25 de jan de 2015

Onde moram os mais ricos dos mais ricos

BBC

O Fórum Econômico Mundial chegou ao fim com muitas discussões sobre a crescente desigualdade e referências ao "1% mais rico".
Relatório da entidade Oxfam causou polêmica ao prever que o grupo de 1% das pessoas mais ricas do mundo possuirá, em breve, mais do que o resto da população mundial. A estimativa foi baseada em pesquisa do banco Credit Suisse, que estimou a riqueza total das famílias em todo o mundo em 2014 em US$ 263 trilhões (R$ 678 trilhões).
Isso é riqueza, não renda. É calculado como ativos menos dívida.
Obviamente, bilionários como Bill Gates, Waren Buffet e Mark Zuckerberg fazem parte deste 1%. Mas quem mais? Segundo o Credit Suisse, outras 47 milhões de pessoas - todas com uma riqueza equivalente ou superior a US$ 798 mil (R$ 2,06 milhões)
Isso inclui muitas pessoas em países desenvolvidos que não se consideram ricas, mas que possuem uma casa quitada ou já tenham pago parte significante de suas hipotecas.
Entre elas, estão 18 milhões de pessoas nos Estados Unidos, o país com maior número de integrantes no grupo do 1%.
São 3,5 milhões na França, 2,9 milhões no Reino Unido e 2,8 milhões na Alemanha. A Alemanha tem a maior economia da Europa e a razão por ter menos pessoas ricas, segundo o Credit Suisse, é que tem níveis menores de pessoas com casa própria.
Há dois países asiáticos com mais de 1 milhão de pessoas entre as mais ricas: Japão (4 milhões) e China (1,6 milhão).
O país com a maior proporção de integrantes em relação à população é a Suíça: um em cada dez - ou 800 mil dos 8 milhões - tem patrimônio superior a US$ 798 mil.
Mas o relatório do Credit Suisse não conta a história inteira, já que não leva em conta o custo para comprar bens em cada país, por exemplo. Meio milhão de libras pode comprar um apartamento de um quarto no centro de Londres, mas em outros países compra uma mansão. O estudo também não leva em conta a renda.
Já para estar entre os 10% mais ricos, é necessário ter US$ 77 mil em ativos (R$ 198 mil). E para figurar na metade de cima dos mais ricos do mundo é preciso US$ 3.650 (R$ 9.408)
BBC

16 de jan de 2015

O plano cobre

Humor cáustico perde a graça quando precisa ser explicado. Falhei. Poucos se divertiram e muitos se ofenderam. A intenção não era essa. Leia o texto e deixe seu recado nos comentários.

Todo pobre tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. E todos têm fascinação por aferir [verificar] a pressão constantemente. Pobre desmaia em velório, tem queda ou pico de pressão. Em churrascos, não. Atualmente, com as facilidades que os planos de saúde oferecem, fazer exames tornou-se um programa sofisticado. Hemograma completo, chapa do pulmão, ressonância magnética, ultra de bexiga cheia. Acontece que o pobre - normalmente - alega que se não tomar café da manhã tem queda de pressão. 

Como o hemograma completo exige jejum de 8 ou 12 horas, o pobre, sempre bem arrumado, chega bem cedo no laboratório, pega sua senha, já suando de emoção [uma mistura de medo e prazer, como se estivesse entrando pela primeira vez em um avião] e fica obcecado pelo lanchinho que o laboratório oferece gratuitamente depois da coleta. Deve ser o ambiente. Piso brilhante de porcelanato, ar condicionado, TV ligada na Globo, pessoas uniformizadas. O pobre provavelmente se sente em um cenário de novela.
Normalmente, se arruma para ir a consultas médicas e aos laboratórios. É comum ver crianças e bebês com laçarotes enormes na cabeça e tênis da GAP sentados no colo de suas mães de cabelos lisos [porque atualmente, no Brasil, não existem mais pessoas de cabelos cacheados] e barriga marcada na camiseta agarrada.

O pobre quer ter uma doença. Problema na tireoide, por exemplo, está na moda. É quase chique. Outro dia assisti a um programa da Globo, chamado Bem-Estar. Interessantíssimo. Parece um programa infantil. A apresentadora cola coisas em um painel, separando o que faz bem e o que faz mal dependendo do caso que esteja sendo discutido. O caso normalmente é a dúvida de algum pobre. Coisas do tipo "tenho cisto no ovário e quero saber se posso engravidar". Porque a grande preocupação do pobre é procriar. O programa é educativo, chega a ser divertido.
Voltando ao exame de sangue, vale lembrar que todo pobre fica tonto depois de tirar o sangue. Evita trabalhar naquele dia. Faz drama, fica de cama.
Eu acho que o sonho de muitos pobres é ter nódulos. O avanço da medicina - que me amedronta a cada dia porque eu não quero viver 120 anos - conquistou o coração dos financeiramente prejudicados. É uma espécie de glamourização da doença. Faz o exame, espera o resultado, reza para que o nódulo não seja cancerígeno. Conta para a família inteira, mostra a cicatriz da cirurgia.

Acho que não conheço nenhuma empregada doméstica que esteja sempre com atacada da ciática [nervo ciático inflamado]. Ah! Eles também têm colesterol [colesterol alto] e alegam "estar com o sistema nervoso" quando o médico se atreve a dizer que o problema pode ser emocional.
O que me fascina é que o interesse deles é o diagnóstico. 
O tratamento é secundário, apesar deles também apresentarem certo fascínio pelos genéricos.

Mesmo "com colesterol" continuam comendo pastel de camarão com catupiry [não existe um pobre na face da terra que não seja fascinado por camarão] e, no final de semana, todo mundo enche a cara no churrasco ao som de "deixar a vida me levar, vida leva eu" debaixo de um calor de 48 graus.
Pressão: 12 por 8
Como são felizes. Babo de inveja.

ATENÇÃO:

Humor cáustico perde a graça quando precisa ser explicado. Falhei. Poucos se divertiram e muitos se ofenderam. A intenção não era essa.
Silvia Pilz - O Globo

8 de jan de 2015

6 de jan de 2015

A delicadeza dos dias

“Mãe, sabia que, quando a gente cresce, pode voltar a brincar com os brinquedos de criança?”, anunciou minha afilhada Catarina, três anos e oito meses. E seguiu, em sua primeira declaração de Ano-Novo. “A gente precisa dos brinquedos pra ir na faculdade. Eu vou ser escrevista." Escrevista?, pontuou a mãe, interrogativa. "Escrevista, mãe. Aquela pessoa que escreve pra ler."


