08 Fevereiro 2010

Refrigerante aumenta risco de câncer no pâncreas


Um estudo realizado pela Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, afirma que beber mais que duas latinhas de refrigerante por semana pode causar câncer de pâncreas. A pesquisa foi divulgada nesta segunda-feira (8) na revista Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention.

De acordo Marcos Pereira, que liderou o estudo, os altos níveis de açúcar encontrados em refrigerantes podem aumentar o nível de insulina no organismo, o que, para ele, contribui para o crescimento de células de câncer no pâncreas. A insulina, que ajuda o organismo a metabolizar o açúcar, é produzida no pâncreas.

Alguns pesquisadores, como Pereira, acreditam que a ingestão de açúcar pode favorecer o aparecimento do câncer, embora já tenha sido provado que a tese é contraditória.

O estudo foi realizado com 60.524 homens e mulheres em Cingapura. Eles foram acompanhados por 14 anos. Durante esse período, 140 dos voluntários desenvolveram câncer no pâncreas. Aqueles que bebiam duas ou mais refrigerantes por semana apresentaram um risco mais elevado (87%) de desenvolver a doença.

Pereira disse acreditar que as conclusões se aplicam a outros lugares do mundo. "Cingapura é um país com um sistema de saúde excelente. Os passatempos favoritos da população são comer e fazer compras. Dessa maneira, acredito que os resultados podem ser aplicáveis a outros países ocidentais", diz o pesquisador.
Para Susan Mayne, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, é preciso ter cautela com os resultados. "Embora esse estudo aponte esse risco, a conclusão foi baseada em um número relativamente pequeno de casos. Não fica claro se isso é uma associação causal ou não", diz.

“O consumo de refrigerantes em Cingapura foi associado a diversos outros comportamentos nocivos para a saúde, como o tabagismo e o consumo de carne vermelha", diz Susan. Outras pesquisas relacionaram o câncer de pâncreas à carne vermelha torrada.

O estudo também é questionado por Ang Peng Tiam, diretor médico do Parkway Cancer Center, em Cingapura. "Se, de fato, o açúcar é a causa de câncer de pâncreas, então esse risco deveria ser observado em muitas outras dietas, como, por exemplo, nas pessoas que comem uma grande quantidade de arroz ou doces”, diz.

“Eu bebo mais que duas latas de refrigerante por semana e não vou mudar o meu hábito apenas por causa desse relatório”, afirmou Tiam.

O câncer de pâncreas é uma das formas mais mortais da doença.Estima-se que existam 230 mil casos no mundo todo. Somente nos Estados Unidos, 37.680 pessoas foram diagnosticadas com câncer de pâncreas no ano passado. 34.290 morreram da doença.

De acordo com a American Cancer Society, a taxa de cinco anos de sobrevida para pacientes com câncer de pâncreas é de cerca de 5 por cento.

Revista Época

Um frenesi chamado Avatar


Li recentemente que trombadinhas do Rio de Janeiro estão se escondendo nas árvores em volta da Lagoa Rodrigo de Freitas, esperando a hora de dar o bote em pedestres como se fossem guerreiros voadores de Avatar. Duvido que os meliantes do Rio tenham se inspirado no Cineplex, onde o ingresso para a sessão 3D do blockbuster da hora chega a R$ 25. Mas não me surpreenderia se alguém acusasse James Cameron de plagiar os cariocas.

Ninguém discute que o badalado diretor americano tenha criado um genuíno frenesi global com seu épico, que acaba de colher nove indicações ao Oscar (inclusive de melhor filme e melhor direção) e teria demolido todos os recordes da história do cinema. Até o início deste mês a bilheteria de Avatar já ultrapassara a barreira de US$ 2 bilhões, faturando em 45 dias o que a economia de, digamos, Cabo Verde produziu durante todo o ano passado (existem controvérsias sobre o recordista, pois há quem garanta que o campeão de todos os tempos é ...E o Vento Levou, de 1937, cuja bilheteria, corrigida pela inflação, beira os US$ 1,5 bilhão apenas nos Estados Unidos, para US$ 602 milhões de Avatar nesse mercado). Mas, segundo a patrulha, é tudo pilhagem. Cameron e sua máquina de Hollywood teriam afanado enredos, personagens e até a ideia-mãe de Avatar de obras as mais diversas.

Entre os surrupiados, um romance de ficção científica de 1957 (Call me Joe), uma revista em quadrinhos da década de 80 (Timespirits) e o filme Pocahontas, da Disney. Mas as maiores vítimas da cleptofilmografia são os irmãos russos Strugatsky, autores de Noon Universe, um seriado de ficção científica dos anos 90 ambientado num universo chamado Pandora, que, como o Pandora de Avatar, é coberto por florestas tropicais e habitado pelos humanoides Naves, suspeitamente parecidos com os superdotados Na"Vis de Cameron.

Até aí, nenhuma surpresa. Em tempos de ciberdemocracia, você é o que você cata pelo Google e que se dane o direito autoral. Porém, o mais marcante de Avatar não é quanto dos seus 163 minutos se deve à criatividade alheia, senão o que ele conseguiu provocar quando as luzes do cinema acendem. Por que tanto barulho sobre uma fantasia em celuloide e qual a explicação para essa fita ter mexido tanto e com todos?

Pela inveja, sem dúvida. O enredo de Avatar pode ser dos mais simplórios, mas, de frente para o telão, com óculos 3D e imersão em Dolby Surround Sound, toda sensação se multiplica. Se a marca do cinema é sua capacidade de transportar o espectador para outra realidade, Avatar é uma nave espacial. "É o filme mais lindo que vi em muitos anos", suspirou o veterano crítico David Denby, de The New Yorker.

Pode ser o mais polêmico, também. Estudiosos de antropologia, cientistas políticos e os polemistas de plantão travam debates acalorados na imprensa e na web sobre o conteúdo político do filme e sua "mensagem". A extrema direita dos Estados Unidos detestou-o pelo seu suposto ranço antiamericano. Por essa versão, o ataque do sinistro Povo dos Céus a Pandora seria uma mal dissimulada invasão norte-americana ao Iraque. Pela mesma razão, o filme mereceu aplausos dos ambientalistas, ONGs e dos bolivarianos da vizinhança. Ainda outros reconhecem a força "imperialista" de Cameron como uma alegoria da Blackwater, a empresa de soldados de aluguel que ganhou manchetes e processos pela barbárie no Iraque. Evo Morales não é exatamente cinéfilo, mas após assistir a Avatar - dizem que foi apenas a terceira vez que entrara num cinema na vida - o presidente cocalero boliviano elogiou-o como "o modelo perfeito da luta contra o capitalismo e pela proteção à natureza". Logo mais, quem sabe, teremos teses, seminários e teorias para desconstruir cada tomada do efeito Avatar.

Os chineses são mais pragmáticos. Não chegaram a mudar o nome da paisagem nacional, como inicialmente foi noticiado. Mas bem que aproveitaram a onda do cinema imperialista para turbinar o turismo, tacando um apelido chamativo numa das suas montanhas mais vistosas. Assim a bela Coluna do Céu Austral também passou a ser chamada Montanha da Aleluia, em homenagem ao penhasco flutuante de Avatar. "É o orgulho da Zhangjiajie", disse Ding Yunyong, secretário de turismo da cidade , à agência Xinua.

Preocupados, talvez, com o sucesso do filme ocidental, a maior bilheteria da história da China (mais de US$ 127 milhões, segundo o website Box Office Mojo), os dirigentes culturais decidiram retirar das salas todas as versões em duas dimensões de Avatar e abrir espaço para um novo documentário nacional sobre Confúcio. A fita nacional, diferentemente do rival de Hollywood, é um hino à hierarquia que agradou à cúpula comunista e afugentou o público. Já que na China globalizada quem não tem cachorro caça telespectador com gato, as autoridades culturais se apressaram em trazer de volta ao grande público a versão light de Avatar.

Na guerra das versões sobre Avatar, ninguém ouve ninguém. Seria um alerta perspicaz sobre o perigo da ruína ecológica, ainda mais pertinente depois do fracasso da cúpula de Copenhague? Ou é apenas mais uma fábula do bom selvagem, com purpurina digital? (Se bem que Robinson Crusoe, de pele azul montando dragões alados, enobrece até o mais batido dos clichês.) As feministas se dividem. Algumas elogiam as mulheres de Avatar como as personagens mais fortes do filme, enquanto outras criticam a quase nudez das guerreiras, truque confessado pelo diretor para fisgar o público masculino (humanoide-objeto, nunca mais!). Kim Masters, comentarista da televisão pública americana, engrossou o caldo: "Cameron faz filmes para as mulheres disfarçados de filmes para homens." Avatar é racista? Os defensores de minorias afirmam que sim, já que o salvador da pátria da história é um gringo branco. Esquecem-se de que o protagonista Jake Sully também é paraplégico e vítima da guerra, outra categoria atualíssima de "exclusão social". O universo do filme é Pandora, mas aqui de fora o mundo mais parece Babel.

Que o consenso seja a primeira baixa de Avatar, tanto melhor. Há tempos que passar algumas horinhas no escuro não consegue levantar tantos brios e filosofia de botequim. "Não é o lucro nem a crítica que definem a qualidade de um filme, senão o impacto dele na vida real", declara o site de cinema MovieViral. Talvez seja esse o real sucesso de Avatar. Como diria seu criador, é o simulacro, estúpido!"
Mac Margolis

07 Fevereiro 2010

Mulheres


Se não fosse as mulheres, o homem ainda estaria agachado em uma caverna comendo carne crua.

Nós só construímos a civilização com fim de impressionar nossas namoradas.
Orson Wells
Picture by Salvador Dalí

Noite


Há tantas coisas germinando na noite, que nem sei como enumerá-las. À noite nascem as revoluções tanto as que vão triunfar como as que só se realizam em pensamento, e são quase todas.

