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25 de jun. de 2014

Qual o sentido da vida?


O sentido da vida é que a vida acaba. Foi a lembrança que me ocorreu numa tarde de inverno, quando, caminhando, olhei para o céu e vi um azul tão azul, mas tão azul, que a única coisa que parecia fazer sentido era ficar ali, à toa, sentindo aquele solzinho. Mas justo naquela quarta-feira azulzíssima eu tinha uma missão: escrever sobre o sentido da vida. Bem que poderia começar e terminar com a primeira frase. Precisa mais? 

Se a vida acaba, nada melhor a fazer do que curtir o céu, o sol, a ausência de nuvens. Por um momento, desejei ser Enriqueta, personagem do cartunista argentino Liniers. Nos quadrinhos, a garotinha cheia de humor e personalidade se dedica às coisas simples da vida, sempre acompanhada de Fellini, seu gato de estimação. Deitar na grama e contar estrelas, ler debaixo de uma árvore e passar horas no balanço, enquanto Fellini persegue borboletas, são algumas das ocupações favoritas de Enriqueta, capaz de observar uma folha rodopiando ao vento e perguntar a ela: "Onde você aprendeu a dançar?".

O pai dessas criaturas delicadas é o argentino Ricardo Siri Liniers. Conhecido pela série Macanudo (bacana, na gíria castelhana), que traz Enriqueta e outros pesonagens, como pinguins e duendes de longas toucas, Liniers, aos 40 anos, é um mestre do gênero cômico que concentra, em quadrinhos, humor, crítica e questionamento existencial. "Prefiro as pessoas que se perguntam sobre o sentido da vida do que as que propõem a resposta", diz ele, ao telefone, de um quarto de hotel em Mendoza, na Argentina, onde passava férias. "Estamos todos nesta mesma bola, girando no Universo. A graça está no mistério. Se soubéssemos as respostas, a vida seria tediosa", acredita Liniers.

O sentido de sua própria existência, ele desenhou aos poucos. "Sempre me pareceu muito difícil que conseguisse viver de `historietas¿. Mas não havia um plano B. Era uma questão passional", conta. Com tiras diárias no jornal La Nación, Liniers se tornou cult e ganhou o mundo: seus quadrinhos são publicados na França, Itália, Espanha, República Tcheca, Peru, México, Canadá. E, claro, no Brasil, onde tem uma coleção de fãs. Como chegou longe assim é algo "misterioso como o mar". A inspiração, muitas vezes, vem das filhas de 3 e 5 anos. "Elas me fazem reviver as dúvidas existenciais", diz. Ou da natureza, como em uma viagem à Antártida, "um planeta gigantesco, assustador", onde se sentiu "chiquito". "É preciso se sentir pequeno para ter a dimensão real dos problemas. A vida é um minuto", reflete. Admite que já se sentiu sem rumo diante da perda de um amigo. Se tivesse de indicar o sentido da vida em uma estrada, o que escreveria na placa? "Ay que ser buena gente", em bom espanhol. "Mas não porque ser bom traga alguma recompensa. Ser bom é a recompensa", sublinha Liniers.


Primeira à direita: desfrute da paisagem

Sigo em frente com a metáfora da estrada. De brincadeira, recorro ao Google Maps. Pronto: o Sentido da Vida fica na avenida dr. Antonio de Barros, 90, Centro, Atalaia, Paraná. Trata-se de uma escola, a 555 quilômetros de São Paulo. Como em uma caça ao tesouro, continuo sem noção de como chegar ao x do mapa. Peço pistas aos passantes: a amiga, a faxineira, o motorista que me leva a uma entrevista. Enquanto ele me leva ao meu destino, faço a pergunta e ele responde surpreso: "O sentido da vida?...". Sua razão de viver são "as crianças", como se refere aos filhos, um rapaz na faculdade e uma menina no colegial. "Mas deve ter algo mais, né?", diz. Desço do carro culpada por botar tamanha minhoca na cabeça daquele homem.

As respostas, a essa altura, soam tão díspares como "salvar o planeta" ou "preparar o purê de batatas perfeito". Numa noite, conversando com Anita, minha filha de 9 anos, insisto na pergunta. "Nossa, mamãe, que assunto dramático!", exclama ela, sem saber o que significa a palavra sentido. Traduzo: "Por que a gente está aqui nessa vida?". "Ah, para viver a vida, né?", diz ela, puxando as cobertas. No dia seguinte, recebo o link para um estudo que investiga o sentido da vida, publicado na revista britânica Journal of Humanistic Psychology. Dirigida por Richard Kinnier, da Universidade do Arizona (eua), a pesquisa partiu da análise de frases e escritos de 200 pensadores - do escritor Oscar Wilde ao imperador Napoleão. Conforme o estudo, para uma minoria de pessimistas como Freud, o criador da psicanálise, e o escritor Franz Kafka, a vida não tem sentido. Para outro grupo, formado por gente como Napoleão e o físico britânico Stephen Hawking, a vida é um mistério. Poucos e bons, como o cantor Bob Dylan, acreditavam que a existência não passava de "uma piada". Já os idealistas diziam que o que vale é "amar, ajudar os demais". Caso do indiano Mahatma Gandhi, que afirmou: "Encontro minha felicidade me colocando a serviço de todas as vidas". Por fim, o resultado: "A vida é para ser desfrutada". Ao menos era essa a crença de 17% das personalidades, algumas tão opostas como o ex-presidente norte-americano Thomas Jefferson e a cantora Janis Joplin, que morreu aos 27 anos e cantava "aproveite enquanto puder". Ou seja, depois de analisar os escritos de 200 pensadores, a conclusão do estudo acadêmico foi a mesma de minha filha de 9 anos (!).


Curva suave à esquerda: não pense, sinta

O enigma que atormenta a humanidade guarda em si uma segunda questão: se a viagem importa mais do que o destino, como fazê-la valer a pena? As respostas estão quase sempre ligadas a crenças religiosas ou filosóficas. Na Antiguidade, a felicidade era a meta, em diversas correntes de pensamento. Para Platão, a alma só ficaria feliz se equilibrasse razão, coragem e instinto. Aristóteles, por sua vez, não julgava a felicidade como uma condição estática. Ele pregava que ela só poderia ser encontrada na contemplação da vida. Na Idade Média, quando o Cristianismo dominou a Europa, a religião transferiu o sentido existencial do individual para o coletivo. A vida terrena entrou em segundo plano, diante da incrível possibilidade de vida eterna. Nesse ponto, o assunto rende tanto que não caberia aqui.

No século 19, foi a vez do existencialismo. Nesta vertente filosófica, o dinamarquês Kierkegaard pôs nos ombros do homem a responsabilidade por seu destino. Na visão dos existencialistas, cada ser humano tem o livre-arbítrio e deve dar à própria existência um sentido. Com auge nos anos 50, a filosofia seduziu pensadores como Sartre e líderes espirituais como o indiano Osho, um cultuado místico contemporâneos, que afirmou: "A vida nem tem sentido nem é sem sentido. A questão é irrelevante. A vida é simplesmente uma oportunidade, uma abertura. Depende do que você faz dela. Depende de que sentido, que cor, que canção, que poesia, que dança você dá à vida".

O autodesenvolvimento é um atalho precioso nessa busca. Conta-se que, no portal do Oráculo de Delfos, na Grécia antiga, havia dois escritos: "Nada em excesso" e "Conhece-te a ti mesmo". Equilibrar os anseios da alma com as cobranças do mundo moderno é o desafio. "Temos um mundo interno, subjetivo, marcado pelo desejo. Mas há o mundo externo, com suas demandas. Se a vida ficar à mercê de apenas um deles, será prejudicada, ou pelo narcisismo ou pela submissão aos outros", pondera o psicanalista Roberto Girola. Ele compara o sentido da vida a um alinhamento desses mundos, em torno de um eixo. "É o eixo onde organizamos nossa ética e estética, ou seja, os valores e a maneira de ver a vida. Esse alinhamento confere uma dimensão sagrada à existência".