Catarina é assim. Cercada de princesas, porque ela também é uma princesista praticante, ela às vezes silencia os adultos ao redor, arrancando-nos da repetição neurótica dos dias. É visível que sente compaixão por nós, a ponto de, neste Natal, ter fingido acreditar no Papai Noel para não nos decepcionar. Fizemos coisas ridículas, na falta de chaminés o Papai Noel teria descido por uma janela pela qual não passaria um duende com anorexia, e ela deixou passar. Mas, juro, seus olhos eram tão céticos quanto os de Humphrey Bogart em Casablanca.

Dias antes ela já havia simulado crer numa carta que o velho teria lhe escrito de próprio punho, na qual, por uma incrível coincidência, lhe dava conselhos iguaizinhos aos que a mãe lhe dá todo dia. Catarina mal continha o riso quando lhe perguntei sobre a carta. Mas fingiu acreditar, por amor. Mentiras sinceras já lhe interessam.

Passou a virada do ano vestida de Alice, a do País das Maravilhas. Percebo que, para ela, somos todos o coelho branco. “Ai, ai, meu Deus, alô, adeus, é tarde, tarde é tarde. Não, não, não, eu tenho pressa, pressa....” De tanto nos observar, percebeu que precisamos muito de nossos brinquedos na vida adulta. E nos autorizou. Por isso nos mandou brincar.

Há quem se engane e pense que as crianças falam “errado” por não conhecerem ainda as palavras “certas”. Não. Elas chegam às palavras exatas e depois nós as encaixotamos com a uniformidade do dicionário, “corrigindo-as”. Alguém pode se confundir e achar que Catarina queria dizer “escritora” e não “escrevista”, como disse. Nada. Escrevista era a palavra exata. Aquela pessoa que escreve não para ser lida, mas para ler, como Catarina mesmo esclareceu. Ler a si mesma. Uma vista de si.

E Catarina já é uma escrevista. O que pode ocorrer é que, na faculdade, talvez ela deixe de ser. Mas apenas se esquecer de levar seus brinquedos. Espero estar viva para lembrá-la.

Catarina já se conta, passa os dias se contando, em longas narrativas. Ela sabe o que Fernandes, o personagem do filme indiano “Lunchbox”, de Ritesh Batra, descobriu quando já começava a envelhecer: “Acho que esquecemos das coisas se não tivermos a quem contá-las”. Um dia, por engano, Fernandes recebeu no seu escritório uma marmita que não era para ele, mas era para ele: “O trem errado às vezes leva ao destino certo”. A partir desse desacerto tão acertado, iniciou-se uma correspondência entre a mulher que cozinha e o homem que come. Fernandes, que se limitava a repetir os dias, passou a enxergar os dias quando começou a escrever para ela. A cor, o cheiro, o sabor da comida onde ela escondia as palavras despertaram seus sentidos, até então embrutecidos pela repetição. Ele era um contador – um contador de números que não contava os sentimentos. Nem contava, não era importante, para ninguém. Ao se contar, finalmente contou, em mais de um sentido. Contou para ela, contou para si mesmo.

Há um momento nesse filme tão bonito em que Fernandes pela primeira vez se detém para observar os quadros de um pintor de rua pelo qual passa todo dia sem parar. O pintor pinta sempre a mesma paisagem. Mas, se olhar bem de perto, Fernandes descobre, não é a mesma paisagem. Como o dia dele, que só parece ser o mesmo. Ou só é o mesmo se ele não for capaz de enxergar a delicadeza, as infinitas pequenas mudanças, a eterna novidade do mundo de que falava Fernando Pessoa, aquele que precisou de pelo menos três heterônimos para dar conta de si.

De repente, Fernandes descobre-se numa das telas. Sem o véu enganador da rotina, que até então o cobria, consegue se reconhecer na paisagem. Ele agora é um homem que está. Decide pegar um riquixá para revisitar as paisagens da sua vida, ver os lugares que via sem ver, agora vendo. Ao final desse percurso, ele é outro. Um outro que, agora descoberto, terá de se descobrir novamente em cada dia seguinte.

Foi o Papai Noel da Catarina quem me deu esse filme no Natal. E eu acreditei nesse Papai Noel. Ou fingi acreditar, por compaixão de mim. Me lembrou de um outro filme, mais antigo, “Cortina de Fumaça”, dirigido por Wayne Wang e Paul Auster. Nele, Auggie Wren, dono de uma tabacaria, há anos tira todo dia, às oito da manhã, uma fotografia da mesma esquina do Brooklin, em Nova York. Ele mostra esse álbum com 4 mil fotografias a um de seus fregueses, Paul Benjamin, que depois de virar algumas páginas diz: “São todas iguais”. Auggie responde: “Sim, 4 mil dias comuns”. Paul ainda está confuso, um pouco condescendente. Ele é um escritor de romances diante do dono de uma tabacaria: “Acho que ainda não entendi direito...”. Auggie tenta lhe explicar: “É a minha esquina, nessa pequena parte do mundo também acontecem coisas”. E vai colocando mais um álbum diante de Paul, que folheia entediado e cada vez mais rapidamente. Auggie adverte: “Você não vai entender se não folhear mais devagar, amigo”.

Ele sabe que, se olhar bem, Paul vai reconhecer a esquina. O homem diante dele é um escritor, mas Auggie, como Catarina, é um escrevista. Então, Paul finalmente descobre. Ele vê Ellen, a mulher que amou e que morreu, numa das fotos. Ela está lá, na mesma esquina que agora já não poderia ser a mesma. Ao ver a foto, Paul reencontra a si mesmo num outro tempo, porque, quando perdemos alguém que amamos, nosso luto também se dá por aquele que éramos com aquela pessoa. E que, sem ela, já não podemos ser. Um luto pelo outro é sempre também um luto de si. E lá ficou Paul, em lágrimas, diante da esquina que finalmente enxergou, com saudades dela e dele com ela. O álbum, agora, já não tinha a mesma foto repetida centenas de vezes, mas centenas de fotos de esquinas diferentes.

Temos vivido nesse mundo de acontecimentos, de espasmo em espasmo. Estamos intoxicados por acontecimentos, entupidos de imagens. Há sempre algo acontecendo com muitos pontos de exclamação – ou fingindo acontecer para que de fato nada aconteça. E há a nossa reação nas redes sociais – às vezes uma ilusão de ação. E nas viradas de ano há ainda as resoluções, que também pressupõem uma ação.

Mas o que é preciso para, de fato, se mover? Penso que, para que exista uma mudança real de posição e de lugar, é preciso perceber o pequeno, o quase invisível de nossa realidade externa e interna. É pelos detalhes que enxergamos a trama maior, é na soma das sutilezas que a vida se desenrola, são as subjetividades que determinam um destino. É preciso desacontecer um pouco para ser capaz de alcançar a delicadeza dos dias.

