31 de jan. de 2014

Decisão Judicial

Diante de tantas manifestações de frieza e desumanidade que vemos, a cada dia, no exercício de nossa atividade profissional, é alentadora, uma decisão como a que abaixo transcrevemos.

Juiz nega Justiça Gratuita para garoto, mas desembargador reverte a decisão 

É simplesmente emocionante a decisão de um desembargador do Tribunal de Justiça e São Paulo. 

Um garoto pobre, que perdeu o pai em um acidente de trânsito pediu ajuda da Justiça Gratuita, mas um juiz negou. A negativa por si só já comove, principalmente pela falta de humanidade. Só que, a decisão de um desembargador é ainda muito mais emocionante 

Decisão do desembargador José Luiz Palma Bisson, do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferida num Recurso de Agravo de Instrumento ajuizado contra despacho de um Magistrado da cidade de Marília (SP), que negou os benefícios da Justiça Gratuita a um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de ser atropelado por uma motocicleta
O menor ajuizou uma ação de indenização contra o causador do acidente pedindo pensão de um salário mínimo mais danos morais decorrentes do falecimento do pai.

Por não ter condições financeiras para pagar custas do processo o menor pediu a gratuidade prevista na Lei 1060/50. O Juiz, no entanto, negou-lhe o direito dizendo não ter apresentado prova de pobreza e, também, por estar representado no processo por "advogado particular".

A decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a partir do voto do desembargador Palma Bisson é daquelas que merecem ser comentadas, guardadas e relidas diariamente por todos os que militam no Judiciário. 

Transcrevo a íntegra do voto: 

É o relatório. Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro, ou sem ele, com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna. 

Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai - por Deus ainda vivente e trabalhador - legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em paubrasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem
sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes vêem apenas papel repetido. É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro - que nem existe mais - num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina. 

Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta Terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é. 

O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante. Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, no pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres. 

Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico. Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia d'água, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou. 

Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos... 

Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir. Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal. 

É como marceneiro que voto. 
JOSÉ LUIZ PALMA BISSON - Relator Sorteado?

25 de jan. de 2014

Síndrome de Greta Garbo

Sei que é inevitável falarem de mim, tanto por causa da minha carreira na televisão quanto por ser casada com um ator, mas essa exposição compromete o meu trabalho como psicóloga. É ruim para mim, um assunto que ficou para trás.” Foi em frente ao seu consultório, na zona sul de São Paulo, que a ex-atriz Lídia Brondi reforçou a sua posição a favor do anonimato para a Istoé. 
Aos 53 anos, casada há 23 com o ator Cássio Gabus Mendes, Lídia preserva o mesmo sorriso de três décadas atrás, quando figurava no seleto grupo das maiores e mais belas estrelas da televisão brasileira. As suas ligações com o passado param por aí. Em 1990, aos 30 anos, ela colocou um ponto final na carreira marcada por sucessos como “Dancin’ Days” (1978), “Roque Santeiro” (1985) e “Vale Tudo” (1988), só para citar três novelas da Rede Globo. Saiu de cena no auge, quando seu rosto estampava a capa de inúmeras revistas – masculinas, inclusive –, para o espanto da classe artística e do público que a enxergava como uma espécie de nova namoradinha do Brasil. Sua última novela foi “Meu Bem, Meu Mal” (1990). 
“As pessoas ainda me procuram para falar sobre o meu trabalho na televisão e têm curiosidade sobre a minha vida, mas já faz 20 anos. Isso me surpreende”, diz Lídia. A ex-atriz e, hoje, psicóloga viveu o que no meio artístico passou a ser conhecido como síndrome de Greta Garbo, em referência à artista sueca que trocou o status de estrela de Hollywood dos anos 1920 e 1930 para viver reclusa em sua terra natal (leia quadro). Lídia, porém, não é a única brasileira nesse panteão das deusas reclusas. 
Em 2010, aos 35 anos, a atriz Ana Paula Arósio surpreendeu ao pedir demissão da Globo, após conquistar, em 11 anos de casa, prêmios, fama e idolatria por meio de trabalhos como “Hilda Furacão” (1998) e “Terra Nostra” (1999). Desde então, a sua ocupação passou a ser os afazeres do Haras São Carlos, em Santa Rita do Passa Quatro, cidade de 26 mil habitantes no interior de São Paulo. Trilhar uma carreira de sucesso no mundo dos artistas é tido por muitos como uma espécie de bilhete de loteria premiado, a concretização de um sonho. O que explicaria, então, o movimento contrário das celebridades que trocam o pedestal ocupado por uma minoria por uma vida comum à maioria?
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RECLUSÃO
Ana Paula Arósio cavalga em sua fazenda, em Santa Rita
do Passa Quatro (SP), e, em 1997, na novela "Ossos do Barão"
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“Há uma fantasia que habita a cabeça dos famosos. Muitos, em algum momento, pensam: ‘Uma hora eu desapareço’”, diz o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, autor do livro “Sentido e Existência”, que trata da relação do ser humano com a sua imagem. Psiquiatra e psicanalista carioca, Luiz Alberto Py argumenta que não é tão raro pessoas nessas condições não desejarem mais ser quem eram. 
“Ainda mais quem começou em um caminho muito cedo e não teve uma escolha própria amadurecida sobre o que fazer na vida”, afirma. Lídia Brondi e Ana Paula Arósio iniciaram precocemente no meio artístico, aos 14 e 12 anos, respectivamente. Tiveram de encarar pressões e responsabilidades para as quais muitos não estão preparados nem deveriam ser expostos nessa idade. Mais tarde, com maior discernimento e donas do próprio nariz, tornaram-se sensíveis às agruras da exposição e decidiram sair da vitrine, como se isso fosse possível. 
Há vários apelos para que elas voltem. Em novembro, por exemplo, o diretor de núcleo Wolf Maya rasgou elogios a Ana Paula e afirmou: “Faço aqui um apelo público, nós não podemos perder Ana Paula Arósio.” E fãs de Lídia Brondi criaram blogs para cultuar momentos marcantes da carreira da estrela.
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A opção de sumir do mapa acaba se revelando um jeito eficiente de continuar aparecendo. É o que ocorre com Ana Paula, 38 anos. Em Santa Rita do Passa Quatro, poucos são os habitantes que desfrutam de sua confiança. Muitos, porém, têm uma história sobre ela para contar. As lendas em torno do seu estilo de vida proliferam como resultado da sua opção por não circular e não interagir. Assim, ela se tornou um mito cercado por um pequeno séquito. 
“Não posso falar sobre a nossa relação, fui proibida por ela”, diz Claudete Aparecida Arósio, mãe da ex-atriz. Ana Paula, dizem comerciantes locais, já foi vista em bares da cidade – em um deles, cujo dono é um de seus funcionários no haras, teria até arriscado algumas tacadas em uma mesa de bilhar – e bebendo cerveja acompanhada de amigos em lojas de conveniência de postos de gasolina. Conta-se, inclusive, que ela teria a mania de dar cerveja a seus cavalos. Funcionários da prefeitura também afirmam já tê-la visto entrando no banco, circulando como uma transeunte, de bota, calça de administradora rural suja de terra, cabelo preso e óculos escuros para esconder o farol que a tira do anonimato no ato – os hipnotizantes olhos azuis. 
“Ela veio uma vez aqui, num sábado à tarde. Encostou sua caminhonete preta e desceu para beber três cervejas e comer panceta frita acompanhada de um homem”, diz Roberto Correia, proprietário do Boteco do Roberto. A ex-atriz escolheu viver com o marido, o bioarquiteto e cavaleiro Henrique Pinheiro, 35 anos, em uma zona rural afastada do centro da cidade. Para chegar à porteira da sua propriedade de 40 alqueires (o equivalente a 48 campos de futebol), é preciso encarar cinco quilômetros de uma estreita estrada de terra. ISTOÉ tentou ali, sem sucesso, um contato com a protagonista de “Hilda Furacão”.
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EXPEDIENTE
Fachada do prédio onde fica o consultório de Lídia Brondi,
na zona sul de São Paulo: a ex-atriz passou na faculdade de
psicologia, em 2002, dez anos depois de se afastar da tevê
O fato de se tornar uma figura pública, conhecida por muita gente e assediada continuamente deixa o indivíduo sufocado, afirma o psicanalista Goldberg. Além disso, ele é submetido a juízos o tempo todo e surge o medo da desaprovação. A vulnerabilidade do olhar alheio implica sensação de crítica. “E tem a questão da fantasia, da destruição da identidade por causa do personagem. 
Vários fatores podem levar a uma fragilidade psicológica”, afirma. Ana Paula tem aversão não só à imprensa, mas ao público. Convidada recentemente para assistir a uma prova de tambor, que consiste em contornar três tambores montados em um cavalo no menor tempo possível, teria assim reagido, segundo uma pessoa próxima: “Ah, mas o pessoal vai ficar em cima, me enchendo o saco.”
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Quando Lídia Brondi decidiu abandonar a vida artística, rumores davam conta de que uma síndrome do pânico teria sido o motivo, fato negado pela atriz. “A maioria dos famosos, em um determinado momento, tem pelo menos alguns sintomas de síndrome do pânico, mas claro que não divulgam publicamente”, diz Goldberg. Pai de Lídia, o pastor Jonas Rezende conta que tentou dissuadir a filha de desistir de seu contrato com a Globo, argumentando a importância do trabalho dela. “Eu disse que tevê é um veículo de entretenimento e diverte milhões de pessoas. Mas ela tinha tomado uma decisão que vinha sendo amadurecida havia algum tempo. Era uma fase de sua vida que se esgotou”, afirma Rezende.
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Dez anos depois de deixar a tevê, aproximadamente, Lídia foi aprovada na faculdade de psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo. Graduada, hoje ela intercala atendimentos em seu consultório e em um ambulatório da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Seu nome consta da equipe do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove). A psicóloga vai a pé de um local a outro sem receio de ser reconhecida, o que, segundo ela, acontece com mais frequência do que ela imaginaria. Dedicada, chega a cancelar viagens para não deixar de atender seus pacientes. Começa cedo no consultório e, dependendo da agenda, encerra o expediente por volta das 21 horas. A ex-atriz, mãe de Isadora, 28 anos, da união de cinco anos com o diretor da Globo Ricardo Waddington, não cogita retornar à antiga profissão.
Hoje em dia, Ana Paula Arósio faz as vezes de administradora rural em seu haras, enquanto o marido se encarrega de fazer supermercado, ir ao correio e cuidar das tarefas bancárias. Outro dia, a ex-atriz se embrenhou no meio do lago para instalar um vaso no local e, em 2012, foi até a delegacia de Santa Rita do Passa Quatro para registrar um boletim de ocorrência contra o proprietário do sítio vizinho, que, curiosamente, é pai de um ex-namorado. Ela o acusa de ser o responsável por um incêndio criminoso que consumiu uma quadra da sua plantação de cana-de-açúcar. “Ela e o ex-sogro vivem às turras, uma história mal aparada desde que ela terminou o namoro com o filho dele”, diz um parente do ex-sogro de Ana Paula.
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Além de cana-de-açúcar, Ana Paula e o marido produzem feno, que é vendido para sítios e fazendas da região por R$ 7 o fardo. Os dois possuem um campo de produção de cerca de cinco alqueires no haras. Recentemente, também, adquiriram um trailer para transportar os cavalos – têm cerca de 30 –, a paixão de Ana Paula. Quatorze anos atrás, a atriz já dava sinais – mesmo desfrutando das benesses de protagonista da novela do horário nobre da Globo (“Terra Nostra”) – do papel que gostaria de desempenhar na vida real. Lá atrás, em uma entrevista, contou que seu avô, bem-sucedido morando em uma fazenda, decidira sair do fim de mundo em que se encontrava para viver na cidade grande. Dera ouvido ao que diziam seus amigos sobre as boas oportunidades oferecidas na metrópole – mas não foi bem-sucedido. A conclusão de Ana Paula, à época com 24 anos: “É por isso que até hoje eu sinto necessidade de estar no campo, de trabalhar com a terra.” A duras penas, sob críticas de diretores que contavam com a sua presença em gravações de novela e eventos de lançamento, ela jogou tudo para o alto, desceu do pedestal e calçou as botas surradas de um anonimato que ainda não se concretizou.
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MISTERIOSA
Acima, Greta Garbo caracterizada como Marguerite para o
filme "Dama das Camélias", de 1936; abaixo,
a atriz caminha por Paris, em 1958
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Rodrigo Cardoso e Camila Brandalise - IstoÉ

