27 de dez. de 2013

Id, Ego e Superego - Freud

Nos primeiros trabalhos, Freud sugeria a divisão da vida mental em duas partes: consciente e inconsciente. 
A porção consciente, assim como a parte visível do iceberg, seria pequena e insignificante, preservando apenas uma visão superficial de toda a personalidade. 
A imensa e poderosa porção inconsciente - assim como a parte submersa do iceberg - conteria os instintos, ou seja, as forças propulsoras de todo comportamento humano.
Nos trabalhos posteriores, Freud reavaliou essa distinção simples entre o consciente e o inconsciente e propôs os conceitos de Id, Ego e Superego
ID
O "ID", grosso modo, correspondente à sua noção inicial de inconsciente, seria a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade. 
Freud afirmou: 
"Nós chamamos de (...) um caldeirão cheio de excitações fervescentes. [O id] desconhece o julgamento de valores, o bem e o mal, a moralidade"
As forças do id buscam a satisfação imediata sem tomar conhecimento das circunstâncias da realidade. Funcionam de acordo com o princípio do prazer, preocupadas em reduzir a tensão mediante a busca do prazer e evitando a dor. 
A palavra em alemão usada por Freud para id era es, que queria dizer "isso", termo sugerido pelo psicanalista Georg Grddeck, que enviara a Freud o manuscrito do seu livro intitulado The book of it.
O id contém a nossa energia psíquica básica, ou a libido, e se expressa por meio da redução de tensão. Assim, agimos na tentativa de reduzir essa tensão a um nível mais tolerável. Para satisfazer às necessidades e manter um nìvel confortável de tensão, é necessário interagir com o mundo real. Por exemplo: as pessoas famintas devem ir em busca de comida, caso queiram descarregar a tensão induzida pela fome. Portanto, é necessário estabelecer alguma espécie de ligação adequada entre as demandas do id e a realidade.
EGO
ego serve como mediador, um facilitador da interação entre o id e as circunstâncias do mundo externo. O ego representa a razão ou a racionalidade, ao contrário da paixão insistente e irracional do id.
Freud chamava o ego de ich, traduzido para o inglês como  "I"  (Eu"  em português). Ele não gostava da palavra ego e raramente a usava. Enquanto o id anseia cegamente e ignora a realidade, o ego tem consciência da realidade, manipula-a e, dessa forma, regula o id
ego obedece ao princípio da realidade, refreando as demandas em busca do prazer até encontrar o objeto apropriado para satisfazer a necessidade e reduzir a tensão. 
O ego não existe sem o id; ao contrário, o ego extrai sua força do id
O ego existe para ajudar o id e está constantemente lutando para satisfazer os instintos do id. 
Freud comparava a interação entre o ego e o id com o cavaleiro montando um cavalo, que fornece energia para mover o cavaleiro pela trilha mas a força do animal deve ser conduzida ou refreada com as  rédeas, senão acaba derrotando o ego racional.
SUPEREGO
A terceira parte da estrutura da personalidade definida por Freud,o superego,desenvolve-se desde o inicio da vida, quando a criança assimila as regras de comportamento ensinadas pelos pais ou responsáveis mediante o sistema de recompensas e punições. 
O comportamento inadequado  sujeito à punição torna-se parte da consciência da criança, uma porção do superego. O comportamento aceitável para os pais ou para o grupo social e que proporcione a recompensa torna-se parte do ego-ideal, a outra porção do superego
Dessa forma, o comportamento é determinado inicialmente pelas ações dos pais; no entanto, uma vez formado o superego, o comportamento é determinado pelo autocontrole. 
Nesse ponto, a pessoa administra as próprias recompensas ou punições. 
O termo cunhado por Freud para o superego foi über-ich, que significa literalmente "sobre-eu".
superego representa a moralidade. 
Freud descreveu-o como o "defensor da luta em busca da perfeição - o superego é, resumindo, o máximo assimilado psicologicamente pelo indivíduo do que é considerado o lado superior da vida humana". 
Observe-se então, que, obviamente, o superego estará em conflito com o id. Ao contrário do ego, que tenta adiar a satisfação do id para momentos e lugares mais adequados, o superego tenta inibir a completa satisfação do id.
Assim Freud imaginava a constante luta dentro da personalidade quando o ego é pressionado pelas forças contrárias insistentes. O ego deve tentar retardar os ímpetos agressivos e sexuais do id, perceber e manipular a realidade para aliviar a tensão resultante, e lidar com a busca do superego pela perfeição. E, quando o ego é pressionado demais, o resultado é a condição definida por Freud como ansiedade.
Portanto:
Id: fonte de energia psíquica e o aspecto da personalidade relacionado aos instintos.
Ego: aspecto racional da personalidade responsável pelo controle dos instintos.
Superego: o aspecto moral da personalidade, produto da internalização dos valores e padrões recebidos dos pais e da sociedade.

Em outras palavras:

ID: Constitui o reservatório de energia psíquica, é onde se localizam as pulsões de vida e de morte. As características atribuídas ao sistema inconsciente. É regido pelo princípio do prazer (Psiquê que visa apenas o prazer do indivíduo).
EGO: É o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as exigências da realidade e as ordens do superego. A verdadeira personalidade, que decide se acata as decisões do (Id) ou do (Superego).
SUPEREGO: Origina-se com o complexo do Édipo, a partir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. (É algo além do ego que censura e diz: "Isso não está certo, não faça aquilo, não faça isso, ou seja, aquela que dói quando prejudicamos alguém, é o nosso freio".
Fonte: Psicoloucos (com pequenas alterações)

23 de dez. de 2013

Por que Papai Noel ainda fascina

No dia 25 de outubro, dois meses antes do Natal, o capixaba Ryan Lucas Teixeira da Silva, 9 anos, colocou seus brinquedos de lado, se sentou em uma mesa, pegou papel e caneta azul e começou a escrever uma carta para o Papai Noel.

“Minha família é maravilhosa e me dá tudo o que eu preciso, por isso quero que o senhor entregue meu presente a uma criança que precise mais do que eu”, pediu. No final da mensagem, se despediu desejando feliz Natal ao destinatário, aos seus ajudantes e a todas as crianças do mundo.

Nessa época, a fantasia do Papai Noel povoa o imaginário infantil. Prova disso é que os Correios estimam receber, só neste ano, cerca de um milhão de cartas de todo o País endereçadas a ele. Imagens do velhinho simpático vestido de vermelho estão por todos os lados. Enquanto isso, a maioria das crianças ouve dos adultos que ele será o responsável por trazer os presentes na noite de Natal. Chegará solenemente num trenó, conduzido por elegantes renas, entrará nas casas de todo o mundo, numa mesma madrugada, depositando os sonhos infantis sob as árvores iluminadas.
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Mas, diante de uma geração tão familiarizada com as novas tecnologias e que parece saltar a etapa da infância dedicada à fantasia, uma dúvida dos pais é recorrente: ainda faz sentido incentivar o mito do Papai Noel?


Para os especialistas, a resposta é sim. Até os 7 anos, as crianças vivem o período do desenvolvimento cognitivo, em que seu entendimento do mundo acontece por meio do imaginário, do fantástico. Reproduzir a história do Papai Noel, um personagem caloroso e solidário, seria uma maneira de estimular a criatividade e inserir no universo infantil valores como a benevolência e a preocupação com o bem-estar do outro – ensinamentos que o pequeno Ryan parece ter assimilado muito bem. “Não se pode ficar preso à questão concreta, do presente. 

