13 de mai. de 2014

Nando Reis: Fama, dinheiro, álcool, cocaína, sexo, mortes: dos venenos que há no mundo, ele provou todos

Fama, sucesso, dinheiro, álcool, cocaína, sexo, mortes: dos venenos que há no mundo, Nando Reis provou todos – e parece imunizado. 

Há mais de um ano sem se drogar e casado pela segunda vez com a mãe de seus quatro filhos, de quem ficou separado por quase uma década, o cantor e compositor onipresente no hit parade nacional falou à Trip sobre família, amor, música, loucura, duas tentativas de suicídio, a relação com os ex-colegas de Titãs e a sensação de experimentar a vida sob este novo ângulo: a lucidez
Deve ser para organizar a narrativa da própria vida que Nando Reis escreve. Suas canções são tão intensamente autobiográficas (num esforço de memória, ele só consegue se lembrar de uma que não tenha sido construída a partir de experiências muito pessoais) que toda conversa com ele parece uma reedição em prosa de hits que o grande público conhece bem, como “Relicário”, “All Star” e “Cegos do castelo”. Nando desenha sua história em público.
Também estão expostos nas canções todos os seus venenos. O ato da composição sempre foi para ele algo intimamente ligado ao álcool e à cocaína. A ponto de ter de parar de compor (e lançar um álbum só de covers, Bailão do ruivão, em 2010) para também tomar distância dos vícios. Nesta entrevista – concedida na casa ampla e cheia de discos e obras de arte em que mora, no Pacaembu, em São Paulo – ele equaciona essas relações tão perigosas com o amor pela vida e o medo da morte. Apesar de tudo o que já experimentou e do tão fundo que foi, não veste a fantasia puída de “roqueiro autodestrutivo”. Já morreu muitas vezes (e foram duas tentativas reais de suicídio), mas só foi até o ponto em que ainda era possível voltar atrás.
Esse personagem, no entanto, apareceu com frequência também no palco. Em muitos dos shows que fez na carreira, estava completamente chapado, expurgando em cena as angústias descritas nas letras. Esse tipo de experiência, ele diz, vem desde os tempos primordiais com os Titãs, banda que fundou em 1982 e com a qual rompeu 20 anos depois para seguir em carreira solo.
E foi no pós-Titãs que sua vida profissional tomou dimensões inimagináveis. Desde a segunda metade da década passada, Nando frequenta, ano a ano, a lista dos maiores arrecadadores de direitos autorais do Brasil. Segundo a tabela oficial do Ecad, o compositor é o oitavo no ranking dos titulares com maior rendimento em shows em 2013. Chico Buarque é o nono; Caetano Veloso, o 11º; Paula Fernandes, a 14ª; e Djavan, o 15º. Os números impressionam mais se levarmos em conta que Sei, seu álbum de inéditas mais recente, foi lançado um ano antes de maneira completamente independente, à parte de uma grande gravadora – as 15 faixas foram lançadas na internet, pelo preço que o comprador achasse justo pagar.
Por que letras tão herméticas ganharam o gosto popular? Não há uma explicação muito segura. Mas alguns fatos certamente ajudaram a construir esse caminho de consagração. Um deles, quando Nando ainda estava nos Titãs, foi a gravação de canções suas por Marisa Monte, então sua namorada, no álbum Mais (1991). “Diariamente”, incluída nesse trabalho, pode ser considerada um clássico do pop brasileiro. Depois veio Cássia Eller (1962 – 2002), cujos álbuns de maior repercussão foram produzidos por ele – Com você... Meu mundo ficaria completo (1999), Acústico MTV (2001) e o póstumo Dez de dezembro (2002). Dali, eclodiriam hits nacionais como “O segundo sol”, “Luz nos olhos”, “Relicário” e “All Star”.
Mas não foram somente as cantoras que serviram de combustível ao compositor popular que Nando se tornaria. Foram determinantes no percurso as inclusões de canções dele nos álbuns dos mineiros do Jota Quest e do Skank. Talvez o público nem se dê conta disso, mas hits absolutos dessas bandas, como “Do seu lado” (Jota) e “Resposta”, “É uma partida de futebol”, “Dois rios” e “Ainda gosto dela” (Skank) são de autoria de Nando Reis.
Hoje, aos 51 anos, José Fernando Gomes dos Reis, um são-paulino apaixonado que já foi colunista de futebol, parece interessado em reescrever sua história com outras tintas. E isso inclui a sobriedade. Ele conta que está “limpo” há um ano e três meses. Retomou o casamento (em casas separadas) com Vânia Reis, a mulher que conheceu ainda na adolescência e com quem tem quatro filhos – Theodoro, 28 anos, Sophia, 25, Sebastião, 19, e Zoe, 14. Ismael, seu quinto filho, tem 8 anos e mora no Rio Grande do Sul com a mãe, Nani (Nando tem também uma neta, Luzia, filha de Theodoro).
Toda essa família nós já conhecemos pelo rádio. Ou pelos discos. “Back in Vânia”, “Sophia/ Meu medo é te ver machucada/ Errei por ter te machucado/ Seu pai é um homem indomável/ Um provável homem doce”, “Tenho cinco filhos, fiz uma família/ Trouxe de Saturno um anel de leão/ Onde, hoje, moram minha mãe Cecília/ Cássia e Marcelo/ Dentro do meu coração”, “Meu mundo não teria razão/ Se não fosse a Zoe”, “O mundo é bão, Sebastião”.
Tudo parece biografia, mas é música. Mesmo que ele quisesse muito, não haveria nada que Nando Reis pudesse esconder.
que é veneno pra você? E que veneno mais o modificou na vida? Tem muitas definições do que é veneno. Você pode partir do que faz mal, mais do que o que te altera. Parto do princípio de que veneno deve ser isto: aquilo que não circula bem dentro do seu organismo e da sua cabeça. Acho que a coisa que mais me machucou foram as mortes. Há três mortes muito determinantes na minha vida. Primeiro a da minha mãe, que morreu de câncer. Eu tinha 26 anos, a Sophia [sua filha] tinha acabado de nascer e os Titãs tinham estourado, realizado o sonho de ver nossa música popularizada, fazendo turnê pelo Brasil. Fui bem atingido por isso. Eu estava distante, muito deslumbrado, e a morte dela se deu sem que eu tivesse me dado muito conta do próprio processo da doença. Isso deu uma quebra que eu associo, inevitavelmente, à relação com a cocaína, que é uma droga que eu usei muito e que se misturou muito com a minha vida.
Mas não era só você que usava cocaína na banda. Os Titãs usavam drogas, teve o episódio da prisão do Arnaldo [Antunes]… E até um certo tempo eu era amedrontado com isso. Eu era moralista, meio careta, achava que era uma coisa que não devia ser feita. Tinha fumado maconha, mas parei cedo, porque ela começou a despertar em mim uma paranoia. Eu não posso fumar. Engraçado… Recentemente eu tive um sonho em que eu tinha voltado a fumar e isso me fazia bem. Tem esse ranking das coisas que são mais poderosas e deletérias e te agridem mais, como se a maconha fosse inofensiva e a cocaína o demônio. Mas o impacto e a maneira como cada um usa é tão particular. Bem, mas voltando para a resposta original, daquilo que mais me machucou e me intoxicou, no sentido de deixar algo correndo nas minhas veias, raiva, foi a morte da minha mãe e, anos depois, a morte do Marcelo [Fromer] e da Cássia [Eller]. No ano de 2001, acho… sempre confundo.
Cássia foi em dezembro de 2001. O Marcelo… Foi uns seis meses antes. Isso foi um negócio que teve um impacto violento. Despertou muita raiva também e foi determinante pras minhas reações. A minha reação a essas duas mortes se deu no meu desentendimento com os Titãs, na cristalização da nossa separação, que era um processo. Mas, já que eu falei de drogas: eu me envolvi muito com isso. Usei muita cocaína e álcool. Estou há um ano e dois meses sem beber, porque eu também achei que estava dando muito problema. Essa percepção de quão tóxicos estavam se tornando esses dois elementos na minha vida, que sempre se misturaram com a minha relação de trabalho… Sempre bebi, desde pequeno. Há algo na minha família, essa coisa do glamour… Diferentemente do meu pai e do meu avô, que tomavam seu uísque e tal, eu bebia a trabalho, sabe?
trabalho era meio uma razão pra fazer isso. Era. E eu sempre fui tímido, o álcool era útil para essa desinibição, que tem a ver com as loucuras, inseguranças e tudo o mais. E um efeito muito prazeroso. A questão das drogas tem a ver com isto: elas sempre me deram prazer. A lícita e a ilícita: o álcool, que é permitido, e a cocaína, que não é. Elas sempre se misturaram na minha relação com o trabalho. A decisão de cortar tem a ver com a idade, com o corpo, com o uso abusivo que eu sempre fiz... e a percepção de que não está funcionando tão bem. Embora fiquem registrados na minha memória os picos de prazer. E, no meu caso, a produção... porque eu sempre fui muito produtivo com cocaína. Sempre usei muito pra compor e tudo o mais. Mas uma hora começou a atrapalhar, fiz shows ruins. Ano passado, percebi que estava tudo ruim e que eu nunca tinha experimentado essa perspectiva que estou tendo agora. Não que eu nunca tivesse feito tentativas. Já fui ao AA, carrego a fichinha do AA na carteira desde que fui pela primeira vez.
Você é alcoólatra? Sou um pouco reticente com essa questão da nomenclatura de alcoólatra, não alcoólatra. A própria literatura é. Resolvi experimentar a abstinência do álcool e me dei conta de que eu vivia uma abstinência de muitas outras coisas que eu não tinha percebido. A abstinência da relação afetiva. A abstinência do próprio prazer físico, das atividades, da lucidez. Estou abstinente de álcool, e de cocaína consequentemente, mas ganhei outras coisas. Estou muito satisfeito com isso. Quando você pergunta se eu sou alcoólatra, acho que essa não é a definição. Bem, pode ser que sim... Mas não faz muita diferença pra mim. Pretendo experimentar voltar a beber. Tenho uma atração por estados alterados. Fico reticente de declarar isso publicamente... não quero a vigilância de ninguém, a não ser a minha. Mas, enfim, estou de férias!

