o primeiro de uma nova classe que combate todos esses problemas ao mesmo tempo, de um modo abrangente e inédito. Aprovado no final de abril pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, é considerado audacioso e com potencial para tirar muita gente do perfil de risco para doenças cardiovasculares, as que mais matam no mundo. O medicamento já tem venda liberada em países da Europa e aguarda autorização do FDA para entrar no mercado americano. Ao que tudo indica, será o mais novo blockbuster. O termo é aplicado para designar remédios de grande sucesso como os medicamentos Viagra e Cialis, para disfunção erétil, Lipitor, para redução do colesterol, e o anticoagulante Plavix.

Na prática, ele pode ser a esperada solução para pessoas que estão realmente muito acima do peso e para aqueles que convivem com alguns quilinhos, situados especialmente no abdome, e convivem com algum vilões cardiovasculares. Os mais comuns são a diabete tipo dois, adquirida ao longo da vida, e alterações nos níveis de colesterol e triglicérides, outra das gorduras circulantes no organismo. “Quem soma esses três fatores de risco tem três vezes mais chances de ter um infarto”, diz o cardiologista Álvaro Avezum, diretor de pesquisa do Instituto Dante Pazzanese, de São Paulo. Quando esses sintomas aparecem em conjunto, caracterizam o que alguns especialistas chamam de síndrome metabólica. A lista, encabeçada pelo aumento da circunferência abdominal – a medida-limite é de 94 centímetros em homens e 80 para mulheres, inclui a pressão alta, baixos níveis de HDL, elevação do triglicérides (um tipo de gordura) e também da glicose no sangue, evidenciado a resistência à insulina, o hormônio que abre a porta das células para a entrada da glicose. No Brasil, essa sobreposição de sintomas possivelmente atinge três em cada dez pessoas.

A ação mais enaltecida do rimonabanto é sobre o acúmulo de gordura abdominal, aquela que muita gente insiste em chamar de barriguinha de chope. “A melhor indicação é para as pessoas que têm acúmulo de gordura abdominal. Ela se infiltra entre os órgãos e produz substâncias que aumentam o risco de doenças cardiovasculares. Tudo isso estimula a elevação do colesterol e outros problemas”, explica o cardiologista Antônio Carlos Chagas, chefe do setor de aterosclerose do Instituto do Coração da Universidade de São Paulo. No caso do diabetes, o efeito se explica porque a ação do remédio facilita o trabalho da insulina, o hormônio encarregado de levar o açúcar para dentro das células. “A diabete surge quando o pâncreas foi muito exigido e não consegue mais produzir insulina”, explica o médico Antônio Roberto Chacra, chefe do serviço de endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo.

Em várias frentes

A explicação para a ação múltipla e revolucionária do Acomplia é seu mecanismo inédito de ação. Ele usa um caminho já estudado, mas até agora jamais utilizado pela medicina como via terapêutica. Trata-se do sistema endocanabinóide, situado em uma área do cérebro que regula as emoções e que está envolvido em atividades importantes como a regulação do gasto e formação de estoques de energia e nas sensações de recompensa e prazer. A estrutura ficou conhecida na década de 1960 durante os estudos para entender onde a maconha agia no organismo. A pesquisa revelou que as substâncias ativas da Cannabis sativa, o nome científico da maconha, dirigiam-se a pontos específicos das células, os receptores CB1. Como uma chave que encontra a fechadura perfeita, o encontro das moléculas com os receptores dava o acesso ao sistema. Ou seja, garantia a ação da substância sobre ele. O avanço da pesquisa revelou a presença de receptores iguais a esses nos músculos, na gordura, no intestino e no fígado. Todos eles estão associados, de algum modo, aos mecanismos de controle das reservas energéticas do corpo. Quando são estimulados, avisam o cérebro de que está na hora de providenciar novo suprimento de substâncias que ativem os centros de prazer. Uma das manifestações dessa ativação é a famosa “larica”, o desejo de comer doces que acomete algumas pessoas depois de umas baforadas de cannabis. Feita a descoberta, os cientistas decidiram criar uma molécula com o poder de bloquear essas “fechaduras” da célula. Desse processo surgiu o rimonabanto.