O bacana de ter a figura do Bom Velhinho é passar a ideia de generosidade, pois a criança leva esse conceito para outras épocas do ano”, afirma Ivete Gattás, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Abusar da sinceridade e dizer que o Papai Noel não existe pode quebrar esse encantamento, segundo a psicopedagoga Teresa Messeder Andion, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia. “A criança ouve a história na escola, escuta os amiguinhos falando e vê imagens de Natal espalhadas; portanto, é natural assimilar a fantasia. Então, se em casa a família diz que é mentira, ela vai viver em contradição”, diz.

A melhor escolha dos pais, segundo os educadores, é deixar o filho fazer suas descobertas naturalmente. “Caso ele pergunte se Papai Noel existe, a saída é ouvi-lo, tentar saber o que ele entende do Natal e responder à pergunta questionando se ele acredita”, afirma a psicopedagoga Teresa. A analista de tecnologia da informação Gleise Segatto de Oliveira Teixeira, 32 anos, deixou que a filha Iara, de 6 anos, tomasse sua própria decisão. Apesar de não incentivar o mito, ouviu-a perguntar ao pai, o também analista Jeyson Teixeira, 44 anos, se ele acreditava no personagem.

“Ele disse que não, mas que há pessoas que acreditam. E ela optou por crer na história mais por influência da comunidade”, diz Gleise, que não monta árvore nem dá presentes para a filha no Natal. A aeroviária Monica Seminara, 43 anos, preferiu dar outra resposta quando ouviu a pergunta do filho Gabriel, 10 anos. “Eu disse que acreditava. Queria que ele continuasse acreditando também. Mas, sozinho, foi descobrindo que não passava de uma lenda.” A outra filha, Isabel, 7 anos, ainda espera a visita do Papai Noel. “Converso com a Isa sobre como ele atende os sonhos das crianças. É uma lição de esperança, uma história bonita.”
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Normalmente, os questionamentos começam a surgir na idade de Iara, aos 6 anos. “Acontece uma virada na capacidade da criança e ela passa a ficar mais atenta ao mundo real do que ao imaginário. Não por acaso é a idade que ela entra na escola”, afirma Ivete, da Unifesp. “É quando começam a fazer as associações e por si só passam a questionar.” A fase da infância em que é mais provável acreditar e se divertir com o Papai Noel é entre os 4 e os 7 anos de idade, afirma a psicopedagoga Teresa. “Até os 3 anos, a criança estranha mais ao ver uma pessoa fantasiada.”

Com um filho de 4 anos em casa, a projetista Alessandra Barth, 37 anos, incentiva a brincadeira. “Deixo o Edgar imaginar, sonhar. Gosto disso”, diz a mãe, que o ajuda a escrever as cartas. Já a filha da professora Itália Nicolai, 48 anos, Mirella, 8, entrou na etapa da dúvida. “No ano passado, meu primo se fantasiou e não tirou o tênis. Ela percebeu que era ele por causa do calçado”, diz. O mais velho, Erick, 10 anos, já não acredita mais. “Ele descobriu pelos amigos e nos perguntou. Vimos que não tinha mais jeito e contamos a verdade. Foi tranquilo.” A mãe só pediu a Erick que não revelasse a verdade à irmã. “Quero que ela acredite até quando for possível.” Mas, na hora em que se der conta, o melhor é não insistir. Caso contrário, os pais correm o risco de o filho fingir crer na lenda somente para agradá-los.
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Outro erro tão comum quanto grave: associar o Papai Noel unicamente ao consumo. Claro que a criança vai relacionar a noite de Natal aos presentes, mas a reunião familiar, a história por trás do mito e o sentido da comemoração do nascimento de Jesus, caso a família seja religiosa, precisam ser lembrados. “Nesse momento, a convivência é o mais importante. Não se pode deixar levar apenas pela questão material”, afirma a pediatra Evelyn Eisenstein, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Outro problema é usar a figura como um sistema de recompensa. “É muito melhor os pais dizerem que o que filho fez não foi legal do que afirmar que o Papai Noel não vai lhe trazer presentes. Eles saem do papel de educadores e passam a função ao personagem. É um desserviço à educação da criança”, diz Ivete, da Unifesp.

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Uma questão dos dias de hoje é que, com a geração atual, superconectada a tablets, smartphones e computadores, manter um mito como o do Papai Noel fica mais difícil. “Elas têm mais acesso à informação e o desenvolvimento neurológico é mais precoce”, afirma o pediatra Marcelo Reibscheid. Segundo Tatiana Jereissati, coordenadora de pesquisas do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic), a internet tem forte presença no cotidiano infantil. Andréa Jotta, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que, por conta disso, as novas gerações não estão acostumadas com uma única resposta às suas dúvidas, pois sabem que podem chegar facilmente a diferentes explicações.

“Se tiver curiosidade e estiver na idade de pré-alfabetização, consegue acessar essas informações sozinha”, diz. O interessante, então, é não acabar com a fantasia, mas tentar negociar. Mostrar que o Papai Noel pode não existir, mas é símbolo do Natal, que há lendas a seu respeito fazendo parte de uma cultura. Para Evelyn, da Uerj, a figura do Papai Noel pode ser ainda mais importante no momento atual. “As crianças muito conectadas não sabem mais lidar com os sentimentos, pois a vivência se volta para o virtual”, afirma ela, que é autora do livro “Geração Digital: Riscos das Novas Tecnologias para Crianças e Adolescentes”. “Por isso, é ainda mais interessante inserir os mitos, pois o que envolve a brincadeira, como alguém da família se vestir de Papai Noel, pode trazer o ‘sentir’ de volta.”

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As tradições envolvendo a visita do Papai Noel na noite de Natal são relativamente recentes (leia na pág. 62). Segundo o historiador Gerry Bowler, professor de história do Natal na Universidade de Manitoba, no Canadá, a maioria das lendas sobre o personagem surgiu no fim do século XIX. “Era uma época em que a criação dos filhos estava se tornando menos dura e mais sentimental. Também era o momento da Revolução Industrial, quando cresceu a produção de mercadorias e os preços diminuíram. Papai Noel permitiu aos pais serem generosos com as crianças uma vez no ano e as vendas aumentaram durante essa época”, afirma Bowler.

A origem do mito, porém, é bem mais antiga e está ligada à Igreja Católica. A história começa com São Nicolau, bispo de Mira, na Turquia, entre os séculos III e IV, conhecido por presentear crianças com roupas e alimentos. “São Nicolau dedicou sua vida para ajudar os outros. Ele evangelizava com gestos, algo muito parecido com o que o papa Francisco faz atualmente”, diz o padre Rafael Javier Magul, pároco da igreja ortodoxa São Nicolau, de Goiânia. Para o sacerdote, os pais devem aproveitar essa imagem que já existe para contar a história do homem generoso por trás da lenda. “Papai Noel existiu de verdade e foi uma pessoa misericordiosa que não se esquecia de ninguém”, diz padre Rafael. Talvez por isso ocupe um espaço tão privilegiado no imaginário infantil.
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Camila Brandalise

Chegou o Natal, outro ano acabou e o tempo...

