19 de mar. de 2013

Pontífice de uma religião leiga


Nenhum ditador, dentre os que proliferaram no século XX, teve um fim tão rocambolesco quanto Mussolini. Seus últimos dias foram cercados de mistério, de muitas indagações e controvérsias, e atraíram o interesse de um importante historiador do fascismo, o francês Pierre Milza, autor de um livro que se lê como uma novela: Os Últimos Dias de Mussolini, que a editora Zahar lançará em junho.
Milza revela o nome de quem realmente comandou os partigiani – Luigi Longo, futuro secretário-geral do Partido Comunista Italiano, o PCI – e levanta questões até hoje sem resposta. Onde foi parar o tesouro em joias e dinheiro que os familiares de Mussolini, em fuga, pretendiam levar para o exterior? Nas mãos de alguns espertos milicianos antifascistas? Nas caixas do PCI? Mais ainda: onde teria ido parar o incômodo arquivo secreto que Mussolini carregava consigo, contendo supostamente uma longa correspondência entre o Duce e Churchill, por muito tempo simpatizante do líder do fascismo, a quem considerava um homem ideal para enquadrar o “temperamento caótico” dos peninsulares.
Nascido em 1883, em Predappio, uma pequena cidade da Emilia Romagna, no nordeste da península, o nome completo de Mussolini, à maneira italiana, era plural: Benito Amilcare Andrea Mussolini. Sua opção inicial pelo socialismo teve a ver com a região em que nasceu e viveu quando menino e adolescente, pois a Emilia Romagna já era considerada uma zona “vermelha” nos últimos anos do século XIX. Mais ainda, o pai do futuro Duce, Alessandro Mussolini, foi por um tempo ferreiro de profissão e, pela vida afora, ativo militante socialista.
Mussolini tinha pouco mais de 20 anos quando ingressou no Partido Socialista Italiano, o PSI. Sua ascensão na política foi rápida: tinha talento como orador e jornalista, além de boas relações com nomes importantes no campo da esquerda, como Giacinto Serrati e sua amiga Angelica Balabanova, que viria a ser dirigente da IIIaInternacional Comunista. Ele os conhecera na Suíça, para onde emigrara no início do século XX. Nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial, Mussolini se ligou ao setor mais radical do PSI, que condenava as guerras, adotava uma agressiva postura anticlerical e, em nome da revolução, combatia o reformismo.
Antes de completar 30 anos, mudou-se da provinciana Forli para Milão, a brilhante capital do norte da Itália. Ali, o futuro Duce deu um passo decisivo na carreira política. Alcançou maior projeção e se tornou diretor do Avanti!, o jornal do partido. Mas logo sua carreira teve outra guinada. O detonador da mudança de curso foi a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Diante do conflito, os partidos socialistas europeus dividiram-se entre as correntes internacionalistas, contrárias à guerra, e as que adotaram a linha de união nacional, em apoio aos governos de seus respectivos países. No âmbito do PSI, Mussolini, que vinha assumindo posições nacionalistas, passou a defender uma política de “neutralidade ativa”, oposta à condenação frontal da guerra.
As desavenças com a direção partidária cresceram em poucos meses, a ponto de resultarem na sua expulsão do partido, em novembro de 1914, quando a Itália ainda se declarava neutra. A partir daí, ele tomou o rumo da direita, acentuou o patriotismo e a visão antiparlamentar, sustentando a necessidade de se implantar uma “ditadura democrática”, baseada na mobilização popular, oposta às “ditaduras reacionárias”. O que mais lhe custou foi abandonar o anticlericalismo de outros tempos, substituindo-o por relações pragmáticas e acomodatícias com a Igreja Católica.
 Em maio de 1915, a Itália entrou na guerra, ao lado da França e da Inglaterra. O país esteve entre os vencedores do conflito, mas não conseguiu obter o atendimento de suas reivindicações territoriais. Os anos de pós-guerra foram marcados não só pelas decepções no plano internacional, mas também pelas greves operárias, pela ocupação de fábricas e pelas mobilizações de camponeses, que levaram a direita e a esquerda a acreditar na iminência de uma revolução social.
Nessa conjuntura carregada de excitação e temores, os fascistas ganharam terreno ao defenderem a manutenção da ordem a qualquer preço, bem como a ascensão ao poder de um homem providencial, destinado a restaurar a estabilidade do país e a conter o pericolo rosso. A violência se tornou um recurso político cotidiano e a tropa de choque fascista (os fasci di combattimento) desencadeou ataques terroristas em toda a Itália.
A mítica Marcha sobre Roma – mítica porque, no poder, o fascismo a transformou numa heroica ação revolucionária – levou Mussolini, em outubro de 1922, ao cargo de primeiro-ministro. O rei Vittorio Emanuele III e o Exército apoiaram a nomeação, enquanto o Vaticano, convenientemente, lavou as mãos. Um passo mais e Mussolini passou de primeiro-ministro a ditador. Era ele o “homem providencial”.

os anos que se seguiram à conquista do poder, o regime fascista atravessou momentos incertos, como os que resultaram no sequestro e morte do deputado socialista Giacomo Matteotti, figura de prestígio nos círculos da esquerda europeia. Mas a coação exercida pela polícia política, o apoio – ou pelo menos a passividade – da maioria da população, o beneplácito institucional do rei e da Igreja Católica garantiram a continuidade do regime.

No caso da Igreja, o Tratado de Latrão, firmado entre o Estado e o Vaticano em 1929, garantiu as boas relações entre as partes, a ponto de o papa Pio xi referir-se a Mussolini como “um enviado da Providência”. Mas é bom lembrar que os desentendimentos perduraram e, em anos que precederam a Segunda Guerra Mundial, o papa criticou o nacionalismo exaltado, as teorias racistas e o antissemitismo do regime.
A partir dos anos 30, Mussolini voltou-se para o front externo, na tentativa de projetar-se como árbitro da Europa. Interveio em grande escala na Guerra Civil Espanhola (1936-39), e contribuiu significativamente para a implantação da ditadura de Franco. Ao mesmo tempo, desfechou uma operação de conquista colonial: a guerra da Abissínia (hoje Etiópia), que durou de 1935 a 1936. Ele contava com uma vitória fácil diante do que considerava um bando de sub-homens mal adestrados. Apesar da grande disparidade de forças, porém, o rei Hailé-Selassié e seus “sub-homens” resistiram por vários meses aos ataques e às atrocidades das tropas italianas, até capitular.
A aliança entre a Itália e a Alemanha nazista não se deu com facilidade. Mussolini temia o expansionismo de Hitler e estava longe de ser simpático a ele. Em certa ocasião, como lembrou Renzo de Felice – o maior biógrafo de Mussolini –, o Duce confiou a um intelectual fascista: “Os alemães são amigos difíceis, mas inimigos terríveis. Eu escolhi tê-los como amigos.” A aliança desigual dos amigos de conveniência concretizou-se formalmente com o chamado Pacto de Aço, celebrado em Berlim em maio de 1939.
A opção abalou a popularidade de Mussolini. Talvez tenha sido essa a principal razão de ele manter uma atitude de “não beligerância”, quando a guerra explodiu, em setembro de 1939, com a invasão da Polônia. A “não beligerância” durou até junho de 1940, quando o Duce anunciou a uma multidão entusiasta, aglomerada na Piazza Venezia, em Roma, a entrada na guerra contra “as democracias plutocráticas e reacionárias do Ocidente”. Naquela altura, as restrições da população à entrada no conflito tinham praticamente desaparecido devido à instauração de um clima guerreiro, alentado por uma sistemática propaganda e pelas vitórias alemãs.
O entusiasmo iria transformar-se em tragédia. Cerca de 400 mil italianos encontraram a morte na guerra – a cota maior, nas terras geladas da União Soviética. Além disso, as tropas italianas foram humilhadas nas frentes de combate. Hitler considerava um estorvo a presença de tropas peninsulares na União Soviética e, a pedido do próprio Mussolini, os alemães substituíram os italianos, que vinham sendo derrotados no norte da África.
No início de 1943, tendo como marco a vitória soviética em Stalingrado, os sinais de derrota do Eixo se multiplicaram e o descontentamento do povo italiano cresceu. Ele foi impulsionado pelos rumos da guerra e pelas restrições impostas ao consumo cotidiano. Greves de grandes proporções, organizadas pelos comunistas infiltrados nos sindicatos oficiais, explodiram em Turim e Milão, espraiando-se por outras cidades.
Nessa conjuntura, a destituição de Mussolini foi tramada por trás das cortinas. Ele acabou sendo derrubado do podernuma tempestuosa reunião do Grande Conselho – órgão máximo do Par-tido Nacional Fascista – em julho de 1943. Entre os que votaram pela destituição estava o conde Ciano, marido de sua filha Edda, cuja antiga admiração pelo nazismo dera lugar ao ódio de Hitler.
A pretexto de lhe ser dada proteção, o Duce foi conduzido preso a um hotel de difícil acesso, ao pé de um pico da cadeia montanhosa dos Abruzzi. Menos de dois meses depois, numa operação espetacular, paraquedistas alemãeso resgataram. Ele se converteu então num títere manipulado por Hitler: um Mussolini alquebrado cedeu às pressões do Führer para que se pusesseà frente de um arremedo de regime – a República Social Italiana, mais conhecida como República de Saló, referência a uma pequena cidade às margens do lago de Garda, onde o precário governo foi instalado.

s Últimos Dias de Mussolini começa quando a República de Saló já não existia e uma caravana de fugitivos partira de Milão para o norte da Itália. Era abril de 1945, a Segunda Guerra Mundial estava em seus últimos dias. Na frente italiana, as tropas anglo-americanas tinham avançado pela península, após o desembarque na Sicília e no continente. Em blindados, automóveis e caminhões, escoltada pelos soldados da SS, a caravana tentava encontrar um refúgio nos Alpes para Mussolini, sua amante Clara Petacci e os principais dirigentes fascistas.