Há quem acredite que "largar tudo" e morar nas montanhas é a trilha ideal para chegar lá. Para outros, a vida urbana, a rotina profissional, a dedicação a uma causa humanitária, podem fazer tanto sentido quanto. Até porque o sentido da vida também é mutante. Para o estudante, é passar no vestibular. Para o formando, encontrar trabalho. O segredo está em identificar o que dá significado à sua vida. A bióloga Fernanda Yokoyama de Carvalho, 35, se encaixa no primeiro grupo. Mãe de quatro filhos, ela e o marido, Ricardo, iniciaram a vida juntos num vilarejo sem luz elétrica, em Lençóis Maranhenses (ma). Seis anos depois, sentiram falta de estrutura e seguiram para São Paulo. Os banhos de lagoa deram lugar a dias diante do computador. "Ricardo chegava em casa, as crianças já estavam dormindo. Fui entristecendo", lembra Fernanda. Grávida do caçula, a bióloga, que sempre gostou de cozinhar, decidiu apostar na gastronomia natural. Assim surgiu a Cozinha da Flor, uma empresa de congelados orgânicos, instalada em um sítio em Santo Antônio do Pinhal (SP). "Foi como plugar a vida de volta na tomada", diz ela. Para quem ensaia uma mudança similar, Fernanda recomenda: "Não pense, sinta. Procure resgatar seu sonho mais antigo, mesmo que pareça utópico. Esse sonho é sagrado".


A saída é por dentro: a porta é o silêncio

O resgate do sonho de ser astronauta, emblemático entre as crianças, é o ponto de partida do livro Sonhar é a Magia da Vida (ed. Ônix). Na ficção, um advogado abandona sua carreira e vai atrás do sonho de infância. O autor, o advogado Daniel Kaltenbach, ao contrário do personagem, não "largou tudo". Aos 41, é vice-presidente de um grupo financeiro. "A maioria das pessoas não vive, deixa-se viver. Aquelas que têm prazer no que fazem são as que cumpriram seus sonhos", acredita. "Quando desenterramos esses sonhos, o Universo conspira a favor. Caso contrário, é como andar na contramão", diz.

"Todos os caminhos levam a lugar nenhum, mas alguns caminhos têm coração", sugere o índio Dom Juan, no best-seller dos anos 70 A Erva do Diabo, de Carlos Castaneda. "Mas como saber se o caminho tem um coração?", questiona o aprendiz. "Qualquer pessoa sabe disto. O problema é que ninguém faz a pergunta. Um caminho sem coração nunca é agradável. Tem-se de trabalhar muito para segui-lo. Por outro lado, um caminho com coração é fácil", responde Dom Juan. "Na cultura indígena, o que dá sentido a vida é o espírito", emenda o ambientalista Kaká Werá, índio de origem tapuia, idealizador do Instituto Arapoty, que difunde os valores indígenas. "A vida é esse espírito manifestado em diversas formas. Em algumas tribos, ela é como um sopro divino que se corporifica. O desafio é vivê-la de acordo com a harmonia que nos inspira este mistério", diz. A natureza, em que tudo se conecta, revela o sentido da vida. "A natureza nos ensina a lei da interdependência que existe em cada coisa vivente. Ensina que a diversidade gera mais abundância. Isso é lição de amor e de unidade, na prática", diz. E deixa a dica: "A saída é por dentro. A porta é o silêncio".


Ponto final: bem-vindo ao ponto de partida

Aos 43 anos, a escritora americana Cheryl Strayed é sinônimo de best-seller. Ela é autora de Livre -A jornada de uma mulher em busca do recomeço (ed. Objetiva), em que narra sua saga de 1.700 quilômetros por uma árdua trilha, e que vai ganhar as telas de cinema em breve, com roteiro de Nick Hornby. Seu segundo livro lançado no Brasil, Pequenas Delicadezas, reúne o melhor de sua coluna Cara Doçura, em um site de literatura, onde ela atua como conselheira para desorientados de todos os tipos. O maior volume de cartas recebidas tem a ver com o amor romântico. "Queremos ser amados e aceitos. Cada carta me lembra quão fortes e resilientes somos capazes de ser, e ao mesmo tempo tão frágeis", acredita Cheryl. O sentido da vida, finaliza, é o amor. "Estou aqui para amar. O amor é a força mais poderosa que existe na terra - o amor romântico, o amor familiar, o amor de amigos e de filhos. Se formos bem no amor, estamos bem em todo o resto", diz a autora.

Recebo as respostas de Cheryl por e-mail, em mais uma quarta-feira azul. Olho para trás e percebo que, sem a menor ideia do que dizer sobre "o sentido davida", o texto se fez na busca. Não há um sentido só. Não existe ponto final. É no caminho que encontramos a escuridão e também a luz. Nada melhor, então, do que dar uma volta e conferir mais uma das máximas de Liniers, em uma tirinha de Enriqueta e Fellini: se o planeta está dando voltas no espaço, todos os dias são uma viagem.
Rosane Queiroz
Tirinhas: Liniers

8 de jan. de 2013

De Mente Livre e Aberta

O pensamento é belo de nascença, livre por natureza e preso apenas a necessidade de voar, mas, no decorrer da vida vai aos poucos sendo aprisionado e perdendo o direito de seus voos próprios da idade, que quanto mais ócio mais velocidade. 

A Liberdade para Pensar tão reconhecida e acreditada ser a última a sofrer as afrontas ao seu livre curso, pode ser bem ao contrário. O pensamento humano é assediado desde bem cedo, nos primeiros dias de vida pelos pais e parentes que pré-definem, para o recém-nascido, algumas escolhas que deveriam ser pessoais, tais como time de futebol, isso só para ilustrar: Filho de peixe... 

E segue assim com os presentes e a prática da ideologia no sentido restrito, é aquela que tende a formar uma idéia ou disseminar algumas já concebidas. Pela vida se seguem outras “ofensas” à Liberdade. Sob a égide da educação muitos podem incorrer no erro de manipularem filhos levando-os a refletirem às suas próprias ações e comportamentos, nisso podem os pais influenciar positivamente, que só pela convivência acontecerá naturalmente. 

Filhos que despertados interiormente para seguir profissão distinta dos pais poderão, alguns casos, sofrer fortes influências e ficarem “balançados” na hora “H”. Bem, em casa menos pior, a intenção dos pais são sempre boas, mesmo assim vale a boa revolta para desenvolver o pensamento livre e a livre execução da intenção, respeitados os valores essenciais. 

Outras formas de invasão se seguem nos corredores da vida, a excelentíssima televisão e seus tentadores tentáculos, que absorvem mais tempo da juventude que se deveria permitir; os semanários tendenciosos que se torcidos gotas de sangue minarão; sítios da rede mundial de computadores que disseminam e incrementam um pensamento forçoso e concebidamente moderno para uma mente ávida por algo novo e ainda não vivido; um livro ou uma coleção de ficção que mais parece a realidade que não foi contada e estava escondida; uma trilogia de filmes que subliminarmente penetra aos arquivos cerebrais e deixa vestígios de dúvidas que refletirão para toda a vida. 

 Assim, os pensamentos são formados e não poderão poderiam mais navegar livremente por lugares. O pensamento pré-fabricado definirá parâmetros para a imaginação e o terreno da fertilidade poderá sofrer com uma fecundação prematura. Nossa! Então é um perigo... 

Creio que sim. Tudo é maravilhosamente perigoso. Tens a capacidade de avaliar a sua fome e se com fome de saber provar antes, avaliar o sabor e escolher se queres comer disso ou daquilo? Se sim, ótimo, se não, cuidado, busque a fonte dos pensamentos que te são apresentados, com crítica inteligente, pois, poderá deixar o mais precioso de ti ser aprisionado discretamente. 

 O homem como produto do meio se desvelará exteriorizando o pensamento que será formado pelas fontes de onde beber, algumas insalubres poderão reter a capacidade, cortar as asas da imaginação pura ou ainda criar recônditas masmorras que serão percebidas como a mais pura realidade, deixando o ser por ali, parceiro da ilusão. Que o medo do engano seja companheiro de jornada terrena que lembra segurança e a avidez de conhecimento seja o motor propulsor do saber e que na dose certa possa sorver com prazer a formação do pensamento livre e aberto. 

Viva a Liberdade para pensar livremente, deixar a mente, amante do desejo de voar perceber o que lhe convém, diante dos sabores escolhidos e dos saberes preferidos. Defenda o maior dos tesouros, a Liberdade de Pensar. E só você tenha poder sobre você mesmo. Um abraço imaginário, nascido do ventre da mãe Liberdade! 
José Raimundo de Assunção

8 de ago. de 2012

Lições de humildade com Sócrates

A trajetória de Sócrates é um cruzada contra a falsa sabedoria. Sempre amigável, o filósofo demonstrava o quanto ainda sabemos tão pouco dos mistérios da vida.