Corre. O ano está acabando e você tem pouco tempo para decifrar o filho que acabou de chegar. Esses choros todos, esses sorrisos enigmáticos, esses olhares perdidos cheios de significados...o que dirão? Logo ele terá um ano, e aqueles olhares ganharão foco, embora sejam facilmente desviados. Novos desafios se apresentarão nesse diálogo entremeado de silêncios e sílabas desconexas, e o bebê que ficava deitadinho no berço estará andando cambaleante por toda parte.

Levanta, você tem um filho de dois anos para correr atrás. Quando ele ampliar o vocabulário, parar de repetir o que ouve e você começar a se surpreender com essa fase, ele estará com três. Tá vendo?

Tão delicada essa criança, vulnerável e cheia de vontade. E cheia de brinquedos também. Como pode uma criança tão pequena acumular tanta tralha em tão pouco tempo? Nasceu outro dia e fala demais, o tempo todo, inclusive quando você não ouve. Presta bem atenção, o quarto continua bagunçado mas agora você tem um filho de quatro anos para cuidar.

Você precisa confirmar descobertas e ratificar perguntas. É o que ele espera de você. De uma hora para outra ele vai desenrolar a língua, deixar de falar como o Cebolinha e quando você estiver convencido sobre o método ideal para contornar as pirraças de uma criança de quatro, abrindo mão inclusive de escolher a roupa dela, ela completará cinco anos e talvez peça menos colo, embora você insista em dar, só que o peso faz diferença.

A criança definitivamente não cabe mais nos seus braços, ainda mais agora com seis anos. Sim, senhor, seu filho já fez seis anos e você terá menos tempo ainda para dar conta do que está acontecendo porque a primeira infância está se esvaindo, dentes caindo, outros demorando muito para aparecer, quando nascerão os dentes permanentes, você se pergunta.

Abra o olho porque quando eles nascerem, seu filho já terá sete anos de idade e estará oficialmente na segunda infância. Ficou para trás o tempo de semear as bases e cultivar os tais laços que, segundo psicanalistas, determinarão muita coisa daqui pra frente. Será que fiz tudo certo até aqui, em algum momento você se questionará. Ei, esquece isso, olha pra frente antes que o futuro te atropele.

Tem hora que você irá se perguntar também se está lidando com um adolescente em forma de criança. Onde raios foi parar sua criança? Seu filho - ou filha - parece repentinamente muito amadurecido, capaz de entabular diálogos e observações profundas, cruéis até e tocantes, mas tem hora que ele derrapa e você reencontra a criança de quatro. Arrá! Bastava isso para você ter certeza sobre ainda ter uma criança em casa, um alívio, não é, dá pelo menos para respirar um pouco.

Daí vida segue, a criança faz oito, dentes caem sem causar grandes rebuliços, nada de celebrações públicas a respeito do assunto porque ela odeia ser o centro das atenções, melhor poupá-la, embora aquele sorriso desencontrado de dentes em tamanhos tão diferentes seja até engraçado.

Você está tateando ainda sobre como funciona a cabeça de uma criança de oito anos mas eis que ela faz nove, caramba! Como assim? Surge um novo personagem, uma outra personalidade. A criança faladeira está mais contida, astuta, cheia de epifanias e tem momentos, honestamente, que você tem uma única certeza na vida: a pré-adolescência espreita sua casa. Não é assim? As crianças de hoje em dia estão cada vez mais espertas, amadurecem muito cedo, você tem provas disso em casa com seu filho de nove, digo, dez anos, desculpe, porque ele fez aniversário outro dia e todo mundo percebeu a grande mudança só que você precisou antes constatar uma penca de sapatos que não servem mais. Quem deixou tudo isso se acumular dentro do armário ao longo dos anos? Não foram anos? Foram meses?

A criança ganhou até bicicleta nova porque a outra ficou pequena. Está tão alta que todo mundo erra a idade. Já está com doze? Você diz, não, calma lá! Ainda consigo ver o couro cabeludo dela, quer dizer, eu conseguia até outro dia. Pra vocês verem como criança cresce rápido. Toma chá de trepadeira toda noite quando a gente não está olhando. Basta um momento de distração e lá está o filho de onze anos achando que agora sim é pré-adolescente e você mal decifrou o personagem de dez.

Para com isso, criança, você nem fez doze anos ainda. O quê? Desde quando você tem treze? A adolescência irrompeu porta adentro da casa como uma intempérie e você não viu, achou que era bobagem, mas bem que você desconfiava daquele ar de quem tudo sabe e não precisa mais de você nem de suas opiniões. Estamos falando da fase mais complicada, não é o que dizem? Altos e baixos, altos e baixos.

Você ainda está zonzo com a montanha-russa do crescimento do seu filho, mal se recuperou da primeira infância. Despediu-se sem acenar para vários personagens e não percebeu. Agora resta a saudade dilacerante dos detalhes evaporados pelo tempo. Ela dizia pacagaio e tevelisão. Não mais.

Manias se foram, trejeitos se instalaram, uma personalidade única desabrochou. Você até detecta heranças suas, mas são muitos os traços forasteiros. E se você parar um instante e olhar para fora, verá que tem um adulto aquecendo, quase pronto, doido para entrar em campo.
Isabel Clemente

19 de dez. de 2013

Calígula por Camus


“Calígula foi escrita em 1938, depois que fiz uma leitura da obra Doze Césares, de Suetônio. Eu destinei esta peça a um pequeno teatro que criei em Argel e a minha intenção, desde o início, com toda simplicidade, era a de atuar eu mesmo no papel de Calígula. Os atores iniciantes têm dessas ingenuidades.

E eu já tinha 25 anos, idade em que se duvida de tudo, menos de si próprio. A guerra me forçou à modéstia e Calígula estreou em 1946, no Théâtre Hébertot, em Paris. Calígula é, portanto, uma peça de ator e de diretor, mais do que de autor. Porém, que fique bem entendido: ela se inspira nas inquietações que eu tinha naquela época. A crítica francesa, que recebeu muito bem o espetáculo, freqüentemente escreve, para meu espanto, que se trata de uma peça filosófica. 

Mas será verdade? 

Calígula, príncipe até então relativamente amável, acaba por perceber, com a morte de Drusilla, sua irmã e amante, que o mundo, tal como está, não lhe é satisfatório. A partir daí, obcecado pelo impossível, envenado de maldade e horror, ele tenta exercer, por meio do assassinato e da perversão sistemática de todos os valores, uma liberdade tamanha que não demorará para descobrir que não é uma liberdade boa. Ele recusa a amizade e o amor, a simples solidariedade humana, o bem e o mal. 

Ele enreda com palavras todos os que estão à sua volta, ele os força a encontrar uma lógica, ele nivela tudo ao seu redor pela força de suas recusas e por uma raiva destruidora. É onde reside sua paixão de viver. Mas se sua verdade era se revoltar contra o destino, seu erro foi o de negar o humano. Não se pode a tudo destruir, sem destruir a si próprio. Calígula arrasa com o mundo ao seu redor e, fiel à sua lógica de vida, faz o que pode para voltarem-se contra ele todos os que terminarão por assassiná-lo. 

Calígula, a peça, é a história de um suicídio superior. É uma história sobre a forma mais humana e mais trágica de errar. Infiel ao homem, por fidelidade a si mesmo, Calígula consente em morrer, por haver compreendido que nenhuma criatura pode se salvar sozinha e, ainda, que não se pode ser livre à custa dos outros. Trata-se, portanto, de uma tragédia da inteligência. 