A expectativa em torno do remédio é enorme e outras companhias farmacêuticas já estudam drogas que façam o mesmo percurso no corpo. Ainda que nas pesquisas iniciais ele tenha mostrado efeito emagrecedor e insinuado uma boa ação antitabagismo, os estudos mostraram que seu poder maior é sobre as gorduras. “O rimonabanto tem uma propriedade única, que é diminuir a formação de gorduras pelo organismo e aumentar a sua queima. Isso ocorre especialmente na gordura abdominal, que também melhora o controle das taxas de açúcar no sangue. Todos esses efeitos indicam que será de grande ajuda para prevenir doenças cardiovasculares”, explica o endocrinologista Amélio de Godoy Matos, do Instituto Estadual de Endocrinologia e Diabetes do Rio de Janeiro, que participa de estudos sobre o medicamento iniciados recentemente no Brasil.
Diante dos efeitos comprovados pelos estudos, vários médicos já receitam o Acomplia. O cardiologista Álvaro Avezum. “É um recurso valioso para diminuir as chances de pessoas com vários fatores de risco de terem um problema cardiovascular”, garante Avezum. Com a indicação, o executivo Miguel Teodoro da Purificação perdeu 12 centímetros de cintura, aumentou o colesterol bom e começa a ter mais controle da diabete. “Custou caro, mas eu mereço. Fiz um procedimento para desobstruir as artérias do coração e quero o melhor para me colocar em forma. Comecei até a fazer exercícios”, diz ele, que chegou a pagar R$ 395 reais por uma caixa importada com 28 comprimidos. “Minha expectativa é que o preço baixe ao chegar ao Brasil”, diz. Na verdade, o preço do Acomplia deverá ser estipulado dentro de 30 a 60 dias. A estimativa é que será cerca de 30% mais barato do que os valores cobrados pelas importadoras.

Os cuidados

Apesar de ter múltiplas ações, o Acomplia não é uma pílula mágica e tem seus efeitos colaterais. “Ele não pode ser tomado por pessoas com depressão e sintomas fortes de ansiedade”, explica a endocrinologista Maria Fernanda Barca, do grupo de tireóide do Hospital das Clínicas de São Paulo. A experiência da carioca Fátima Vasconcellos, da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, confirma o risco, indicado na bula. “Tenho um paciente que perdeu dez quilos com o rimonabanto, mas ele ficou deprimido. Queixou-se também de ficar irritado e perdeu o interesse por sexo. Realmente, não é indicado para pacientes com problemas psiquiátricos”, diz ela. A endocrinologista Fernanda tem mais de 70 pacientes usando o produto. Uma delas é Clara Elisabeth Rabinovich. Depois de tentar perder peso com muitos medicamentos diferentes, ela começou o tratamento com o Acomplia há seis meses. “Não sou muito gorda, mas preciso controlar o peso e domar o colesterol. Tomo estatina, mas ao usar esse novo medicamento perdi peso e barriga, o colesterol bom subiu e eu não sofri mudanças de humor como nas outras vezes”, explica ela.

Esperanças

Como ainda é um medicamento novo, os médicos não sabem ao certo por quanto tempo ele deve ser tomado. Para o endocrinologista Godoy, talvez venha a ser tomado regularmente e por tempo prolongado como as estatinas, os remédios milagrosos para controle do colesterol que se tornaram rotina para proteger o coração de milhares de brasileiros. “Como a obesidade é uma questão crônica, pode ser que seja tomado por longos períodos”, arrisca. Outros acreditam que ele pode normalizar o funcionamento do organismo. “Precisamos acompanhar seu uso prolongado. Por enquanto, tenho pacientes tomando há cerca de 120 dias”, diz o cardiologista Avezum.
Sempre que surge um produto como esse, todo mundo quer tomar. É o que acontece com a jovem carioca Karina de Melo, 20 anos, que deposita imensas esperanças na nova droga. “Gosto de comer arroz, lasanha e chocolate também é meu fraco. Como não faço exercício, não consigo emagrecer. Saí à família de meu pai, que tem tendência a engordar. Quem sabe esse remédio pode me ajudar. Só não sei se vou ter dinheiro para comprar”, explica. Outra grande dúvida é sobre os benefícios para mulheres magras que desejam livrar-se da incômoda barriguinha. Elas devem ou não pedir aos seus médicos que indiquem o remédio? “Depende. Não é um remédio para quem quer perder apenas dois quilos. Ele só pode ser recomendando para quem tenha algum outro problema como alterações nas gorduras do sangue”, explica o endocrinologista Chacra.
Dúvidas

O carioca Walmir Coutinho, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, acha importante baixar um pouco a bola do remédio para que não chegue ao mercado como se fosse uma pílula mágica. Ele indica o produto para alguns de seus pacientes. “Outros medicamentos disponíveis podem ser tão eficientes como o rimonabanto. O sucesso do tratamento está relacionado com o diagnóstico correto dos fatores de risco e das características do paciente. Na verdade, nenhum remédio resolve o problema da obesidade, apenas ajuda na solução. Não existem milagres, como as pessoas gostariam. O mais importante é mudar os hábitos alimentares e manter a atividade física”, explica. Em outras palavras: é fundamental que o paciente também faça a sua parte.
Celina Côrtes e Mônica Tarantino

6 de mai. de 2012

Mar

Homem livre, tu sempre gostarás do mar.
Charles Baudelaire

Liberdade

Aqui nesta praia onde 
Não há nenhum vestígio de impureza, 
Aqui onde há somente 
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade, 
Aqui o tempo apaixonadamente 
Encontra a própria liberdade. 
Sophia de Mello Breyner Andresen

Cézanne


Ramuz empreendeu uma breve e inhabitual viagem, ou peregrinação, para conhecer a cidade do pintor Cézanne, com quem tanto se identificava, e aprender algo do ambiente no qual o artista viveu. 