21 de jan. de 2014

Preguiça

Todo dia, lá pelo fim do dia, ela chega. Você senta para ver televisão e, quando os comerciais interrompem seu programa favorito, você nota que o controle remoto ficou lááá longe –e decide que esperar alguns minutinhos até o programa voltar não será tão ruim assim. 

Então bate a sede, mas você avalia mentalmente a distância até a geladeira –e decide que não está com tanta sede assim. Ao menos, nada que faça o esforço valer a pena.

Essa é a preguiça, nome comum para um estado cerebral que afeta a nós todos, todos os dias, quase que com hora marcada: o estado de falta de motivação causado pelo acúmulo de adenosina no seu sistema de recompensa como resultado das várias horas passadas no estado acordado.

Um dos efeitos da adenosina é bloquear a ação da dopamina, substância que, no sistema de recompensa, leva à ativação do estriado ventral. Esta, por sua vez, dá aquele surto de prazer que, quando produzido logo após algo bem feito, serve como recompensa –e, quando obtido só de pensar em fazer alguma coisa, e logo antes de fazê-la, serve como uma cenoura na ponta da varinha e empurra seu cérebro à ação.

O sistema de recompensa, contudo, funciona em paralelo com outro sistema, centrado no córtex cingulado anterior, que avalia custos: o esforço de se mexer. Se você sai do sofá ou não depende de quem fala mais alto e ganha a disputa –seu cingulado anterior ou o estriado ventral. E com o estriado ventral encharcado de adenosina, dá para imaginar que a sede terá que ser muito grande, e o comercial, muito ruim para fazer você sair do sofá.

Como a adenosina que se acumula é um subproduto natural do funcionamento de neurônios e outras células no cérebro, não há jeito: a preguiça certamente baterá no final do dia. O que é bom, pois assim você sossega e tem mais chances de adormecer. Por isso, também, jogar videogames altamente motivadores à noite (ou ler aquele livro de suspense com uma reviravolta a cada página) é uma péssima ideia: não há adenosina que chegue para neutralizar a ação de tanta dopamina.

Mas nem toda relutância em se mexer é por preguiça. Estou de férias onde, se quiser, posso ficar o dia todo lendo na rede. Aí a competição é outra: entre o prazer de continuar na rede e o novo candidato a próxima atividade. Geralmente só ganham a cozinha e o banheiro, ou um joguinho de cartas...
Suzana Herculano-Houzel

19 de jan. de 2014

As 9 coisas mais legais já feitas com impressoras 3D

Foi-se o tempo em que impressoras 3D serviam para imprimir figuras indefinidas e inúteis. 

Hoje, é possível fazer quase tudo com essas máquinas – de obras de arte a inovações na medicina. 