É de onde se pode concluir, naturalmente, que o drama de Calígula foi totalmente de cunho intelectual. Pessoalmente, eu acho que conheço bem os defeitos desta obra. Mas procuro em vão a filosofia nesses quatro atos que escrevi. Ou, se ela existir ali, ela se encontra no nível da seguinte afirmação do herói: Os homens morrem e eles não são felizes. É uma ideologia bem modesta, pode-se notar, e eu até tenho a impressão de dividi-la com Monsieur de La Palice (1470-1525) e com a humanidade inteira. Não, minha ambição não era a filosofia, era outra. 

A paixão pelo impossível é, para o dramaturgo, um objeto de estudo tão valoroso quanto a sede de amar ou o adultério. Mostrar essa paixão em toda a sua fúria, justificando estragos e desencadeando confrontos – eis o que era o meu projeto. E é sobre esse aspecto que deve ser julgada a minha peça. 

Uma última palavra. Alguns acham que minha peça é provocante e são os mesmos que, no entanto, consideram natural que Édipo mate o pai para se casar com a mãe ou os mesmos que aceitam fazer ‘ménage à trois’, desde que nos limites, é claro, de quatro sólidas paredes e em alta sociedade. Eu tenho pouca admiração por certo tipo de arte que só escolhe chocar por falta de saber convencer de outra forma. E se, por uma infelicidade, eu me pegasse realmente sendo escandaloso, seria apenas por causa desse gosto desmesurado que os artistas têm pela verdade ­– e um verdadeiro artista não consegue abrir mão da verdade, porque isso significaria renunciar à sua arte.” 
Albert Camus

18 de dez. de 2013

Sucos naturais (e deliciosos) ajudam no emagrecimento

Com a primavera e o verão se aproximando, nada melhor do que começarmos a incorporar os sucos em nossas refeições. 

Além de deliciosos, estas bebidas naturais têm um grande valor nutritivo, oferecendo ao corpo as vitaminas e sais minerais que ele necessita. 

Fundamentais para a hidratação do nosso organismo, os sucos contribuem para a saúde cardiovascular, ampliam a capacidade física, ajudam a baixar a pressão arterial e ainda é um aliado para quem quer perder uns quilinhos.

Então, mãos na massa, ou melhor, nas frutas: 

Melancia com gengibre: excelente antioxidante - 115 calorias. 

Laranja com manjericão: tem alto poder cicatrizante e diurético - 130 calorias. 

Laranja, salsinha, mel e limão: excelente antioxidante e expectorante - 395 calorias.

Maracujá com coco ralado: tem poder calmante e anti-inflamatório - 564 calorias.
 
Uva, laranja e clorofila: antioxidante, aumenta o bom colesterol (HDL) e melhora a circulação - 173 calorias. 

Abacaxi, pepino, maçã e mel: excelente digestivo - 365 calorias.
 
Gérmen de trigo, água de coco e guaraná em pó: rico em ômega-3, ômega-6 e energizante - 365 calorias. 

Folhas de hortelã, maçã e limão: refrescante, tonificante, analgésico e cicatrizante - 415 calorias.
 
Água de coco, manga e maracujá: expectorante e combate a acidez estomacal - 545 calorias. 

Água de coco, fruta do conde e limão: bom para gestantes e para combater a osteoporose - 145 calorias

Água de coco, goiaba vermelha e queijo minas: antioxidante - 350 calorias.

Perdão

Helena Wierzbicki

O que eu tenho não me pertence, embora faça parte de mim. Tudo o que sou me foi um dia emprestado pelo Criador para que eu possa dividir com aqueles que entram na minha vida.

 Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão. Há muito o que dar e o que receber; há muito o que aprender, com experiências boas ou negativas. 

Tente ver as coisas negativas que acontecem com você como algo que aconteceu por uma razão precisa. 


E não se lamente pelo ocorrido; além de não servir de nada reclamar, isso vai te vendar os olhos, dificultando assim, continuar seu caminho. Quando não conseguimos tirar da cabeça que alguém nos feriu, estamos somente reavivando a ferida, tornando-a muitas vezes bem maior do que era no início. 

Nem sempre as pessoas nos ferem voluntariamente. Muitas vezes somos nós que nos sentimos feridos e a pessoa nem mesmo percebeu; e nos sentimos decepcionados porque aquela pessoa não correspondeu às nossas expectativas. E sabemos lá quais eram as nossas expectativas? Decepcionamo-nos e decepcionamos outras pessoas também. Mas, claro, é bem mais fácil pensar nas coisas que nos atingem. 

Quando alguém te disser que te magoou sem intenção, acredite nela! Vai te fazer bem. Assim, talvez, ela poderá entender quando você, sinceramente, disser que "foi sem querer". 

Dê de você mesmo o quanto puder! 

Sabe, quando você se for, a única coisa que vai deixar é a lembrança do que fez aqui. 

Seja bom, tente dar sempre o primeiro passo para a reconciliação, nunca negue uma ajuda ao seu alcance, perdoe e dê de você mesmo. 

Seja uma bênção a todos que o cercam! Deus não vem em pessoa para abençoar, Ele usa os que estão aqui dispostos a cumprir essa missão. 

Todos nós podemos ser Anjos. A eternidade está em nossas mãos. Viva de maneira honrada, para que quando envelhecer, você possa falar só coisas boas do passado e sentir assim, prazer uma segunda vez e ter a certeza de que quando você se for, muito de você ainda fique naqueles que tiveram a boa ventura de te encontrar.
Chico Xavier

16 de dez. de 2013

Masculinidade Sufocada?

 'American Girl in Italy', foto de Ruth Orkin, flagrou o machismo latino em 1951. - Ruth Orkin
American Girl in Italy', foto de Ruth Orkin, flagrou o machismo latino em 1951.
Uma pesquisa britânica mostrou no mês passado que, se você apresentar para o público frases de uma revista masculina e depoimentos de estupradores, ninguém consegue perceber a diferença. 

Agora, ganhamos mais um exemplo dessa afinidade. Uma revista brasileira voltada para homens lançou uma campanha publicitária chamada Manifesto pelo Homem Livre, baseada em pesquisa de agência que encontrou uma tal "masculinidade sufocada" entre eles. 

Nunca explicou direito o que é que está, de fato, sufocando os pobres coitados, mas já inspirou bandeiras como "sim, adoramos ver uma bela bunda passar" e "como casamento dá trabalho, deveríamos receber um mês de férias por ano".