Como Buda e Cristo, que não deixaram escritos, Sócrates é conhecido hoje pelos escritos de seus discípulos. Grande parte do que sabemos sobre ele está contido na obra de Platão - nos textos conhecidos como Diálogos, retrato das incansáveis discussões filosóficas entabuladas pelo mestre. 

Para compreendê-las, é preciso conhecer o mundo em que Sócrates viveu e filosofou - a Grécia do século 5 a.C.

O sistema de governo dos atenienses, a democracia, estava vigente desde o século 6 a.C. A cada mês, os cidadãos com mais de 30 anos se reuniam em uma grande Assembleia para debater leis e escolher magistrados. Cada um tinha o direito de defender suas ideias em discursos públicos. Por isso, a arte de falar bem - para convencer ou para dissuadir - se tornou uma das ocupações favoritas do povo de Atenas.

A arte do diálogo

É nesse contexto que surgem os sofistas - trupe de intelectuais itinerantes que, em troca de remunerações graúdas, ensinavam a retórica aos jovens com ambições políticas. Até então, a filosofia grega se ocupava principalmente de assuntos cosmológicos, como a natureza dos astros e a origem do universo. Os sofistas mudaram essa equação: para eles, o objeto da reflexão filosófica era o próprio homem. Outra grande inovação introduzida por eles foi o uso do diálogo como método de reflexão e persuasão. Eles preferiam exibir suas habilidades lógicas em debates cara a cara, em que dois ou mais interlocutores se digladiavam na defesa de ideias opostas.

Antes de se tornar célebre como filósofo, Sócrates já era famoso como o maior esquisitão de Atenas. Sua principal ocupação era sondar a alma humana, e pouco tempo lhe restava para questões rotineiras, como ganhar a vida. Costumava andar pelas ruas de Atenas com roupas puídas e sempre perdido em reflexões.

Com o tempo, Sócrates compreendeu que o excesso de truques retóricos dos sofistas servia para ornamentar mentes vazias, e decidiu que caberia a ele fustigar a soberba de seus contemporâneos.

Saber e não saber

E, assim, ele chegou à conclusão que mudaria a história do pensamento: a de que o verdadeiro sábio é aquele que tem consciência da própria ignorância. A partir daí, Sócrates começou uma cruzada pessoal contra a falsa sabedoria humana. Em suas próprias palavras, ele se tornou um "vagabundo loquaz" - movido pelo célebre bordão que o legou à posteridade: "Só sei que nada sei".

Ele geralmente começava seus debates com perguntas diretas sobre temas elementares: "O que é o Amor?" "O que é a Virtude?" "O que é a Mentira?" Em seguida, destrinchava as respostas que lhe eram dadas, questionando o significado de cada palavra. Assim, o pensador demonstrava uma verdade que até hoje continua universal: na maior parte do tempo, a grande maioria das pessoas não sabe do que está falando.

Para muitos ouvintes, o efeito do diálogo socrático era a catarse - uma experiência de purificação espiritual em que as portas do autoconhecimento se escancaram.

Mas tamanha independência de espírito pode ser algo arriscado - tanto na Antiguidade quanto hoje em dia. Em 399 a.C., seus desafetos conseguiram levar Sócrates a julgamento. Condenado com a pena de morte, ele retrucou: "Ninguém sabe o que é a morte. Talvez seja, para o homem, o maior dos bens. Mas todos fogem dela como se fosse o maior dos males. Haverá ignorância maior do que essa - a de pensar saber-se o que não se sabe?"

O "vagabundo loquaz"foi a primeira figura célebre na história do pensamento a morrer por suas ideias. Sua modéstia, numa época de vaidade intelectual, é um aviso aos navegantes: por mais poder que uma civilização tenha, o fato é que, no fundo, continuamos todos humanamente estúpidos. Pensar por si mesmo e a si mesmo num diálogo com o outro: eis a lição aparentemente simples, mas hoje tão esquecida, legada por uma das figuras mais intrigantes na história da humanidade.
José Francisco Botelho

15 de dez. de 2010

A vida é bela em Schopenhauer


A filosofia pessimista, atribuída ao filósofo alemão, talvez não passe de um preconceito ou de um mal-entendido, quando analisada com outros olhos e comparada à vida e à mensagem de outros homens excelsos da humanidade, como Platão, Epicuro, Nietzsche, Buda e Jesus. 


O pessimismo pressupõe uma desesperança no futuro, uma previsão ruim daquilo que sobrevirá, ou, como encontrado nos melhores dicionários de nossa língua, "uma tendência para encarar as coisas pelo lado negativo".


Mas o que dizer destas palavras: "A história nos mostra a vida dos povos, e nada encontra a não ser guerras e rebeliões para nos relatar; os anos de paz nos parecem apenas curtas pausas, entreatos, uma vez aqui e ali, e de igual maneira a vida do indivíduo é uma luta contínua, porém não somente metafórica, com a necessidade ou o tédio, mas também realmente com outros. Por toda parte ele encontra opositor, vive em constante luta e morre de armas em punho"?


O que temos aí: extremo pessimismo ou puro realismo? Quem dentre nós poderá ser tão otimista ao ponto de negar a realidade que perpassa a história da humanidade e que pode ser encontrada, sem grandes dificuldades, em qualquer cena urbana ou privada, veiculada pelos meios da comunicação ou testemunhada na porta de nossas casas? O nome Schopenhauer tornou-se quase sinônimo de "pessimismo" ao longo da história da filosofia. 


A tendência didática de rotular ou categorizar pensadores e correntes de pensamento estigmatizou um filósofo que teve como único e máximo pecado ser honesto para com sua filosofia, que concebe a vida, assim com todos os eventos da existência, como expressões diferentes da Vontade - uma força que apenas quer existir, se evidenciar num mundo que não passa de sua representação. Os quase dois séculos que nos separam de Arthur Schopenhauer, entretanto, talvez ainda não se constituam um obstáculo para uma defesa justa de suas ideias e para o vislumbramento de aspectos extremamente positivos de sua filosofia. época em que Schopenhauer viveu, na Europa do final do século 18 e início do século 19, tem algumas características peculiares, que podem muito bem dizer do Zeitgeist de então. Will Durant, em seu A história da filosofia, tenta encontrar razões para uma espécie de pessimismo comum àquele período. 


Diz ele: "Por que será que a primeira metade do século 19 levantou, como vozes da época, um grupo de poetas pessimistas - Byron na Inglaterra, De Musset na França, Heine na Alemanha, Leopardi na Itália [...] e, acima de tudo, um filósofo profundamente pessimista, Arthur Schopenhauer?", e acrescenta como resposta: "[...] Era bem difícil acreditar que um planeta tão lamentável quanto aquele que os homens viam em 1818 estivesse seguro nas mãos de um Deus inteligente e benevolente. Mefistófeles havia triunfado e todos os Faustos estavam desesperados". Durant também é loquaz ao dizer que "o pessimismo é o dia seguinte do otimismo".


Zeitgeist Expressão alemã que significa, em tradução aproximada, "espírito da época". O termo é bastante utilizado por ensaístas, sociólogos, historiadores e críticos de arte para descrever a época em que uma determinada obra artística ou movimento intelectual foi produzido. A banda de rock americana The Smashing Pumpkins lançou em 2007 um álbum intitulado Zeitgeist.

Todo homem, ilustre ou não, é fruto de seu tempo, e também vê o mundo à sua volta como a representação de si mesmo, assim como sentenciado por um antigo filósofo grego: "O homem é a medida de todas as coisas". Schopenhauer vê as coisas do seu tempo, mas, acima de tudo, abrange com seu olhar filosófico, quiçá com sua intuição (como talvez ele próprio preferisse dizer), o passado (constituído de suas incursões pelas escrituras hindus e budistas), o presente (imposto a ele frente a frente) e o futuro (projetado por sua invejável capacidade intelectual).