Nesse tempo em que ninguém tem tempo para ter tempo, a delicadeza de uma vida parece ter sido relegada à ficção. É no cinema e na literatura que nos enternecemos e derrubamos nossas lágrimas ao testemunhar as sutilezas que esquecemos de enxergar ou não somos capazes de enxergar nos nossos dias de autômatos. Os personagens da ficção têm mais carne que nós, precisamos deles para nos lembrar de quem somos. Os robôs já estão aí, temos agora de reinventar os humanos.

O exemplo extremo talvez seja o dos pais que se esquecem dos filhos trancados no carro, bebês que acabam morrendo por asfixia ou por insolação no banco de trás. Já foi dito que esse fenômeno seria uma marca do autocentrismo ou do narcisismo que assinalaria a paternidade desse momento histórico. O filho como uma desimportância, um atrapalho, no máximo um troféu da potência do pai. Minha hipótese é outra.

Acho que esses pais estão automatizados, como estamos todos. Tão incapazes de enxergar as diferenças de dias que parecem iguais, que acabam deixando de ver algo tão grande quanto a presença de um bebê no banco de trás. Não é que se esqueçam dos filhos, porque para esquecer, assim como para lembrar, é preciso estar presente. Presos no pesadelo de estarem vivendo sempre o mesmo dia, esses pais estão ausentes de si, numa espécie de transe mortífero. São despertados para a vida pela morte do filho.

O título do comovente filme do brasileiro Caetano Gotardo é expressivo: “O que se move”. Ele contas três histórias baseadas em notícias de jornais. Numa delas, alcançamos os detalhes e os acasos de um pai que, no primeiro dia de férias da mãe, carrega o filho no banco de trás do carro. Com o balanço, o bebê acaba dormindo, e o pai o “esquece”. Ele passa a manhã no trabalho sentindo-se perturbado, doente, mas não consegue identificar o que está errado. É de novo no cinema, muito mais do que nas notícias, que conseguimos enxergar esses pais na delicadeza monstruosa da tragédia.

Em algum momento esquecemos do que sabe Catarina, paramos de nos contar. Alguém pode argumentar que nunca tantos falaram sobre si e se registraram em selfies em todas as situações. Mas o que o selfieconta? Penso que há algo no selfie para além da crítica que em geral lhe fazem, a de ser um mero registro do autocentrismo ou do narcisismo dessa época. O mesmo vale para muitos Tweets e posts no Facebook. Há qualquer coisa de pungente no selfie, uma expressão de nosso desespero por tentar provar que existimos, já que não conseguimos nos sentir existindo. Melhor ainda se for um autorregistro com alguém famoso, detentor de um certificado de existência validado pela mídia, que então seria estendido ao seu autor. Nesse sentido, o selfie não me exaspera, mas me emociona. Cada selfie é também a imagem de nossa ausência.

O contar de que fala Catarina, a escrevista, é outro. É por esse contar que sugiro que façamos não uma lista de resoluções de Ano-Novo, mas uma lista de delicadezas que estiveram presentes em 2014, mas que não vimos e não reconhecemos por termos nos tornado seres condenados à repetição.

Esse mundo que criamos nos brutaliza de tantas formas ao nos reduzir a consumidores, e também a consumidores de acontecimentos. Diante da brutalidade das horas, a delicadeza é um ato de insubordinação e um ato de resistência. Em 2015, desejo a todos um reencontro com a delicada trama dos dias. E, não esqueçam, levem seus brinquedos.
Eliane Brum


Manga madura versus likes no Instagram


Em 2011, ganhei uma bolsa para passar três meses na Índia. Eu estava trabalhando no rascunho de um livro e precisava de tempo para me dedicar exclusivamente a isso. Fui parar na Fundação Sanskriti, um lugar incrível, em Nova Déli, onde funcionam três museus e dez estúdios de artistas.
Logo que cheguei, recebi um pendrive de acesso à internet e estava feliz da vida por ter conexão ilimitada. Até que apareci para o primeiro almoço coletivo e descobri que não pegava muito bem essa história de se conectar à internet. Afinal, pensavam meus companheiros de residência, estávamos na Índia e, ali, a pessoa deve querer se desligar do mundo.

Diante disso, tive uma pequena crise e me perguntei se estava contaminando uma oportunidade de experiência autêntica por falar no skype com minha família, compartilhar fotos no Instagram e descobrir notícias do mundo pelo mural do Facebook. Mas, ao postar a primeira foto da Índia e bater meu recorde de likes no Instagram, deixei de lado as dúvidas.

Dessa maneira, fiz as pazes com o pendrive e me libertei da pressão de meditar. E quando precisava descansar das personagens que tomavam forma nas páginas do livro, pegava o metrô lotado e ia para Nehru Place, um centro comercial famoso por suas lojas de tecnologia. Nehru Place e suas lojas de hardware, estandes de consertos de computador e milhares de pessoas barganhando nos preços era meu lugar favorito para passar as tardes imersa na Índia - uma Índia muito diferente do ideal ocidental, mas tão genuína quanto qualquer outra.

Eu me lembrei desta história porque recebi um e-mail criticando os jovens, que passam muito tempo diante de suas telas e não sabem que "a verdadeira felicidade é comer manga madura no pé". O e-mail me fez pensar nos meus amigos da Fundação Sanskriti e em como alguns deles acreditavam que a verdadeira felicidade estava em passar as tardes meditando. Eles estavam certos? Espero que sim e torço para que estivessem investindo tempo naquilo que lhes trazia felicidade. Mas sei que eles se enganavam ao pensar que a minha felicidade estava em me desconectar.

Como cresci em Minas e passei muitas férias em sítios, conheço bem a alegria de comer manga madura no pé. Só não tenho certeza de se aquelas tardes eram mais felizes do que as que passei com meus irmãos, jogando Sonic ou Super Mario Bros. Nas minhas memórias, a felicidade está onde ela aconteceu. E é quando junto manga no pé com Super Mario Bros que minha infância parece tão sensacional.