É uma tentativa grosseira de gerar barulho por meio da indignação dos leitores (e, principalmente, leitoras). Na internet, deu-se a isso o nome de "trolada": defender um objetivo ridículo, em que nem você mesmo acredita, com a intenção de se tornar o centro das atenções. Acontece que a campanha gerou mais deboche do que raiva.
Apesar de insignificante, é triste ver uma campanha reforçar um discurso que já gerou tantas tragédias. A afirmação do poder dos homens sobre as mulheres é o que sustenta o machismo e várias formas de violência contra elas. Talvez você diga: "Ah, mas é só uma brincadeira...". Foi exatamente o que eu ouvi quando comecei minha cruzada contra o assédio sexual em locais públicos, cinco meses atrás. Em julho, lancei a campanha Chega de Fiu Fiu, pelo site Think Olga. A ação tem um objetivo: mostrar como assédio humilha e intimida as mulheres, e exterminar esse comportamento. A luta partiu de uma aflição pessoal. Sofro assédio nas ruas desde antes de menstruar. A primeira vez foi aos 11 anos, quando um cara, na rua da minha casa, me disse palavras que os editores deste jornal não me deixariam reproduzir.
Não é uma história exclusiva minha. Amigas e conhecidas também se lamentavam, em voz baixa, sobre o problema. A discrição tinha motivo: o medo de serem taxadas de exageradas, reclamonas e até, veja só, metidas. O assunto, como costumo dizer, era tratado como um monstro invisível, sem nenhum dado ou informação que pudessem descrevê-lo.
Em agosto, com a jornalista Karin Hueck, tentei entender contra o que brigávamos. Publicamos no site um questionário sobre assédio, elaborado por ela. Em apenas duas semanas, 7.762 mulheres brasileiras haviam respondido. Entre elas, 83% disseram não gostar do que são obrigadas a ouvir nas ruas; 81% já deixaram de fazer tarefas cotidianas por medo de assédio; 90% já trocaram de roupa para evitar cantadas; 85% delas já sofreram com a tal "mão boba".
Essas mulheres também compartilharam milhares de relatos terríveis. Iam de agressões verbais até contatos físicos - "um homem se masturbou ao meu lado", "um cara se aproximou me chamando de linda e encostou no meu rosto a mão molhada de sêmen", "quatro desconhecidos, ao cruzarem comigo na rua, tentaram rasgar minhas roupas".
Um dos obstáculos da campanha é a frequente confusão entre agressão e elogio, e ela foi até acusada de tentar acabar com o flerte. O fato de alguém não ser capaz de diferenciar assédio sexual de relações românticas naturais já mostra como o assunto é problemático.
A verdade é que não é nada difícil diferenciar um do outro. Elogio demonstra respeito, assédio constrange e humilha. Faça o teste: você repetiria o xaveco com sua chefe? Se suspeita que ela pode não gostar e até o demitir, por que fazê-lo com uma estranha na rua? Talvez seja só porque alguns homens sentem que, em locais públicos, têm poder para fazer o que quiserem com as mulheres. Também disseram que esse é apenas um traço da tão famosa cordialidade do brasileiro. Quando o historiador Sérgio Buarque de Holanda usou essa palavra para descrever nosso povo, ele quis dizer que as relações por aqui "vem do coração". Ou seja, as pessoas tendem a tratar quem está próximo como se fosse amigo ou membro da família, e a ignorar o que é público. O que as mulheres sofrem na rua é o oposto de ser cordial. É, na verdade, o pior traço cultural do País: ignorar o direito dos cidadãos comuns e não prezar uma vida pública de respeito e igualdade.
Mas o assédio sexual nas ruas não é um problema exclusivo do Brasil. É mundial. Não à toa, a ONU Mulheres lançou, em outubro, uma campanha contra ele. No fim do mês passado, Navi Pillay, alta comissária para os Direitos Humanos da ONU, alertou para a violência justificada pelas roupas que as mulheres usam. "Qualquer tipo de abuso contra mulheres é inaceitável, independentemente do que estiver vestindo", disse.
Em países em que a igualdade de gênero é mais equilibrada, como Alemanha, Noruega e Suécia, o assédio sexual nas ruas praticamente não existe. Ou seja, isso é uma prova de que as tais cantadas estão intrinsecamente ligadas a uma questão de poder, e não a carinho ou valorização. O cenário, no entanto, está mudando. Pode ser visto no crescimento de vários grupos de combate ao assédio e no engajamento de muitos homens na Chega de Fiu Fiu.
Ante tantas evidências de que o problema existe e é grave, percebi que há dois tipos de reação por parte dos homens. Alguns tentam entender melhor o que está acontecendo e querem conversar com as mulheres para criar uma relação saudável para ambos os gêneros. Outros apenas trazem novos exemplos do problema: soltam palavrões (fui chamada de frígida, mal comida e vagabunda, além de outros piores) e até tentam silenciar o movimento com violência, como no caso das ameaças de estupro que recebi. São pessoas que se revoltam em perder o privilégio e, de maneira raivosa, sentem saudade de quando podiam explorar e humilhar quem eles quisessem sem dor na consciência. É como se quisessem voltar no tempo. Mas, como todos sabemos, não existem máquinas do tempo. É inevitável que esses sejam atropelados pela história.
Juliana de Faria

6 de dez. de 2013

Dicas para o sucesso

Tenha um aperto de mão firme.
Olhe as pessoas nos olhos.
Gaste menos do que ganha.
Saiba perdoar a si e aos outros.
Trate os outros como gostaria de ser tratado.
Faça novos amigos.
Saiba guardar segredos.
Não adie uma alegria.
Surpreenda aqueles que você ama com presentes inesperados.
Sorria sempre.
Aceite sempre a mão estendida.
Não reze para pedir e sim para agradecer.
Dê para seu próximo uma segunda chance.
Não tome nenhuma decisão quando estiver cansado ou nervoso.
Dê o melhor de si no seu trabalho.
Seja humilde, principalmente nas vitórias.
Jamais prive uma pessoa de esperança.
Pode ser que ela só tenha isso.

4 de dez. de 2013

Lulu reduz a mulher a um macho mal-acabado

Tudo bem, o Lulu quer reduzir a mulher a um macho mal-acabado, como lembra a amiga Aline Guilherme, minha rodriguianíssima enfermeira corinthiana.


Tudo bem, o luluzismo pode ser uma doença infantil do machismo da fêmea, mas daí uma autoridade mobilizar o Ministério Público, como acontece no Distrito Federal, para processar os gerentes do aplicativo, minha Nossa Senhora de Conceição do Mato Dentro.

Tanta safadeza para resolver no Planalto Central do país, meu Deus.

Repare no argumento da Promotoria: o programa é capaz de ofender direitos da personalidade de milhões de usuários do sexo masculino.

Ah, vá, que se virem os marmanjos ofendidinhos, os marmanjos reprovados no Enem do amor e do sexo. É do jogo. Apenas o sintoma da modernidade maluca, que traz, na corcunda das suas contradições, muitas coisas também geniais.

Lulu é uma bobagem, meu bem, mas não mata ninguém. Macharada, como disse na crônica anterior sobre o tema, leva na esportiva, fair play, brother, fair play.

Somos falíveis, completamente falíveis e cheios de defeitos, e isso é lindo, demasiadamente humano, como diria o bigode grosso da filosofia do super-homem.

Acho que a mulherada anda até generosa demais para os nossos defeitos. Os de fábrica, os adquiridos e para a nossa folga eterna em relação às moças. O que é uma notinha diante de uma ficha corrida histórica dessas?!

É óbvio ululante, querida Lulu, que a vida é subjetividade pura e enquadrá-la em um aplicativo é apenas uma piada comercial barata. Até você sabe, Luluzete.

Mas daí esse medo todo do macho diante do pênalti! Relaxa, não passa nada.

Palavra de quem anda ultimamente como um Vascão do amor e da sorte, beirando o rebaixamento…

Palavra de quem virou pó-de-arroz na cama como o tricolor das Laranjeiras…

Palavra de quem timbuzou geral na hora agá da alcova, palavra de quem caiu de véspera para a Segundona…

Palavra de quem já viu a Ponte cair várias vezes.