Assim, sua filosofia traz, evidentemente, a sabedoria oriental, que inspira aqueles que buscam respostas para seu sofrimento nos ensinamentos religiosos; a compreensão do aqui-agora existencial, que une todos os povos e todos os indivíduos como uma única nação de aflitos; e a visão profética, que, relendo os eventos da vida, vaticina para todos, sem exceção, uma espécie de eterno retorno - um retorno ao nada existencial, como último consolo à existência sofrida. Arthur Schopenhauer teve como pai, Heinrich Schopenhauer, um rico comerciante que, além de ser um homem rígido, era um marido rude, e que tem ainda contra si a forte suspeita de ter cometido suicídio atirando-se no canal de Hamburgo. 

A mãe, Johanna Troisener, era uma romântica, oprimida pelo marido, que só conheceu o bom da vida após a morte dele. Apesar do pai ter feito tudo para que o jovem Arthur se interessasse pelos negócios da família, não viveu o suficiente para decepcionar-se com o filho filósofo, enquanto a relação deste com a mãe foi uma das piores. Schopenhauer viveu grande parte de sua vida viajando pela Europa à custa do dinheiro herdado do pai.
Foi um solitário, tinha um cachorro, ao qual deu o nome de Atman (termo hindu para alma), e pouquíssimos amigos. Para si mesmo, considerava sua vida como a ideal - a relação com os humanos não era nada fácil, portanto, preferia a solidão. 

No entanto, essa vida reclusa é rotulada por alguns autores como "uma vida infeliz", o que fornece um ótimo ingrediente para fomentar a denominação que darão a ele de "filósofo do pessimismo". Sua obraprima, O mundo como vontade e representação (1819), só conquistou leitores após sua morte, e Parerga e Paralipomena (1851) trouxe- lhe o tão desejado reconhecimento, mas ele não viveu o suficiente para usufruir dele, pois morreu nove anos depois, no dia 21 de setembro de 1860, solitário como viveu. 

 A Vida como ela é Enxergar as coisas tais como elas são pode ser uma tarefa amarga, mas também pode trazer recompensas surpreendentes para aqueles que antes suspeitam de tudo que é doce demais. É, provavelmente, por essa razão que o filósofo de Danzig impôs a si uma vida de retiro e solidão, tentando ao máximo evitar dissabores provenientes das frágeis e vulneráveis relações humanas, percebendo que esses bípedes (como ele chamava os humanos) ainda não estão preparados para amor e amizade verdadeiros.

Pensemos: quantas pessoas mundo afora já não se desiludiram no amor e na amizade, e como gostariam de jamais terem se apaixonado ou se dedicado fervorosamente a alguém? O pensamento schopenhaueriano é, sem dúvida, um antídoto para péssimos exemplos de relacionamento humano, ou até mesmo uma espécie de cura para males intrínsecos à própria condição humana. Em seu A cura de Schopenhauer, Irvin D. Yalom (o mesmo autor de Quando Nietzsche chorou) apresenta-nos uma trama ficcional, na qual o filósofo, melhor dizendo, sua vida e obra, serve de tratamento para um personagem que sofre de compulsão sexual. O enredo do livro trata de um grupo de pessoas que participa de sessões conjuntas de terapia. 

Cada uma delas, é claro, está ali por um problema particular que precisa resolver, no entanto, todas elas se veem, de repente, bombardeadas por citações de Schopenhauer, recitadas pelo novo integrante, que acabam por dominar as discussões do grupo e, ao mesmo tempo, proporcionar, de forma inusitada, novas perspectivas em suas vidas. Esse livro é, sem dúvida, um exemplo maravilhoso de que, se deixarmos de lado o estereótipo tão massificado de uma filosofia pessimista em Schopenhauer, encontraremos nela sabores e aromas terapêuticos, insuspeitados e benfazejos a qualquer de nós - bípedes. A frase "Nenhuma relação é perfeita porque as pessoas são imperfeitas", que abre o sétimo capítulo de Mais Platão, Menos Prozac (atualmente, uma espécie de manual do chamado aconselhamento filosófico), de Lou Marinoff, tem tudo a ver com o pensamento de Schopenhauer, colocando-o no páreo com os pensadores utilizados nos consultórios dessa prática filosófica e outras abordagens terapêuticas que exploram as mais inovadoras técnicas psicofilosóficas. 

Devido à sua extraordinária filosofia, a essência do pensamento desse filósofo orbita tranquilamente entre as máximas de Platão e Epicuro, de Buda e Kant, de Jesus e Nietzsche, sem comprometer o teor e a substância delas, nem o valor e a autenticidade de seus autores.

Se o tédio, a angústia, a depressão e a tristeza podem ser vencidas com máximas filosóficas, aliadas a uma abordagem mais ampla e mais fidedigna (nem tanto racional) do mundo, o pensamento de Schopenhauer certamente pode desencadear a desilusão positiva, a desconstrução daquela ilusão criada pelo próprio indivíduo, em face de um mundo caótico, de uma vida infeliz e de uma realidade estressante. A filosofia de Schopenhauer explica que a natureza interessa-se menos pelo indivíduo e mais pela sua espécie. Portanto, tenta preservar essa personalidade que chamamos de "eu" será sempre perda de tempo e acréscimo de sofrimento, pois esse "eu" não pertence a si mesmo, mas é parte de algo bem maior, um "nós", que é sua espécie. 

Se não há consolo em saber que essa personalidade desaparece no oceano existencial - para só então retornar infinitas vezes, como milhões de outras personalidades inconscientes de quantas pessoas já foram, quantas vidas viveram, o quanto amaram, foram amadas ou sofreram - não é culpa do filósofo que assim seja, ele é apenas o decifrador de um código da natureza, que a despeito de nosso apego e romantismo pela vida, do alto de sua sabedoria não racional, não enxerga aqui na Terra homens, mulheres, crianças, pais, filhos, amantes ou rivais, como fomos condicionados a ver aqui embaixo. Ele enxerga apenas a família, a espécie humana, que, num ato de pura vontade e necessidade, mantém a roda existencial girando indefinidamente. 

Destemor da morte Dentre as contribuições positivas da filosofia schopenhaueriana para o bem-viver da humanidade, podemos citar a exortação ao destemor da morte, ou mais precisamente do valor dela em face de uma vida sofrida e miserável, e, acima de tudo, a compreensão de que ela nada mais é do que o fim de todo sofrimento, o retorno ao descanso, à quietude. Valorizar a morte pode parecer à primeira vista desvalorizar a vida, mas pode também dar novo significado à existência de quem se sente realmente um "lutador" neste mundo. A vida da maioria de nós é literalmente uma "luta" e considerar a morte não como uma derrota, ou um fim inglório, e sim como retorno à quietude da própria essência, é comparável à promessa cristã de alcançar o céu ou à perspectiva budista de realizar o nirvana. 

Diz o próprio filósofo: "Trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda a vida a sorte da maioria das pessoas", mas acrescenta, logo adiante, algo que eleva a dignidade humana: "Para uma tal espécie, como a humana, nenhum outro palco se presta, nenhuma outra existência".
Pensamento tão claro e inspirador nos faz lembrar o poeta maranhense Gonçalves Dias, quando em versos nos diz: "Não chores, meu filho; não chores, que a vida é luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate que os fracos abate, que os fortes, os bravos, só pode exaltar". Ou como diria o próprio filósofo: "A felicidade está mais na realização do que na posse ou na saciação", de que concluímos resignadamente que "a vida sem tragédia seria indigna de um homem". 

É Will Durant que nos vai lembrar que a filosofia de Schopenhauer semelha muito os ensinamentos do Cristo (e, é claro, os de Buda). Diz o historiador: "O cristianismo é uma profunda filosofia do pessimismo. O poder através do qual o cristianismo conseguiu vencer primeiro o judaísmo e depois o paganismo da Grécia e de Roma está unicamente no seu pessimismo, na confissão de que nosso estado é excessivamente deplorável e pecaminoso, enquanto o judaísmo e o paganismo eram otimistas".

Nós, com facilidade, podemos encontrar passagens bíblicas que levam a considerações desse tipo, mas que, vistas por um outro prisma, apresentam a morte como uma valorização da vida. Vale lembrar que, proferidas por Jesus, essas considerações em favor da morte tomam ares de inspiradora fé no significado da própria vida. "Aquele que tentar salvar sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontrála- á", disse o Nazareno. E Buda assim se pronunciou: "Olhai ao vosso redor e contemplai a vida. Tudo é passageiro e nada duradouro. Só nascimento e morte, crescimento e decadência, combinação e dissolução". 

