21 de mar. de 2014

Senna não é Pelé

Dos mortos só se fala para falar bem.
(Ditado romano)

Em 2014 se comemora vinte e um anos da última conquista de Ayrton Senna no automobilismo: o vice-campeonato na temporada de 1993 da Fórmula 1. É tradição brasileira desdenhar os segundos lugares. O Vasco da Gama, numa matemática duvidosa, é ridicularizado como campeão de vices campeonatos. Perder uma final de Copa do Mundo equipara-se a uma tragédia nacional. Receber uma medalha de Prata Olímpica, salvo em esportes individuais, é uma gloria relativa. Ainda na F1, o bom piloto Rubens Barrichello tornou-se uma piada, mesmo tendo conseguido o difícil feito de ser vice-campeão duas vezes pela Ferrari, em 2002 e 2004.
Curiosamente, no caso de Ayrton Senna não há espaço para humor. No imaginário popular, seus vice-campeonatos ou foram resultados de roubos descarados ou superioridade esmagadora do equipamento do adversário. Não se admite outras variáveis. O status heroico de Senna é tamanho que tudo que o envolve ganha dimensões sobre-humanas, mesmo a eventual impossibilidade de conquistar o primeiro lugar.
Esse culto a sua personalidade ganhou reforço na campanha de lançamento do documentário inglês “Senna”, dirigido por Asif Kapadia e lançado em 2010. Fui assistir ao filme com baixa expectativa. Esperava uma patriotada melodramática, acrítica e laudatória, como a média dos produtos ligados à marca. O cartaz de divulgação era temerário: abaixo do título lemos “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”. Prognosticava um “Globo Repórter” em película. O fato de ser um longa-metragem sobre um piloto brasileiro, dirigido por um pouco experiente cineasta britânico de origem indiana, que admitiu conhecer pouco de Fórmula 1, não ajudava.
Para minha grata surpresa, o documentário é muito bom. A edição criativa utiliza apenas material de arquivo. Evitou-se o caminho fácil da inclusão daqueles muitas vezes anacrônicos depoimentos ao estilo “eu me lembro”. A trilha sonora, a cargo de Antonio Pinto, é um dos pontos altos da produção. Conduz brilhantemente o espectador pelas cenas, construindo climas, alternando-se de forma eloquente com o ronco dos motores. Para decepção de muitos fãs, o maestro teve o cuidado de não utilizar o “Tema da Vitória”. Foi uma boa ideia, considerando sua vulgarização pela TV. Ademais, sendo uma produção internacional, não fazia sentido incluir uma idiossincrasia conhecida apenas no Brasil.
O filme, sim, é apologético, mas nada exagerado. Louva seu protagonista sem endeusá-lo. Mostra um homem multifacetado, consciente do papel que desempenhava no imaginário mundial e, particularmente, brasileiro. Um atleta obstinado em alcançar a perfeição em seu esporte. Ambicioso, procurava aperfeiçoar-se sempre e quebrar recordes. Sua disciplina era espartana. Muito cuidadoso no trato com a imprensa, soube construir de forma meticulosa uma imagem pública de bom-moço, de homem de família. Sua religiosidade genuína sempre foi destacada. Ao mesmo tempo, o longa revela aspectos obscuros de sua personalidade: o quanto era orgulhoso, fanatizado e irritadiço. Não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desinteressada por cultura, dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas. Curiosamente, essa face de homem comum falando para homens comuns aquilo que eles querem ouvir, sempre foi um dos alicerces de sua popularidade. Com habilidade, sem apelar para excessos de verborragia, deixando as imagens falar mais alto do que as palavras, Kapadia conseguiu tirar proveito desse lado “autor de autoajuda” de Senna, promovendo a identificação emocional imediata entre o espectador comum e seu protagonista.
Inteligentemente, o documentário evita tocar, ou aprofundar-se, em temas escorregadios. A vida particular do piloto é blindada. Seu primeiro casamento é ignorado, assim como suas “amizades” de infância. Nesse vácuo ganha destaque seus dois relacionamentos mais famosos, com a apresentadora Xuxa e com a modelo Adriane Galisteu. Apesar da presença de imagens captadas por câmeras caseiras, o Senna público prevalece sobre o privado.
Da mesma forma, o filme não polemiza sobre a veracidade de algumas lendas sennianas, como o “milagre da sexta marcha”, na qual o piloto teria vencido o GP Brasil de 1991 com a caixa de câmbio emperrada na sexta marcha. Mesmo mostrando que ao final da corrida o piloto desacelerou o carro, quase o parando, para pegar de um fiscal de pista uma bandeira brasileira, voltando a acelerar em seguida, atestando que ele tinha marchas fortes, o diretor não interfere na flagrante dicotomia entre imagem e locução. Deixa para o espectador tirar suas próprias conclusões, acreditar ou não na lenda. Ou talvez, como estava mergulhado na cultura brasileira, Kapadia emulou Nelson Rodrigues na conclusão de que, simplesmente, “o videotape é burro”.
Os mais cínicos poderiam defender que o documentário blinda Senna de julgamentos de valor, colocando-o acima do bem e do mal. Isenta-se de discutir se seu controverso estilo de direção era perigoso, suicida ou apenas arrojado. Não coloca em questão os episódios onde reagiu de maneira antidesportiva. Não problematiza, digamos, se sua atitude de garantir o campeonato de 1990 batendo na Ferrari de Alain Prost foi ou não tão repreensível quanto à mesmíssima agressão que sofreu do francês no ano anterior. Tudo isso é verdade, mas acredito que, consciente das expectativas de seu público, o diretor inglês trabalhou essa cena em seu aspecto puramente cinematográfico: trata-se da justa vingança do protagonista da trama que se desenrola na tela. Nada mais. Pura questão de ação e reação imagética. Mais do que biografia, é cinema.
Nada disso desqualifica o filme. Não são erros, são opções estéticas conscientes. Não se trata de uma cinebiografia não autorizada, interessada em desencavar revelações bombásticas. Não se trata de um tratado fílmico erudito sobre automobilismo, como o ótimo “A Era dos Campeões”. É, ao contrário, uma celebração. Considerando sua proposta básica, “Senna” é um documentário honesto e empolgante. Acredito que muitas de suas qualidades advêm do que inicialmente parecia ser um problema: seu diretor britânico de origem indiana pouco afeito à F-1. É bem possível que um cineasta brasileiro não tivesse o distanciamento político e emocional necessário para trabalhar o tema. Teria feito a patriotada melodramática, acrítica e laudatória que eu tanto temia. De posse do vasto material de arquivo que teve à sua disposição, Kapadia tratou Senna como um personagem com imenso potencial dramático e emocional, não como um mito intocável ou herói invencível.
Infelizmente, como era de se esperar, o filme foi vendido dessa forma no Brasil. Além do apelativo e ufanista slogan publicitário “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”, lia-se acima do título uma frase do tricampeão de F-1 Niki Lauda, aparentemente pronunciada por ocasião do enterro de Senna, em maio de 1994: “Ele foi o melhor piloto que já existiu”. Contudo, Lauda mudou de ideia, considerando que anos depois afirmou que “por tudo que conquistou ao longo dos anos e por ter ficado mais tempo no topo é justo que Michael Schumacher seja considerado o melhor”. No melhor estilo “1984”, de Orwell, há aqui a reescrita da História: o esquecimento em prol da sacralização de uma versão mais conveniente ao mercado. Nesse cenário, lembrar que o “Tema da Vitória” foi composto para Nelson Piquet soa de péssimo tom. Além de herói e campeão, enquanto produto, Senna é mais rentável sendo vendido como o melhor de todos os tempos. Para boa parte dos sennistas brasileiros, principal público-alvo do filme, nada menos parece servir.
Os admiradores de Senna dividem-se em dois tipos básicos: os conscientes e os fanáticos, também conhecidos como “viúvas”. Os primeiros apreciam mais o automobilismo do que idolatram Senna. Costumam ser pessoas centradas e racionais. Sabem que Senna foi um gênio do volante, não era um semideus infalível. Os outros parecem acreditar que a principal razão da existência da F-1 foi fazer o Piloto do Capacete Amarelo brilhar. Lamentavelmente, o primeiro grupo é sufocado pelo segundo.
Brasileiro faz piada com tudo: das asas de frango nos bolsos de D. João VI ao avião que não voava de Santos Dumont, passando pelos travestis de Ronaldo até a surra que Maguila levou de Holyfield. Nada é sagrado. A grande e, talvez, única exceção é Senna, que foi elevado a condição de santo secular por várias gerações de fãs. É comum encontrar crianças que nunca o viram correr afirmando que Senna é seu ídolo, seu espelho, etc. Essa deificação de um atleta de um esporte elitizado, baseada em sua perseverança e hombridade, em um país conformista e cínico como o Brasil, famoso por seus macunaímas, heróis sem nenhum caráter, é um fenômeno sociológico complexo, que merece ser estudado com profundidade pela academia.
Considero particularmente intrigante a tendência das viúvas em interpretar a trajetória de Senna como se fosse um Evangelho Moderno ou a saga do herói, conforme apresentada por Joseph Campbell no livro “O Herói de Mil Faces”. Senna seria um ungido, iluminado desde a infância. Suas palavras são ensinamentos. O acidente em Imola, sua Paixão. Não admitem comparar a grandeza moral e profissional do ídolo com nada ou ninguém. Tratam-no com dois pesos e duas medidas, quando em paralelo com outros pilotos. Mesmo a extraordinária superação de Niki Lauda, campeão em 1975 que sofreu um gravíssimo acidente no Grande Prêmio da Alemanha de 1977, tendo grande parte do corpo queimado, e mesmo assim voltou às pistas para garantir o título daquele ano, e o de 1984, apequena-se diante das inúmeras provas de coragem de Senna.
Para as viúvas, uma vitória de outro piloto é apenas uma vitória, uma vitória de Senna é um triunfo. Uma volta rápida de outro piloto é apenas uma volta rápida, uma volta rápida de Senna é um grande feito. Uma ultrapassagem de outro piloto é apenas uma ultrapassagem, uma ultrapassagem de Senna é uma manifestação de gênio. Uma deslealdade de outro piloto é a deslealdade de outro piloto, a deslealdade de Senna é arrojo. Uma vitória difícil de outro piloto é apenas uma vitória difícil, uma vitória difícil de Senna é um ato de superação. A conquista de um título por outro piloto é apenas a conquista de um título, a conquista de um título por Senna é justiça divina.
Como ensinou Campbell e alguns evangelistas, um herói faz-se desde a juventude. Sinais, que podem variar de impressionar doutores no Templo até domar cavalos selvagens, anunciam o futuro épico. É sintomático que o filme de Kapadia começa com a apresentação do jovem Senna em uma prova de kart. Foi um vencedor por todas as categorias pelas quais passou. Porém, convêm lembrar que seus títulos conquistados na Fórmula Ford 1600, ou na F-2000, ou na F-3, não constituem feitos especialmente notáveis no universo da F-1. É comum entre pilotos de elite vitórias fáceis e sucessivas em categorias menores. Elas podem garantir testes, não necessariamente empregos. O festejado teste que Senna fez na Willians aos 23 anos não convenceu o dono da equipe, Frank, a contratá-lo. O mesmo Frank Willians que, em 1994, declarou que sempre desejou tê-lo em seu time, posteriormente disse que “meu sonho é ter Schumacher em minha equipe, pois ele é o pacote completo”. No circo da F-1 opiniões são fluidas, só nos restando analisar dados para definir opiniões. E é um dado estatístico que, mesmo para os padrões da época, Senna não foi precoce: o Rato Fittipaldi foi campeão pela Lotus aos 25 anos, na temporada de 1972.
Quando começou na F-1, na equipe Toleman, em 1984, o estilo de pilotagem de Senna era comparado aos do canadense Gilles Villeneuve e do Escocês Voador Jim Clark. Os três tiveram muito em comum, na vida e na morte. Principalmente, Senna e Clark. Muito habilidosos, gostavam de correr na chuva e eram excepcionais leões de treino. Colecionavam pole positions. Senna conseguiu 65 em 162 GPs. A média de Clark é um pouco melhor, tendo disputado 73 GPs e feito 33 poles. Com 25 vitórias na F-1, Clark também foi mais hábil que Senna em converter poles em bandeiras quadriculadas. O brasileiro converteu em vitórias apenas 29 de suas 65 poles. Villeneuve e Clark também morreram nas pistas. O canadense num acidente com sua Ferrari no GP da Bélgica de 1982, aos 32 anos. Ainda não havia sido campeão. O Escocês Voador faleceu com a mesma idade em 1968, numa prova de F-2 na Alemanha. Foi bicampeão nas temporadas de 1963 e 1965, pela Lotus. A equipe para qual Senna iria se transferir em 1985.
