19 de nov. de 2013

Na pele dos especialistas

A pele é um dos órgãos com que precisamos tomar mais cuidados. Além de ser nosso cartão de visita, ela fica diretamente exposta à radiação do sol, ao calor, ao vento. 

Por isso é tão grande a busca por tratamentos estéticos e de rejuvenescimento para a pele – da cabeça aos pés. Clarear, eliminar sardas, diminuir rugas e marcas de expressão, esticar, levantar, esfoliar... 

O que diriam os especialistas em dermatologia sobre o que é essencial para cuidar da pele? 

E se a pele fosse a deles próprios? 

Escolhemos os dermatologistas mais queridinhos das estrelas para saber como eles cuidam de seu maior órgão – e que dicas oferecem aos leitores.


Otávio Macedo: "Não gaste dinheiro com cosméticos caros. Prefira fórmulas manipuladas na medida para você" Idade: 54 anos “bem vividos”
Usa somente produtos manipulados e diz que tem um truque especial para manter a pele bonita: bom humor. Além disso, pratica atividade física cinco vezes por semana (pilates, musculação com personal trainer e caminhadas) e segue uma alimentação balanceada supervisionada por nutricionista. 
Entre os seus clientes, estão Marília Gabriela, a atriz Gabriela Duarte, as apresentadoras Claudete Troiano e Renata Fan e os empresários Márcio e Fanny Goldfarb.

Cuidados diários: “Faço higiene facial com espuma de limpeza à base de chá-verde – um potente anti-oxidante –, de manhã e à noite. Também pela manhã, após fazer a barba, passo um serum lifting matificante [produto que reduz o brilho provocado pela oleosidade da pele] com fatores de crescimento, vitaminas C e E, nanosferas de retinol e fator de proteção solar 30. À noite, alterno o uso de ácido retinóico, tazaroteno e adapaleno (todos da família dos retinóides) em gel especial matificante.” 

 O que já fez: Submete-se a tratamento com Thermacool a cada 6 meses, algumas sessões de Fraxel e botox (só entre as sobrancelhas) e Foto-modulação com leds (Gentle-waves), sempre. 
Dicas do especialista:
- Dois segredos que fazem toda diferença: filtro solar durante o dia e ácido retinóico à noite– a vida toda! 
- Atualmente, você só vai precisar de cirurgia plástica muito mais tarde, uma vez que os novos tratamentos cosmiátricos minimamente invasivos nos deixam com aparência mais jovem por mais tempo; 
- Não gaste seu dinheiro com cosméticos caros. Fórmulas manipuladas por seu dermatologista são exclusivas para você. Invista em tratamentos com laser fracionado, rádio-freqüência e leds.

Ligia Kogos: "Quem cuida da pele constantemente tem mais benefícios do que quem resolve fazer todos os tratamentos de uma hora para a outra"
Idade: Ligia é absolutamente contra dizer quantos anos tem. “Um dos primeiros passos para o rejuvenescimento é não revelar a idade”, justifica.
Ao contrário do que muitos especialistas indicam, a dermatologista lava o rosto com água quente pela manhã. Segundo ela, faz desinchar, facilita a penetração dos cremes e tira a palidez matinal. 

Ela também indica loções com álcool (hidroacoólicas), que limpam em profundidade e são boas para tirar tanto a poluição quanto a maquiagem. É dona de uma linha completa de cosméticos e de uma clínica procurada por estrelas como Hebe Camargo, Ana Hickman, Wanessa Camargo, Walter Feldman, o jogador Kaka, a rainha Sílva da Suécia e o empresário João Dória Júnior.
Cuidados diários: "Logo que acordo, já lavo o rosto com água quente e sabonete líquido. Passo loção adstringente com ácido salicílico e hidratante com FPS 12, mais hormônio estradiol e liftline, que promove o 'efeito Cinderela'. 

Esse efeito dá um ar de descansado mesmo que se tenha dormido pouco. Passo maquiagem logo de manhã e permaneço com ela até o fim do dia. Antes de dormir, tiro com óleo demaquilante formulado, lavo com sabonete líquido, passo adstringente e alterno dois tipos de serum: um feito de vitamina C e hidroxyprolisilane e outro com ácido glicólico e estradiol. Uma vez por mês eu passo ácido retinóico."

O que já fez: Aplicação de toxina botulínica, preenchimento, preenchimento dos lábios, terapia fotodinâmica com ácido ALA, biofotomodulação, peeling de ácido retinóico, Quantum (laser), Accent, depilação a laser e intradermoterapia

Dicas da especialista: - Para quem chega muito cansado em casa e tem pouco tempo pra descansar, ou compromisso em seguida, indico borrifar essência de eucalipto nas paredes do box do banheiro e tomar banho bem quente. Você tem uma sensação de sauna expressa e relaxamento, além de desentupir as vias aéreas; - Não importa a idade, é sempre bom usar alguma substância com pH ácido, além do hidratante. Procure produtos com vitamina C, ácido glicólico ou peça ao seu dermatologista uma receita de ácido retinóico, para passar uma noite por mês. Essas substâncias revitalizam e pele e a deixam mais viçosa; - O mais importante para se ter uma pele bonita é o cuidado simples e constante: passar diariamente hidratante com filtro solar e um produto com pH ácido. 

A pessoa que cuida constantemente tem mais benefícios do que aquela que, de uma hora para outra, resolve fazer uma série de tratamentos. É só perder três minutos pela manhã e três à noite.

Ana Lúcia Recio: "Bons hábitos refletem positivamente no futuro" Idade: 48 anos
Como Ana Lúcia é morena e não toma sol, se não passar maquiagem, fica com aspecto um pouco abatido. Por isso, usa filtro solar com cor, blush e batom cor de boca ou levemente colorido. É a queridinha das atrizes Xuxa Lopes e Bia Seidl.

Cuidados diários: “Lavo o rosto pela manhã com sabonete específico. Aplico vitamina C e filtro solar com cor. Lavo novamente à noite e alterno um creme rejuvenescedor com um hidratante com agentes clareadores e antioxidantes. Diariamente, tomo um complexo vitamínico.”

O que já fez: “Ainda não fiz nenhum tratamento ou cirurgia e não pretendo fazer. Não posso prever, mas cuido da pele para evitar uma cirurgia no futuro. Procuro fazer uma dieta balanceada e exercícios físicos seis vezes por semana. Acho que fiquei viciada no bem-estar que eles oferecem. Quero envelhecer de modo saudável e bons hábitos ao longo da vida refletem positivamente no futuro.”

Dicas da especialista: - Tenha uma rotina diária: limpe, hidrate e proteja-se do sol. Isso fará uma grande diferença para a saúde de sua pele ao longo dos anos.

Nicholas Perricone Idade: 59 anos
Famoso dermatologista americano, Perricone acredita que a alimentação é a melhor forma de proteger a pele e mantê-la saudável. 

Ele descobriu o DMAE (dimetilaminoetanol – que tonifica a pele e evita a flacidez) e é autor de quatro bestsellers: A Dieta Perricone, A Promessa Perricone, O Guia Perricone para Ter a Pele Mais Jovem e O Fim da Rugas. Estrelas de Hollywood como Cameron Diaz, Jennifer Lopez, Julia Roberts e Sharon Stone são alguns de seus clientes fidelíssimos.

Cuidados diários: “No meu dia-a-dia, preocupo-me em me alimentar bem desde a hora em que acordo, e mesmo quando como na rua, procuro seguir minha dieta balanceada. Uso cosméticos apropriados para o cuidado da pele e nunca saio de casa sem um filtro solar. Também faço exercício físico todos os dias e nunca durmo com a pele suja da poluição do dia-a-dia.”
O que já fez: Nenhum tratamento na área estética.

Dicas do especialista: - Sempre seguir a teoria dos três benefícios, que explico em meus livros: 
1. Ter uma dieta balanceada antiinflamatória; 
2. Consumir suplementos, pois, infelizmente nem tudo podemos tirar dos alimentos; 
3. Usar produtos cosméticos eficazes.- Quando for fazer o prato, escolha uma proteína e bons carboidratos (com baixo índice glicêmico), beba muita água, faça exercícios físicos (sem exagerar no esforço) e tenha muito cuidado com o sol, até em dias nublados; - Não se esqueça de dormir pelo menos 8 horas por noite. A sua pele é o reflexo do tipo de vida que você leva.

Adriana Vilarinho : "A cada 15 dias, esfolio o corpo todo com açúcar cristal e óleo de amêndoas" Idade: 39 anos
Nunca se submeteu a uma cirurgia, mas está sempre experimentando as novidades de sua clínica. Aliás, serve de cobaia para todas as novas tecnologias antes de oferecê-las aos clientes. Adriana confessa um segredinho bem caseiro: uma vez a cada 15 dias, esfolia o corpo todo com açúcar cristal e óleo de amêndoas. 
Beldades como Naomi Campbell, Adriane Galisteu, Daniella Cicarelli e as angels brasileiras da Victoria's Secret exibem os bons resultados dos tratamentos e cosméticos indicados pela especialista.