E ainda Epicuro, tendo examinado a vida, sentenciou: "A morte não nos concerne, pois quando somos, ela não é, e quando ela é, já não somos". Quando o filósofo diz: "Tão próximo de nós se localiza uma região em que nos livramos de todo nossa miséria; mas quem é dotado de força para ali se manter?", quase podemos ouvir, concomitantemente, a voz do Filho do Homem, dizendo: "O Reino dos Céus está dentro de vós!", e a do Príncipe de Kapilvastu sentenciando: "Ninguém trilhará por ti o caminho - acenda tua própria lâmpada e ande!". Será que ainda restam dúvidas quanto à veracidade e à utilidade de tal filosofia? Será que é preciso um novo rótulo para o frasco de um remédio que, por ser amargo, não merece prescrição para males ainda mais amargos da existência? Creio que não. Schopenhauer diz com despojamento de filósofo o que os avatares ensinam ao modo dos deuses. 

"Quando, por um instante, conseguimos estar livres do jugo da vontade, da objetividade do querer que nos impulsiona, vivemos o estado sem sofrimento, considerado por Epicuro como o mais elevado dos bens e o estado dos deuses", diz o filósofo. A vida magnânima do Cristo culminou com seu martírio, e a de Buda, com uma morte tão comum quanto a de qualquer dos mortais. Para seres excelsos, assim como para o homem comum (produto industrial da natureza, segundo Schopenhauer), a existência conduz inexoravelmente à morte, com maior ou menor grau de sofrimento em seu transcurso. O que condiz muito bem com sua máxima: "Uma vida feliz é impossível; o máximo que o homem pode conseguir é uma vida heroica".

O filósofo defende que nós, seres humanos, nada mais somos do que a objetivação de uma vontade de existir. O que levará Durant a acrescentar em sua obra, com certa jovialidade e otimismo, páginas à frente: "A vontade, claro, é uma vontade de viver, e de viver ao máximo. Como a vida é cara a todas as coisas vivas! E com que paciência silenciosa ela irá esperar o momento propício", o que corrobora as palavras do próprio filósofo, ao dizer: "Mesmo no reino orgânico vemos uma semente seca preservar a força inativa da vida durante três mil anos e, quando finalmente ocorrem as circunstâncias favoráveis, desenvolver-se numa planta". 

Se ainda me for permitida outra comparação, não seria demais lembrarmos as seguintes palavras do mestre de Belém: "Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam". A filosofia de Schopenhauer também realça aquela nobreza que cobre de louros o espírito e o caráter do ser humano, quando este consegue perceber que seu valor como protagonista da existência não está diretamente relacionado com suas posses, e que, por vezes, a riqueza é um entrave ao autoconhecimento, e a pretensa felicidade almejada jamais pode ser outorgada por outrem.

Diz o filósofo: "Os homens estão mil vezes preocupados em ficarem ricos do que em adquirirem cultura, embora seja inteiramente certo que aquilo que um homem é contribui mais para sua felicidade do que aquilo que ele tem". E ainda: "A felicidade que recebemos de nós mesmos é maior do que a que conseguimos em nosso meio", o que vai concordar diretamente com Aristóteles, ao dizer que "ser feliz significa ser autossuficiente". Quantos homens não recebem honras apenas porque são ricos e poderosos, enquanto outros, verdadeiramente valorosos, são esquecidos, apenas porque são simples e sem posses? Schopenhauer, ao tratar da renúncia das riquezas, cita Siddhartha Gautama e São Francisco de Assis. Sobre este último, ele relata um evento em que, estando o nobre e jovem Francisco num baile em que se apresentavam as belas filhas dos notáveis da época, foi perguntado: "Então, senhor Francisco, não ireis brevemente eleger uma entre estas belas?", ao que teria respondido: "Elegi para mim uma muito mais bela! La povertá". 

O filósofo vê o apego à individualidade como "egoísmo", uma insensatez para com a qual a natureza não se permite compactuar. Ser um e, ao mesmo tempo, ser todos, ou pelo menos muitas possibilidades de ser muitos outros, é mais próprio e adequado ao fluir existencial, à vontade da Natureza, ou, se preferirmos, à vontade de Deus.

São Francisco de Assis Francesco Giovanni di Pietro Bernardone nasceu em 1182 (ou 1181) na cidade de Assissi (Assis), na Itália. Filho de um comerciante, conta-se que vivera uma juventude mundada e excessiva, dedicando-se posteriormente a uma vida religiosa e devotada aos pobres. Fundador da Ordem dos Frades Menores, ou Ordem Franciscana, sua figura é uma das mais admiradas pelos católicos.

Siddhartha GautamaPríncipe de Kapilvastu é o título atribuído a Siddhartha Gautama, fundador do Budismo. Kapilvastu era um principado localizado na região de Lumbini, atualmente pertencente ao Nepal. Em algumas fontes de consulta, o nome do distrito aparece como Kapilavastu.

Alguns podem até achar falta de modéstia em Schopenhauer, mas, observando criteriosamente seus escritos, pode-se encontrar os créditos que ele declara a seus colaboradores, como quando diz: "Reconheço que o melhor de meu desenvolvimento próprio deve-se, ao lado da impressão do mundo intuitivo, tanto à da obra de Kant, como à dos sagrados hindus e à de Platão". Como homem culto que foi, fez um estudo aprofundado das religiões orientais, assim como do cristianismo e do judaísmo, e sua ética pode ser comparada tanto com a budista quanto com a cristã, conforme ele mesmo declara:

"A todas as éticas da filosofia europeia, a minha se dispõe na relação do Novo Testamento ao Antigo, conforme o conceito bíblico desta relação. [...] Minha ética [...] possui fundamento metafísico, utilidade e objetivo: em primeiro lugar mostra teoricamente o fundamento metafísico da justiça e do amor humanos, e em seguida também aponta o objetivo a que estes, quando realizados com perfeição, devem conduzir. [...] Poder-se-ia denominar minha doutrina a filosofia propriamente cristã; por mais paradoxal que possa parecer àqueles que não atingem o cerne das coisas, mas permanecem em sua superfície".

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844- 1900), ao tomar conhecimento da obra de Schopenhauer, ficou muito entusiasmado com o compatriota, chegando mesmo a escrever um livreto intitulado Schopenhauer Educador. Nele podemos ler logo de início: "Se tentar descrever o acontecimento que foi para mim o primeiro olhar lançado sobre os escritos de Schopenhauer, devo primeiramente me deter um pouco a uma ideia que me perseguia em minha juventude [...], imaginava que o terrível esforço, o temível dever de ter de me ocupar de minha própria educação me seria poupado pelo destino, porque encontraria no devido tempo um filósofo que fosse meu educador, um verdadeiro filósofo que pudesse ser seguido sem hesitar, uma vez que poria nele mais confiança do que em mim mesmo".

Esse educador foi Schopenhauer, até Nietzsche romper com ele. Mas isso não diminui em nada o valor de Schopenhauer, e podemos continuar citando os elogios do homem-dinamite, enquanto admirador dele: "Sou desses leitores de Schopenhauer que, desde a primeira página, sabem com toda a certeza que lerão todas as outras e prestarão atenção à menor palavra que alguma vez tenha proferido". Nietzsche, posteriormente, como mencionado, tornar-se-ia opositor daquele que antes chamara de seu "educador", mas tal rompimento é comum em discípulos que precisam se afastar de seus mestres para que suas próprias ideias não sejam ofuscadas. É muito fácil encontrar em Nietzsche falas que soam com o mesmo tom e timbre da voz de seu ex-educador. 

Além disso, o amor fati (amor pelo destino) nietzscheano pode parecer aos mais apressados uma contraposição à valorização da morte schopenhaueriana, mas, quando analisada de perto, demonstra-se quase irmã gêmea desta. Revoltado com a insistente perseguição a sua filosofia, Arthur Schopenhauer lança seu grande desabafo contra as forças dominantes do pensamento filosófico de então, para colocar cada um em seu lugar. "Agora terei de ouvir novamente que minha filosofia é desesperada somente porque me expresso conforme a verdade, mas as pessoas querem que se lhes diga que o Senhor Deus tenha feito tudo do melhor modo. Dirijam-se à igreja, e deixem em paz os filósofos. 