Os revolucionários viram-se, inquietos, na cama. E também os que se converterão, pela manhã, a religiões novas. E os amorosos. Análises emocionais levadas ao extremo da tortura arrastam-se pela horas lentas da noite.

Como a noite é rica! A noite é o tempo de não dormir; é o de velar e procurar; de criar mundos.

Demétrio quis prolongar a noite obturando todas as frestas do quarto, para que não entrasse a luz. Luz não entrou. Demétrio gozou da noite plena, continuada, e todos os pensamentos lhe floresciam. Construiu sistemas filosóficos. A escuridão era propícia a teorias políticas. Nenhum crítico foi mais perspicaz do que Demétrio, na literatura e nas artes. Aquela noite era fantástica. Demétrio quis experimentar as sensações de horror, êxtase, humilhação, glória, poder e morte. Morreu, mesmo no escuro.

Tendo sentido a morte em seu interior físico, não pôde mais tirá-la de si. É o único morto, conscientemente morto, de que já ouvi falar nesta vida. A noite é fantástica.

Carlos Drummond de Andrade

Funes, o Memorioso



Recordo-o (não tenho o direito de pronunciar esse verbo sagrado, apenas um homem na terra teve o direito e tal homem está morto) com uma obscura passiflórea na mão, vendo-a como ninguém jamais a vira, ainda que a contemplasse do crepúsculo do dia até o da noite, uma vida inteira.

Recordo-o, o rosto taciturno e indianizado e singularmente remoto, por trás do cigarro. Recordo (creio) suas mãos delicadas de trançador. Recordo próximo dessas mãos um mate, com as armas da Banda Oriental, recordo na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga paisagem lacustre. Recordo claramente a sua voz; a voz pausada, ressentida e nasal de orillero antigo, sem os assobios italianos de agora.

Mais de três vezes não o vi; a última, em 1887... Parece-me muito feliz o projeto de que todos aqueles que o conheceram escrevam sobre ele; meu testemunho será por certo o mais breve e sem dúvida o mais pobre, porém não o menos imparcial do volume que vós editareis.

A minha deplorável condição de argentino impedir-me-á de incorrer no ditirambo - gênero obrigatório no Uruguai; quando o tema é um uruguaio. Literato, cajetilla, porteño. Funes não disse essas palavras injuriosas, mas de um modo suficiente me consta que eu representava para ele tais desventuras. Pedro Leandro Ipuche escreveu que Funes era um precursor dos super-homens; "Um Zaratustra cimarrón e vernáculo"; não o discuto, mas não se deve esquecer que era também natural de Fray Bentos, com certas limitações incuráveis.

A minha primeira lembrança de Funes é muito clara. Vejo-o em um entardecer de Março ou Fevereiro do ano de 1884. Meu pai, nesse ano, levara-me a veranear em Fray Bentos. Voltava com meu primo Bernardo Haedo da estância de San Francisco. Voltávamos cantando, a cavalo, e essa não era a única circunstância da minha felicidade. Após um dia abafado, uma enorme tempestade cor cinza escura havia escondido o céu. Alentava-me o vento Sul, já enlouqueciam-se as árvores; eu tinha o temor (a esperança) de que nos surpreenderia em um descampado a água elemental.

Apostamos uma espécie de corrida com a tempestade. Entramos em um desfiladeiro que se aprofundava entre duas veredas altíssimas de tijolo. Escurecera repentinamente; ouvi passos rápidos e quase secretos no alto; levantei os olhos e vi um rapaz que corria pela vereda estreita e esburacada como que por uma parede estreita e esburacada. Recordo a bombacha, as alpargatas, recordo o cigarro no rosto duro, contra a densa nuvem já sem limites. Bernardo gritou-lhe imprevisivelmente: Que horas são, Ireneo? Sem consultar o céu, sem deter-se, o outro respondeu: Faltam quatro minutos para as oito, jovem Bernardo Juan Francisco. A voz era aguda, zombeteira.

Sou tão distraído que o diálogo a que acabo de me referir não teria chamado a minha atenção se não o tivesse enfatizado o meu primo, a quem estimulavam (creio) certo orgulho local, e o desejo de mostrar-se indiferente à réplica tripartite do outro.

Disse-me que o rapaz do desfiladeiro era um tal Ireneo Funes, conhecido por algumas peculiaridades como a de não se dar com ninguém e a de saber sempre a hora, como um relógio. Complementou dizendo que era filho de uma passadeira do povo, Maria Clementina Funes, e que alguns diziam que seu pai era um médico de saladeiro, um inglês O’Connor, e outros um domador ou rastreador do departamento de Salto. Vivia com a sua mãe, na curva da quinta dos Laureles.

Nos anos de 1885 e 1886 veraneamos na cidade de Montevideo. Em 1887 voltei a Fray Bentos. Perguntei, como é natural, por todos os conhecidos e, finalmente, pelo "cronométrico Funes". Responderam-me que um redomão o havia derrubado na estância de San Francisco, e que havia se tornado paralítico, sem esperança. Recordo a sensação de incômoda magia que a notícia despertou-me: a única vez que eu o vi, vínhamos a cavalo de San Francisco e ele andava em um lugar alto; o fato, na boca do meu primo Bernardo, tinha muito de sonho elaborado com elementos anteriores.

Disseram-me que não se movia da cama, os olhos repousados na figueira do fundo ou em uma teia de aranha. Ao entardecer, permitia que o levassem para perto da janela. Levava a arrogância ao ponto de simular que era benéfico o golpe que o havia fulminado... Duas vezes o vi atrás da relha, que toscamente enfatizava a sua condição de eterno prisioneiro; uma, imóvel, com os olhos cerrados; outra, imóvel também, absorto na contemplação de um aromático galho de santonina.

Não sem um certo orgulho havia iniciado naquele tempo o estudo metódico do latim. A minha mala incluía o De viris illustribus de Lhamond, o Thesaurus de Quicherat, os comentários de Júlio César e um volume ímpar da Naturalis historia de Plínio, que excedia (e continua excedendo) as minhas modestas virtudes de latinista. Tudo se propaga em um povoado; Ireneo, em seu rancho das orillas, não tardou em enteirar-se da chegada desses livros anômalos. Dirigiu-me uma carta florida e cerimoniosa, na qual recordava no encontro, desditosamente fugaz, "do dia 7 de Fevereiro de 1884", ponderava os gloriosos serviços que Don Gregorio Haedo, meu tio, falecido nesse mesmo ano, "havia prestado às duas pátrias na valorosa jornada de Ituzaingó", e me solicitava o empréstimo de qualquer dos volumes, acompanhado de um dicionário "para a boa intelecção do texto original, pois todavia ignoro o latim". Prometia devolvê-los em bom estado, quase imediatamente.

A letra era perfeita, muito perfilada; a ortografia, do tipo que Andrés Bello preconizou: i por y, j por g. A princípio, suspeitei naturalmente tratar-se de uma zombaria. Meus primos asseguraram que não, que eram coisas de Ireneo. Não sabia se atribuía ao atrevimento, à ignorância ou à estupidez a idéia de que o árduo latim não requeresse mais instrumento do que um dicionário; para desencorajá-lo completamente enviei-lhe o Gradus ad parnassum de Quicherat e a obra de Plínio.

No dia 14 de Fevereiro telegrafaram-me de Buenos Aires que voltasse imediatamente, pois meu pai não estava "nada bem". Deus me perdôe; o prestígio de ser o destinatário de um telegrama urgente, o desejo de comunicar a toda Fray Bentos a contradição entre a forma negativa da notícia e o peremptório advérbio, a tentação de dramatizar a minha dor, fingindo um estoicismo viril, talvez distraíram-me de toda a possibilidade de dor. Ao fazer a mala, notei que me faltavam o Gradus e o primeiro tomo da Naturalis historia. O "Saturno" sarpava no dia seguinte, pela manhã; essa noite, depois da janta, dirigi-me à casa de Funes. Assombrou-me que a noite fora não menos pesada que o dia.

No humilde rancho, a mãe de Funes recebeu-me.

Disse-me que Ireneo estava no quarto dos fundos e que não me estranhasse encontrá-lo às escuras, pois Ireneo preferia passar as horas mortas sem acender a vela. Atrevessei o pátio de lajota, o pequeno corredor; cheguei ao segundo pátio. Havia uma parreira; a escuridão pareceu-me total. Ouvi prontamente a voz alta e zombeteira de Ireneo. Essa voz falava em latim; essa voz (que vinha das trevas) articulava com moroso deleite um discurso, ou prece, ou encantamento. Ressoavam as sílabas romanas no pátio de terra; o meu temor as tomava por indecifráveis, intermináveis; depois, no enorme diálogo dessa noite, soube que formavam o primeiro parágrafo do 24o capítulo do 7o livro da Naturalis historia. O tema desse capítulo é a memória: as últimas palavras foram ut nihil non iisdem verbis redderetur auditum.

Sem a menor mudança de voz, Ireneo disse-me o que se passara. Estava na cama, funmando. Parece-me que não vi o seu rosto até a aurora; creio lembrar-me da brasa momentânea do cigarro. O quarto exalava um vago odor de umidade. Sentei-me, repeti a estória do telegrama e da enfermidade de meu pai.

Chego, agora, ao ponto mais difícil do meu relato. Este (é bem verdade que já o sabe o leitor) não tem outro argumento senão esse diálogo de há já meio século. Não tratarei de reproduzir as suas palavras, irrecuperáveis agora. Prefiro resumir com veracidade as muitas coisas que me disse Ireneo. O estilo indireto é remoto e débil; eu sei que sacrifico a eficácia do meu relato; que os meus leitores imaginem os períodos entrecortados que me abrumaram essa noite.