Como se percebe, ao contrário do que as viúvas pregam, a Lotus não era uma carroça. Era, sim, uma escuderia com tradição na F-1. O que relativiza o cartel de Senna em seu início de carreira. Em 1984 terminou em 9º lugar no campeonato, em 1985 conseguiu um 4º, repetiu o desempenho em 1986 e em 1987 ficou em 3º. Venceu, com a McLaren, em 1988. Ou seja: em cinco anos venceu um campeonato e teve um terceiro lugar. Fazendo uma comparação livre, Nelson Piquet, após estrear no meio da temporada de 1978 na pequena equipe Ensign, passou para Brabham em 1979 e ficou em 15º lugar, conseguindo o 2º lugar no ano seguinte e o título em 1981. Em 1982, um ano conturbado, caiu para 11º. Recuperou o título em 1983. Em pouco mais de cinco anos conseguiu um vice-campeonato e dois títulos.
Segundo a reescrita da história realizada pelas viúvas, Senna era dono de uma concentração de monge budista, foi o mais veloz dos pilotos, o supremo acertador e construtor de carros. O pioneiro do automobilismo brasileiro Chico Rosa, em entrevista para revista “Grande Prêmio”, apresenta uma opinião diferente: “O Ayrton era um cara que tinha coisas excepcionais, mas não era um piloto completo. Considero que, entre os pilotos brasileiros, o mais completo foi o Nelson. E acho que o Ayrton foi muito menos completo do que o Schumacher. O Ayrton era imbatível em chuva e em classificação, mas tinha muitos defeitos em estratégia de corrida e um problema de desconcentração muito complicado. Concentrado, ele era um piloto. Desconcentrado, ele era um piloto qualquer. E tinha muito esse problema. Ele era um cara que se concentrava que nem um louco para fazer classificação. Por que ele ia bem nas classificações? Porque ele conseguia manter a concentração que exigia para ser rápido daquele jeito por um período de dez minutos, que eram duas voltas lançadas. Nisso, ele era absolutamente imbatível. Agora, ele não conseguia ficar guiando por duas horas com a mesma concentração. Ele foi um mau acertador de carros, nunca soube acertar, e não foi um bom estrategista. Agora, ele era muito rápido. Dava gosto de vê-lo guiar em uma classificação”.
Muito veloz em treinos, nem tanto em situação de corrida. Em seus 162 GPs, Senna somou 19 voltas mais rápidas. Seu antecessor no estilo aguerrido, Jim Clark, teve 28 em seus citados 73 GPs. Prost, muitas vezes considerado excessivamente cuidadoso, fez 41 em 202 GPs disputados. Piquet fez 28 em 208, enquanto Mansell cravou 30 em 191. O argentino pentacampeão Fangio conseguiu 23 em 52 GPs. O austríaco Gerhard Berger possui duas voltas mais rápidas do que o amigo brasileiro, 21 em 210 largadas. Michael Schumacher, ainda em atividade, conta, atualmente, com 76 na carreira. Em todo caso, as viúvas não gostam muito de matemática.
Tornou-se prática comum entre as viúvas falsear deficiências reconhecidas pelo próprio piloto. Como citado por Chico Rosa, sempre foi notória a falta de habilidade de Senna no acerto dos carros. Em entrevistas para a revista “Playboy”, de abril de 1988, Nelson Piquet ironizou o fato. Disse que na McLaren ele poderia se sair bem “porque, finalmente, encontrou alguém para acertar os carros para ele”. Refere-se ao Professor Prost. Os mais afoitos desdenhariam o falastrão Piquet, dizendo que se tratou de mera provocação. Esquecem ou não sabem que Senna, à contragosto e medindo as palavras, admitiu a acusação. Em entrevista para a mesma revista, publicada na edição de agosto de 1990, a repórter Mônica Bergamo perguntou-lhe: “Seus adversários diziam que ele (Prost) acertava o carro, e você vinha na cola, aprendendo. Era assim?”. Hesitante, Senna respondeu: “Eu tinha que aprender com ele, que é experiente e conhecia a McLaren”. A essa altura, entre 1988 e 1989, Senna estava longe de ser estreante. Se fosse um acertador inato já teria demonstrado na Lotus ou mesmo na Toleman.
O mito de que Senna era um profundo entendedor da sofisticada mecânica dos bólidos da F-1 é também improcedente. Para constatar isto basta recordar a célebre polêmica que travou com os engenheiros da Lotus em 1986, quando afirmava que o chassi do carro era o melhor da F-1, mas o motor Renault era ruim. Em 1987, a equipe passou a usar motor Honda e o rendimento do carro diminuiu em vez de melhorar. A constatação final foi a de que, na verdade, o problema era no chassi. Outro dado: durante seu contrato com a McLaren, era prática comum Senna tirar férias exatamente no período de desenvolvimento dos carros. Na Willians, essa dificuldade ficou ainda mais evidente. Em setembro de 2000, Osamu Goto, antigo chefe da Honda, deu uma entrevista para a revista “Autosprint”, onde comparou Senna e Prost: “O Ayrton Senna era um piloto espetacular, dono de uma habilidade impressionante e sabia como tirar o máximo daquilo que podíamos oferecer a ele. O Alain Prost era, também, excelente e podia sempre nos dar algo a mais do que oferecíamos a ele”.
Apesar de dono de verdadeiras “voltas de placa”, Senna não foi perfeito. Cometeu erros tacanhos, dignos de Mansell em seus piores dias. Desatento, bateu sozinho no guard rail enquanto liderava o GP de Mônaco de 1988. Enroscou-se em Gerhard Berger e Riccardo Patrese logo na primeira curva do GP Brasil de 1989, perdendo o bico do carro e ficando três voltas atrás. Confessou: “Coloquei a segunda marcha rápido demais”. Deixou o carro morrer na largada do GP Brasil de 1988. Repetiu o erro no autódromo de Suzuka, no Japão, quase deixando o primeiro título escapar. Conseguiu sair em 15º lugar, pegando no tranco, porque a largada ficava em uma descida. Ganhou posições aproveitando-se da chuva que começou a cair. Curiosamente, sua recuperação fantástica revalorizou o erro, o ressignificou como elemento de dramatização do triunfo. No documentário, Kapadia soube explorar muito bem isso.
A fórmula de construção do herói exige que seus feitos sejam propalados como únicos. Porém, como é comum, também no caso de Senna, muitas de suas façanhas foram repetidas ou melhoradas por outros pilotos. O triunfo em Suzuka não foi inédito. Em 1983, o irlandês John Watson venceu em Long Beach, após sair em 22º lugar. Rubens Barrichello venceu em Hockenheim, em 2000, largando em 17º lugar. Mesma posição na qual saiu o finlandês Kimi Räikkönem no Japão, em 2005. Mesmo o “da sexta marcha”, para quem acredita, foi emulado por Schumacher que, com o câmbio travado na quinta, percorreu 42 voltas do GP de Barcelona de 1994, chegando em segundo.
Diante dessas informações, não raro as viúvas alegam que as condições com que Senna realizou seus grandes feitos foram mais adversas. Duvidoso. Também costumam afirmar que o brasileiro sempre foi prejudicado pelo regulamento. Essa é uma meia verdade. É importante lembrar que a F-1 é um esporte legalista. Saber pilotar com o regulamento no bolso pode ser um fator decisivo. Senna foi beneficiado em 1988, quando fez 94 pontos contra os 105 de Prost, em números absolutos. Sagrou-se campeão devido a extinta regra do descarte dos piores resultados, somando ao final 90 pontos contra 87 do francês. No campeonato seguinte, uma decisão legalista ao extremo tirou-lhe uma vitória soberba; e o título. “Dura lex, sede lex”. Prost sabia o que estava fazendo quando correu para a cabine de direção da prova, após o choque das McLaren. Naquele momento, era mais um advogado do que um piloto. Não estranharia se estivesse de toga por baixo do macacão e peruca branca sob o capacete. Deve ter se lembrado da máxima “aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei”.
Realmente, Senna não se dedicou a fazer amigos no Circo da F-1. Berger, para quem deu uma vitória de presente no GP do Japão de 1991, foi uma exceção. Era considerado desleal pela maioria de seus contemporâneos. As viúvas costumam interpretar essa antipatia como inveja. Uma inveja ao estilo daquela que Salieri teria nutrido por Mozart, conforme vista no oscarizado filme “Amadeus”. Historiadores confirmam que, na verdade, Salieri, que foi professor de piano de Beethoven, ajudou como pôde o promissor novato Wolfgang, quanto ele chegou à corte de Viena. Da mesma forma, parece-me pouco provável que figuras consagradas como Prost e Piquet tivessem motivos para invejar um jovem piloto que ainda tinha muito o que provar. Em sua entrevista para “Playboy”, Piquet mencionou que “no dia em que o Prost e o Senna estiverem disputando um título, por exemplo, todo mundo vai dar preferência (nas ultrapassagens) para o Prost, porque o Senna sempre sacaneaou todo mundo”. Numa entrevista de 1988, publicado no livro “O Circo e o Sonho”, de Nice Ribeiro, Nigel Mansell mostrou-se indignado após ter sido fechado por Senna no GP Brasil: “Sou profissional, recebo para desenvolver um trabalho, não para bancar o louco, desrespeitando a ética das pistas e pondo vidas em risco. Com o Prost, o Rosberg e os outros, a competição sempre foi limpa e honesta. O Senna, pelo contrário, demonstrou que quem tentar superá-lo será colocado para fora da pista. Acho que quem compara o Senna com o Gilles Villeneuve insulta a memória do Gilles, um esportista brilhante e leal”.
Enredados em seu fanatismo quase religioso, é difícil para as viúvas conceberem que Senna não é unanimidade entre fãs de automobilismo ou especialistas na área esportiva. Em 2000, a revista “Isto É” promoveu a seleção do Esportista do Século. Inicialmente, a redação organizou uma enquete com 30 notáveis, que selecionaram aleatoriamente, sem qualquer restrição de período de atuação ou categoria esportiva, os maiores atletas brasileiros de todos os tempos. Senna figurou em 28 listas. Foi esquecido por dois dos votantes. Em todo caso, a lista preliminar foi levada à votação popular e Senna sagrou-se vencedor da enquete, com 87,62% dos votos. O segundo colocado foi Pelé, com 80,75%.
Curioso notar que Pelé foi a única unanimidade no colégio eleitoral, sendo citado em todas as 30 listas. Perdeu para Senna na votação popular como perdeu para Maradona na eleição via internet para eleger o maior jogador do século, promovida pela Fifa. O primeiro caso é compreensível, considerando-se os fatores emocionais envolvidos, o fim trágico do piloto, a força do Instituto Ayrton Senna, etc. O segundo só demonstra a desinformação dos votantes.
Alguns pilotos chegam a certo nível de excelência que se torna quase impossível medir o real alcance de seu talento. Talvez Senna seja mesmo o melhor piloto de todos os tempos, se fatores do imponderável forem colocados na balança. O que as viúvas precisam admitir é essa possibilidade de estarem errados em seus dogmas. Muita gente séria defende que o melhor foi Jim Clark, a despeito de ter sido apenas bicampeão. O tetracampeão Prost é um forte candidato. Os cinco títulos da lenda Fangio o colocam no páreo. A perícia de Piquet em desenvolver carros vencedores não pode ser ignorada. O estilo elegante de Stewart tem seus admiradores. Em termos de superação, Lauda parece ser imbatível. Os números de Schumacher são desconcertantes. Enfim, se existe diferença entre esses monstros é mínima. Gênio é gênio, ponto. O eleito para o trono do automobilismo fica ao gosto do freguês.
Mas o fato é que Senna não é Pelé. No futebol, a distância entre Ele e seus pretensos concorrentes é oceânica. Os defensores de Maradona, ao contrário dos de Senna, não possuem nenhum argumento sequer razoável. Fazem polêmica oca. Os números, os títulos, a habilidade com as duas pernas, o senso tático, estão a favor do Rei. Outros candidatos, como Cruyff e Beckenbauer, admitiram o óbvio. Parte da irrefutabilidade do reinado de Pelé é o fato dele ser ótimo ou excepcional em todos os fundamentos do futebol, sem, necessariamente, ser o melhor em nenhum. Citando as palavras do jornalista André Fontenelle, para revista “Placar”, “Pelé não foi o maior jogador de todos os tempos: foi outra coisa, porque a lista de tudo o que fez o põe em uma categoria à parte, acima de tudo. Os mortais que discutam entre si”.
Imagino que algumas viúvas, ressentidas por minhas colocações nesse texto, possam bradar que eu mesmo sou uma viúva do Rei. Na verdade, torço para que alguém o supere e eu possa estar vivo para ver. Enquanto isso, considerando que Pelé morreu em 1978, só restando um cavalheiro chamado Edson, considero-me uma viúva alegre. Achei, por exemplo, o documentário “Senna” muito melhor do que “Pelé Eterno”.
Ademir Luiz