Ao menos não exijam que estes exponham suas doutrinas conforme seus ensinamentos: isto, fazem-no os trapaceiros; os filosofastros: a estes, podem encomendar doutrinas à vontade". Durant tece seus elogios ao filósofo de Danzig da seguinte forma: "Devemos a Schopenhauer o fato de nos ter revelado nossos corações secretos, de nos ter mostrado que nossos desejos são os axiomas de nossas filosofias e de ter aberto caminho para uma compreensão do pensamento não como um simples cálculo abstrato de eventos impessoais, mas como um inflexível instrumento de ação e de desejo". função da filosofia é, sem dúvida, promover o melhoramento da qualidade cultural e intelectual do ser humano, para que a humanidade, como um todo, seja favorecida e possa caminhar a passos largos para melhores dias, deixando escrito nas páginas invisíveis da história os relatos de lutas e glórias que perfazem a existência da espécie humana, mas não cabe a ela, de modo nenhum, instrumentar-se de mentiras doces e de vãs lucubrações somente para, sentada no trono de "mãe das ciências", governar o "Reino de Utopia", de tal forma a envergonhar até mesmo o grande Thomas Morus, que provavelmente se contorceria em seu túmulo de tanto asco e revolta.

Thomas MorusPríncipe de Kapilvastu é o título atribuído a Siddhartha Gautama, fundador do Budismo. Kapilvastu era um principado localizado na região de Lumbini, atualmente pertencente ao Nepal. Em algumas fontes de consulta, o nome do distrito aparece como Kapilavastu.

O filósofo do pessimismo, como ficou conhecido Arthur Schopenhauer, tem muitas coisas positivas a ensinar tanto aos miseráveis quanto aos prósperos, tanto aos bípedes sem instrução quanto aos bípedes bem-instruídos, tanto aos pessimistas quanto aos otimistas. A beleza de sua filosofia não é óbvia e vulgar como alguns gostariam que fosse, ela é como o véu de Maya dos hindus, que impõe ao comum dos homens uma ilusão multicolorida, enquanto esconde por trás de si o esplendor da eternidade.

O próprio filósofo pode nos dizer algo sobre isso, para que tudo o que aqui foi dito não fique como não dito: "Mas certamente a verdade será sempre paucorum hominum, e portanto deve esperar, tranquila e comodamente, pelos poucos que, por terem um modo de pensar fora do comum, possam achá-la. [...] A vida é curta, mas a verdade vai longe e tem vida longa; falemos a verdade".
Jaya Hari Das

18 de set. de 2010

Aprender a Ver

Aprender a ver, habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar que as coisas se aproximem de nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não "querer", o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo, tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de "vício" é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. Uma aplicação prática do ter aprendido a ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o fato pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa "objectividade" moderna é mau gosto, é algo não-aristocrático por excellence. Friedrich Nietzsche

26 de jun. de 2010

O Que é Ser Contemporâneo?
Alguns pontos da visão de Giorgio Agamben
O poeta – o contemporâneo – deve manter o olhar fixo em seu tempo. Mas que vê quem vê seu tempo, o sorriso demente de seu século? Contemporâneo é aquele que mantém o olhar fixo em seu tempo, para perceber não as suas luzes, mas sim as suas sombras. Todos os tempos são, para quem experimenta sua contemporaneidade, escuros. Contemporâneo é quem sabe ver essa sombra, quem está em condições de escrever umedecendo a pena nas trevas do presente. Mas o que significa "ver a escuridão", "perceber a sombra"?
Uma primeira resposta nos é sugerida pela neurofisiologia da visão. O que acontece quando nos encontramos em um ambiente sem luz, ou quando fechamos os olhos? O que é a sombra que vemos nesse momento? Os neurofisiologistas dizem-nos que a ausência de luz desinibe uma série de células periféricas da retina, chamadas, precisamente, de off-cells, que entram em atividade e produzem essa espécie particular de visão que chamamos de sombra. A sombra não é, portanto, um conceito privativo, a simples ausência de luz, algo como uma não visão, mas sim o resultado da atividade das off-cells, um produto da nossa retina. Isso significa (...) que perceber essa sombra não é uma forma de inércia ou de passividade, mas sim de algo que implica uma atividade e uma habilidade particulares, que, no nosso caso, equivalem a neutralizar as luzes que provêm da época para descobrir sua escuridão, sua sombra especial que não é, de todos os modos, separável dessas luzes.
Pode se chamar de contemporâneo só aquele que não se deixa cegar pelas luzes do século e que é capaz de distinguir nelas a parte da sombra, sua íntima escuridão. Por que o fato de poder perceber as trevas que provêm da época deveria nos interessar? Por acaso, a sombra não é uma experiência anônima e, por definição, impenetrável, algo que não está dirigido a nós e não pode, portanto, nos incumbir? Pelo contrário, contemporâneo é aquele que percebe a sombra de seu tempo como algo que lhe incumbe e que não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que qualquer luz, se refere direta e singularmente a ele. Quem recebe em pleno rosto o feixe de trevas que provém de seu tempo.
A contemporaneidade se inscreve no presente marcando-o sobretudo como arcaico, e só quem percebe no mais moderno e recente os indícios e as signaturas do arcaico pode ser seu contemporâneo. Arcaico significa: próximo do "arché", ou seja, da origem. Mas a origem não está situada só em um passado cronológico: é contemporâneo ao devir histórico e não cessa de funcionar nele, como o embrião continua atuando nos tecidos do organismo maduro, e o bebê, na vida psíquica do adulto. A distância e, ao mesmo tempo, a proximidade que definem a contemporaneidade têm seu fundamento nessa proximidade com a origem, que em nenhum ponto bate com tanta força como no presente.
Os historiadores da literatura e da arte sabem que, entre o arcaico e o moderno, há um encontro secreto, e não tanto por causa do fato de que as formas mais arcaicas parecem exercer no presente um fascínio particular, mas sim porque a chave do moderno está oculta no imemorial e no pré-histórico. Assim, o mundo antigo, em seu final, se volta, para se reencontar, para as origens: a vanguarda, que se extraviou no tempo, segue o primitivo e o arcaico. Nesse sentido, justamente, pode-se dizer que a via de acesso ao presente tem necessariamente a forma de uma arqueologia. Que não retrocede, porém, a um passado remoto, mas sim ao que, no presente, não podemos viver de nenhuma forma e, ao permanecer no vivido, é incessantemente reabsorvido para a origem, sem nunca poder alcançá-lo. Porque o presente não é outra coisa que a parte de não-vivido em cada vivido, e o que impede o acesso ao presente é justamente a massa do que, por alguma razão (seu caráter traumático, sua proximidade excessiva) não conseguimos viver nele