Ireneo começou por enumerar, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia: Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo nome todos os soldados de seus exércitos; Metríadates e Eupator, que administrava a justiça dos 22 idiomas de seu império; Simónides, inventor da mnemotecnia; Metrodoro, que professava a arte de repetir com fidelidade o escutado de uma só vez.

Com evidente boa fé maravilhou-se de que tais casos maravilharam. Disse-me que antes daquela tarde chuvosa em que o azulego o derrubou, ele havia sido o que são todos os cristãos; um cego, um surdo, um tolo, um desmemoriado. (Tratei de recordar-lhe a percepção exata do tempo, a sua memória de nomes próprios; não me fez caso.) Dezenove anos havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando or ecobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais antigas e mais triviais. Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis.

Num rápido olhar, nós percebemos três taças em uma mesa; Funes, todos os brotos e cachos e frutas que se encontravam em uma parreira. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer de trinta de abril de 1882 e podia compará-los na lembrança às dobras de um livro em pasta espanhola que só havia olhado uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no Rio Negro na véspera da ação de Quebrado. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada a sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entresonhos.

Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro, não havia jamais duvidado, mas cada reconstrução havia requerido um dia inteiro. Disse-me: Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a vossa vigília. E também, até a aurora; Minha memória, senhor, é como depósito de lixo. Uma circunferência em um quadro-negro, um triângulo retângulo; um losango, são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo se passava a Ireneo com as tempestuosas crinas de um potro, com uma ponta de gado em um coxilha, com o fogo mutante e com a cinza inumerável, com as muitas faces de um morto em um grande velório. Não sei quantas estrelas via no céu.

Essas coisas me disse; nem então nem depois coloquei-as em dúvida. Naquele tempo não havia cinematógrafos nem fonógrafos; é, no entanto, verossímil e até incrível que ninguém fizera um experimento com Funes. O cérto é que vivemos postergando todo o postergável; talvez todos saibamos pronfundamente que somos imortais e que mais cedo ou mais tarde, todo homem fará todas as coisas e saberá tudo.

A voz de Funes, vinda da escuridão, seguia falando.

Disse-me que em 1886 havia elaborado um sistema original de numeração e que em muito poucos dias havia ultrapassado vinte e quatro mil. Não o havia escrito, porque o pensado uma só vez já não podia desvanecer-lhe. Seu primeiro estímulo, creio, foi o descontentamento de que os trinta e três uruguaios requeressem dois signos e três palavras, em lugar de uma só palavra e um só signo. Aplicou logo esse desparatado princípio aos outros números.

Em lugar de sete mil e treze, dizia (por exemplo) Máximo Pérez; em lugar de sete mil e catorze, A Ferrovia; outros números eram Luis Melián Lafinur, Olivar, enxofre, os rústicos, a baleia, o gás, a caldeira, Napoleão, Agustín de Vedia. Em lugar de quinhentos, dizia nove. Cada palavra tinha um signo particular, uma espécie de marca; as últimas eram muito complicadas... Eu tratei de explicar-lhe que essa rapsódia de vozes desconexas era precisamente o contrário de um sistema de numeração. Eu lhe observei que dizer 365 era dizer três centenas, seis dezenas, cinco unidades; análise que não existe nos "números". O Negro Timoteo a manta de carne. Funes não me entendeu ou não quis me entender.

Locke, no século XVII, postulou (ou reprovou) um idioma impossível no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio; Funes projetou alguma vez um idioma análogo, mas o desejou por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambígüo. De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma de suas jornadas pretéritas a umas setenta mil lembranças, que definiria logo por cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa era interminável, a consciência de que era inútil. Pensou que na hora da morte não havia acabo ainda de classificar todas as lembranças da infância.

Os dois projetos que foi indicado (um vocabulário infinito para a série natural dos números, um inútil catálogo mental de todas as imagens da lembrança) são insensatos, mas revelam certa balbuciante grandeza. Nos deixam vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga.

Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente.

Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.

A receosa claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.

Então vi a face da voz que toda a noite havia falado. Ireneo tinha dezenove anos; havia nascido em 1868; pareceu-me tão monumental como o bronze, mais antigo que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma das minhas palavras (que cada um dos meus gestos) perduraria em sua implacável memória; entorpeceu-me o temor de multiplicar trejeitos inúteis.

Ireneo Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar.

Jorge Luis Borges

06 Fevereiro 2010

O valor das pequenas coisas


Em cada indelicadeza, assassino um pouco aqueles que me amam.

Em cada desatenção, não sou nem educado, nem cristão.

Em cada olhar de desprezo, alguém termina magoado.

Em cada gesto de impaciência, dou uma bofetada invisível nos que convivem comigo.

Em cada perdão que eu negue, vai um pedaço do meu egoísmo.

Em cada ressentimento, revelo meu amor-próprio ferido.

Em cada palavra áspera que digo, perdi alguns pontos no céu.

Em cada omissão que pratico, rasgo uma folha do evangelho.

Em cada esmola que eu nego, um pobre se afasta mais triste.

Em cada oração que não faço, eu peco.

Em cada juízo maldoso, meu lado mesquinho se aflora.

Em cada fofoca que faço, eu peco contra o silêncio.

Em cada pranto que enxugo, eu torno alguém mais feliz.

Em cada ato de fé, eu canto um hino à vida.

Em cada sorriso que espalho, eu planto alguma esperança.

Em cada espinho, que finco, machuco algum coração.

Em cada espinho que arranco, alguém beijará minha mão.

Em cada rosa que oferto, os anjos dizem: Amém!
Roque Schneider

Rico de verdade


Há quem fature bilhões e mantenha-se modesto em seus hábitos e escolhas, socialmente bem ajustado e continue mortal como qualquer um. Warren Buffet, Samuel Klein, Elie Horn são exemplos disso. Ricos de verdade não precisam aparecer!

Surpreendentes são uns “empresariozinhos” de nada que ganham pouco mais que simples executivos à frente de negócios que sobrevivem de sonegação de impostos e exploração de mão-de-obra, achando-se deuses.

Ou também aqueles outros que um dia subiram ao paraíso do poder financeiro e de lá caíram destroçados – são eles: o Sr Fulano que teve uma grande companhia, até que um plano econômico varreu tudo para o ralo; o Sr Sicrano que torrou milhões na bolsa tentando alavancagens e só ficou o susto; o Sr Beltrano que herdou um império de pais e avós e o viu evaporar por não ter competência em mantê-lo ou fazê-lo crescer, etc. Hoje convivem com a ânsia de serem respeitados. Recorrem a colunas sociais e ao Efeito Denorex: “Parece, mas não é”.

Isto vira doença. E tem nome. É a megalomania. No dicionário: “supervaloração mórbida de si mesmo; predileção pelo grandioso ou majestoso”. É coisa brava. Consta na lista de transtornos psicológicos. O indivíduo acometido tem ilusões de grandeza e poder, vive a obsessão de realizar feitos que não lhe são possíveis executar. Por isso, eles tendem a ver-se como dominadores autosuficientes. Mas é só ilusão.

Os poucos que os veneram só o fazem com vistas a obter vantagens. Eles são pessoas fora de órbita e que dificilmente encontram o trilho da vida normal. Vivem seus dias no chamado “limbo social”: têm gostos de ricos e preferências de ricos, mas saldo bancário de catador de lixão. Isto lhes impõe um sofrimento implacável que resulta em desvios sociais e psicológicos.

Por sua vez, prosseguem em seus happy hours bebendo e comendo o que há de melhor, discutindo fórmulas de como fazer milhões e falando mal de quem trabalha. São invejosos e cobiçosos. Após satisfazerem suas frustrações e cupidez com palavras e piadinhas, resta-lhes insistir em pagar a conta – outra forma de preponderância, crucial nesta hora. Assim que o fazem, dão início a um novo drama: onde e como cobrir o saldo negativo no dia seguinte.

Dinheiro é energia pura. Uns ganham enquanto outros perdem. O dinheiro “gira”. Vê-lo como resultado da ciência de ganhá-lo é um equívoco. Ganhos reais envolvem contabilidades que a HP-12C não calcula – contabilidades que superam o esforço ou a inteligência. Mas envolve postura, comportamento, atitude, compreensão do bem e do mal. Não só cifrões ou algarismos.

Aparência custa caro demais para qualquer um. Tenho um amigo que diz: “Enquanto o quebrado não reconhecer seu real status e romper com o ciclo de gastos que mantêm a aparência, seu rombo e queda não cessam até que chegue ao fundo do poço. Só consciente disso é que será capaz de evitar a falência total e dar a volta por cima”.

Conta-se que um sujeito era tão megalomaníaco que, durante uma entrevista, quando o repórter lhe perguntou “ Se o senhor fosse Deus, o que faria?”, ele respondeu: “Como assim se eu fosse?”.

Bom e doce é ganhar o pão com suor e paz, reclinar a cabeça no travesseiro e repousar com tranquilidade. Se você deseja ter alguma coisa na vida sem que seja necessário dar satisfações a alguém, se não à Receita Federal, fuja de aparências. Só mentecaptos e desequilibrados precisam disto!

Abraham Shapiro

05 Fevereiro 2010

Aprendendo a viver


Aprendi que se aprende errando
Que crescer não significa fazer aniversário.
Que o silêncio é a melhor resposta, quando se ouve uma bobagem.

Que trabalhar significa não só ganhar dinheiro.
Que amigos a gente conquista mostrando o que somos.
Que os verdadeiros amigos sempre ficam com você até o fim.
Que a maldade se esconde atrás de uma bela face.
Que não se espera a felicidade chegar, mas se procura por ela

Que quando penso saber de tudo ainda não aprendi nada
Que a Natureza é a coisa mais bela na Vida.
Que amar significa se dar por inteiro
Que um só dia pode ser mais importante que muitos anos.
Que se pode conversar com estrelas
Que se pode confessar com a Lua
Que se pode viajar além do infinito

Que ouvir uma palavra de carinho faz bem à saúde.
Que dar um carinho também faz...
Que sonhar é preciso
Que se deve ser criança a vida toda
Que nosso ser é livre
Que Deus não proíbe nada em nome do amor.
Que o julgamento alheio não é importante
Que o que realmente importa é a Paz interior.

