8 de ago. de 2012
Lições de humildade com Sócrates
A trajetória de Sócrates é um cruzada contra a falsa sabedoria. Sempre amigável, o filósofo demonstrava o quanto ainda sabemos tão pouco dos mistérios da vida.
Como Buda e Cristo, que não deixaram escritos, Sócrates é conhecido hoje pelos escritos de seus discípulos. Grande parte do que sabemos sobre ele está contido na obra de Platão - nos textos conhecidos como Diálogos, retrato das incansáveis discussões filosóficas entabuladas pelo mestre.
Para compreendê-las, é preciso conhecer o mundo em que Sócrates viveu e filosofou - a Grécia do século 5 a.C.
O sistema de governo dos atenienses, a democracia, estava vigente desde o século 6 a.C. A cada mês, os cidadãos com mais de 30 anos se reuniam em uma grande Assembleia para debater leis e escolher magistrados. Cada um tinha o direito de defender suas ideias em discursos públicos. Por isso, a arte de falar bem - para convencer ou para dissuadir - se tornou uma das ocupações favoritas do povo de Atenas.
A arte do diálogo
É nesse contexto que surgem os sofistas - trupe de intelectuais itinerantes que, em troca de remunerações graúdas, ensinavam a retórica aos jovens com ambições políticas. Até então, a filosofia grega se ocupava principalmente de assuntos cosmológicos, como a natureza dos astros e a origem do universo. Os sofistas mudaram essa equação: para eles, o objeto da reflexão filosófica era o próprio homem. Outra grande inovação introduzida por eles foi o uso do diálogo como método de reflexão e persuasão. Eles preferiam exibir suas habilidades lógicas em debates cara a cara, em que dois ou mais interlocutores se digladiavam na defesa de ideias opostas.
Antes de se tornar célebre como filósofo, Sócrates já era famoso como o maior esquisitão de Atenas. Sua principal ocupação era sondar a alma humana, e pouco tempo lhe restava para questões rotineiras, como ganhar a vida. Costumava andar pelas ruas de Atenas com roupas puídas e sempre perdido em reflexões.
Com o tempo, Sócrates compreendeu que o excesso de truques retóricos dos sofistas servia para ornamentar mentes vazias, e decidiu que caberia a ele fustigar a soberba de seus contemporâneos.
Saber e não saber
E, assim, ele chegou à conclusão que mudaria a história do pensamento: a de que o verdadeiro sábio é aquele que tem consciência da própria ignorância. A partir daí, Sócrates começou uma cruzada pessoal contra a falsa sabedoria humana. Em suas próprias palavras, ele se tornou um "vagabundo loquaz" - movido pelo célebre bordão que o legou à posteridade: "Só sei que nada sei".
Ele geralmente começava seus debates com perguntas diretas sobre temas elementares: "O que é o Amor?" "O que é a Virtude?" "O que é a Mentira?" Em seguida, destrinchava as respostas que lhe eram dadas, questionando o significado de cada palavra. Assim, o pensador demonstrava uma verdade que até hoje continua universal: na maior parte do tempo, a grande maioria das pessoas não sabe do que está falando.
Para muitos ouvintes, o efeito do diálogo socrático era a catarse - uma experiência de purificação espiritual em que as portas do autoconhecimento se escancaram.
Mas tamanha independência de espírito pode ser algo arriscado - tanto na Antiguidade quanto hoje em dia. Em 399 a.C., seus desafetos conseguiram levar Sócrates a julgamento. Condenado com a pena de morte, ele retrucou: "Ninguém sabe o que é a morte. Talvez seja, para o homem, o maior dos bens. Mas todos fogem dela como se fosse o maior dos males. Haverá ignorância maior do que essa - a de pensar saber-se o que não se sabe?"
O "vagabundo loquaz"foi a primeira figura célebre na história do pensamento a morrer por suas ideias. Sua modéstia, numa época de vaidade intelectual, é um aviso aos navegantes: por mais poder que uma civilização tenha, o fato é que, no fundo, continuamos todos humanamente estúpidos. Pensar por si mesmo e a si mesmo num diálogo com o outro: eis a lição aparentemente simples, mas hoje tão esquecida, legada por uma das figuras mais intrigantes na história da humanidade.
José Francisco Botelho
7 de ago. de 2012
Reflexões durante uma viagem
A paixão foi feita pra ser avassaladora e durar
pouco tempo. Quando ela acontecer não queira alterar esta sua natureza, não vá
atrás, deixe-a ir. A paixão é uma linda borboleta; Ela não permite que
haja tempo para momentos ruins e tristes, e este é o seu encanto. Se
aprisioná-la, verás morrer em suas mãos, mas se deixares alcançar seus grandes
vôos, ficará a sua doce lembrança que mesmo na distância, ainda assim, alegrará
teu coração.
