12 de fev. de 2013

A cara da vagina

Gustave Courbet, A origem do mundo
E cá estamos nós, mais uma vez. De volta às aventuras do quadro mais famoso do pintor Gustave Courbet, A origem do mundo. Não sei se existe outra obra de arte com tanta capacidade de provocar polêmica, mesmo um século e meio depois de ter sido realizada. Para quem não conhece a pintura, ela mostra uma vagina. Ou, segundo uma definição menos cultural e mais anatômica, uma vulva. Ela desponta entre as coxas femininas abertas, coberta de pelos. Há ainda a barriga e um seio. Não há o restante das pernas, não há braços, não há rosto. 

Pelo menos não havia até a quinta-feira, 7/2, quando a revista francesa Paris Match chegou às bancas. Na capa se anunciava, com grande estardalhaço, que havia sido encontrado “o rosto de A Origem do Mundo” – “a parte de cima da obra-prima de Courbet”. A vagina teria uma cara. E até um nome, uma nacionalidade e uma biografia, já que sua dona seria a irlandesa Joanna Hiffernan, modelo retratada em outras telas de Courbet, amante de outro pintor, Whistler. Cabe a pergunta: por que a vagina precisaria de um rosto?

A Origem do Mundo, a pintura, assim como as palavras “vagina” e “boceta” viveram uma série de percalços no Brasil e no mundo no ano passado. A novidade trazida pela Paris Match neste mês de fevereiro mostra que ainda haverá muitas peripécias. O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981), que foi o último dono do quadro antes de a obra ingressar no acervo do Museu D’Orsay, em Paris, costumava dizer: “O sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear”. E por isso exibia a pintura de Courbet a uma plateia seleta de intelectuais da época, num ritual cheio de suspense. Mais do que exibir, ele a desvelava, na medida em que A Origem do Mundo era ocultada atrás de uma outra pintura.

Primeiro, uma breve retrospectiva dos acontecimentos recentes. Em junho de 2012, escrevi sobre o quadro a partir de um grito que ecoou dentro da minha casa. Este era o título da coluna: “Por que a imagem da vagina provoca horror?”. Se você não a leu, pode ler aqui. Nela, conto a conturbada trajetória da pintura desde que Courbet (1819-1877) a fez, em 1866, e sugiro algumas hipóteses para o impacto tanto da imagem quanto das palavras, ainda hoje, quando corpos femininos nus se movimentam na internet a um clique.

Em setembro, o incômodo, que tanto a imagem quanto as palavras provocam, foi comprovado, mais uma vez, em dois episódios. No primeiro, a Apple censurou a palavra “vagina” . O título do livro de Naomi Wolf, respeitada escritora americana, passou de Vagina, uma nova biografia paraV****a, uma nova biografia. Neste caso, a apresentação do livro feita na livraria virtual resultou numa prova bastante irônica da atualidade da abordagem: “É um impactante novo trabalho que muda radicalmente como pensamos, discutimos e compreendemos a v****a. A autora olha para o passado e nos mostra como a v****a foi considerada sagrada por séculos até ser vista como uma ameaça”.

Na mesma época, a transmissão da palestra de Jorge Coli pelo site da Academia Brasileira de Letras (ABL) foi interrompida. O corte ocorreu no momento em que Coli, respeitado crítico de arte e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostrava uma imagem de A origem do mundo e pronunciava a palavra “boceta”. De novo, uma prova mais do que irônica da pertinência do debate.

A conferência integrava o ciclo “Mutações – O futuro não é mais o que era”, organizado pelo filósofo Adauto Novaes, e discutia “as noções de pornografia, erotismo e sexualidade dentro das artes”. Na sua reflexão, Coli sublinhava “o caráter conservador do moralismo atual e criticava os puritanismos repressivos que oprimem o imaginário, mas não apenas ele”. Censura consumada, os imortais da ABL aprovaram o ato “com louvor”.

Como se vê, 2012 foi um ano difícil para a vagina, seja como palavra, seja como imagem. E agora, logo no início de 2013, a novidade. Segundo a reportagem da Paris Match, apresentada como um “furo internacional”, o rosto de A Origem do Mundo teria sido descoberto por um amante da arte num percurso de romance.

Em janeiro de 2010, um homem identificado apenas como “John” entrou numa lojinha de antiguidades de Paris para se refugiar da chuva. Sobre uma cômoda, o rosto de uma mulher o capturou. No quadro, a “bela lasciva”, como é descrita, parecia ter sido imortalizada depois do ato de amor. E, de imediato, ele a quis. Pechinchou um pouco, pagou pela pintura não assinada o que tinha no momento e a encaixou debaixo do braço quando a chuva amainou. Ao chegar em casa, descobriu que aquela cabeça parecia ter sido cortada. E passou a buscar a origem e o restante do corpo da mulher como um detetive de histórias de mistério.

Depois de dois anos de obsessão e pesquisas, “John” chegou à conclusão de que o rosto feminino era a outra parte de A Origem do Mundo. Levou sua investigação até o Instituto Gustave Courbet. Depois de testes e análises, Jean-Jacques Fernier, considerado um dos grandes especialistas na obra do pintor, afirmou que a cabeça corresponde mesmo à pessoa.

Ao juntá-las, num quadro só, a pintura seria, segundo Fernier, um ângulo muito mais ousado de outro nu feminino de Courbet, chamado A Mulher e o Periquito, exibido no Metropolitan, de Nova York. Nesse caso, A Origem do Mundo se revelaria um quadro muito maior e faltaria ainda encontrar outras partes, como o próprio periquito em questão. No jornal Le Monde, especialistas levantaram dúvidas pertinentes sobre a veracidade da descoberta. O Museu D’Orsay, onde a pintura é exibida desde 1995, divulgou uma nota chamando a conclusão de “fantasiosa”. E dizendo: “A Origem do Mundo não perdeu sua cabeça”.

Jo, La Belle Irlandaise - Gustave Courbet 
É nesse ponto que estamos. Mas o que, afinal, essa cabeça significa? Caso a hipótese se mostre verdadeira, o que ainda é bastante duvidoso, ninguém pode negar que a história seja quase irresistível. A Paris Match não demonstrou nenhum pudor com as palavras, ao exagerar no tom: “A Origem do Mundo tem enfim um rosto. Um amante da arte descobriu a outra parte do quadro mais audacioso da história da pintura. A parte de baixo causou escândalo, a de cima provocará uma revolução”. 

Mas, voltando à questão que move esta coluna, por que A Origem do Mundo precisaria de um rosto? Entre as várias polêmicas que o quadro gerou ao longo de século e meio, uma delas era a acusação de que ao pintar uma vagina sem rosto, braços ou pernas, Courbet estaria esvaziando a história da mulher, reduzindo-a a um órgão sexual. Ela nem teria identidade, nem movimento, muito menos protagonismo. Seria apenas um objeto inerte, à mercê do desejo do homem.Por enquanto, a história toda já se mostrou um excelente negócio, mesmo que a cabeça continue sem corpo. A reportagem ganhou repercussão internacional e foi replicada no mundo todo. O rosto, que custou ao seu dono 1.400 euros (cerca de R$ 3.700) em 2010, pode deixá-lo milionário, caso seja aceito como a cabeça de A Origem do Mundo, multiplicando seu valor para 40 milhões de euros (R$ 105 milhões), segundo estimativa da revista. Já vale agora muito mais do que quando era apenas mais um quadro num antiquário, entre móveis antigos e bibelôs de avós. 