"Não podemos viver apenas para nós mesmos. Mil fibras nos conectam com outras pessoas; e por essas fibras nossas ações vão como causas e voltam pra nós como efeitos."
Herman Melville
Picture by Mário Cesariny

Mudar é possível


Mudar é possível.
Sentes. Intuis. Sabes.
A necessidade de mudar afirma-se dentro de ti.
Talvez a dúvida e o medo te detenham.
Mas podes mudar o teu rumo.
Um rumo é uma mera orientação.
Não é um caminho único, nem fixo; não é para sempre.
Perante uma encruzilhada, a tua escolha pode ser outra.
Poucas coisas na vida são tão permanentes como o céu e a terra.
Tudo o resto, incluindo todos os seres humanos, muda.
O teu rumo também.
Por isso é bom o desapego
e não nos agarrarmos ao que é conhecido, seguro.
Convém deixar que a vida flua
e se encaminhe para as mudanças.
Presta atenção às indicações do caminho.
É no movimento constante que reside a renovação,
Que ocorre na natureza, na mente e no espírito.
O caminho vai procurando o seu próprio sentido,
Às vezes de uma maneira harmoniosa,
Outras aos tropeções.
E é precisamente quando se tropeça...
Que chega a hora de ouvir a mensagem desse caminho:
É necessário seguir outro rumo.
Porquê tanto medo?
O caminho foi sempre desconhecido.
O que te deixa inseguro é teres de abandonar um percurso
Ao qual já estavas habituado.
Mas o hábito faz-te perder o prazer da travessia
E as oportunidades de percorrer outros caminhos.
Portanto, talvez encontres
Aquilo que, sem saberes ainda, procuras e necessitas.
Por isso, não tenhas medo,
Não fujas perante a mudança.
Não queiras manter uma posição que já não te leva a parte alguma.
Tens de ser flexível
E adaptar-te às circunstancias
Porque, embora a princípio te custe entender...
As mudanças são sempre para melhor
E ajudam a evoluir para um nível superior.
Lentas ou vertiginosas,
Pacíficas ou violentas,
Desejadas ou não,
As mudanças promovem o progresso.
Não te deixam estagnar ou murchar.
Trazem abundância e riqueza de bens à tua porta,
Para que tenhas oportunidades na vida,
Porque o movimento é a manifestação suprema da vida e da prosperidade.
A quietude e a rotina, pelo contrário,
São sinónimas de estagnação e ocaso.
Por isso, decide-te e começa a mudar.
Rende-te ao movimento e vê com outros olhos o curso da vida.
Ela mesma te indica o movimento propício para agires sem medo
E aventurares-te a novos caminhos.
A mudança é um acto de fé.
Nasce da luta entre o velho e o novo.
Todas as mudanças respondem as forças superiores.
Por isso não há motivo para te arrependeres
Da transformação.

I Ching
Picture by David Salle

04 Fevereiro 2010

Custo de Oportunidade



Ele transa bem?
Leva você para comer bons queijos e vinhos?

É seu amigo?

Então fica com ele.
É o máximo que você vai conseguir de um homem.
Marília Gabi Gabriela

Ah, o amor..



Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
Vinícius de Moraes

É preciso querer ser feliz


É preciso querer ser feliz e contribuir para isso.

Se ficarmos na posição do espectador impassível, deixando para a felicidade apenas a entrada livre e as portas abertas, será a tristeza que entrará.
Émile-Auguste Chartier

A única alegria neste mundo é a de começar


A única alegria neste mundo é a de começar. É belo viver, porque viver é começar, sempre, a cada instante.

Quando esta sensação desaparece - prisão, doença, hábito, estupidez - deseja-se morrer.

É por isso que quando uma situação dolorosa se reproduz de modo idêntico - parece idêntica - nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.

O princípio acima enunciado não é, portanto, próprio de um viveur. Porque há mais hábito na experiência a todo o custo do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e inteligência. Estou convencido de que há mais hábito nas aventuras de do que num bom casamento.

Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimônio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.

Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura.

A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo. É melhor sofrer por ter ousado agir a sério do que recuar. Como no caso dos filhos: é de resto a Natureza que o quer, e recuar é covardia.
No fim - já se tem visto -, paga-se mais caro.
Cesare Pavese

Charneira é um ponto de viragem, um ponto de transição de algo para outra coisa, um ponto de evolução e mutação.

03 Fevereiro 2010

Nunca tenha medo de tentar...


Nunca tenha medo de tentar algo novo.

Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca.

Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.
Luís Fernando Veríssimo

Geladeira com água na porta já era...






















Para quem pretende comprar uma geladeira nova. Esse negócio de geladeira com água na porta não está com nada. Água pode vir da torneira, da bica, da moringa etc...

Já um choppinho gelado a qualquer hora na cozinha da sua casa é realmente show!

Os suecos são os autores desta proeza chamada Asko Homepub, a geladeira dos sonhos para muita gente. A Homepub possui um reservatório destacável para a cerveja em lata de 5 litros e a torneira para servir. Fora a mais do que necessária prateleira para mais alguns reservatórios.

Isto tudo sem perder espaço. Sua capacidade é de 218 litros na geladeira e 83 litros no congelador.

Homens que tomam chás têm menos barriga


Um estudo apresentado esta semana no Primeiro Congresso Internacional sobre Obesidade Abdominal, em Hong Kong, indica que o consumo diário de chá pode ajudar a reduzir a barriguinha de chope dos homens.
Em pesquisa com mais de 3,8 mil adultos americanos, os pesquisadores observaram que os homens que bebiam mais de duas xícaras de chá por dia tinham menor circunferência da cintura do que aqueles que tomavam café ou nenhuma das duas bebidas. Mas os resultados não seriam os mesmos para as mulheres.

“A potencial associação entre café/chá e obesidade abdominal não é trivial, considerando que mais de 60% da população adulta bebe café ou chá, que essas bebidas podem ser consumidas tão frequentemente quanto 10 vezes por dia, e que uma alta percentagem de bebedores de café e chá usam aditivos nessas bebidas”, destacou o pesquisador D. R. Bouchard, da Universidade de Queen, no Canadá. Além disso, ele destaca que a obesidade abdominal é um crescente problema mundial associado a diversos riscos cardiovasculares.

A pesquisa mostrou também uma diferença em relação ao uso de açúcar e de adoçantes. Os resultados indicaram que, entre os homens, o consumo de chá com açúcar estava associado a 2,5 cm a menos na circunferência da cintura, e o uso da bebida com adoçante, a 5 cm a menos, comparados àqueles que não tomavam chás. Entre as mulheres que usavam adoçantes, por sua vez, a cintura era quase 2,5 cm maior. Porém, mais estudos são necessários.

Gustave

Francês caça crocodilo que já devorou 200 pessoas no Burundi

Há 20 anos o crocodilo Gustave vem aterrorizando os moradores do Burundi, despistando caçadores e escapando da morte no lago Tanganica.

Gustave, que pesa uma tonelada e mede cerca de seis metros de comprimento, é conhecido na região por já ter devorado mais de 200 pessoas.

Ele usa a cauda para golpear crianças que brincam à beira do lago, já foi filmado atacando um pescador e, segundo a lenda, teria comido uma funcionária da Embaixada russa que se banhava nas águas rasas do lago.

Gustave recebeu o nome do francês Patrice Faye, que vive no Burundi há cerca de 20 anos.

Faye tenta capturar o crocodilo há 11 anos e se tornou um herói local. Ele agora mudou de estratégia e não quer mais matá-lo, mas sim colocar um rastreador no animal, para seguir seus passos.

Segundo o francês, “vivemos numa era em que criaturas como essas são cada vez mais raras”.

Devorador

“Ele é um animal pré-histórico, muito gordo”, disse Faye em entrevista ao programa Outlook, da BBC. “Na água, parece um hipopótamo. Mas ele ainda tem todos os dentes, o que sugere que ele tenha cerca de 68 anos.”

Faye disse que quando acompanhou os movimentos do crocodilo por um período de três meses, 17 pessoas foram devoradas por Gustave. “Calculei que se ele vinha matando gente há 20 anos neste ritmo, já teria comido mais de 300 pessoas”, explicou.

Mas o francês afirma que Gustave já passou períodos mais longos sem comer nenhuma pessoa. No ano passado, por exemplo, não foi registrado nenhum ataque.

Mas qual a explicação para que o crocodilo tenha preferência por pessoas em seu cardápio?

Para Faye, o enorme tamanho do animal faz com que uma dieta a base de peixes do lago não seja suficiente para saciar sua fome. Além disso, “por ser tão enorme, ele é mais lento e, portanto, não tem outra opção a não ser caçar presas fáceis. Na água, não há presa mais fácil do que o ser humano”.

“Não creio que seja uma questão de gosto, mas sim uma questão do que ele pode caçar”, completou.

Estratégia

A certa altura, Faye tentou capturar Gustave com uma armadilha usada no Zimbábue para caçar crocodilos gigantes. Mas o animal não se deixou enganar. Apesar de ter chegado perto várias vezes, Gustave nunca caiu na armadilha que, de tão pesada, acabou afundando.

“Ele deve ter um instinto de sobrevivência muito forte, porque sobreviveu quando outros crocodilos foram massacrados”, disse ele.

Hoje em dia, Faye usa outra estratégia. “Tenho informantes. No Burundi, há milhares de pessoas que vivem junto ao lago, especialmente pescadores que passam a maior parte do tempo na água. Dei a eles uma dúzia de telefones celulares para que me digam onde ele está.”