"Estou feliz por não me intoxicar mais, embora não saiba o quanto isso é definitivo"

É uma espécie de ano sabático. É, um enorme sabático dessa relação com tudo. Espero que tudo que venha a acontecer se reorganize em outros moldes. Os moldes em que estava já foram suficientemente vividos. Repetir aquelas situações, principalmente de insatisfação, é muito doído. Mas nunca fui adepto de reverter o estágio de cocaína tomando remédio. “Vou tomar um Rivotril pra dormir, um Lexotan pra interromper.” Eu vivia tudo, achava que era importante… loucuras. Tenho 51 anos. Estou bem feliz por não me intoxicar mais, embora não saiba o quanto isso é definitivo.
Você falou de compor com cocaína. Como está a história da composição hoje? Está bem. Compor ou não compor sempre foi uma das coisas que mais me angustiam na vida. A ideia de não fazer uma música, de não gostar da música, sempre esteve presente. E continua. Tem coisas… Este ano eu concluí um trabalho com o Samuel [Rosa]. O Skank deve lançar um disco agora, eu fiz nove músicas. Acho que entraram cinco ou seis no disco. Trabalhei bem. Sóbrio. Fiz músicas interessantes, boas. Mas é difícil, muitas vezes eu tenho vontade de cheirar pra compor. A lembrança do quanto deu certo não se apaga da memória.
Nunca teve aquela história de fazer uma coisa loucão e na hora em que acorda ver que não era tão bom quanto você achava? Mais ou menos. Tenho uma autocrítica ferrenha, às vezes paralisante, e o álcool, a cocaína ou qualquer outra substância que atenue esse impacto sempre foram bons. O disparador, o começo. A coisa chata de fazer muito drogado é que às vezes você não se lembra de como foi e parece que foi uma coisa meio mágica. Mas eu sou um trabalhador. Tenho um lado obsessivo de gostar, de quando eu pego o violão, me debruço sobre uma música, escrevo muito.
Você falou dos shows que estavam ficando ruins. Mas também fez ótimos shows quando estava bem maluco, não? Nesse período de total sobriedade, fiz grandes shows. De mergulhar naquilo que se está fazendo sem deixar outro pensamento te dispersar. A coisa que mais fode um show é você estar cantando e ter um pensamento paralelo. A sobriedade é muito melhor pra cantar e eu, que nunca fui um grande cantor, com recursos técnicos, tinha uma ideia de que só se ficasse doido eu teria interesse pelas coisas. Isso é falso. Durante muito tempo também eu estava tão doido que eu queria acabar o show pra ir pro hotel cheirar. O show às vezes era um martírio. Um show bom pra mim é quando eu me comunico não só com a plateia, mas também com a banda, e quando eu não deixo que a minha armadura se feche nos meus pensamentos e me ponha num lugar onde não estou.
Você é um dos dez maiores arrecadadores do Ecad… Será que ainda estou na lista?
Está. E faz tempo. Não é maluco que o Brasil, em certo ponto tão careta, reacionário, absorva tão bem sua personalidade outsider? Eu nunca fui mesmo sóbrio, convencional. Usar ou não usar drogas, beber ou não beber nunca foi o que me fez ser careta ou louco. Dizem que as músicas que eu faço são o que eu sou… É engraçado, às vezes eu acho que eu tenho um “não lugar” na história da música brasileira. Grande parte do meu repertório, que me coloca nessa lista, é muito popular. Mas parece que aos olhos da produção cultural brasileira isso me descredibiliza, como se eu fosse um artista pop de segunda linha. Não sou o cult, tenho 51 anos, tenho uma carreira de 30 e tantos anos, já fiz músicas de sucesso com os Titãs, muitas músicas minhas fizeram sucesso na rádio. Mas não sou premiado em nada. Nas edições do prêmio do José Maurício Machline [Prêmio da Música Brasileira], que deve comemorar 25 anos, nunca fui indicado. Ano passado acho que fui indicado a melhor capa... Vai tomar no cu! É ridículo.
Você se ressente desse não reconhecimento? Não estou reclamando… Estou fazendo uma observação do lugar estranho em que estou. É como se eu fosse visto, pelo fato de eu ser popular e fazer muitos shows, é como se isso não tivesse um primor de trabalho ou poético ou melódico ou de composição que merecesse qualquer tipo de olhar. Acho estranho, esquisito. Gosto de ser um dos dez mais, mas isso é somatória. Provavelmente tem uma participação grande das pessoas que gravaram as músicas que eu fiz com o Samuel, muitas delas foram hits estrondosos de rádio.
Seu trabalho é muito autobiográfico. Seu último disco é quase completamente dedicado à volta do seu casamento com a Vânia. Queria que você falasse dessa relação. Esse casamento é seu antídoto? Bicho, a monotonia pode ser um puta veneno. E um casamento… Eu acho que nunca me separei da Vânia, mesmo estando afastado dela. Não só por conta dos quatro filhos, mas pelo tempo, pela amizade, pela admiração, pela afinidade de pensamento e pelo cuidado durante a separação, que durou quase oito anos nesse último período. Tive até um filho, o Ismael, com a Nani, que não é fruto de um casamento. Nossas vidas poderiam de fato ter se estruturado para outros casamentos e relações, mas isso não aconteceu. Eu voltei pra ela muito feliz, embora a gente tenha duas casas.
Há quanto tempo vocês estão juntos? Conheço a Vânia desde que eu tinha 15 anos. Atravessei tantas coisas, criei tantas coisas… Ela me dá tranquilidade. É a pessoa que sempre consulto para fazer as coisas e com quem eu, atualmente, estou nessa nova organização que a minha sobriedade trouxe. Não me lembro de ter passado um dia sem ter falado com ela ao telefone, mesmo separado, ou ter deixado de pensar nela, sabe? Fui pra um lugar lindo e pensei na Vânia. Queria comentar as coisas com ela, mesmo estando namorando, envolvido com outra pessoa… E ela identicamente. Fico feliz de estar ao lado de uma pessoa que eu sempre trouxe dentro de mim. É um sentido maior.
Muda muita coisa na relação, depois de tanto tempo? Mudou bastante. Os quatro filhos que tenho com a Vânia cresceram… E é engraçado, ando pensando nisso. No fato de ter tido primeiro o Theodoro e a Sophia, que hoje têm 28 e 26 anos, e depois, num outro momento, o Sebastião, que tem 19, e a Zoé, de 14. Acho que eu tive a crise dos 40 aos 50. Não no sentido de uma mudança externa, na percepção de “ah, estou perdendo cabelo”, mas pensando na finitude das coisas. Fiquei um pouco de saco cheio na minha ideia de sempre estar postergando a felicidade ou criando planos. As músicas que eu escrevo falam muito mais de um ideal. Muito mais daquilo que persigo do que do que vivo. Isso me aborrece um pouco.
Por quê? Eu não quero viver tanto de planos, essa ideia de ficar completamente apaixonado, criando coisas. Quando eu me separei da Vânia, fiquei anos... Namorei a Anna Butler em três períodos diferentes, namorei a Nani, a mãe do Ismael, depois namorei a Adriana. Eu tava sempre imaginando que ia formar uma nova família, casar de novo. E, sempre que essas relações se desenvolviam, uma hora tinha um impedimento meu de que elas se concretizassem. E uma certa desconfiança também, não da legitimidade do afeto que eu tinha por essas mulheres. Uma desconfiança do projeto no qual estava me lançando com elas, então vinham as interrupções.