Barbara Soalheiro

29 de dez de 2014

A Arte de Pensar Claramente

Que o ser humano não é completamente racional não é novidade para ninguém. Mas o surpreendente é que cometemos equívocos de pensamento mesmo quando acreditamos que estamos usando a lógica.
Essas escorregadas são a matéria-prima do livro A Arte de Pensar Claramente, escrito por Rolf Dobelli, ex-executivo do grupo suíço de aviação Swissair, cofundador da empresa Getabstract, especializada em resumos de livros, e criador do Zurich Minds, organização sem fins lucrativos que visa discutir novas ideias nos campos da ciência, arte e negócios.
Partindo de episódios cotidianos, pesquisas científicas e estudos psicológicos, o autor mostra que, ao usar o senso comum, as pessoas cometem erros de decisão sem nem mesmo perceber.
Para melhorar o raciocínio lógico e a tomada de decisões, Rolf nada contra a corrente (inclusive de uma de suas empresas) e afirma que é necessário aumentar o contato com textos longos — dos livros, principalmente. “Sou contra notícias superficiais, não leio jornal e não me faz falta”, diz o autor. “Além de nos dar uma noção equivocada dos riscos, as notícias curtas nos fazem acreditar que entendemos o mundo, e o fato é que não entendemos.”
A seguir, descubra quais são os dez erros de raciocínio mais recorrentes, de acordo com Rolf, e saiba o que fazer para não cometê-los.
Como se proteger de deslizes na hora de fazer escolhas
1 - Ter excesso de confiança 
O conhecimento e a capacidade de prognosticar costumam ser superestimados pelas pessoas. A maneira mais comum para testar o chamado efeito de excesso de confiança, abordado pela primeira vez pelos pesquisadores Marc Alpert e Howard Raiffa, era por meio de jogos de adivinhação, perguntando às pessoas quanto estavam seguras em relação a uma opinião específica ou às respostas que davam.
Elas erravam muito mais do que acreditavam — ainda mais se fossem especialistas. O ceticismo é a arma contra essa armadilha. Duvidar das próprias projeções e pensar em cenários pessimistas é importante para decidir melhor. 
2- Iludir-se com a fama
Sofremos a ilusão do corpo de nadador. A expressão é de Nassim Taleb, autor de A Lógica do Cisne Negro. Ele decidiu nadar duas vezes por semana com a ilusão de que ficaria com a silhueta semelhante à dos profissionais.
Mas notou que os atletas não têm esse físico por ser bons nadadores: nadam bem porque têm corpo adaptável ao esporte. O mesmo pode ser aplicado à Universidade Harvard.
Muitos profissionais bem-sucedidos estudaram lá. Isso significa que é uma boa escola? Não. Apenas que recruta os melhores alunos. Para qualquer projeto que exija esforço, analise seu perfil e seja bastante sincero antes de pular na piscina. 
3 - Acreditar na unanimidade
Em 1950, o psicólogo Solomon Ash comprovou como a pressão do grupo desvirtua o bom senso. Uma pessoa avaliava o tamanho de algumas linhas.
Quando estava sozinha, costumava acertar. Mas, quando dividia a sala com um ator que respondia errado de propósito, tinha mais propensão a errar. Em 30% dos casos, a pessoa avaliada creditava a resposta equivocada. É uma fragilidade que requer atenção: desconfie das unanimidades.
4 - Só enxergar os sucessos 
O chamado “viés de sobrevivência” é, de acordo com o autor, o fato de que os seres humanos superestimam sistematicamente a probabilidade de sucesso.
Como o sucesso produz maior visibilidade do que o fracasso, tendemos a olhar mais para as histórias que deram certo e menos para projetos, investimentos e carreiras que não decolaram.
Um escritor de sucesso, por exemplo, é um em meio a centenas de autores que nunca conseguiram publicar um livro. A maneira correta de encarar a realidade é conhecer projetos, empresas e produtos que deram errado.  
5 - Sentir medo das autoridades
É comum acreditar que desobedecer às autoridades pode ser perigoso. Mas, para Rolf, os líderes também erram. O que não pode ser feito é levar o pensamento a um nível inferior para não contrariar o chefe ou por temê-lo.
Isso faz com que as pessoas obedeçam a ordens esdrúxulas. Mantenha-se crítico e desafie quem, teoricamente, sabe mais. Isso aumenta a liberdade e a autoconfiança.
6 - Achar que, se não aconteceu, nunca vai acontecer
Esse pensamento é chamado de “viés de disponibilidade” e ocorre, por exemplo, quando alguém pensa que, se conhece uma pessoa que sempre fumou e morreu aos 100 anos, o cigarro não é tão prejudicial.
É um engano perigoso, pois cria um falso mapa de riscos mental. Foge disso quem convive com pessoas que têm opiniões e estilos de vida diferentes: a diversidade funciona como um escudo.
7 - Ficar preso à reciprocidade
A reciprocidade se resume a ajudar o outro porque ele o ajudou. O cientista Robert Cialdini, que pesquisou o assunto, constatou que o ser humano não gosta de se sentir culpado.
Por isso, fica pressionado a retribuir e pode misturar as relações, como favorecer um cliente que ofereceu ingressos para o futebol. A melhor estratégia é recusar presentes e favores. 
8 - Pensar que muito esforço significa bons resultados
Quando alguém dedica muita energia a uma tarefa, tende a superestimar os resultados. O nome disso é justificativa do esforço. Cursos de MBA usam essa estratégia deixando os alunos atarefados em excesso e tão exaustos que, no futuro, vão pensar que a qualificação foi essencial para a carreira — mesmo que não seja verdade.
Sempre que investir em algo que demandou esforço, examine friamente o resultado — e apenas o resultado.
9 - Não largar uma ideia ruim
Muitos profissionais não desistem de projetos fadados ao fracasso apenas porque já gastaram tempo demais em cima daquela ideia. É a falácia do custo irrecuperável. Isso atinge as pessoas fora do ambiente de trabalho, em planos que demandaram investimento de tempo, energia e dinheiro.
Quanto mais se gastou, maior a pressão interna para não desistir. O problema é que se anda em círculos: o projeto ruim não abre espaço para um novo projeto melhor. Na hora de continuar ou não com algo, não importa o que já se investiu, mas qual é a estimativa de futuro.
10 - Sentir-se tranquilo porque está bem informado 
Há hoje a sensação de que, quanto mais informação disponível, melhores as decisões tomadas. Segundo Rolf, isso é falso. O argumento do autor é o seguinte: se as centenas de milhares de economistas do mundo com pilhas de relatórios, estudos e levantamentos não conseguiram prever a crise financeira de 2008 que assolou os Estados Unidos e a Europa, informação não é tudo.
Moral da história: não se sinta seguro porque está com todos os dados em mãos nem perca tempo tentando reuni-los. Preste atenção nos fatos presentes na hora de tomar uma decisão. 
Dalen Jacomino

24 de dez de 2014

Evocação de Natal

O maior de todos os conquistadores, na face da Terra, conhecia, de antemão, as dificuldades do campo em que lhe cabia operar.

Estava certo de que entre as criaturas humanas não encontraria lugar para nascer, à vista do egoísmo que lhes trancava os corações; no entanto, buscou-as, espontâneo, asilando-se no casebre dos animais.

Sabia que os doutores da Lei ouvi-lo-iam indiferentes, com respeito aos ensinamentos da vida eterna de que se fazia portador; contudo, entregou-lhes, confiante, a Divina Palavra.

Não desconhecia que contava simplesmente com homens frágeis e iletrados para a divulgação dos princípios redentores que lhe vibravam na plataforma sublime, e abraçou-os, tais quais eram.