A variedade é tanta que, este ano, o Japão (é claro) ganhou um museu totalmente dedicado a criações 3D. 

Escolhemos as invenções mais curiosas que tem sido feitas com essas máquinas. É, gente, o futuro chegou.

1. Quase todos os itens de Zelda

Para começar bem, que tal essa coleção invejável de itens que Link coleta em Legends of Zelda? O criador do site Hyrule Foundry, que é dedicado ao jogo, criou essas belezinhas. São ao todo 32 réplicas perfeitas de objetos presentes no game. Alguns deles ainda estão sendo aprimorados, como as poções, que pedem uma impressão mais translúcida. E sabe qual é a melhor parte? Dá para comprar os itens separadamente ou toda a coleção, que custa por volta de 300 dólares. 

2. Arte
Todas as peças que o artista Joshua Harker disponibiliza em sua loja na Etsy são feitos com a impressora 3D.  Além de esculturas, Harker também faz bijuterias e até capa de celular no mesmo estilo.


3. Figura de ação de Halo
Infelizmente não sabemos a origem desta figura de ação incrível, mas este comercial do Halo 3 – feito totalmente com figuras 3D – pode nos dar uma pista. Bacana, não?

4. Luva do Homem de Ferro

Criada por Brian Cera, estudante da Universidade de Wisconsin, essa luva do Homem de Ferro é facilmente manipulável e incrível.

5. Guitarras
Esta não é apenas uma réplica de uma Les Paul. É uma réplica funcional de uma Les Paul! E pela bagatela de 3500 dólares (sem frete incluso), esse e outros modelos podem ser seus. 

6. Snowboard
A empresa de snowboards Signal decidiu inovar na criação de um de seus produtos e desenvolveu uma prancha feita totalmente em uma impressora 3D. O protótipo não está à venda – é bastante caro para ser produzido comercialmente –, mas você pode conferir um vídeo ( com legendas em inglês) de seu funcionamento aí embaixo.

7. Um robô
InMoov on New Yorker

O escultor Gael Langevin, inspirado pelo robô C3PO de Guerra nas Estrelas, lançou um desafio na internet. Será que é possível construir um robô com impressoras 3D e trabalho coletivo? Para ajudar na construção do InMoov, apelido carinhoso do robô, basta ter uma impressora 3D e muita boa vontade. As instruções e os detalhes dessa empreitada estão no site de Langevin. Quando finalizado, o robô será capaz de responder a comandos de voz.

8. Células-tronco
Chegando nas áreas mais ousadas da impressão 3D, os estudiosos escoceses da Universidade de Heriot-Watt desenvolveram um mecanismo que se utiliza das células como “tinta”, que pode ser imprimida. Os cientistas acreditam que este pode ser o primeiro passo rumo à criação de órgãos feitos em impressoras 3D. 

9. Um prédio
Se é possível criar coisas microscópicas como células, por que não objetos gigantescos como prédios? Esse deve ter sido o pensamento dos pensadores por trás da Softskil Design, a Protohouse. Para esses caras, não basta fazer uma casa em 3D – ela tem que ter um design maluco, como esse da foto acima. Outras opções, mais realistas, estão sendo pensadas por desenvolvedores holandeses pensam em utilizar material descartável, como casca de batata e garrafas plásticas, para construir prédios com a ajuda de gigantescas impressoras 3D. Será que vai?
Cláudia Fusco

Linda, a autista da novela, não deve namorar, dizem especialistas


O romance vivido pela personagem autista Linda (Bruna Linzmeyer) de Amor à Vida tem intrigado quem assiste aos capítulos da novela. Na última semana, ela e o advogado Rafael (Rainer Cadete) se beijaram e o rapaz foi preso – mas o namoro parece caminhar para um final feliz.

O autismo, transtorno que afeta cerca de 1% da população e compromete as habilidades comunicativas, cognitivas e emocionais, pode ter níveis variados. Pacientes com quadros mais suaves, conhecidos como Síndrome de Asperger, normalmente casam-se e têm filhos. Já pessoas com autismo grave, por ter dificuldades de discernimento, não devem cultivar relacionamentos amorosos. É o caso de Linda.

Segundo a psicóloga Ana Arantes, professora do curso de pós-graduação de Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), o envolvimento de Linda, uma menina com sério comprometimento cognitivo e comunicativo, com um adulto mais velho, plenamente capaz, sem o consentimento da família, não deve acontecer. Pessoas com autismo podem ter dificuldade de ler expressões faciais e compreender sinais de emoção alheios. 

"Para muitos autistas é difícil reconhecer metáforas, ironia, duplos sentidos e insinuações. O perigo de se envolver com pessoas mal intencionadas é maior”, afirma Ana. "Por outro lado, quando a família e a comunidade estão atentas e podem monitorar o relacionamento, essa pode ser uma fonte de estímulo importante para o desenvolvimento da comunicação, expressão e compreensão de emoções e sentimentos do autista." Na última terça-feira, a psicóloga escreveu sobre o assunto um post em seu blog, texto curtido por 38 000 pessoas.

Sem beijos – O psiquiatra Estevão Vadasz, criador do Programa de Transtornos do Espectro Autista (Protea) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, concorda que a personagem de Amor à Vida, com o quadro severo da doença, não deveria se relacionar com um homem. Perante a lei, Linda é considerada incapaz – a exemplo dos menores de dezesseis anos – e Rafael, capaz. "Para se envolver com uma pessoa assim, o autista teria de passar por uma perícia judicial. Apenas depois de uma avaliação com especialistas mostrando que ele tem discernimento e crítica, ele poderia estar com outra pessoa", afirma Vadasz. "Se uma autista engravidar, é preciso considerar se ela será capaz de cuidar de um filho. Por isso, é preciso tomar todos os cuidados", afirma Vadasz. 

A evolução de Linda ao longo da novela, que passou de autista grave para alguém com sintomas de uma síndrome mais branda, é um caminho praticamente impossível na vida real. "Mesmo que existam graus diferentes de autismo, o padrão de comportamento e o grau de severidade não variam de uma hora para a outra. O autista pode se desenvolver gradativamente ao longo de um tratamento sistemático e intensivo", diz Ana.​

Rita Loiola

12 de jan. de 2014

Eusébio - Brincando nos campos de Salazar

No Portugal dos anos 1960, abundavam as imagens de Eusébio da Silva Ferreira. Ele ali estava, espalhado por jornais e revistas, mas também em programas e serviços noticiosos da Radiotelevisão Portuguesa. Atleta do Benfica e da seleção nacional, sempre na sua função de jogador de futebol, era aclamado pelo inegável talento. 
No Portugal metropolitano de então, onde rareavam ainda os naturais de África, nunca um negro merecera tanto destaque e fora objeto de tamanha glória.