Faça a sua história enquanto ainda tens a caneta
em suas mãos, arrisque seus rabiscos. Cada dia é uma página em branco com
numeração crescente e corrente, inerente ao tempo. Atente-se a quantas folhas
já se passaram. Escreva agora! Quem sabe terás a oportunidade de ler sua
própria história, de terminar com um ponto final o teu livro. Pois este é o
prazer que a vida ainda nos presenteia em nossas velhices.
Scarlett
Costa de Oliveira
Elogios incondicionais
Os elogios incondicionais dos pais e dos adultos não produzem “auto-confiança” nas crianças, mas apenas dependência.
Quem foi treinado pela aprovação constante dos pais passa a vida se esforçando para ganhar um aplauso (não para alcançar o que deseja).
Preocupamo-nos com os efeitos nas crianças da falta de amor. Que tal os estragos produzidos pelos excessos de amor por elas?
Contardo Calligaris
Regina Brett - Lições de vida
"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais solicitada que eu já escrevi."
Meu hodômetro passou dos 90 em agosto, portanto aqui vai a coluna mais uma vez:
1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno .
3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.
4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.
5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.
6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.
7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.
8. É bom ficar bravo com Deus Ele pode suportar isso.
9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.
10. Quanto a chocolate, é inútil resistir.
11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.
12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.
14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.
16. Respire fundo. Isso acalma a mente.
17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.
18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.
19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.
20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.
21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.
23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você..
26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'
27. Sempre escolha a vida.
28. Perdoe tudo de todo mundo.
29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo..
31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.
32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.
33. Acredite em milagres.
34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.
35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.
36. Envelhecer ganha da alternativa -- morrer jovem.
37. Suas crianças têm apenas uma infância.
38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.
39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.
40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.
41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
42. O melhor ainda está por vir.
43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.
44. Produza!
45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.
Escrito
por Regina Brett, 90 anos de idade, que assina uma coluna no The Plain Dealer,
Cleveland, Ohio.
Melhor idade
A voz em Congonhas anunciou:
"Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" - algo entre os 60 anos e a morte.
Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.
Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.
Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.
Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: "Voltando da farra, Ruy?". Respondi, eufórico: "Que nada! Estou voltando da farmácia!".
E esta, de fato, é uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.
Primeiro, a aposentadoria é pouca e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução.
Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te dê uns 60 anos.
Olha... a analise dele é rápida. Leva uns 20 metros e, quando pára, tem a discussão se você tem mais de 60 ou não.
No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo:
- "Sou deficiente".
O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou:
- "Que deficiência você tem?"
- "Sou broxa!"
Ele deu uma gargalhada e eu entrei.
Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo...
Eu disse bem baixinho para uma delas:
- "Uma mentirinha que me economizou R$ 3,00, não fica triste não"
Bem... fui até a pedra do Arpoador ver o por do sol.
Subi na pedra e pensei em cumprir a frase. Logicamente velho tem mais dificuldade.
Querem saber? Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: "Dá a mão aqui, senhor!!!"
Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça.
Sentar na pedra e olhar a paisagem.
É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora.
Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê.
Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz:
- "O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair."
Resmungo entre dentes: ... "só se cair em cima da sua mãe"... mas, dou um risinho e digo que esta tudo bem.
Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e o sol nada.
Vou pensando - enquanto desço e o sol não - "Volto de metrô é mais rápido..."
Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá esta um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico de consegue saber a idade de todo mundo.
Olha sério para mim, segura a roleta e diz:
- "O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem."
A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.
Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não dane-se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos...
Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega... Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam...
Desisti... lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava... Me senti o máximo.
Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem.
Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou.
É agora...
Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse:
- "O senhor não quer sentar? Me parece tão cansado?"
Melhor Idade??? Melhor idade é a puta que te pariu
Rui Castro
6 de ago. de 2012
O inescapável
Ao voltar de férias, percorri os jornais: só dá mensalão e Olimpíada. Não é para menos, mas é pouco.
Consolou-me haver lido uma matéria de David Brooks sobre a campanha eleitoral em seu país.
Basta ler o título,A campanha mais tediosa, para que o leitor se dê conta do baixo-astral que envolveu o comentarista ao seguir os embates entre Barack Obama e Mitt Romney.
Isso a despeito de os americanos ainda estarem sufocados pela crise e de haver muito que debater sobre como sair dela e sobre o papel dos Estados Unidos num mundo cheio de incertezas. Mas o cotidiano não se alimenta de decisões históricas…
Como seria bom se pudéssemos apenas nos deliciar com a sensibilidade e a inteligência da crônica de Roberto DaMatta sobre os elos humanos que aparecem na novela Avenida Brasil, não tão diferentes dos que relacionam o antropólogo com seus objetos de estudo. Ela nos dá um banho de vida. Infelizmente, nesta semana não dá para falar apenas das estrelas. A dura realidade é que começou na quinta-feira um julgamento histórico sobre o qual não faltaram palavras sensatas. Uns, como José Nêumanne, mostraram as Falácias e enganos acerca do mensalão de maneira crua e direta.