Relax, amigo, se ela aplica o Lulu, aplica o projeto Lázaro, levanta e anda.

Xico Sá - Folha SP

Cérebros de homens e mulheres têm conexões diferentes

Estudo comprova estereótipo de que o sexo masculino e o feminino não pensam do mesmo jeito

Cérebro do homem e da mulherConexões cerebrais mostram maior atividade do hemisfério dianteiro para o traseiro em homens (acima), e no da esquerda para a direita em mulheres (abaixo) (Ragini Verma/Proceedings of National Academy of Sciences)
Os cérebros dos homens e das mulheres têm conexões que parecem confirmar estereótipos sobre atitudes e comportamentos próprios de cada sexo, revelou um estudo publicado no periódico PNAS.
A pesquisa analisou a atividade cerebral de 949 voluntários (521 mulheres e 428 homens) de 9 e 22 anos. O levantamento mostrou no homem uma quantidade maior de conexões na parte dianteira do cérebro, centro de coordenação das ações, e na traseira, onde fica o cerebelo, importante para a intuição. As imagens revelaram também uma grande quantidade de conexões dentro de cada um dos hemisférios. Isso sugere que o cérebro masculino é estruturado para facilitar a conexão entre percepção e ação.
Nas mulheres, por outro lado, essas conexões unem o hemisfério direito, onde se encontra a capacidade de análise e tratamento da informação, e o esquerdo, centro de intuição, o que indica uma facilidade de comunicação entre a intuição e o pensamento analítico.
“Estes mapas mostram diferenças impactantes e complementares na arquitetura cerebral que podem ajudar a explicar porque os homens são brilhantes em algumas tarefas, e as mulheres, em outras”, afirmou Ragini Verma, professora de radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e autora do estudo.
A cientista explica que os homens são, em média, mais aptos a aprender e executar uma única tarefa, como andar de bicicleta, esquiar ou navegar, enquanto as mulheres têm uma memória melhor e uma inteligência social maior, o que aumenta a aptidão delas para executar várias tarefas simultaneamente e encontrar soluções para um grupo.
Estudo amplo – Estudos anteriores já tinham mostrado diferenças entre os cérebros masculino e feminino. Mas a conectividade neuronal de regiões cerebrais vinculadas a aptidões cognitivas nunca havia sido analisada em uma população tão grande.
"Os mapas detalhados do conectoma (mapa completo das conexões cerebrais) no cérebro não vão apenas nos ajudar a entender melhor as diferenças na forma como homens e mulheres pensam, mas também a compreender as causas dos distúrbios neurológicos, frequentemente vinculados ao sexo", afirma Ruben Gur, professor de psicologia na Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia e coautor do estudo.
As próximas pesquisas deverão identificar com mais precisão quais conexões neuronais são próprias de um único sexo e quais estão presentes em ambos, explicou o psicólogo.
Agência France-Presse

3 de dez. de 2013

Ambição

Um homem não é infeliz porque tem ambições, mas porque elas o devoram
Montesquieu

Jack MacDonald - o homem que se fingia de pobre

Jack MacDonald passou boa parte de seus 98 anos procurando maneiras de gastar menos e reaproveitar tudo o que já tinha. 

Não perdia uma promoção no supermercado, usava roupas com buracos e recortava cupons de revistas, centenas deles, para fazer compras. Nunca pegava um taxi se podia pegar um ônibus, mesmo que estivesse lotado. 

E, quando caiu e foi levado para o hospital, disse à sua enteada que avisasse aos médicos para usarem medicamentos genéricos "e não aqueles remédios de marca que custam uma fortuna".
Não é de se estranhar que, após a sua morte, toda uma vizinhança de Seattle tenha se surpreendido um bocado ao saber que aquele pobre senhor era, na verdade, dono de uma fortuna de US$ 187 milhões (cerca de R$ 430 milhões).  
"Jack fazia de tudo para parecer pobre. Em parte, porque ele não queria ser importunado por pessoas lhe pedindo dinheiro", disse a enteada, Regen Dennis. Ela, inclusive, não ficou com um centavo da herança deixada por seu padrasto. Todo o dinheiro foi doado para três instituições: o Hospital Infantil de Seattle, a Escola de Direito da Universidade de Washington e o Exércio da Salvação.
MacDonald fez fortuna a partir da herança que recebeu quando seus pais morreram. Investindo no mercado de ações, ele conseguiu aumentar aos poucos seu patrimônio e, como gastava o mínimo possível, o dinheiro foi acumulando.
Nascido em 1921, ele só casou aos 50 anos com a mãe de Regen, que já tinha dois filhos crescidos na época. Segundo a enteada, a família nunca morou em uma casa glamourosa, nem teve carros de luxo. A única regalia que se davam eram viagens. O casal MacDonald conheceu a Europa, Australia, Canadá e a África, até a morte da esposa, em 1999.
MacDonald escreveu seu testamento há três anos, quando teve um problema de saúde. Segundo Regen, ele disse que gostaria de ser lembrando como um filantropista. "Ele se sentia muito bem a respeito do que estava fazendo com seu dinheiro e nossa família se sentiu muito bem sobre isso também".
Época Negócios