Uma representação dessas distinguia-se da imagem do africano, que proliferara na cultura popular. Como demonstrou Isabel Castro Henriques (A Herança Africana em Portugal, ed. CTT), o negro era quase sempre ridicularizado, com evidente crueldade, em livros, imagens, jornais, bandas desenhadas, campanhas publicitárias e anedotas. A construção de um outro tipo de africano, fundada numa distância que permitia as maiores efabulações, só tomou um sentido mais concreto durante a guerra colonial, onde o africano era o inimigo, o "turra".
Justificou-se, dessa forma, que Portugal atribuísse uma cidadania específica à maioria dos povos que governava, enquadrada pelo chamado sistema de indigenato, que cessou em 1961, precisamente no ano em que Eusébio começou a jogar no Benfica, depois de chegar a Portugal em dezembro de 1960. Desde seus primórdios, o Estado Novo contribuíra decisivamente para a disseminação de um racismo generalizado, garantindo-lhe até um caráter científico. Em exposições e congressos, nos trabalhos de diversas ciências coloniais, e em muitas publicações oficiais, expunha-se um outro africano culturalmente diferente, que fazia parte integrante do império português, mas era colocado à parte, como se se tratasse de um todo racial e cultural discrepante. O império afirmara o atraso civilizacional das populações africanas, legitimando assim uma conquista colonial anunciada como uma missão de desenvolvimento dessas regiões e dos seus povos.
É evidente que as retóricas integracionistas do Estado Novo na década de 1960 obrigavam a outras representações do africano, nomeadamente a de um sujeito colonial assimilado à sociedade portuguesa. Eusébio ajustava-se bem a essa imagem. Sua autobiografia, publicada em 1966 em Portugal e redigida por Fernando G. Garcia a partir de um conjunto de entrevistas (traduzida em inglês no ano seguinte), conta a história de um "bom rapaz", narrativa mestra e memória oficial a partir daí repetida em jornais, biografias e bandas desenhadas.
A "verdadeira" história de Eusébio apresenta um conjunto de etapas, do Bairro da Mafalala na Lourenço Marques colonial, onde vivia com a mãe, Elisa, num contexto de pobreza honrada, os jogos de bairro e a equipe dos "brasileiros", as idas à escola, o deslumbramento com o centro da cidade colonial, que pouco conhecia, a entrada no futebol local, a transferência atribulada para o Benfica e os diversos passos da brilhante carreira profissional.
Nessa história, a lista impressionante de feitos desportivos é intervalada pelo relato do casamento com Flora e pela incorporação de Eusébio, em 1963, no Exército português, profusamente fotografada e utilizada como propaganda. A incorporação militar, o casamento e a vida familiar contribuíam para a construção quase perfeita da biografia de um indivíduo assimilado, preocupado com o trabalho e com a família e plenamente integrado no Portugal de Salazar, um jovem de origens desfavorecidas que, apesar da notoriedade, continuava a perceber seu lugar social.
A apropriação oficial da imagem de Eusébio não anulava os efeitos produzidos pelo fato de um negro se ter tornado uma figura dominante da cultura popular portuguesa. Eusébio entrou, tal como a fadista Amália, num universo de glorificação cultural até aí constituído por indivíduos com origens e percursos muito distintos, consagrados em atividades oficialmente legitimadas e de onde o futebol e o fado se encontravam afastados.
Apesar do reconhecimento de seu mérito, a apreciação entusiástica que mereceu não resultava de uma inusitada consciência de igualdade racial, tão-pouco poderia servir de prova de que a sociedade portuguesa estava preparada, devido a uma característica cultural adquirida, a aceitar a diferença. A relevância de Eusébio dependia do seu valor enquanto elemento de uma economia particular, no contexto de uma troca muito específica, proporcionada pelo processo de profissionalização do futebol. O jogador moçambicano oferecia quase todas as semanas capitais preciosos à representação nacional, mas sobretudo clubista, a uma específica cidadania exercida diariamente por muitos indivíduos, quase todos homens, durante incontáveis encontros, conversas e imensas retóricas, nos quais se manifestava uma identificação, uma forma de apresentação na vida de todos os dias.

Os que no campo representavam com seu gênio desportivo essa pertença (ser do Benfica, do Sporting, do Porto, ou da seleção) mereciam quase todas as recompensas, independentemente da sua origem ou da cor da sua pele. O valor de Eusébio nessa economia particular dependia da manutenção de um nível performativo constante, de um ritmo laboral intenso, com consequências físicas conhecidas, como asseveram as inúmeras cirurgias ao seu martirizado joelho.
As exibições no Mundial de 1966 ampliaram a reputação de Eusébio, oferecendo-lhe uma dimensão global. Esse enorme atleta, personagem principal de uma cultura de consumo em expansão que gerava novas identificações, juntou-se à memória visual coletiva de uma geração, ao lado de outros ícones da cultura popular dos anos 1960.

Na Inglaterra, país que na altura já abdicara da grande parte das suas colônias, governada em 1966 por um governo trabalhista, os negros eram uma enorme raridade nos campeonatos desportivos e nenhum chegara à seleção nacional.
O efeito do poder mediático de vedetas populares como Eusébio foi alvo de escrutínio, as suas posições interpretadas, os resultados políticos dos seus atos avaliados. Se o Estado Novo sempre desconfiara da espectacularização do desporto assente no movimento associativo, veio depois a perceber que essa lhe podia ser útil. Para as oposições ao regime, menos preocupadas em reconhecer o efeito propriamente político da invulgar notoriedade social de um negro em Portugal, importava denunciar a utilização de Eusébio na defesa da "situação", enquanto elemento da narcotização do povo - ao lado do fado, do chamado nacional-cançonetismo e de Fátima - e especificamente da propaganda imperial, fundada na mitologia do pluri-racialismo, num período em que Portugal lutava pelos seus territórios numa guerra travada em três frentes.
É interessante verificar que nas últimas décadas Eusébio veio a tornar-se objeto de interesse para os estudiosos do continente africano, entendido como um pioneiro do futebol em África, um exemplo de talento extraordinário e, simultaneamente, ao lado de outros grandes nomes negros da história do desporto internacional, nomeadamente norte-americanos, desde Joe Louis a Jesse Owens, alguém que vingara num mundo fortemente discriminatório. O desejo de alguns acadêmicos e jornalistas estrangeiros em encontrar no discurso de Eusébio posições emancipadoras e politizadas esbarrou quase sempre em respostas evasivas e no habitual refúgio no mundo do futebol. Na verdade, o universo que ele, desde pequeno nos espaços livres da Mafalala, aprendera a dominar. Para aquele que foi considerado, depois do Mundial de 1966, como "o melhor da Europa", e de quem se falava estar a disputar com Pelé o título de "rei do futebol mundial", África e a política africana estavam muito longe.
O Estado Novo tratou de voltar a lembrar que Eusébio era africano, parte de um Portugal enorme que se prolongava para sul. Se é evidente que o impacto de Eusébio na sociedade portuguesa não pode ser avaliado apenas à luz de uma história política, sendo essencial investigar o efeito simbólico da notabilidade de um jogador negro, é também certo que na década de 1960 sua glória serviu à defesa de uma excepcionalidade colonial. Foi essa que serviu de justificativa à soberania sobre os territórios africanos e a sua história, contada e recontada até nossos dias, contribuiu para lançar um manto sobre o passado e reproduzir mitos sobre a tolerância racial dos portugueses.
Um ano antes do Mundial de 1966, o embaixador português Franco Nogueira, numa conferência na embaixada portuguesa em Londres (em maio de 1965), falou sobre os princípios orientadores da política portuguesa em África: "Nosso primeiro princípio orientador é a igualdade racial - uma pequena noção que trouxemos para África há mais ou menos 500 anos". Portugal orgulhava-se do seu império se constituir como um "espaço multirracial", uma "democracia racial real" onde todos "trabalham harmoniosamente para os mesmos fins".
Falso e mitificador, o olhar de Franco Nogueira, ao incluir o império dentro da sociedade portuguesa, acabava por realçar o facto de que o mundo governado pelos portugueses na década de 1960 era maioritariamente negro e africano, realidade por vezes esquecida nas análises historiográficas sobre Portugal. E qual era o lugar que a gestão colonial portuguesa atribuíra a essa grande maioria da população? Segundo a história mediatizada da vida de Eusébio, existia em Moçambique um contexto de igualdade de oportunidades e uma ausência de preconceito racial, bem ilustrados por um percurso de mobilidade social, desde o Bairro da Mafalala até à metrópole e aos grandes estádios europeus.
Poderá um caso excepcional ilustrar a excepcionalidade de um regime colonial? É que o lugar da população africana, na grande sociedade portuguesa de 1960, era bem diferente do representado pelo caso de Eusébio. Sua integração estava longe de estabelecer qualquer padrão que pudesse explicar os 500 anos de colonialismo de que falava Franco Nogueira.
Mais fiável parecia ser a história da cidade onde o jogador moçambicano cresceu. Desde sua fase moderna, iniciada no final do século 19 e projectada pela industrialização da África do Sul, que Lourenço Marques se dividira entre um centro colono, predominantemente branco, e um subúrbio precário, predominantemente negro. Pela força, afastaram-se as populações locais para a periferia. Separada fisicamente, a mão de obra africana que se acumulava nos subúrbios, essencial para o funcionamento do sistema colonial, foi enquadrada por leis e normas. Essas regulavam uma discriminação racial, a qual era evidente não apenas na lógica do indigenato, mas que se traduzia no quotidiano, nos espaços públicos, nas escolas, nos transportes e nos locais de trabalho, onde sofreram durante muito tempo o flagelo do trabalho forçado. O historiador Valdemir Zamparoni explicou bem esse mesmo processo na sua tese sobre a capital de Moçambique.
Já depois do fim do indigenato persistia o que, num artigo publicado em 1963 no jornal A Tribuna, o arquitecto Pancho Guedes chamava de "cinto do caniço" que separava o centro urbano da "cidade dos pobres, dos serventes e dos criados", isto é, a cidade dos africanos. Lourenço Marques carecia então, segundo o arquitecto, de "uma genuína integração social - ou serão os ‘pretos’ só para estar nas cozinhas e nas recepções?".
Os habitantes dos bairros periféricos da cidade, onde nasceu Eusébio em 1942, trabalhavam nas indústrias locais, nos portos e nos caminhos-de-ferro, nos serviços domésticos, em atividades ditas informais, dependendo de pequenas lavras, ou faziam parte da forte emigração para o país vizinho, controlada e taxada pelo Estado colonial. Essa estrutura laboral era fortemente racializada, pertencia a um sistema onde a cor da pele mostrava os contornos da organização social. Na grande sociedade portuguesa de 1960, o lugar dessa maioria africana, mesmo depois do fim do indigenato, continuava a revelar a herança de um colonialismo predador e racista, não muito diferente dos outros colonialismos nos seus propósitos e objetivos, nos meios e nas estratégias, e absolutamente nada excepcional.
Explicada pela conjugação única entre a profissionalização do futebol e a procura de talentos, a força da cultura popular mediática e um regime que necessitava de defender por todas as formas o mito do pluri-racialismo lusófono, a carreira extraordinária de Eusébio não belisca a imagem pérfida do sistema colonial português. Tão-pouco deve servir de modelo para descrever, hoje, as relações raciais em Portugal.
Nuno Domingos