Cuidados diários: “Lavo o rosto de duas a três vezes ao dia. Sempre tonifico a pele, passo hidratante com filtro solar pela manhã, cosméticos especiais para o contorno dos olhos, cremes clareadores e nutritvos à noite e sempre faço laser Fraxel e Thermacool.”
O que já fez: Peelings, laser (Fraxel e Thermacool), preenchimento, drenagem uma ou duas vezes por semana, Velashape e depilação a laser.

Dicas da especialista: - Lave sempre o rosto pela manhã e à noite, além de usar bons produtos com filtro solar;- O Velashape, para celulite, dá ótimos resultados. A depilação a laser é sempre um ótimo investimento.

Denise Steiner Idade: 53 anos
Denise não tem nenhum truque, apenas leva um creme na bolsa e o passa antes da maquiagem.

Cuidados diários: “Faço ginástica às 6h15 da manhã. Quando acordo, lavo o rosto e passo um creme antioxidante (com vitaminas, coffeberry, entre outros) ou com ácido retinóico. Depois da malhação, tomo banho e retiro os mesmos. Passo, então, um filtro solar com hidratante e, à noite, uso alternadamente ácido, antioxidante e tensor.”

O que já fez: Aplicação de toxina botulínica, radiofreqüência e luz pulsada

Dicas da especialista: - Passar creme antes da maquiagem ajuda a manter a pele mais jovem, assim como usar diariamente o filtro solar.


Nuno Osório : "Uso hidrante com filtro solar durante o dia" Idade: 46 anos
Nuno é econômico no uso de cosméticos e outros produtos para a pele. Ele só usa o bom e velho filtro solar.

Cuidados diários: “Pela manhã, lavo o rosto e passo hidratante com filtro solar. À noite, uso hidratante sem filtro.”
O que já fez: Peelings e aplicações de toxina botulínica Dicas do especialista: - Beber com moderação, dormir adequadamente e evitar a exposição solar.

Glossário 
Accent: para celulite e gordura localizada. Um aparelho emite ondas de radiofreqüência que geram calor e quebram as células de gordura
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Botox: é uma das apresentações da toxina botulínica, que ocasiona a paralisação temporária dos músculos, maquiando rugas e marcas de expressão.

DMAE: sigla para Dimetilaminoetanol, que aumenta o tônus muscular e promove a firmeza da pele.

Fraxel: tratamento a laser para renovação superficial e profunda da pele, com a formação de uma nova camada de colágeno e cicatrização rápida.

Peeling: podem ser químicos ou físicos, com aplicação de substâncias para esfoliação ou de aparelhos de atrito, respectivamente. A finalidade é amenizar manchas, superfícies ásperas, rugas e cicatrizes superficiais.

Quantum: aparelho de luz pulsada que estimula a derme e aumenta a produção de colágeno. Também retira manchas e pequenos vasos sanguíneos.

Terapia Fotodinâmica: usado para o tratamento de tumores de pele, acne e rejuvenescimento. Há dois agentes – um creme fotossensibilizador e uma luz vermelha, específica para ativar o creme fotossensível que foi aplicado sobre a pele doente.

Thermacool: aparelho de radiofreqüência monopolar que reduz as marcas de envelhecimento.

VelaShape: massagem mecânica que reduz celulite, flacidez, gordura localizada e dá novos contornos ao corpo.
Laura Lopes - Época

17 de nov. de 2013

Joaquim Barbosa

Joaquim Barbosa foi caprichoso na execução das penas do mensalão. Poderia ter aguardado até segunda-feira para mandar prender os condenados. 

Preferiu apressar o passo. Levou trabalho para casa, lapidou os mandados de prisão até tarde da noite, e mandou recolher os presos em pleno feriado. 

Um feriado simbólico: 15 de novembro, Dia da Proclamação da República. Foi como se o ministro desejasse, por assim dizer, reproclamar a República.
Primeiro dos oito ministros indicados por Lula para o STF, Barbosa chegou ao tribunal graças à coloração de sua pele. Recém-empossado, em janeiro de 2003, Lula incumbiu o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos de encontrar um nome para o Supremo. Fez uma exigência: no melhor estilo 'nunca antes na história', queria nomear o primeiro ministro negro do STF.
Thomaz Bastos garimpou um negro de mostruário. Primogênito de oito filhos de um pedreiro com uma dona de casa da cidade mineira de Paracatu, Barbosa formara-se e pós-graduara-se na Universidade de Brasília. Passara pela Sorbonne, fora professor visitante de Columbia e lecionava na Universidade da Califórnia. De quebra, votara em Lula.
Indicado com “entusiasmo”, Barbosa tomou posse no STF em junho de 2003. Decorridos dez anos, frequenta o noticiário como uma espécie de coveiro do ex-PT. Lula procurava um negro. Achou um magistrado. Entre fazer média com o petismo e exercer o seu ofício, Barbosa optou pela lei.
No penúltimo lance do processo, Barbosa levou ao plenário a tese do fatiamento das penas. Fez isso para antecipar a execução dos pedaços das sentenças insuscetíveis de recurso. Prevaleceu no plenário. E impediu que o STF virasse Papai Noel dos condenados que questionaram parte dos veredictos por meio dos famosos embargos infringentes, ainda pendentes de apreciação.
Quarenta dias antes do Natal, em pleno Dia da Proclamação da República, Barbosa mandou para a cadeia uma dúzia de condenados graúdos –políticos, banqueiros, operadores de arcas eleitorais. Coisa nunca antes vista na história desse país, diria Lula se pudesse.
O PT critica as condenações. Dirceu e Genoino declaram-se presos políticos. Devem a perseguição a Lula e Dilma. Passaram pelo julgamento do mensalão, além de Barbosa, outros sete ministros indicados por Lula e quatro escolhidos por Dilma Rousseff.
Barbosa não foi a única autoridade brasiliense a celebrar o calendário. Dilma também anotou no Twitter: “Hoje comemoramos o 124º aniversário da Proclamação da República. A origem da palavra República nos ensina muito. A palavra República vem do latim e significa ‘coisa pública’.
 Ser a presidenta da República significa exatamente zelar e proteger a ‘coisa pública’, cuidar do bem comum, prevenir e combater a corrupção.”
Embora não tivesse a intenção, foi como se Dilma batesse palmas para o STF e para Barbosa, o magistrado que Lula imaginou que fosse apenas negro
Josias de Souza

Prisões

Quando os figurões do governo Nixon envolvidos no escândalo de Watergate começaram a ir para a cadeia, um cômico americano imaginou-os liderando um motim entre os presos, batendo nas mesas do refeitório com seus talheres e pedindo “Montrachet! Montrachet!” ou outro vinho da mesma estirpe para acompanhar a comida.


Se a prisão dos acusados do mensalão estiver mesmo inaugurando uma nova prática jurídica no país, o encarceramento de condenados sem distinção de nível social ou importância política, uma das consequências disso pode ser uma melhora dos serviços penitenciários para receber a nova clientela.

Prevejo duas coisas: uma que quando exumarem esse processo do mensalão daqui a alguns anos, como agora fazem com os restos mortais do Jango Goulart, descobrirão traços de veneno, injustiças e descalabros que hoje não dão na vista ou são ignorados. O que só desgravará alguns dos condenados quando não adiantar mais nada. Outra profecia é que, mesmo sem “Montrachet”, a comida das penitenciárias certamente melhorará.

Prisões mais humanas e democráticas serão um avanço, mas nossa meta deve ser o que acontece na Suécia, como li há dias. Lá vão fechar algumas penitenciárias por falta de detentos. Diminuiu a população carcerária na Suécia, abrindo imensos espaços ociosos até para — por que não? — importarem presos de países onde há superpopulação carcerária.

Não se imagina uma campanha de incentivo à criminalidade na Suécia para reabastecer suas penitenciárias igual a campanhas de incentivo à fertilidade que havia na França, onde as pessoas eram premiadas por ter filhos.

Na Itália havia, e acho que ainda há, uma crise educacional grave, não por falta de lugar nas escolas, mas por excesso de lugar: simplesmente não existiam crianças suficientes para encher as salas de aula e fazer o sistema funcionar normalmente.

A solução era animar a população: façam filhos, façam filhos! Ou, no caso da Suécia: roubem! Matem! Enganem o fisco! Temos uma cela quentinha para você!

Especula-se que os programas de reabilitação de presos nas cadeias sejam responsáveis pela diminuição da criminalidade na Suécia e que... Mas do que adianta sonhar com outra realidade quando a nossa, nesse assunto, ainda é medieval?
Mesmo que melhore a frequência nas nossas cadeias ainda estaremos longe do ideal. Ou, no mínimo, do escandinavo.
Luís Fernando Veríssimo

Um analista no divã

Stewart Forrest

Um analista trabalha com sua capacidade de fazer seu inconsciente vibrar. No fundo, ser analista é nunca ter deixado o divã. O divã permite ao analista livrar-se do olhar escrutador de seus analisantes. Pedir ao analisante que se deite é um gesto técnico essencial que suscita a fala íntima e favorece a escuta atenta.

O autor concebe a presença do analista como uma presença plena, ativa, inteiramente focada na presença do paciente.