1 de mai. de 2010

Um filósofo para nossos dias

Após mais de um século e meio de certa incompreensão e desapreço, os textos do pensador dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard (5/5/1813-11/11/1855) parecem ganhar lugar de destaque não só nas bibliotecas e livrarias da Dinamarca, mas no mundo inteiro. O interesse pelas obras desse polêmico autor não se circunscreve apenas à área dos pesquisadores ou críticos escandinavos, embora o alcance e a diversidade de seu pensamento também não facilitem a tarefa de analisar os múltiplos aspectos de sua escrita filosófica e literária. Aliás, muito do que já se escreveu sobre Kierkegaard é considerado, quase sempre, estudo apenas introdutório, mas que se impõe a investigações amplas tanto para o pesquisador da filosofia, da literatura e das mais variadas áreas do conhecimento. Atualmente, no Brasil, não é mais possível afirmar que Kierkegaard é pouco estudado, pouco conhecido, e que muitas publicações feitas ao seu respeito se restringem a análises de cunho filosófico, centradas em suas oposições a Hegel. Ao contrário, é justo reconhecer que a situação está bastante mudada, pois as obras desse escritor dinamarquês têm sido objeto de análise não somente nas escolas superiores brasileiras como também nas argentinas, motivando diversas pesquisas nas mais diversas áreas do conhecimento: filosofia, teologia, psicologia e literatura. O professor Alvaro L. M. Valls, por exemplo, acentua que “é impossível ser kierkegaardiano. Não obstante, já há bastante gente convencida de que vale a pena ler a sua obra. Pode-se dizer, com uma tirada de Ernani Reichmann, que já ‘temos kierkegaardianos de escola’”. Prova disso é o recente livro Kierkegaard no nosso tempo, resultado da Jornada Internacional de Estudos, ocorrida em novembro de 2009 em Buenos Aires (Argentina) e na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Brasil). Nos 25 estudos dos diversos pesquisadores, representantes de quatro países, encontra-se, sem dúvida, não somente o valor documental inestimável sobre a riqueza do pensamento de Kierkegaard, fornecendo um excelente panorama de discussões e teorias até há bem pouco tempo desconhecidas do público leitor, mas também o diálogo com autores tão representativos para o nosso tempo, tais como Heidegger, Jaspers, Gadamer, Lukács, Kracauer, Lévinas, Derrida, Hannah Arendt, Habermas, Tillich, Lacan, Clarice Lispector, Wolfgang Iser, Michel Henry e outros. Variedade de estilos Pode-se dizer, em primeiro lugar, que Kierkegaard no nosso tempo enfatiza a riqueza temática dos pesquisadores mais recentes, cujos textos ali recolhidos testemunham a variedade enorme de estilos literários e modos de encontro/confronto com o pensamento do escritor dinamarquês. Em segundo lugar, que esses pesquisadores, por meio de interesses acadêmicos tão específicos e, por vezes, até mesmo antagônicos, apresentam um Kierkegaard sem amarras, que não se deixa prender em uma determinada linha interpretativa. Os textos, cada qual à sua maneira, jogam luz e tornam mais inteligível o jogo escritural kierkegaardiano, com seus pseudônimos, o seu estilo, a sua postura e as suas brincadeiras. Além disso, Kierkegaard no nosso tempo aponta as atuais perspectivas de pesquisa, principalmente no Brasil, derrotando e enterrando as interpretações caricaturadas tão difundidas antes. Agora, em vez de uma leitura genético-biográfica rígida da obra do dinamarquês ou apenas uma reflexão ingênua do sistema de Hegel, Kierkegaard pode ser lido, no nosso tempo, como pensador que, por intermédio de seu jogo autoral e discursivo, suscita o leitor, de imediato, a pensar grandes temas da filosofia e das áreas correlatas, possibilitando, até mesmo, um redimensionamento do que já foi até agora escrito. Jacqueline Oliveira Leão

16 de mar. de 2010

Diário

Quando eu morrer, ninguém descobrirá entre os meus papéis uma observação que contenha a chave da minha vida (o que é um consolo para mim).
Ninguém descobrirá palavras que expliquem tudo e que muitas vezes fazem o que o mundo consideraria uma ninharia parecer um evento de tremenda importância para mim ou algo que eu considere extremamente importante uma vez despido de seu verniz protetor. Kierkegaard

12 de mar. de 2010

O Mundo como Vontade e Representação


O mundo é a minha representação. Esta proposição é uma verdade para todo o ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico.

Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra; mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem. 


Se existe uma verdade que se possa afirmar à priori é bem esta, pois ela exprime o modo de toda a experiência possível e imaginável, conceito muito mais geral mesmo que os de tempo, espaço e causalidade que o implicam. Com efeito, cada um destes conceitos, nos quais reconhecemos formas diversas do princípio de razão, apenas é aplicável a uma ordem determinada de representações; a distinção entre sujeito e objeto é, pelo contrário, o modo comum a todas, o único sob o qual se pode conceber uma qualquer representação, abstrata ou intuitiva, racional ou empírica.

Nenhuma verdade é pois, mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação a um sujeito, percepção apenas, em relação a um espírito que percebe, numa palavra, é pura representação. 
Arthur Schopenhauer

21 de nov. de 2009

O crepúsculo dos sábios

O conceito de universidade moderna e a natureza do conhecimento que ela produziu até os anos 1960 tinham por objetivo formar o cientista. Este representava o "mestre da verdade" porque capaz de compreender seu ofício na complexidade dos saberes e da história. Sua autoridade procedia de sua palavra pública, pela qual se fazia responsável. O cientista era o intelectual, e para ele a pesquisa não correspondia a uma profissão, mas a uma vocação. O conhecimento mantinha sua autonomia com respeito às determinações imediatamente materiais e do mercado. Sua temporalidade - a da reflexão - compreendia-se no longo prazo, garantidora da transmissão de tradições e de suas invenções. A universidade pós-moderna, por sua vez, converte pesquisa em produção, constrangendo-se à pressa e à produtividade quantificada do conhecimento, adaptando-se à obsolescência permanente das revoluções técnicas, promovidas pelas inovações industriais segundo a lógica do lucro. A temporalidade do mercado confisca o tempo da reflexão, selando o fim do papel filosófico e existencial da cultura. Para a universidade moderna não cabia a pergunta "para que serve a cultura", mas sim "de que ela pode liberar". A universidade moderna elevava a sociedade aos valores considerados universais no concerto das nações que procuravam uma linguagem comum ao patrimônio cultural de toda a humanidade, devolvendo-o à sociedade com seus maiores cientistas e seus melhores técnicos. Essa foi a tradição de Goethe que havia formulado a ideia da Weltliteratur, da literatura universal como cosmopolitismo do espírito. A universidade pós-moderna é a da indiferenciação entre pesquisa e produção. O intelectual cultivado foi destituído - em todos os domínios do conhecimento - pelo especialista e seu conhecimento particularizado, cujo contato com a tradição cultural é episódico ou inexistente. Seu discurso não diz mais o "universal" e se limita a formulações técnicas, perdendo-se o sentido do conhecimento e seus fins últimos, com a passagem da questão teórica "o que posso saber" para a pragmática "como posso conhecer". Para Gunther Anders, o emblema da conversão do intelectual em pesquisador, da razão crítica em desresponsablização ética e racionalidade técnica, foi Fermi na Itália e Oppenheimer nos EUA, cujas pesquisas sobre a bomba atômica foram tratadas por eles em termos estritamente técnicos. A universidade pós-moderna não lida mais com as "grandes narrativas" nem busca a fundamentação do conhecimento e seus primeiros princípios. Como o mercado, se pauta pela mudança incessante de métodos e pesquisas. Nada aprofunda, produzindo uma cultura da incuriosidade, imune ao maravilhamento. Em sua pulsão antigenealógica, acredita que tudo o que nela se desenvolve deve a si mesma, não reconhecendo nenhuma dívida simbólica com as gerações passadas. Essa circunstância, por sua vez, pode ser compreendida no âmbito da massificação da cultura e da universidade. Com a ditadura dos anos 1960 no Brasil, a universidade pública moderna - concebida de início para formar as elites governantes, a partir do ideário de universidade cultural, científica e com suas áreas técnicas - começa sua desmontagem, o que e resulta em sua massificação. Sob a pressão de massas historicamente excluídas dos bens científicos e culturais, bem como do sucesso profissional aferido pelo enriquecimento nas profissões liberais, a universidade pós-moderna acolhe populações sem o repertório requerido anteriormente para a vida acadêmica. Face ao ideário moderno baseado no mérito de cada um e não mais no sistema nobiliárquico do nascimento, e sua incompatibilidade com a desigualdade real de oportunidades para a ascensão social, a universidade pós-moderna questiona, contrapondo-os, mérito e igualdade, reconhecendo no primeiro a manutenção do regime de privilégios e distinções do passado. Assim, a universidade atual adapta-se à fragilidade do ensino fundamental e médio, passando a compensar as deficiências dessa formação. Para isso, a graduação retoma o ensino médio, a pós-graduação a graduação, o doutorado o mestrado, cuja continuidade é o pós-doutorado, tudo culminando na ideia da "formação continuada" e de avaliações permanentes. Ao mesmo tempo, a ideia de pesquisa moderna anterior transforma-se em fetiche pós-moderno, tanto que a iniciação científica se faz para estudantes em preparação para a vida universitária adulta, mas constrangidos a publicações precoces. O paradoxo é grande, uma vez que, maiores as carências nos anos de formação do estudante - como a precariedade no acesso à bibliografia em idiomas estrangeiros e dificuldades de expressão oral e escrita na língua nacional -, mais estreitos são os prazos para a conclusão de mestrados e doutorados. Prazos e métodos, por sua vez, migram das disciplinas científicas para todos os campos do conhecimento, sob o impacto do prestígio da formalização do pensamento, como é possível reconhecer, em particular no estruturalismo e, mais recentemente, no linguistic turn, sua legitimidade garantida pelo rigor científico de suas formulações. Acrescente-se o abandono da ideia de rigor na escrita e o fim do estilo, com o advento do gênero paper e a multiplicação de congressos no mundo globalizado. Massificada a cultura, proliferaram, com a ditadura militar, a privatização do ensino e seu barateamento, as universidades particulares - salvo as exceções de praxe - prometendo ascensão social e acesso ao "ensino superior" e decepcionando suas promessas. A universidade moderna que a antecedeu garantia o exercício da formação especializada e se encontrava na base dos cursos técnicos com formação humanista para todos os que não se encaminhavam para a pesquisa, devendo atender à profissionalização, mas também à felicidade do conhecimento. A emergência da universidade pós-moderna diz respeito ao abandono dos critérios consagrados até então a fim de democratizá-la. Mas a democratização pós-moderna é massificação. A sociedade democrática comportava diversas representações das coisas: os partidos representavam as diferentes opiniões, os sindicatos os trabalhadores, a Confederação das Indústrias os empresários. Na sociedade pós-moderna, o consenso é produzido pela mídia e suas pesquisas de opinião, através da eficiência persuasiva da televisão, que primeiramente cria a opinião pública e depois pesquisa o que ela própria criou. Razão pela qual massificação significa perda da qualidade do conhecimento produzido e transmitido, adaptado às exigências de massas educadas pela televisão, com dificuldade de atenção e treinadas para a dispersão, mimadas por uma educação que se conforma a seu último ethos. A cultura pós-moderna é a da "desvalorização de todos os valores". Sua noção de igualdade é abstrata, homóloga à do mercado onde tudo se equivale. Em meio à revolução liberal pós-moderna, a universidade presta serviços e se adapta à sociedade de mercado e ao estudante, convertido em cliente e consumidor, como o atesta a ideologia do controle dos docentes por seus alunos. Em seu ensaio Filosofia e Mestres, Adorno diz, temendo incorrer em sentimentalismo, que o conhecimento exige amor. Sua universidade, a de Frankfurt, era moderna, humanista, como era humanista o professor de uma fita italiana dos anos 1970. No filme, estudantes impedem o franzino docente de literatura românica com seus compêndios eruditos de entrar na sala de aula onde discutem questões do curso. Sentado em um banco, o mestre escuta o vozerio e ruídos de cadeiras sendo arrastadas. Por fim é chamado e, quando entra, os estudantes em suas carteiras estão em círculo, e o professor senta-se entre eles. Discutem então o que o professor deveria ensinar-lhes. Como não chegam a nenhum consenso e o dia se faz crepuscular, decidem finalmente deixar que o professor se manifeste. Ao que o professor, retomando seu lugar junto à lousa e diante de todos, anuncia: "Estou aqui para ensinar a vocês a beleza de um verso de Petrarca". Metáfora rigorosa para a educação, da escola maternal à universidade, o conhecimento, como escreveu Freud, é uma das tarefas mais nobres da humanidade no longo processo de sua humanização. Olgária Matos