20 de mar. de 2014

Formação da personalidade

É durante a primeira infância que encontramos os principais elementos para a formação física do ser humano. Elementos estes que acompanham o indivíduo durante toda a sua vida. A formação da personalidade humana ocorre a partir do momento da fecundação e dura a vida inteira.
Da mesma forma acontece com os elementos formadores da personalidade e comportamento dos seres humanos, eles acompanham os indivíduos durante toda a vida, atravessando todas as fases do desenvolvimento humano.

A personalidade é um conjunto de qualidade externas que fornece as características de determinado indivíduo. Tais características, podem e devem ser apreciadas por outras pessoas, pois é a partir delas que identificamos e diferenciamos uma pessoa da outra. É através da personalidade que identificamos os padrões de conduta e comportamento de determinada pessoa. É através destas que se pode predizer qual poderá ser a sua reação diante de determinada situação, estímulos ou condições externas.Deste modo, qualquer conceito que se possa atribuir a palavra “personalidade” está se referindo, em qualquer momento, ao processo de desenvolvimento psicossocial. Quando o individuo nasce não informa através de sinais que possui uma consciência ou sabedoria acerca da sua existência e da existência de outras pessoas, porém na medida que os estímulos e as situações do meio em que vive vão se perfazendo, o indivíduo, vai ganhando características próprias e formando sua personalidade.

Estes estímulos afetam o indivíduo, atingindo o sistema nervoso central, bem como os demais órgãos sensoriais do corpo, fazendo com que comece a formar uma estrutura psicológica chamada de “eu” ,a qual é considerada como parte consciente do ser humano. O “eu”, segundo ao autor, tem por função principal lidar com a realidade, isto de forma racional e equilibrada. O “eu” também amadurece e na medida em que isto vai acontecendo, ele vai aprendendo a se relacionar com outros aspectos mais reais da vida humana. Dentre estes aspectos pudemos destacar a percepção sensorial, a coordenação motora, a inteligência, a adaptação ao meio em que vive, e a acumulação de conhecimento, dentre outros aspectos importantes. Durante a formação da personalidade de um indivíduo é preciso se levar em conta todos os mecanismos de formação sejam eles primários ou secundários, pois ambos são fatores que impulsionam a formação da personalidade.