O clínico deve ser um observador minucioso, atento não somente às falas e silêncios do analisante mas também às suas manifestações corporais. De fato, uma boa escuta começa com uma boa observação. Um psicanalista não escuta exclusivamente com seus ouvidos, sendo receptivo a todos os sinais pelos quais um ser comunica sua vida.

O paciente não demanda que nos apiedemos de sua sorte, mas que o ajudemos a compreender suas angústias e sobretudo a se livrar delas.

O trabalho do analista trata-se de sentir em si o que o outro esqueceu. O inconsciente do analista é seu mais precioso instrumento de trabalho.

Para um profissional, agir com seu inconsciente significa deixar ressoar em si as mais finas vibrações do inconsciente do analisante. “ Na mais viva acuidade da escuta, tenho a impressão de mergulhar sem respirar e conhecer a embriaguez das profundezas abissais”.

Freud escreveu que o psicanalista capta o inconsciente do analisante com seu próprio inconsciente. O analista se serve de seu inconsciente como um órgão receptor destinado a captar os sentimentos inconscientes do paciente. Esse engajamento de uma parte de si é a mais autêntica atitude de um clínico, que embora permanecendo ele mesmo, dispõe seu inconsciente como uma tela na qual se projetam situações do paciente.

Quando o analista utiliza seu inconsciente instrumental ele se dissocia entre aquele que controla a situação e aquele que simultaneamente mergulha em seu inconsciente. É um desdobramento: sentir-se totalmente lúcido e ao mesmo tempo operar um salto no inconsciente.

A singularidade do ser humano não está em que fale, pense e ria, mas em que seja impotente para dominar as forças às vezes benéficas, às vezes nocivas que agem nele. Essas forças que nos escapam e que ultrapassam o nosso querer e nosso saber conscientes levam o nome de inconsciente.
A tarefa da psicanálise é se ocupar do inconsciente quando ele nos faz sofrer, isto é, quando a defasagem entre o que somos e o que nos escapa nos torna infelizes.
J. D. Nasio
Adaptação Helena Maria Galvão Albino - Psicóloga Clínica

12 de nov. de 2013

Fora do jogo - Pier Paolo Pasolini


Pier Paolo Pasolini, intelectual italiano morto no dia 2 de novembro de 1975, supostamente assassinado por um jovem da periferia romana que poderia muito bem ser um de seus personagens, é mais conhecido entre nós por sua atividade cinematográfica, por vezes por sua obra literária e, mais raramente, por suas ideias. 

Autor de filmes e romances ainda hoje muito lidos, sua obra, desde sempre múltipla, perpassa o cinema e a teoria do cinema, a literatura e a crítica literária, a poesia, o teatro e a ensaística, alcançando a crítica moral e política. 

As atividades de Pasolini, no entanto, vão muito além do âmbito propriamente artístico, como facilmente poderíamos supor, porque ele foi talvez um dos intelectuais mais lúcidos e críticos de nosso tempo. Pasolini foi, acima de tudo, um homem inquieto e incômodo, podendo certamente ser alinhado àqueles que fizeram da crítica radical da cultura, para além dos meios expressivos de que se utilizaram, ponto de partida e ponto de chegada de um projeto intelectual em sentido pleno. No dia de seu enterro, o escritor Alberto Moravia, diante de amigos e fãs comovidos e chocados pela brutalidade, mas também pela covardia de seu assassinato, disse enfaticamente que naquele dia haviam matado um poeta. Mas poetas, como todos sabem, nascem poucos, no máximo um ou dois durante todo um século, continuou. 

Diríamos mais; diríamos que um grande intelectual foi morto naquele dia. Intelectual inquieto e incômodo. Mas a inquietação, marca inconfundível de sua vida pública e privada, nunca foi movida por problemas abstratos, tampouco se colocava publicamente por mero narcisismo, transformando sua vida em um espetáculo. Foi, desde sempre, pela realidade, ou melhor, pelo sentimento de inadequação que a realidade lhe impunha. Pasolini, como ninguém, transformou sua inadequação em argumento contra o fascismo que domina nossa cultura. Movido pelo que chamou de uma paixão desmesurada pela realidade, transformou-se, não por ingênua indignação, mas pelo mais forte sentimento patriótico e humano, num crítico mordaz da cultura italiana que, segundo ele, estava passando por um verdadeiro processo de decadência, uma trágica mutação. 

Culpa a ser expiada 
Mas é importante notar que o processo de decadência intuído e apregoado por Pasolini não era apenas uma suspeita, já estava plenamente instalado, não somente na cultura italiana, exemplo talvez mais próximo e mais esdrúxulo, mas em toda a cultura ocidental. Pasolini dizia que a vulgaridade da liberdade que nunca fora conquistada, mas concedida pela classe dominante, era o motivo pelo qual, tal como numa tragédia grega, carregávamos uma culpa que deveria ser de todo modo expiada. A decadência que Pasolini viu em nossa cultura era tão radical e violenta – mais radical e violenta que aquela, por exemplo, efetuada pelo fascismo e pelo nazismo –, que ele acreditava talvez já ser muito tarde para que algo ainda pudesse ser feito, para que pudéssemos ansiar por algum tipo de salvação. A decadência de nosso tempo é mais absoluta, diria Pasolini, porque ela não é mais imposta, mas alegremente aceita por cada um de nós. O esquema pelo qual Pasolini explica a realidade é claramente teológico. 

Os homens, iludidos por aquele que se põe no lugar de Deus, o dinheiro, vivem e não percebem, como que encantados, aquele que se apossou não somente de seus corpos, mas também de suas almas. Pasolini agitava-se, ainda que no deserto, contra a nova idolatria que se instaurava. Coragem era a virtude desse italiano que, por amar o seu tempo, tornou-se justamente inimigo dele e, como um mártir, foi morto por tudo aquilo que disse e que ainda poderia dizer. A linguagem tornou-se então a mais importante questão de sua trajetória. A impossibilidade de se comunicar com seu tempo, apesar de toda sua lucidez, fez com que ele encontrasse outra forma de estabelecer relação com o mundo. Pasolini mergulhou então numa dimensão mítica, religiosa, sacra, para poder escapar desse monstro que tudo quer possuir. 

A paixão desmesurada pela realidade foi sua religião. “Tudo é sagrado, tudo é sagrado, tudo é sagrado e a natureza não é natural.” Assim, já de início, ouvimos na voz do Centauro, no filme Medeia, o problema que de algum modo Pasolini desenvolveria em toda a sua obra, especialmente aquela da maturidade: a época trágica em que vivemos. Medeia, assim como Salò, pontos altos de sua obra, foram pessimamente recebidos na época de sua exibição. A crítica mais engajada disse do primeiro que era arcaísta, evasivo e espetacular; do segundo, como se pode imaginar, disse ser perverso. Mas, para além do fato de Pasolini ter sido sempre mal compreendido, a crítica naquele momento não levou em conta o que ele sempre deixou muito claro e que explicita justamente a lucidez de seu projeto, contra toda evasão e contra toda perversão. 

Tanto a Grécia quanto a República de Salò, lugares nos quais o autor ambienta seus filmes, não servem à história por um desejo de evasão do tempo presente, como quis a crítica, mas apresentam uma tentativa de representação das questões mais candentes de seu tempo. Representar o tempo para melhor apresentá-lo. Num, o conflito entre dois modelos culturais, um burguês e racional, encarnado por Jasão, e outro antiburguês e irracional, encarnado por Medeia. Noutro, a radicalização desse processo em que não há mais oposições, ao representar um mundo no qual as forças, inclusive toda forma de resistência, já foram subjugadas. Descrença na razão, na gramática e na história São essas as premissas da explicação que Pasolini dá ao momento presente italiano. Num e noutro ficou pra trás o que restava ainda de uma vida sadia, e assistimos ao prelúdio da tragédia que se tornou a vida. O itinerário de Pasolini, desde sua obra poética em dialeto friulano, é um itinerário de descrença na razão, na gramática e na história, apostando no irracional, pré-gramatical e pré-histórico. 

É um adensamento da crítica à cultura ocidental, apresentando um contínuo afastamento da linguagem e uma gradativa aproximação da sacralidade da comunicação arcaica. Curioso, por causa de sua origem literária, o cinema de Pasolini é absolutamente antiliteral, não verbal, notadamente em Medeia, uma das mais belas vozes dos anos 1950, quase muda, de uma mudez em tudo eloquente. Em Salò, mais radical, toda linguagem é normativa, serve apenas para antecipar aquilo a que os prisioneiros devem se submeter. Sabemos que Pasolini se encantou pelo cinema justamente por seu caráter pré-gramatical, por sua capacidade de produzir uma comunicação primitiva, violenta, bárbara. 

As formulações mais consistentes de Pasolini acerca do específico cinematográfico encontram-se num livro de ensaios teóricos, Empirismo Herético. Escrito na mesma época em que Christian Metz iniciava suas pesquisas teóricas em semiologia do cinema, dizendo que o cinema seria uma linguagem sem língua, Pasolini irá mais adiante, postulando (e provocando um debate acirrado) que a língua do cinema, ou seja, o código utilizado pelo cinema para comunicar-se, era a própria realidade. A proposta de Pasolini era, portanto, uma radicalização da utopia neorrealista de narração da realidade por um processo basicamente privado de mediação. 