Reconhecia que as tribunas da glória cultural de seu tempo se lhe mantinham cerradas, mas transmitiu as boas novas do Reino da Luz à multidão dos necessitados, inscrevendo-as na alma do povo.

Não ignorava que o mal lhe agrediria as mãos generosas pelo bem que espalhava; entretanto, não deixou de suportar a ingratidão e a crueldade, com brandura e entendimento.

Permanecia convicto de que as noções de verdade e amor que veiculava levantariam contra ele as mantilhas da perseguição e do ódio; todavia, não desertou do apostolado, aceitando, sem queixa, o suplício da cruz com que lhe sufocavam a voz.

É por isso que o Natal não é apenas a promessa da fraternidade e da paz que se renova alegremente entre os homens, mas, acima de tudo, é a reiterada mensagem do Cristo que nos induz a servir sempre, compreendendo que o mundo pode mostrar deficiências e imperfeições, trevas e chagas, mas que é nosso dever amá-lo e ajudá-lo mesmo assim.
Memei

Natal

E inútil que se apresente Jesus como filósofo do mundo.

O Mestre não era um simples reformador.
Nem a sua vida constituiu um fato que só alcançaria significação depois de seus feitos inesquecíveis, culminantes na cruz.

Jesus Cristo era o esperado.
Pela sua vinda, numerosas gerações choraram e sofreram.
A chegada do Mestre foi a Benção
Os que desejavam caminhar para Deus alcançavam a Porta.
O Velho Testamento está cheio de esperanças no Messias.

O Evangelho de Lucas refere-se a um homem chamado Simeão, que vivia esperando a consolação de Israel. Homem justo e inspirado pelas forças do Céu, vendo a Divina Criança, no Templo, tomou-a nos braços, louvou ao Altíssimo e exclamou: Agora, Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra."

Havia surgido a consolação.
Ninguém estaria deserdado.
Deus repartira seu coração com os filhos da Terra.
E por isso que o Natal é a festa de lágrimas da Alegria.
Chico Xavier - Emmanuel

Aspectos emocionais do envelhecimento

Ao nascer o ser humano está completamente indefeso e desamparado. 


Necessita completamente dos cuidados de um outro ser, da mãe para cuidá-lo, alimentá-lo e ir aos poucos apresentando-lhe o mundo. 


 Podemos dizer que é através do amor que recebe da mãe, de seu investimento e de sua dedicação que a criança vai descobrindo as possibilidades de interagir com o mundo, e vai aprendendo e desenvolvendo habilidades. A infância é o período em que o ser humano mais se desenvolve, mais aprende e a etapa responsável pelos modelos de relacionamento que o adulto vai experimentar. 


Na infância a criança experimenta nas brincadeiras, nos jogos sua relação com o mundo, suas dúvidas e questões fundamentais que acompanham o ser humano por toda vida: quem sou eu? O que sou para o outro? De onde vim? Para onde vou? A infância permanece o paraíso perdido para onde sempre se volta nos momentos difíceis, nos momentos de perda e que fica cada vez mais perto com o avançar da idade, como nos mostra de maneira tocante o poema de Manuel Bandeira


Depois vem a adolescência, a vida adulta, a maturidade, a velhice e por fim a morte. Ângela Mucida em seu livro O sujeito não envelhece explora a questão do sujeito diante da velhice. Aponta que falar da velhice suscita sempre um certo desconforto. Talvez decorra da conjunção entre idade cronológica e a exposição à morte. Quanto mais se vive mais se aproxima da morte. Com o passar do tempo a vivência de fragilidade do corpo se acentua bem como aumentam na velhice as experiências de perdas. Quem viveu muito experimentou também muitos lutos: pais, parentes queridos, amigos, trabalho, bens materiais. Falar da velhice incomoda porque expõe o limite ao qual todos nós somos submetidos. Nossa vida é transitória e tem um tempo para existir. 


Velhice e longevidade 
A questão do envelhecimento e da longevidade humana é algo que já se fazia presente na mais remota história. Seja na busca pela fórmula da eterna juventude associada à felicidade plena, ou como preocupação constante do homem em todos os tempos. A imortalidade e a eterna juventude são sonhos míticos da espécie humana. A procura da fonte da juventude é assunto desde os mais antigos escritos. Por isso falar da velhice incomoda. 


E também desacomoda muitos restos. Quantos projetos e sonhos foram relegados, deixados à espera de um tempo propício e de repente se percebe que talvez não possam mais ser retomados. Falar da velhice desacomoda a ideia de imutabilidade, desacomoda os ideais e as certezas nas quais todo sujeito se reconhece. A velhice é um momento marcado pela vivência da finitude, em que a fantasia de eternidade encontra um limite. Na juventude e idade adulta, tem-se a ilusão de um tempo indefinido para se obter o que se deseja. 


Tal ilusão altera-se com a velhice. É interessante apontar na velhice os futuros sonhados e não cumpridos e que nessa etapa perderam a possibilidade de realização. Essa constatação surge diante do encontro com o irremediável: menopausa, mudança no desempenho corporal, aposentadoria e esclarecem muitos casos de depressão na velhice. Quanto a relação da velhice com a aposentadoria é interessante ressaltar que a aposentadoria foi fixada, na década de 40, arbitrariamente, em 55 anos (a expectativa de vida naquela época era de 62 anos). 


O tempo desse repouso merecido não era longo. Aposentadoria e morte estavam perto de coincidir. De pouco tempo para cá, sabe-se que, biologicamente, o homem pode viver até os 100 anos, até mais e morrer em boa saúde. Maud Mannoni escreve no livro O nomeável e o inominável: “Quando se fica velho? Se é a brusca deterioração do estado físico que faz o sujeito realizar a dependência em que se vê projetado, este infortúnio ( a doença) que exclui toda esperança pode ocorrer em qualquer idade. A repercussão não será a mesma aos 20 anos e depois dos 80. 


A condenação à morte está lá, presente, desde o nascimento. Acaba-se por esquecê-la. A velhice nada tem a ver com a idade cronológica. É um estado de espírito. Existem velhos de 20 anos, jovens de 90. É uma questão de generosidade de coração, mas também de guardar em si uma certa dose de cumplicidade com a criança que se foi.” No nosso inconsciente temos dificuldade de lidar com a velhice. O velho é sempre o outro no qual nós não nos reconhecemos. 