Outros, como Dora Kramer, desvendaram a Falsa dicotomia entre julgamento técnico e julgamento político. Outros ainda, como Elio Gaspari, sem negar que torcer faz parte da alma humana, insistem em que o importante é que os magistrados julguem de maneira compreensível para o povo. Que não nos confundam com o jargão da toga. E há os que abrem o jogo, mostram suas apostas, como o Zuenir Ventura, para logo dizer que tudo é mero palpite, pois não se pode saber o que passa na cabeça dos julgadores.
Por mais que se deseje ser objetivo, tenho tentado, e por mais prudente que se deva ser na antevéspera do julgamento (no momento em que escrevo este artigo), é inegável a sensação de que talvez estejamos no começo de uma nova fase de consolidação das instituições democráticas. Existe também o temor de que ela se perca. É isso que produz ansiedade e faz com que os comentaristas mais perspicazes – incluo neles Merval Pereira -, ao falarem sobre o tema, acabem por deixar transparecer o que gostariam que acontecesse. De minha parte, torço para que não haja impunidade. Calo sobre quem deva ser punido e em que grau, mas não se deve obscurecer o essencial: houve crime.
Embora, portanto, esteja engrossando o número dos obcecados com o mensalão, não posso esconder certa perplexidade diante da despreocupação com que recebemos as notícias sobre a crise internacional, como se, de fato, a teoria da marolinha tivesse substituído o bom senso na economia. Não dá para ignorar que com toda a inundação de dólares a baixo custo feita pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a economia do país não reage. Na Europa, por mais que seu Banco Central se diga disposto a cobrir qualquer parada dos especuladores, os mecanismos para tornar efetiva a gabolice estão longe da vista. Resultado: mal-estar social e desemprego crescente. A própria China, bastião da grandeza capitalista mundial, parece mergulhar em taxas decrescentes de crescimento, as quais, se bem que nos deem água na boca (entre 6% e 7%), são insuficientes para atender aos reclamos dos chineses e, mais ainda, para sustentar a maré dos preços elevados das matérias-primas, principalmente minerais.
Tudo indica, portanto, que os efeitos da crise mundial, somados à inércia nas transformações de fundo da economia que marcou o governo Lula, acabaram por levar nossa economia, se não às cordas, ao canto do ringue. O governo atual, não querendo beijar a cruz, embora já ajoelhado diante da realidade, despejou uma série de paliativos de todos conhecida: redução setorial de impostos, créditos de mão beijada para alguns setores beneficiados, expansão dos gastos públicos correntes e, até, desvalorizações da moeda e redução das taxas de juros. Em situações “normais” de crise, o receituário funcionaria. Um pouco de sustentação da demanda, jogando-se nos ombros de Keynes a responsabilidade pela ligeireza de certas medidas, animaria o consumo e daria aos empresários o apetite para investir. Diante, entretanto, da duração e da profundidade da crise atual, é pouco. Serão necessárias medidas verdadeiramente keynesianas que dizem respeito à sustentabilidade dos investimentos, públicos e privados, e ao incremento da produtividade. Desafio duro de roer e que não se pode levar adiante somente com os recursos públicos nas mãos de uma burocracia politizada.
É esse o desafio que o governo Dilma Rousseff tem pela frente. Quem sabe, premido pelas circunstâncias, ele finalmente reconheça, na prática, o que o lulopetismo sempre negou: que as reformas que meu governo iniciou precisam ser apoiadas e retomadas com maior vigor. Nem as estradas, nem os aeroportos e muito menos as fontes de energia darão o salto necessário sem alguma forma de privatização ou de concessão. Elas terão de vir se quisermos de fato crescer mais aceleradamente. Só com estabilidade jurídica, aceleração dos investimentos em infraestrutura e educação, melhor balanceamento energético será possível despertar não apenas, como está na moda dizer-se, o “espírito animal” dos empresários, mas a crença de todos nós no futuro do Brasil.
Ao contribuir para a consolidação da Justiça como um valor, parte essencial da modernização do nosso país, o julgamento do mensalão poderá ser um marco histórico. Basta que seja sereno e justo para injetar mais ânimo em nossa política e para que esta volte a olhar o Brasil com a clareza de que somos um país capaz de andar com as próprias pernas graças à nossa seriedade e aos conhecimentos que desenvolvemos. Só assim deixaremos de flutuar ao sabor das ondas favoráveis às economias primário-exportadoras para podermos dar rumo próprio ao nosso futuro.
Fernando Henrique Cardoso
5 de ago. de 2012
O Bem...
Aproxime-se do bem, procure-o com decisão e a bondade virá iluminar seu caminho. Somente assim vencerá o mal.
André Luiz
José Grosso
Espírito de muito sentimento, muito amigo, teve muitas andanças através de vários corpos.