7 de jan. de 2014

Estímulo verbal


Se um estímulo verbal costuma acompanhar alguma situação, que é o estímulo não condicionado ou previamente condicionado para uma reação emocional, o estímulo verbal eventualmente evoca essa reação. 
Assim, se alguém tem medo de cobra e se o estímulo verbal cobra acompanhou algumas vezes cobras de verdade, o estímulo verbal, sozinho, pode evocar uma reação emocional.
Skinner

6 de jan. de 2014

A arte


A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver.
Paul Klee

A dieta do pensamento

Não tem nada de mágica, não. 
Para você perder osquilos a mais e ficar elegante para sempre, a terapiacognitivo-comportamental oferece um caminho: deixarde "pensar gordo" e passar a "pensar magro"

Você está pensando em internar-se num spa de emagrecimento? Então tenha duas certezas: sim, você eliminará alguns quilos de sua silhueta. E, sim, você engordará tudo (ou quase) de novo depois de voltar à rotina diária. 

Spas são ilhas da fantasia: zero de stress, refeições em porções controladíssimas, prescritas por nutricionistas, e uma intensa programação de atividade física. Entre a lembrança de um bombom e a saudade do pudim da mamãe, há a opção da massagem relaxante, do ofurô ou da conversa catártica com o gordinho ao lado, que, assim como você, sua frio ao pensar numa torta de morango. No mundo real, tudo conspira a favor do excesso de comida e do sedentarismo. É o fast-food na hora do almoço, o biscoitinho na mesa do colega de trabalho, a geladeira pronta para ser assaltada, o sofá aconchegante com a televisãozona na frente. Como resistir?


Você já tentou... pensar? Não, não se ofenda. É claro que você pensa, e às vezes até em aspectos filosóficos da vida. Mas será que você pensa certo no que se refere às suas formas? Ou melhor, será que você não está "pensando gordo" em vez de "pensar magro"? Pensar magro (vamos abolir as aspas como um excesso adiposo) significa, basicamente, reprogramar seu cérebro para que ele passe a dominar a fome ou a simples gulodice até o ponto em que você possa ignorar um prato de coxinhas da mesma maneira que despreza aquele ex-amigo fofoqueiro. Reprogramar o cérebro não implica tomar choques elétricos ou aderir ao zen-budismo. Requer enfrentar frituras, salgadinhos, doces e refrigerantes sem subterfúgios – e, espera-se, com alguma altivez. 

Nada de tentar cancelar-lhes a existência, porque, afinal de contas, o mundo não é um spa. A resistência mental definitiva é o que prega a terapia cognitivo-comportamental (TCC), hoje considerada o tratamento de primeira linha contra o excesso de peso. "Quanto mais resistirmos aos desejos de comida, menos freqüentes eles se tornarão", disse a VEJA a psicóloga americana Judith Beck, autora do livro Pense Magro – A Dieta Definitiva de Beck, recém-lançado no Brasil pela editora Artmed.

O objetivo da TCC é, por meio da combinação de confronto e resistência, "desligar" os comandos cerebrais que acionam os pensamentos distorcidos – no caso, aqueles que levam as pessoas a empanturrar-se. De fato, na maioria das vezes, as pessoas que pensam gordo o fazem por causa de uma associação meramente subjetiva entre comida e determinados sentimentos. Há as que comem porque estão felizes e as que comem porque estão infelizes (ou ambos). Existem as que se empanzinam porque estão numa festa e vêem os outros comendo e as que se empacham porque estão completamente sozinhas (ou ambos)... Desconectar apetite e situação, eis a chave da terapia cognitivo-comportamental. O programa proposto por Judith Beck estabelece seis semanas – mais precisamente 42 dias – de exercícios práticos para desprogramar o cérebro da vontade injustificável de comer. Você confunde fome com gula? Um dos exercícios ajuda o pensador gordo a diferenciar uma da outra. Você mal acaba o almoço e já imagina como será o jantar? Judith ensina a fazer como os magros – que só pensam em comida no horário da refeição.

Judith é filha do psiquiatra Aaron Beck, fundador, nos anos 60, da terapia cognitivo-comportamental. Na visão dos adeptos desse método, grande parte dos distúrbios psíquicos, como a depressão, a ansiedade e as fobias, deve-se a interpretações errôneas do mundo concreto. Assim, o substrato da TCC é a exposição da pessoa à realidade que a afeta, de modo a levá-la a reagir proporcionalmente a ela. Em geral, o prazo é de vinte sessões. No tratamento de fobias, por exemplo, confronta-se o paciente com o objeto de seu medo exagerado. Se a fobia é de cachorro, o fóbico "desaprende" a temer o animal entrando em contato direto com ele. Judith sugere que o compulsivo por comida a enfrente como quem se expõe ao pavor por cachorro. 