A marcha envolvia riscos: os ataques dos partigiani tinham se tornado cada vez mais frequentes. Quando percorria uma estrada ao longo do lago de Como, o comboio foi barrado pelosguerrilheiros de uma brigada -– comandada pelo conde Pier Luigi Bellini delle Stelle, um aristocrático advogado florentino – composta de vários estrangeiros que haviam integrado as Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola.
Quando se fazia uma inspeção dos veículos detidos, um dos partigiani deu com um militar embrulhado num capote cinzento do Exército alemão. Ele parecia mergulhado em sono etílico. Depois de muita insistência, ao ser chamado de “cavaliere Benito Mussolini”, o Duce finalmente se rendeu e entregou a seus captores uma metralhadora fornecida pelos alemães.
Começou uma discussão sobre seu destino. Um setor dos partigiani optava por um julgamento pelo recém-formado governo italiano, ou pelos países vencedores da guerra, como viria a ocorrer com os nazistas no Tribunal de Nüremberg. Majoritários entre os resistentes, os comunistas insistiram no fuzilamento sumário do Duce, opção que acabou por prevalecer.
Mussolini e Clara foram fuzilados na manhã do dia 28 de abril de 1945, nas proximidades de Dongo, pequena cidade junto ao lago de Como. De frente para os executores, Mussolini morreu com vários tiros no tórax, como revelou a autópsia do cadáver, realizada em Milão. Provavelmente, aconteceu o mesmo com Clara, mas seu corpo não foi autopsiado, ao que se sabe por influência familiar.
A manhã de 29 de abril apenas se esboçava em Milão quando os primeiros transeuntes que passavam pela Piazzale Loreto deram com os corpos de Mussolini, de Clara e de dezesseis dirigentes fascistas estendidos no chão. Sob a guarda de alguns sonolentos partigiani, os cadáveres haviam sido depositados à noite na praça. A escolha do local não fora fortuita. No ano anterior, tinham sido executados ali quinze presos políticos, em represália ao ataque contra uma viatura alemã.
A surpresa inicial dos passantes transformou-se em fúria. Sem encontrar obstáculos, uma pequena multidão pisoteou longamente os corpos de Mussolini e Clara, a ponto de se tornarem quase irreconhecíveis. Por fim, jatos de água dispersaram a multidão. Os partigiani recolheram os corpos do casal, do irmão de Clara e de mais quatro dirigentes fascistas, que foram pendurados de cabeça para baixo nas traves de um posto de gasolina. Horas depois, as cordas que sustentavam os corpos foram cortadas e eles se estatelaram no chão. 
s biógrafos do Duce costumam separar o homem público do indivíduo Mussolini. A divisão é explicável, com a ressalva de que a vida privada do líder fascista tem dimensões que incidem na esfera pública. Nessa esfera, o jornalista e orador talentoso tornou-se não apenas um personagem supostamente infalível, comandante supremo do povo italiano, como o pontífice de uma religião leiga que tinha um mito de origem, um culto e uma liturgia. O mito de origem era a Roma dos imperadores, que fizera do Mediterrâneo o mare nostrum, alvo dos planos expansionistas de Mussolini. A águia dos césares, a saudação imperial com o braço estendido, a cabeça do Duce – uma “cabeça romana” – integraram a simbologia do fascismo.

A própria denominação do movimento derivou de um símbolo romano, o fascio littorio – o feixe de tiras de vime no qual se encaixava uma machadinha representativa do poder do litor, alto magistrado de Roma. Após ser utilizado por vários movimentos sociais desde a Revolução Francesa, o fascio foi apropriado pelos fascistas e escolhido como símbolo oficial do seu partido.
A retórica do Duce seduzia a multidão que se aglomerava para vê-lo quando pronunciava seus discursos do alto do balcão do Palácio Venezia. A fala impositiva, o tom estridente da voz, as perguntas à multidão cuja resposta era previsível, as frases bruscamente interrompidas, enquanto ele colocava as mãos na cintura com ar de desafio, compunham uma figura ridícula aos olhos de hoje, mas magnetizante na Itália da época.
O ferimento de Mussolini na Primeira Guerra Mundial facilitou sua apresentação como combatente heroico, como o valoroso soldado italiano que nada tinha a ver com a imagem negativa que lhe atribuíam as nações inimigas (e as amigas também). Ao mesmo tempo, Mussolini surgia nas telas de cinema e nos jornais com imagens alternadas: ora aparecia como um homem comum, realizando tarefas corriqueiras no campo, ora como um super-homem, de torso nu, protagonizando extraordinárias proezas esportivas. Mao Tsé-Tung seguiria seus passos, muitos anos depois, ao supostamente atravessar lagos gelados na China, em pleno inverno.
Na vida privada, a figura doméstica de Mussolini, traçada pela propaganda, tinha algo de verdadeiro. O Duce seria o chefe de família tradicional, o pater familias provedor, afetuoso e infiel. Em 1915, ele se casou com Rachele Guidi, jovem de origem camponesa, nascida como ele em Predappio. Tiveram cinco filhos e, bem ou mal, mantiveram-se unidos até a morte de Mussolini. Dentre os membros da família, ele dedicava grande afeto a Arnaldo, seu irmão mais novo, cuja morte súbita, em 1931, o levou a uma profunda depressão.
Já a filha mais velha despertava sentimentos contraditórios. Edda era uma mulher de costumes avançados, além de viciada no jogo e na bebida. Mussolini teve altos e baixos nas relações com a filha até que o conde Ciano, marido de Edda e membro do Grande Conselho, votou pela destituição de Mussolini. Ele foi preso em outubro de 1943, acusado de alta traição, e submetido a julgamento. Os apelos de Edda ao pai para que salvasse o marido da morte certa não foram atendidos. Após um julgamento pro forma em Verona, Ciano e outros acusados foram condenados como traidores e fuzilados pelas costas por um pelotão de milicianos. Pai e filha romperam de vez.
Em paralelo à vida familiar, além de relações fugazes com uma coleção de mu-lheres, Mussolini teve pelo menos duas amantes: Margherita Sarfatti e Clara Petacci. A primeira era uma talentosa jornalista judia, casada com um advogado sionista, promotora da arte e da literatura de vanguarda. Mussolini se encantou por ela quando veio da província para Milão, onde Margherita o aproximou de escritores de vanguarda e redigiu muitos de seus discursos. Passados os anos, o amor arrefeceu. Margherita foi morar em Nova York, mas os contatos se mantiveram até por volta de 1942, quando a perseguição aos judeus tornou impossível o relacionamento entre os dois.
Clara era bem diferente de Margherita. Jovem romana, ela pertencia a uma família conservadora de classe média. Seu pai tinha boas relações nas altas esferas, a ponto de ter sido médico do papa. Aparentemente, era uma moça frívola, ociosa, cheia de luxo. Entretanto, alentou o Duce, já na meia-idade, com o sopro de sua juventude, e exerceu considerável influência sobre ele até a morte de ambos. 
sicologicamente instável, Mussolini alternou fases de euforia e de depressão. Sofria de vários males e cólicas estomacais o atormentavam desde a juventude. Quando nos primeiros anos da ditadura teve uma forte crise, médicos lhe diagnosticaram uma úlcera. Nunca se livrou dela, apesar de seguir uma dieta rígida que excluía vinhos, pratos condimentados e o fumo. Após sua morte, os legistas constataram a inexistência da “úlcera” e diagnosticaram um quadro psicossomático.