O sujeito vê o seu envelhecimento pelo olhar do Outro, ou ele se vê velho pelo olhar que o Outro lhe devolve. Não existe para o sujeito algo palpável sinalizando sua velhice, pois “velho” é sempre o Outro (Outro com maiúscula, simbolizando a cultura, o conjunto dos outros semelhantes). É possível justapor a tese de um sujeito que não envelhece e desconhece o tempo – o atemporal do inconsciente - com aquilo que envelhece e se modifica no decurso do tempo e que impõe ao sujeito a criação de novas formas de atualizar seu passado, e enlaçá-lo ao futuro sempre possível de ser preparado e antecipado ainda que a relação do idoso com o tempo se caracterize por um encurtamento do futuro. Ao contrário dos jovens, o sujeito idoso tem uma longa vida às suas costas e esperanças limitadas à sua frente. 


Daí se percebe em alguns a atenção mais concentrada no passado e uma notável desesperança nos projetos futuros. Vemos muitos idosos atualizarem seu passado pelas lembranças: contam e recontam passagens nas quais se sentem escrevendo a sua história. Reviver o passado é uma via importante pela qual sustentam os investimentos na vida. O problema é quando se torna a única via de realização, cortando os investimentos no presente. O equilíbrio psíquico do idoso depende da capacidade de conjunção de sua existência passada com o presente considerando as condições e possibilidades que o cercam. 


Envelhecimento 
O envelhecimento, em termos gerais, é definido como um processo que acompanha o organismo do nascimento até a morte. A velhice é um momento específico dentro desse processo marcado pelo modificação do funcionamento de diversas funções, bem como intensificando algumas dificuldades, não implicando no entanto, em acréscimo de doenças. A gerontologia distingue senescência e senilidade. Senescência é um processo fisiológico inelutável do organismo que acarreta modificações precisas associadas a uma redução de todas as funções sem provocar doenças. Senilidade refere-se a patologias do envelhecimento. 


Há modificações que se aceleram a partir de determinada idade e que podem se expressar sob diferentes maneiras nas funções do organismo ( respiratória, circulatória, etc) bem como na imagem: rugas, cabelos brancos, flacidez, etc. Convém ressaltar que muitas doenças tidas como próprias da velhice como Alzheimer, não são efetivamente doenças que prevaleçam em idosos. Alguns autores assinalam que a dificuldade encontrada em realizar o luto das perdas, a dificuldade com a imagem na qual não se reconhece, o isolamento e a restrição dos laços sociais, a falta de investimento libidinal podem ser fatores importantes na constituição do Alzheimer. 


O sujeito precipita-se numa espécie de autodestruição que toma, paulatinamente, a forma de uma morte por meio de infindáveis doenças. O sujeito escolhe, ainda que sem o saber, uma morte em vida, paradoxalmente por temor da morte. Velhice e cultura A velhice é determinada em cada época e em cada cultura de forma diferenciada. As palavras que usamos para referi-la provocam efeitos sobre os sujeitos. A velhice é portanto um efeito de nossa fala. A velhice enquanto categoria social não diz nada a respeito de cada sujeito. Quando começamos a envelhecer? Há consenso de que a idade cronológica é muito imprecisa para se determinar a velhice. 


Em algumas categorias esportivas, por exemplo, se fala de velhice aos 30 anos. Não se pode, todavia desconsiderar o tempo que passa. As possibilidades de investir em projetos, em objetos, não são as mesmas com o passar do tempo. Muitos dos projetos tornam-se inviáveis a partir de determinada idade e o luto do que poderia ter sido ou do que se foi tem de ser realizado, impondo novas respostas ao sujeito. Entra-se na velhice, idéia compartilhada por muitos autores, quando se perde o desejo.Se a idade cronológica, as marcas corporais, as doenças são demasiadas imprecisas para se definir a velhice, não se pode desconhecer que o tempo impõe seus efeitos. 


A velhice provoca uma alteração importante no narcisismo, na auto-estima e portanto, um sentimento de desvalorização. Algumas sociedades segregam os idosos, aumentando o sentimento de desvalorização. Há, entretanto outras culturas em que os idosos têm um lugar social importante. Nas sociedades pré-modernas os idosos gozavam de prestígio e eram respeitados pelos demais em sua autoridade e sabedoria. Eram responsáveis pela transmissão da experiência acumulada, das tradições culturais. A sabedoria crescia com o passar dos anos e os mais velhos exerciam ainda o papel religioso, pois faziam a mediação entre o mundo dos vivos e dos mortos. 


Com o processo de modernização, a industrialização trouxe o afastamento dos velhos do mundo produtivo cujo saber não eram mais adequado às exigências do mundo industrial que se voltava para o jovem escolarizado. Onde existe, porém uma suposição de saber do idoso, existe um tratamento respeitoso do mesmo. O Papa João Paulo II, no ano de 1999 (Ano Internacional do Idoso), escreveu uma carta aos anciãos, afirmando que estes ajudam a contemplar os acontecimentos terrenos com mais sabedoria, porque as vicissitudes os tornaram mais experientes e amadurecidos. Eles são guardiões da memória coletiva e, por isso, intérpretes privilegiados daquele conjunto de ideais e valores humanos que mantêm e guiam a convivência social. 


Lidando com o envelhecimento 
Cada sujeito envelhece a seu modo, com as singularidades que carrega e que acabam ficando mais marcantes com o transcurso do tempo. Se os acontecimentos existenciais eram sentidos com dificuldade ou sofrimento na idade adulta ou jovem, quando as condições de vida eram mais satisfatórias e atraentes e a própria fisiologia era mais favorável, no envelhecimento, quando as circunstâncias concorrem naturalmente para um decréscimo na qualidade geral de vida, a existência será mais conflituosa. Quando a velhice vem acompanhada de doenças, de limitações, É o momento em que aparece o grave problema de comprometimento de uma existência autônoma. 


O sujeito já não se pode cuidar, não pode portanto ter uma vida independente. O idoso doente, ainda que não fale, percebe nos cuidados, a realidade que lhe é propiciada, e que faz surgir nele uma dimensão tranquilizadora ou de desamparo. Todos os “pequenos nadas” que dão à vida seu sal constituem uma dimensão essencial: um olhar, uma palavra amiga, um gesto de carinho, uma pequena atenção. O que mantém vivo, “com vida”, um idoso fragilizado é a afeição, a ternura, o aconchego no qual possa haver a presença de alguém que o reconheça, que o escute, que o acolha. 


O cuidar vai além do atendimento às necessidades básicas do sujeito no momento em que ele está fragilizado, é um exercício de respeito, de amor e compaixão Dalai Lama, líder espiritual dos budistas, ganhador do Premio Nobel da Paz, define a compaixão como uma atitude mental baseada no desejo de que os outros se livrem do sofrimento, e que está associada a uma sensação de compromisso, responsabilidade e respeito com o outro. Essa questão é tratada com sensibilidade no livro A Arte da Felicidade (página 143). 