Com a descoberta do rosto perdido, pelo menos esse “problema” estaria resolvido. Agora, a mulher teria não só cara, como até nome e biografia. Juntos, estes separados no nascimento apaziguariam corações e mentes. A vagina não seria mais o centro perturbador – apenas parte, fragmento. O quadro de Courbet se tornaria apenas um nu muito ousado. Jean-Jacques Fernier, o especialista que avalizou a cabeça, chegou a lamentar que o rosto elimina o mistério e o simbolismo, a possibilidade que cada um tinha até então de imaginar o restante da mulher, completar a imagem a partir de suas experiências e fantasias.

Segundo a revista, “John”, o anônimo “amante da arte” que descobriu o rosto, sonha com expor as duas partes no Museu D’Orsay. Assim, de certo modo, o quadro estaria “inteiro” pela primeira vez. Mas o que é “inteiro”, valeria a pena perguntar? Ainda que aceitemos que o pintor também tenha feito um rosto, por alguma boa razão Courbet decidiu que ele seria uma outra inteireza. A Origem do Mundo existe inclusive para além de seu criador. Uma obra de arte é também quem a fez, o que fizeram dela ao longo de sua trajetória e o que é para cada um. Não existe uma essência a ser resgatada. No caso de A Origem do Mundo, ao supor pedaços e tentar juntá-los é que se rompe a integridade da obra.
Numa das charges sobre o episódio, um casal discute a “descoberta” diante do quadro do rosto de A Origem do Mundo. Em seguida, estão diante da Mona Lisa. A mulher percebe que o marido está pensando sobre a parte que, por dedução lógica, estaria faltando na enigmática Gioconda. “O que você está pensando?”, intima ela. E ele, todo aflito: “Nada! Juro!”.

É importante lembrar que, ao longo de sua turbulenta história, A Origem do Mundo sempre foi coberta por um véu. De tecido, como na casa de seu primeiro dono, o diplomata turco Khalil-Bey, que a escondia atrás de uma cortina verde num banheiro. Atrás de um outro quadro, como preferiu seu último dono, o psicanalista Lacan, ao instalá-la em sua casa de campo. Apenas a partir de 1995 a pintura passou a ser exposta sem véu algum no Museu D’Orsay.
Ao anunciar a “descoberta”, a reportagem da Paris Match afirmou: “Dois anos de pesquisa nos permitem retirar o véu e descobrir um enigma que tem apaixonado o mundo da arte e o grande público desde a origem do quadro”. Mas o rosto da mulher nunca foi o enigma. Nem me parece que a possibilidade de imaginá-lo seja o ganho ao se manter o mistério. O enigma é de outra ordem – e está em lugar diverso.

É a capacidade de representar o enigma que tornou esse quadro tão polêmico, na medida em que ele não representa o irrepresentável – o sexo da mulher. O que ele representa é justamente o enigma. Esta é a sua transgressão. Esta é a razão de provocar um incômodo que atravessa o tempo.
Se há algo que falta, não me parece que alguma vez tenha sido o rosto da mulher, os braços, as pernas. Se há algo perdido, não é a cabeça. O que está perdido – ou o que falta – não pode ser achado. Ou talvez o que falta seja preenchido pelo olhar de quem olha apenas no instante fugaz em que a pintura se torna também o olhar de quem a vê.

A “descoberta” de um rosto, ainda que se mostre verdadeira, não significa a retirada do véu, como se pretende. É exatamente o oposto. É mais uma tentativa de colocar um véu sobre A Origem do Mundo. Apenas que, desta vez, é uma tentativa mais perigosa, porque se pretende um véu definitivo. Por paradoxal que possa parecer, este rosto é não “uma revolução”, como quer a Paris Match, mas apenas mais um ataque de um moralismo conservador contra “a obra mais audaciosa da história da pintura”.
O rosto é o véu que jamais poderá ser arrancado.
Eliane Brum