A emergência do fascismo desnorteou seus adversários políticos e deu margem a interpretações conflitantes. O historiador australiano R.J.B. Bosworth, também ele biógrafo de Mussolini, lembra uma afirmação de Antonio Giolitti, líder dos liberais italianos: “Os fascistas não passam de fogos de artifício: farão muito ruído, mas não deixarão atrás de si mais do que fumaça.” A ascensão de Mussolini ao cargo de primeiro-ministro foi facilitada por essa miragem. Figuras liberais, entre elas o próprio Giolitti, que se odiavam entre si, preferiram que Mussolini assumisse “transitoriamente” o poder a vê-lo entregue a um de seus rivais.
A desorientação ocorreu também no campo da esquerda. Antonio Gramsci, a vítima mais famosa do fascismo, preso por mais de dez anos nos cárceres de Mussolini até encontrar a morte, desdenhara do movimento fascista quando de sua formação, pois ele seria composto por “gente ridícula, do tipo que faz as notícias, mas não faz a história”.
Ao se tornar evidente que o fascismo era um fenômeno trágico e duradouro, a IIIª Internacional partiu para uma reconfortante interpretação de classe. O fascismo foi explicado como uma expressão espúria do grande capital, assentado socialmente na pequena burguesia e nas massas desorganizadas. A explicação tinha aspectos de verdade. Os fasci di combattimento, de fato, foram financiados pelos grandes proprietários rurais e pela burguesia urbana. Após a conquista do poder, estabeleceram-se relações relativamente harmônicas entre Mussolini e as grandes corporações. Para o mundo empresarial, a “paz social” assegurada pelo fascismo era um trunfo de muita valia, depois de anos de incerteza e de caos.
Mas, por seu grau de autonomia em relação às classes sociais, por seu estilo revolucionário, bem diverso do estilo da dominação burguesa tradicional, o fascismo se diferenciava da classe dominante. Grandes empresários foram reticentes à aventura da Abissínia, assim como à entrada da Itália na Se-gunda Guerra Mundial. De sua parte, Mussolini não hesitou em utilizar como recurso retórico a campanha antiburguesa, que ganhou força na década de 30. Assim, num discurso de 1934, lembrado por Renzo de Felice, no qual criticava os fascistas “aburguesados”, o Duce proclamou: “Não nego a existência de temperamentos burgueses, mas excluo que eles possam ser fascistas. O credo do fascista é o heroísmo; o do burguês, o egoísmo. Contra esse perigo só há um remédio: o princípio da revolução permanente.”
A maioria dos quadros do regime, por sua vez, tal como ocorreu na Alemanha nazista, tinha origem na classe média, e alguns de seus setores se beneficiaram com a ampliação dos grupos burocráticos de governo e do aparelho partidário. Houve mesmo uma renovação parcial da classe dirigente, provocada pela ascensão de “novos notáveis”, provenientes da pequena burguesia. Mas não é possível concluir que a ascensão do fascismo representou a tomada do poder pela classe média. Se a origem social tem de ser levada em conta, um fascista era antes de tudo um “homem novo”, um soldado da causa que tinha em Mussolini seu chefe e ídolo.
O ímpeto da classe operária organizada e de seus dirigentes foi quebrado com o impasse das greves. Quando o fascismo chegou ao poder,o que restava de organização independente nos sindicatos e partidos foi destruído. Mussolini empregou um misto de repressão e de cooptação para atrair os trabalhadores, como bem expressa o Codice del Lavoro, de 1927 – copiado, aliás, pelo Estado Novo no Brasil –,ao estabelecer o controle dos sindicatos e a proibição das greves e prever, ao mesmo tempo, várias garantias sociais. O Codice del Lavoro decorreu de um princípio maior do fascismo: a instituição de um Estado corporativo, em que a representação de patrões e empregados nas corporações asseguraria a colaboração, e não a luta entre as classes. 
interpretação liberal do fascismo seguiu um caminho diverso da versão classista, ao tomar como base a noção de totalitarismo, desenvolvida por Hannah Arendt e colegas. Estados totalitários seriam tanto o fascismo e o nazismo como o comunismo soviético, por buscarem intervir em todos os aspectos da vida social, e construir um “homem novo”, oposto ao indivíduo burguês. Dentre as virtudes desse “homem novo” estariam a obediência cega ao líder supremo e à sua capacidade de decisão, além do culto e da estética da violência, cuja estrela de primeira grandeza foi o poeta futurista Marinetti – um admirador de Mussolini que nunca abandonou as tendências anarquizantes do primeiro fascismo.

Essa interpretação sofreu críticas violentas do pensamento de esquerda, por colocar no mesmo balaio o nazismo, o fascismo e o regime soviético. De Felice, que estava bem longe das posições de esquerda, criticou também a noção de totalitarismo, pois ela seria incapaz de dar conta de regimes intrinsecamente diferentes, aos quais se aplicava o mesmo rótulo.
Seja como for, um dos méritos da noção de Estados totalitários consistiu na percepção de que esses estados tinham algumas características em comum, indo além dos traços gerais dos regimes autoritários, como é o caso do controle dos meios de comunicação, do aniquilamento dos divergentes e da utilização da violência como recurso político. Mas, para além de elementos comuns, a noção de totalitarismo não dá conta das distinções entre os Estados definidos como totalitários.
Mesmo entre a Itália fascista e a Alemanha de Hitler, as diferenças não são poucas. O regime nazista foi um furacão arrasador que em doze anos destruiu as instituições da República de Weimar e ergueu das cinzas um Estado policial, que levou o mundo à guerra. No âmbito externo, ao contrário da Alemanha nazista, Mussolini teve de se limitar à expansão no Mediterrâneo e ao sonho de construir um império na África, mesmo porque não poderia ir mais longe, pois a Itália era, no contexto europeu, uma potência de segunda classe.
O antissemitismo teve na península um papel ideológico e político pouco relevante até 1938, embora houvesse antijudeus raivosos nos círculos do poder, do gênero de Roberto Farinacci, um ex-ferroviário admirador estridente do nazismo, ou de Aquiles Starace, um simples contador que se tornou secretário do Partido Nacional Fascista.
Mussolini adotou, quase sempre, uma atitude de benevolência com relação aos judeus e, afinal de contas, tinha junto de si Margherita Sarfatti, de origem judia. Judeus fascistas participaram da Marcha sobre Roma, ocuparam vários postos de governo e lutaram na guerra da Abissínia, a ponto de o governo ter instituído, em terras africanas, um rabinato militar.
A reviravolta ocorreu logo após o fim da guerra colonial, quando os judeus – tidos como personagens execráveis do capitalismo financeiro – deixaram oficialmente de pertencer à “raça italiana”. Muitos deles foram jogados nos campos de concentração de Hitler, com o destino conhecido.
No plano das instituições, o fascismo italiano subordinou o partido único ao Estado, ao contrário do que sucedeu na Alemanha nazista. Era uma subordinação relativa: exibir a carteira de membro do partido era condição necessária para se assumir um cargo público. A preeminência do Estado como encarnação da nacionalidade teve no filósofo Giovanni Gentile seu nome mais expressivo e sintetizou-se numa frase que se tornou célebre: Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato. Em tradução livre: “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada absolutamente contra o Estado.”
A emergência do fascismo teve muito a ver com as circunstâncias da Itália do pós-guerra, na qual se entrecruzaram fatores como a descrença na democracia; a irrupção de um movimento operário vigoroso, mas que chegou a um impasse; as decepções sofridas pela Itália – nação proletária, como dizia Mussolini – nas negociações de paz posteriores à Segunda Guerra Mundial. De Felice, que se opunha às “interpretações demonológicas” do fascismo, tratou de inseri-lo num quadro histórico mais amplo. A ideologia fascista representaria o ponto de chegada de uma tradição política e cultural que deitava raízes no nacional-jacobinismo do Risorgimento (período de luta pela unificação da Itália), e se ligava aos “intervencionistas de esquerda” dos anos 1914-15. 
história de Mussolini não terminou na Piazzale Loretto. A partir das cenas macabras na praça, seu corpo ganhou outras dimensões de personagem principal. Enterrado discretamente num cemitério de Milão, ele foi dali “sequestrado” por um pequeno grupo de fascistas e percorreu um périplo secreto até ser entregue à sua família. Esta construiu um mausoléu em Predappio para onde acorrem, nas datas solenes do fascio, fascistas remanescentes e neofascistas vestidos de camisas negras, braços erguidos na saudação fascista, aos gritos de “Duce! Duce! Duce!”.

O mausoléu de Predappio é um lugar de memória. Mas não se pode afirmar que o fascismo esteja ali enterrado. Afinal de contas, menos de dois anos da morte de Mussolini, os remanescentes do Partido Nacional Fascista criaram uma nova agremiação partidária, o Movimento Social Italiano, MSI, numa referência à República Social Italiana dos últimos anos do Duce. É certo que o MSI regrediu e desapareceu, após ter alcançado vitórias eleitorais significativas nos anos 70 do século XX.
Mas a “lembrança inspiradora” de Mussolini não se extinguiu. Ela surge aqui e ali, nos discursos de Berlusconi e na vaga esperança de que um homem providencial venha salvar a Itália atual da crise econômica e da desordem.
Boris Fausto

17 de mar. de 2013

Só 57% dos donos de Ferrari gostam de dirigi-las

No imaginário das pessoas com uma situação financeira "comum", uma Ferrari deve oferecer extrema satisfação a seu proprietário, não é mesmo? 

Mas, de acordo com o levantamento da empresa britânica de seguros AXA, somente 57% dos proprietários entrevistados apreciam a experiência de conduzir um modelo da renomada marca de esportivos italiana.

Apesar do índice de satisfação baixo quando os proprietários falam do prazer ao dirigir seus automóveis, segundo a empresa, a firma com mais insatisfeitos é a Volvo: apenas 46% estão satisfeitos com seus automóveis. Outra empresa mal colocada foi a Land Rover, com a satisfação de somente 59% de seus respectivos donos.

Na outra mão, ainda de acordo com a pesquisa, a BMW conseguiu a posição mais alta em termos de satisfação ao dirigir de seus proprietários: 82%. Outras marcas bem quistas pelos condutores foram a Aston Martin (78%), Lexus (76%), Seat (75%).