No ano de 1932, o Estado do Ceará foi açoitado por uma das piores secas de sua tão sofrida e heroica história. Não bastassem as convulsões causadas pelas transformações políticas e sociais vividas por nosso País, o Nordeste brasileiro se horrorizava com as estripulias de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, figura que assombrou os sertões nordestinos durante cerca de vinte anos com sua guerra de vinditas contra “aqueles que nele estreparam os espinhos da injustiça”, até 1938, ano de sua morte. Sua ação foi extensiva à grande área dos sertões de sete Estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Possuidor de veia poética, compôs aquele celerado o seguinte sinistro soneto enaltecendo suas qualidades de cangaceiro e poeta:
“Meu rifle atira cantando
Em compasso assustador.
Faz gosto brigar comigo
Porque sou bom cantador.
Enquanto o rifle trabalha
Minha voz longe se espalha
Zombando do próprio horror!”
Também de sua lavra é a composição ‘Mulher Rendeira’, posteriormente imortalizada na voz do cantor Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
Coadjuvado por homens de caracteres semelhantes ao seu, Lampião e seu bando cumpriram uma infeliz sina em sua pungente romagem terrena. Ficaram famosos também os seus companheiros de infortúnio: Antônio e Livino (seus irmãos), Antônio Matilde, Luís e José Fragoso, Antônio do Gelo, Meia-Noite, Gato, Ioiô, Luís Pedro, André Sipaúba, Corró, Muriçoca, Sabiá, Chá Preto, Corneteiro, entre outros.
No ano de 1896, num lugarejo pobre, próximo do Crato, hoje próspera cidade do Estado do Ceará, nascia José da Silva, que posteriormente viria a ser conhecido por José Grosso, filho de Jerônimo e Francisca, pais de outros oito filhos. Começa aqui a teia do destino que vai ligar José Grosso a Virgulino.
Como dissemos acima, o ano de 1932 registrou uma das piores estiagens que assolaram o Estado do Ceará. Essa ocorrência climática e suas terríveis consequências vieram juntar-se ao fenômeno do cangaceirismo, fruto das condições sociais vigentes. Pelo sertão espalhava-se a fama de Lampião com sua figura romanesca associada à do herói que tira dos ricos para dar aos pobres, um Robin Hood das caatingas nordestinas.
Isso empolgou muito o ânimo de José Grosso que, em seu íntimo, sonhava, como de resto todos os sertanejos nordestinos, com uma terra de paz, sem fome e com a Justiça amparando também os pobres e os fracos. Animado por esses anseios, vai integrar o grupo de Lampião, por ocasião de sua passagem pela região de Orós, hoje um município do Estado do Ceará.
Por não concordar com as atitudes criminosas do bando, que feriam seus princípios de homem justo e bom, decidiu adotar uma perigosa atitude que mais tarde lhe traria graves consequências.
Sem intenção de delatar aquele bando às autoridades policiais, passou a alertar com antecedência às populações das cidades que Lampião tencionava invadir, impedindo, assim, que muitas pessoas viessem a ser violentadas ou assassinadas, na onda da fúria insana do cangaceiro e seus sequazes.
Denunciado por alcaguetes, foi levado à presença de Virgulino. Julgado e condenado pelo júri pessoal do bandoleiro, teve seus olhos perfurados à faca, como represália pela traição cometida.
Cego, foi abandonado, ficando perdido e sozinho, vagando desorientado naquelas solitárias e espinhentas brenhas sertanejas.
Não demorou muito e foi acometido de infecção generalizada causada pela mutilação que lhe fizera Lampião, motivando sua desencarnação, no ano de 1936, aos quarenta anos de idade.
Dizem que o Espírito José Grosso se comunica em muitos Centros Espíritas espalhados Brasil afora.
Entidade amiga, dotada de bons sentimentos, reencarnou diversas vezes na Terra. Exerceu poder e autoridade na antiga Germânia (Alemanha), quando então tinha o nome de Johannes, homem rígido, disciplinado e místico, tendo desencarnado por volta do ano de 751. Renasceu também na Holanda, onde exerceu o alto cargo de Adido Diplomático, convivendo, dessa forma, com a alta classe daquele país e também com a corte de Francisco I, rei de França.
Logo que desencarnou no Brasil, em 1936, foi recebido na Espiritualidade pelos Espíritos Scheilla e Joseph Gleber, os quais mantiveram laços com ele quando de sua romagem terrena na Germânia.
Em 1949, ano de suas primeiras manifestações, conduzido que foi ao Centro Espírita André Luiz, no Rio de Janeiro, pelos Espíritos acima citados, dizia “ser folha caída dos ventos do Norte”.
Entre os médiuns por meio dos quais se comunicava, destaca-se Peixotinho (Francisco Peixoto Lins), extraordinário médium de efeitos físicos, notabilizado pelas materializações luminosas, nascido na cidade de Pacatuba, Ceará, em 1° de fevereiro de 1905 e citado na obra Materializações Luminosas, de Rafael Ranieri.
Sua caminhada no plano espiritual recebeu também a orientação do Espírito Glacus. Tem-se a informação de que o Espírito José Grosso ainda hoje coopera nas reuniões de efeitos físicos em vários centros espíritas e que se dedica atualmente a trabalhos na Fraternidade Espírita Irmão Glacus.