10 de fev. de 2013

A (falta de) ciência da ressaca


Banho gelado, água de coco, café, coca-cola. Chá de hortelã, canela em pau. Chupar limão, comer ostra em jejum. Ovo cru, comprimidos e orações. Além de beber mais cerveja, é claro. Não acredite em tudo que você ouve por aí sobre como curar uma ressaca. Infelizmente, não existe nenhuma evidência científica de que qualquer remédio ou receita popular resolva o mal-estar que segue uma bebedeira.
“Você pode pesquisar na internet e encontrar todos os tipos de cura, mas essas alegações são apoiadas em poucas provas para se dizer que são verdadeiras”, diz Robert Swift, psiquiatra da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, e pesquisador do tema há mais de 20 anos.
É estranho. Afinal, a ressaca é descrita em papiros desde o Egito Antigo e até hoje é um problema sério. Uma empresa de seguros constatou que um terço dos trabalhadores ingleses já bateram ponto de ressaca — 5% deles fazem isso toda semana. Nos EUA, estima-se um prejuízo de US$ 185 bilhões por ano, com faltas e quedas de rendimento provocadas pelo problema. Como pode a medicina moderna não ter uma explicação e uma cura para um problema tão antigo e tão frequente? Primeiro, porque os médicos sempre acharam que não convém.
“A ressaca era vista como uma punição natural para controlar a bebida em excesso”, diz Richard Stephens, psicólogo da Universidade de Keele, na Inglaterra, e coautor de um recente estudo de revisão sobre o assunto. Ou seja, se criassem uma “pílula do dia seguinte ao porre”, o tiro poderia sair pela culatra: talvez as pessoas bebessem mais, o que faria aumentar o número de dependentes da droga. “Devido a esse ‘bom’ efeito, os pesquisadores ficaram longe dela para se focar nos efeitos ‘maus’ da bebida, como o alcoolismo.” Os números confirmam a tese de Stephens: nas últimas cinco décadas foram produzidos quase 13 mil estudos científicos sobre a intoxicação por álcool, mas apenas 145 investigavam a ressaca.
A ignorância sobre o tema também se explica por dificuldades práticas de estudá-lo. Talvez você discorde disso, mas, entre pesquisadores, não pega bem fazer as pessoas tomarem porres em nome da ciência. “É antiético permitir que bebam muito. E, bebendo pouco, a quantidade de álcool pode não ser suficiente para uma ressaca”, diz Stephens. Por isso, alguns estudos usam voluntários que topam ir ao laboratório depois de encher a cara por conta própria. “Só que de ressaca eles não estão muito dispostos a sair da cama.” Quem chega aos cientistas não se lembra bem o que e quanto bebeu — o que também compromete a qualidade das pesquisas.
Outro desafio é criar grupos de controle. Quando se quer testar um remédio, por exemplo, uma parte das cobaias recebe, sem saber, uma substância sem ação farmacológica. Isso desconta o “efeito placebo” (saiba mais na matéria de capa) e dá aos cientistas um parâmetro. O problema é que, nesse caso, quem recebe o placebo logo percebe que ganhou a cerveja sem álcool — afinal, eles nem ficam bêbados.
Com tanta dificuldade, a ciência não consegue confirmar nenhuma explicação para o fenômeno da ressaca. Apesar (ou justamente por causa) disso, existem diversas teorias sobre a(s) causa(s) do fenômeno — algumas mais populares e aceitas, outras menos. Todas, porém, com seus pontos fracos e incertezas.
Muitas teorias, poucas provas
A explicação mais popular para a ressaca é a desidratação. Beber 50 gramas de álcool faz uma pessoa urinar de 600 a 1.000 mililitros. Trocando em latinhas, você urina pelo menos o mesmo volume que bebe em cerveja. Se vomitar ou tiver uma diarreia ao fim da bebedeira — eventos relativamente comuns quando se passa da conta—, a falta d'água só piora. E sabe-se que a desidratação causa sede, olhos e boca secos, fraqueza e vertigem — efeitos típicos dos mais trágicos dias seguintes. Coincidência? Talvez. Estudos que analisaram a relação entre hormônios indicadores de desidratação e a intensidade da ressaca não deram em nada. O sujeito pode ter uma ressaca forte, bem hidratado, ou estar sequinho e ter uma ressaca leve. Conclusão: uma coisa não é, necessariamente, causa da outra.
Outras possíveis explicações são efeitos diretos do álcool sobre o estômago, a taxa de açúcar no sangue e o relógio biológico. A droga irrita células da parede do órgão, reduz sua capacidade de se esvaziar e o faz produzir mais ácidos. Isso explicaria dores de barriga, náuseas e vômitos. Ela também reduz a glicose no sangue, única fonte de energia do cérebro — e a falta desse combustível poderia explicar fraqueza e alterações de humor. Também se sabe que o álcool bagunça o relógio biológico. Quem vai pra cama bêbado dorme mal, e geralmente pouco. “Como bebemos à noite, isso compete com o tempo de sono”, diz Swift. Cansaço e dificuldades de concentração seriam consequência disso, talvez.
“Mas não se pode dizer que essas coisas sejam causa da ressaca”, diz a cientista holandesa Renske Penning. Autora da mais recente revisão de estudos sobre o assunto, ela notou que não existe uma associação entre esses efeitos e a intensidade da ressaca. Logo, dificilmente eles são a causa do problema. Outro ponto que coloca em xeque essas teorias é que a ressaca só chega no dia seguinte, quando o álcool e seus efeitos já se foram. Esse “atraso”, aliás, também é o que está por trás de uma das mais bizarras — e menos aceitas — explicações para a ressaca: a da síndrome de abstinência.
Com o tempo, o cérebro de quem bebe muito e com frequência se adapta ao “pé no freio” que o álcool representa. Interrompendo a bebida subitamente, o cérebro “acelera” demais e começa uma síndrome de abstinência — náusea, tremedeira, ansiedade, dores de cabeça, alucinações, agitação e convulsões. Os sintomas persistem por dias, até que o cérebro volte ao normal — ou até que o alcoólico beba de novo. Uma teoria diz que a ressaca seria uma versão desse fenômeno, light e em curto prazo. Apesar de isso não ser comprovado, há quem diga que a cura do porre seja mais bebida. “Isso é combater o mal com um mal pior, pois só adia a ressaca, que pode inclusive voltar mais forte”, diz o psiquiatra da USP Arthur Guerra, especialista em álcool e outras drogas.
As teorias mais aceitas hoje em dia para explicar a ressaca são ligadas ao acetaldeído e, acredite, ao sistema imune. O primeiro é um composto tóxico, intermediário do metabolismo do álcool. Sua concentração varia de acordo com a intensidade da ressaca, indicando uma possível relação de causa e efeito. O mesmo acontece com as interleucinas, proteínas que regulam a atividade do sistema imune. Essa associação suporta a tese de que a ressaca seria uma queda temporária de imunidade — e essa é a linha de investigação mais nova que existe para explicar a ressaca.
Também há pistas de que a ressaca pode ser agravada por diversas coisas que não têm a ver com álcool. A lista inclui desde traços de personalidade — pessoas neuróticas, por exemplo, seriam mais sensíveis a ela — à quantidade de congêneres, ingredientes que não são álcool, mas estão presentes nas bebidas, como metanol e substâncias naturais que dão cor e aroma às bebidas.
Diversas pesquisas mostram que bebidas mais escuras têm mais congêneres e causam ressacas mais fortes. Um estudo holandês de 2006, por exemplo, mostrou que para se ter uma ressaca forte é preciso beber uma quantidade de álcool quase duas vezes maior na cerveja do que no vinho tinto. Uísque e vinho tinto são os piores para o dia seguinte. Gin, vodca e cerveja, os menos perigosos.
Editora Globo

Curas ou apenas lendas?
Como você pode notar, a ciência mal consegue dizer que mecanismos biológicos desencadeiam o conjunto de sintomas que caracteriza a ressaca. Vários mecanismos podem estar envolvidos com o mal-estar do dia seguinte, provavelmente mais de um deles, mas não se sabe o papel e a importância de cada um para o quadro geral. Sem essa compreensão, é complicado desenvolver um medicamento eficaz. Você deve estar se perguntando: mas e aquele monte de remédios que dizem curar a ressaca?
“Faltam testes clínicos controlados com placebo que examinem a eficácia desses produtos, ou então os produtos mostram eficácia nula ou limitada”, escreveu o cientista holandês Jos Verster, um dos expoentes da pesquisa sobre ressaca, em um editorial de 2012 da revista Current Drug Abuse Reviews.
Apesar disso, não faltam no mercado remédios que se declaram “antirressaca”. Ano passado, o médico americano Jason Burke fez sucesso rodando por Las Vegas em um ônibus/serviço chamado Hangover Heaven (paraíso da ressaca). Com a promessa de trazer as pessoas de volta ao normal em 45 minutos com uma mistura de dez ingredientes, ele cobra de US$ 100 a US$ 200. “Muita gente diz que não é possível curar a ressaca, mas já atendemos mais de mil clientes, incluindo reincidentes. Se o tratamento não funciona, por que voltariam?”, diz Burke, apesar de seu tratamento nunca ter sido avaliado por alguém sóbrio. Analisando o coquetel de Burke, que inclui até chiclete de açaí, três especialistas consultados por GALILEU disseram que tudo é mero paliativo.
Aqui no Brasil, alguns remédios já foram obrigados a sair de circulação ou mudar de registro, depois que o Instituto de Defesa do Consumidor questionou a eficácia de uma classe de medicamentos definidos como “hepatoprotetores”. Um deles foi o Engov, obrigado a mudar seu registro e sua bula, para que conste apenas a expressão “alivia os sintomas da ressaca” (veja quadro “E o Engov, funciona?”). Ou seja, todas as promessas de cura são, na verdade, apenas paliativos para um ou outro dos sintomas físicos causados pelo excesso de álcool. Anti-inflamatórios, analgésicos, remédios para enjoo, bebidas para hidratar ou repor eletrólitos. Nada que realmente faça o problema desaparecer. Atualmente, e desde o Egito Antigo, a única coisa que cura mesmo a ressaca é o tempo. O tempo que o organismo precisa para desfazer a misteriosa bagunça que o álcool faz no seu corpo.
Editora Globo 
Alexandre Rodrigues e Tarso Araújo
Revista Galileu