Gustave já foi baleado várias vezes. “Vários pescadores disseram já ter acertado ele. Ele parece ter o couro à prova de balas.”

O francês não quer nem imaginar a possibilidade de alguém capturá-lo antes dele. “Me sentiria como se tivessem me roubado algo”, explicou. “Vou permanecer fiel a Gustave e espero que ele faça o mesmo.”
BBC

02 Fevereiro 2010

A esperança



A esperança é o mais tenaz dos sentimentos humanos:
o náufrago,
o condenado,
o moribundo
aferram-se-lhe convulsivamente aos últimos rebentos ressequidos.
Rui Barbosa
Picture by Millet

A preocupação


A preocupação deveria levar-nos à ação e não à depressão
Karen Horney
Picture by Henri Matisse

Chi Kung


Concentrados, os alunos se dedicam a realizar cada movimento lentamente. Como em uma coreografia, eles são realizados de forma sincronizada, mas de acordo com as limitações de cada um.

Durante uma hora, a turma realiza uma série de exercícios que trabalha o equilíbrio da energia corporal, base do chi kung (pronuncia-se tchi qung), técnica derivada das artes marciais chinesas.

"Os movimentos são de baixo impacto e trabalham três áreas: o corpo, as emoções e a mente", explica Henrique Cirilo, professor do Instituto Brasileiro de Chi Kung e Terapias Afins (Ibrachi).

No Brasil desde a década de 1970, o chi kung tem uma história milenar na China. No início, os mestres de artes marciais chinesas utilizavam os exercícios do método para fortalecer a energia de seus discípulos e, dessa forma, obter melhores resultados ao longo do treino. Com o passar dos anos, as duas modalidades se separaram, mas a base do chi kung chegou intacta ao Ocidente: ainda hoje é usada para equilibrar a circulação da energia vital do organismo. Segundo a filosofia oriental, a desarmonia pode ser a causa de doenças.

Atualmente, existem 6 mil métodos de chi kung reconhecidos pelo país oriental. De acordo com o Instituto é possível dividi-los em três tipos: os exercícios que geram energia, os que a captam e aqueles que a controlam. No entanto, nem todos podem ser praticados sem acompanhamento. "Não há contraindicações, mas não é possível aprender a técnica em poucos dias", lembra Cirilo. O estudante de publicidade Bruno Rica, praticante da técnica há dois anos, concorda: "Mesmo hoje, já com alguma vivência nessa prática, ainda não me sinto confortável em fazer todos os exercícios em casa, somente os que são considerados mais fáceis".

PRÁTICA AO AR LIVRE

Por causa de pessoas como o estudante de publicidade citado, o chi kung se espalha por parques de grandes cidades pelo menos uma vez por ano. É quando ocorre o World Tai Chi & Qigong Day, ou Dia Mundial do Tai Chi Chuan e do Chi Kung, dedicado a integrar praticantes e mestres das terapias chinesas e divulgar as técnicas para aqueles que ainda não conhecem seus benefícios. Marcado sempre para o último sábado de abril, o evento acontece desde 1999 e já conseguiu a adesão de 60 países desde então. O Brasil está na lista desde 2000, com edições cada vez maiores. "O contato com a natureza auxilia no processo de relaxamento, por isso muitos procuram essa alternativa", explica o professor de chi kung.

O processo de relaxamento começa já no início da aula, quando o aluno é convidado a colocar o mundo externo à parte e concentrar-se em si próprio. No decorrer do processo, a postura muda, a respiração se torna mais pausada e consciente e a meditação entra em cena para trabalhar a mente. Na técnica, assim como em outras tradicionais terapias chinesas, a evolução dos movimentos é atingida aos poucos. "No entanto, ao sair de uma aula, a pessoa já consegue se sentir mais relaxada e mais centrada", enfatiza Cirilo.


Por benefícios como esses, o chi kung é conhecido por auxiliar o tratamento de doenças relacionadas à vida moderna, como o estresse e a ansiedade. Fisicamente, é bastante utilizado para aliviar dores musculares e articulares, já que relaxa o organismo ao mesmo tempo em que trabalha os membros inferiores e superiores sem grandes impactos. "Basicamente, praticá-lo aumenta o bem-estar, o que por si só já afasta qualquer ideia de doença", conta, rindo, Bruno. Brincadeiras à parte, estudos comprovam a eficácia do chi kung na melhora dos sistemas digestório e circulatório, no aumento da vitalidade e na diminuição da fadiga.

Para praticar no dia a dia

Conheça três exercícios fáceis e práticos que podem ser realizados em casa e ajudam a equilibrar o corpo e a mente

Exercício 1

Em pé, com a postura ereta, devem-se juntar os pés e colocar os braços de forma reta junto ao corpo. Lentamente, sentindo cada movimento da execução do exercício, devem-se entrelaçar os dedos das mãos e esticar os braços para frente até senti-los alongando.

Em seguida, eleve os braços ao alto, acima da cabeça. Sinta o alongar de um novo conjunto de músculos e, então, desça o tronco com os braços até que ele fique paralelo ao chão. Em mais um movimento, flexione o tronco mais ainda e tente tocar os pés. Fique alguns segundos desta forma e volte, lentamente, à posição inicial.

Benefício: auxilia a obter maior flexibilidade, além de trabalhar possíveis desvios na região da coluna.

Exercício 2

Com as pernas afastadas, feche as mãos e as apoie na altura da cintura com as palmas das mãos voltadas para cima. Em seguida, flexione as pernas, estique os braços e gire-os de forma que as palmas das mãos fiquem voltadas para frente. Gire novamente os braços e as mãos de forma que as pontas dos dedos se encostem. Sinta em cada troca de movimento o alongar dos braços, das pernas, do calcanhar e do punho. Fique alguns segundos desta forma e volte, lentamente, à posição inicial Benefício: aumenta a capacidade muscular dos membros inferiores, prevenindo artrite. Caso a doença já exista, auxilia na diminuição das dores.

Exercício 3

Mantenha as pernas afastadas, feche as mãos e as mantenha voltadas para cima na altura da cintura. Prepare-se para executar três movimentos lentamente. Inicialmente, levante os braços para cima e abra as mãos de forma que fiquem também com a palma voltada para o alto.

Em seguida, vire o tronco para a esquerda ao mesmo tempo em que abaixa os braços e os estenda para os lados na altura dos ombros. Volte à posição inicial e repita o primeiro movimento. Em seguida, faça o segundo movimento novamente, virando o tronco para a direita.

Benefícios: esses exercícios dão flexibilidade aos membros superiores. São usados também para aliviar dores nos tendões.

Obs.: em cada exercício, é necessário atentar a dois pontos: a postura, que deve sempre ser ereta, e a respiração: inspira-se pelo nariz e solta o ar pela boca lentamente.

Fonte: Instituto Brasileiro de Chi Kung Terapias Afins (Ibrachi)

Caroline Afonso

01 Fevereiro 2010

O significado da vida


O significado da vida é a mais urgente das questões
Albert Camus
Pictures by Ernst Ludwig Kirchner

Causas más


A defesa de uma má causa é sempre pior do que a própria causa.
Baltazar Gracián


Todo o grande homem é único


Insiste em ti mesmo; nunca imites.

A todo o momento, podes exibir o teu próprio dom com a força cumulativa de toda uma vida de estudo; mas do talento imitado de outro tens apenas posse parcial e momentânea.

Aquilo que cada um sabe fazer de melhor só pode ser ensinado por quem o faz. Ninguém sabe ainda o que seja, nem o pode saber, enquanto essa pessoa não o demonstrar.

Onde está o mestre que pudesse ter ensinado Shakespeare?

Onde está o mestre que pudesse ter instruído Franklin, ou Washington, ou Bacon, ou Newton? Todo o grande homem é único.
Ralph Waldo Emerson
Picture by Paul Klee

26 Janeiro 2010

Jeff Buckley - Hallelujah



Eu soube que havia um acorde secreto
Que David tocava, e que agradava o Senhor
Mas você não liga para música, não é?
É assim..., a quarta, a quinta,
O menor cai, e o maior sobe,
O rei frustrado compõe aleluia

Aleluia, aleluia
Aleluia, aleluia

Sua fé era forte mas você precisava de provas
Você a viu tomando banho do telhado
A beleza dela e o luar arruinaram você
Ela amarrou você à cadeira da cozinha
Ela destruiu seu trono, e cortou seu cabelo
E dos seus lábios ela tirou um aleluia

Aleluia, aleluia
Aleluia, aleluia

Talvez eu já estivesse aqui antes
Eu vi este quarto, eu andei neste chão
Eu vivia sozinho antes de conhecer você
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
Um amor não é uma marcha da vitória
É um frio e sofrido aleluia

Aleluia, aleluia
Aleluia, aleluia

Mas houve um tempo em que você me disse
O que realmente acontecia lá embaixo
Mas agora você nunca me mostra, não é?
Mas você se lembra quando eu entrei em você
E a pomba sagrada também entrou
E todo o suspiro que dávamos era um aleluia

Aleluia, aleluia
Aleluia, aleluia

Talvez haja um deus lá em cima
E tudo que eu já aprendi sobre o amor
Era como atirar em alguém que tirou você
Não é um choro que você pode ouvir de noite
Não é alguém que viu a luz
É um frio e sofrido aleluia

Aleluia, aleluia
Aleluia, aleluia
Aleluia, aleluia
Aleluia, aleluia

Leonard Cohen

25 Janeiro 2010

Ter razão ou ser feliz?


Oito da noite, numa avenida movimentada.

O casal já está atrasado para jantar na casa de uns amigos.

O endereço é novo, bem como o caminho que ela consultou no mapa antes de sair.

Ele conduz o carro.

Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda.
Ele tem certeza de que é à direita...

Discutem.
Percebendo que além de atrasados, poderão ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida.