Nesse livro são citadas pesquisas que comprovam os benefícios da compaixão sobretudo para quem a pratica. Vencendo o medo de envelhecer Todos envelheceremos. Apenas aqueles que foram retirados prematuramente da vida não o farão. O medo de envelhecer está presente para todos, como a dor de existir. Mas podemos lidar melhor com ele, podemos aprender. Experimentando a serenidade interior com o que temos, a gratidão pelas coisas que nos cercam e nos propiciam alegria e bem-estar, valorizando as emoções positivas que são benéficas. Em suma, vivenciando a atitude infantil de contentamento, de desejo, que traz um sabor novo à vida.
Helena Maria Galvão Albino, psicóloga clínica

Versos de Natal


Espelho, amigo verdadeiro, 
Tu refletes as minhas rugas, 
Os meus cabelos brancos, 
Os meus olhos míopes e cansados. 
Espelho, amigo verdadeiro, 
Mestre do realismo exato e minucioso, 
Obrigado, obrigado! 
Mas se fosses mágico, 
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
descobririas o menino que sustenta esse homem, 
O menino que não quer morrer, 
Que não morrerá senão comigo, 
O menino que todos os anos na véspera do Natal,
pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta. 
Manuel Bandeira

19 de dez de 2014

17 de dez de 2014

Estudo mostra para onde vai a gordura quando se tem perda de peso

A procura pelo corpo perfeito tem feito com que muitas pessoas percam peso sem se preocupar com os riscos à saúde. Mas, quando se perde peso, para onde vai a gordura perdida? Segundo um estudo da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW, na sigla em inglês), na Austrália, nem mesmo alguns profissionais de saúde sabem essa resposta.
O principal autor do estudo, Ruben Meerman, um físico e apresentador de TV, diz que a maior parte da massa é expirada como dióxido de carbono.
Os autores mostram que perder 10 quilos de gordura requer uma inalação de 29 quilos de oxigênio. Esse processo metabólico produz 28 quilos de dióxido de carbono e 11 quilos de água.
Mais de 50% dos 150 médicos, nutricionistas e personal trainers que participaram da pesquisa pensaram que a gordura fosse convertida em energia ou calor. Meerman diz que isso viola a Lei da Conservação das Massas. Suspeitamos que este equívoco é causado pelo mantra da energia que entra e que sai em torno da perda de peso.
Perder peso não causa aquecimento global - Alguns entrevistados pensavam que os metabolitos de gordura fossem excretados nas fezes ou convertidos em músculo. O estudo aponta que os equívocos revelam desconhecimento surpreendente sobre aspectos básicos de como funciona o corpo humano.

Os autores ainda ressaltam duas perguntas frequentes.

1- Simplesmente respirar mais pode causar a perda de peso? 
A resposta é não. Respirar mais do que o exigido pela taxa metabólica de uma pessoa leva a hiperventilação, o que pode resultar em tontura, palpitações e perda de consciência.
2- A perda de peso pode causar o aquecimento global? 
Isso revela equívocos preocupantes sobre o aquecimento global, que é causado pelo desbloqueio de átomos de carbono antigos presos no subsolo em organismos fossilizados. Os átomos de carbono que seres humanos exalam estão retornando para a atmosfera depois de apenas alguns meses ou anos presos em alimentos que foram feitos por uma planta.
Meerman recomenda que estes conceitos básicos sejam incluídos no currículo do ensino secundário e nos cursos de bioquímica para corrigir equívocos generalizados sobre a perda de peso entre os leigos e profissionais de saúde.

5 de dez de 2014

A carta

Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
"Deus te abençoe", e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

Carlos Drummond de Andrade


3 de dez de 2014

Anna Freud - doodle


A psicanalista austríaca Anna Freud, filha de Sigmund Freud (considerado o "criador" da psicanálise), é a homenageada do doodle do Google nesta quarta-feira, data que marca seu 119° aniversário.

Anna, filha caçula de Sigmund e Martha Freud, nasceu no dia 3 de dezembro de 1895 em Viena. Ela iniciou a vida profissional como professora, lecionou até 1920 e, em seguida, passou a aplicar a psicanálise no ensino infantil. Seu primeiro livro, O Tratamento Psicanalítico de Crianças, foi lançado em 1927. 

No final dos anos 1930, a família teve que fugir da Áustria, dominada pelos nazistas, e refugiou-se em Londres. Após o fim da guerra e a morte do pai (que faleceu vítima de um câncer em 1939), Anna abriu uma clínica, a The Hampstead War Nursery, onde cuidou de mais de 80 crianças. Anos depois ainda criou um curso de formação de analistas de crianças e fundou mais uma clínica, a The Anna Freud Center

15 Ensinamentos do Caminho de Santiago


O caminho de Santiago entrou na minha vida há alguns anos, quando morei em Pamplona, primeira grande cidade espanhola pela qual passa o trajeto de peregrinação mais famoso do mundo. Existem muitas rotas que levam a Santiago - o mais conhecido é o francês, que começa, oficialmente, em Saint Jean Pied de Port, na França. Mas peregrinos não gostam de determinações oficiais. Isso porque consideram que essa é uma jornada individual, que pode começar onde você desejar, ser feita como você decidir e no tempo que necessitar. Não há certo ou errado. Há apenas a sua experiência e um desejo implícito de chegar diferente ao final do percurso.

No meu caso, não houve grandes revelações, ou sensações arrebatadoras. Cheguei até a pensar que, apesar da viagem inesquecível, nenhuma transformação ocorreria.
Mas, sem nos darmos conta, a caminhada diária de cerca de oito horas nos transporta a uma realidade paralela, em que nossa jornada é construída do zero. Onde ninguém sabe quem você é, o que faz, nem mesmo como se veste. Um pé atrás do outro, um dia atrás do outro, poucas decisões a serem feitas - acordar, caminhar, comer, dormir. E, aos poucos, seu corpo e sua cabeça entram em uma sintonia inédita, que muda seu olhar, sua resistência, sua percepção dos espaços e do tempo.
Ao terminar o percurso e olhar para trás, vi que o caminho é mesmo uma metáfora da vida. Dos vários ensinamentos, listei apenas aqueles que, até o momento, consegui decifrar.

Generosidade aquece a vida
Peregrinos são, por definição, amáveis e gentis. Sempre que passam, desejam "Buen camino!". Sempre que encontram alguém cuidando dos pés, oferecem ajuda. Sempre abrem um sorriso para quem chega para dividir a mesa. Em cinco minutos, você faz amigos capazes de te ceder uma cama, oferecer os seus últimos anti-inflamatórios, diminuir o passo para te acompanhar por perceber que o dia está sendo duro para você. Acredite: você faria o mesmo. No caminho, é a predisposição em ser generosos que nos cerca de amigos e nos faz sentir queridos, protegidos e sempre acompanhados.