Ombreando com Peixotinho e Bezerra de Meneses, este cognominado por muitos como ‘O Allan Kardec Brasileiro’, José Grosso integra as hostes espirituais onde provavelmente transitam outros Espíritos Benfazejos que viveram no sofrido mas abençoado Estado do Ceará, Terra da Luz!
Livro Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado, de Frederico Bezerra Maciel, Editora Vozes Ltda. 1985.
Estênio Negreiros
3 de ago. de 2012
Comodismo, medo e status levam homens a manter relacionamentos infelizes
A promessa "até que a morte nos separe" é cada vez menos cumprida pelos casais. A possibilidade de se divorciar com mais facilidade e ter a esperança de iniciar uma nova vida com outra pessoa faz com que muitos relacionamentos acabem.
De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os divórcios aumentaram 20% em dez anos.
Para o psicanalista Mauricio Sita, autor do livro "Vida Amorosa 100 Monotonia" (Editora Viver Melhor), é mais frequente que a mulher tome a iniciativa de se separar, ainda que o parceiro também esteja insatisfeito. "O homem não gosta de ser o responsável pelo rompimento", afirma.
De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os divórcios aumentaram 20% em dez anos.
Para o psicanalista Mauricio Sita, autor do livro "Vida Amorosa 100 Monotonia" (Editora Viver Melhor), é mais frequente que a mulher tome a iniciativa de se separar, ainda que o parceiro também esteja insatisfeito. "O homem não gosta de ser o responsável pelo rompimento", afirma.
Segundo o psicanalista, quando a relação vai mal, é muito comum o homem criar armadilhas para que a mulher tome a iniciativa de terminar. "Ele fica distante, economiza atenção e carinho, prioriza o trabalho e os programas com os amigos", explica o especialista. Dessa maneira, ele vai minando o relacionamento e forçando-a a agir. O psicólogo Ailton Amélio da Silva, professor da USP (Universidade de São Paulo), diz que, na maioria das vezes, as discussões sobre o relacionamento são iniciadas pelas mulheres. "Em geral, elas se incomodam e buscam reverter a situação; querem melhorar ou terminar de vez", explica Silva.
Maurício Sita explica que um dos motivos que mais perturba o homem, ao assumir a iniciativa de romper um relacionamento, é ter de se justificar para a parceira. "Ele evita tomar a decisão porque sabe que a mulher o questionará, e os homens detestam ter de dar explicações".
A psicóloga Denise Diniz, coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) afirma que, culturalmente, o homem é considerado o provedor e terminar o relacionamento é o mesmo que abandonar a família. "Eles costumam encarar uma separação como sinal de fracasso e têm mais dificuldade de lidar com isso”. Segundo ela, é muito mais cômodo para o homem dizer que foi a mulher que o dispensou a ter de assumir que a deixou.
Além disso, as mulheres são mais sentimentais. "Para elas, a falta de amor é motivo para terminar uma relação. Já os homens analisam todas as dificuldades de uma separação", diz Denise. O fim do amor não é determinante para o rompimento na cabeça do homem. Ele avalia outros aspectos, como o social, financeiro e até o companheirismo. "A relação pode estar ruim, mas estabilidade é fundamental para o sexo masculino”, explica.
Sita diz que os homens detestam se desestabilizar. Se a relação sexual esfriou e só acontece de vez em quando, tudo bem. "Para o homem é melhor estar mal acompanhado do que só. Se o sexo acontecer vez ou outra, ótimo", diz Silva. E, se diminuir demais, ele pensará em procurar outra e viver uma vida dupla. "Mas, mesmo tendo outra na jogada, dificilmente cederá à pressão e terminar o relacionamento", diz Denise, que concorda com os especialistas, os homens preferem uma rotina medíocre a ter de enfrentar mudanças.
RAZÕES QUE IMPEDEM OS HOMENS DE ROMPER O RELACIONAMENTO:
1. Comodismo: família e casa estabelecidas, convivência diária com os filhos e uma mulher para transar, mesmo que seja de vez em quando, é o suficiente para manter muitos homens em um relacionamento. Eles gostam de estabilidade.
2. Medo: se afastar dos filhos e da companheira que sempre cuidou de tudo para ele pode ser assustador. Há homens que temem não encontrar outra parceira e deixar a mulher livre para outras aventuras.
3. Fuga: quando um homem quer terminar, ele tende a aumentar os custos e diminuir os benefícios, empurrando para a mulher a iniciativa de romper. Para ele, dialogar e assumir a responsabilidade pela separação é um peso.
4. Receio do julgamento: alguns preferem evitar a separação para não abandonar a parceira e os filhos. No fundo, os homens receiam ser julgados pela sociedade.
5. Status: é importante para o homem mostrar para a sociedade que tem uma família, pois isso ainda é sinônimo de status social e pode lhe favorecer no ambiente profissional e familiar.