No cinema, para dizer de uma vez, o espectador decodifica as imagens fílmicas com os mesmos parâmetros com os quais decodifica a realidade. Barbarizar é pensar contra a racionalidade burguesa Pasolini, em sua obra e em sua vida, é marcado por esse desejo primitivo, alucinado, violento e pragmático pela realidade. E é nesse amor tornado encontro com a realidade que ele descobre a alienação do mundo. A realidade, ao contrário do que prega nossa cultura racional, é sacra, misteriosa e ambígua; de modo algum é natural. A alienação começa justamente quando se começa a ver a realidade como algo natural. O cinema, de certo modo, se desapega da tentativa de mediar abstratamente a realidade, reintroduz o homem numa dimensão sacra, misteriosa e bárbara do mundo. Assim, para falar brevemente, Pasolini não é um decadente. 

O barbarismo pasoliniano é uma atitude genuinamente filosófica. Barbarizar é pensar contra a racionalidade da sociedade burguesa. O cinema é uma arma não em favor da cultura, mas contra ela. Pode soar estranha aos nossos ouvidos a conclusão tirada por esse grande intelectual: temos pouco a fazer, a não ser nos revoltar, e isso é tudo. É isso que intuímos, afinal, quando acompanhamos o desespero de Medeia, que se mata e mata os próprios filhos por sentir na pele sua incompatibilidade com o mundo estabelecido; ou ainda quando vemos o soldadinho fascista de Salò, que, ao tentar resistir, amando justamente uma vítima como ele, uma garota negra, é surpreendido pelos superiores e levanta o braço esquerdo, mesmo sabendo que vai morrer. 

Mas isso nós apenas podemos compreender se antes entendermos que, distante do projeto revolucionário daquele que foi o “pai” ou humilde irmão da Itália (como diz no poema Cinzas de Gramsci), restou-lhe somente a revolta, como um herói trágico justamente, que mesmo sabendo o destino reservado, demonstra sua altivez na luta contra o que lhe é imposto. Por isso, mesmo descrente da adesão que poderiam surtir suas palavras, não deixava de gritar em praça pública. Esse Cristo danado, herético e banido, quase religioso em sua irracionalidade, teria mesmo de morrer. A vida e a morte de Pasolini foram insistentemente marcadas pelo compromisso incondicional com uma verdade que ninguém queria escutar. O compromisso de Pasolini, mortas por sufocamento as esperanças revolucionárias, passou a ser esse amor sem crenças, desesperado e trágico, pela realidade. 

O tempo de Brecht e Rossellini, quando ainda era possível aprender e ensinar, acabou, dizia o Corvo em Gaviões e Passarinhos, mas de algum modo Pasolini cumpriu seu papel, porque seu desespero, profético em seu tempo, encontra hoje na sociedade de consumo a mais justa adequação. 

Ou não é verdade que nossas vidas estão completamente subjugadas pelo mais poderoso dos poderes e seus ritos de morte? 

Ou não é verdade que nossa vida não é mais vida? 

Hoje, por isso mesmo, mais do que nunca, talvez seja o momento de voltar ao seu pensamento, não por mera erudição, atitude que certamente pareceria detestável aos olhos do “poeta das cinzas” (já que se trataria de uma atitude tipicamente burguesa; filisteia, para falar com sotaque nietzschiano), mas para pelo menos compreender, quiçá melhor, o mal que nos aflige. 

“Ah! Bárbaros, meus amigos 
Nenhum homem de igreja jamais destruiu uma igreja 
A luta foi sempre entre a velha e a nova ortodoxia 
É isso que me desespera e me deixa fora do jogo.” 
Alex Calheiros

9 de nov. de 2013

Orgulho

Painting by Xi Pan
O orgulho é um sentimento muito destrutivo. É um sentimento de satisfação por uma imagem de grandeza pessoal, de superioridade. 

 O orgulho em excesso pode se transformar em vaidade, ostentação, sendo visto apenas então como uma emoção negativa, a arrogância. Ele se diferencia do orgulho que a pessoa sente de sua própria dignidade. O orgulho também é contaminado pelo preconceito, julgamentos, críticas. O orgulhoso sempre tem razão e o outro não importa para ele, a não ser se for outro orgulhoso com mais poder. 

 A vaidade e o orgulho andam juntos e se completam, é o casamento perfeito e não há risco de separação, pois eles se fortalecem. Quem por acaso contrariar um orgulhoso jamais terá seu perdão. O orgulho é inimigo do perdão e irmão da vaidade e passa longe da humildade, que une os homens, enquanto o orgulho os separa. E, para completar, o orgulho é o primo pobre da inferioridade. 

"O orgulho dos pequenos consiste em falar sempre de si próprios; o dos grandes, em nunca falar de si." (Voltaire). Mas ainda pode piorar. É quando temos aquele orgulho que não se aceita e usa atitudes de superioridade para mostrar um valor que está longe de ter. Portanto, para reconhecermos um orgulhoso, basta observar como ele trata um garçom, o seu subordinado. Ver como ele lida com as perdas, insucessos, inveja (a do orgulhoso me parece maior), com a dor do outro, com o sagrado de quem convive com ele, com os animais. 

A rigidez é outra face do orgulhoso, ele precisa dela para manter seu poder, e essa necessidade de ter poder o faz perder. Não é por acaso que para a Igreja católica o orgulho é um dos sete pecados capitais. E não foi por acaso que Socrátes foi tão perseguido. O resultado de quem entrava em contato com o filosofo é que o indivíduo sentia uma verdadeira sensação de iluminação, de descoberta, de ter dado à luz algo valioso que havia dentro de si mas de que não tinha a mínima consciência. Foi assim que Sócrates conquistou fervorosos discípulos. Mas, se a pessoa entregava-se ao orgulho ferido, tornava-se um inimigo feroz. E esta foi a razão que lhe custou a vida. Acredito que depois desta reflexão você já sabe minha resposta.
Antônio Roberto

8 de nov. de 2013

Cerveja sem álcool e o bafômetro

Azeites: de oliva só no rótulo

A Proteste - Associação de Consumidores testou 19 marcas de azeite extravirgem e constatou que quatro (Figueira da Foz, Tradição, Quinta d’Aldeia e Vila Real) não podem nem ser consideradas azeites, e sim uma mistura de óleos refinados. 

Menos da metade dos produtos avaliados, apenas oito, apresentam qualidade de extravirgem. São eles: Olivas do Sul, Carrefour, Cardeal, Cocinero, Andorinha, La Violetera, Vila Flor, Qualitá

Os outros sete (Borges, Carbonell, Beirão, Gallo, La Espanhola, Pramesa e Serrata) são apenas virgens. Dos quatro testes que a entidade já realizou com esse produto, este foi o com o maior número de fraudes contra o consumidor.

As propriedades antioxidantes do azeite de oliva são o principal atrativo do produto, devido ao efeito benéfico à saúde. Mas para que o azeite mantenha suas características, é importante que ele não seja misturado a outras substâncias. Os quatro produtos desclassificados pela entidade são, na verdade, uma mistura de óleos refinados, com adição de outros óleos e gorduras. 

Em diversos parâmetros de análise, essas marcas apresentaram valores que não estão de acordo com a legislação vigente. Os testes realizados indicaram que os produtos não só apresentam falta de qualidade, como também apontaram a adição de óleos de sementes de oleaginosas, o que caracteriza a fraude.

Outros sete não chegam a cometer fraude como esses, mas também não podem ser vendidos como extravirgens. A entidade ressalta que o consumidor paga mais caro, acreditando estar comprando o melhor tipo de azeite e leva para casa um produto de qualidade inferior.

É considerado fraude o produto vendido fora das especificações estabelecidas por lei. Para as análises, foram considerados parâmetros físico-químicos para detectar possíveis adulterações: espectrofotometria (presença de óleos refinados); quantidade de ceras, estigmastadieno, eritrodiol e uvaol (adição de óleos obtidos por extração com solventes); composição em ácidos graxos e esteróis (adição e identificação de outros óleos e gorduras); isômeros transoleicos, translinoleicos, translinolênicos e ECN42 (adição de outras gorduras vegetais).

A entidade vai notificar o Ministério Público, a Anvisa e o Ministério da Agricultura, exigindo fiscalização mais eficiente. Nos três testes anteriores foram detectados problemas. Em 2002, foram avaliados os virgens tradicionais e foi encontrada fraude. Em 2007, a situação se repetiu com os extravirgens. Em 2009, uma marca que dizia ser extravirgem não correspondia à classificação. Para a Proteste, isso demonstra que os fabricantes ainda não são alvos da fiscalização necessária.

A reportagem procurou os quatro representantes dos óleos desclassificados. A importadora da marca Quinta D´Aldeia, a Sales, informou que foi notificada pela Proteste no último dia 4 e está buscando esclarecer "estas divergências" junto à entidade. A empresa também garantiu que o lote 80, utilizado pela Proteste para os testes, "encontra-se em consonância com a legislação, conforme laudo elaborado a pedido da empresa, razão pela qual se faz necessário analisar o suposto laudo na qual a reportagem se baseia". Disse, ainda, que está à disposição para realizar contraprova para comprovar o resultado do teste da entidade.