Ele vira à direita e percebe, então, que estava errado.
Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno.
Ela sorri e diz que não há nenhum problema se chegarem alguns minutos atrasados.
Ele questiona: - Se tinhas tanta certeza de que eu estava indo pelo caminho errado, por que não insistiu um pouco mais?

Ela diz: - Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz!!! Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!

Moral da história:

Esta pequena história foi contada por uma empresária, durante uma palestra sobre simplicidade no mundo do trabalho. Ela usou a cena para ilustrar quanta energia nós gastamos apenas para demonstrar que temos razão, independentemente, de tê-la ou não. Desde que ouvi esta história, tenho me perguntado com mais freqüência: 'Quero ser feliz ou ter razão?'

Outro pensamento parecido, diz o seguinte:
'Nunca se justifique. Os amigos não precisam e os inimigos não acreditam'.

Eu quero ser feliz e você?

Enviado pela Fátima Marques

21 Janeiro 2010

Bebê em cifrões


Quando você é solteira, todos perguntam quando vai se casar. Depois de casada, sem ao menos ter curtido a lua de mel ou a fase de adaptação, já começa a cobrança pela chegada do rebento. Como se não bastasse um, logo lançam a campanha pelo irmãozinho. Antes de ser persuadida pelos outros, é preciso se organizar. E assim como ocorre antes de qualquer decisão, ainda mais tratando-se de uma "aquisição" eterna, o ideal é fazer um bom planejamento financeiro.

O economista Marcos Silvestre, que também é consultor, pesquisador, professor, palestrante, escritor e colunista da rádio Band News FM - além de pai de uma menina de 3 anos e meio e de um garotinho de apenas 6 meses -, calcula que, para cobrir os gastos de um filho, os pais têm de reservar cerca de 20% do orçamento. O ideal mesmo é começar a poupar com dois anos de antecedência.

Enxoval, fraldas, plano de saúde, alimentação, babá, pediatra, remédio, vacina, brinquedos, diversão, férias e, se possível, uma reserva financeira para imprevistos. Quando o filho vem, traz novos gastos. "O ideal é separar esses 20% por mês para aprender a conviver com a nova realidade", sugere Silvestre.

Durante a gravidez, essas economias vão para a montagem do quarto, enxoval, carrinho e outros acessórios para o bebê. Depois, vêm as despesas com o parto. "Gasta-se cerca de R$ 20 mil antes do nascimento. Se o casal fizer essa reserva antecipadamente, é possível bancar tudo à vista", recomenda.

Para dar um exemplo prático, Silvestre considerou o seguinte cenário: uma família de classe média baixa, cuja renda total líquida mensal seja de R$ 5 mil. Nesse caso, o gasto com um filho é de R$ 1 mil por mês. Metade, segundo ele, vai para o item educação, que inclui escola, transporte e material. Mais R$ 150,00, ou seja, 15%, são destinados aos gastos com vestuário (roupa, calçado, acessórios). Aí vem a alimentação, que inclui as refeições feitas em casa e os lanches na escola - o equivalente a outros R$ 150,00. E ainda tem as despesas com saúde, cuja média é de R$ 100,00, lembrando que isso inclui remédios e possível consulta fora do plano de saúde. Para o lazer e outras despesas, calcule os R$ 100,00 restantes.

Passados oito anos dessa rotina, o casal deve começar a pensar nos futuros custos universitários do filho. Assim, o ideal é poupar mais R$ 500,00 mensais, para poder bancar o curso e os gastos a mais durante a fase da faculdade. Pois quando ele completar 18 anos, as despesas vão dobrar. Aí vem a vida social mais intensa, compras, celular, viagens e, às vezes, até um carro. "E os pais vão querer bancar isso tudo", prevê Silvestre.

CORTANDO O CINEMINHA

Nascida há apenas um mês, a pequena e doce Laura Vasconcelos Maymone ainda não assustou seus pais de primeira viagem. Pois eles estão curtindo a fase dos presentinhos que ganharam de amigos e familiares, que, aliás, estão babando. O gasto mais pesado que tiveram até agora foi com a montagem e decoração do quarto - pagos à vista, graças ao dinheiro que o pai recebeu de suas férias acumuladas - e com algumas roupinhas que não resistiram à tentação de comprar. "Sentimos diferença na conta de eletricidade, gás e com o plano de saúde, pois ela entrou como dependente", explica o paizão Filippe Ventura Maymone, de 27 anos.

Quando se trata de uma família com dois filhos, pensando naquele mesmo casal cuja renda familiar soma R$ 5 mil mensais, o jeito é cortar o cineminha, as idas a restaurantes, bares e presentinhos que antes eram só para o casal. "Mas a natureza é tão sábia que o filho ocupa tanto o tempo que os pais acabam sendo obrigados a ficar mais em casa", emenda o consultor Silvestre.

É bom lembrar que as dívidas fixas do casal continuam sendo pagas, inclusive responsabilidades como um financiamento de imóvel. Ou seja, não tem gasto que possa ser diminuído. A não ser os que podem ser classificados como luxo e conveniência. "Só se o casal tiver desperdício. Aí os gastos pessoais terão de ser redistribuídos", explica o professor. Neste caso, ele sugere que, primeiro, se corte a gordura. Uma sugestão: pense em um desperdício que não lhe traz benefício. Aí, simplesmente, corte-o.

E quando o bebê chega de surpresa? Com apenas oito meses para se organizar, é preciso ser firme. O primeiro mês já tem de render uma boa quantia, para que o casal entre na nova realidade, sem que precise passar por perto de nenhum crédito pessoal. Afinal, é preciso bancar o filho com a renda do mês. "Já vi muitos pais lamentando a existência do filho porque não fizeram um planejamento antes", conta o consultor.

Grandes varejistas, como Carrefour e Walt Mart, criaram uma ala exclusiva para bebês - baseados em uma pesquisa feita por fornecedores, como Johnson & Johnson, Procter & Gamble, Nestlé e Fisher Price, a qual apontou que a chegada de um bebê aumenta os gastos da família em 40%.

Tatiana Quadros de Oliveira, de 26 anos, mãe de Isabela, não trabalhava. Até que a filha completou 2 anos, aprendeu a pedir presentinhos e a mãe teve de voltar ao mercado de trabalho para ajudar o maridão, que manteve os gastos sozinho durante todo esse tempo. Coincidiu com a fase em que a pequena Isabela teve de ir para a escola. "Antes disso, eu não precisava trabalhar. Mas se não trabalhasse agora, não supriria as despesas dela", diz Tatiana.

O economista Robson Gonçalves veio de uma geração em que os casais tinham muitos filhos: seus avós tiveram oito, e seu pai, quatro. Ele, por enquanto, tem apenas uma garotinha de 4 anos e meio. No entanto, tem uma visão mais otimista. Acha que, como hoje as pessoas não se casam jovens e, consequentemente, têm filhos mais tarde, a família pode ter um nível econômico melhor, já que o casal está mais estabilizado profissionalmente. Assim, pode gastar com pediatra, produtos importados, babá. "Mas não é a realidade da classe pobre", ressalva. Para Gonçalves, as famílias acabam optando por ter um filho só porque, dessa forma, podem gastar mais e melhor com ele.
Cristiana Vieira

13 Janeiro 2010

Escolhas



Sempre que houver alternativas tenha cuidado.

Não opte pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso.

Opte pelo que faz o seu coração vibrar. Opte pelo que gostaria de fazer, apesar de todas as consequências.
Osho

Cura e entretém


Usado com bons resultados em hospitais como fisioterapia para recuperar a força e o equilíbrio de pacientes, o videogame tem a vantagem de ser divertido

Duas vezes por dia, pela manhã e pela tarde, o aparelho de videogame era instalado no quarto de Lucas Savaris Morcelli, 14 anos, na unidade de terapia intensiva do Hospital Vita, em Curitiba. Durante as sessões de meia hora cada uma, o garoto jogava beisebol ao mesmo tempo em que fazia exercícios sob orientação do fisioterapeuta.

Ele precisava sincronizar a respiração com o movimento de rebater a bola virtual. A gameterapia se estendeu pelas duas semanas que Lucas permaneceu na UTI. O adolescente sofre de fibrose cística, doença genética crônica que causa excesso de secreção nos pulmões. O jogo ajudou Lucas a ampliar sua capacidade pulmonar e também lhe fortaleceu os músculos e a autoestima. "Melhorei muito no beisebol. Agora, faço mais de 10 pontos. Meu pai não joga comigo porque sabe que vai perder", diz.

Hoje, uma dezena de pacientes da UTI do hospital paranaense frequenta sessões de gameterapia. Quando surgiram, nos anos 80, os videogames eram acusados de incentivar o sedentarismo. Essa visão sofreu uma reviravolta nos últimos três anos, com o lançamento de jogos equipados com sensores de movimento, que transformam o corpo do jogador em joystick. Como eles transferem os movimentos do jogador para a ação do game na tela, é preciso deixar o sofá para dar raquetadas em bolas de tênis ou chutar bolas virtuais.

Por isso o console Wii, da Nintendo, e o jogo Eye Toy do Playstation 2, da Sony, são bons exercícios físicos. A utilização terapêutica desses games começou dois anos atrás no Canadá. Hoje ocorre em pelo menos cinco outros países como complemento na reabilitação de pacientes com sequelas de derrames cerebrais ou vítimas de doenças degenerativas, como Parkinson (veja o quadro).

O pioneiro no Brasil foi o Hospital Vita, em março. A reação dos pacientes foi entusiástica. "Nunca tinha visto pacientes tão afoitos para fazer exercícios", diz Esperidião Elias Aquim, chefe do serviço de fisioterapia do hospital. As primeiras experiências, por sinal, foram realizadas com o console de Wii que o fisioterapeuta trouxe de casa. Depois de dez meses de uso, Aquim não tem dúvida sobre os benefícios da gameterapia para pacientes internados na UTI.