As bases da terapia cognitivo-comportamental, cujas taxas de sucesso são bastante altas (veja quadro nas páginas 156 e 157), remontam às teorias do médico russo Ivan Pavlov (1849-1936) e às do psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), precursores do behaviorismo. Pavlov formulou a tese do reflexo condicionado, segundo a qual a repetição constante de um estímulo "ensina" o sistema nervoso a responder invariavelmente da mesma forma. Sua teoria foi elaborada a partir de estudos com cães que eram alimentados depois que ele tocava um sino. 

Com o tempo, Pavlov constatou que bastava tocar o sino para que os animais salivassem. Skinner, por sua vez, chegou ao conceito de condicionamento operante, por meio de experiências com ratos de laboratório. Quando os roedores apertavam um botão, uma portinhola com comida se abria. Os ratos, por fim, aprenderam que, para comer, era preciso pressionar o botão. A diferença entre o reflexo condicionado de Pavlov e o condicionamento operante de Skinner é que o primeiro é uma resposta a um estímulo puramente externo (o sino toca, o cachorro saliva), ao passo que o segundo é o hábito produzido por uma ação estranha à natureza do animal (o rato que aperta botão para comer). 

Na terapia cognitivo-comportamental, para simplificar, o sino e a portinhola seriam os estímulos (ou desestímulos) que contrariam a tendência doentia – sejam eles o confronto calculado do fóbico com o objeto do medo ou o auto-elogio de quem resiste a uma refeição gordurosa.

Por ser um programa de treinamento psicológico, o livro Pense Magro é um manual sobre dieta sem nenhuma receita alimentar. Sua autora não recomenda nem condena nenhum alimento. Ela preconiza que, com uma programação mental adequada, qualquer dieta razoável dá certo – permanentemente. A psicóloga começou a utilizar o método para o controle de peso há vinte anos, em pacientes psiquiátricos que engordavam por causa dos efeitos colaterais de medicamentos. Embora a ansiedade integre a personalidade de quase todos os gulosos, a terapia cognitivo-comportamental, ao contrário da psicanálise, não sai em busca dos motivos que levam uma pessoa a afogar as mágoas numa travessa de espaguete. Simplesmente ensina como anular os pensamentos engordativos. "Eu era do tipo que sempre fazia uma pausa para beliscar. 

Tudo era motivo para parar o que eu estava fazendo e ir atrás de um lanchinho", conta a carioca Ialda Costa de Farias. Há cerca de quatro anos, ela mudou a sua relação com a comida. Por meio da TCC, conseguiu regular suas escolhas, antes marcadas pela compulsão. Agora, sua palavra de ordem é planejamento. Ela sabe exatamente o que e quanto vai comer ao longo do dia e, obedecendo aos ditames da terapia, anota minuciosamente todas as suas refeições, inclusive as escapadelas. Perdeu 31 quilos desde então e não os incorporou mais. "Só de saber que terá de anotar os erros e os excessos alimentares cometidos, a pessoa já pensa duas vezes antes de comer exageradamente", diz o endocrinologista Walmir Coutinho, vice-presidente da Associação Internacional para o Estudo da Obesidade.

Judith mantém há dez anos o mesmo peso – 52,5 quilos distribuídos em 1,61 metro – graças, ela jura, à terapia cognitivo-comportamental. Ex-cheinha (pesava 8 quilos a mais), agora pensa magro. E reafirma que ninguém se mantém enxuto sem algum sacrifício dietético. Ainda não há estudos sobre as alterações na química cerebral de quem usa a TCC para emagrecer, como ocorre em relação aos pacientes de depressão que recorrem à terapia. Mas as pesquisas clínicas são animadoras. A mais célebre foi conduzida por pesquisadores suecos, com dois grupos – em dez semanas, aquele que se submeteu à terapia perdeu 8 quilos, em média. Passados dezoito meses, 92% dos seus participantes haviam emagrecido ainda mais. Já o grupo de controle, que só fez dieta, voltou a engordar depois de um ano e meio.

Driblar a compulsão por comida é tarefa das mais difíceis. Para se ter uma idéia do seu grau de complexidade, a linha mais recente de pesquisas sobre os mecanismos da obesidade a compara ao vício, por envolver o sistema cerebral de recompensa. "Em obesos, o metabolismo cerebral é muito semelhante ao dos viciados em drogas", diz Ivan de Araújo, neurofisiologista e pesquisador da Escola de Medicina da Universidade Yale, nos Estados Unidos. No cérebro dos gordos, por uma deficiência na atividade do neurotransmissor dopamina, o grau de recompensa gerado pela ingestão de alimentos é menor que no dos magros. Para se sentirem satisfeitos, portanto, eles precisam comer mais. É provável que novos estudos mostrem que o recondicionamento para pensar magro transforma a química cerebral. Não há nada de mágico nisso – errou quem fez associações entre o livro de Judith e O Segredo, da australiana Rhonda Byrne, a auto-ajuda que requenta a lengalenga de que o "pensamento positivo" opera milagres. 

Pensar magro demanda empenho e disciplina. Envolve cultivar melhor as emoções e adquirir novos comportamentos. A perda de peso não é da noite para o dia. Em situações mais difíceis, para prevenir as recaídas, seguir o manual não é suficiente. Torna-se necessário recorrer a um especialista. "Na luta contra o excesso de peso, não existe bala de prata", diz Mônica Duchesne, terapeuta cognitivo-comportamental e coordenadora do grupo de obesidade e transtornos alimentares da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Existe trabalho. Vá à luta.
Anna Paula Buchalla

4 de jan. de 2014

A divina tragédia de Belchior


Capítulo 1
“No trevo, a 100 por hora” 

Edna Prometheu é o pseudônimo da produtora cultural Edna Assunção de Araújo, de 46 anos. Morena, de cabelos encaracolados e baixa estatura, não é uma mulher de beleza estonteante. 
Militante de organizações de extrema-esquerda, é definida por seus amigos como “idealista utópica”. No começo de 2005, ela estava em São Paulo, no ateliê do artista plástico cearense Aldemir Martins, já morto, quando entrou pela porta o músico Belchior. O cantor de “Paralelas” também pinta quadros e frequenta o ambiente artístico. Edna queria organizar uma exposição de Aldemir no Ceará. Belchior disse que tinha amigos por lá, poderia ajudar. Trocaram telefones.
Os dois acabaram organizando juntos a exposição em Fortaleza, naquele mesmo ano. Na volta, Edna ligou para um amigo e contou a novidade: “Estamos namorando”. A partir daí, a vida plácida de Belchior derrapou no trevo a 100 por hora, como diz a letra de “Paralelas”. Para ficar com Edna, ele abandonou a então mulher, Ângela, com quem estava casado havia 35 anos, mãe de dois dos quatro filhos que tem. Afastou-se dos amigos e foi gradativamente deixando de fazer shows, até sumir sem dar explicações, em 2009. “Essa figura nefasta está fazendo uma lavagem cerebral nele”, afirma Jackson Martins, ex-empresário de Belchior. “Depois dela, sua vida só andou para trás”, diz o artista plástico cearense Tota, amigo de Belchior.

A FELICIDADE É UMA ARMA QUENTE Belchior com a mulher, a produtora cultural Edna Prometheu. “Eles juntaram suas utopias”, diz o amigo José Roberto Aguilar (Foto: Bruno Alencastro/Ag. RBS)
O desaparecimento de Belchior, há cinco anos, surpreendeu a todos, família e amigos. Ninguém poderia esperar tal atitude. Ele deixou para trás a agenda de shows e todo o patrimônio, incluindo roupas, documentos, quadros, automóveis e apartamento. O sumiço transformou Belchior em figura cult. A pergunta “onde está Belchior?” ecoou na internet e teve até repercussão internacional. Surgiram blogs sobre o tema. Campanhas nas redes sociais pediram a volta do músico. E apareceram montagens cômicas – “memes” – em que Belchior aparece em locais inusitados como a ilha do seriado Lost. Suas músicas no YouTube, que antes tinham 5 mil acessos diários, hoje batem 500 mil. 