Simone Cunha
Bebida de macho
“Aceita um drinque?” A frase, repetida à exaustão em filmes antigos (e na série Mad Men), sempre é seguida da seguinte cena: o anfitrião abre um gabinete, saca uma garrafa bonita, sem rótulo, e serve duas doses de uísque. Ou seria conhaque? Não importa. O que importa é que todo homem que se preza deve ter um estoque respeitável de bons destilados
O que é um bom destilado? A variedade de bebidas é enorme; e cada uma dessas bebidas tem tradições e rituais próprios. Cada uma rende, facilmente, alguns livros. Não temos essa pretensão, mas elaboramos um pequeno guia para você entender esse complicado e… hic!, fascinante universo.

A cachaça vive um momento crucial. O lançamento de bons produtos tem apagado a imagem negativa, mas falta padronização. Cachaça artesanal é, para efeito da lei, igual à aguardente industrial. Sem falar que há muita porcaria produzida em pequena escala. Os rótulos não explicam muito. Confie nos próprios sentidos: se não desce bem, pare de beber. E fique fiel às marcas testadas e aprovadas, como as que nós recomendamos nestas páginas.
Madeiras brasileiras
Uma das coisas que distinguem a cachaça de todas as outras bebidas do mundo é o fato de ela ser maturada em barris de várias madeiras — o padrão internacional é o carvalho.
Amendoim: para começo de conversa, não é a mesma planta que dá o amendoim que você come com cerveja. Madeira neutra, afeta pouco a cor e o sabor da cachaça.
Garapeira: passa mais cor do que sabor.
Freijó: madeira quase neutra, “amansa” a aguardente mas não transmite cor.
Jequitibá: tem poder médio de coloração e aroma, deixa a pinga com notas florais.
Ipê: como o carvalho, deixa bastante cor e doçura, mas com um aroma que lembra o anis.
Amburana: confere sabores picantes, mas é mais suave e adocicada que o bálsamo.
Bálsamo: afeta intensamente a cachaça, dando-lhe uma cor dourada e aromas de especiarias, que alguns amam e outros odeiam.
Cana tem terroir?
O conceito de terroir — criado pelos franceses para definir as características que a região produtora confere ao vinho (e, por extensão, a toda bebida ou alimento) — não se aplica à cachaça. Na destilação, evaporam as sutilezas aromáticas de diferentes solos e climas. Sobram procedimentos mais comuns neste ou naquele lugar. Em Paraty (RJ) e na Paraíba, por exemplo, há a preferência por caninhas sem envelhecimento; só em Salinas (MG) se usa o bálsamo; já em Januária (MG), a madeira da vez é a amburana.
Cachaça X rum
Para desgosto dos defensores da cachaça, os estrangeiros insistem em chamar nossa bebida de “rum brasileiro”. Ambos vêm da cana, mas a cachaça é feita de garapa crua, e o rum, de melaço. Como toda regra tem exceção, as ilhas francesas do Caribe — Martinica, Guadalupe e Haiti — fazem rum com caldo de cana cru. Esses se parecem mais com a cachaça.
Como beber
Sobre a cachaça da caipirinha ou caipifruta, há a crença geral de que ela deve ser branca. Não é bem assim: você pode usar cachaças envelhecidas, mas precisa pôr a madeira na equação de sabores e, se for necessário, modificar a receita.
A destilação
Existem dois métodos de destilar álcool: com um alambique e pelo sistema contínuo, de colunas

Alambique
É o método artesanal, menos produtivo. Na base do alambique, a bebida fermentada é aquecida. O vapor sobe, passa por uma serpentina onde condensa, e o líquido sai na outra ponta. Os resíduos permanecem na caldeira, que precisa ser limpa para uma nova destilação. Bebidas: cachaça artesanal, uísque de malte, conhaque, pisco, tequila 100% agave

Destilação contínua (ou fracionada)
No método industrial de destilação, uma coluna é continuamente abastecida de líquido (pela base) e de vapor (pelo topo). O calor do vapor faz com que diferentes substâncias entrem em ebulição em diferentes alturas da coluna, separadas por pratos. Esses pratos coletam as substâncias destiladas, e os resíduos saem pela outra extremidade da coluna. Bebidas: cachaça industrial, vodca, uísque de grãos, armagnac
Consultoria: Cesar Adames, Erwin Weimann (destilados em geral), Mauricio Maia (cachaça), Alexandre Tetsuya Iida (shochu) e Hugo Delgado (tequila)

O uísque é um destilado de grãos: seus principais ingredientes são a cevada, o milho e o centeio. Mas também é uma bebida tão única que merece uma categoria à parte. Ao contrário dos primos vodca e gim, o uísque (whisky para escoceses e canadenses; whiskey para irlandeses e americanos) é sempre envelhecido em barris. A cultura das bebidas também é muito distinta: enquanto os destilados brancos remetem a coquetéis e baladas, o uísque é associado a um ritual mais, hum, sóbrio. As bebidas velhas e caras devem ser degustadas puras e com calma.