Márcio Murta

Vai, caminha, Francisco


Chega-se à igreja de São Damião, em Assis, na Itália, a pé. Uma longa, sinuosa e quieta descida entre os olivais, rumo ao fuori muri da cidade. 
A subida de volta à parte alta, para quem quiser continuar caminhando, pode ser extenuante. Ali o jovem Giovanni Bernadone, mais tarde São Francisco, ouviu do Cristo no crucifixo a frase que nessa semana ressoou na cabeça dos católicos com a escolha do novo papa: "Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja, que está em ruínas". Francisco foi. 
E na quarta-feira tornou-se papa, personificado na figura do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio. Ao sair Sumo Pontífice do conclave, Bergoglio escolheu ser chamado de Francisco, talvez apontando, na escolha do nome, a direção dos ventos em seu papado. Ele pediu que rezassem por ele. Foi de ônibus. Pagou a conta do hotel. Dispensou as vestes opulentas. Manteve a cruz meio tosca de prata que lhe acompanha desde Buenos Aires. Chamou-se de bispo de Roma, não de papa. Além de "aos irmãos", no masculino, dirigiu-se "às irmãs". Para boa parte dos analistas, sinais claros de uma nova reconstrução da Igreja.
Papa jesuíta
Bergoglio é jesuíta, e aí reside a outra parte da explicação, a de como a tal reconstrução pode se dar para além da humildade franciscana. "É com a tradicional força evangelizadora dos jesuítas, pioneiros que sempre buscaram caminhos novos e carregam dentro de si a espiritualidade de servir", diz o padre espanhol Jesus Hortal, também membro da Companhia de Jesus e professor de Direito Canônico da PUC-Rio. Na entrevista a seguir, Hortal destrincha o significado dos gestos, das palavras e das origens de Francisco, diferenciando-o não só do alemão Bento XVI, tímido e formal, como também do espetaculoso polonês João Paulo II. "Será o papa da linguagem do povo, da proximidade, da familiaridade. Isso vai ficar bastante claro na Jornada Mundial da Juventude, no Rio, em julho", ele aposta. E lembrando o caminho até a Igreja de São Damião em Assis, resume: "Este é um papa que anda a pé".
 "Nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, a base fundamental da Companhia de Jesus, a última meditação proposta se chama meditação para alcançar o amor. Ele pede para, em tudo, amar e servir à Sua Divina Majestade. É claro que se refere diretamente a Deus. A atitude primordial de um jesuíta, portanto, é amar e servir. E isso se pode estender a todos os campos da vida. Por isso temos uma atitude de serviço e a enxergamos também nos primeiros sinais enviados pelo papa Francisco. Além disso, na Bula Regimini Militantis Ecclesiae, documento aprovado pelo papa Paulo III criando a Companhia de Jesus em 1540, fala-se expressamente que ela está para servir a Igreja sob a bandeira de Cristo. Essa espiritualidade de serviço dos jesuítas é historicamente muito clara.
Os pioneiros
"Os jesuítas sempre tiveram duas características marcantes no apostolado. Primeiro, a ênfase no aspecto intelectual. Os primeiros dez jesuítas eram estudantes da Universidade de Paris. Segundo, sempre foram pioneiros. Não se contentavam com aquilo que faziam, iam sempre buscando coisas novas, caminhos novos. Nesse sentido, outro São Francisco, que possivelmente também inspirou o papa, é São Francisco Xavier, pioneiro no anúncio do evangelho entre populações não cristãs. E pioneiro no modo de fazê-lo, porque não parou nos domínios territoriais portugueses. Foi à Índia, ao Japão, sim, mas foi além. Saiu da órbita da coroa portuguesa e chegou a lugares onde não havia um soldado português sequer. Queria entrar na China, apresentada pelos japoneses como uma civilização superior, mas não conseguiu. Morreu quando esperava o transporte para lá. Esse conceito de pioneirismo, de buscar novos rumos, está muito entranhado nos jesuítas. No Concílio de Trento do século 16, por exemplo, convocado para reformar a Igreja Católica, o papa Paulo III enviou dois jesuítas como legados seus. Depois, na implementação das determinações do concílio, coube aos jesuítas o fortalecimento das comunidades católicas na Alemanha, então ameaçadas pela Reforma Protestante. Os colégios jesuítas que começaram a se espalhar se tornaram baluartes contra o luteranismo. Mas não creio que o papa Francisco vá mudar estruturas internas da burocracia do Vaticano só porque os jesuítas são tradicionalmente organizados e disciplinados. Bergoglio vai mexer nisso porque é um traço pessoal dele. A imagem dos jesuítas como soldados, hoje, é algo mais simbólico.
Simplicidade
"Quando foi à Basílica de Santa Maria Maior na quinta-feira, em vez do carro oficial, Francisco preferiu carro comum. Eu não me espantaria com um novo estilo de papa. Eu admiraria. Na quarta, quando apareceu pela primeira vez na sacada da Basílica de São Pedro, o que mais chamou a atenção foi a ausência do mantelete vermelho, aquele traje de arminho que todos os papas sempre usaram. Francisco vestia somente a batina branca, uma cruz peitoral muito simples, de prata, que ele já tinha como bispo de Buenos Aires, e não a de ouro dos papas. Também só colocou a estola para dar a bênção. Em nenhuma parte do Vaticano aparece o brasão do novo papa. Todos os papas tiveram brasão, os bispos sempre tiveram, embora não seja mais algo obrigatório há bastante tempo. O fato é que, ao não adotar um brasão, ele está dizendo que não quer ser um senhor, um nobre de armas.
Chamar-se de Bispo de Roma
"Este é um ponto fundamental do ponto de vista teológico, inclusive. Tem a ver com a doutrina do Conselho do Vaticano II sobre a colegialidade episcopal. Isso também está numa das epístolas de Santo Inácio de Antioquia, mártir do século 2º lançado às feras em Roma. Quando estava sendo levado preso, de Antioquia (atual Síria) para Roma, ele endereçou cartas às diversas igrejas das localidades por onde ia passando. E na que escreveu aos romanos disse que a Igreja de Roma é a que preside, na caridade e no amor, a comunhão de todas as igrejas. A epístola de Santo Inácio de Antioquia aos romanos é considerada um documento histórico fundamental a respeito da igualdade de todas as igrejas. Roma, portanto, não é superior, é irmã. Ao se referir a si mesmo como bispo de Roma, Francisco não se pôs à parte ou acima dos outros bispos. Colocou-se entre eles, dando força à importância da colegialidade episcopal.
O nome Francisco
"São Francisco de Assis foi ao Egito e tentou pregar o Cristianismo de um jeito absolutamente manso, humilde, tranquilo. Durante as Cruzadas, imagine! Normalmente seria morto. Mas não, deixaram-no falar e regressar. A escolha do nome Francisco pelo cardeal Bergoglio é também claro sinal de diálogo com outras religiões. O que ele já fez muito como arcebispo de Buenos Aires, especialmente com os judeus. Há tempos ele mantém esse canal aberto.
Movimentos conservadores
 "Em relação aos diversos movimentos conservadores dentro da Igreja, como Comunhão e Libertação, Focolares e Opus Dei, não sabemos exatamente o que há ali. São tensões, ambições individuais, diferenças doutrinárias. Não temos todos os dados para saber o que o papa vai fazer. Outra coisa, porém, essa sim bem mais clara, é o problema no Banco do Vaticano e o descontentamento de cardeais com a falta de transparência. Não é um banco qualquer. É onde estão os bens eclesiásticos, o dinheiro das dioceses. Tem a finalidade fundamental do exercício da caridade, ajudar as pessoas. Por isso deve ser administrado com muito cuidado e transparência. Vai haver uma ação clara de Bergoglio sobre isso, não tenho dúvida.
Geografia católica
"Evidentemente, América Latina, Portugal e Espanha, que formam um bloco que move o catolicismo, o chamado catolicismo ibérico, têm um peso muito grande. Mais da metade dos católicos do mundo inteiro estão nesse bloco. Então, os problemas enfrentados nesses países precisam ser identificados e tratados. Há uma secularização muito forte na Espanha, na França e na Argentina também. A Argentina não tem essa proliferação de grupos pentecostais como ocorre no Brasil, porém muitos argentinos têm assumido uma atitude laicista, de querer trancar a Igreja na sacristia. Não é o laicismo enquanto laicismo o problema. É a descrença. No Brasil, o grupo religioso que mais cresceu não foi o dos pentecostais. Foi o grupo que diz não ter religião nenhuma. Isso é muito forte. Na Europa também: grande parte da população afirma que não tem preocupações religiosas. Pois o papa Francisco se põe como um anunciador do Evangelho, aprofundando a linha iniciada por Bento XVI, que fundou um Pontifício Conselho para a Evangelização. A postura do novo papa de proximidade com o povo vai ser fundamental. Hoje recebi um e-mail de minha sobrinha que vive na Espanha dizendo, impressionada: ‘Este papa é como nós, anda a pé’. Isso diz um bocado dele.
Política latino-americana
"Não é possível colar a mesma etiqueta em todos os governos da região. Cristina Kirchner é diferente de Rafael Correa. Evo Morales é diferente de Dilma Rousseff. Contudo, o que for relacionado à justiça social e igualdade encontrará eco no papa. Ele sempre foi muito claro em seu apoio e serviço aos mais necessitados. Mas, se você chamar ‘de esquerda’ ações contra a vida, como apoio ao aborto e às pesquisas com células embrionárias, por exemplo, é claro que ele se posicionará contra. A defesa da vida é bandeira irremovível da Igreja Católica.
Celibato, ordenação de mulheres
"Há coisas muito heterogêneas aí. Algumas a igreja acha que não devem mudar, exatamente porque a Igreja não está acima do Evangelho, está a serviço do Evangelho. Por exemplo, a questão do divórcio aparece muito clara na palavra de Cristo: ‘O que Deus uniu o homem não separa’. A Igreja não pode ir contra um princípio do Evangelho. Outra questão é a aplicação de tal princípio em casos práticos. Pode-se pensar em como lidar com esses temas, numa eventual mudança de atitude. Na doutrina, porém, não se mexe. Bergoglio sempre assumiu posições firmes nesse ponto. Por outro lado, celibato sacerdotal não tem a ver com isso, não é dogma de fé. É outra questão, e o papa Francisco pode modificar alguma coisa a esse respeito. A não ordenação de mulheres é um pouco mais discutível, porque houve uma carta do papa Paulo VI e depois de João Paulo II que trataram a questão como algo bastante definitivo, embora não como dogma de fé. Eu diria que alguma base para se mexer aí existe, mas não muito grande.
 