Ele descobriu igualmente alguns riscos. "O esforço físico, somado à empolgação dos pacientes, pode fazer a pressão sanguínea subir perigosamente", diz Aquim. Um dos jogos mais usados nos hospitais de todo o mundo é o Wii Fit. Ele tem 48 exercícios, orientados por um treinador virtual, para a tonificação de músculos, atividades aeróbicas, ioga e treinos de equilíbrio. O jogador fica numa pequena plataforma e dirige seu personagem virtual com movimentos do corpo.

No início de dezembro, o Instituto de Reabilitação Lucy Montoro, em São Paulo, começou a testar o Wii na terapia com hemiplégicos, pessoas com os movimentos de um lado do corpo limitados por um derrame. Muitas vezes os problemas para andar decorrem da dificuldade enfrentada pelos pacientes quando é preciso transferir o peso de uma perna para a outra - exatamente o que eles aprendem a fazer sobre a pequena plataforma do jogo. Os resultados no Lucy Montoro têm sido animadores, sobretudo pela capacidade do game de estimular a determinação do paciente. Na fisioterapia tradicional, os hemiplégicos realizam movimentos repetitivos e monótonos com pesos e aparelhos especiais.

O videogame não substitui essas técnicas, mas faz com que os exercícios fiquem mais divertidos. Em Israel, o Eye Toy do Playstation 2 está sendo usado como uma espécie de analgésico para vítimas de queimaduras extensas. "Os pacientes ficam de tal forma hipnotizados pelo jogo que a sensação de dor diminui", disse o cirurgião plástico Josef Haik, do Sheba Medical Center, próximo a Tel-Aviv. "Como o videogame é um passatempo divertido, os fisioterapeutas conseguem exercitar os pacientes por mais tempo e atingir melhores resultados", completa. Uma vantagem adicional do videogame é que a terapia pode continuar em casa, com a assistência de um fisioterapeuta, depois de o paciente ter alta do hospital.
Juliana Cavaçana - Revista Veja

08 Janeiro 2010

Laranja...


Se não cozinha passe a dica para quem o faz, porque só fará bem à saúde de quem come.

Se tiver de fazer uma feijoada...

Siga este conselho: coloque uma laranja inteira e não descascada (lavada sim!) na dita feijoada junto com as carnes.

Realmente funciona, até parece milagre, a gordura fica toda dentro da laranja, basta cortá-la para ter a confirmação.

A laranja não modifica em nada o gosto da feijoada que fica super light!

Experimente com um pedaço de linguiça, ferva a água, fure a linguiça com 1 garfo, coloque a laranja na panela e depois a linguiça e....

Comprove, em 5 minutos a gordura está toda dentro da laranja!
Depois frite a linguiça e veja como está deliciosa... e a panela sem gordura...

Isso poderá servir para alguém, é por isso que transmito o que aprendi.
Enviado pelo grande amigo Alberto Batista

O vôo da águia


Entre as aves, a águia é a que vive mais, cerca de setenta anos. Mas para atingir essa idade, aos 40 ela deve tomar uma difícil decisão: nascer de novo.

Pois aos 40 suas unhas ficam compridas e flexíveis, dificultando agarrar as presas com as quais se alimenta. O bico, alongado e pontiagudo, se curva.

As asas, envelhecidas e pesadas, dobram-se sobre o peito, impedindo-a de empreender vôos ágeis e velozes.

Restam à águia duas alternativas: morrer ou passar por uma dura prova, ao longo de 150 dias. Essa prova consiste em voar para o cume de uma montanha e abrigar-se num ninho cravado na pedra. Ali, ela bate o bico contra a pedra até quebrá-lo. Espera, então, crescer o novo bico, para poder arrancar as suas unhas.

Quando as novas unhas despontam, a águia puxa as velhas penas e, após cinco meses, crescidas as novas, ela atira-se renovada ao vôo, pronta para viver mais trinta anos.

No noviciado, aprendi que, ao longo da existência, a possibilidade de nossa sobrevida depende, muitas vezes, de seguir o exemplo da águia. Quem se entrega, abatido, ao peso do sofrimento e das dificuldades, tende a abreviar seus dias. Deixa de viver como quem voa e passa a sobreviver como um réptil que rasteja.

Reaprender a voar é ousar recolher-se para começar de novo. Eis a sabedoria de todas as religiões tradicionais ao exigir de seus noviços um tempo de reclusão. O mesmo ocorre em muitas nações indígenas, quando o jovem, para ser considerado adulto, é recolhido a uma cabana isolada, onde o xamã o submete a provas e o introduz a conhecimentos específicos.

Mas é preciso voar até a montanha. De cima, vê-se melhor. Talvez por isso Deus, ao criar o ser humano, tenha colocado a cabeça acima do coração. Ver com as emoções é correr o risco de desfigurar os desenhos. Os contornos mostram-se muito mais nítidos quando observados com serenidade.

E saber esperar. Primeiro, ousar perder o que envelheceu: o bico, as unhas, as penas. Despojar-se do que atravanca os nossos passos. Segundo, aguardar pacientemente o tempo da maturação. Enfim, dar o salto pascal, abrir as asas para a vida e, sem medo, empreender o vôo rumo a novos horizontes.
Frei Betto

07 Janeiro 2010

Golden Slumbers





Once there was a way to get back homeward
Once there was a way to get back home
Sleep pretty darling do not cry
And I will sing a lullabye

Golden slumbers fill your eyes
Smiles awake you when you rise
Sleep pretty darling do not cry
And I will sing a lullabye

Once there was a way to get back homeward
Once there was a way to get back home
Sleep pretty darling do not cry
And I will sing a lullabye
Lennon/McCartney

A outra noite


Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui.

Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e otrouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima,além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.

Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou um sinal fechado para voltar-se para mim:

— O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?
Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra — pura, perfeita e linda.

— Mas, que coisa ...
Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.
— Ora, sim senhor ...

E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um “boa noite” e um “muito obrigado ao senhor” tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei.
Rubem Braga

05 Janeiro 2010

Exemplo de liderança

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Olhe que grande espírito de solidariedade. Líder não manda, líder encaminha, orienta e fica atento a todo momento, ele vive o sucesso.

A menina, 13 anos, ganhou um prêmio e foi cantar o Star Spangled Banner, hino dos EUA, no jogo da NBA.

Vinte mil pessoas no estádio. Ela afinadinha. Aí o braço tremeu, ela engasgou, esqueceu a letra. Deu branco!!!

Treze anos. Sozinha, ali no meio...

O Público estupefato ameaça uma vaia.

De repente, Mo Cheeks, técnico dos Portland Trail Blazers, aparece ao seu lado e começa a cantar, incentivando-a, e trazendo o público junto.

Bonita cena e o que é mais incrível só o técnico tomou a iniciativa de ir até lá para ajudar, enquanto os demais à volta dela só observavam estupefatos.

Mostra como uma atitude de Liderança e Solidariedade, na hora certa, pode fazer uma grande diferença, para ajudarmos um ser humano e mudar a história. Será que isso já não aconteceu em nossas vidas?

E a nossa atitude foi a do técnico Mo Cheeks ou da de todos que estavam ao redor, comum e de descaso?

Tem gente que está no mundo para ajudar...

Outros para vaiar.

Pense nisso.

Utopias



Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Mário Quintana

Cada manhã traz uma benção escondida


Podemos acreditar que tudo que a vida nos oferecerá no futuro é repetir o que fizemos ontem e hoje.

Mas, se prestarmos atenção, vamos nos dar conta de que nenhum dia é igual a outro.

Cada manhã traz uma benção escondida; uma benção que só serve para esse dia e que não se pode guardar nem desaproveitar.

Se não usamos este milagre hoje, ele vai se perder.
Este milagre está nos detalhes do cotidiano; é preciso viver cada minuto porque ali encontramos a saída de nossas confusões, a alegria de nossos bons momentos, a pista correta para a decisão que tomaremos.

Nunca podemos deixar que cada dia pareça igual ao anterior porque todos os dias são diferentes, porque estamos em constante processo de mudança.

Paulo Coelho

03 Janeiro 2010

Carolinie Figueiredo - Viajando...

Motivação 100%


É possível treinar sua mente para ela ficar viciada em atividades físicas. Confira algumas dicas que você pode adotar para ficar muito mais animado – e sem desculpas para postergar a malhação

TRACE OBJETIVOS
Independentemente do que lhe faz encarar algumas horas de malhação, o importante é que você estipule para si mesmo metas fáceis de serem cumpridas. Pode ser uma quantidade de quilos a ser perdida, um tempo menor para correr os mesmos 5 quilômetros ou até espantar o estresse e o desânimo. “Crie recompensas para si mesmo”, aconselha o neurologista David Rock. “A melhor forma de motivar a mente é dando-lhe uma ótima recompensa no final”.

DISTRAIA SUA MENTE
Converse, ouça música e faça coisas que tirem o foco do seu cérebro nas atividades físicas. Como sua mente não vê benefícios concretos nos exercícios, o melhor é distrair-se fazendo coisas que dão prazer a ela. Baixe músicas ou ouça notícias e podcasts de temas e assuntos que lhe interessam enquanto se exercita. Bater um bom papo com um amigo também faz com que você nem perceba que está malhando – e faz as horas passarem muito mais rápido.

TUDO PELO SOCIAL
Junte-se a uma equipe, inscreva-se na ioga com um amigo ou contrate um personal trainer para acompanhar seus treinos frequentemente. Quando criamos relações sociais em torno dos exercícios, fica muito mais fácil nos animarmos a praticá-los. “As próprias conexões sociais são uma ótima recompensa para nosso cérebro”, garante Rock. “Saber que alguém conta com você para a atividade física é uma boa forma de se motivar e não desistir na hora de ir malhar.”