Cegos de ciúmes

Há mais de 400 anos, William Shakespeare tratou da “doença da suspeita” em uma de suas obras mais populares: Otelo, o mouro de Veneza. A desconfiança de que a mulher mantinha relacionamento com um rapaz mais jovem – despertada e alimentada por insinuações de um subordinado, Iago – levou-o a buscar e a acreditar ter encontrado provas da traição em fatos triviais. O escritor referia-se ao ciúme como “o monstro de olhos verdes”, uma metáfora sobre a cegueira induzida pelo sentimento que faz entrever como provável ou certo o que apenas é possível de acontecer. 

No relacionamento amoroso, no entanto, é natural sentir ansiedade ao perceber que algo ou alguém pode reduzir o espaço afetivo que ocupamos na vida do parceiro. “O ciúme normal é transitório e se baseia em ameaças e fatos reais. Ele não limita as atividades – nem interfere nelas – de quem sente ou é alvo de ciúme e tende a desaparecer diante das evidências”, define a psicóloga Andrea Lorena, pesquisadora de ciúme excessivo do Laboratório Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). O ciúme extrapola as fronteiras do saudável quando se torna uma preocupação constante e geralmente infundada, associada a comportamentos inaceitáveis ou extravagantes, motivados pela ansiedade de tirar a limpo a infidelidade do parceiro. “No ciúme excessivo, o medo de perder a pessoa amada vem acompanhado de emoções específicas – raiva, medo, tristeza, ansiedade – e pensamentos irracionais. ‘Será que ele/ela está me traindo?’ é um pensamento frequente. Quase sempre há prejuízos para quem sente, para quem é alvo e para o relacionamento”, diz Andrea. 

Não raro os pensamentos irracionais se traduzem em comportamentos compulsivos, sustentados pela ilusão de que é possível controlar o que o parceiro faz ou sente, como verificar agendas, registro de ligações no celular, seguir o parceiro, conseguir senha de acesso ao e-mail, checar faturas de cartão de crédito e fazer visitas-surpresa para confirmar suspeitas. Muitas vezes as preocupações são acompanhadas por sintomas físicos, como sudorese, taquicardia, alterações no apetite e insônia. De acordo com Andrea, uma das características mais comuns da pessoa excessivamente ciumenta é a baixa autoestima. “Isto é, ela não acredita que tem valor e merece respeito. A priori, é alguém ‘traível’ e abandonável, pois na verdade acredita que a honestidade e a reciprocidade nas relações não valem a pena. É um sentimento com origem na infância e na relação com os pais, em que provavelmente a pessoa foi negligenciada e desrespeitada. Somam-se ainda fatores como insegurança, medo, instabilidade e a própria desorganização pessoal”, diz a psicóloga. 

No Brasil, o PRO-AMITI e a Santa Casa do Rio de Janeiro oferecem tratamento gratuito para ciúme excessivo. A abordagem combina atendimento psicológico, em grupo ou individual, e psiquiátrico. É comum a comorbidade com transtornos de depressão e ansiedade que, se diagnosticados, são tratados com medicamentos. “O processo psicoterápico trabalha a melhora da autoestima e a segurança com o próprio relacionamento. Com o tempo, o paciente percebe que comportamentos como investigar o que o parceiro faz na rede ou vasculhar seus pertences são desnecessários”, diz Andrea. 

O ciúme excessivo é um traço frequente de outro quadro: o amor patológico (AP), com características semelhantes à dependência química. Ele ocorre quando o comportamento saudável de atenção e cuidado para com o parceiro, característico do amor, começa a ocorrer de maneira repetitiva e frequente. A pessoa se ocupa do outro mais do que gostaria e abandona interesses e atividades que antes valorizava. Segundo a psicóloga Eglacy Sophia, também do PRO-AMITI, ciúme excessivo e amor patológico compreendem medo intenso da perda, baixa autoestima e insegurança emocional. “Muitas vezes os questionamentos sobre a fidelidade do parceiro são calcados em motivos plausíveis. Em geral, uma entrevista cuidadosa com o paciente revela dados sobre o comportamento do parceiro que poderiam causar ciúme em qualquer pessoa, como telefonemas secretos, distanciamento afetivo e físico frequente e confirmação de traições passadas”, diz a psicóloga.

Apesar de existirem poucos estudos relacionando o ciúme patológico com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), os pensamentos do ciumento costumam ser similares aos das pessoas que têm o distúrbio: são intrusivos, desagradáveis e incitam atitudes de verificação. “Pacientes que reconhecem seus comportamentos como inadequados ou injustificados apresentam mais sentimentos de culpa e depressão; os demais demonstram raiva e condutas impulsivas mais pronunciadas”, diz Eglacy.
Fernanda Ribeiro

7 de fev. de 2013

Esse Cara Sou Eu - Deus me livre desse “cara sou eu”!




Gosto muito de algumas músicas do Roberto Carlos.  Já fui a um show e não perco o especial  de Natal. Quando ele abre os braços e sorri para cantar os versos “Se chorei ou se sorri /o importante é que emoções eu vivi”, tenho vontade de cantar junto.  Mas toda vez que escuto o novo rit do rei, “Esse cara sou eu”, não consigo deixar de pensar que “esse cara” é um pouco exagerado.
Ele quer ver a moça o tempo todo. Conta os segundos se ela demora. Não sabe ficar sem ela. Acorda a coitada no meio da noite para falar que a ama (precisa?).  Ele reclama quando ela some por um tempo.  “Esse cara” me parece pegajoso, possessivo e sem vida própria.
Sei que essa música traduz o ideal romântico de muitas pessoas.  E acho isso um pouco assustador. Primeiro porque “esse cara” dificilmente existe. Nenhum homem (ou mulher)  é heroi e vive exclusivamente para alguém.  As pessoas trabalham, têm amigos, problemas, têm mais o que fazer da vida.  Segundo, porque o que a música descreve não me parece amor. Esta mais para um sufoco. Amor requer companheirismo,  liberdade, e  espaço para ser você mesmo.
Natália Spinacé

Homens são de Marte e mulheres são de Vênus? Para a psicologia, isso é uma bobagem


Pesquisa mostra que, apesar dos estereótipos, não é possível separar homens e mulheres tomando por base somente as características psicológicas