A Angel, importadora da Vila Real, e a importadora da Figueira da Foz ainda não retornaram o contato da reportagem. A outra marca não teve representante localizado pela reportagem.
O Globo

Com pulsão e distúrbios alimentares

Para a Psicanálise, este comportamento é uma articulação da mente que não está suficientemente preparada para enfrentar o real e desenvolve recursos de fuga

O título, assim, com essa dupla conotação, é muito atraente para uma discussão que leva em conta essa ambiguidade. 

Podemos entender com pulsão como: com vida (com pulsão) com energia e, concomitantemente, entender o oposto, (outro lado,) isto é: sem vida, sem energia. 

Dependendo da intensidade, a pulsão pode virar compulsão, algo como excesso de pulsão, a ponto de provocar uma quebra no sistema regula- dor dos afetos. Com esta observação, podemos considerar que pulsão e compulsão são elementos da mente e ocorrem em diferentes intensidades e momentos da vida. Alguns perdem o equilíbrio emocional de forma muito grave, no entanto, não é o que acontece com a maioria, em que os danos não são excessivos. 

Todos temos condutas restritivas, fazemos dietas, exercícios, ou bebemos em festas, mas a compulsão é diferente, ela é o excesso de um determinado comportamento que está associado à descarga de tensão, de dor, de compulsão. Como a dor psíquica não pode ser experimentada, ela é canalizada para a ação motora: a compulsão. Significa um agir angustiado, repetitivo, intenso, e que resulta na anestesiação da dor, transformando-a em dor corporal. O que é psíquico é vivido no corpo, como físico. Na verdade, o corpo vem em socorro da mente, entra em cena para protegê-la de uma dor psí- quica insuportável. 

Nem sempre temos uma mente sufi cientemen- te forte para suportar uma dor, um sofrimento, ou porque a mente encontra-se frágil, com estafa, ou porque a dor é grande demais, um trauma. Desse ponto de vista já deu para perceber que a Psicanálise não visa à supressão, repressão do com- portamento compulsivo. Seu objetivo é o fortaleci- mento da mente para que esta esteja apta a supor- tar maior intensidade de sofrimento sem precisar recorrer a esse tipo de defesa compulsiva. 

Sabemos que a mente é o resultado da intera- ção de recursos internos que são desenvolvidos em decorrência de solicitações internas ou externas. Isso nos remete à ideia de que os distúrbios psí- quicos são recursos mentais altamente sofi sticados e desenvolvidos pela mente como meio de lidar com as exigências do real. Neste sentido, toda a humanidade lança mão desse recurso; o que varia é o grau de intensidade dos estímulos externos e a capacidade psicológica de desenvolver meios, mais ou menos adequados para lidar com tais exigências, e que variem em diferentes momentos da vida. Todos nos utilizamos de mecanismos menos eficientes, no sentido de crescimento e desenvolvimento, em certas situações da vida; são os nossos pontos cegos. 

"Diante de uma frustração, o aparelho mental não consegue elaborar uma dor menor" O que ocorre no atendimento psicanalítico é que, no processo de investigação da mente, as funções psíquicas vão se desenvolvendo e, consequentemente, tornam-se mais eficazes para lidar com suas dificuldades. 

Teoria Freudiana 
Freud fornece esclarecedora informação sobre qual é a área que deve ser abordada pela Psicanálise: uma vez esclarecidos os alicerces da teoria freudiana, no caso das compulsões fica mais claro pensar o que ocorre nos distúrbios alimentares em relação à formação da mente. Os processos psíquicos nessa específica área da mente relacionada ao distúrbio alimentar - algo como um cisto, já que as outras áreas estão preservadas - são muito primitivos em relação ao desenvolvimento global da mente, no sentido de que os recursos para lidar com o real são escassos e pouco elaborados. 

Nessa instância, a organização mental se articula por meio de princípios rígidos, leis autoritárias, regras definitivas e fixas. Nessa área a mente funciona de acordo com o princípio do prazer, isto é, evitando desprazer a todo custo. Podemos nos perguntar: o que provoca tanto desprazer nos distúrbios alimentares que faz a pessoa regredir a momentos tão primitivos do desenvolvimento psíquico? De acordo com a teoria freudiana, observa-se que recursos mais evoluídos da mente estão impossibilitados, neste caso, de seguir seu curso natural. Diante de uma frustração, a dor é tão forte que o aparelho mental não consegue elaborar uma alucinação do prazer que vise a elaboração da dor. Esta condição é necessária para a percepção de emoções e de imagens as quais, armazenadas na memória, resultam em formulações disponíveis para a formação de pensamentos, o que implica na possibilidade de lidar com o real de modo a produzir respostas mais eficientes.

O que ocorre, ao contrário, é uma tentativa última de evitar o aniquilamento psíquico diante da dor. A pessoa desenvolve uma série de recursos intrinsecamente relacionados, que lhe garante não o conforto, mas a sobrevivência. Não uma boa solução, mas a acomodação possível. Sabemos que, nos casos graves, a fragilidade da mente é tal que o simples existir é motivo de sofrimento, de desprazer. A frase de Guimarães Rosa em Grandes sertões: veredas: "viver é perigoso", nesta situação, é levada às últimas consequências. As complexas nuances da existência, sutis e microscópicas, que ocorrem quase despercebidamente para a maioria das pessoas, são experimentadas, nesses distúrbios, como a grande dificuldade. E a solução mágica e hipomaníaca encontrada é anestesiar-se na conduta compulsiva ou na desafetação. 

Em Trânsito 
Há fases em que o distúrbio, geralmente enquistado, parece romper a membrana do cisto e tomar a pessoa inteira; a matéria do cisto impregna- a totalmente. Neste caso, é como se não houvesse um ego capaz de fazer filtragem dos estímulos da vida, um ego que deseje, que selecione. E a consequência é a compulsão, para o comer, por exemplo, em que a pessoa come indiscriminadamente. Parece que só existe aparelho digestório. Melhor dizendo, só existe comida que entra e sai, sem ser digerida e transformada em alimento. O que conta é o tubo digestório e, mesmo assim, na sua função mais simples que é a de dar passagem. O alimento, tanto real quanto psíquico, está sempre em trânsito. Nada fica. Nada é retido. Nada é selecionado. Não há o que memorizar. Não há sofrimento e dor; ficam eliminados porque não existem. 

As relações de conflito do cotidiano, então, são vividas não com o outro, com o meio social, mas com o próprio corpo, com seu organismo, na sua fisicalidade. A competição é vivida entre a pessoa e seu estômago, suas vísceras e sua necessidade de alimento. Nesta área, a pessoa sempre ganha a competição, porque é autoridade absoluta. Como o afeto é basicamente persecutório, o tratamento que vai dar a seu corpo em suas relações afetivas será da ordem da violência. Em relação ao seu corpo, tenta superá-lo, dominá-lo, subjugá-lo à sua vontade autoritária, isto é, à satisfação básica de realizar-se para si própria. Se os afetos persecutórios não forem realizados na fisicalidade do seu organismo, o que acontecerá com sua mente? Se ela está esvaziada da estimulação externa e da vida interior de ser, se não é capaz de habitar mentalmente o próprio corpo, e se só lhe resta um mínimo de vida mental que é o viver na relação física e concreta com o corpo, nós podemos tirar essa sua única chance e possibilidade de ser? 

Não temos antes de possibilitar o desenvolvimento da interioridade, do ser psíquico, do estar no mundo? 
Em decorrência, esse tipo de recurso não se faria menos necessário? 

Para que se possa dar conta da violência do cotidiano, não é necessário um ego integrado, estruturado? E não dizemos que o ego se estrutura na relação com o outro? A questão é que esse outro, gerador de ego, precisa, por sua vez, estar estruturado. No caso das anoréxicas, geralmente o afeto é vivido na mãe, e não é percebido como sendo dela própria, mas como sendo da mãe. 

Contrariamente, também pode ocorrer que a mãe viva o afeto na filha, que é vista como sendo parte da própria mãe, ou uma parte importante de si e não como uma filha, um outro com existência própria. Neste caso, ocorre uma invasão total da interioridade da filha. Observa-se que a vida de relação segue o modelo simbiótico entre mãe e filha, com uma despersonalização de ambas, que tentam preencher um vazio com elementos concretos e não com interioridade. 

Cabe à Psicanálise desenvolver interioridade ali, onde só há concretude. Colaborar para o desenvolvimento de elementos psíquicos que se estruturem em forma de uma mente mais organizada, mais potente, com capacidade de sonhar, de encontrar soluções mais sofisticadas mentalmente para as dificuldades próprias da vida. 
Cássia A. Barreto Bruno - psicanalista

7 de nov. de 2013

Sou teu fígado !


Olá ! Sou teu fígado ! Permite que eu me apresente! Como podes gostar e cuidar de mim, se não me conheces? 

Sou o maior órgão do teu corpo e estou localizado no lado superior direito do abdômen , protegido pelas costelas (gradio costal). Sou responsável por aproximadamente 5.000 (cinco mil) funções vitais,produzindo a grande maioria das substâncias essenciais para manter funcionando o resto do teu organismo. 