"Eu penso muito agora: quero viver! O próximo passo é parar de trabalhar tanto"

coisa destrutiva das drogas também não interferia? Não é porque usei drogas que tenho uma relação destrutiva. Eu sou um ser vital, construí um monte de coisas, não é justo comigo que eu não usufrua dessas coisas. Minha volta com a Vânia, ainda mais depois dessa tarefa de criar os filhos, tem isso. Eu penso muito agora: quero viver! Meu próximo passo é parar de trabalhar tanto. Minha vida custa muito caro, minha estrutura é cara, o que me aborrece. Tenho medo de criar uma relação predatória com meu próprio trabalho. Não tenho mais saco para deslocamentos, por exemplo.
você ainda viaja muito. Nesta semana tenho que viajar. Cinco shows em cinco estados diferentes. Tenho a sensação de que vivo muito uma coisa e deixo de viver outras. Quero ser mais equilibrado. Então, meu casamento com a Vânia, uso ele quase como um símbolo. Um símbolo de um casamento com a vida, e não só com o trabalho.
Você tem discos pra todas as namoradas. Seu trabalho, por ser autobiográfico, tem relação com o que acontece na sua vida amorosa? Tem. Meu trabalho tem esse lado vital, que eu falo e defendo. É um traço muito antigo meu. A música que eu mais gosto do disco Sei é a “Pré-sal”. Porque ela descreve muitas coisas relacionadas com a minha infância. O título foi dado pela minha irmã. Um dia reuni meus irmãos aqui e mostrei as músicas que eu ia gravar. Minha irmã olhou e falou: “Acho que essa música deveria chamar ‘Pré-sal’, porque ela é tão profunda, é anterior à consciência”.
Como é essa relação com seus irmãos? Tem dois episódios muito determinantes na história da minha família. Eu sou o quarto filho de cinco. Carlito é o mais velho... meu pai e minha mãe se casaram muito jovens, ela tinha 19 anos. Com 21, já tinha três filhos. O Zeco, o terceiro, teve meningite e ficou surdo. Cinco anos depois eu nasci, ruivo. Não há nenhum ruivo na história da família, eu sou um acidente genético. E três anos depois de mim nasceu a Lulu, Maria Luiza. Ela teve meningite também, que degenerou para uma encefalite e deu uma paralisia cerebral. Ela foi superafetada por essa paralisia. O Zeco, apesar de surdo, sempre estudou em escola normal. Minha mãe sempre foi defensora da inserção, da inclusão. Que ele não ficasse restrito ao gueto dos surdos e mudos, da linguagem de sinais. O caso da Lulu era mais grave, então ela ia a uma escola especializada, para pessoas com problemas neurológicos e motores graves. 
Conviver com isso foi marcante na sua vida? Ela tinha surtos de agressividade, uma coisa terrível. Então era um pouco constrangedor pra mim, meus amigos iam lá pra casa e se assustavam com aquilo. Nossa vida familiar foi muito marcada por esses episódios. Somos paulistanos de classe média alta... mas eu sempre fui estranho. Pela ruivice, pela minha família, pela minha história. Essa estranheza, nem facilitadora, nem dificultadora, foi a minha marca particular. Minhas músicas autobiográficas sempre estão em primeira pessoa porque são de fato a minha história. Cada um de nós precisa se haver com aquilo que é. E essa é talvez a força política da minha música, a defesa do indivíduo. Não no individualismo contra o coletivo, pelo contrário: pra você se incluir coletivamente de uma forma saudável, você precisa ser satisfeito com o que é.
Em uma banda de oito, era preciso se colocar... Eu nunca fui bom, eu sempre perdi lá dentro. Tanto que eu tive que fazer muitas coisas fora. O Marcelo [Fromer], ele que me alertou: “Bicho, você faz um monte de coisa. Por que você não compõe?”. A quantidade de músicas que eu apresentava pro Titãs e era gravada era pouca. Eu era um autor minoritário dentro do grupo, não era bom na competição lá dentro. Acho que fui engolido muitas vezes e desenvolvi vinganças. Tem um lado estranho da minha personalidade, da minha relação com os Titãs. E é paradoxal: sou um sujeito que se arrisca muito. Mas meus riscos são meio calculados. Já quase me fodi nessas de saber até onde posso ir.
Por exemplo? Já tentei me matar. Saca? Evidentemente era a infelicidade da vida que eu levava, somada a uma raiva, somada a um foda-se... E, claro, muita droga.
Tentou se matar como? Exagerando na droga? Não, não. Eu tenho uma resistência física absurda. Nunca tive ressaca, sou daqueles caras que cheiravam, cheiravam, e depois iam fazer coisas. Nunca faltei em um show, nunca perdi hora, raramente perdi um voo. É uma característica minha. Tentei me matar foi porque eu estava bebendo muito, minha vida estava desorganizada. Eu tava separado da Vânia e ela falou: “Do jeito que você tá, não vai pegar as crianças”. Isso foi o fim. Tomei duas caixas de Lexotan. Tive uma intoxicação e fui socorrido. Também já cheguei a ficar na beira de um prédio, olhando pra baixo. Já fui salvo, sobrevivi. Nunca bati o carro... Tudo isso pra dizer que, embora eu tenha me arriscado muito, eu sabia que eu ia voltar. Sempre voltei. 