A historinha segundo a qual homens são de Marte e mulheres são de Vênus é muito boa para vender livros, mas um novo estudo científico defende que psicologicamente os gêneros masculino e feminino são semelhantes. A conclusão do estudo americano que propõe um fim pacífico para a guerra dos sexos mostra que não é possível separá-los em dois grupos tomando por base somente as características psicológicas.
Para a realização da pesquisa, publicada na edição de fevereiro do periódico Journal of Personality and Social Psychology, foram analisadas 122 características, como empatia, extroversão e afinidade com ciências, em 13.301 indivíduos.
Os dados de personalidade foram coletados de outros treze estudos. Mas os resultados encontrados mostraram que homens e mulheres poderiam ser classificados em grupos distintos apenas baseados em critérios antropométricos (medições do corpo humano), como altura, largura dos ombros, circunferência do braço e relação cintura/quadril. Além disso, o gênero pode ajudar a prever a tendência a alguns interesses específicos, como cosméticos, nas mulheres, e boxe, nos homens.
Porém, características psicológicas, como critério de seleção de amigos e medo do sucesso, não podem ser utilizadas para classificar homens e mulheres em dois grupos distintos. Apesar de existirem algumas exceções, a variação e as características dentro de cada sexo, além da semelhança entre eles, levaram os pesquisadores a considerarem impreciso e incorreto utilizar critérios psicológicos para fazer essa divisão. "Podem existir diferenças entre homens e mulheres, mas são diferenças individuais, não categóricas", afirma Harry Reis, um dos autores do estudo.
Estereótipos — O fato de uma pessoa se enquadrar em alguns dos estereótipos de seu gênero não significa que o fará em todos. Um homem que, na avaliação feita para o estudo, teve uma pontuação alta no critério agressividade, pode ter uma nota baixa em matemática, por exemplo, explicam os pesquisadores.
Para Reis, insistir na simplificação da diferença entre os sexos pode ser prejudicial para relacionamentos. "Quando alguma coisa dá errado com o casal, as pessoas frequentemente culpam o sexo do parceiro. Os estereótipos de gênero impedem que as pessoas vejam seus parceiros como indivíduos", diz ele. "Estereótipos também podem desencorajar a busca por certos objetivos. Quando tendências psicológicas e intelectuais são vistas como características definidoras, elas têm mais chance de serem consideradas imutáveis. Então, por que se preocupar em mudar?", completa.
"Para os pais, isso significa que, ao criar um filho, você não deve tentar encaixá-lo em uma categoria baseada em seu gênero. Você deve descobrir quais são seus interesses, o que ele quer fazer, quais são suas forças e fraquezas e, a partir daí, você pode perceber que algumas dessas forças não são características de seu gênero, enquanto outras são", afirma Harry Reis.
O pesquisador explica que uma das principais evidências de que a história de "homens são de Marte e mulheres são de Vênus” está errada é que casais homossexuais têm problemas muito semelhantes aos dos casais heterossexuais. "Claramente, não se trata do sexo, mas do caráter humano que causa dificuldades", afirma Reis.
Para os autores, à medida que os papéis atribuídos aos gêneros vão se tornando menos rígidos, novos estudos podem mostrar divergências ainda menores entre homens e mulheres. Porém, essas diferenças podem continuar acentuadas em países em que o papel de cada sexo é definido de forma mais restrita pela cultura, como alguns países orientais.
"O que a gente está percebendo é que, de fato, com as mudanças culturais, começou a haver uma grande mistura de características. O que era exclusivamente feminino e exclusivamente masculino não é mais. Porém há algumas características que, apesar de serem comportamentais, são relacionadas a diferenças hormonais e outras características de base orgânica que ainda se mantêm.
"O homem, por exemplo, coloca a atividade sexual como a terceira atividade em nível de importância na vida dele. Estudos com a população brasileira mostram que qualidade de vida para ele em primeiro lugar é conviver com a família, segundo alimentação saudável e terceiro atividade sexual satisfatória. As mulheres colocam a sexualidade em oitavo lugar, mostrando que existe uma valorização diferente da atividade sexual. Essa valorização é cultural, mas é muito mais pautada nas diferenças hormonais de ambos os sexos.
"Os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus porque os homens são testosterônicos e as mulheres estrogênicas. Eu acho que os homens continuarão sendo de Marte e as mulheres de Vênus enquanto estiverem em corpos estrutural e quimicamente diferentes, mas nada impede que aquilo que os homens aprenderam com a vida em sociedade, as mulheres também tenham aprendido assim que tiveram a oportunidade de participar da mesma sociedade. Se a gente compara a mulher americana de hoje com a de cem anos atrás, elas são diferentes. Elas sem dúvida colocariam respostas muito diferentes no questionário dessa pesquisa.
"Além disso, esse estudo vale para uma cultura ocidental, do século 21, especialmente dos Estados Unidos. Se o mesmo estudo fosse realizado em países com culturas diferentes, os resultados seriam outros."
Bobbi J. Carothers e Harry T. Reis
Veja

6 de fev. de 2013

Se dinheiro não existisse?

Fechar o Congresso?

O contínuo processo de desmoralização da atividade política no País pode não terminar bem

Dirigido por Steven Spielberg, o filme “Lincoln”, favorito ao Oscar de 2013, chega em boa hora ao Brasil. A trama relata o esforço do presidente mais cultuado na história dos Estados Unidos para aprovar sua grande realização: a emenda constitucional que, em 1865, aboliu a escravidão. E usando instrumentos que, no Brasil de hoje, dariam prisão perpétua.

Na democracia, mesmo o homem mais puro da América se viu forçado a sujar as próprias mãos, num processo definido pelo humorista José Simão como uma espécie de “mensalation”, o precursor de todos os mensalões que vieram depois. Lincoln teve de se envolver diretamente no submundo da atividade política, comprando votos com dinheiro ou com cargos na máquina pública. E o Congresso americano daquele tempo não era muito diferente dos parlamentos atuais. Existem princípios, mas eles só avançam quando há também o convencimento em casas legislativas formadas por seres humanos de carne e osso que, antes de tudo, pensam nos seus próprios interesses.

A democracia representativa funciona assim e é essa, inclusive, a sua beleza, mas ela vem sendo permanentemente desmoralizada no Brasil. Nesta semana, uma corrente moralista, mas de uma ética seletiva, condenou as eleições de Renan Calheiros (PMDB-AL) e Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) às presidências do Senado e da Câmara. Renan e Henrique não são os mais puros dos homens, mas retratam à perfeição os parlamentos. Foram escolhidos por seus pares, que formam a maioria das duas casas, porque são vistos como os mais capazes de cumprir acordos. Foram combatidos, sobretudo, porque ajudam a consolidar a aliança PT-PMDB em 2014.

Enquanto Fernando Henrique Cardoso governou o País, a lógica de formação de maiorias no Congresso não era muito diferente. FHC teve como presidentes do Senado nomes como José Sarney, Antônio Carlos Magalhães e Jader Barbalho. Na Câmara, Luís Eduardo Magalhães e Michel Temer. E nunca é demais lembrar que Renan Calheiros foi seu ministro. Não um ministro qualquer, mas o da Justiça. Naquele tempo, porém, quando serviam à governabilidade de outro projeto, eram todos homens probos.