1 de dez. de 2013

A bruxa nos relógios

Não falarei aqui do meu desânimo quanto à situação do país: cansei. Por algum breve tempo vou tirar férias dessa preocupação. Vou me concentrar no possível: os afetos, o trabalho, a vida. Então falo aqui de um tema que me fascina, sobre o qual muito tenho refletido e acabo de escrever um livro: a passagem do tempo.
Quando criança, eu achava que no relógio de parede do sobrado de uma de minhas avós, aquele que soava horas, meias horas e quartos de hora que me assustavam nas madrugadas insones em que eu eventualmente dormia lá, morava uma feiticeira que tricotava freneticamente, com agulhas de metal, tique-taque, tique-taque, tecendo em longas mantas o tempo da nossa vida.
Nessas reflexões, e observações, mais uma vez constatei o que todo mundo sabe: vivemos a idolatria da juventude — e do poder, do dinheiro, da beleza física e do prazer.
Muitos gostariam de ficar para sempre embalsamados em seus 20 ou 30 anos. Ou ter aos 60, “alma jovem”, o que acho muito discutível, pois deve ser bem melhor ter na maturidade ou na velhice uma alma adequada, o que não significa mofada e áspera.
Por que a juventude seria a melhor fase da vida, como se jovem não tivesse problemas e sofrimentos, doenças e perdas, e não lutasse contra enormes pressões da família, da turma, da sociedade, para ser e agir dessa ou daquela forma? O número de adolescentes que se suicidam ou tentam se matar é muito maior do que imaginamos.
Lembro que há muitos anos um adolescente conhecido se matou. Naquela ocasião, um menino de sua turma me disse em voz baixa, olho arregalado: “Ontem ainda a gente jogou bola junto na escola, e ele não disse nada, a gente não notou nada. Será que eu devia ter percebido, perguntado? Quem sabe podia ter ajudado?” (Havia medo e aflição em seu olhar. )
Tentei explicar que não cabia ninguém mais nesse buraco negro da alma do amigo morto, embora na nossa ilusão uma palavra boa, um colo, um abraço, um pequeno adiamento, teriam podido ajudar. Quem se mata espalha ao seu redor uma zona de culpa insensata: esse fica sendo seu triste legado, talvez sua cruel vingança inconsciente.
Não notamos, não impedimos, nada fizemos, não porque não o amássemos, não nos importássemos, mas porque a gente é assim. Ou porque nada havia a ser feito, ser dito, apenas ser aceito com um rio de dúvidas e culpas pelo resto dos dias. A juventude para ele, como para tantos, não foi a melhor fase da vida: foi o fim dela, desesperado e triste.
Por outro lado, maturidade pode ter uma energia muito boa, pensamento e capacidade de trabalho estão no auge, os afetos mais sólidos e mais profundos, a capacidade de enfrentar problemas e compadecer-se dos outros mais refinada. Aliás, amadurecer devia ser refinar-se.
Passada (ou abrandada) a insegurança juvenil, é possível desafiar conceitos que imperam, desatar alguns fios que nos enredam, limpar o pó desse uniforme de prisioneiros, deixar de lado as falas decoradas, a tirania do que temos de ser ou fazer. Pronunciar a nossa própria alforria: vai ser livre, vai ser você mesmo, vai tentar ser feliz — seja lá o que isso for.
Então podemos murmurar, gritar, cantar. Podemos até dançar. Não há marcações nem roteiro, mas a inquietante possibilidade de optar: cada minuto vale, o tempo que flui mostra o valor máximo das coisas mínimas — se eu parar para observar.
Portas continuam se abrindo: não apenas sobre salas de papelão pintado, mas sobre caminhos reais. Correndo pela floresta das fatalidades, encontramos clareiras de construir. De se renovar, não importa a cifra indicando a nossa idade. Descobrir o que afinal se quer é essencial. É raro. É possível.
E quando alguém resolver não pagar mais o altíssimo tributo da acomodação, mas dar sentido à sua vida, verá que a bruxa dos relógios não é inteiramente má. E vai entender que o tempo não só nega e rouba com uma das mãos, mas, com a outra, oferece — até mesmo a possibilidade de, ao envelhecer, alargar ainda mais as varandas da alma.
Lya Luft

A danada da nostalgia

Lucian Freud
Por que será que, por mais que a gente tente, muitas vezes é incapaz de abandonar determinadas memórias afetivas: imagens que construímos de nós mesmos, velhos amores, antigos padrões de comportamento? 

E parece que não adianta mesmo fugir – tais memórias são nossa bagagem, estarão sempre a nos acompanhar. Claro que tudo isso depende do uso que fazemos do nosso passado. Pois uma coisa é ter o tempo pretérito como referência – é por meio do exemplo de pessoas e ações que vieram antes de nós que procuramos não perpetuar os erros de outrora ou que nos espelhamos para construir um presente melhor.

Isso é essencial em todas as culturas, do velho pajé que conta antigas proezas da tribo aos mais jovens até os livros de história que nos ensinam sobre os capítulos sombrios da nossa civilização. Outra coisa bem diferente (e daninha) é a fixação no passado, quando remoemos aquilo que já está longe no tempo e no espaço, ou idealizamos (alguém, uma situação, um estilo de vida) a ponto de não mais conseguirmos olhar para a frente e aproveitarmos o presente – nosso tempo – em todo seu potencial. 

Aí entra a danada da nostalgia. Sim, porque a nostalgia, essa palavra grega que significa algo como “saudade de um lar que não mais existe ou nunca existiu”, pode ser um obstáculo para o nosso crescimento. Repare em como num momento ou outro a gente pensa num tempo bom que não volta nunca mais, numa “era de ouro” (completamente idealizada, uma ficção que mistura memória e desejo) em que tudo tinha cores mais belas. Ah, antigamente... Faz mal? Em The Future of Nostalgia (“O futuro da nostalgia”, sem edição brasileira), Svetlana Boym, professora de literatura comparada na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, explica que o conceito de nostalgia, diferentemente do que muitos pensam, não vem da poesia ou da política, mas da medicina, e data do século 17. 

 Naquela época, alguém que padecesse de nostalgia podia apresentar sintomas tão variados e nefastos como náusea, perda de apetite, febre alta chegando até mesmo a complicações físicas extremas, como inflamações no cérebro e ataques cardíacos. Em suma: nostalgia, naquele tempo, fazia parte de um temível rol de doenças classificadas pela ciência médica do período. “Nos velhos tempos, nostalgia era uma doença curável. Perigosa, mas não letal”, escreve Svetlana Boym. O tratamento mais difundido era feito com emulsões hipnóticas e ópio. No século 19, o escritor e médico brasileiro Joaquim Manuel de Macedo (que entraria para os compêndios como o popular autor do romance A Moreninha) arrolava em sua tese Considerações sobre a Nostalgia, apresentada à Faculdade de Medicina, complicações como disenteria e febres. 

A doença nostalgia era constantemente atribuída aos soldados em guerra e aos imigrantes vindos do interior. A coisa parecia mesmo tão grave, num tempo que ainda não vira o aparecimento da moderna psicologia e de todo o aparato farmacêutico, a ponto de Joaquim Manuel de Macedo tratála como uma espécie de demência. Hoje em dia, no entanto, não se toma a nostalgia como uma condição patológica como se supunha no passado. Ao ser comparada à depressão e à melancolia, por exemplo, a nostalgia pode ser considerada um estado de espírito, quando a depressão e a melancolia são doenças em si. “A nostalgia pode ser vista como algo que desperta para a ideia de que também no presente coisas boas serão possíveis. Somente quem viveu momentos belos e felizes é que é invadido pela nostalgia, diferentemente daquele que passou pela vida e não viveu. Por isso, nostálgicos voltam ao passado no qual amaram e foram amados. 

Na melancolia ou depressão: nunca foram amados ou amparados”, afirma a psicanalista Maria Olympia França. Faz sofrer Você certamente conhece a figura: aquele eterno insatisfeito, o tipo de pessoa de quem mais se ouve que antigamente... – ah! antigamente, como as mulheres eram mais bonitas (a beleza natural), as ruas mais limpas e o ar mais puro. É bem possível mesmo que a vida fosse mais amena. O custo de vida era mais baixo e o trânsito, muito menos estressante. E, lógico, havia menos gente no mundo. Acontece que esse “antigamente” idealizado nunca mais voltará. Fato é que fabricamos muitas das nossas memórias e não temos certeza do passado, por isso mesmo é que o tempo pretérito nos parece ter cores tão mais definidas e ostenta uma cenografia tão impecável. É como um quadro que pintamos em nosso cérebro. Para Maria Olympia, a nostalgia é uma espécie de reaproveitamento da tristeza. 

“Ainda que difusa, ela sinaliza algo que foi bom. Eu era feliz e não sabia”, afirma a psicanalista. Isso denota o estado fantasioso da nostalgia em relação ao presente. Claro que é impossível voltar ao passado, mas trazer seus elementos agradáveis de volta ao presente é algo bastante concreto. Se você gostava, por exemplo, de tocar violão, mas não pratica há anos, que tal treinar de vez em quando? Se sente muita falta da casa da mãe, comer um arroz com feijão no fim de semana pode dar um gostinho do lar para sempre desaparecido. Não é que vá matar a saudade. Até porque nostalgia e saudade são coisas diversas. “A nostalgia é um estado mais amplo, mais difuso que um sentimento de saudades. Enquanto este diminui quando reencontramos o objeto faltante, a nostalgia pode permanecer mesmo quando reencontramos aquilo de cuja falta nos demos conta”, diz a psicanalista. Mas ajuda a acalmar o sofrimento. 