Entretanto, rapidamente se deu conta que não encontraria o que estava procurando, o próprio Cézanne. Com efeito:

Por que vir procurá-lo aqui, quando ele não estava mais, quando ele nem podia mais estar aqui? Era a pergunta que eu ficava repetindo. Precisava dele ainda vivo.

Só tive de sair da cidade; ela não é grande. [...]

Ainda não se conseguia enxergar nada, por causa dos muros, dominados apenas, a uma distância regular, pelo cume de um cipreste ou por copas de folhagens redondas; mas quando aquele que eu procurava se ergueu enfim diante de mim, ele se ergueu de todos os lugares ao redor, saltando contra minha face.

Esta ruína marcada obliquamente por uma fenda larga, coberta de um telhado de uma só aba; estas superposições de rochedos cinzentos em camadas e bancadas horizontais, entre as quais há como que andares gramados; as altas toras retorcidas e ruivas dos pinheiros que parecem se entrecruzar ao acaso com uma encosta ao fundo, e no entanto é uma lei rígida que decide sua orientação; a maneira pela qual este galho, de um verde surdo, parece ter sido esfregado de cima para baixo na própria tela do céu; estes agrupamentos, estas aproximações, o encaixe, o maciço, o essencial do conjunto, e acima disto tudo, o céu que é o valor mais escuro, mais até do que os verdes da sombra, quando a hora assustadora do meio-dia destaca, um após o outro, os volumes: para onde quer que eu me virasse, ali estava ele, não havia mais nada além dele...

O lugar onde ele se encontra é aqui, pensava eu (e em outros lugares, sem dúvida, já que ele está em todas as mentes), porém eu procurava situá-lo, exteriormente, se é que se pode dizer, procurando pelo alicerce: eis o alicerce, de bela rocha, assim como convinha. Era mesmo, lá longe, esta pirâmide de telhados com uma torre que a corava, parecida com um cajado fincado num monte de pedras; eram mesmo estas linhas inclinadas, estas linhas tortas, tão belas na sua inclinação, tão belas por serem tortas; era mesmo também esta solidão. Ali, a pedra e a arquitetura reinam sós: a presença humana não intervém. Eu me lembrava das suas paisagens pintadas: o homem não aparece nunca nelas, quero dizer, o homem tal como ali o encontramos, mesmo que raramente, por causa da aridez do solo, e não há nem lavoura, nem pasto. Em que me importa nele a hora, e a vida, digamos, social? O que impele tantos outros a "animar" a natureza é precisamente que neles ela não tem alma. 

De modo que eles reúnem mulheres em torno do chafariz, eles se agarram ao "tema"; a anedota sobrevém naturalmente por eles se situarem no acidental. Aqui, uma nudez quase geológica. Tem a árvore, tem a rocha, e só. E tem o muro também, mas muro ainda é solo, já que é inteiramente feito de rocha, o próprio solo, que de uma marretada posso desagregar, para erguer uma nova construção. Ali também, totalidade. E quando, enfim, o homem está à vista, qualquer transeunte que ele pare na estrada pedindo para que sirva de modelo, ele o considera assim como a paisagem, isoladamente, por ele mesmo. Retratos, figuras de bebedores, jogadores de baralho, mulheres de roupão em velhas poltronas, a paisagem está ali ausente; nenhum outro pano de fundo a não ser a cor cinza de uma parede ou os desenhos fora de moda de um papel de parede. A roupa, o jeito, o gesto, talvez sejam "exatos" e perfeitamente caracterizados, mas tanto faz para nós! Novamente, aqui, o volume, apenas o volume – e o sentimento, de tanta grandeza, tão atuante, tão nobre às vezes por ser contido, enquanto outros o vilipendiam e, por o conhecerem apenas superficialmente, o espalham superficialmente no arranjo e no "tema"; mas aqui ele é profundo e intimamente mesclado com a carne, com os nervos, com o sangue, ele próprio sendo substância, e é apenas pela forma que Cézanne pretende expressá-lo. [...]

Foram muitos os pintores que, com efeito, instalaram a sua tela aqui, neste pobre país de aquarelistas! Provença fácil, exterior, Provença de efeitos, Provença de manchas, com este "belo" sol cantado nas óperas: ah! a Provença dele, por contraste, esta Provença grave, austera, sombria com intensidade, surda, ficando por baixo, toda de harmonias foscas, estas vizinhanças das cores azuis e verdes que estão na base de tudo, e este cinza derramado por toda parte, que expressa a profundeza, e que expressa a poeira, porque a luz, afinal, é poeira, para quem enxerga além da superfície e do acidente. Uma natureza quase espanhola, com esta espécie de paixão contida, que murmura sem gesticular; uma terrível unidade católica da mente e do sentimento, uma terrível obrigação de conter tudo nessa unidade.

Como ele está presente, como ele está só, como todo o resto desmorona! Como tudo é ensaio, esboço, pequena mentira, como tudo é momentâneo perto dele!
Charles-Ferdinand Ramuz

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...