Se o Brasil prosseguir nessa trilha de desmoralização permanente da política, qual será o resultado? O fechamento do Congresso? A democracia direta através de plebiscitos? O unicameralismo? Todo poder ao governante? A supremocracia, com o Judiciário interferindo no Executivo? Que modelo de governabilidade nos propõem os neoudenistas?
Leonardo Attuch

5 de fev. de 2013

Pessoas casadas correm menor risco de infarto


Nova pesquisa ainda mostrou que, em ambos os sexos, a vida conjugal também aumenta a chance de sobrevivência após um ataque cardíaco

Uma nova pesquisa feita na Finlândia revela que pessoas casadas são menos propensas do que as solteiras a ter um ataque cardíaco e apresentam maiores chances de se recuperar caso sofram algum evento do tipo. O estudo, publicado nesta quinta-feira na revista European Journal of Preventive Cardiology, é mais um a colaborar com a ideia de que o casamento pode ser um dos segredos para garantir uma boa saúde do coração, já que trabalhos recentes vêm observando que indivíduos que vivem com um parceiro tendem a ser mais saudáveis do que quem vive sozinho.

A pesquisa foi feita na Universidade de Turku, na Finlândia, e se baseou nos dados de 15.330 pessoas com mais de 35 anos que já haviam sofrido algum evento cardíaco agudo, fatal ou não fatal. Quase metade desses participantes morreu no período de 28 dias após o ataque cardíaco.

De acordo com o estudo, homens solteiros de todas as idades tiveram um risco de 58% a 66% maior de sofrer um ataque cardíaco do que os casados. Para as mulheres, os benefícios do casamento foram até maiores: as solteiras foram 60% a 65% mais propensas a sofrer eventos coronarianos do que as casadas. Além disso, a vida conjugal também reduziu consideravelmente a mortalidade por ataque cardíaco. Entre homens solteiros, o risco de morrer em até 28 dias após um infarto foi entre 60% a 168% maior em comparação com os casados. Para as mulheres, ser solteira elevou essa chance em 71% a 175%.

Motivos — De acordo com os pesquisadores, esses resultados podem ser explicados, em parte, pelo fato de que pessoas casadas tendem a apresentar hábitos mais saudáveis, além de possuírem uma rede de apoio mais ampla. "O pedido de ajuda para um paciente que está tendo algum problema cardíaco foi feito mais rapidamente e com mais frequência entre pessoas que eram casadas ou que viviam juntas”, dizem os autores. Eles também consideram que fatores psicológicos da satisfação conjugal podem interferir na saúde cardíaca. "Sabe-se que as pessoas solteiras são mais propensas a sofrer depressão e, segundo um estudo anterior, a depressão parece ter um efeito adverso sobre as taxas de mortalidade cardiovascular", diz Aino Lammintausta, que coordenou a pesquisa.

Quem se casa vive mais

Casar-se ou simplesmente ter um companheiro ao longo da vida pode contribuir com a longevidade de uma pessoa, sugere um novo estudo do Centro Médico da Universidade Duke, nos Estados Unidos. Após analisarem a relação entre taxa de mortalidade e o estado civil de quase 5.000 americanos, os autores da pesquisa concluíram que adultos solteiros podem ter mais do que o dobro de chance de morrer precocemente do que aqueles que vivem com um parceiro durante a meia-idade

Os resultados da pesquisa, divulgados nesta quinta-feira, estão presentes na edição de janeiro do periódico Annals of Behavioral Medicine. Os dados utilizados pelos autores foram obtidos a partir do Estudo do Coração de Ex-alunos da Universidade da Carolina do Norte (UNCAHS, sigla em inglês), que acompanha os indivíduos nascidos no ano de 1940 e que estudaram na instituição. Ao todo, os pesquisadores avaliaram 4.802 pessoas.

A equipe estabeleceu uma relação entre estado civil e expectativa de vida dos participantes. As conclusões mostraram que adultos solteiros eram menos propensos a chegar à terceira idade do que indivíduos que viviam com um companheiro, já que corriam um maior risco de morrer jovens. Em comparação com pessoas que viviam com um parceiro durante a meia-idade, aquelas que nunca tinham sido casadas apresentaram um risco 2,3 vezes maior de morrer precocemente. Essa chance foi 1,6 maior entre pessoas solteiras, mas que já tinham sido casadas alguma vez na vida. 
"Nossos resultados sugerem que a relação conjugal é cada vez mais importante como forma de apoio emocional e social, o que parece impactar a taxa de mortalidade”, concluíram os autores.
Veja

Viciadas em compras tentam se curar com privação de consumo




Há uma década, experiências de privação de consumo atiçam o debate sobre os limites do consumismo.

Em 2004, a americana Judith Levine passou um ano comprando só comida depois de descobrir que tinha oito pares de tênis no closet e seis qualidades de arroz na despensa, entre muitas outras coisas. É o que conta no livro "Not Buying it --My Year Without Shopping" (algo como "não compre isso --meu ano sem ir às compras"), escrito em 2006.
Em 2010, uma centena de mulheres americanas aceitaram o desafio do site "Six Items or Less" (seis artigos ou menos) e passaram um mês usando apenas seis peças de roupa.
No blog "Um ano sem Zara", a publicitária brasileira Joanna Moura montava looks diários com peças que já tinha no armário, enquanto resistia a adquirir novas.
A ex-compulsiva australiana Jill Chivers fez doze meses de jejum e transformou a experiência em método para curar dependentes da moda. Evitar cartões de crédito, examinar o próprio armário e adiar compras de impulso estão entre as estratégias sugeridas por ela e organizações como a Shopaholics Anonymous.
Consumir algo que se deseja ativa o sistema de recompensa, mecanismo cerebral ligado ao prazer. É viciante, já que produz uma sensação intensa rapidamente. Para o neurocientista Jorge Moll, do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, porém, o que de fato incita o consumismo é a forma como o mercado renova continuamente seu arsenal de "recompensas".

"Surge um estilo novo, associado à celebridade, ao sucesso e à saúde, e você quer se projetar nele. O consumo distrai as pessoas", afirma.
O hábito vira doença quando se torna incontrolável e tem repercussões emocionais e financeiras negativas, incluindo dívidas e conflitos familiares. Embora se aproxime de quadros de dependência e de transtorno obsessivo-compulsivo, estudo recente da Faculdade de Medicina da USP o descreve como uma patologia específica, caracterizada pela dificuldade de controlar o impulso da compra.
"O comprador compulsivo busca satisfação imediata para sua necessidade de aquisição, que é excessiva. Não consegue planejar ou pensar nas consequências", explica a psicóloga Tatiana Filomensky, autora do estudo que envolveu 85 entrevistas.
Associado à busca de alívio para emoções negativas, o consumismo produz tolerância: é preciso comprar cada vez mais para obter cada vez menos efeito. "O compulsivo vive uma sensação devastadora de fracasso depois de comprar, exatamente como o dependente químico", afirma Filomensky.
Segundo ela, alguns fatores influenciam o desenvolvimento do quadro, como predisposição genética, ambiente, problemas emocionais e padrões ensinados pela família. "O consumo é tão comum e estimulado que demora até percebermos um padrão patológico nos hábitos de compra de alguém", diz.