 Pois nostalgia e perda são sentimentos tão parecidos que muitas vezes podem se confundir. A dor imensa que representa a perda de um filho é um exemplo de situação-limite que instaura uma condição nostálgica – e que pode desencadear uma baita depressão, já que as lembranças do passado se convertem em um fardo insuportável. “Nesses casos, a tristeza levará à impotência, ao sentimento de fracasso e de culpa. Nada mais é recuperável”, diz a psicanalista. Aí o recomendável é que se trate a depressão advinda desse processo. Quando a perda é coletiva, como no caso dos fluxos migratórios (os imigrantes europeus na virada do século 20 que desembarcaram no Brasil e em outras nações das Américas, os migrantes do Nordeste que vieram ajudar a construir a riqueza de São Paulo), há a criação daquilo que se chama uma “memória cultural”. 

No caso de imigrantes, segundo estudos, é notada a criação de nichos específicos e a apreciação de locais determinados, o que a gente pode facilmente reparar em nosso dia a dia. Quem mora em São Paulo ou em outra grande metrópole, por exemplo, e não conhece uma “turma” muito unida que veio de outra cidade? Ou restaurantes típicos – cantinas italianas, churrascarias, casas de sushi – frequentados por grupos específicos? Isso é muito comum. O pessoal elege alguns lugares, como bares ou casas de amigos, para frequentar e manter o contato com as próprias raízes. Pois Svetlana Boym explica essa manutenção da memória cultural através de um “estranhamento e sentimento de solidariedade entre os membros do grupo estrangeiro, que geram afeto e reflexão”, além de uma “vulnerabilidade ao lugar”. 

É universal Falando assim, até parece que a nostalgia é um estado psicológico exclusivo de determinados casos: na verdade, a maioria das pessoas a vive sem sequer se dar conta dela, mesmo que seja de uma vida que não é a sua. Nostalgia do que não viveu parece complexo demais? Então basta observar o mercado de consumo. O design, a arquitetura, a moda, o cinema, as telenovelas, tudo está preparado para atender a demandas por artefatos vindos diretamente do passado. São festas “anos 80” com sucessos da Blitz e da Xuxa, remakes de filmes clássicos, o Fusca renascido no neoretrô New Beetle, a volta dos discos de vinil ao mercado. 

De onde vem esse desejo de eterno retorno? Das memórias afetivas, das contingências do mercado, é um traço geracional? De tudo isso um pouco. Cíntia Teixeira, professora de filosofia e coordenadora do IPPEX (Instituto de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da Faced), de Minas Gerais, afirma que a necessidade de trazer elementos de outras épocas para o presente é uma alternativa ao inevitável progresso do esquecimento. E além disso é um traço geracional, marca daqueles que estão entre os 20 e poucos e 30 anos. “Em larga escala, a geração Y participa de grandes eventos culturais com o intuito de rememorar o passado, sem ter a clareza do que foi e qual a real importância daquela geração e de reviver essa situação”, diz. 

E tem mais: o passado trazido de volta tem um bocado de presente. “Os eventos do passado são manipulados e reconstituídos perante uma audiência do presente, estabelecendo-se dessa forma uma conexão dinâmica entre ambos os tempos”, afirma. “Essa onda de nostalgia do passado é muito mais vivida por pessoas que sequer existiam naquele tempo homenageado que pelas pessoas que de fato estavam lá.” Svetlana Boym observa que nostálgicos são geralmente pessoas de sentidos mais apurados. Ora, são os sentidos (audição, olfato, paladar...) que nos arrastam com mais força para as memórias afetivas. Talvez estejam nos sentidos as memórias afetivas que movem tais vontades e sensibilidades. Já é folclórica a história do escritor francês Marcel Proust que, provando um biscoitinho chamado madeleine, foi acometido por um verdadeiro ataque de nostalgia – o que gerou um dos maiores monumentos da história da literatura, o romance Em Busca do Tempo Perdido. 

Outro escritor, o jovem brasileiro Daniel Galera, autor dos romances Mãos de Cavalo e Cordilheira, entre outros, diz que, embora não considere a nostalgia característica predominante em seus personagens, assume vivê-la em seu personagem da vida real. “Eu tenho nostalgia de uma vida mais solitária, às vezes. Parece que em algum momento vivi no interior ou numa praia quando era criança, e que tenho saudade disso. Mas sempre morei em cidades grandes e fui a lugares isolados apenas como visitante ocasional. Esse tipo de nostalgia quase sempre é uma armadilha, porque é mera construção mental. Você sente que já viveu aquilo e sente falta, mas não é verdade. É uma narrativa ilusória da memória”, diz Galera. Criação e memória, eis os pilares da nostalgia. Julia Valle é estilista e costuma desenvolver, no mínimo, três coleções por ano. 

Para cada uma delas precisa buscar inspirações totalmente novas. Acontece que o totalmente novo demonstra sinais de esgotamento, dando lugar à repetição, por isso ocorre uma tendência de retorno a épocas anteriores: “Soa fresco de uma forma, mas ao mesmo tempo já tem aquela garantia de que foi amplamente aceito em algum momento da história”, diz a jovem estilista, que confessa que gostaria de ter vivido nos anos 1920. É particular Márcia e Sílvio (os nomes foram trocados para manter a privacidade das fontes) se apaixonaram no trabalho: o processo de produção de um curta- metragem. Ele, o diretor, bem mais velho, tinha uma postura jovem para a idade. Ela, atriz na ocasião, se sentia compreendida em sua pretensa maturidade. Márcia lembra que a experiência do filme foi poderosa emocionalmente e a lua de mel durou cerca de um ano. 

“Foi quando algo se rompeu e começaram a se abrir feridas, traições descobertas e muita dor”, diz, afirmando que a partir daí o caso começou a ser tão intenso quanto avassalador. “Perdi as contas de quantas vezes terminamos e voltamos. Já não sabia mais para o que queria voltar. Queria um resgate, não conseguia deixar as boas lembranças.” Márcia chegou a se mudar de cidade para abandonar a memória, em vão. Ela afirma que ainda acreditava ser mais feliz com Sílvio. “Retomamos inclusive a distância, o que quase me levou à depressão. Estava prestes a largar tudo diante da doença que nossa vida em casal se tornou”, admite. Márcia diz que hoje Sílvio a procura de tempos em tempos e ela tem de se esforçar para não fantasiar um passado que ficou enterrado. “Guardo nossas memórias com carinho, mas hoje sei que é impossível resgatá- las”, afirma. 

Casos como o de Márcia são mais comuns do que pensamos e servem como lembrança (sem trocadilhos) de que é muito importante ter cuidado com as fantasias. Elas podem literalmente nos prender a uma realidade inexistente e impedir um desenvolvimento no presente, além de uma possibilidade de vislumbrar o futuro. Uma saudade dos velhos tempos ou uma fantasia sobre certo fato do qual você adoraria ter participado podem alimentá-lo, mas, quando essas sensações se tornam obsessivas, é melhor ficar atento: finque o pé no presente e bola pra frente. 
Deborah Couto e Silva

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