Como beber
Se você estiver disposto a degustar um uísque especial, deve servi-lo em copos tipo tulipa (como o de conhaque), em temperatura ambiente e com água destilada (ou mineral) a gosto para reduzir a concentração do álcool e tornar os aromas mais perceptíveis. Bebidas menos caras podem ser tomadas do jeito que você bem entender: em copo baixo com gelo, com club soda ou em coquetéis.
Envelhecimento
-A cor do uísque vem da madeira. O líquido que sai dos alambiques é cristalino como vodca.
- O rótulo de scotch indica a idade do uísque mais novo da mistura engarrafada (um 12 anos pode ter maltes envelhecidos por 18 anos, mas não líquidos de três anos).
- Não existe uísque 8 anos, apesar de muitas lojas, bares e restaurantes chamarem assim as bebidas sem indicação de idade no rótulo. Esses aí são blends de uísques a partir de três anos — envelhecimento mínimo previsto na legislação britânica.
- Quanto mais velho, mais caro será o líquido — devido ao custo de armazenar o produto por décadas.
- Agora, não dá para afirmar que um uísque de 30 anos é melhor que um de dez. Uísques mais velhos são “amansados” pela madeira, mas há quem prefira os jovens e agressivos.

A geografia do uísque
Escócia
Os escoceses despejam 500 milhões de litros de uísque por ano no mercado mundial. O scotch envelhece em barris de carvalho que já foram usados para maturar outras bebidas, como o Bourbon e o vinho de Jerez, na Espanha. O ingrediente mais nobre é o malte. Para fazê-lo, os grãos de cevada são umedecidos e deixados em paz até começar a germinar e ter o amido transformado em açúcares. Aí esse processo é interrompido com a secagem, muitas vezes feita com fumaça de turfa (combustível fóssil que dá sabor defumado).
Estados Unidos
A matéria-prima é o milho — e, em menor escala, o centeio. O envelhecimento em barris de madeira nova, tostados por dentro, dá ao uísque cor, sabor e aromas intensos.
Bourbon: feito com uma mistura de grãos com pelo menos 51% de milho. Pode vir de qualquer lugar do país, mas o Kentucky detém 95% da produção. Chama-se straight bourbon quando envelhece por dois anos ou mais.
Tennessee whiskey: praticamente igual ao bourbon, exceto por ser feito exclusivamente no estado do Tennessee e pela filtragem em carvão.
Rye whiskey: leva ao menos 51% de centeio. Não existem marcas à venda no Brasil.
Irlanda, Canadá e Japão
O uísque irlandês tem boa reputação e a qualidade do canadense varia muito — mas é o japonês (sem importação para o Brasil) que briga de igual para igual com o scotch.

Marcos Nogueira
2 de ago. de 2012
Um dia o circo acaba
Pinto a cara com a tinta mais brilhante
para ofuscar minhas muitas sombras.
Visto um sorriso largo e vermelho
para me defender do desespero.
Uso a roupa mais espalhafatosa
para esconder o medo e a solidão.
E torço para que este nariz de palhaço
faça o público perdoar minha feiura.
Se invento contorcionismos impossíveis,
me sujo, tropeço, escorrego,
ou bato em mim mesmo
com um martelo de brinquedo,
não é apenas para arrancar risadas:
é para acalmar dores muito antigas.
Pois só no picadeiro eu sei fingir
que não sou um parasita
sugando gargalhadas para se manter de pé.
Ou que não sou covarde demais
para os saltos dos trapezistas.
E quem sabe, depois de todo esse teatro,
em algum momento entre o aplauso
e o fechar das cortinas,
eu consiga ser feliz.
José Henrique Calazans
1 de ago. de 2012
Cinquenta tons de cinza

Enrubesço.
O Adônis afunda graciosamente numa das poltronas brancas de couro. Sorri revelando dentes brancos perfeitos.
Sua voz é quente e encorpada como caramelo e chocolate derretido. Ele exala um perfume de roupa recém-lavada e algum gel de banho caro.
É embriagador. Nossos dedos se encostam muito brevemente e a corrente percorre todo o meu corpo, como se eu tivesse encostado num fio desencapado. Reprimo um grito involuntário. O coração quase me sufoca. Escovo os dentes com a escova dele.
É como tê-lo em minha boca. Sinto-me muito travessa. É muita emoção. Ninguém jamais segurou minha mão. Estou tonta e toda formigando.
Pela primeira vez em vinte e um anos quero ser beijada.
Esses são alguns dos milhares de clichês melosos de um livro que será lançado agora no Brasil. Cinquenta tons de cinza é o primeiro volume da trilogia escrita pela inglesa Erika Leonard James, casada, mãe de dois adolescentes e ex-produtora de televisão. A trilogia já vendeu no mundo 31 milhões de exemplares.