Consumir algo que se deseja ativa o sistema de recompensa, mecanismo cerebral ligado ao prazer. É viciante, já que produz uma sensação intensa rapidamente. Para o neurocientista Jorge Moll, do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, porém, o que de fato incita o consumismo é a forma como o mercado renova continuamente seu arsenal de "recompensas".
"Surge um estilo novo, associado à celebridade, ao sucesso e à saúde, e você quer se projetar nele. O consumo distrai as pessoas", afirma.
O hábito vira doença quando se torna incontrolável e tem repercussões emocionais e financeiras negativas, incluindo dívidas e conflitos familiares. Embora se aproxime de quadros de dependência e de transtorno obsessivo-compulsivo, estudo recente da Faculdade de Medicina da USP o descreve como uma patologia específica, caracterizada pela dificuldade de controlar o impulso da compra.
"O comprador compulsivo busca satisfação imediata para sua necessidade de aquisição, que é excessiva. Não consegue planejar ou pensar nas consequências", explica a psicóloga Tatiana Filomensky, autora do estudo que envolveu 85 entrevistas.
Associado à busca de alívio para emoções negativas, o consumismo produz tolerância: é preciso comprar cada vez mais para obter cada vez menos efeito. "O compulsivo vive uma sensação devastadora de fracasso depois de comprar, exatamente como o dependente químico", afirma Filomensky.
Segundo ela, alguns fatores influenciam o desenvolvimento do quadro, como predisposição genética, ambiente, problemas emocionais e padrões ensinados pela família. "O consumo é tão comum e estimulado que demora até percebermos um padrão patológico nos hábitos de compra de alguém", diz.
Teté Martinho

4 de fev. de 2013

O ontem fala mais alto


Em 1941, a viúva de José Cândido Xavier, Geni Pena, enlouqueceu. 

As rezas, os passes, as sessões de leitura do Evangelho no Centro Luiz Gonzaga foram inúteis. Chico teve de internar a cunhada num hospício em Belo Horizonte.

Arrasado, ele acompanhou a doente até o quarto, ficou ao seu lado algumas horas e voltou para casa à noite. Estava arrasado. O filho caçula da moça, paralítico, chorava na cama, sozinho. Chico se ajoelhou e começou a rezar. As lágrimas corriam, ele se lembrava do irmão, se sentia culpado, impotente.

De repente, Emmanuel entrou em cena, incomodado com a choradeira:
- Por que você chora?

Chico contou o drama da cunhada, lamentou a situação do sobrinho e foi interrompido por um sermão do recém-chegado:

- Não. Você está chorando por seu orgulho ferido. Você aqui tem sido instrumento para cura de alguns casos de obsessão, para a melhoria de muitos desequilibrados.
Quando aprouve ao Senhor que a provação viesse para debaixo de seu teto, você está com o coração ferido, porque foi obrigado a recorrer à assistência médica, o que, aliás, é muito natural. Uma casa de saúde mental, um hospício, é uma casa de Deus.

Chico ouviu as críticas em silêncio, mas, entre um soluço e outro, pediu a recuperação da cunhada o mais rápido possível.


O discurso se estendeu:
Imaginemos a Terra como sendo o Palácio da Justiça, e a mulher de José como sendo uma pessoa incursa em determinada sentença da justiça.


Eu sou o advogado dela e você é serventuário do Palácio da Justiça. Nós estamos aqui para rasgar ou para cumprir o processo?

Para cumprir respondeu Chico e, ainda aos prantos, insistiu: 
O senhor tem que saber que ela é minha irmã também.
Emmanuel perdeu a paciência de vez:
- Eu me admiro muito, porque, antes dela, você tinha lá dentro, naquela casa de saúde, trezentas irmãs e nunca vi você ir lá chorar por nenhuma.

A dor Xavier não é maior do que a dor Almeida, do que a dor Pires, do que a dor Soares, a dor de toda a família que tem um doente.

Se você quer mesmo seguir a doutrina que professa, em vez de chorar por sua cunhada, tome o seu lugar ao lado da criança que está doente, precisando de calor humano.
Substitua nossa irmã e exerça, assim, a fraternidade.

Chico engoliu o choro, enxugou o rosto e abraçou o sobrinho.
Com os braços e pernas atrofiados, a expressão atormentada, o filho de Geni Pena, Emmanuel Luiz, era o retrato do sofrimento.

Revirava-se na cama, contorcia-se em convulsões, sacudia- se em crises de choro. Um amigo de Chico ficou impressionado com o estado da criança.
Como Deus, tão onipotente, admitia tanta dor?

A resposta veio de acordo com a lógica espírita: você colhe o que planta. Cada um volta à Terra com as seqüelas provocadas por si mesmo em vidas anteriores.
Deus não tinha nada a ver com as tragédias alheias. Cada um é responsável pelo próprio céu ou inferno.
Emmanuel repetiria a Chico várias vezes:

- O ontem fala mais alto do que podemos admitir no tempo que chamamos hoje.
As vidas de Chico Xavier – Marcel S Maior

3 de fev. de 2013

Jason Mraz - 93 Million Miles




93 Million Miles

93 million miles from the sun
People get ready, get ready
Cause here it comes, it's a light
A beautiful light, over the horizon
Into our eyes
Oh, my my how beautiful
Oh my beautiful mother
She told me, son in life you're gonna go far
If you do it right, you'll love where you are
Just know, wherever you go
You can always come home

240 thousand miles from the moon
We've come a long way to belong here
To share this view of the night
A glorious night
Over the horizon is another bright sky
Oh my my how beautiful, oh my irrefutable father
He told me, son sometimes it may seem dark
But the absence of the light is a necessary part
Just know, you're never alone, you can always come back home

Home, Home

You can always come back

Every road is a slippery slope
But there is always a hand that you can hold on to
Looking deeper through the telescope
You can see that your home's inside of you

Just know, that wherever you go, no you're never alone, you will always get back home

Home, Home
Home
Ohhh

93 million miles from the sun
People get ready, get ready
Cause here it comes, it's a light
A beautiful light, over the horizon
Into our eyes

93 Milhões de Milhas

93 milhões de milhas do sol
Pessoas preparem-se, prepare-se
Porque aqui se trata, é uma luz
Uma bela luz, no horizonte
Em nossos olhos
Oh, minha nossa como bonito
Oh minha mãe linda
Ela me disse: filho na vida você vai longe
Se você fizer isso direito, você vai adorar onde você está
Basta saber, onde quer que vá
Você sempre pode voltar para casa

240 mil milhas da lua
Percorremos um longo caminho a pertenço aqui
Para compartilhar essa visão da noite
Uma noite gloriosa
Ao longo do horizonte é outro céu brilhante
Oh minha nossa como bonito, oh meu pai irrefutável
Ele me disse: filho, às vezes, pode parecer escuro
Mas na ausência de luz é uma parte necessária
Só sei, você nunca está sozinho, você sempre pode voltar pra casa