Ditadura argentina
"Estava neste momento lendo as declarações do argentino Adolfo Pérez Esquivel, ativista de direitos humanos e Prêmio Nobel da Paz que se notabilizou na luta contra a ditadura. Ele diz expressamente: ‘Houve bispos que foram cúmplices da ditadura, mas Bergoglio não’. Essa polêmica envolvendo Bergoglio com a ditadura argentina se originou por causa de dois padres que tinham sido jesuítas e foram presos. Logo acusaram Bergoglio, na época provincial jesuíta na Argentina, de ter informado os militares de que aqueles padres não eram mais jesuítas. Porém, não há a mínima prova disso. Ao contrário, ele se esforçou para libertar presos políticos em muitos casos. Essa acusação me parece uma coisa totalmente sem cabimento.
Jornada Mundial da Juventude
"Será uma invasão de argentinos no Rio de Janeiro (risos). Vai ter um feitio muito popular, de proximidade entre o papa e os jovens. Ele deve se valer de palavras e gestos para aproximar a Igreja do povo, num estilo muito diferente do de Bento XVI, que foi um papa mais comedido, de educação alemã, mais formal. Bento XVI não despertava o entusiasmo das multidões. Lembro-me da frase que as pessoas citavam como sendo muito típica dos alemães, para avaliar o papado dele: ‘Tem que haver ordem! Tem que haver ordem!’ João Paulo II, sim, era mais do espetáculo. O papa Francisco não será nem uma coisa nem outra. Será o papa da linguagem do povo, da proximidade, da familiaridade. Não com espetáculo ou grandes explosões de entusiasmo, mas com atos e palavras que façam as pessoas se sentirem unidas. Essa atitude de colocar-se no meio, de deixar as formalidades de lado e mostrar que está na Igreja junto com todos, será muito significativa."
Christian Carvalho Cruz

15 de mar. de 2013

Deus no coração

Joan Miró

E quem tem Deus no coração sabe que não há mal que vingue, nem inveja que maltrate, nem inimigos. Porque pra todo mal, há cura.
Caio Fernando Abreu

Solidão como fator de risco para saúde

O ser humano é social por natureza, não vivemos só. Temos tanta necessidade de suporte social que nossos corpos funcionam mal sem este contato. Por exemplo, a falta de contato social pode aumentar em 30 pontos a pressão arterial de pessoas portadoras de hipertensão arterial.

Um estudo com 24.000 trabalhadores mostrou que homens e mulheres com poucas ligações sociais tinham de 2 a 3 vezes mais chances de desenvolver quadros depressivos quando comparados a pessoas com fortes conexões sociais. Outro estudo mostrou que mulheres que participaram de grupos de suporte após cirurgia de câncer de mama, dobravam a sua expectativa de sobrevida.

O paradoxo é que, quanto mais deprimidos ou estressados estivermos, mais tendemos a nos afastar do grupo de pessoas próximas, o que acaba aumentando as emoções negativas e piorando o estado emocional.

Portanto, lembre-se sempre de ter momentos com as pessoas de quem gosta, pois serão certamente a fonte de suas maiores alegrias.
Frederico Porto

O que eles têm que nós não temos?


Os argentinos têm cinco prêmios Nobel. Os brasileiros, nenhum. Os argentinos têm dois Oscars.

Nós, nenhum. Os argentinos têm vários deuses no futebol. Nós também. Sou muito mais Messi que Neymar. Os argentinos têm uma mulher na Presidência. Nós também. 

Sou mais Dilma que Cristina. Argentinos e brasileiros amam um churrasco ou uma parrillada. A carne deles é muito melhor, mais saborosa e mais macia. Agora, perdemos não só na carne, mas no espírito. Os argentinos têm um papa.

Por ser jesuíta e andar sem batina de metrô e ônibus, por se recusar a receber carro e casa mesmo sendo arcebispo, por trabalhar com carentes, por não discursar em favor da Cúria e não estar associado às contas suspeitas do Banco do Vaticano, sou mais Jorge Mario Bergoglio que Odilo Scherer. 

O que mais me conquistou no primeiro papa Francisco, de cara? O sorriso e a concisão ao saudar os fiéis, pedindo a eles sua bênção. Poucas palavras, nenhuma carranca – e o sorriso que ilumina os olhos. 

A ascendência conta na personalidade. Bergoglio é um argentino-italiano, enquanto Odilo é um alemão-brasileiro. Na estampa, na postura. Sem entrar no mérito individual, para enfrentar os dilemas da Igreja Católica, os escândalos sexuais e financeiros e a perda de fiéis, falo apenas de uma questão prosaica: simpatia. Não é pop ter um papa que lê Borges e Dostoiévski e aprendeu a cozinhar com a mãe? 

Dom Odilo perdeu também por ser favorito. Como os craques dos gramados, sofreu uma marcação cerrada desde antes do conclave, especialmente dos italianos, que queriam seu conterrâneo no trono, o cardeal Angelo Scola. Os carrinhos por trás no arcebispo de São Paulo deixaram o arcebispo de Buenos Aires livre na cara do gol. Era o homem certo na hora certa. Faz sentido que o primeiro papa de fora da Europa em 1.272 anos tenha sobrenome italiano, ame ópera e seja torcedor apaixonado de futebol – mais exatamente, do clube portenho San Lorenzo, fundado por um padre. 

Há uma descrição popular bem conhecida da alma de nossos hermanos. Os argentinos são italianos que falam espanhol, mas pensam que são ingleses. Essa última parte da descrição está cada vez mais fora de moda, especialmente depois do recente plebiscito de cartas marcadas nas Malvinas. No arquipélago, um protetorado britânico com menos de 2 mil habitantes, a população continua entrincheirada nos pubs e no “fish and chips”, contra a reivindicação de soberania territorial da Argentina. Melhor dizer então que os argentinos pensam que são europeus. Até na decadência.

Hoje, nosso vizinho está acossado por uma economia em frangalhos, pelo desemprego em alta, pela inflação que provocou uma medida eleitoreira desastrada – o congelamento de preços – e pelo populismo de Cristina Kirchner, a presidente que sonha sair do poder apenas quando puder ser embalsamada. Vivemos agora com a Argentina tempos difíceis, que vão além da rivalidade folclórica e cultural. A Vale acaba de suspender o maior investimento privado da história da Argentina, de quase US$ 6 bilhões, por riscos políticos e econômicos. 

Por tudo isso, a declaração espirituosa do novo pontífice – “Foram quase até o fim do mundo para buscar um papa” – se reveste de vários significados. Ele critica o governo Kirchner. A Argentina é bem mais fim do mundo que o Brasil. O papa Francisco virá ao Rio de Janeiro para a Jornada da Juventude e deverá ser sucesso de crítica e bilheteria, por seu temperamento afável. Bergoglio passou rapidamente de argentino a “latino-americano”, para o Brasil também poder comemorar. Assim, a gente esquece que nossos vizinhos dão de cinco a zero em prêmios Nobel (dois da Paz, dois de Medicina e um de Química) e dois a zero em Oscar (O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella, em 2010, e A história oficial, de Luiz Puenzo, em 1985). O cinema argentino é mais sofisticado, mais diversificado e tem melhores diálogos que o brasileiro. Escapa de nosso costumeiro trinômio violência, favela e comédia. 

No futebol, a disputa é entre Messi e Neymar. O moleque de 21 anos precisa comer muito arroz com feijão para chegar à consistência do argentino. Messi só pensa na bola e na equipe. Aí dá o show da semana passada na goleada do Barcelona contra o Milan. Neymar precisa baixar a bola. Entrou na roda-viva de festas, boates, casas de shows, publicidade, brinquinhos de diamante, penteados, franjinhas e cabelos coloridos. Na mesma noite, trocou o smoking no Teatro Municipal do Rio de Janeiro por uma fantasia de Kiko, personagem do seriado Chaves, numa festa em São Paulo, onde ficou até as 4 horas da madrugada com a atriz Bruna Marquezine. Discutiu com fotógrafos. Seis horas depois, foi treinar no Santos. Imagina na Copa.
Ruth de Aquino

13 de mar. de 2013

Papa Francisco

A primeira coisa a notar a respeito do papa Francisco é que os cardeais parecem ter decidido dar uma segunda chance a ele.

Todos os relatos de cardeais que participaram do conclave de 2005, obtidos em "off" pelos principais vaticanistas (jornalistas especializados na Santa Sé), dão conta de que Jorge Bergoglio foi o único cardeal a, em 2005, ameaçar seriamente a hegemonia de Joseph Ratzinger, chegando a obter cerca de 40 votos.

Segundo um desses relatos, ele teria pedido, com lágrimas nos olhos, para que seus partidários deixassem de votar nele e elegessem Bento 16.

O nome "Francisco", embora ele não seja franciscano, mas jesuíta, parece mandar sinais importantes.
Bergoglio enfatiza a humildade em sua vida pessoal, cozinhando sua própria comida, indo de ônibus para o trabalho em Buenos Aires. E uma de suas atitudes mais famosas espelha uma ação lendária de são Francisco de Assis.

Assim como o santo italiano da Idade Média cuidava dos leprosos e não tinha medo de beijá-los, Bergoglio ficou conhecido, em 2001, por lavar e beijar os pés de 12 pacientes com Aids que visitou no hospital.
Por outro lado, a reputação do prelado chegou a ser chamuscada pela acusação, feita por um ativista de direitos humanos, de que ela teria sido cúmplice do sequestro de dois jesuítas argentinos, membros de movimentos de esquerda, durante o regime militar em seu país, em 1976.

Apesar disso, ele costuma ser elogiado por sua postura em favor da justiça social. "Vivemos na região mais desigual do mundo, a que mais cresceu e a que menos reduziu a miséria. A distribuição injusta de bens persiste, criando uma situação de pecado social que grita aos céus e limita as possibilidades de vida mais plena para muitos de nossos irmãos", declarou em 2007.

Ele tem fortes elos com o movimento de leigos Comunhão e Libertação, considerado conservador, com uma espiritualidade centrada na ideia da presença real de Jesus entre os fiéis.
Reinaldo José Lopes

Pegadinha da cerveja Carlsberg



Nessa onda toda de pegadinhas publicitárias, algumas de gosto bem duvidoso, eu tenho preferência pela abordagem da Cerveja Carlsberg. 
A do cinema cheia de mal-encarados, por exemplo, foi surpreendente e divertida, sem pegar pesado com as “vítimas”.
A cerveja agora repete a dose, e pra mim com uma ideia ainda melhor e execução mais complexa: um teste de amizade.
Um amigo ligava para outro no meio da madrugada dizendo que precisava de ajuda. Inventava que perdeu dinheiro em um jogo de poker, e pedia 300 euros para pagar a dívida e poder ir embora. Ao chegar no local – típico de filmes de gangue – é que o teste realmente começava.
Quem tivesse coragem de chegar até o final, era brindado com uma Carlsberg pela prova de amizade.

http://www.brainstorm9.com.br

12 de mar. de 2013

Hoje

Domenico Grenci
Se tiver que amar, ame hoje. 
Se tiver que sorrir, sorria hoje. 
Se tiver que chorar, chore hoje. 
Pois o importante é viver hoje. 
O ontem já foi e o amanhã talvez não venha.