"Impossível retornar aos Titãs, mas eu queria muito retornar a amizade, a convivência"

Como é estar exposto assim, diante dos filhos? Tem uma música sobre a Sophia... Essa música é muito explícita sobre essa relação difícil. A Sophia sempre reagiu negativamente, apontando “eu não gosto que você fique muito doido”. Se afastou de mim, nunca se esquivou desse assunto. Nenhum filho gosta de ver pai bêbado, ausente. É deprimente. Ela sempre falou: “Acho uma merda você beber, cheirar”. E a música, eu escrevi muito louco, aliás. Há mensagens subliminares sobre esse assunto em várias outras músicas minhas. “Cegos no castelo” é uma. Todo mundo acha que eu estou falando sobre os Titãs. Mas é muito da minha cegueira, meu isolamento. Castelo é um lugar onde metaforicamente eu me encastelava. Falava de mim e da minha relação com a cocaína.
Está tudo certo entre você e os Titãs hoje? Tá, supercerto. Adoro todos eles, adoro a nossa história, os discos que a gente fez. Era muito apaixonada a minha relação com eles, durante muitos anos. Uma separação é sempre desagradável e claro que vieram à tona coisas que não precisavam ter vindo, a dor de cada um dos lados, a raiva de cada um pela incompreensão. A minha saída tinha a ver com me sentir incompreendido, ver o meu espaço cerceado, naquele momento parecia isso. Depois eu vi que eu tava querendo mais espaço e uma necessidade absoluta de controle, de não ter que dividir tanto. Você só pode estar numa banda se você deseja aquilo, a coisa democrática. Tava ficando chato, eu era sempre a voz dissonante. Mas não há mágoa.
Vocês se veem? Estive com Paulo [Miklos] há dois meses, a morte da Raquel [mulher dele] me tocou profundamente, me fez sentir saudades deles todos. Impossível retornar aos Titãs, mas eu queria muito retornar a amizade, a convivência. Com o Paulo, por exemplo, a gente passou uma noite aqui em casa, 5, 6 horas conversando, bebendo cerveja sem álcool, que eu adoro. É muita afinidade, sabe? Há muitas coisas que eu vivi com eles, da forma de pensar, da maneira de ouvir música, de comentar. Tenho vontade de ligar, sabe? Não tô falando só de nostalgia, tô falando de linguagem. Eu admiro muito a forma, a inteligência de todos eles. O Paulo Miklos é um sujeito brilhante. É um dos caras mais engraçados que eu já vi. No Natal, fomos almoçar eu e ele na casa do Arnaldo, eu adoro. Relações como essa podem se manter mesmo sem contato, que elas estão intactas. Tenho certeza, com todos eles. Com Paulo, Charles, Arnaldo, Brito, Branco, Belotto. Lamentavelmente não posso encontrar o Marcelo.
Você tem medo de morrer? Ando pensando muito na morte, sim. Acho que principalmente… Meu pai tá com 83 anos e a sua saúde sofreu um ligeiro revés. Então olhar pra ele e pra mim, os filhos crescendo… Tenho pensado nisso, sim. Não tem coisas que eu nunca fiz e preciso fazer antes de morrer, sabe? O que incomoda são sinais de mudança no próprio corpo. Eu treino, faço musculação, academia, mas claro que é diferente hoje. Essa percepção do tempo passando e de que não há como reverter, isso aflige, incomoda. Incomoda, não: assusta. A mudança de hábitos, de parar de beber, de ver que cheirar não dá mais, tá relacionada com isso também. De percepções de que passou um tempo. Mas tenho um pouco de raiva de ter que parar. Eu gostava daquela infinita energia e alegria que as drogas e o álcool me traziam, mesmo que ilusória.
tem a coisa da vaidade? Sim, tenho questões que sempre me acompanharam e que agora exijam talvez mais... Antigamente eu cheirava e ia treinar, sabe? Na academia. O que é bastante estúpido de certa maneira. É uma coisa impensável hoje. Se eu cheirar tenho que ficar dois dias de molho, é um horror. Acho detestável trocar, nesse cálculo racional, bem objetivo e realista, dois dias que eu perderia por uma noite de farra, sabe? Não quero perder as coisas boas em nome de algo que eu já fiz bastante.
Pra parar de beber e cheirar você tem que botar um negócio no lugar, pra segurar a onda? Vou ser bem honesto: eu não bebo porque eu tô tomando um negócio chamado antietanol.
Pra que serve? É um remédio que você toma e para de produzir uma enzima que metaboliza o álcool. Então, se você ingerir álcool, é tão tóxico que você vai parar no hospital. Eu sei que a minha força de vontade não seria suficiente pra eu parar de beber, então eu decidi experimentar esse negócio. Se eu pus coisas no lugar? Acho que comecei a fumar mais cigarro, mas quero controlar. Um dos meus pânicos com a idade é sofrer doença. Não sou um cara que vive bem com dor e com doença. Preciso estar apto, não só porque tenho muita coisa pra fazer, mas porque gosto dessa aptidão, entendeu?
Você começou a tomar esse remédio só pra parar de beber? Fui lá no Rodrigo Bressane, meu psiquiatra, e ele me passou esse remédio. Que se eu beber eu passo mal. Fiquei muito intrigado e pensei: “Pô, não quero ser castigado”. Mas queria parar de beber, experimentar esse outro barato. E é bom. Porque tem uma certa contabilidade pra uma pessoa pra beber como eu bebia, que usou drogas como eu usei e que já tem 51 anos. Percebi uma queda de qualidade em alguns aspectos, nas relações afetivas e tudo o mais. Já não sei por que eu tô falando isso...
Você estava falando do barato de não ter barato. Ah, sim. Teve um resgate com a minha essência, vamos dizer assim. Continuo sendo a mesma pessoa, não tive nenhuma depressão, não fiquei mal-humorado, não fiquei chato, não tive síndromes. Nenhuma. Pelo contrário, fiquei eufórico, comecei a achar graça em um monte de coisas. Resgatei um monte de coisas que estavam de lado. Minha casa voltou a ficar cheia, minhas relações ficaram boas. Por outro lado, a vida normal é um saco, velho. Não é assim essa maravilha... Mas não é nem com drogas, nem sem drogas. Então vamos combinar que é uma escolha. Tô muito satisfeito com essa escolha. Eu tava sofrendo muito com a vida que eu levava.
Você falou das novas músicas que fez com o Samuel Rosa. Você vê diferenças nessas canções, feitas nessa fase de sobriedade? Não... acho que aquilo que dá qualidade ou uma marca às minhas músicas é a forma como eu penso, ou mesmo como eu lapido o trabalho. A droga sempre foi uma ótima despertadora de apetite, mas, a partir do momento em que estou envolvido, tanto faz o processo mental. Nunca fui bobo de achar que uma coisa estaria boa apenas porque eu estava doido. Ou porque tô careta. É muito mais na hora de “tá bom, vamos abrir o violão e pegar essa coisa”. É pra esquentar. Pra responder mais objetivamente: não há diferença de qualidade, de característica. Minha forma de pensar é minha, careta ou louco. Não muda.
Marcus Preto Revista TRIP

 Chora não, Gugu. A gente some mas volta 

24 de abr. de 2014

Muito interessante


O vidro demora um milhão de anos para se decompor, o que significa que nunca se desgasta e pode ser reciclado um número infinito de vezes! 

O ouro é o único metal que não enferruja, mesmo estando enterrado no solo por milhares de anos. 


A língua é o único músculo do corpo que está ligado apenas uma extremidade. 



Se você parar de ficar com sede, você precisa beber mais água. Quando o corpo humano está desidratado, o mecanismo de sede é desligado. 



A cada ano, dois milhões fumantes param de fumar ou morrem de doenças relacionadas com o tabaco. 



Zero é o único número que não pode ser representado por algarismos romanos. 



Pipas foram utilizadas na Guerra Civil Americana para entregar cartas e jornais. 



A canção, Auld Lang Syne, é cantada a meia-noite, em quase todos os países de língua Inglêsa para celebrar o novo ano. No Brasil, Portugal, França, Espanha, Grécia, Polônia e Alemanha, é uma canção de despedida. (Adeus amor eu vou partir…) 



Beber água depois de comer reduz 61 por cento do ácido na boca. 



O óleo de amendoim é usado para cozinhar em submarinos, porque não solta fumaça a menos que seja aquecido acima de 450F ou 232C. 



O barulho que ouvimos quando colocamos uma concha junto ao nosso ouvido não é o oceano, mas sim o som do sangue correndo nas veias da orelha. 