Início início,

Você sempre pode voltar

Cada estrada é um terreno escorregadio
Mas há sempre uma mão que você pode segurar a
Olhando mais profundamente através do telescópio
Você pode ver que dentro de sua casa de você

Só sei, que onde quer que você vá, não, você nunca está sozinho, você sempre vai voltar para casa

Início início,
Casa
Ohhh

93 milhões de milhas do sol
Pessoas prepare-se, prepare-se
Porque aqui se trata, é uma luz
Uma bela luz, no horizonte
Em nossos olhos

Dor, folia e anomia

Gaudêncio Torquato

É verdade: moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Daqui a pouco tem carnaval e, sob o ritmo que Jorge Benjor tão bem sabe puxar, muitas negas chamadas Teresa vão rebolar no Sambódromo carioca para embevecimento de milhares de turistas, sob os braços abertos de um Cristo Redentor que deita suas luzes sobre a Baía de Guanabara. Em outras praças a farra carnavalesca ganhará as ruas, arrastando, no Recife, mais de 1 milhão de pessoas atrás do Galo da Madrugada e outros milhares na vizinha Olinda, com seus bonecos gigantes. Mais embaixo da costa nordestina, o maior espetáculo momesco, o de Salvador, onde 3 milhões de foliões pularão em frenesi atrás de trios elétricos. As comportas da catarse se abrirão para acolher a alma social, particularmente a juventude, que se embala no clima lúdico. Poucos se lembrarão, no meio da fuzarca, que outra festa, duas semanas antes, tragou a vida de 236 pessoas, quase todas jovens, na segunda maior tragédia do País, a de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. (A primeira foi o incêndio de um circo em Niterói, em 1961, que deixou 503 pessoas mortas.)
Eis mais uma faceta do Brasil. A imagem de uma gangorra, para retratar o estado social, é mais que apropriada. Altos e baixos revezam-se ininterruptamente. Entre o sol nascente e o poente, o choro e a tristeza se recolhem para dar lugar à fruição e à catarse.
Há quem discorde dessa abordagem por observar que é natural, no cotidiano de uma nação, a convivência dos contrários, a imbricação de eventos felizes e infelizes. Alegria e dor se alternam ininterruptamente. Ademais, argumenta-se que, quando se trata de catástrofes, fatores incontroláveis precisam ser considerados. Eis o ponto central da questão que aqui se levanta. Causas imprevisíveis impulsionam eventos de alto impacto, como desastres naturais, os de origem na natureza e que se processam na evolução ou modificação de estruturas climáticas na crosta terrestre. Incluem-se nessa esfera vulcões, furacões, secas intensas e terremotos. Sabe-se que tais fenômenos podem ser também deflagrados pela ação do homem no meio ambiente, o que abre a percepção de haver algum grau de controle, mínimo que seja, sobre ocorrências classificadas como imponderáveis.
O fato é que a corrente de acidentes/incidentes em nosso território costuma ancorar-se na práxis de gestores públicos, descrita numa coleção de preceitos erráticos: displicência, desleixo, preguiça, acomodação, protelação, compadrismo, inação. São traços de uma cultura política assentada no patrimonialismo, que ao longo de nossa História frutificou nos galhos do fisiologismo, do mandonismo, do grupismo, do caciquismo, do coronelismo e do nepotismo, entre outros.
A faísca que provocou a tragédia em Santa Maria saiu do arsenal da administração pública e é chamada de falta de controle e fiscalização. O olho mais atento do gestor público teria coibido um espetáculo festivo para mais de mil pessoas num espaço para comportar menos de 700. E pior: com apenas uma pequena porta de entrada e saída.
A pólvora da gestão irresponsável - sob a forma da leniência - acumula-se nos cantos e recantos do País, queimando florestas, corroendo biomas, desmanchando escarpas de montanhas, destruindo morros, derrubando favelas e, ultimamente, expandindo o número de vítimas de morte dos acontecimentos. Não há exagero em afirmar que a falta de zelo pontifica em todos os quadrantes do território.
Examine-se, neste exato momento, a condição dos estabelecimentos públicos - escolas, hospitais, maternidades, creches, asilos, cárceres, praças - em qualquer Estado brasileiro e se verá feia radiografia: falta de higiene, prédios sujos, falta de equipamentos ou quebrados, ausência de profissionais em horários de trabalho, corredores superlotados, ecos do desespero. Jogando a argamassa das mazelas que corroem a sociedade na panela das transformações que ocorrem no bojo da modernidade - expansão econômica, revolução tecnológica, globalização de costumes e rompimento com valores tradicionais -, chega-se a um conceito que tem prosperado em nossos trópicos: a anomia social.
Entenda-se por anomia a conduta desviante, a incapacidade da sociedade de atingir suas metas culturais por causa da insuficiência de meios que as instituições lhe proporcionam. Desenvolve-se anomia quando os indivíduos se sentem motivados a violar as normas para poderem atingir seus fins, suas metas. Quanto maior for a incapacidade do poder institucional de fazer os cidadãos se realizarem e alcançarem felicidade, utilizando as normas vigentes, maior a anomia social. Engrossam a cadeia anômica párias, viciados, alcoólatras, delinquentes e os que se refugiam nos escombros da resignação e desesperança, os descrentes. Mais uma ênfase: a anomia leva em conta o sistema normativo-legal de um país.
Neste ponto, voltemos ao dia a dia nacional. A transgressão que se observa no comportamento social tem conexão com os desvios legais, éticos e morais que povoam o hábitat de governantes e representantes. Além disso, dispomos de um cipoal legislativo extremamente volumoso e difuso. Resultado: o que é proibido fazer acaba transferido para o departamento de coisas permitidas. Faixas de pedestres invadidas por ciclistas ou vice-versa? Coisa usual. Da floresta legislativa de mais de 3,7 milhões de leis, milhares se perdem nos esconderijos. Ao final de cada lei se lê o dispositivo: "Revogam-se as disposições em contrário". Quem sabe o que revoga o quê? Quando não se cumpre a lei, abre-se uma cratera entre as metas do indivíduo e as normas que o acolhem. A anomia nasce nesse berço.
Por último, a piada da criação do mundo: por que, Senhor Deus, o Brasil ganhou tantas belezas, tão belas condições naturais, enquanto nações como o Japão, uma pequena tira de terra, foram agraciadas com terremotos e maremotos? A pergunta feita ao Criador do Céu e da Terra seria hoje fora de propósito.
Gaudêncio Torquato

1 de fev. de 2013

Espontaneidade do amor

Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. 

Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. 

Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. 

Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.
Clarice Lispector

O Valioso Tempo dos Maduros


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. 

Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroco. 

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha vida. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. 

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. As pessoas não debatem conteúdo, apenas os rótulos. 

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa… 

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade… Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E pra mim basta o essencial!
Rubem Alves

Obrigado, Fátima

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