O sucesso no mundo virtual não trouxe nenhum benefício para o Belchior de carne e osso. Aos 67 anos, ele vive escondido com Edna em Porto Alegre. Não pode sair em público, pois é procurado pela polícia. Pesam contra Belchior dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias. Uma devida à ex-mulher Ângela, com quem tem dois filhos já maiores de idade, e outra à mãe de uma filha de 19 anos que teve fora do casamento. Além das pensões, Belchior abandonou todos os demais compromissos e é cobrado na Justiça em processos que correm à revelia. O ex-secretário particular de Belchior, Célio Silva, ganhou um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão. Não há mais como recorrer. As contas de Belchior estão bloqueadas, e os imóveis que tinha comprometidos. Sem dinheiro, ele já se abrigou numa instituição de caridade no Rio Grande do Sul e morou de favor na casa de fãs que nem conhecia. 

O mais intrigante na espantosa história de Belchior é que ele aparentemente não agiu movido por depressão, dívidas ou golpe publicitário, como se pensou no princípio. A influência da mulher é apontada pela maioria dos amigos como o motivo do seu comportamento. Ainda assim, não há unanimidade. “Edna não conseguiria sozinha virar a cabeça de alguém inteligente como Belchior. São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”, diz o artista plástico José Roberto Aguilar, de 72 anos, amigo do casal. 
Belchior nasceu numa família simples no interior do Ceará. Foi o mais bem-sucedido entre 23 irmãos. Estudou medicina na capital. Abandonou o curso depois de quatro anos, para ingressar na carreira artística. Estourou nos festivais na década de 1970 e compôs músicas com letras poderosas, como “A palo seco”. Seus sucessos foram gravados por Elis Regina, Jair Rodrigues e Roberto Carlos. Belchior é um artista com vasta cultura, domina cinco idiomas, conhece filosofia e gosta de física quântica. Até os anos 2000, lançava em média um disco por ano. “Ele era uma máquina, chegava a fazer três shows por noite. Era uma pessoa completamente dedicada à carreira”, diz o parceiro e ex-sócio Jorge Mello. 
Tudo isso ficou para trás. O sumiço de Belchior lembra o caso do escritor russo Liev Tolstói. Aos 82 anos, ele abandonou tudo para viver como camponês. Tolstói teve um fim trágico – morreu de pneumonia depois de viajar na terceira classe de um trem durante o inverno soviético. Belchior, quanto mais se afasta da vida em sociedade, mais se afunda em dificuldades mundanas. 


Capítulo 2
“Onde nada é eterno”

Depois que conheceu Edna, Belchior percorreu uma trajetória descendente em que, aos poucos, se despojou de todos os bens e obrigações. No final de 2006, ainda com a carreira aquecida, pediu que o empresário Jackson Martins parasse de agendar novos shows. Pretendia passar um tempo se dedicando à pintura e à tradução do poema Divina comédia, de Dante Alighieri, para uma linguagem popular. No início do ano seguinte, deixou o apartamento em que vivia com Ângela, mas continuou morando em São Paulo com Edna, num flat alugado. Desde então, a família diz não ter mais notícias dele. Belchior não era um marido muito presente, ficava até dois meses sem aparecer em casa. Teve duas filhas fora do casamento. Uma delas com uma fã que morava em São Carlos, no interior de São Paulo, com quem saiu uma única vez. A outra era fruto de um caso com uma estudante de psicologia no Ceará. Belchior pagava pensão alimentícia para a primeira. A família da segunda menina, hoje com 16 anos, não o acionou na Justiça.

As complicações começaram a aparecer em 2008. Ângela cobrava na Justiça uma pensão mensal de R$ 7 mil. Belchior se recusou a pagar. Na época, deixou de pagar também a outra pensão. Seus amigos notaram uma diferença de comportamento. “Ele parecia estranho. Me ligou perguntando sobre amigos que não vemos há 30 anos, num tom de voz que não era o seu”, diz Jorge Mello. Em outubro daquele ano, abandonou um carro no estacionamento do aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Belchior continuou em São Paulo até março de 2009, quando deixou o flat sem quitar os últimos meses de aluguel. Na garagem, ele largou um segundo carro, e em seu apartamento ficaram roupas, rascunhos de música, cartões de crédito e o passaporte. Belchior também abandonou tudo na casa alugada onde funcionava seu escritório: coleção de quadros, discos, documentos e o computador onde estava parte da tradução da Divina comédia, projeto que lhe consumira três anos. Seu secretário, Célio Silva, continuou abrindo o escritório, na esperança de que retornasse. 
Belchior viajara com Edna para o Uruguai, onde descansava num vilarejo. Foi processado por Célio e por todos os credores que ficaram em São Paulo. Não se defendeu. Foi representado por defensores públicos até nos processos de pensão alimentícia. Como consequência, suas contas foram bloqueadas, e apareceram dois mandados de prisão contra ele, já que não pagar pensão é um crime passível de cadeia.
“Como não tive contato com ele, a defesa ficou restrita a questões formais”, diz a defensora Claudia Tannuri, escolhida para defendê-lo no processo movido pela ex-mulher Ângela. Belchior nem sequer se importou com o destino de seus pertences. As roupas que estavam no flat foram doadas à caridade. A filha mais velha recolheu os documentos. Os carros foram levados para depósitos públicos. A dívida com os estacionamentos já ultrapassava seu valor. O proprietário do imóvel onde funcionava o escritório lacrou o lugar e recolheu os pertences. Seus quadros se perderam com a umidade.

Como na música “Divina comédia humana”, “em que nada é eterno”, Belchior e Edna perambularam durante todo esse período de hotel em hotel – várias vezes, sem pagar a conta. Amigos culpam Edna pela iniciativa. O primeiro hotel em que isso aconteceu foi o Gran Marquise, em Fortaleza. Os dois ficaram hospedados ali ainda em 2006. Saíram sem pagar dois meses de estadia, no valor de R$ 8 mil.

Depois, repetiram a prática em pelo menos quatro locais. No Icaraí Praia Hotel, em Niterói, deixaram uma conta de R$ 4 mil. “Alguns funcionários tiveram de arcar com parte da dívida, já que permitiram que ele ficasse hospedado mais de uma semana sem pagar a conta”, diz o atual gerente, Germano Lopes. No Royal Jardins Boutique, em São Paulo, a conta pendurada foi de R$ 12 mil. “Eles deixaram um cheque caução, mas não tinha fundos”, diz Elly Shimasaki, gerente na ocasião.
O caso mais recente foi no hotel Cassino, na cidade de Artigas, no Uruguai, onde o casal se hospedou entre julho de 2011 e novembro de 2012. Os últimos meses ficaram sem pagamento, restando uma dívida de R$ 35 mil. Lá, Belchior deixou para trás roupas e um laptop. 

“É uma lástima que um artista brasileiro dessa importância tenha agido assim”, diz o gerente uruguaio Ricardo Rodrigues. O hotel entrou com uma queixa criminal contra o casal.