Nove em cada 10 seres vivos vivem no oceano. 



A banana não pode reproduzir por si só. Ela só pode ser reproduzida pela mão do homem. 



Aeroportos em altitudes mais elevadas requerem uma pista mais longa, devido à menor densidade do ar. 



A Universidade do Alaska abrange quatro fusos horários. 



O dente é a única parte do corpo humano que não pode se curar or regenerar. 



Na Grécia antiga, jogar uma maçã a uma mulher era uma proposta de casamento. Pega-la significava aceitação. 



Warner Communications pagou 28.000 mil dólares para os direitos autorais da canção Parabéns pra Você. 



As pessoas inteligentes têm mais zinco e cobre em seu cabelo. 



A cauda de um cometa aponta sempre para longe do sol. 



A vacina contra a gripe suína em 1976 causou mais mortes e doenças do que a doença pretendia evitar. 



A cafeína aumenta o poder da aspirina e outros analgésicos, é por isso que é encontrada em alguns medicamentos. 



A saudação militar é um gesto que evoluiu desde os tempos medievais, quando os cavaleiros de armadura levantavam suas máscaras para revelar sua identidade. 



Se você estiver no fundo de um poço ou embaixo de uma chaminé alta e olhar para cima, você verá as estrelas, mesmo estando no meio do dia. 



Quando uma pessoa morre, a audição é o último sentido a desaparecer. O primeiro sentido perdido é a visão. 



Nos tempos antigos estranhos apertavam as mãos para mostrar que estavam desarmados. 



Morangos são os únicos frutos cujas sementes crescem na parte exterior. 



Abacates têm calorias mais altas do que qualquer outra fruta: 167 calorias para cada cem gramas. 



A Lua se afasta da Terra cerca de dois centímetros por ano. 



A Terra fica 100 toneladas mais pesada a cada dia devido à queda de poeira espacial. 



Devido à gravidade da Terra é impossível montanhas serem mais altas do que 15 mil metros. 



Mickey Mouse é conhecido como "Topolino", na Itália .. 



Soldados em formação não podem marchar quando atravessam pontes, porque poderiam criar vibração suficiente para derrubar a ponte. 



Tudo pesa um por cento menos no equador. 



Para cada kg adicional de carga em um vôo espacial, 530 kg adicionais de combustível são necessários para decolagem. 


A letra J não aparece em qualquer lugar da tabela periódica dos elementos. 

15 de abr. de 2014

Como fazer o melhor check-up

CHECKUP-ABRE-IE-2316.jpg
Dois artistas populares no Brasil tiveram problemas graves de coração recentemente, apesar de serem adeptos de check-up regulares. O ator José Wilker faleceu por causa de um infarto no sábado 5, aos 69 anos. Amigos próximos relataram que ele havia se submetido a exames recentemente. 

“Fiquei chocado, porque ele se cuidava, fazia check-up”, disse o diretor Denis Carvalho. E o humorista Renato Aragão, 79 anos, também conhecido por zelar pela saúde, sobreviveu a um infarto, ocorrido em 15 de março. 

As histórias dos artistas chamaram a atenção para um fato considerado rotineiro por cardiologistas: na maioria das vezes, os check-ups cardíacos não incluem testes de imagem, os mais efetivos para detectar obstruções arteriais que levam ao infarto. Por isso, pessoas que acreditam estar com boa saúde porque apresentam índices normais dos principais fatores de risco acabam na emergência cardíaca dias ou semanas depois.


CHOQUE
O infarto que levou Wilker à morte surpreendeu os amigos mais próximos

Foi isso que aconteceu com o empresário carioca Hirohito Clemente das Neves Júnior, 51 anos. Aos 42 anos, ele sofreu no hospital duas paradas cardíacas. Antes disso, sentia-se seguro, pois passava bem nos testes anuais que realizava. Chegava a internar-se por um dia em hospitais de excelente nível, no Rio de Janeiro. Foi salvo porque correu ao hospital quando começou a suar e sentir dormência no braço esquerdo. “Agora, a cada dois anos faço uma cintilografia do coração”, conta o empresário, referindo-se a um exame de imagem que não faz parte do pacote habitual de checagem.
Esse tipo de ocorrência está levantando a discussão sobre a eficácia dos check-ups comuns. De fato, há alguns pontos nesse sistema que podem levar à falha na sua capacidade de predição dos riscos. Um deles é exatamente o fato de a maioria não incluir exames de imagem. Ocorre, porém, que a obstrução arterial por placas de gordura só é visível por meio dessa tecnologia. “Além disso, não são apenas as placas de gordura que causam infarto, mas também eventuais espasmos musculares do coração”, afirma o cardiologista Emílio Zilli, diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia. “As pesquisas estão evoluindo também para se averiguar melhor o comportamento das partículas sanguíneas. Às vezes, uma partícula de gordura pode desencadear uma inflamação desastrosa”, explica.
01.jpg
O cardiologista carioca Carlos Scherr, do Colégio Americano de Cardiologia, também enfatiza a necessidade de testes mais sofisticados. “As placas de gordura podem passar despercebidas num teste de esforço, se forem pequenas, mas não seriam ignoradas em um exame de cintilografia coronariana ou em uma angiotomografia”, afirma. “Mas são procedimentos mais caros e que submetem o paciente à radiação. E há relutância dos planos de saúde de autorizá-los por serem onerosos financeiramente”, diz. A Associação Brasileira de Medicina de Grupo disse, em nota à ISTOÉ, reconhecer que “o médico é sempre o profissional indicado para fazer a avaliação” e que libera exames complementares “nos casos de alto risco.”
O desafio é descobrir quem precisa de investigação mais apurada, o que a entrevista médica pode indicar. Médico do Instituto do Coração, de São Paulo, o cardiologista Sérgio Timerman diz ser adepto da “conversoterapia”. Com ele, o diagnóstico não sai antes de ser traçado um quadro com os hábitos do paciente e o histórico de enfermidades de sua família. “Em consultas de 15 minutos não se faz medicina”, diz. Segundo ele, estudos mostram que pacientes que morreram de infarto muitas vezes tiveram algum sintoma que negligenciaram, como falta de ar. De detalhe em detalhe, é calculado o risco do indivíduo e o teste laboratorial mais indicado. Até um cateterismo pode ser usado em último caso. “Muita gente já foi enterrada com bons resultados de check-up”, afirma Timerman.
02.jpg
O cardiologista e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Denilson Albuquerque diz que o médico pode fazer uma planilha com os fatores de risco do paciente, mas que o próprio indivíduo também precisa se monitorar. Por exemplo: pesar-se regularmente já que aumentos abruptos podem significar retenção de líquido e consequentes risco de infarto.
Para complementar o esforço por uma melhor prevenção, a credibilidade dos testes é fundamental. Porém, a própria Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial admite que dos 17 mil laboratórios públicos e privados do País, apenas seis mil adotam algum programa de qualidade. O diretor de Acreditação e Qualidade da entidade, Walter Shcolnik, diz que a maior parte dos erros está na coleta, no armazenamento e no transporte das amostras.
03.jpg
Michel Alecrim - Istoé