Sou um grande laboratório! Produzo a bile que é levada ao intestino delgado para se juntar ao processo de digestão. Eu mantenho as reservas de ferro que tu necessitas, bem como as vitaminas e outros minerais. Também produzo hormônios, proteínas e enzimas que mantêm teu corpo funcionando normalmente. Tenho participação na produção de substâncias que ajudam o sangue a coagular e um papel importante na decomposição do colesterol e de medicamentos. Sem mim não terias forças para levar tua vida adiante! Eu armazeno todas as toxinas, venenos, álcool, substâncias químicas e drogas que entram em teu corpo. Minha função é quebrar quimicamente estes venenos, de modo que possam ser mais facilmente eliminadas pelos rins e pela pele. 

Sou um depósito de toxinas. Elas permanecem em mim por bastante tempo até serem processadas. Se a carga se torna excessiva, fico impedido de trabalhar adequadamente e o processo digestivo se torna difícil. Eu reservo energia, como uma bateria, armazenando açúcar (carboidratos e gorduras) até que dele necessites. Sou eu quem alimenta o teu cérebro de energia e o faz funcionar. Sem mim, entrarias em estado de coma! Na verdade, nem poderias te levantar da cama se eu não estivesse trabalhando! É importante que gostes de mim! Mas não te peço muito...Basta que me trates bem! Não me entupas de álcool - cerveja, uísque ou cachaça! Se bebes com frequência , podes me lesionar para o resto das nossas vidas! E eu me lesiono facilmente... Estas lesões chamadas "cirrose“, são permanentes. 

Toma cuidado com o hábito da auto-medicação! Os medicamentos são importantes, mas ao tomares remédios sem necessidade, podes me sobrecarregar e intoxicar! Todos os medicamentos são produtos químicos e quando tu os combina sem a aprovação de um médico, podes criar algo venenoso e prejudicar-me seriamente. E saibas, eu não me queixo. Se me maltratas, não poderei avisar-te que estou em perigo! Outra coisa importante - cuida da tua alimentação! Não abuses dos alimentos gordurosos! Eles podem me deixar coberto de gordura e se isso acontecer, desequilibrarei vários sistemas do teu corpo! Alimenta-te com uma dieta balanceada. Sou vulnerável aos diversos vírus da hepatite, os quais vivem no sangue, na saliva, nas fezes e no sêmem humano.

Quase sempre sou capaz de destruir esses vírus, mas às vezes eles são mais fortes que eu e me infectam, causando-me muito dano. Os vírus da hepatite C, são transmitidos pela transfusão de sangue e hemodiálise, pelo uso de drogas intravenosas, material cortante ou perfurante de uso coletivo, sem esterilização adequada: procedimentos médicos/odontológicos, tatuagens, piercing, manicure, etc. Já o vírus da hepatite A, é transmitido através da água e dos alimentos, enquanto o da hepatite B, através dos contatos íntimos, da mãe infectada para o recém nascido e pelo uso do sangue infectado. Então observa a procedência do sangue que acaso precises receber, dos alimentos e da água que ingeres e toma cuidado com a higiene ao toalete. Usa preservativos com novos parceiros, exige que os instrumentos que perfurem tua pele ou boca sejam esterelizados. 

Segundo a Tradicional Medicina Chinesa, sou um órgão regido pela energia da madeira. Por isso, como uma planta, se me tiras um pedaço, sou capaz de me regenerar e crescer novamente. Sou eu quem controla teu sistema nervoso e exerço uma atividade importante sobre teus pensamentos. Quando estou desequilibrado, não consegues te concentrar e nem ter clareza mental. Também te enervas facilmente, ficas instigado às brigas, predisposto à dores de cabeça, na nuca e região lombar... Ainda segundo a milenar Medicina Chinesa,sou a morada das HUN, seres espirituais que zelam por tua saúde. E elas não gostam, absolutamente, da raiva e suas toxinas venenosas! Quando te tornas irado, sou agredido pelas toxinas do estresse. Se isso ocorre com frequência, as HUN me abandonam e fogem do teu corpo... Então, torno-me endurecido e o teu humor cada vez pior. Na antiguidade, Hipócrates classificou os principais temperamentos humanos de acordo com os humores predominantes. Ele denominou temperamento bilioso - que significa cheio de bilis e de raiva, irritável - aquele dominado por minha atuação negativa ... As toxinas da raiva são um veneno que não consigo metabolizar...E elas podem me destruir, tornando-me um sério candidato ao câncer... Além disso, quando envenenado pela raiva, afetarei o teu coração, que tornar-se-á impaciente e rancoroso, incapaz de sentir amor, alegria e respeito. E isso, facilmente, pode destruir teus relacionamentos... 

 A única forma de convencer as HUN a voltarem ao teu corpo, é praticares atos de bondade para contigo mesmo e para com os outros. Quando transformares tuas atitudes raivosas em tolerância,conciliação e solicitude, elas ficarão ao teu lado, trazendo-te saúde e sorte! Entendes agora que precisas buscar a Sabedoria do Viver, para poderes enfrentar os desafios do dia a dia, com inteligência, calma e serenidade? Compreendes a importância de te apaziguares com todas as circunstâncias da tua vida e todos os seres à tua volta? Como vês, tua vida, saúde e felicidade, dependem de que cuides muito bem de mim e de ti! Evita o estresse. Correr contra o relógio é hábito perigoso. Cultiva o bom humor. Pra que levar a vida tão a sério? Procura sorrir e brincar. Permita-te o lazer e o prazer. Descontração e diversão são essenciais para manter-me desopilado ! Busca o teu bem-estar através do contato com a natureza, da prática de exercícios físicos, do relaxamento e principalmente, da meditação, que te conecta com a Fonte da Vida! Que as HUN te dêem uma saúde vibrante e muita sorte ! Teu silencioso companheiro, O fígado 
Texto adaptado do livro CHI NEI TSANG, A Massagem dos órgãos internos, de Mantak Chia por Olga Mendonça

6 de nov. de 2013

O impulso de falar justamente o que não devemos

As visões parecem subir do sistema de esgoto cerebral nas piores horas possíveis - durante uma entrevista de emprego, uma reunião com o chefe, um apreensivo primeiro encontro, um importante jantar. 

E se eu começasse uma guerra de comida com esses canapés? 

Zombasse da gagueira do anfitrião? 

Quebrasse o gelo com um comentário racial? 

"Esse único pensamento é suficiente", escreveu Edgar Allan Poe em "O Demônio do Perverso", um ensaio sobre impulsos indesejados. "O impulso se desenvolve numa vontade, a vontade num desejo, o desejo numa compulsão incontrolável". Ele acrescenta, "Não existe na natureza um desejo tão demoniacamente impaciente, como o daquele que, estremecendo frente à borda de um precipício, medita a respeito de mergulho". 

Ou medita sobre a pergunta: estou doente? 

Em alguns casos, a resposta pode ser sim. Porém, uma grande maioria das pessoas não age, ou raramente o faz, em tais compulsões - e sua suscetibilidade a rudes fantasias reflete, na verdade, o funcionamento normal de um cérebro social e sensitivo, segundo um artigo publicado na semana passada no jornal Science. "Há todo tipo de ciladas na vida social, em todo lugar que olhamos; não apenas erros, mas os piores erros possíveis chegam a nossas mentes, e chegam com muita facilidade", diz o autor do artigo, Daniel M. Wegner, um psicólogo de Harvard. 

"E ter a pior coisa entrando em nossa mente, em algumas circunstâncias, pode aumentar a probabilidade de que uma crise aconteça". A investigação das compulsões perversas tem um rico histórico (como poderia não ter?), passando pelas histórias de Poe e do Marquês de Sade, até os desejos reprimidos de Freud a observação de Darwin de que muitas ações são realizadas "em oposição direta a nossa vontade consciente". Na última década, psicólogos sociais documentaram o quão comuns são essas vontades contrárias - e quando apresentam as maiores chances de alterar o comportamento de uma pessoa. Num nível fundamental, funcionar socialmente significa controlar os próprios impulsos. 

O cérebro adulto gasta, na inibição, pelo menos a mesma energia que gasta na ação, sugerem alguns estudos, e a saúde mental depende da manutenção de estratégias para ignorar ou reprimir pensamentos profundamente perturbadores - da própria morte inevitável, por exemplo. Essas estratégias são programas gerais, subconscientes ou semi-conscientes, que habitualmente funcionam em piloto-automático. Impulsos perversos parecem surgir quando as pessoas focam intensamente em evitar erros ou tabus específicos. A teoria é bastante direta: para não revelar que um colega é um grande hipócrita, o cérebro precisa inicialmente imaginar exatamente isso; a simples presença daquele catastrófico insulto, por sua vez, aumenta as chances de que o cérebro cuspa tudo para fora. 