Monstros e abismos

Fernand Léger
Quem deve enfrentar monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro.

Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti.
Nietzsche

O corpo e os sonhos

Linda Vachon
O escritor argentino Jorge Luis Borges tem um conto sobre um homem que desejava ter um filho. O homem começou a sua criação sonhando este filho parte a parte, por um período de muitas noites. Ao terminar, ele rezou para que o deus do fogo conferisse vida ao filho sonhado. O conto termina quando o sonhador descobre que ele próprio, assim como a sua criação, é também uma criação de algum sonhador.

O conto de Borges nos proporciona insight sobre o papel do sonho no processo pelo qual o corpo forma imagens. Os sonhos formam imagens e lhes dão seqüência em uma narrativa. 


O processo de sonhar conecta o corpo que nós somos com o corpo que nós estamos nos tornando. Os sonhos são uma maneira de o corpo manter uma relação continuada entre, de um lado, o corpo herdado e seu cérebro profundo e, de outro, o corpo pessoal do córtex ou cérebro novo. Os sonhos são, então, parte da realidade da vida do corpo.

Os sonhos mostram aquilo que está se formando mas ainda não está totalmente realizado. Ao crescer e formar sua identidade somática, o corpo fala consigo mesmo em muitas linguagens. Uma delas é o sonho. O corpo enquanto processo está sempre formando imagens e sonhando a sua próxima forma e como encarná-la. Borges, o sonhador, representa a nós todos, sonhando os corpos que nós somos e os corpos que nós seremos.
O seu conto também nos fala de experiência interna, de como sonho e estado de vigília são os dois lados do processo de corpar. Sonhar e a nossa capacidade de acessar o sonhar demonstram a relação que nós temos com nós mesmos. Desta maneira aprendemos sobre a diferença e a semelhança entre o self noturno e o self diurno, aprendemos como o desejo e a imagem estão interconectados.


Há uma continuidade entre o processo do corpo e a imagem do sonho. O corpo inconsciente apela para o córtex em busca de imagens de si mesmo. O cérebro acordado apela para o seu próprio corpo para animar suas imagens. Em Borges, o sonhador ao desejar um companheiro escreve não somente sobre um filho literal, mas sobre um irmão/filho interno. O seu tema faz um paralelo com a história cristã da ressurreição - Deus envia seu filho - e também um paralelo com a história de Golem dos hebreus - o gerar de um ser à semelhança da criatura humana. O tema da auto-geração a partir de si mesmo é também parte da teoria da complexidade - o pensamento mais recente sobre a teoria da evolução.


Estas histórias têm um tema em comum: a relação entre o córtex volitivo da vigília e os centros reflexo e emocional do cérebro. O cérebro faz uma imagem do corpo e depois pede ao corpo que a anime. O conto de Borges aprofunda o tema da participação humana na elaboração das formas da nossa existência, da juventude à idade adulta, à maturidade, à velhice.


Podemos aprender com os sonhos porque podemos reorganizar significado e associação, bem como influenciar a nossa estrutura somático-emocional. Os sonhos possuem uma matriz emocional. Os personagens e objetos do sonho estão embutidos nesta matriz. Apesar de nós tentarmos decodificar as imagens e representações do sonho, nós não aprendemos a vivenciá-las como um ambiente interno ou a vê-las como expressões de um estado corporal. Sonhos são parte do mistério da sabedoria somática, parte do processo do soma tornar-se ciente de si mesmo, de ter uma subjetividade. À medida em que o corpo faz crescer sua própria subjetividade, o córtex forma imagens e expressões motoras que correspondam a esta subjetividade. Quando o corpo sonha, ele usa a habilidade cortical do soma de figurar ou futurizar, para influenciar a sua maneira de estar presente.


Dois aspectos do nosso processo corporal, o herdado e o socialmente vivenciado, organizam e formam um domínio subjetivo intermediário. Esta relação complexa gera uma forma viva em si, influenciando as formas externa e interna. A nossa vida corporal é o seu próprio sujeito; o vivenciar da própria experiência torna-a uma experiência pessoal. O nosso corpo é o sujeito do seu próprio viver, o corpo é a fonte e a referência do viver. O corpo enquanto processo tem uma relação essencial consigo mesmo. Sonhar é ser íntimo de si mesmo.


As imagens do sonho são como fotos momentâneas de um continuum incessante, porém não-linear, de formas corporais, de expressões, de sentimentos e gestos. O cérebro profundo herdado continuamente tatua sua imagem no córtex cerebral receptivo e dinâmico. Assim como a pele, sua parente próxima, o cérebro também recebe e absorve padrões corporais. As pulsações corporais, o sonho sendo uma delas, aprofundam a relação do corpo consigo mesmo via osmose e influências volitivas. Desta maneira, as pulsações dão forma à identidade pessoal.


O sonho é a atividade somática falando sobre si mesma enquanto se prepara para o mundo da vigília. O corpo instintivo e as formas somáticas pessoal e social conversam umas com as outras. Algumas pessoas sonham com o homem ou a mulher selvagem apesar de viverem como cidadãos sociais adequados. Cada self exerce uma influência sobre o mesencéfalo, sobre o córtex, num diálogo interno. O corpo é um continuum responsivo excitável e contrátil, capaz de transformar a própria forma.Os sonhos, como o coração, estão continuamente mudando de forma, uma pulsação que varia de estável a menos estável, e a estável novamente. Estas pulsações celulares aprofundam a amplitude de metabolismo tissular e de expressão emocional. O sonho, o qual é organizado a partir da pulsação do corpo, ajuda a dar ao soma uma estrutura pessoal e um senso de presença.


O método de trabalho com o sonho consiste em conectá-lo mais completamente à sua própria fonte, o corpo. Nesta abordagem o foco se faz sobre a experiência somática, não sobre significado e interpretação. Os sonhos organizam a maneira como usamos nossos corpos para estarmos no mundo, e como habitamos o corpo em que vivemos. Usamos os sonhos para fazer crescer uma realidade somática e uma subjetividade complexa que abarca múltiplas realidades.


Ao trabalhar somaticamente com o sonho, peço às pessoas para contar seus sonhos de trás para frente e vice-versa, para que elas experimentem uma realidade não linear. Através de um ir e vir entre as diferentes formas somáticas de forma lenta e controlada, engajamos os padrões musculares do córtex e do tronco cerebral. Começamos a nos tornar íntimos da maneira pela qual vivenciamos o corpo herdado e as imagens do corpo no cérebro. Esta abordagem gera sentimentos e memórias associados ao crescimento do nosso corpo pessoal.


Trabalhando com o sonho, desacelerando suas seqüências e corporificando as personagens em posturas estáticas sucessivas - suas expressões corporais e gestos - vivificamos sentimentos e imaginação. Contar o sonho do começo para o fim e do fim para o começo intensifica as personagens e estabelece a relação entre os diferentes corpos. O aspecto relacional das nossas formas somáticas internas e externas confere um aspecto subjetivo à nossa vida corporal. O trabalho somático com o sonho traz o processo corpante para o mundo cotidiano do trabalho, do amor e das relações.


A prática deste trabalho tem cinco passos:

Passo 1

Recordar o sonho, em linguagem e em experiência corporal ou cerebral.

Passo 2
Intensificar somaticamente as personagens do sonho, tornando sua estrutura e suas expressões mais manifestas através de um processo neuro-muscular de intensificação e diferenciação.

Passo 3
Usar as funções cortical e volitiva para controlar o processo de desmontar a estrutura somática das personagens. Os Passos 2 e 3 proporcionam uma experiência fundamental para todo processo somático, o organizar e desorganizar das seqüências de comportamento.

Passo 4
O soma é desafiado a conter o que lhe foi tornado disponível pelo sonhar, o fluxo constante de sentimentos e forma que se reestruturam e começam a incubar uma subjetividade.

Passo 5
Nós nos re-corpamos, damos forma aos sentimentos, reencarnamos a nossa identidade somática e pessoal.

Sonhos conferem à existência do nosso soma uma subjetividade. O trabalho somático proporciona ao soma uma narrativa e um processo através dos quais este cresce seu próprio destino: nascer, fazer-se presente, morrer. O significado desta realização espelha a nossa concepção do que é imortal
Stanley Keleman

11 de mar. de 2013

Vida nova

Roger Hilton May
Você quer mudanças. Você pede prosperidade. Você quer sucesso.

Mas acorda, vai ao espelho e não vê novidades.

A vida transcorre igual, pálida, sem motivação, sem a energia que você gostaria.

Sua voz interior sopra ” Vida Nova “, mas tudo parece distante e difícil.

A culpa fica por conta do patrão, da sogra, do governo, da falta de sorte…

Aí você resolve mudar! Bem… “mas só segunda-feira” , ” dia 1º ” , “depois das férias” …

Não raro, prevalecem outros fatores condicionais:

“Se eu tivesse dez anos menos”, “se eu ganhasse na loteria” ou “quando eu me casar” , “quando eu me aposentar ” …

Desculpas não faltam, não é mesmo?

Hoje pode ser um novo dia. Basta você querer.

Se fizer as mesmas coisas de ontem, obterá os mesmos resultados de agora.

Então, é preciso agir diferente e, claro, com ousadia positiva e forte determinação.