A pátria que nos pariu

"Em poucos dias, farei 514 anos, eu, a mãe-pátria amada de mil faces. A pátria que vos pariu. Estou em toda a parte e em lugar nenhum. Sempre quiseram dar-me uma identidade, mas eu não tenho um rosto só. Na verdade, sou uma região dentro de vossas cabeças.
No início, eu era a bandeira catequista para encobrir a missão predatória que faziam no País real. Eu era usada para abençoar índios de camisola e navios negreiros.
Depois, eu fui a mãe escravista e mercantil do império, defendendo o atraso para o bem dos donos do poder. Na República, virei a auriverde mãe positivista, entre flores e raios apontando para um eterno futuro.
Nos anos 30 e 40, virei uma mistura de madona 'art déco' com alegoria populista. Falavam de mim nos hinos, nas capas de cadernos escolares, nas fachadas de hospitais, eu era a virgem mãe nacionalista defendida contra inimigos estrangeiros, mas, na verdade, eu servia para proteger meu pior inimigo: o patrimonialismo enquistado nas dobras do Estado.
O pós-guerra mudou o mundo, mas eu continuei a ser uma grande aquarela brasileira em que cabiam todas as ilusões. Eu era abençoada por Deus e tinha a nitidez dos quadros acadêmicos, eu justificava os crimes dos poderosos com meu firmamento estrelado, minas de ouro, leitos de petróleo, sempre com a promessa de 'futuro'.
Com Brasília, acharam-me 'fora de moda' com minha alma agropastoril. Eu não seria mais Cy, a mãe-do-mato, cercada de curupiras, boitatás, sacis. Virei um canteiro de obras, esqueletos de edifícios - eu era a arquiteta da utopia. Deixei de ser índia. Cobriram minha nudez de Iracema com meias de nylon, grandes luvas negras, 'escarpins' dos anos 60. Nasci para o mundo com a 'missão' juscelinista que acabaria com a miséria pelo parto da modernidade. Mais uma vez, eu era o emblema de uma nova ilusão dos brasileiros. Transformaram-me em aeroporto para o amanhã mágico, um viaduto imaginário por cima da desgraça do povo.
Mas, o subdesenvolvimento persistia, mesmo sob a asa branca da capital utópica, e eu fui transformada numa nova alegoria.
Em 1963, era preciso que eu fosse a mãe das reformas de base e que levasse nas mãos a espiga de milho, a foice dos camponeses e a roda dentada da indústria. Eu iria parir um tipo novo de socialismo sem sangue, um 'socialismo tropical' que viria por decreto do presidente Jango. Eu seria uma mãe-coragem sem guerra que realizaria todos os desejos. E entre as tochas dos comícios delirantes, levadas por jovens que se achavam o 'sal da terra', eu aboliria a luta de classes e seria a mãe da 'revolução cordial'.
Mas meus filhos revolucionários não contavam com a infinita mesquinhez dos poderosos, escondida sob a aparência de cordialidade, pois os donos do poder não queriam me ver sujando as mãos nas favelas e no campo.
Assim, na ditadura militar, eu fui tirada do pedestal popular e uma nova mãe-pátria foi criada, no altar positivista dos tenentistas tardios. Abriram-me novos céus estrelados, fizeram-me de novo a índia de camisola verde-oliva, a triste mãe dos quartéis, a feroz guerreira parnasiana dos discursos militares. Durante esses anos, meus filhos tiveram medo de mim, mãe castradora, seca, cruel.
E então eu virei a deusa trágica dos heroicos guerrilheiros urbanos, a mãe-trapezista dos abismos, a estrela dos suicidas. Os torturadores giravam máquinas elétricas e, entre gritos, pensavam estar me defendendo, a mim, uma vaga mistura de seios ensanguentados e rostos de meninos-cadáveres. Eu fui a mãe dos assassinos. Enquanto isso, eu tinha saudades dos meus filhos do Brasil real, feito de madeira podre, caixote, barbante, lama e favela. Eu estava com eles, mas ninguém me via.
No fim da ditadura, eu renasci como a mãe democrática, o futuro de uma vida nova que viria. Mas chegou a liberdade e eu não cheguei. A liberdade veio torta, marcada pela morte de Tancredo. Os planos econômicos fracassavam e não chegava a felicidade que eu traria. E meus filhos começaram a me maldizer, ao ver que a democracia era de boca, que as instituições eram dominadas pela oligarquia e que o País era pilhado até por 'ex-vítimas da ditadura'. Fui a mãe do desencanto. Fui a mãe odiada.
Hoje, sou a mãe dos desorientados. Sou a mãe de velhos militantes regressistas, comandando massas imaginárias, sou a mãe-suja dos corruptos, sou a mãe terrível que abandonou os filhos no corredor do hospital sem leitos, sou a mãe aborteira, sou a mãe criminosa dos massacres, sou a mãe dos mortos nas prisões, sou a mãe das secas, a mãe da poluição, sou a mãe da fome, a mãe paralítica dos burocratas, sou a mãe dos pixotes assassinados, a mãe das putinhas dos garimpos, a mãe dos esgotos, mãe do medo. Nunca sentira isso antes. Sinto-me uma mãe fragmentada, desmantelada por um velho desejo de desfigurar as instituições em que me apoio. Os homens que mandam no País não me querem, dizendo que me amam ou que amam o povo que não amam.
Nunca, em minha vida de 500 anos, vi este desejo cego de me ignorar (me louvando), num misto de estupidez com hipocrisia. Mas, vejo que meu corpo é maior, que eu sou muito complexa para ser destruída, que as partes fundamentais da verdade vão prevalecer e me manter viva. E em meio aos escândalos, aos roubos, à destruição (agora sim) do patrimônio nacional, vai aparecer meu novo rosto. Meu manto de estrelas será tecido de trapos e deixarei de ser uma deusa longínqua, uma ilusão, e aos poucos os brasileiros aprenderão a me chamar de 'realidade'.
Mas, eu me prefiro assim, pois ressurgirei da morte das mentiras, hinos e discursos corruptos que enganaram meus filhos. E quando os sonhos falsos forem esquecidos, sob um céu de anil, entre rios e florestas, poderei fazer alguma coisa por vocês, filhos queridos."
Arnaldo Jabor

10 de abr. de 2014

Roberto Carlos em ritmo de ditadura

PROXIMIDADE Roberto Carlos é condecorado pelo general Humberto de Souza Mello.  Ele foi listado  entre “artistas  que se uniram  à Revolução”  (Foto: Folhapress)Em 1979, um cantor circulava pelos corredores de Brasília causando alvoroço entre as secretárias. Roberto Carlos, aos 38 anos, cabelos cacheados, fazia visitas pontuais a autoridades do governo. Seus passeios pelo Planalto tinham um propósito: conseguir a concessão para uma emissora de rádio. “Ouvi gritos no corredor e, de repente, entrou o Roberto Carlos em meu gabinete. Tomei um susto. Ele tinha vindo fazer uma visita de cortesia. Isso não era necessário, porque as concessões eram dadas pessoalmente pelo ministro ou pelo presidente. Eu cuidava apenas da documentação burocrática”, diz Rômulo Furtado, na época secretário-geral do Ministério das Comunicações. O ministro era o capitão da Marinha Quandt de Oliveira. O presidente era o general Ernesto Geisel.
Roberto Carlos andava em companhia do radialista Cayon Gadia, seu sócio na empreitada. O governo distribuía concessões de rádio e restavam poucas faixas na frequência FM. Entre as grandes capitais brasileiras, havia um espaço atraente em Belo Horizonte. Na época, a distribuição das emissoras não obedecia necessariamente a critérios técnicos. “O nome de Roberto Carlos e o prestígio dele já eram credenciais suficientes para garantir a concessão”, diz Rômulo. O trabalho de lobby só deu resultado mais de um ano depois. No princípio do governo de João Baptista Figueiredo, Roberto Carlos conseguiu autorização para montar a Rádio Terra, que manteve durante 15 anos em Belo Horizonte – sem que o público nem mesmo os empresários do setor soubessem de sua participação.