Capítulo 3 
“Sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco” 

Nos últimos anos, Belchior se manteve à distância de qualquer atividade remunerada. Em 2009, quando o desaparecimento ganhou repercussão nacional, a montadora General Motors ofereceu um cachê milionário para ele aparecer num comercial. Belchior deveria dizer que, com o novo carro da GM, até ele voltava. Belchior recusou o convite e ficou bastante chateado com o teor da proposta. O empresário Jackson Martins diz que recebe constantes pedidos para shows, mas não consegue localizá-lo desde 2007. “Pago as dívidas dele se ele voltar”, diz. Outro empresário que trabalhou com Belchior por quase 30 anos, Hélio Rodrigues, diz que o desaparecimento fez aumentar o interesse do público. “Depois do escândalo, ele consegue lotar qualquer casa de espetáculo. Com dois shows em São Paulo, eliminaria as dívidas”, diz. 

Hoje, a maior pendência de Belchior é o processo trabalhista ganho pelo secretário Célio, no valor de R$ 1 milhão. A causa está julgada. Um apartamento de propriedade do músico em São Paulo está em execução. A dívida da pensão para a ex-mulher Ângela soma cerca de R$ 300 mil. Mas cresce a cada dia, já que Belchior continua obrigado a pagar R$ 7 mil por mês. “O sumiço só agravou a situação dele. Se não tem dinheiro, deveria enfrentar juridicamente o processo, argumentando que não pode pagar”, diz Paulo Sato, advogado de Ângela. A pensão atrasada da filha que mora em São Carlos gira em torno de R$ 90 mil. As dívidas com hotéis cobradas na Justiça somam R$ 47 mil. Não são impagáveis, desde que Belchior volte a se apresentar. 
A derradeira fonte de renda de Belchior eram os direitos autorais de suas músicas. Segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), nos últimos cinco anos foram depositados R$ 367 mil referentes à execução pública de suas obras. Parte do dinheiro ficou retida quando as contas bancárias foram bloqueadas. Desde então, Belchior não contou com nenhum outro tipo de renda. 

Capítulo 4 
“Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho” 

Em janeiro deste ano, Edna e Belchior procuraram a Defensoria Pública em Porto Alegre. A história ganhou ingredientes ainda mais estranhos. Os dois alegavam que o bloqueio das contas e os mandados de prisão impediam que ele trabalhasse e voltasse a ganhar dinheiro para pagar as dívidas. Belchior aparentemente estava disposto a voltar. Mas o comportamento do casal era confuso. Edna falava desbragadamente, enquanto Belchior ficava quase sempre calado. “Durante um mês, me informei sobre os processos que tramitam em São Paulo. Fizemos um pedido judicial para a suspensão da execução, até que ele conseguisse se restabelecer. Nesse meio-tempo, Belchior sumiu”, diz a defensora pública Luciana Kern, que o atendeu. 

Nesse mesmo período, Edna ligou para o jornalista gaúcho Juremir Machado, que não conhecia. Disse que Belchior estava escondido na cidade e precisava de ajuda. Ela queria que Juremir os levasse à sede regional da TV Record para fazer uma denúncia delirante. Juremir notou algo de incomum no casal. Eles se escondiam atrás de pilastras e ficavam olhando a movimentação nas ruas antes de entrar em algum lugar, como se fossem seguidos. Na retransmissora da TV, Edna afirmou ter um dossiê contra a TV Globo. O programa Fantásticonoticiara o desaparecimento de Belchior em 2009 e a fuga do hotel uruguaio, em 2012. “Ela dizia que Belchior era difamado pela Globo e queria justiça. Falou até que havia uma tentativa de matá-lo”, diz a jornalista Vânia Lain, que recebeu os dois. Eles disseram que voltariam na semana seguinte trazendo os documentos, mas desapareceram.

Em Porto Alegre, Belchior e Edna ficaram inicialmente hospedados num hotel simples no centro, pago com ajuda dos funcionários do Tribunal de Justiça, primeira porta em que o casal bateu quando chegou à capital gaúcha. Depois, foram abrigados no Centro Infantojuvenil Luiz Itamar, instituição de caridade na região metropolitana. Dali, foram levados ao advogado Aramis Nacif, ex-desembargador do Estado, que poderia ajudar Belchior com os processos. “Ele dizia que um agente apareceria, mas nunca apareceu”, diz Nacif. Durante um mês, o casal ficou abrigado na casa de praia do filho dele. “Eles não tinham dinheiro algum. Edna apresentava um sentimento de perseguição muito grande, parecia ter algum distúrbio psicológico”, diz. Foi nesse momento que Belchior conheceu o advogado Jorge Cabral, na casa de quem se hospedou por quatro meses. 

Cabral tomou um susto ao perceber que um músico importante como Belchior estava ali. E os convidou para ir a um sítio de sua propriedade, em Guaíba, local mais agradável. Belchior e Edna continuavam sem dinheiro. Nesse período, o advogado levou mantimentos, roupas, itens de higiene pessoal e até tintura para Belchior pintar os bigodes de preto.

No sítio de Cabral, Belchior não bebia nem comia carne vermelha. Passava os dias tomando chá, caminhando e cuidando das ovelhas. Fazia muitas anotações em papéis, que escondia numa pasta. Durante esse período, gastou duas canetas inteiras. Leu cerca de 40 livros. Não apresentava sinais de depressão. Parecia, segundo Cabral, alheio aos problemas que o cercavam. “Eu imaginava que ele era apenas um compositor nordestino, mas encontrei um artista plástico, um pensador, um filósofo”, diz Cabral. Ele pretende escrever um livro sobre a experiência.

Belchior só não gostava de falar sobre sua situação. Recusava-se a tocar violão e cantar. Edna impedia que ele fosse fotografado. O casal também não tomava nenhuma providência para resolver os problemas jurídicos. “A gente esperava que a situação se resolvesse, mas não acontecia nada. E aquilo não condizia com um homem lúcido, com memória fantástica, que fala várias línguas e tem uma quantidade enorme de músicas gravadas”, diz Jorge Cabral. 

“Esse tempo que ele falou que daria na carreira já está longo demais. Só queremos notícias dele”, diz a irmã, Ângela Belchior. Belchior não apareceu nem no enterro da mãe, que morreu em 2011. Por telefone, a ex-mulher Ângela soa reticente. Não gosta de falar sobre um assunto tão delicado com a imprensa. Ela conta que, desde 2007, Belchior não entra em contato nem com os filhos. “Não entendo. Os empresários dele não entendem”, diz.

Em julho deste ano, Cabral pediu que o casal saísse, dado que Belchior e Edna não davam sinal de acabar com aquela situação de total dependência. Ele os deixou na porta da sede regional da União Brasileira de Compositores, com R$ 50 no bolso. Na União, Belchior tentou desbloquear o pagamento de seus direitos autorais, comprometido pelos processos na Justiça. Não conseguiu.


Belchior foi visto pela última vez na entrada do prédio, um edifício moderno num bairro de classe média de Porto Alegre, em frente a uma avenida bastante movimentada. Carregava uma pequena mala nas mãos e material de pintura debaixo do braço. Belchior – na belíssima letra de “Comentário a respeito de John”, ele cantava “eu prefiro andar sozinho” – estava, como sempre, ao lado de Edna.


CANTOR EM FUGA 1. Com o advogado Jorge Cabral, que hospedou Belchior em seu sítio em Guaíba, Rio Grande do Sul 2. Na União Brasileira de Compositores  3. Num hotel no Uruguai, de onde saiu sem pagar a conta (Foto: Reprodução e arq. pessoal )
CANTOR EM FUGA
À esq., com o advogado Jorge Cabral, que hospedou Belchior em seu sítio em Guaíba, Rio Grande do Sul. Acima, à direita, na União Brasileira de Compositores, abaixo, em um hotel no Uruguai, de onde saiu sem pagar a conta (Foto: Reprodução e arq. pessoal)
Marcelo Bortoloti Revista Época

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