"Sabemos que o que é acessível em nossas mentes pode exercer uma influência no julgamento e comportamento simplesmente por estar ali, flutuando na superfície da consciência", disse Jamie Arndt, psicólogo da Universidade do Missouri. As evidências empíricas dessa influência têm se amontoado nos últimos anos, conforme Wegner explica no novo artigo. No laboratório, psicólogos fizeram pessoas expulsarem um pensamento de suas mentes - o de um urso branco, por exemplo - e descobriram que os pensamentos ficam voltando, aproximadamente uma vez por minuto. 

Da mesma forma, pessoas tentando não pensar numa palavra específica citam-na continuamente durante testes rápidos de associação de palavras. Os mesmos "erros irônicos", como Wegner os chama, são fáceis de evocar no mundo real. Jogadores de golfe instruídos para evitar um erro específico, como lançar longe demais, o fazem com mais frequência quando estão sob pressão, segundo estudos. Jogadores de futebol instruídos a chutar um pênalti em qualquer lugar do gol menos um local específico, como o canto inferior direito, olham para esse ponto com maior frequência que qualquer outro. 

Esforços para ser politicamente correto podem ser particularmente traiçoeiros. Em um estudo, pesquisadores das universidades Northwestern e Lehigh fizeram 73 estudantes lerem uma vinheta sobre um colega ficcional, Donald, um homem negro. Os estudantes viram uma foto dele e leram uma narrativa sobre sua visita a um shopping com um amigo. No estacionamento lotado, Donald não estacionou na vaga para deficientes, embora estivesse com o carro de sua avó, que tinha um passe, mas esbarrou em outro carro para se enfiar numa vaga comum. Ele insultou uma pessoa coletando dinheiro para um fundo do coração, enquanto seu amigo contribuía com alguns trocados. 

E assim continuou. A história propositalmente retratava o protagonista de maneira ambígua. Os pesquisadores pediram que aproximadamente metade dos alunos tentasse reprimir estereótipos ruins de homens negros enquanto liam e, em seguida, julgasse o personagem Donald em critérios como honestidade, hostilidade e preguiça. Esses alunos avaliaram Donald como significativamente mais hostil - mas também mais honesto - do que os alunos que não tentaram reprimir os estereótipos. Para resumir, a tentativa de banir preconceitos funcionou, até certo ponto. Porém, o estudo também trouxe "uma forte demonstração de que a supressão de estereótipos faz com que os mesmos se tornem hiperacessíveis", concluíram os autores. 

Fumantes, pessoas que bebem com frequência e usuários habituais de outras substâncias conhecem bem demais essa confusão: o esforço para reprimir o desejo por um cigarro ou uma bebida pode trazer à mente todas as razões para quebrar o hábito; ao mesmo tempo, o desejo aparentemente fica mais forte. O risco de que as pessoas irão escorregar ou "perder" depende, em parte, do nível de estresse a que estão submetidas, diz Wegner. 

Concentrar-se para não olhar fixamente uma enorme verruga no rosto de um novo conhecido, enquanto troca mensagens de texto e tenta acompanhar uma conversa, aumenta o risco de que você diga: "Nós fomos comprar verruga - quero dizer, verdura. Verdura!" "Pode haver certo alívio em simplesmente acabar com tudo, fazer o pior acontecer, para que você não precise mais se preocupar com o monitoramento", disse Wegner. O que pode ser difícil de explicar, é claro, seria caso você acabasse de abaixar as calças durante um jantar com os amigos. 

Benedict Carey - The New York Times

3 de nov. de 2013

O papa dos espíritas

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TRANSFORMAÇÃO

Autor de cerca de 20 livros e membro de nove sociedades científicas, o professor 
Rivail era um descrente. Até que passou a frequentar reuniões de “mesas girantes” 
na França e adotou o nome que o tornou célebre como o criador do espiritismo 
Como o cientista francês Hippolyte Rivail se tornou, aos 53 anos, Allan Kardec, criador da doutrina espírita e fonte de inspiração do médium brasileiro Chico XavierAndres Vera
"A pessoa que estudar a fundo as ciências rirá dos ignorantes. Não mais crerá em fantasmas ou almas do outro mundo.” Era assim que o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, membro de nove sociedades científicas e autor de cerca de 20 livros sobre pedagogia na França do século XIX, resumia seu ceticismo. Intelectual respeitado, ele vivia em um universo no qual a ciência estava em ebulição, em meio a discussões sobre eletromagnetismo, motor a vapor e lâmpada incandescente. Apesar disso, tornou-se o criador da doutrina espírita tal qual ela está sistematizada hoje, que crê, entre outras coisas, na reencarnação e na comunicação entre vivos e mortos. 
É a história dessa transformação que está sendo contada no recém-lançado “Kardec, a Biografia” (ed. Record), do jornalista brasileiro Marcel Souto Maior. “Kardec precisou ir além da religião para criar uma doutrina inteira em apenas 13 anos”, diz o autor. De 1857, ano de sua conversão, aos 53 anos, a 1869, quando morreu de aneurisma cerebral, o francês já havia arrebatado sete milhões de seguidores no mundo.  Um número impressionante para um planeta com então 1,3 bilhão de habitantes e comunicação precária. Os créditos da velocidade recaem sobre o próprio. “Ele alcançou isso porque dava tratamento científico aos estudos e sabia divulgá-los”, afirma Souto Maior.
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PASSE 

Sessão num centro espírita brasileiro: religião baseada nos livros de Kardec
A aproximação do cientista com o espiritismo começou em 1855, quando um fenômeno agitava a França: as mesas “girantes”.

Em reuniões fechadas ou salões públicos, participantes ditavam perguntas a mesas que se moviam, no que era identificado como um sinal de resposta, de mortos ilustres ou anônimos. Curioso, Rivail passou a frequentá-las em Paris. Procurava, antes, por cabos, roldanas e fios. “Estamos longe de conhecer todos os agentes ocultos da natureza”, escreveu. Convencido da boa-fé de alguns grupos, ele passou a crer. Tempos depois, um espírito contou que o conhecera na época do imperador romano Júlio César, em 58 a.C.

Na época, Rivail chamava-se Allan Kardec – daí a mudança de nome. Os primeiros registros do professor sobre o espiritismo viraram “O Livro dos Espíritos” (1857). Ele assinaria também outras quatro obras básicas, a fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e a publicação mensal, ao longo de 12 anos, de uma revista – tornando-se, assim, o grande codificador da doutrina.

Mas Kardec também presidia sessões espíritas e nelas presenciou, por exemplo, uma jovem de 12 anos receber, de lápis em punho, as palavras de Luís IX, rei da França morto seis séculos antes. Em outra concorrida reunião, o missionário e uma plateia embasbacada testemunharam um médium receber – e executar – uma partitura atribuída a Mozart.
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Para confeccionar sua obra, Souto Maior percorreu as bibliotecas de Paris em busca de material sobre o “papa dos espíritas”. Jornais de época mostram, por exemplo, a briga entre o criador do espiritismo e a Igreja Católica. Em 1861, em um episódio conhecido como “Auto de Fé de Barcelona”, foram queimados 300 livros espíritas na cidade espanhola. Entre eles estavam “O Livro dos Espíritos” e a tal sonata de Mozart. “Kardec era político”, diz Souto Maior. “Depois das brigas, ele media as palavras com a Igreja e sabia que isso traria publicidade.”

A perseguição ao espiritismo não poupava o francês, médiuns admirados por ele ou mesmo seguidores novatos. Em 1865, dois jovens de Nova York voaram a Paris para mostrar “toques espontâneos de instrumentos musicais e transporte de objetos no ar.” Durante a exibição, um espectador invadiu o palco e revelou à plateia o truque: tábuas soltas e uma passagem secreta. A imprensa transformou o episódio em piada. Kardec se defendeu. Disse que o embuste não atingia a verdadeira ciência espírita, devota à evolução do ser humano. “Fora da caridade não há salvação”, escreveu. Insistentemente perseguido, começou a demonstrar sinais de exaustão e teve um problema cardíaco. “Daí em diante foi uma contagem regressiva até sua morte”, diz Souto Maior. Em seu túmulo, no Cemitério Père-Lachaise, em Paris, há hoje mais mensagens em português do que em francês. Por quê?
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A resposta está tanto no espiritismo como no povo brasileiro. Entre 2000 e 2010, o número de espíritas no País cresceu 65%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O espiritismo tem 3,8 milhões de fiéis autodeclarados, segundo o IBGE, e 30 milhões de simpatizantes, segundo a Federação Espírita Brasileira. “Nossa população aceita muito bem a ideia de vida após a morte”, diz Geraldo Campetti, vice-presidente da Federação Espírita Brasileira. Há um consenso entre biógrafos céticos, estudiosos da religião ou espíritas devotos: o kardecismo é praticamente uma criação brasileira.

Três fatores ajudaram a disseminação da doutrina: o sincretismo brasileiro, que facilita a convivência entre crenças, a proximidade entre espiritismo e cristianismo e, por último, um certo médium de Uberaba, em Minas Gerais. “A repercussão alcançada por Chico Xavier é o maior fator da expansão dos espíritas no País”, diz o sociólogo Reginaldo Prandi, professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “Os mortos e os vivos”. O espiritismo chegou ao Brasil em 1860 e ganhou relevância com Bezerra de Menezes, médico e político que, além de expoente da doutrina, traduziu obras de Kardec para o português.