Todos seres humanos nascem com determinados instrumentos inatos, os quais são imprescindíveis para a vida humana, estes são chamados de “motivos primários” e tais instrumentos são encontrados em todos os indivíduos vivos. Os “mecanismos primários” podem ser a vontade de se alimentar , dormir, respirar, ou seja, são as necessidades básicas que qualquer indivíduo tem e necessita. Além das necessidades primárias, existem também as necessidades psicológicas, porém estas variam de cultura para cultura e de lugar para lugar. As necessidades psicológicas são denominadas de “necessidades secundárias”, pois estas são adquiridas mediante contato com o meio, porém tais necessidades, ainda assim, são necessidades gerais sentidas por todos os indivíduos, como por exemplo, a necessidade de se sentir amado, estas são características inerentes a todos os seres humanos.

Durante a primeira infância a criança utiliza bastante os impulsos biológicos, os quais são de extrema necessidade para garantir a sua sobrevivência, além disso, são estes que determinam o comportamento do indivíduo que atravessa esta fase. Os impulsos biológicos do seres humanos não são dirigidos para satisfazer as necessidades sociais, mas sim, as necessidades físicas como comer , beber, dormir, etc.,porém logo depois que os indivíduos aprendem a satisfazer as suas necessidades primárias, eles começam a orientar suas vontades a outros objetivos, mais relacionadas com o mundo ao seu redor. Assim, os estímulos e processos sensoriais que vão servir para ampliar o seu mundo e aumentar suas potencialidades, acabam fornecendo a ele a chance de acionar o seu desenvolvimento cognitivo. Com o passar do tempo tal desenvolvimento vai ganhando controle sobre os impulsos biológicos dos indivíduos, a partir de então, a personalidade começa a se formar, pois é a partir deste momento que os instintos primários e secundários se harmonizam de alguma forma.

O processo de formação da personalidade ocorre através do processo de socialização, pois é com base nisto que os impulsos biológicos e culturais se interagem, porém o processo evolutivo do individuo só começa na primeira infância. No entanto, é necessário frisar que o processo evolutivo não ocorre somente na primeira infância, porém tudo que acontece nesta fase é de extrema importância para compreender as nuances psicológicas dos seres.
Lane Reis

16 de mar. de 2014

Beleza em tempo de privação

Então, é isso. Barbie precisa ser ultralongilínea para que mãos infantis possam vesti-la e despi-la sem dificuldade. Ou seja, só num corpinho liso, enxuto e sem obstáculos, as roupas deslizam em caimento perfeito. O esclarecimento foi dado recentemente por Kim Culmone, desenhista-chefe da Mattel, fabricante desta que é a coqueluche entre as meninas desde 1959. Kim me fez entender por que já travei tantas batalhas em provadores de roupa, suando em bicas debaixo de uma iluminação cruel, na tentativa de fazer deslizar uma mísera sainha pelos quadris de uma mulher não exatamente gorda, mas longe de ser o tipo mignon. E agora sei por que zíperes emperrados sempre me irritaram. Seja lá como for, são acidentes de percurso.
Lembro de minha filha, ainda criança, testando modelitos e penteados na sua Barbie. Passava horas no tira e põe, em silêncio, falando sozinha ou numa farra com amigas igualmente viciadas na boneca. E quando desaparecia o bendito sapatinho, ficando o par incompleto? Um deus nos acuda pela casa, móveis revirados, lixeiras, idem, sempre sobrava para o cão a suspeita do sumiço. E assim caminha a humanidade: certamente vou rever a cena quando netas vierem animar a minha existência.
O que me intriga é a longevidade dessa boneca de formas, digamos, absurdas: os peitos são protuberâncias que não se coadunam com a cintura muito mais delineada do que a caixa de um violino. As pernas, finas, retas e compridas, parecem um par de hashi, aqueles pauzinhos para comida japonesa. E os pés, o que dizer dos pés eternamente prontos para o salto? Barbie não sente cãibra. Nem tem calos. Dorme, acorda e vive nas alturas.
Recentemente, o artista gráfico Nickolay Lamm lançou um crowdfunding pela internet, com o propósito de angariar fundos para fabricar uma rival da heroína. Não é a primeira vez que essas rivais pintam em cena, mas, agora, a novidade agitou o mercado de brinquedos. Em um mês de doações, o americano arrecadou meio milhão de dólares para o lançamento da sua Lammy, a boneca de formas naturais: não tão alta, nem tão magra, nem tão tábua quanto a blondie. Aliás, Lammy é morena.
Seu criador martela um conceito: average is beautiful, em livre tradução, a beleza mediana tem lá seus encantos. E assim ousa fazer o contradiscurso para essa esqualidez fashion valorizada por uma sociedade que já decretou: o mundo é dos magros. Ponto.
Lammy usa maquiagem, veste roupas esportivas, tem braços e pernas fortes. Faz o gênero malhadora light. Nick Lamm começou a empreitada pesquisando o que seria uma Barbie "normal", mas daí chegou a uma boneca loura que, perto da verdadeira, parecia um botijão de gás. Resolveu então parir uma criatura nova.
A Mattel saiu em defesa do seu ícone. Contra-atacou pela internet com uma campanha em que afirma que o padrão Barbie não tem nada que se desculpar (#unapologetic, certamente inspirada em Rihanna...) e sapecou um slogan bem bolado: Be Youtiful. Seja linda, você mesma. Não dê bola para gordinhas invejosas que a chamam de varapau. Nem para cafonas que não entendem o glamour de um guarda-roupa em Pantone 219, o mundialmente famoso cor-de-rosa Barbie - uau! Mesmo assim, dizem que a Mattel já iniciou conversas com Lamm, de olho no potencial da boneca saudável.
Esse tititi ao menos esboça uma reação à beleza pré-fabricada, tamanho ultrapequeno. O índice de doenças nervosas a partir de distúrbios alimentares, especialmente a anorexia e a bulimia, tem alarmado a Organização Mundial de Saúde (OMS), que por sua vez ainda não dispõe dos dados globais do problema. Mas a letalidade mantém-se alta (fala-se em 15, 20% dos casos). Em Berlim, na inauguração da Barbie Haus, casa-museu com toda a tralha pink da boneca, ativistas da organização Femen botaram pra quebrar. Com seios à mostra, as jovens feministas protestaram contra um "símbolo sexista" que leva meninas à distorção da própria imagem e a doenças graves.
Por que então essa busca por um corpo de medidas perigosamente irreais? A fotógrafa britânica Sheila Pree Bright há anos denuncia a ditadura estética de um feminino feito de privações. E o faz a partir de manipulações no computador, fundindo imagens de bonecas com imagens de mulheres. Esse trabalho, Plastic Bodies, já foi visto em exposições pelo mundo, sempre com grande interesse. Também há tentativas de lançar as Barbies plus size, mais gorduchas. Não emplacam. E mesmo as Barbies étnicas acabam repetindo estereótipos da boneca branca - só que em "pele" negra: olhos grandes, nariz afilado, rosto comprido, bochechas sulcadas. E muita magreza.
Esta semana ficamos sabendo que a bióloga gaúcha Ana Paula Maciel, ativista do Greenpeace, presa tempos atrás na Rússia por protestar contra a exploração de óleo no Ártico, posou para a Playboy brasileira. No ensaio fotográfico, deram um trato nas longas madeixas de Ana Paula, providenciaram maquiagem matadora e vestiram a moça com um biquíni metalizado - figurino mais para domadora de circo ou assistente de mágico do que para ativista verde. Ela diz que seu cachê vai para a criação de uma entidade protetora dos animais. E jura que os leitores a verão sem retoques na revista. Não sei se Ana Paula vai fazer muito pelos bichos com suas fotos. Mas pode fazer pelas mulheres se insistir em ser vista e admirada com seus quilinhos a mais, distribuídos num corpo onde a perfeição não é uma meta.
O corpo da mulher continuará sendo protagonista no espetáculo da vida. Que ao viço da infância, sucedam o tônus da juventude e depois as marcas que o tempo deposita. Que elas cheguem mansamente, incorporadas sem traumas e tratadas com carinho. Pensei nisso ao ver a veterana atriz francesa Fanny Ardant, numa aparição fugaz no filme A Grande Beleza. Além do pretinho clássico, ela vestia um magnífico sorriso de mulher madura. Se você ainda não viu, vale conferir.
Laura Greenhalgh

14 de mar. de 2014

Hora de quebrar a flute?

Taças são importantes para apreciar o vinho. E, pelo simbolismo envolvido (é, por natureza, um vinho de celebração), nenhuma é tão importante como a de champanhe. Pois é justamente esse o centro do mais recente debate no mundo do vinho. Quem está na berlinda é a flute (flauta), a taça de formato cilíndrico, de longe a mais usada. E o que está em discussão é se ela cumpre sua missão.