8 de nov. de 2009

Ainda há o que derrubar


A queda do muro de Berlim é universalmente interpretada como o fim da guerra fria e a vitória do capitalismo e da democracia liberal. Por essa visão triunfante, que comemora 20 anos, a história é passível de uma visão teleológica (ou seja, destinada a uma finalidade inevitável), na qual o estágio mais avançado é o chamado Estado democrático de direito, em sua versão europeia: liberal em economia e tolerante em política. 

O muro era a cicatriz que estampava a divisão do mundo entre dois blocos, um capitalista, liderado pelos Estados Unidos; e outro socialista (ou do chamado socialismo realmente existente), que tinha a União Soviética como cabeça, coração e cofre. Quando a parede caiu, foi carimbada a vitória do lado ocidental e, de quebra, declarado o fim do sentido da distinção entre esquerda e direita. Não foi a primeira vez que isso ocorreu. No século 19, o filósofo Hegel já decretara que o Estado Alemão de seu tempo ocupava o topo da pirâmide evolutiva das organizações sociais, realizando na prática o que ele previra em teoria: um movimento dialético ascensional até o estágio em que as contradições seriam todas resolvidas. 

A inspiração hegeliana é a mesma que deu ao cientista político norte-americano Francis Fukuyama a certeza de que havíamos chegado ao fim da história com os Estados Unidos. Berlim seria o lugar mítico do dissolvimento da ideologia em nome de uma nova realidade política: o fim do comunismo e a afirmação do projeto da globalização. Um único mundo. No entanto, se a vitória do mercado parecia evidente, mesmo às economias planejadas que começavam a flexibilizar sua inserção internacional e quebrar o automatismo das relações entre blocos, o substrato ideológico foi dado de barato, como consequência natural: quanto mais mercado, mais liberdade. 

Não era bem assim e não foi assim depois da queda do muro. O que a guerra fria tinha de mais forte não era a oposição em torno de ideias, mas o consenso numa dinâmica econômica marcada pela centralização, pela dependência, pela desigualdade regional e pelo peso do armamentismo. Lá como cá. As duas superpotências haviam pervertido a economia mundial em torno de uma corrida armamentista poderosa, em escala nunca vista na história da humanidade, extremamente dispendiosa. E o que é mais significativo, tratava-se de uma guerra desigual. Os EUA dominavam a tecnologia e o comércio na porção mais rica da economia mundial; a URSS, drenada pelos seus satélites, mal sustentava seus projetos bélicos; o restante do planeta, onde possivelmente poderiam surgir tensões e alianças pró-socialismo, não representava quase nada em termos econômicos. 

A Guerra Fria, mesmo antes de acabar, já tinha vencedor. Mas o que fez com que o “superpoder” soviético derretesse não foram apenas as qualidades de seu oponente, mas seus defeitos intrínsecos. Politicamente, o bloco comunista não conseguiu incorporar a demanda real por participação, não foi capaz de modernizar suas relações sociais, se mostrou incompetente para explorar os novos recursos que dinamizavam o mercado internacional. O socialismo realmente existente agonizava em autoritarismo, ineficácia e pobreza. Quando o muro caiu, os alicerces já estavam podres. Querer barrar tudo com concreto era uma possibilidade tão inviável quanto construir castelos no ar. E mesmo nesse tipo de engenharia, a União Soviética se mostrava capenga. O sonho acabava. Sem entrar em minúcias, que obrigariam a acompanhar o processo em muitos países, cada um com suas especificidades, a identidade entre a queda do muro e o fim das ideologias é algo frágil, que não se sustenta nos fatos que se seguiram ao ano de 1989. Na verdade, mais que nunca, esquerda e direita passaram a ter sentido no cenário político. 

O que ficou estabelecido, por obra e engenho dos dois lados da disputa, é que a situação anterior era insustentável para a nova dinâmica política e econômica. No entanto, mesmo aparentemente indiviso, o mundo ainda abrigaria duas grandes perspectivas: de um lado os que acreditam que o fundamento da sociedade é a liberdade; de outro os que apostam na igualdade. 

DISTINÇÃO 
Quem tem como ponto de partida a liberdade pode criar uma economia poderosa, uma sociedade participativa e uma política democrática, ainda que não se coloque como obrigação reduzir afirmativamente as injustiças. Os que se fundam na perspectiva da igualdade submetem a produção e a posse de bens ao uso potencialmente equitativo da riqueza social, em forma de distribuição de poder, serviços e até mesmo dinheiro. Ser de direita ou de esquerda, mais que uma posição partidária ou política, no sentido operacional, é uma distinção ética e filosófica. O que permite que políticas de esquerda possam ser liberais e projetos de direita mais igualitários. Temos que comemorar os 20 anos da queda do muro de Berlim como uma conquista de civilização. Mas é preciso ficar atento para outros muros imaginários que se mantêm edificados, como a pobreza estrutural de um modelo excludente e inviável em termos humanos e ambientais. 

A recente crise financeira internacional foi outro exemplo da desregulagem de um sistema que ser quer perfeito, que fica como alerta para as consciências em festa. Sem falar dos muros reais, como o que Israel edificou para concretizar sua política externa fundada em belicismo e numa concepção muito particular de vingança e retaliação. Enfim, a boa nova da queda é que os homens se tornaram irredutíveis na defesa da liberdade. Agora é chegada a hora do mesmo empenho em relação à igualdade. 
João Paulo

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