Mas coube a Chico Xavier, falecido em 2002, o fenômeno da explosão da doutrina a partir da década de 1970. O mineiro ostenta mais de 450 livros publicados. Sua biografia “As Vidas de Chico Xavier”, escrita pelo mesmo Marcel Souto Maior, vendeu mais de um milhão de exemplares e chegou ao cinema com direção de Daniel Filho. Fez 3,4 milhões de espectadores.
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MESTRE 

O médium Chico Xavier, morto em 2002, grande difusor do espiritismo no País
Souto Maior diz que o roteiro cinematográfico da história de Rivail-Kardec já foi finalizado. 

“O filme deve ficar pronto no ano que vem.” Discípulo fiel do kardecismo, Chico Xavier costumava recomendar a todos as palavras de Kardec. 

Se o conselho valer para a nova biografia e o futuro filme, a história de Hippolite Rivail deve manter o fenômeno de público.

1 de nov. de 2013

Diferença entre engenhosidade e inteligência


Nina Popovska
1 - A NASA:
Quando, antes dos anos 60, a NASA iniciou o envio de astronautas para o espaço, advertiram que as suas canetas não funcionariam à gravidade zero, dado que a tinta não desceria à superfície onde se desejaria escrever.

Ao fim de 6 anos de testes e investigações, que exigiu um gasto de 12 milhões de dólares, conseguiram desenvolver uma esferográfica que funcionava em gravidade zero, debaixo de água, sobre qualquer superfície incluindo vidro e num leque de temperaturas que iam desde abaixo de zero até 300 graus
centígrados.

Os Russos, pelo seu lado, ao depararem com o mesmo problema, descartaram as canetas e, simplesmente deram lápis às suas tripulações para que pudessem escrever sem problemas.

2 - O empacotador de sabonetes:

Em 1970, um cidadão japonês enviou uma carta a uma fábrica de sabonetes de Tókio, reclamando ter adquirido uma caixa de sabonetes que, ao abri-la, estava vazia. A reclamação colocou em marcha todo um programa de gestão administrativa e operacional; os engenheiros da fábrica receberam instruções
para desenhar um sistema que impedisse que este problema voltasse a repetir-se. Depois de muita discussão, os engenheiros chegaram ao acordo de que o problema tinha sido desencadeado na cadeia de empacotamento dos sabonetes, onde uma caixinha em movimento não foi cheia com o sabonete
respectivo.

Por indicação dos engenheiros desenhou-se e instalou-se uma sofisticada máquina de raios "X" com monitores de alta resolução, operada por dois trabalhadores encarregados de vigiar todas as caixas de sabonete que saíam da linha de empacotamento para que, dessa maneira se assegurasse de que
nenhuma ficaria vazia. O custo dessa máquina superou os 250,000 dólares.

Quando a máquina de raios "X" começou a falhar ao fim de cinco meses de ser operada pelos três turnos da empresa, um trabalhador da área de empacotamento pediu emprestado um potente ventilador (ventoinha) de 50 dólares e apenas o apontou na direção da parte final da passadeira transportadora. À medida que as caixinhas avançavam nessa direção, as que estavam vazias simplesmente saíam voando da linha de empacotamento, por estarem mais leves.

3 - O hoteleiro de NY:

O gerente geral de uma cadeia hoteleira americana viajou pela segunda vez para Seul no lapso de um ano; ao chegar ao hotel onde devia hospedar-se foi recebido calorosamente com um "Bienvenido nuevamente señor, que bueno es verlo una vez más en nuestro hotel". Duvidando de que o recepcionista tivesse tão boa memória e surpreendido pela recepção, propôs-se que - no seu retorno a New York- imporia igual sistema de tratamento ao cliente na cadeia hoteleira que administrava.

No seu regresso convocou e reuniu todos os seus gerentes pedindo-lhes para desenvolver uma estratégia para tal pretensão. Os gerentes decidiram implementar um software de reconhecimento de rostos, base de dados atualizada dia a dia, câmaras especiais, com um tempo de resposta em micro
segundos, assim como a pertinente formação dos empregados, etc., cujo custo aproximado seria de 2.5 milhões de dólares.

O gerente geral descartou a ideia devido aos elevados custos. Meses depois, na sua terceira viagem a Seul, tendo sido recebido da mesma maneira, ofereceu uma boa gratificação ao recepcionista para que lhe revelasse como o faziam.

O recepcionista disse-lhe então: “Repare senhor, aqui temos um acordo com os taxistas do aeroporto; durante o trajeto eles perguntam ao passageiro se já antes se hospedou neste hotel, e, se a resposta é afirmativa, eles, à chegada ao Hotel, depositam as malas do hóspede do lado direito do balcão de
atendimento. Se o cliente chega pela primeira vez, as suas malas são colocadas do lado esquerdo. O taxista é gratificado com um dólar pelo seu trabalho"

Aí está a diferença entre inteligência e engenhosidade...

Felicidade e alegria

“Ser alegre (muito melhor do que ser feliz) é gostar de viver mesmo quando a vida nos castiga”

Quando eu era criança ou adolescente, pensava que a felicidade só chegaria quando eu fosse adulto, ou seja, autônomo, respeitado e reconhecido pelos outros como dono exclusivo do meu nariz.

Contrariando essa minha previsão, alguns adultos me diziam que eu precisava aproveitar bastante minha infância ou adolescência para ser feliz, pois, uma vez chegado à idade adulta, eu constataria que a vida era feita de obrigações, renúncias, decepções e duro labor.

Por sorte, 
1) meus pais nunca disseram nada disso; eles deixaram a tarefa de articular essas inanidades a amigos, parentes ou pedagogos desavisados; 
2) graças a esse silêncio dos meus pais, pude decretar o seguinte: os adultos que afirmavam que a infância era o único tempo feliz da vida deviam ser, fundamentalmente, hipócritas; 
3) com isso, evitei uma depressão profunda pois, uma vez que a infância e a adolescência, que eu estava vivendo, não eram paraíso algum (nunca são), qual esperança me sobraria se eu acreditasse que a vida adulta seria fundamentalmente uma decepção?

Cheguei à conclusão de que, ao longo da vida, nossa ideia da felicidade muda: 
1) quando a gente é criança ou adolescente, a felicidade é algo que será possível no futuro, na idade adulta; 
2) quando a gente é adulto, a felicidade é algo que já se foi: a lembrança idealizada (e falsa) da infância e da adolescência como épocas felizes.
Em suma, a felicidade é uma quimera que seria sempre própria de uma outra época da vida -que ainda não chegou ou que já passou.

No filme de Arnaldo Jabor, “A Suprema Felicidade”, que está em cartaz atualmente, o avô (extraordinário Marco Nanini) confia ao neto que a felicidade não existe e acrescenta que, na vida, é possível, no máximo, ser alegre.

Claro, concordo com o avô do filme. E há mais: para aproveitar a vida, o que importa é a alegria, muito mais do que a felicidade. Então, o que é a alegria?

Ser alegre não significa necessariamente ser brincalhão. Nada contra ter a piada pronta, mas a alegria é muito mais do que isso: ser alegre é gostar de viver mesmo quando as coisas não dão certo ou quando a vida nos castiga. É possível, aliás, ser alegre até na tristeza ou no luto, da mesma forma que, uma vez que somos obrigados a sentar à mesa diante de pratos que não são nossos preferidos ou dos quais não gostamos, é melhor saboreá-los do que tragá-los com pressa e sem mastigar. Melhor, digo, porque a riqueza da experiência compensa seu caráter eventualmente penoso.

Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para nós mesmos. Alguém perguntará: é reconhecível como?
Pois é, para quem consegue ser alegre, a lembrança do passado sempre tem um encanto que justifica a vida. 

Tento explicar melhor.

Para que nossa vida se justifique, não é preciso narrar o passado de forma que ele dê sentido à existência. Não é preciso que cada evento da vida prepare o seguinte. Tampouco é preciso que o desfecho final seja sublime (descobri a penicilina, solucionei o problema do Oriente Médio, mereci o Paraíso).

Para justificar a vida, bastam as experiências (agradáveis ou não) que a vida nos proporciona, à condição que a gente se autorize a vivê-las plenamente.

Ora, nossa alegria encanta o mundo, justamente, porque ela enxerga e nos permite sentir o que há de extraordinário na vida de cada dia, como ela é.

É óbvio que não consegui explicar o que são a alegria e o encanto da vida. Talvez eles possam apenas ser mostrados: procure-os em “Amarcord” (1973), de Federico Fellini, em “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003), de Tim Burton ou no filme de Jabor. “A Suprema Felicidade” me comoveu por isto, por ter a sabedoria terna de quem vive com alegria e, portanto, no encantamento.

Segundo Max Weber (1864-1920), a racionalidade do mundo industrial teria acabado com o encanto do mundo. Ultimamente, bruxos, vampiros, lobisomens, deuses e espíritos andam por aí (e pelas telas de cinema); aparentemente, eles nos ajudam a reencantar o mundo.

Ótimo, mas, para reencantar o mundo, não precisamos de intervenções sobrenaturais. Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo

Contardo Calligaris

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