Até o advento da flute, quem fazia esse papel era a coupe, a taça aberta e bojuda onipresente nos salões elegantes e nas cristaleiras. Conta a lenda que seu formato teria sido moldado nos seios (mais precisamente, sabe-se lá por que, o esquerdo) de Maria Antonieta, a rainha da França guilhotinada em 1793, mesmo ano em que seu marido, o rei Luís XVI, perdera a cabeça.
Lendas à parte (em outra versão, os seios em questão teriam sido os de Madame Pompadour), o reinado da coupe só terminou na década de 1960, quando surgiram as flutes, que, por seu formato, tomaram emprestado o nome do instrumento musical. A flute aumentou o impacto visual da bebida, provocando aquela explosão de bolhinhas que sobem rapidamente do fundo para o alto da taça. Só que agora ela virou alvo. A polêmica da flute começou há uns dois anos, mas voltou a tomar força recentemente. Acusação? Não revelar todos os segredos de um bom champanhe.
O alerta partiu de ninguém menos que o jovem Maximilian Riedel, 11ª geração da família austríaca (como a rainha decapitada), hoje no comando do mais conhecido e respeitado fabricante de copos e taças concebidos especificamente para o consumo de vinhos.
Em recente entrevista à revista especializada inglesa Decanter, Riedel atacou a flute por apresentar o champanhe de forma unidimensional, nivelando por baixo a percepção de seus aromas e sabores. A maioria dos especialistas concorda que nem coupe nem flute tem o formato ideal para o champanhe, principalmente as cuvées especiais e os safrados.
Taças mais abertas, como as coupes, facilitam a rápida dispersão dos aromas e do gás. Taças cilíndricas e estreitas, como as flutes, ajudam a concentrá-los, só que o gás acaba sobrepondo-se aos demais aromas, como aponta Riedel. A grande ironia é que o novo formato que se preconiza (um pouco mais aberto no meio, para aumentar a aeração) lembra o das nossas conhecidas tulipas de chope.
Há quem pense que essa “terceira via” não precisa ser uma nova taça. Bastaria recorrer às usadas para brancos ou tintos. A escolha dependeria da composição do champanhe. A própria casa Moët & Chandon, um dos maiores produtores, sinalizou nessa direção. Ao lançar, há dois anos, um champanhe 100% Chardonnay para ser bebido com gelo, recomendou servi-lo em taças de vinho branco tranquilo (não espumante) feito com essa uva.
FLUTE
Atualmente é o modelo mais usado para servir espumantes. Seu formato longilíneo faz com que o gás dure mais, mantendo as bolhinhas por mais tempo. 

A haste longa evita o contato das mãos com o bojo, o que esquentaria a bebida. 

Por outro lado, a boca estreita limita a apreciação dos aromas e favorece uma grande concentração de gás carbônico na superfície, assim que a bebida é servida, o que costuma irritar as narinas. O formato das flutes pode variar sutilmente, com laterais arredondadas ou retas, bocal mais fechado ou mais aberto e diferentes tamanhos de hastes.


MARIA ANTONIETA
Por ter bojo largo a taça faz o gás se perder mais facilmente e o formato achatado também não facilita a apreciação das borbulhas. 

Apesar disso, depois de ter marcado presença no seriado Mad Men e nos filmes O Grande Gatbsy e The Grand Budapest Hotel, há quem aposte na volta do modelo. A Maria Antonieta reinou dos anos 1930 aos 1960, quando se montavam pirâmides de taças e servia o espumante em cascata. 

Apesar da lenda que envolve o seio de Maria Antonieta, ou de Madame Pompadour, o fato é que ela surgiu pelo menos um século antes delas, e na Inglaterra, não na França.


RIESLING
Maximilian Riedel defende a taça ao lado para o champanhe, especialmente o que tem como base a Chardonnay. 

Originalmente o modelo foi concebido para Riesling. Ele diz que, após várias degustações às cegas, muitas delas com chefs de cave de Champagne, constatou que esse formato revela toda a expressão aromática de champanhes de qualidade. Para um champanhe feito com base na Pinot Noir ou na Pinot Meunier (blanc de noirs) ele sugere o modelo de copo usado para a Pinot Noir, uma taça ainda maior e bastante bojuda. O fabricante jura que não diz isso só para vender mais taças.


TAÇA DO ESPUMANTE BRASILEIRO
O espumante brasileiro também tem sua taça. Ela foi apresentada pela Cristallerie Strauss em 2009, durante a 17ª Avaliação Nacional de Vinhos, no Rio Grande do Sul. 

Depois de testada por enólogos, pesquisadores e consumidores brasileiros, o modelo desbancou 25 concorrentes, não apenas pela estética, mas por sua originalidade e funcionalidade. A taça é feita de cristal fino e tem a forma de uma minitulipa, que favorece a concentração da efervescência em um fio central. O bojo largo e a boca sutilmente fechada facilitam a liberação e a concentração dos aromas, o que permite melhor apreciação dos espumantes de qualidade. 

O volume também foi pensado para evitar que o espumante permaneça muito tempo na taça e acabe esquentando. O enólogo Adolfo Lona aprova quase tudo nela, menos as ranhuras no fundo, o que, segundo ele, ativa muito a liberação do gás, ou seja, reduz a vida do espumante.
Guilherme Velloso

10 de mar. de 2014

Por que tanto homem se fantasia de mulher?

Eles nunca se fantasiam de mulher discreta. Só de periguete. Precisam parecer vulgares e desejáveis. É tão divertido assim? (Foto: Monica Imbuzeiro/ O Globo)Eles são héteros, muito machos, mas no Carnaval soltam a franga. Essa expressão significa “desinibir-se, geralmente assumindo um lado feminino, alegre”. Não é novidade, e acontece no Brasil inteiro. Eles não se fantasiam de mulher discreta. Precisa ser vulgar e desejável. Salto alto, seios pontudos, maquiagem pesada, decotes... e rebolation. No Bloco das Piranhas ou no Bloco das Virgens, nosso vizinho circunspecto fica irreconhecível até a Quarta-Feira de Cinzas. É tão divertido assim ser mulher?
Não existem blocos de mulheres fantasiadas de homens. Se a mulher quiser se desreprimir, a última fantasia será a de homem. “Mulher já pode se vestir de homem no dia a dia, usar calça comprida, camisa social, mocassim...e ninguém põe em dúvida sua sexualidade. Já o homem...”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Py. “Quando Gilberto Gil e Caetano Veloso apareceram de pareô, a reação foi supernegativa. Em 1956, um artista plástico, Flávio de Carvalho, fez um desfile com homem de saia no Viaduto do Chá, em São Paulo, e foi vaiadíssimo.”
Minissaia, vestido de alcinha, frente única, tomara que caia, sandália, shortinho. É tudo ótimo no calor. Mulher tem um enorme leque de variações no vestuário. Homem é mais conservador. As novidades na roupa masculina desde os anos 60 foram a bermuda, a bata e a camiseta regata. Mesmo assim... Vários lugares noturnos e restaurantes admitem mulher de sandália, mas homem não. Mulher de short sim, mas homem de bermuda não.
Mas a roupa é só o visível. A fantasia de piranha desnuda outras fantasias. “O Carnaval é um rito profano e sagrado. O homem se veste de mulher porque quer ser mais afetivo de maneira escancarada, sair beijando todos, de qualquer sexo. Homem afetivo, nos outros dias do ano, é coisa de gay”, afirma o psicoterapeuta Sócrates Nolasco. “É um contraponto. Um momento do ano em que ele não precisa afirmar sua masculinidade. Mulher pode ser afetiva, carinhosa, extrovertida, dada, e nem por isso será tachada de ‘piranha’.”


Não se duvida que uma mulher seja mulher. Ela pode até ter relações amorosas ou conjugais com outra. Continua sendo mulher, caso não imite machos. Ela pode beijar amigos e amigas, abraçar, fazer carinho publicamente. Isso não fará dela “piranha” ou lésbica ou mesmo bissexual. A mulher pode, no trabalho, assumir atitudes estereotipadas masculinas – isso não fará dela um homem. O inverso é mais complicado.

É como se esses homens que se equilibram com pernas cabeludas sobre saltos altíssimos aproveitassem o Carnaval para exorcizar sua dificuldade de mostrar afeto ou fragilidade no dia a dia. Tudo é permitido porque é fingimento. No filme Se eu fosse você, em que Tony Ramos e Gloria Pires trocam de alma e papéis, as plateias o acham muito mais engraçado que ela. Porque Tony Ramos não se comporta exatamente como a sua mulher no filme. “A compulsão por futilidades e os trejeitos exagerados lembram mais o comportamento de um gay afeminado”, diz Nolasco. Para virar homem, Gloria Pires fala grosso, não abaixa a tampa do vaso e faz embaixadinhas – ela muda bem menos.
Os homens que se fantasiam de mulher para zoar à vontade fazem do Carnaval uma catarse de seus fetiches. Claro que só saem em bando. Coisa de macho mesmo. Porque sair sozinho vestido de mulher pode dar origem a outras interpretações.
“Todos, homens e mulheres, temos um lado homossexual”, diz Py. “A sexualidade é uma limitação brutal. A percepção de que a gente pertence a um sexo significa não pertencer ao outro, o que de certa forma nos rouba uma parte da humanidade. A mulher tem uma versatilidade comportamental muito maior. O homem não pode nem fazer carinho em outro homem. O Carnaval é a transgressão inocente, o liberou geral para desfrutar seu lado feminino sem perigo.”
Simpatizo com esses bandos de homens fantasiados de mulheres fálicas em tantos blocos espalhados pelo Brasil. Por um instante, eu me lembro de Freud. O pai da psicanálise dizia que a mulher sentia inveja do pênis. Não seria o contrário?
* Esta coluna foi escrita e publicada por mim na revista há exatos 4 anos, no Carnaval de 2010. Ontem, um francês me perguntou, em Paris, onde estou, fugida dos tamborins, por que tanto homem machão e cabeludo brasileiro se fantasia de mulher nos blocos de rua. Lembrei-me desse artigo e decidi republicá-lo. Continua atual.
Ruth de Aquino

17 de fev. de 2014

A chance perdida pelo futebol brasileiro

Detesto a expressão, mas vou usar: semana passada, o futebol brasileiro perdeu uma grande oportunidade para – desculpem – fazer história.