PROXIMIDADE Roberto Carlos é condecorado pelo general Humberto de Souza Mello.  Ele foi listado  entre “artistas  que se uniram  à Revolução”  (Foto: Folhapress)
Essa passagem desconhecida da biografia de Roberto Carlos foi o ponto culminante de suas boas relações com o poder ao longo de duas décadas de ditadura no país. Nos anos de chumbo, ele foi condecorado com a Medalha do Pacificador, ocupou cargos em conselhos do governo, livrou-se da censura com a ajuda do ministro da Justiça e foi contratado pelo Exército para atuar em inúmeros shows em homenagem à Revolução. Embora sempre tenha levado uma carreira de empresário paralela à de músico – na época da ditadura, ele tinha boate, postos de gasolina e uma locadora de automóveis –, a rádio foi um negócio bastante vantajoso, já que não teve de pagar nem um centavo pela concessão.
Seu sócio na emissora, Cayon Gadia, morreu em 2007. A mulher dele, Regina Blanco Ferreira, de 72 anos, relembra o caso. “Eles iam a Brasília falar com o presidente Figueiredo e com o Golbery (do Couto e Silva). Cayon ficou impressionado de ver o prestígio de Roberto ”, diz. Roberto Carlos nega. Em resposta  a ÉPOCA por e-mail, ele informa que apenas aceitou o convite recebido pelo sócio e que não se lembra da ajuda de nenhum político ou militar para conseguir a concessão. “Que eu saiba não. Quem tratou de tudo foi o próprio Cayon Gadia”, diz.

Roberto Carlos já era funcionário do Ministério da Educação e Cultura quando os militares tomaram o poder, em 1964. Tinha 23 anos e trabalhava como assistente de relações-públicas na rádio MEC, no Rio de Janeiro. “Ele fazia serviços diversos. Pegava endereços que eu precisava ou ligava quando eu tinha de falar com alguém. Logo pedia para ir embora, porque precisava fazer seus shows”, diz a jornalista Noemi Flores, sua chefe na época, hoje com 92 anos. Depois que mudou de função, Noemi diz que nunca mais viu Roberto Carlos por lá. O nome dele continuou constando como funcionário até que sua exoneração fosse publicada, em 1970.
Em maio de 1967, Roberto Carlos já era uma espécie de unanimidade nacional, quando foi recebido para uma audiên­cia a portas fechadas com o ministro da Justiça, Luiz Antônio da Gama e Silva. Ele era um revolucionário ardoroso, redator e locutor do AI-5, medida mais dura do regime. Precisamente em 1968, ano do AI-5, o cantor lançou seu primeiro filme, Roberto Carlos em ritmo de aventura. O longa-metragem de ação não trazia nenhuma referência crítica ao regime, mas seu trailer foi barrado pela Censura, por questões burocráticas. Os produtores não conseguiram enviar a tempo uma cópia integral do filme, pré-requisito para que o trailer fosse liberado. Diante do impasse, o ministro Gama e Silva enviou um telegrama urgente à Divisão de Censura da Polícia Federal, que atuava sob seu comando. Ele pedia ao chefe da Censura para “abrir uma exceção” e liberar o trailer sem assistir ao filme. “Se trata de uma história cujo protagonista é o mais admirado e popular artista brasileiro”, afirmou o ministro. O trailer foi liberado no dia seguinte.

Em 1971, Roberto Carlos mandou um telegrama de condolências ao ministro da Aeronáutica, marechal Márcio Melo, lamentando a morte de três militares num acidente, durante um show da Esquadrilha da Fumaça. Nesse mesmo ano, um comunicado do Serviço Nacional de Informações (SNI) criticava a imprensa por “atingir a honra” de diversos artistas por meio de “noticiário difamatório”. “A incidência deste desgaste recai seguidamente sobre determinados artistas que se uniram à Revolução de 1964 no combate à subversão e outros que estão sempre dispostos a uma efetiva cooperação com o Governo”, diz o informe. Entre os artistas, aparece o nome de Roberto Carlos e de seu empresário na época, Marcos Lázaro.

Roberto Carlos realizou shows durante as Olimpíadas do Exército, em 1971 e 1972, na Presidência do general Emílio Garrastazu Médici. Os jogos serviam para aproximar os militares da população, enquanto o regime iniciava ações duras contra opositores. O ano de 1972 marca a desarticulação da Guerrilha do Araguaia, que deixou 62 mortos na região amazônica. Foi também o ano em que Roberto Carlos ganhou sua primeira nomeação no governo, para participar da Comissão Nacional Anti-Tóxico, do Ministério da Educação e Cultura. O objetivo da comissão era elaborar projetos para o combate às drogas. A escolha dos integrantes foi feita pelo então coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação na época. Com 31 anos, Roberto Carlos era o integrante mais jovem. “Nos reuníamos periodicamente em Brasília, para que cada conselheiro apresentasse sua proposta. Não vi o Roberto Carlos em nenhuma reunião”, diz Lygia Maria Bastos, hoje com 94 anos, então deputada estadual pela Arena, o partido do governo.

Em 1973, Roberto Carlos foi agraciado com a Medalha do Pacificador, honraria concedida a militares ou civis que de alguma forma contribuíam com o Exército. Mais tarde, a medalha ficou famosa por homenagear os torturadores do regime. Ele a recebeu em São Paulo, das mãos do general linha-dura Humberto de Souza Mello. Segundo a justificativa publicada no Boletim do Exército, a medalha foi concedida “pela inestimável colaboração prestada ao Exército”, em especial durante a realização de sua IV Olimpíada. Os jogos aconteceram no Recife naquele ano, e Roberto Carlos foi a grande atração do show de encerramento. Depois de receber a medalha, ele se apresentou durante a exposição O Brasil de hoje, que enumerava as realizações do governo ao longo de nove anos de ditadura. O músico Martinho da Vila também participou do evento.

Dois anos depois, o jornalista Vladimir Herzog foi torturado até a morte nas instalações do Exército em São Paulo. Sua morte desencadeou uma onda de insatisfação na classe média. Também em 1975, no mês de março, Roberto Carlos apareceu cantando num programa de televisão comemorativo ao 11º aniversário do golpe militar, transmitido em cadeia nacional. O programa contou com pronunciamento de vários políticos ligados à Arena. Também participaram do programa os músicos Jair Rodrigues e Eliseth Cardoso.
 

EXCEÇÃO O trailer do filme Roberto Carlos em ritmo de aventura (cartaz à esq.) foi liberado pela Censura após intervenção do ministro da Justiça (abaixo) (Foto: Reprodução)
Em 1976, Roberto Carlos recebeu a Ordem do Rio Branco, reconhecimento do governo brasileiro pelos serviços prestados à nação. Quem entregou a medalha foi o presidente Ernesto Geisel. Naquele mesmo ano, ganhou seu segundo cargo no governo, desta vez no Conselho Nacional de Direito Autoral, que dava a palavra final em disputas relativas a direitos autorais no país. Os conselheiros participavam de reuniões quinzenais em Brasília. Recebiam passagem aérea, hospedagem e um jeton por reunião. Roberto Carlos ficou três anos na função. “Ele não ia a todas as reuniões, mas era um conselheiro frequente. Não abria a boca. Enquanto os outros conselheiros discutiam, ele apenas se sentava na cadeira. No final ia embora, sem falar praticamente nada”, diz Divaina Borges, então secretária do conselho. Um dos projetos apresentados por Roberto Carlos sugeria a criação de uma entidade que representasse os compositores de jingles publicitários. Os pareceres assinados por ele não foram preservados pelo ministério. “Ele olhava as questões com olhos de grande arrecadador que era, já que recebia direitos autorais como compositor, intérprete e editor”, diz o jurista Carlos Fernando Mathias de Souza, então presidente do conselho.

Roberto Carlos continuava na função quando criou a sociedade Rádio Terra Ltda., em fevereiro de 1979. Segundo o contrato de fundação, as transmissões teriam propósito educativo, cultural e informativo, mas também “cívico e patriótico”. O documento diz que a empresa poderia abrir sucursais ou filiais em todo o país. “Nos corredores do ministério, sabia-se que o desejo deles era criar uma rede de emissoras de rádio em algumas capitais brasileiras”, diz Rômulo Furtado, ex-secretário-geral do ministério. A concessão foi publicada no Diário Oficial em agosto de 1980. Os dois sócios conseguiram apenas uma emissora e levaram quatro anos para colocá-la no ar. Antes disso, Cayon Gadia saiu do negócio. “Ele não gostava de falar muito do assunto. Dizia apenas que pessoas próximas ao Roberto Carlos ficaram com ciúme da sociedade”, diz sua viúva, Regina Blanco. Sua parte foi vendida para José Carlos Romeu, radialista que apresentava shows de Roberto Carlos, e Sérgio Orensztejn, sócio de Roberto Carlos em uma locadora de automóveis.