O romance conta o namoro entre Anastasia Steele, virgem aos 21 anos, e Christian Grey, um “megamagnata empresário enigmático”, “absurdamente gostoso”, com “lábios esculturais” (!), controlador e sádico. Anastasia, ou Ana para os íntimos, cai de quatro por Christian e não se acha lá grande coisa: “Sou desastrada, malvestida e não sou loura”. Christian, com seus “olhos ardentes de um cinza líquido” e “cílios longuíssimos”, deixa Ana, que nunca beijou nem se masturbou, “como uma massa trêmula de hormônios femininos em fúria”.
Cinquenta tons tem sido badalado como pornô para mulheres, porque, para homens, é fraco. Fala sério. “A nível” de pornografia, o livro também é fraco para mulheres – talvez seja uma carochinha erótica para amadores. Só 10% de suas páginas são dedicadas a sexo. Os adjetivos e interjeições são ingênuos. Talvez por isso esteja claro hoje que a idade média das compradoras é baixa.
As mil e uma noites, que li aos nove anos de idade, é uma coleção de fábulas mais ousadas. A escritora Anaïs Nin fez muito mais nos anos 40 pela ficção erótica feminina, ao escrever seus contos Delta de Vênus, por encomenda de um colecionador e a pedido de Henry Miller. Ganhava um dólar por página.
A protagonista de Cinquenta tons, Ana, uma Sabrina transformada em máquina improvável de orgasmos, enrubesce cinquenta vezes com o mala do Christian Grey. Ele tem 28 anos e se define assim para a moçoila: “Sou um homem muito rico e tenho hobbies caros e apaixonantes”. Oi??? Quando quer dar um efeito às palavras, fala esquisito: “Você. É. Muito. Gostosa.” “Eu. Quero. Você. Muito”. Se um homem falasse assim comigo, eu recomendaria uma fonoaudióloga.
Wow. Uau, repete Anastásia cinquenta vezes. Holy crap! Minha nossa!. Holy fuck! P.... m.....Oh my. Ai meu Deus.
O best-seller Cinquenta tons é um dos piores livros que li até o fim em minha vida. Forcei-me a ler as 514 páginas do original em inglês por quase três meses. Sempre tinha algo melhor a fazer.
Além de protagonistas tão inverossímeis quanto bobos, incomoda a mania com grifes, marcas e modelos. O Mercedes é esportivo CLK. O Audi é SUV preto. O par de tênis no original é Converse, e na tradução brasileira é All-Stars. Para combater a dor, Advil. A cueca é Ralph Loren. No cinema, será um show de merchandising.
Por que fui ler “Cinquenta tons”? Pelo frenesi. Vendeu muito na internet, em capítulos. Chamava-se Mestre do Universo. Era inspirado nos vampiros de Crepúsculo. A escritora usava o pseudônimo Snowqueen’s Icedragon. O sucesso na blogosfera acordou as editoras e Hollywood para o “fenômeno”. A autora passou a assinar E.L. James e por muito tempo não quis aparecer. Lendo o livro, dá para entender.
Para ajudar a divulgação no Brasil, alguns jornalistas receberam um par de algemas, uma máscara, uma gravata e um contrato entre dominador e submissa.
Comprei o livro pela Amazon em abril quando vi a autora falando na televisão. Simpatizei com E.L. James.
Irônica, calorosa, gordinha, com óculos na ponta do nariz ao ler, ela parece aquela dona de casa londrina que vai ao pub com as amigas e ajuda os filhos no dever da escola – e não se leva a sério.
“Se tenho um quarto de tortura na minha casa? A casa não é grande o suficiente...Tenho um quarto com parede vermelha, mas é cheio de roupa para passar”, ri. “Revolucionária, eu? Nada disso. É só uma história de amor. E quando as pessoas se apaixonam, fazem sexo. Se é que me lembro”, ri de novo. Ela não gosta que leiam ao vivo passagens de seu livro: “Não, por favor, para. Não quero que meus filhos escutem. Até hoje fico com vergonha”.
Sua vida vai mudar com o dinheiro, Erika? “Quem sabe posso enfim ganhar uma nova cozinha”, diz, fazendo troça de si mesma e da entrevistadora. O outro sonho: “Ficar deitada numa praia ensolarada com um drinque na mão”.
Espantoso foi o debate sociológico na mídia: a exemplo de Anastasia, as mulheres de hoje querem ser dominadas e levar muita palmada com açoite? Fico estarrecida com a insistência em generalizar o desejo “das mulheres”.
Quando Michael Douglas se submeteu a todos os caprichos sádicos de Sharon Stone em Instinto Selvagem – como já aconteceu em muitos filmes e livros e na vida real de alguns amigos –, ninguém criou a teoria de que esta seria a verdadeira fantasia dos machos de hoje.
Cansados do poder, eles sonham em ser atados, vendados e consumidos por mulheres alfa como objetos de prazer. É isso? Não. Sim. Depende. Cada um é cada um. Cada uma é cada uma. Com todas as nossas contradições bem particulares.
Ruth de Aquino
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