Não creio que a torcida do Real Garcilaso seja mais ou menos racista do que quase todas as outras do planeta – o que inclui as nossas. Não vi o jogo, mas é bastante provável que o time peruano tenha entrado em campo com mais negros que o Cruzeiro. E sou capaz de apostar que, se na saída do estádio os imbecis que imitaram macacos encontrassem Teófilo Cubillas – o maior jogador peruano de todos os tempos, e negro –, todos pediriam autógrafos e produziriam selfies abraçados ao ídolo.

Não há o que justifique a atuação da torcida do Real Garcilaso, mas antes que surja alguma proposta de ataque militar a Huancayo, quero crer que o objetivo ali era puramente futebolístico: desestabilizar o jogador, tirar-lhe o foco da partida e induzi-lo a erros. Vi Tinga declarar que ele até tentou esquecer as ofensas e se concentrar no jogo, mas tinha sido muito difícil. A abjeta estratégia dos torcedores do Real Garcilaso alcançara o que pretendia.

E foi aí que o futebol brasileiro perdeu o bonde.

Ao primeiro guincho da torcida peruana, caberia ao capitão do Cruzeiro, o bom goleiro Fábio, dirigir-se serenamente ao juiz e dizer que, naquele momento, seu time estava saindo de campo e abandonando a partida. (É por isso que capitães devem ser escolhidos criteriosamente, e precisam ter personalidade e autonomia para agir como legítimos representantes do clube dentro de campo.) Já que Fábio não tomou a atitude, ela teria que vir do treinador Marcelo Oliveira. Finalmente, com Fábio e Marcelo Oliveira compreensivelmente envolvidos pela pressão do jogo, seria obrigação do diretor de Futebol, Alexandre Mattos, ordenar a retirada.

Isto feito, os demais clubes brasileiros participantes da Libertadores – Atlético Mineiro, Atlético Paranaense, Botafogo, Flamengo e Grêmio – deveriam se juntar ao Cruzeiro e, com ou sem o apoio da pouco confiável CBF, exigir a eliminação sumária do Real Garcilaso do torneio. Caso contrário, os seis abandonariam a competição.

Os intransigentes defensores do futebol-negócio certamente irão argumentar com o montante de interesses em jogo. Mas, como diz a campanha publicitária do MasterCard, há coisas que não têm preço. E da mesma forma que a Nissan rescindiu seu contrato com o Vasco, devido aos constantes atos de selvageria protagonizados por uma das torcidas organizadas vascaínas, qual patrocinador não gostaria de ter sua imagem ligada aos times que tomassem a corajosa altitude? 

Em vez disso, entretanto, ficamos sabendo que a CBF emitiu nota oficial onde “concita os órgãos com poderes disciplinares no âmbito da Confederação Sul-Americana de Futebol – CONMEBOL, a sancionarem energicamente os responsáveis pelo triste e lamentável evento”, e vimos que viraram notícias um telegrama de Joaquim Barbosa e uma tuitada da presidenta.

Para manifestações tão flagrantes de racismo em um esporte tão popular, é muito pouco. Perto do que o futebol brasileiro poderia e deveria ter feito, é nada. Só falta agora alguém organizar um protesto nas areias de Copacabana.
Jorge Murtinho

12 de fev. de 2014

Ratan e o prêmio ganho na loteria

 Foto: BBCBrasil.com
Após receber torpedo fraudulento por celular, morador de vilarejo foi a escritório da BBC em Nova Déli buscar suposto prêmio que poderia chegar a US$ 478 mil


Um morador de um vilarejo na Índia viajou 1,7 mil km até o escritório da BBC em Nova Déli para reivindicar milhões que ele acreditava ter ganho na "Loteria BBC".
Ratan Kumar Malbisoi, de 41 anos, desempregado, foi fisgado em um esquema fraudulento (conhecido em linguagem cibernética como phishing, do verbo to fish, ou pescar) após receber um torpedo no celular, dois anos atrás.
"A mensagem dizia que eu tinha ganho entre 20 e 30 milhões de rupias (entre US$ 319 a 478 mil) na loteria nacional da BBC. E pedia que eu enviasse meus dados bancários para que pudessem fazer o pagamento", contou Ratan.
Um homem pobre e de pouca escolaridade, Ratan não percebeu que a mensagem era parte de um golpe. Ratan não só entrou em contato com os falsários, como também enviou a eles seus dados bancários e um extrato de sua conta. E conversou com os bandidos por telefone, várias vezes, nos últimos dois anos, pedindo que enviassem o prêmio prometido.
No mês passado, cheio de esperança, ele viajou cerca de 1,7 km do vilarejo onde vive, no Estado de Orissa, no leste da Índia, até o escritório da BBC em Nova Déli. O dinheiro para a viagem, ele contou, foi emprestado por amigos. Ratan chegou à capital indiana no meio de uma frente fria, vestindo apenas calça e camisa. Depois de passar a noite na plataforma da estação ferroviária, ele seguiu, pela manhã, para o escritório da BBC
Ao chegar à recepção, pediu para falar com Geeta ou Smita. Em uma das ligações que recebera do "escritório da BBC", a pessoa tinha se identificado por um desses nomes, disse. Então eu fui chamada. Ratan contou que, assim que recebeu o primeiro torpedo, em abril de 2012, não perdeu tempo em responder, enviando seu nome e endereço. Dentro de poucas horas, os bandidos telefonaram de volta.
"A pessoa disse que era o 'diretor da BBC'. Falava muito bem. E me prometeu uma grande quantia de dinheiro, mas disse que primeiro eu teria de pagar 12 mil rupias (US$ 191) para que ele pudesse transferir os fundos".
"Eu disse a eles que era muito pobre e não tinha dinheiro. Ele respondeu que eles não poderiam me pagar, mas continuamos negociando e depois de um tempo eles finalmente baixaram o valor para 4 mil rupias".
Ratan explicou que ainda assim não tinha como pagar. Chegou até a sugerir que eles poderiam "descontar as 4 mil rupias do valor do prêmio e me enviar o restante". Isso não seria possível, foi a resposta. Ratan não desistiu. Escreveu uma carta pedindo ajuda, contando sobre sua situação difícil, falando sobre a esposa e as três filhas, explicando que morava em um vilarejo perto da floresta e não tinha casa. Na carta, ele incluiu uma foto da família.
"O 'diretor da BBC'" era sempre muito atencioso, contou. Prometeu que viria à Índia visitá-lo. A última conversa telefônica que tiveram foi em novembro do ano passado.
"Contei que tinha perdido minha mãe e ele perguntou se eu havia recebido o cheque que eles tinham me enviado. Quando ele falou sobre o cheque, decidi vir ao escritório da BBC para saber se tinha sido mandado para cá", contou.
Ratan estava convencido de que as ligações tinham sido feitas da Grã-Bretanha. O número aparentava ser britânico, mas os especialistas é difícil confirmar isso.
O especialista em lei cibernética indiana Pavan Duggal explicou que esses números são falsos. Normalmente, não partem de um celular e sim de um website. E que é possível obter-se números que aparentam vir de qualquer país desejado.
Duggal contou que o golpe aplicado em Ratan é conhecido como um "velho golpe 419 nigeriano", por causa do número da lei nigeriana que trata de fraude.
Marcas
A BBC vem oferecendo orientação a pessoas que recebem mensagens como essas. Segundo o especialista em tecnologia Prasanto K. Roy, elas estão se alastrando e são perigosas. Os falsários usam marcas como a da BBC ou Coca-Cola porque têm credibilidade e são conhecidas globalmente.

"Obviamente, há (pessoas) suficientes, a maioria em cidades pequenas, que não têm muita escolaridade e não entendem muito sobre tecnologia e internet".
Na Índia, o meio preferido dos falsários é o celular. O país é um dos mercados de telefonia móvel que mais crescem no mundo, com 890 milhões de usuários.
O número de telefone que Ratan me deu foi atendido por um homem cujo sotaque parecia mais africano do que britânico.
Ele se apresentou como Scott Smith, disse que vivia na Grã-Bretanha mas recusou-se a me dizer qual era sua profissão. Quando eu disse que estava ligando da BBC, foi ficando cada vez mais agressivo.
"Estou muito ocupado e não posso falar com você. Vou denunciar você para a polícia e pedir que investiguem você. Não acredito que você é da BBC e se eu pudesse ver você, faria você ser presa", disse, antes de bater o telefone.
Depois de dois dias em Déli, Ratan conseguiu voltar para casa. De mãos vazias, mas em segurança. Mas não estou certa de que consegui convencê-lo de que o "diretor da BBC" com quem ele vinha conversando era na verdade um bandido falsário.
"Nunca senti que ele estava tentando me enganar. Gostava de conversar com ele, ele era sempre muito gentil". Ratan disse que nunca contou o caso à polícia.
"Se não quiserem me dar o dinheiro, não posso forçá-los. O dinheiro é deles".
Geeta Pandey - BBC

6 de fev. de 2014

Como é o governo deste país

Como é o modus operandi deste governo atual.