Roberto Carlos foi à missa de inauguração e praticamente não voltou à rádio, que também não tocava músicas suas. “Ele queria deixar claro que era um negócio do empresário, não do artista”, diz Marco Aurélio Jarjour, que entrou na sociedade e hoje é o dono da emissora. Roberto Carlos vendeu sua parte em 1994. “Não houve motivo especial. Marco Aurélio se interessou em comprar  minha parte, e aceitei a proposta”, disse Roberto Carlos por e-mail.

Roberto Carlos nunca fez músicas exaltando o regime, como a dupla Dom e Ravel. Ao longo da ditadura, manteve uma postura apolítica. Para o governo, era uma posição conveniente. “O perfil do Roberto Carlos era avaliado como positivo pelo regime. Se os militares conseguissem colar sua imagem à de um grande ídolo popular como ele, que ainda por cima não criticava a ditadura, seria interessante para eles. Mas isso não chega a constituir um apoio ou conivência. Houve ingenuidade política”, diz o historiador Carlos Fico. Uma concessão como a Rádio Terra, nos dias de hoje, vale em torno de R$ 2 milhões, segundo a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. 
Marcelo Bortolotti - Revista Época

4 de abr. de 2014

Conheça a relação de Steve Jobs com o suco de cenoura mais caro do mundo

Inovação é um enigma para muitos empreendedores e empresas. Ainda é algo da genialidade de um Steve Jobs. E isto impede que muitos se tornem mais inovadores.

O código inicial da inovação já foi quebrado há séculos, mas são poucos ainda que se dão conta disso. Tomando Jobs como referência, o próprio repetia algo que já havia sido dito por uma das suas referências, Pablo Picasso. Picasso dizia que “bons artistas copiam, grandes artistas roubam!” A frase agressiva de Picasso é suavizada em outra de Isaac Newton, que dizia “se consegui ver mais longe, é porque estava aos ombros de gigantes”. Neste caso, os gigantes de Newton eram Galileu Galilei e Johannes Kepler.

A lógica da inovação de Jobs, Picasso e Newton diz que é preciso partir de grandes referências para ir além daquilo que já foi visto então. Encarado desta forma, não faz sentido empreendedores partirem do “zero”….

O código da inovação já foi apresentado e reapresentado em diversos outros estudos dos chamados ‘gênios’. Mas apenas tratar dos gênios pode ampliar a distâncias daqueles que não se consideram os tais. Pessoas ‘comuns’ podem e deveriam inovar mais.

Por isto, acho que vale a pena falar de algo que chamou a atenção de Bill Gates quando ele visitou Steve Jobs e notou a enorme quantidade de sucos da marca Odwalla que havia na Apple. “Por que eles compram o suco de cenoura mais caro do mundo?” – pensou.

Jobs era absolutamente fascinado pelos sucos da Odwalla. Não só porque sua esposa havia trabalhado na empresa, mas também pela obsessão dos seus fundadores em copiar a natureza.

A Odwalla foi criada em 1980 por três músicos, Greg Steltenpohl, Gerry Percy e Bonnie Bassett, em Santa Cruz, Califórnia. A conversa inicial que originou a empresa se deu na discussão que se a Califórnia era uma grande produtora de laranjas por quê havia tão pouca oferta de sucos frescos na região?

O trio comprou uma máquina de espremer laranjas e foi para o quintal de Steltenpohl. A produção inicial de sucos frescos era vendida para os restaurantes da região. De músicos, passaram a estudiosos de sucos e da natureza das frutas e legumes a ponto de criarem um processo que preservava a integralidade do sabor.

Criaram combinações de frutas que entregavam verdadeiras bombas de vitaminas e nutrientes. Uma dos sucos oferecia inacreditáveis 1.500% das necessidades diárias de vitamina C. É claro que o corpo elimina o que não é consumido, mas isto chamou a atenção. O negócio deu tão certo a ponto de atrair investimento da Hambrecht & Quist, que depois ficou famosa por também ter investido em empresas como Apple, Amazon, Genetech, Adobe e Netscape.

O sucesso da Odwalla incentivou Jimmy Rosenberg a criar a Naked Juices em Santa Mônica, Califórnia, em 1983. A ideia e o apelo eram muito parecidos. Só produzir e vender sucos feitos apenas com as melhores frutas e só com frutas.

Nada de água, conservantes e outros antes. Era suco, só suco. Mas além de produzir sucos de excelente qualidade, Rosenberg também se preocupou em criar embalagens inovadoras que atraíssem a atenção do público e que fossem agradáveis de consumir, tendo destinação correta após seu consumo. Isto ajudou a empresa a assumir a liderança de sucos ultrapremium nos Estados Unidos poucos anos depois.

O sucesso da Odwalla e da Naked incentivou Harry Cragoe a largar seu emprego na Califórnia e voltar para a Inglaterra, seu país natal, para criar algo muito parecido, a P&J Smoothies em 1994. A Inglaterra também tinha o mesmo problema identificado por Steltenpohl, Percy, Bassett e Rosenberg uma década antes: sucos ruins, com muita água, açúcar e conservantes. A P&J passou a oferecer sucos integrais com imagem mais simpática, com combinações inusitadas de frutas e embalagens diferenciadas. Foi um grande sucesso!

Mas cinco anos depois a P&J foi atropelada por uma startup chamada Innocent Drinks. Em 1999, três jovens amigos, Richard Reed, Adam Balon e Jon Wright trabalhavam como consultores e publicitários e decidiram criar uma barraca de sucos em um festival de música em Londres. O apelo era semelhante ao da P&J, mas havia muita irreverência na forma como os sucos eram vendidos: nomes de sucos engraçadinhos, mensagens inspiradoras nas embalagens, combinações de sabores que encantaram os ingleses e um logotipo que remetia a algo inocente e ‘santo’. Em poucos anos, a Innocent abocanhou mais de 80% do mercado inglês, tornando-se uma das referências mundiais na indústria de alimentos, a ponto de ser comprada pela Coca-Cola em 2013.

O que já é praticado há muito tempo pelos empreendedores inovadores, David Murray organizou no livro “A arte de imitar: Seis passos para inovar seus negócios copiando as ideias dos outros” (Campus, 2011). Murray explica como empresas e empreendedores podem copiar e ainda assim inovar:

1) Copie de lugares próximos: Quando você copia de lugares próximos como os seus dos concorrentes, você é um ladrão de ideias, um plagiador. Mas mesmo assim, é importante copiar o que funciona dos seus concorrentes. Comandante Rolim, empreendedor da TAM, costumava dizer que “quem não tem criatividade para criar, deve ter coragem de copiar!” Mas não chame isto de inovação!

2) Copie de lugares distantes: A criatividade começa quando você copia de lugares distantes na geografia ou no tempo. Dietrich Mateschitz, fundador da Red Bull, viu o que viria a ser fórmula inicial da sua bebida energética na Tailândia. Mas quando começou a vender na Europa, todos o acharam um gênio.

3) Copie de lugares similares: E você atinge seu apogeu criativo quando consegue copiar de situações similares. Dizem que Henry Ford se inspirou em um frigorífico em que cada pessoa era responsável pelo corte específico de carne para desenvolver sua linha de produção. Este brevíssimo capítulo da história da indústria de sucos mostra como copiar de onde se parou fazer com que a sua próxima ideia de negócio seja ainda melhor e mais inovadora.
Estadão

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...