A gente se adapta, sempre
Eu achava que não iria caminhar sob chuva, que não iria suportar os albergues, que sentiria dor nas costas por carregar uma mochila de 6 kg durante todo o dia. Mas vi que a gente se adapta. Ao calor, ao frio, à chuva, ao vento. A gente se adapta a uma nova comida, a uma cama diferente a cada noite, aos roncos dos peregrinos cansados. A gente se adapta às pedras do caminho, ao asfalto quente, à trilha com barro encharcado. O que parecia difícil no começo logo vira uma rotina fácil de ser manejada.

A cabeça está no comando
Nos dias em que a minha meta era caminhar 20 km, os últimos quilômetros eram muito difíceis. Nos dias em que teria de caminhar 30 km, 20 eram fichinha e os últimos cinco ficavam intermináveis. Cheguei a caminhar 43 km em um dia, e adivinha? Os 30 primeiros passaram sem eu ver, e só nos últimos comecei a sentir sinais de cansaço. Não importa a quantidade: é a cabeça quem determina os limites. O corpo é forte e só chia quando ela avisa: "ei, já está quase acabando. Pode relaxar."

O corpo fala
Você quer estar bem, pés sem bolhas, pernas fortes. O melhor a fazer é cuidar para detectar qualquer sinal de problema antes que ele dê as caras deverdade. O corpo dá todas as pistas: uma sensibilidade diferente nos dedos é sinal de que uma bolha vai aparecer, uma dorzinha de leve no tornozelo pode indicar uma tendinite, muito tempo sem ir ao banheiro é sintoma dedesidratação. Quem insiste em ignorar essas mensagens tem constantemente a sua caminhada interrompida. Os que escutam e atendem a esses chamados têm um caminho bem mais fácil e aumentam consideravelmente as chances dechegar bem até o final.

A beleza está por toda parte
Algumas paisagens são obviamente bonitas: montanhas verdes sob céu azul, um rio correndo entre campos floridos. Essa paisagem existe no caminho. Mas há também os dias de chuva, vilas abandonadas, campos áridos, planícies infinitas. E todas elas dão belíssimas fotos e são capazes de emocionar. Basta procurar o ângulo certo.

Depois da tempestade, vem a bonança
Houve dias de muito sol, de céu claro. E houve dias de chuva. Nesses dias, vestia minha capa impermeável e colocava música (estratégia reservada somente para os momentos mais desafiadores). Aí eu apenas andava, sem pensar no destino. Não havia nada que pudesse ser feito: era aceitar e esperar. Podia levar algumas horas ou alguns dias, mas a chuva sempre passava. E as más lembranças eram totalmente apagadas por um novo dia desol.

O caminho mais fácil nunca é o mais bonito
Às vezes o caminho se bifurca e você pode optar por seguir por uma estrada mais curta ou pegar uma trilha mais longa e montanhosa. Quem vai pela estrada sempre chega antes e mais descansado. Quem vai pela trilha chega tarde e esgotado. Mas sempre com as melhores histórias, as fotos mais lindas e uma sensação inigualável de ter superado um desafio.

As suas escolhas constroem o seu caminho
Havia algumas escolhas a se fazer: de onde vou começar? Vou dormir em albergues ou pensões? Andar em grupo ou seguir sozinha? Sair cedo para aproveitar a cidade de destino ou ir sem pressa para chegar, aproveitando as pequenas surpresas do percurso? O caminho é feito de escolhas. Nem mais certas nem mais erradas. Mas determinantes e, muitas vezes, irreversíveis. Elas fazem com que o seu caminho seja só seu.

Um pouco de planejamento estrutura. O excesso aprisiona
Era importante começar o dia sabendo em que cidade eu pretendia dormir. Foi fundamental estudar o percurso para saber se precisava levar mais água ou algum lanche. Por outro lado, sair de casa com todas as paradas decididas, hotéis reservados e data de chegada inflexível quase tornou minha jornada burocrática. Como planejar tanto alguma coisa que você não conhece? É preciso deixar espaço para o improviso - ele pode mudar nossos planos para melhor.

Despedir-se
Faz parte da vida a gente conhece pessoas incríveis pelo caminho, com quem compartilha momentos inesquecíveis. Mas sempre chega a hora de dizer adeus - depois de um dia, uma semana ou um mês. É preciso ter consciência disso, não para evitar o apego, mas para desfrutar com intensidade cada momento que vai passar com elas. E quando for a hora de se despedir, é preciso deixar claro o quanto elas foram importantes para o seu caminho. Sua felicidade não pode depender de ninguém, mas é bom saber que com algumas pessoas você é ainda mais feliz.

Esteja sempre atento
Aos sinais o caminho é todo marcado por sinais: quem está atento dificilmente se perde. Em uma bifurcação, bastava parar, olhar atentamente e buscar a seta amarela. Ela sempre estava ali, mostrando por onde seguir. A vida também é assim, cheia de sinais. Mas é preciso estar pronto para decifrá-los (de que serve uma seta amarela na sua frente se você não sabe o que ela significa?).

Você carrega o peso dos seus medos
Para ter um caminho tranquilo, é preciso levar uma mochila leve. E o que deixa a mochila pesada são nossos medos. Medo de ficar doente, de passar frio, deter fome. E aí a mochila se enche de itens desnecessários. Há farmácias, lojas, vendas pelo caminho. Encher a mochila é sofrer por antecipação e tornar a jornada muito mais penosa.

Pessoas são a essência de tudo
Terminado o caminho, são muitas as lembranças. E elas estão cheias derostos. Às vezes me esqueço do nome de um vilarejo, mas nunca de quem me acompanhou naquele dia. Posso não me lembrar do que jantei em um restaurante, mas sempre me lembro de quem jantou comigo. Os lugares foram melhores ou piores de acordo com a companhia do dia. Cerque-se das pessoas certas e tudo estará bem.

Somos todos iguais
Na mochila cabem poucas coisas - só as essenciais. Todos usam as mesmas vestimentas, dormem em lugares simples, comem nos pequenos bares que encontram pelo caminho. Ali, a gente se despe de qualquer vaidade, perde a profissão, deixa para trás o passado. Não é possível fazer qualquer distinção entre classes sociais, raças ou credos. No caminho, resumidos à nossa essência, todos somos iguais.

O importante não é chegar, é caminhar
Chegar a Santiago não é a melhor parte, nem o dia mais importante da viagem: é só uma consequência inevitável. O desfecho do qual não é possível fugir (e quem não escolheria caminhar mais um pouco?). Mais importante que chegar é aproveitar cada dia do caminho. A nostalgia de chegar ao final é inevitável. Ela pode gerar uma tristeza imensa por representar o fim de todas as possibilidades ou ser compensada pela sensação plena de ter vivido intensamente.
Marina Bessa
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