O cidadão está no fundo do poço, mas o “intelectual” não lhe dá a escada, o meio pelo qual ele possa galgar os degraus e subir, desde que faça algum esforço.


Ao contrário, o “homem humanitário” debruça na borda do buraco, estica um braço que nunca vai adiantar e faz cena de que quer ajudar.

O "descamisado" do fundo do poço não sabe que existe uma escada, logo, imagina que aquele homem é bom e quer ajudá-lo, assim, aposta nele.

Os meios (escadas): 
Escola pública de qualidade, cursos técnicos, Transporte, Segurança, Infra estrutura, Economia forte, criação de empregos, etc.

Os jogos de cena: 
Bolsa família, Auxílio reclusão, maciça propaganda, Cotas raciais, etc.

Política do “Pão e Circo”; pão (bolsa isso, bolsa aquilo...) e circo (estádios glamorosos).

O país afunda, mas o poder está garantido.

5 de fev. de 2014

10 razões para parar de trabalhar tanto

A revista Time selecionou bons motivos para diminuir o ritmo no trabalho
A redatora Mita Dira postou um tweet da Indonésia em 14 dezembro dizendo que já estava há pelo menos 30 horas trabalhando. Poucas horas depois ela entrou em coma e morreu no dia seguinte vítima de exaustão e excesso de trabalho. Por conta deste e de outros casos, a revista americana Time elencou dez boas razões para que os profissionais evitem trabalhar tanto.
Quantidade mata qualidade
Você quer ser excelente no que faz . Mas quanto mais tarefas você assumir, menor a chance de fazer um excelente trabalho em qualquer um deles. Corte itens da sua lista de tarefas, senão você pode errar naqueles que mais importam.

Assuntos do sono
"O caminho para uma vida mais produtiva e mais alegre passa por uma boa noite de sono", segundo Arianna Huffington em uma TED talk em 2011. Ela já passou por isso, chegou a desmaiar de cansaço e quebrar o maxilar. Agora é uma espécie de evangelista do sono. "Recentemente, fui jantar com um cara que se gabou de que ele tinha conseguido dormir apenas quatro horas na noite anterior". Ela respondeu: “se você tivesse chegado cinco, este jantar teria sido muito mais interessante."

Você não presta quando é preciso
Segundo a Time, entrar em uma reunião cansado e distraído não vale a pena. Você vai ser ruim para a geração de novas ideias e para encontrar soluções criativas para os problemas.

Seu humor é um desmancha-prazeres
O tipo de irritabilidade e impaciência que se passa com excesso de trabalho e atraso vai lançar uma nuvem negra sobre as pessoas ao seu redor, tanto no trabalho como em casa. Você é um funcionário que irá prejudicar a sua carreira. Se você é um pequeno empresário, irá prejudicar o seu negócio.

Seu julgamento é prejudicado
A pesquisa é precisa: a privação de sono prejudica a tomada de decisão. Como líder, o julgamento pobre é algo que você não pode pagar. Tirar algumas tarefas de sua lista de coisas a fazer pode significar que você use seu máximo de concentração e inteligência para as decisões difíceis que o seu trabalho exige.

Você está dando um mau exemplo
O horário de trabalho e o tom que você definiu para si mesmo provavelmente será espelhado pelo mais inteligente e mais ambicioso de seus empregados. Que tipo de líderes e chefes que você quer que eles sejam? Se você quer ideias mais brilhantes, então não crie um ambiente onde todos disputam para ver quantas horas eles podem trabalhar sem cair.

Sempre haverá mais trabalho
Se você executar o seu próprio negócio, há sempre um novo projeto para começar, um novo cliente de prosseguir ou uma nova tecnologia para experimentar. Isso pode ser uma coisa boa, mas só se você tiver tempo e energia para fazê-los com excelência.

Você está machucando seus relacionamentos
Pode haver pessoas na sua vida se sentindo excluídos. Não espere até que seja tarde demais.

Você está estragando a sua saúde
Será que Mita Diran sabia que ela estava arriscando sua vida por trabalhar tanto? Parece claro pelos seus tweets que não. Se tivesse, ela teria feito uma escolha diferente. Se você deixa o seu horário de trabalho interferir na sua alimentação e exercício físico regular, para não mencionar o sono, é possível que você esteja encurtando a sua vida por excesso de trabalho. Vale a pena?

A maioria do trabalho é menos importante do que você pensa
Há alguns anos, um homem atendeu pacientes em fase terminal. Aqueles que tinham tido carreiras lamentaram o número de horas que passaram no trabalho. Mas muitos de seus pacientes também falaram de sonhos que desejavam e que haviam realizado.

Pergunte-se: em 10 anos, vou me preocupar com isso? Se a resposta for não, então provavelmente é hora de parar e ir descansar um pouco.

4 de fev. de 2014

Mapa nova-iorquino

Me perguntaram quem é o mais nova-iorquino dos nova-iorquinos e o primeiro nome que pintou foi Woody Allen. Bobagem minha. 

Ele e as situações e os personagens dos seus filmes são nova-iorquinos, mas o nova-iorquino típico não é um cineasta neurótico genial.

Todos temos neuras. 
Quais tipificam Nova York?


Numa cidade de oito milhões de habitantes, mais da metade nascidos fora daqui ou filhos de pais imigrantes, quem é típico? Na década de 70, quando fizeram o retrato do americano típico, encontraram uma mulher de meia idade, de origem alemã.
Se você perguntar a dezenas de pessoas quem é o nova-iorquino típico e como aprender a conviver com ele nesta cidade, vai encontrar dezenas de respostas diferentes.

Pedro Andrade, companheiro de mesa no programaManhattan Connection, acaba de lançar o Melhor Guia de Nova York. Confie nas sugestões dele. Foi a todos lugares, conhece donos e empregados.
Pedro viveu em várias cidades. Diz que ser nova-iorquino não tem relação com a cidade onde a pessoa nasceu, cresceu ou mora, mas é onde se sente em casa. No caso dele, Manhattan.
Ele oferece uma longa lista de sugestões práticas de como ser um nova-iorquino já na primeira viagem, para seu próprio bem e para o bem da cidade.
Sempre dê gorjeta ao bartender e ao taxista.
Evite Times Square, Soho e Quinta Avenida nos fins de semana.
Não se assuste com as ratazanas do Lower East Side. Fazem parte do cenário.
Evite pochete, chinelo de dedo e calça capri. Esta, nem em Capri.
Não aplaudir o piloto nas aterrissagens, nem pedir autógrafo a celebridades.
Não dependa de táxis entre 3h30 e 4h30. É hora de mudança de turno.
A pizza de US$ 0,99 pode ser tão boa quanto a de US$ 99.
Não peça descontos nem "choros" no bar.
Não critique turbantes, badulaques, piercings e tatuagens. A big applenão gosta do tédio visual.
Simpatia, paciência, cordialidade, iniciativa e bom humor funcionam em Nova York.

Brian Lehrer é meu mais nova-ioquino dos nova-iorquinos. 62 anos, com QI de 168. Nascido em Nova York, é um premiado radialista, escritor e documentarista.
Entre os prêmios, ganhou o Heart of New York Award, do New York Press Club, pelo documentário Immigrant New York, the last 20 years. Da Biblioteca Pública de Nova York, ganhou o "Best Books for the Teenaged" pelo The Korean Americans. Há muitos outros.
Brian faz um programa diário de duas horas na WNYC, a rádio pública de Nova York. Entrevista de Hillary Clinton a mãe de um garoto de 9 anos que vai para a escola de transporte público, mas quase sempre tem um tópico sobre a cidade, do banal ao profundo. Nenhum outro programa tem pulso mais preciso de Nova York.
Esta semana ele perguntou: "Quem ensinou você a ser um nova-iorquino?". Jorraram respostas pelo telefone, Twitter e e-mail.

Aqui vão algumas.

"Foi um amigo. Aconselhou: 'Abra a porta para os outros, ajude a carregar pacotes, ceda assentos para grávidas. Sempre divida o espaço público'."
"Uma garçonete do hotel Edison. Ela me ensinou a comer uma bagel."
"Minha colega de trabalho: 'Seja fingida até chegar onde você quer'".
"Meu marido me ensinou a surfar as multidões nas estações no rush sem mudar o ritmo das passadas."
"Meu marido sugeriu viagens no metrô até o extremo sul e extremo norte da cidade. E voltar a pé. Num domingo, uma caminhada levou 9 horas. Foi o melhor dia de todos."
"Um amigo me disse quando cheguei, em 1969: 'Se você não encontrar o que procura, o que procura vai encontrar você'. E acertou."
Uma australiana, de Sydney, aprendeu com um nova-iorquino a dar um tapão no capô de carros que avançam nas faixas de pedestres. Em Sydney, se você der um tapa num capô, o motorista do carro desce e dá um murro em você. Em Nova York, eles ficam sentados, mansinhos.