Afinal, Deus nunca vai fazer por você aquilo que você mesmo pode fazer…

Chega de enrolar a si próprio! É preciso agir!

É preciso decretar as mudanças que tanto almeja!

“Mudar” significa inovar, alterar costumes, processar com coragem e força de vontade as transformações que se fazem necessárias.

Chega de assistir à vida passar do alto da cômoda cadeira dos críticos!

Chega de se colocar na condição de vítima!

Você pode e sabe que pode melhorar a sua vida.

A conquista de uma Vida Nova requer persistência e autoconfiança.

Mas exige, sobretudo, que você elimine de vez o vício de tudo adiar, entendendo, definitivamente, que está mais do que na hora de mudar…

Autor desconhecido

8 de mar. de 2013

Sexta-feira

Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.
Nelson Rodrigues

Aos 81 anos, Beatriz disse: deixem comigo!

Robert Rauschenberg

Dia desses, uma amiga do interior me ligou, queria me passar umas informações. Eu disse: "Vou te dar meu e-mail, você passa tudo. E ela: "Acha que sei trabalhar com isso? Sabe quantos anos tenho? Sou de outra geração. Não temos nada a ver com essas coisas". Sei quantos anos ela tem: 73. Porque três anos atrás o marido fez uma bela festa para os 70 anos dela. Lembrei-me que meu tio José ficou fascinado com o computador que ganhou dos filhos. E ainda não havia mouse, imaginem, era tudo controlado pelo teclado. E José estava com quase 80.

Acho que minha amiga não sabe que a vida começa aos 60. Quando jovem, lembro-me de um best-seller chamado A Vida Começa aos 40. Agora já avançamos. Aos 73 ter medo do teclado de um computador é inquietante. É estar desistindo. Desistindo cedo demais. Outro dia falei de toda essa tecnologia que nos assombra. Porém, um computador não assombra mais. Faz parte de nossas vidas, assim como o chuveiro elétrico.

Semana passada, fiquei feliz ao ler a notícia. As coisas estão mudando mesmo, ainda que sejam pontuais, aqui e ali. Pois não é que Beatriz Camargo Pimenta foi eleita presidente do Masp aos 81 anos? Olhem as fotos nos jornais. Inteira, rosto esfuziante, disposta a tocar um barco que nas últimas décadas ameaçou naufragar nas mãos de gente mais nova. O Museu é uma das mais importantes entidades deste Brasil, pelo acervo e pelos eventos que realiza. Pois está aí uma mulher que assume o risco sem medo, ela conhece arte, é colecionadora, tem tutano. Suas declarações são otimistas, de quem aceita o desafio. Longa vida para Beatriz. E para o Masp!

Nessa história de idade, fiquei impressionado quando, há duas semanas, li o livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de 'Psicose', de Stephen Rebello, que revela um episódio significativo. O livro é a base do filme que já está em cartaz, com Anthony Hopkins no papel do "mestre do suspense". Nele vemos um momento crucial na vida de um homem de imenso talento. Aos 60 anos, depois de fazer 44 filmes, alguns de enorme sucesso, e apontado como um dos gênios do cinema, Hitchcock foi considerado "velho" pelos chefões da Paramount, que lhe negaram dinheiro para o projeto do filme Psicose. Não deixaram inclusive de chamá-lo de caduco e acabado. Hitch lutou contra o sistema, brigou com bancos, enfrentou críticas de executivos, penhorou sua casa e fez o filme, transformado em um dos maiores sucessos americanos da década de 60. Uma obra hoje clássica que foi baratíssima para os padrões hollywoodianos, 900 e poucos mil dólares.

Foi um tapa na cara dos chefões do estúdio e, igualmente, um tapa na cara de todos os que achavam (e ainda acham) que a velhice é sinônimo de invalidez, fim de linha, incapacidade de trabalho ou de criatividade. Todos os técnicos, muito mais jovens, se assombraram com o olho de Hitch, que sabia a duração exata de uma cena, de um fotograma de filme. Que sabia exatamente o que queria e como chegar lá. Não foi à toa que os jovens da nouvelle vague francesa o endeusaram. Era um "velho" que sabia demais.

Sei, as coisas têm mudado, porém lentamente. Os juízes do Supremo Tribunal Federal não são obrigados a se aposentar aos 70 anos, no auge da experiência, da capacidade mental, do conhecimento? Na maioria das empresas, os 62 anos não são comemorados com a demissão do sujeito? Semana passada, dei com um amigo que acaba de sair de uma grande instituição, porque passou dos 60. Meses depois, voltou como consultor, e com uma belo cachê, porque as gerações intermediárias não estavam dando conta do recado. Esperem! Não quero dizer que a nova geração é incompetente; nada disso; é que a mescla da experiência com o ímpeto da juventude pode resultar em momentos agradáveis e eficientes.

Meu avô paterno trabalhou até os 90 como marceneiro. Meu pai foi diariamente à sua fábrica de sacos de papel (aposentado como ferroviário, ele abriu uma pequena empresa, deu certo) até os 80 e poucos anos. Só saiu por divergências com um sócio. O doutor Jatene fez transplantes até que idade? Niemeyer, dona Canô, Krajcberg, Vanzolini, quantos mais podemos citar? E Inezita Barroso, domingo passado, não conduziu seu programa de televisão aos 88 anos? Só para citar alguns. Os velhos talvez não tenham tanta força. Mas aprendemos a fazer tudo, sentados na cadeira, na poltrona, rede, o que for. Como esses jogadores experientes que jogam na sombra.

P.S.: A propósito, no YouTube circula um vídeo de Ginger Rogers aos 92 anos dançando salsa com o neto. E no livro Em Casa, Breve Historia da Vida Doméstica, Bill Bryson comenta a certa altura que o arquiteto John Nash, na avançada idade de 46 anos, voltou a Londres...
Ignácio de Loyola Brandão


5 de mar. de 2013

Vida saudável – do escritório ao dormitório

David Hockney
A saúde é algo que está cada vez mais em pauta, sem ela não nos movemos, não criamos e em desarmonia, até nossa auto-estima vai pro espaço.

Para muitos o estresse e a falta de tempo são as maiores armadilhas para o desequilíbrio do corpo e mente, e aí “oxigenar” pode ajudar, e muito. Fora todo o estresse que acumulamos em nossas vidas frenéticas e com “zero” tempo para nós, outro fator que não ajuda é que muitos passamos a maior parte do tempo trabalhando sentados, o que definitivamente não é a melhor coisa do mundo, isso a gente já sabe …

De profissionais de grandes corporações à profissionais liberais, apaixonados ou não por aquilo que fazemos, muitas das profissões escolhidas não oferecem grande agito. E sem que a gente perceba essa falta de movimento vai gerando uma estagnação, a energia fica estancada e com o tempo isso pode gerar aumento de peso e até sedentarismo. Mas como é que conseguimos driblar a nossa rotina pra não acumular aquele peso extra que tanto nos tira a auto-estima e a motivação?! Afinal ninguém merece passar o pouco tempo que tem duelando com a balança ou lutando com o espelho. Já temos preocupações suficientes, certo?!

Dentro do assunto li numa revista estrangeira uma matéria dando algumas dicas bacanas sobre como podemos ajudar nosso corpo a funcionar, mesmo dentro da nossa rotina. Separei as dicas que achei mais interessantes, espero que possam ajudar aqueles que estão buscando um equilíbrio maior com seu corpo e por consequência sua mente. Aí vão:

-MANTER UMA BOA HIDRATAÇÃO – Água matém o metabolismo funcionando e segura a onda do apetite. Desidratação ao contrário, ajuda a parar de queimar gordura. “Legal beber pelo menos uma garrafa grande de água por dia e beber um copo de água antes das refeições também ajuda a inibir aquela fome de leão” – explica a nutricionista Lynn Clay. Dica: cortar as bebidas alcóolicas pois elas inibem o efeito dos queimadores de gordura.

-HORA DO CAFEZINHO – Vale a pena tentar trocar o cafezinho por chá verde que é excelente na queima de gordura, cada 4 xícaras por dia ajudam a queimar 100 calorias. Alguns temperos também são ativadores do metabolismo, pra aqueles acontumados em colocar pitadas de cacau no café, a simples troca por canela já ajuda a ativá-lo.

-DORMIR O SUFICIENTE – Estudos mostram que isso é vital caso a gente queira realmente lutar contra a balança. Enquanto dormimos liberamos hormônios que queiman gordura e suprimem nosso apetite. “Se não dormirmos o suficiente geramos o efeito oposto, uma vez que o corpo começa a liberar hormônios que acumulam gordura, como por exemplo o cortisol” – fala a personal Jilian Michaels. Dica: Caso precise aumentar seu sono, bacana tomar magnésio e zinco 90 minutos antes de dormir (consultar seu médico)

-DÁ-LHE VITAMINA C – Novas pesquisas mostram que aqueles que tomam 500mg de vitamina C diariamente queimam 39% mais gordura quando fazem exercício. Essa dose diária pode ser ingerida através de complexos vitamínicos ou de sucos de polpa concentrada de frutas que tenham essa vitamina. Essa tá fácil, pois além de fazer bem os sucos são uma forma gostosa de aliviar a vontade por algo doce sem aquela culpa de sempre …

-SAIR PRA CAMINHAR – Andar pode queimar mais calorias do que jogging. O segredo é caminhar em passos rápidos. “Naquela velocidade em que você fica sem ar mas pode manter uma conversa” – diz Joanna Hall, autora do livro “The GI Walking Diet”. Alternar pequenas corridas ao longo da caminhada também pode fazer um bom efeito. Uma opção que vale para todos é trocar os elevadores por escadas. (Isso eu fazia muito durante um tempo e posso dizer que realmente funciona!)