Eu e meus amigos mudamos para Nova York na década de 70, certos de que nossos destinos eram os teatros da Broadway.
Aprendemos:
1 - Caminhe, caminhe, caminhe até aprender o caminho.
2 - Enquanto estiver caminhando, cante. Ninguém vai incomodar você enquanto você canta.
3 - Nunca aborde gente famosa. Os famosos merecem ficar em paz.
4 - Se alguém parece perdido, ajude.
5 - Sempre caminhe.
Dos cinco que vieram, apenas um chegou à Broadway.

Lição aprendida: não há nova-iorquino típico nem lição definitiva. Se você não achar Nova York, talvez Nova York ache você.
Lucas Mendes


1 de fev. de 2014

8 histórias que provam : O sucesso vem com derrotas


Não é sempre que o sucesso vem fácil. Na maior parte das vezes, ele só dá as caras depois de muito esforço e muitas tentativas fracassadas. 



A regra é bem ilustrada por uma frase de Wiston Churchill: "o sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo". 


Veja, a seguir, as histórias de pessoas que se deram bem na vida - mas não sem antes passar por bons bocados.








1. Oprah Winfrey



A maior apresentadora da televisão americana chegou a ser demitida de uma emissora no início de sua carreira. No começo da década de 1980, Oprah trabalhava como âncora de um jornal do canal WJZ-TV, a TV local da cidade de Baltimore, do estado de Maryland. Segundo seu chefe, ela se deixava envolver demais nas histórias que contava em seu programa e, por isso, foi mandada embora.



Poucos anos depois, em 1986, seu talk show, o Oprah Winfrey Show, começava a ser exibido em cadeia nacional. O programa foi renovado até à 25ª temporada e rendeu à apresentadora muitos prêmios de reconhecimento, inclusive sua primeira aparição na lista da revista Time de pessoas mais influentes do mundo. Além desta, Oprah passou a figurar também em outro importante ranking: o dos mais ricos do mundo. Segundo a revista Forbes, o patrimônio da americana é de US$ 1,4 bilhão.





2. Harrisson Ford

A primeira vez que Harrisson Ford apareceu no cinema foi para fazer um pequeno papel em "O Ladrão Conquistador", de 1966. Da estreia, no entanto, não vieram grandes oportunidades para o ator. Com uma esposa e dois filhos para manter, ele largou tudo, em 1970, para se tornar carpinteiro - uma profissão que ele julgava mais estável financeiramente.

Coincidência ou não, Ford começou a construir gabinetes para o cenário de "Loucuras de Verão", filme dirigido por George Lucas, em 1973. O contato com o diretor lhe rendeu uma participação no longa e, mais para a frente, o papel de Han Solo em "Star Wars IV: Uma Nova Esperança". Conhecido também por sua atuação em Indiana Jones e Blade Runner, o artista possui, hoje, dois recordes hollywoodianos no Guinnes Book: o de ator que gerou o maior lucro de bilheteria e o de ator com mais filmes que ultrapassaram a marca de US$ 100 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos.


3. Tim Allen

Pouca gente sabe, mas Tim Allen passou dois anos preso por posse e tráfico de cocaína. A prisão ocorreu pouco depois de Allen iniciar sua carreira como comediante - ele fazia apresentações de stand up comedy em casas noturnas de Detroit.

Em sua condenação, Allen recebeu uma sentença reduzida após concordar em testemunhar contra seu parceiro no tráfico. Ele cumpriu pena na Prisão Federal de Sandstone, onde se tornou conhecido por conquistar tanto os guardas quanto os prisioneiros mais difíceis com seu senso de humor.





4. Andrea Bocelli

Antes de se tornar tenor, Andrea Bocelli se apresentava em bares da cidade de Pisa, na Itália. O dinheiro que ganhava à noite garantia não só o pagamento das aulas de canto, mas também da faculdade de direito que ele cursava.

Depois de se formar, em 1987, e trabalhar durante um ano como advogado, Bocelli optou pela música como carreira definitivamente. Ele começou a ter aulas de canto com o maestro Luciano Bettarini e passou a se dedicar ao canto em tempo integral.


Tanto trabalho teve retorno. Quatro anos depois de iniciar suas lições com Bettarini, quando já tinha 33 anos, a voz do cantor chegou aos ouvidos de Luciano Pavarotti. O experiente cantor se tornou "padrinho" da carreira de Bocelli.





5. Walt Disney

Acredite se quiser: muito antes de o Mickey ser criado, Walt Disney foi demitido de seu trabalho em um jornal por sua "falta de imaginação e boas ideias". Ele trabalhava como ilustrador de anúncios publicados nas páginas do veículo.

Quando saiu do emprego, em 1921, ele se juntou ao seu irmao Roy e o amigo Ub Iwerks para fundar a produtora Laugh-O-Gram, que criava animações de contos de fadas - a predecessora do Walt Disney Studios. Os desenhos feitos pelo trio começaram a ser exibidos nos cinemas da cidade do Kansas antes das sessões de filmes.

Durante um período, o estúdio fechou um acordo com uma distribuidora de Nova York que apenas pagava pelas animações seis meses depois de recebê-las. Foram tempos difíceis para Disney, que precisou reduzir as despesas e a equipe ao máximo para fazer a empresa sobreviver. O ilustrador não poupou esforços: no final do ano de 1922, ele estava morando no escritório da Laugh-O-Gram, comendo comida de cachorro e tomando banho uma vez por semana em uma estação de trem.

Depois de fazer uma animação sobre higiene dental para um dentista da região, Disney obteve dinheiro o suficiente para levar a Laugh-O-Gram para Hollywood, em 1923. Lá, o estúdio fechou um contrato com Universal Studios, que passou a comprar e a exibir as animações da equipe. Foi nesse período que Disney criou um de seus importantes personagens, o Coelho Osvaldo, que se tornou bastante popular quando foi lançado.

O ilustrador, no entanto, não colocou sua assinatura no desenho do pequeno coelho - uma brecha que permitiu à Universal roubar a figura, levando consigo a equipe de desenhistas do Laugh-O-Gram. Quando isso ocorreu, Disney enviou um telegrama ao seu irmão dizendo para ele não se preocupar, pois ele já tinha um novo personagem em sua mente: Mickey Mouse. O sucesso obtido pelo camundongo tirou o ilustrador e seus sócios da miséria.


6. Steve Jobs

A história de como a Pixar foi criada começa com um fato intrigante: a demissão de Steve Jobs da companhia que ele próprio fundou, a Apple.

É conhecido o fato de que Jobs não era um chefe fácil. Pelo contrário, ele era extremamente exigente e tinha uma maneira cruel de cobrar seus funcionários. Esse jeito tornou sua imagem desgastada no conselho da empresa, que, chefiado por John Sculley, optou por uma reestruturação. Nela, Jobs não teria o controle de nenhuma divisão, mas poderia ficar na empresa com o título de presidente do conselho. O empresário não aceitou e saiu da Apple.

Um ano depois, em 1986, Jobs comprou um estúdio de computação gráfica chamado Lucasfilm. Rebatizada de Pixar (uma mistura das palavras pixels e arte), a empresa desenvolveu uma parceria estratégica com a Disney, com a qual criou, produziu e lançou animações de 3D de sucesso, começando com Toy Story.


7. J. K. Rowling

Joanne Rowling, ou J. K. Rowling, era mãe solteira e estava desempregada quando começou a escrever sobre Harry Potter, seus amigos e a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Ela conta que a figura do bruxo com uma cicatriz em formato de raio na testa surgiu inesperadamente em sua cabeça, durante uma viagem de trem em 1990. A história criada ao entorno do personagem Harry Potter ajudava Rowling a passar o tempo, enquanto enfrentava uma depressão e dificuldades financeiras.

A escritora apresentou "Harry Potter e a Pedra Filosofal", o primeiro livro da sequência, a oito editoras diferentes antes de conseguir publicá-lo, em 1997, pela Bloomsbury Press. A obra conta hoje com mais de 120 milhões de cópias comercializadas.

Toda a série Harry Potter foi traduzida para mais de 67 idiomas e vendeu cerca de 1 bilhão de exemplares até dezembro de 2011. Com o grande sucesso de seus livros, Rowling tornou-se a mulher mais rica na história da literatura.

8. Ricardo Nunes

“A dificuldade faz a gente aprender mais rápido”. A frase é de Ricardo Nunes, fundador da Ricardo Eletro e o principal acionista da Máquina de Vendas. O empresário sabe bem do que fala: seu pai morreu aos 40 anos, fazendo com que ele, filho mais velho, começasse a trabalhar para ajudar a mãe com a renda da casa.

Nunes começou, então, a vender tangerinas na porta de uma faculdade. Em pouco tempo, notou que muitas pessoas não compravam as frutas porque não queriam descascá-las. Assim, passou a vender tangerinas descascadas.

Depois de algum tempo, o empresário começou a vender liquidificadores. Vendo que existia muita concorrência no mercado, optou por uma estratégia intrigante: cobrir qualquer oferta. Por causa disso, ele conta que perdeu muito dinheiro com os liquidificadores. O lado bom era que os clientes que vinham à loja acabavam saindo de lá com outros produtos. 

No final das contas, as teorias aplicadas na venda de tangerinas e no comércio de liquidificadores deram resultado. Nunes hoje está à frente de uma rede de varejo que fatura R$ 9 bilhões por ano.

Fabiana Pires - Época

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