-TROCAR A ROTINA DOS EXERCÍCIOS – para aqueles que já tem uma prática esportiva bacana fazer um revezamento de atividades. O corpo se acostuma muito rápido a qualquer trabalho esportivo sendo assim nossos músculos diminuem a queima de gordura, uma vez que já se acostumaram aquele exercício. Mudar o tipo de atividade ajuda pois além de nos sentirmos mais motivados com novos desafios, o nosso corpo também tem que aprender novos comandos ajudando na queima de mais calorias. A escolha da atividade também é fundamental pois ir contrariado para a academia gera outro tipo de frustração que acaba não sendo nada saudável.

Saúde gera energia, que gera ativação, que gera entusiasmo. No final das contas saúde e entusiamo andam juntos. Espero que tenham gostado das dicas
Luah Galvão

3 de mar. de 2013

Do sexo à glória

Graham Dean

Na mocidade, a vida se apresenta como um vasto e infinito horizonte; não se enxerga nem se imagina o fim. O fim nunca haverá de chegar! Ainda tem muitas décadas à frente para se gastar.Já quando se passa dos 60, com pouca reserva pela frente, percebe-se que o passado transcorreu estupidamente depressa. A vida derreteu rapidamente como uma barra de gelo ao sol escaldante do meio-dia.
Nas peripécias juvenis da vida, a sensação de tempo tinha um valor oposto àquele do idoso, parecia que os dias eram eternidades, os meses, verdadeiras imensidões, e os anos, infinitos. O jovem se faz de mais velho, o velho tende a se fazer de mais jovem. Um deseja que o tempo corra, o outro, que o tempo pare.
Nessa estranha situação, o jovem adianta o relógio, e o idoso tenta atrasá-lo, inventa mil truques para não declarar a idade, para rejeitar a realidade marcada por cabelos brancos, por rugas, por perda de mobilidade.
Nota-se, depois de se passar por muitas estações, que as paixões juvenis conseguem reter o escorrer do tempo, e que, ao contrário, as agruras senis o aceleram. Chega-se ao momento em que a água que parecia parada no reservatório do tempo passa a se acelerar, precipita-se pelo ralo cada vez mais impiedoso.
A alteração dessas percepções acontece quando os instintos primordiais se acalmam, quando o dever de perpetuar a espécie se apazigua. Curioso: passando-se pelo momento do acasalamento, certas espécies de animais falecem, suas existências deixam de ter sentido. Já para o homem, substância mais aperfeiçoada, as oportunidades continuam, mas os dias intermináveis da juventude, cheios de compromisso, de coisas para fazer, de eventos para presenciar, deixam lugar a um lento tergiversar sem muito afã. Qualidade mais que quantidade, detalhes mais que enormidades. 
Na primeira parte da existência, o homem é movido pelo desejo da mulher, por ela faz loucuras. Na maturidade, persegue, com obstinação, o poder ou o dinheiro, que são a mesma coisa, e por eles vende a alma. Já no entardecer da vida, quando as perspectivas de sobrevivência no planeta se encurtam e se aproximam do nada, surge o desejo de glória – última fantástica ilusão – para se perpetuar ao menos na lembrança dos remanescentes. Apela-se à “sobrevivência virtual” num mundo que continuará a escaldar outros indivíduos. 
Na glória de seus feitos, sobrevivem Moisés, Alexandre, Júlio César, Augusto, Napoleão, Einstein. Porém, enquanto o sexo é para todos, e o poder/dinheiro, para alguns, a glória é atingida por poucos. Glória que esplende nas pirâmides do faraó, no esplendor dos templos de Michelangelo, nos sorrisos pintados por Leonardo, na inocente beleza dos anjos de Rafael, nos versos apaixonados de Dante, nas harmonias de Beethoven. 
Para Artur Schopenhauer, “A glória é o sol que ilumina os mortos... é o poente de uma vida que se converte na aurora da imortalidade”. Mais estupenda é a percepção de Shakespeare quando olha o “abismo” que segue ao término: “Senhores, bom dia, apagai as tochas (do mundo)...”. A glória surge assim em seu esplendor. 
Pois é isso que a vida reserva. Sexo na juventude, poder na maturidade e glória na velhice. Três são as idades. Três, as motivações. Três, os pecados principais: luxúria, que evolui para amor, avidez, que se transforma em generosidade, orgulho, que evolui para desapego. 
Os raros fulgurados pela compreensão desaparecem na autossuficiência de seu enlevo, não podem explicar o “estado de ser” que conquistaram individualmente, como a vida é dada ao sair do ventre da mãe. 
A dor acelera a evolução, é banhada de sangue, passa pela cruz e conduz a Deus.
Os budistas acreditam que, apagando-se os desejos, entregando-se ao que há de divino dentro do homem, chega-se ao nirvana, morada imaterial dos deuses. 
Já o Eclesiastes afirma que “O dia da morte é melhor do que o dia do nascimento”, por considerar que o fim do corpo esgota o ciclo dos desejos, razão direta do sofrimento. Iniciar-se-ia, assim, um descanso sem sexo, que é transitório, sem poder, que é desgastante, e sem glória, que só a Deus pertence.
Vittorio Medioli

1 de mar. de 2013

Diferenças entre a Psicanálise e o trabalho de terapia sexual


Texto inspirado no filme,  As sessões, de Ben Lewin

O filme conta a história de Mark O’Brien, escritor e poeta que, ainda criança, contraiu poliomielite. Devido à doença perdeu os movimentos do corpo, somente mexe a cabeça, vive preso a um pulmão de ferro. Aos 38 anos, depois de muita angústia e medo assume perder a virgindade, pois deseja amar e ser correpondido. Católico praticante busca a absolvição de um padre, amigo e confessor, que o orienta a pedir ajuda especializada. Ele é atendido por uma psicóloga que sugere o trabalho de uma terapeuta sexual. A terapeuta enfrenta o enorme desafio de iniciar sexualmente um homem imóvel, que tem as sensações preservadas, mas que não as controla. Os encontros despertam emoções tremendas na dupla e na platéia. A mistura de bom humor, sinceridade, ternura e fragilidade do personagem é arrebatadora – impossível não amá-lo.

Algumas palavras:  
A Psicanálise despertou o mundo para a compreensão e estudo da sexualidade humana, levantou o tabu milenar que encobria as manifestações da sexualidade infantil e adulta. Freud nos mostrou haver uma correlação entre as neuroses e a repressão da sexualidade. Depois, o mundo mudou, veio a revolução sexual, a pílula e até as aulas de orientação sexual nas escolas.

O método psicanalítico trabalha com o nível simbólico do psiquismo, por meio de toques emocionais dedilha a alma do paciente – seu campo reside no universo das representações. O psicanalista “empresta” seu mundo interior para o paciente. A matéria prima do nosso trabalho é constituída por emoções, experiências, vivências e palavras. Extraímos de nós o material que é estimulado pela demanda do paciente, o elaboramos e o colocamos à disposição dos analisandos – promove-se uma vivência emocional bastante íntima e peculiar – assim são os encontros analíticos, difíceis de descrever.

Os trabalhos terapêuticos que se dirigem diretamente ao corpo são herdeiros das ideias dos primeiros psicanalistas, que seguiram linhas de investigação diferentes das de Freud. O trabalho de terapia sexual não utiliza a metodologia psicanalítica, trabalha em nível mais concreto, cognitivo e, muitas vezes, até de treinamento. É a experiência sexual que está em jogo. O terapeuta sexual empresta seu corpo, sua liberdade e conhecimento dos estranhos caminhos da sexualidade, o estimulo é direto.

As questões éticas implicadas nesse tipo de trabalho demandam Filosofia. Até que ponto podemos e devemos estar dessa forma com os pacientes é uma pergunta importante. Não tenho resposta. A Psicanalise não se pretende dona da verdade nem pretende ser uma ideologia da moda. 

Nossos pacientes são livres, essa é uma posição ética fundamental – não somos os responsáveis por eles, por suas vidas, descobertas e decisões. O analista acompanha o paciente/analisando, pode despertar emoções, lembranças e vivências – o trabalho analítico expõe o sofrimento – mas o analista não conduz o paciente a fazer o que ele analista acredita ser o correto. Essa é a área de responsabilidade do analisando, que pode fazer o que bem entender. 

Os psicanalistas fazem uma longa formação para se prepararem para o atendimento dos pacientes. Essa formação pretende dar a condição de renunciar ao poder que, eventualmente, o paciente venha atribuir ao analista, para que ele adquira poder e autonomia sobre sua própria vida. Lacan dizia que o analista ocupava um lugar de suposto saber, é isso, suposto, apenas suposto.
Outra pergunta que o filme coloca é se o paciente não alcançaria essa possibilidade sexual com uma parceira de vida. 

Os homens, em geral, sentem muito medo de falhar e vergonha da inexperiência, mesmo os que não se encontram imobilizados, paraplégicos ou tetraplégicos. A fragilidade e o medo podem levar à escolha de um especialista, o terapeuta sexual  ou de um profissional do sexo (é o que mais ocorre em nossa cultura) que auxilie na diminuição do temor até que se sintam confiantes em controlar o processo e aprender (novos) rumos para a própria sexualidade.

Ao assistir o filme somos revisitados por angústias e preocupações referentes à sexualidade. O filme nos obriga a lembrar do próprio tormento em relação ao sexo. A solidão, o desejo de amar e ser amado e a dor do personagem principal se tornam universais.
Muitos pacientes com queixas na área da sexualidade se beneficiam da psicanálise, se libertam, pois a prisão se dá a nível psíquico e está relacionada a dificuldade em viver as próprias emoções. A sexualidade é uma emoção forte e prenhe de preconceito. O corpo e a sexualidade formam um campo a ser melhor investigado. O conhecimento que temos dessa área, por mais que tenha avançado, engatinha.
Luciana Saddi

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