SEJA ASSÍDUO
É importante lembrar-se dos benefícios que a atividade física vai trazer para sua qualidade de vida a longo prazo. No começo, é preciso se esforçar para criar o hábito de malhar. “Não vale se exercitar em um dia e depois ficar dois sem fazer nada”, explica o fisiologista Miguel de Arruda. “O corpo precisa de um efeito adaptativo que só é conquistado com a prática.” Entre 30% e 40% das pessoas que começam a se exercitar largam a malhação nos primeiros meses.

FAÇA ALGO PRAZEROSO
Se você odeia pedalar, não adianta nada se obrigar a fazer isso. É preciso sentir-se bem com o exercício. “Se forçarmos alguém que não gosta a correr todos os dias, o resultado será uma resposta crônica ao estresse catastrófica para a saúde do corpo e da mente”, explica a neurocientista Suzana Herculano-Houzel. “Para aumentar suas chances de se exercitar de fato, procure atividades físicas que dão prazer: pode ser dança de salão, capoeira, ioga ou futebol.”
Rafael Tonon

A Vontade de Poder


Nós só sentimos agrado para com os semelhantes - ou seja pelas imagens de nós próprios - quando sentimos comprazimento conosco.

E quanto mais estamos contentes conosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós.

É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento.

Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.

Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente.

Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma situação.
E, desta forma nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes.

Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação.
Eis porque, em virtude da doutrina do pecado e da condenação universal, o homem se aproxima de si mesmo. E até aqueles que detêm efetivamente o poder são de considerar, agora como dantes, sob este mesmo aspecto: é que, «no fundo, são uns pobres homens».
Friedrich Nietzsche
Picture by Edvard Munch

31 Dezembro 2009

Passagem do ano


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.

Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral, que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
espreitam a morte, mas estás vivo.
Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Carlos Drummond de Andrade

Reflexões


Queridos Amigos,

Aos que me conhecem de longa data, estes terão mais facilidade em entender a minha mensagem, os que não me conhecem ou não tiveram a oportunidade de fazê-lo, com certeza entenderão o que vai na minha alma nestas ultimas horas do ano que se finda.

Fico muito feliz quando abro a minha caixa de mensagens e encontro os meus amigos lá, ou pelo menos boa parte deles me desejando tudo de bom, votos de felicidade, paz, saúde, prosperidade, sucesso enfim: é tudo de bom. Me sinto realmente gratificada quando leio estas mensagens.
Sinto que as amizades que eu cultivei durante a minha existência alimentam a minha alma e aquecem o meu coração. Quando estou meio “down” (fora do high society rsrsrs) são os emails dos meus amigos que me fazem ficar “up” de novo.

Mas, amigos queridos por mais que nos esforcemos, fica muito difícil ficar “up” o tempo todo, o tempo está passando muito rápido, e as coisas estão acontecendo de forma vertiginosa, tanto que na maioria das vezes nossos sentidos não conseguem acompanhar com a mesma velocidade.

O que vou dizer agora, não é nenhuma novidade. Afinal, somos todos esclarecidos e sabemos e muito bem, como o mundo e em especial as pessoas vem se comportando em relação a tudo que nos cerca.

Não quero e nem devo ser pretensiosa, mas devemos aproveitar o ano novo para fazer o nosso melhor, porque somente nós poderemos e teremos força para fazer mudanças imprescindíveis por um mundo mais justo.

Vamos refletir mais sobre coisas latentes, sem nenhuma pretensão, mas vamos olhar mais sobre tudo o que acontece a nossa volta, vamos tentar aprender a não reclamar do sol forte, da chuva, do frio, do calor, do vento forte, do mar revolto, das folhas que caem sujando as nossas calçadas, da espera no consultório, da fila do supermercado, da fila do banco, a não jogar lixo nas ruas e nas praias, a não xingar o outro no trânsito. Eu sei que parece utópico, mas é possível.

Quando fizermos os nossos brindes para comemorarmos o novo ano que se inicia, elevemos os nossos pensamentos aos céus e oremos pelos enfermos, pelas crianças abandonadas nas ruas e nos orfanatos , pelos idosos abandonados pelos familiares e pelas nossas instituições falidas, pelos nossos amigos e inimigos também, pelos viciados, pelos presidiários – que foram parar ali para de alguma forma nos ensinar o que não devemos nunca fazer, vamos pedir a Deus sabedoria, discernimento, sensatez, paciência.

Deixemos de lado as vaidades, a vida mundana. Vamos tentar ser felizes. Eu sei que as vezes é um pouco difícil diante das injustiças e da insensatez que acomete o ser humano. Mas vamos nos reeducar.
Vamos aprender de novo em 2010 a dar bom dia até para quem não nos responde, a dizer muito obrigado por um favor recebido ou por uma gentileza, a acariciar uma criança, a dar atenção a um velhinho (a) seja ele conhecido ou não, a pedir desculpas.

Ajude em 2010 a alguém com dificuldades para atravessar a rua e principalmente valorizemos a nossa família, porque ela sim é o nosso grande alicerce e é nela que encontramos toda a SABEDORIA que tanto precisamos.

Feliz 2010
Com muito carinho

Nádia Catarina

O ano de pensar


Mudança de ano, que, com o Natal, para uns é celebração (estou desse lado), para outros, melancolia.

O que nos atrapalha é que alguém inventou que temos de tomar decisões e fazer projetos para esse novo ano. São quase sempre irreais, quase sempre não cumpridos. Aí já nos frustramos neste mundo de tantas frustrações, em que a gente teria de ser bonito, saudável, competitivo e competente, bom de cama e ruim de mesa, e uma lista interminável de "ter de".

Pois eu acho que 2010 pode ser o Ano de Pensar. Bom projeto, boa intenção. Uma só, e já é bastante. Pensar: coisa que tão pouco fazemos, embora seja o que nos distingue das outras feras.

Publiquei recentemente mais um livro para crianças (mas os adultos se divertem), chamado Criança Pensa. Com ele respondi, décadas depois, ao duplo lema dos adultos de um outro tempo, de que criança não pensa, criança não tem querer. Hoje tem querer até demais, mas isso é assunto para outra crônica. E pensar, continua pensando, apesar de todos os jogos eletrônicos e programas de computador imagináveis.

Se criança pensa – e pensa lindamente, segundo descobrimos e escrevemos, um de meus filhos, professor de filosofia, e eu –, adultos teriam de pensar ainda muito mais. Porém a gente vai se enquadrando. Família, escola, sociedade e cultura, seja o que isso for, tornam-nos menos pensantes e menos questionadores. Alguns escapam dessa mordaça e desabrocham. Podem ser os menos confortáveis, mas são os que movem o mundo.

Pensar não é uma obrigação: é um direito, e deveria ser um prazer. Naquela horinha no ônibus ou no carro, andando, nadando, comendo, não fazendo nada – o que é um luxo, e nós, bobos, poucos saboreamos –, nada melhor do que deixar tudo de lado e refletir, ou deixar as ideias vagando numa atenção flutuante, como dizia Freud. Largar mão, por alguns instantes, dos compromissos, do cansaço, da falta de tempo, da dificuldade em ser feliz, da pouca harmonia consigo e com o mundo, das tragédias, das decepções universais ou pessoais – e dar-se o prêmio de pensar. Para algumas pessoas, parar para pensar não é desmontar.

E ficariam dispensados os dez ou doze ou três propósitos, as intenções fajutas eternamente repetidas – como as de emagrecer, romper ou melhorar o relacionamento, sair de casa, voltar a estudar, vencer na vida, ter filhos, mudar de emprego ou de parceiro, deixar de beber, de fumar, de se drogar com outras substâncias. A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja realmente importante.

Pensar para ser uma pessoa mais decente; pensar para amar mais e melhor, começando por mim mesmo; pensar para votar com mais lucidez; pensar no que de verdade eu quero, se é que eu quero alguma coisa – ou sou do tipo que se deixa levar por desânimo, preguiça ou desencanto?

Pensar simplesmente para criar meu mundo particular, não num ataque de loucura, mas de criatividade. Pois o real não existe, existe o que vemos dele. Dentro de certos limites, podemos, cada um de nós, inventar o nosso mundo: sendo mais céticos ou mais otimistas, com aquele grãozinho de loucura necessário para que haja beleza e claridade e não vivamos numa caverna de trevas.

Basta ver como pensam as crianças, ainda livres das nossas inibições. "Fadas e anjos existem, não é?", pergunta-me uma delas. Respondo honestamente: "Para quem acredita, existem". Acredito que, apesar de Copenhague, o mundo não vai torrar (as opiniões dos cientistas divergem), que vamos ter motivo para nos orgulhar de nossos países, que não vai mais haver tanta miséria e cinismo, que os colégios vão ensinar melhor e exigir mais em lugar de facilitar tão absurdamente e despejar tanta gente despreparada no mundo.

Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso. Feliz 2010.
Lya Luft

29 Dezembro 2009

Strip tease

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Pobreza pode ser pior do que obesidade e tabagismo para a saúde


Ter uma renda menor do que a média pode ser pior para a saúde do que ser fumante ou obeso, segundo estudo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

Publicada na edição de dezembro do American Journal of Public Health, a pesquisa indica que uma pessoa de baixa renda perde 8,2 anos de saúde perfeita, contra 6,6 anos de um fumante regular, 5,1 anos daquele com alta evasão escolar e 4,2 anos de um obeso.

Baseados em dados de várias pesquisas nacionais que medem saúde e expectativa de vida dos americanos – assim como em análises de metas políticas, como a prevenção do tabagismo, aumento do acesso à assistência médica, redução da pobreza e educação na primeira infância –, os resultados mostram que, em média, a pobreza tem o maior impacto na saúde, seguida do tabagismo, da evasão escolar, do fato de ser afroamericano, da obesidade, beber em excesso e não ter plano de saúde.

De acordo com os autores, o controle do tabagismo e da obesidade são as mais importantes políticas de saúde pública atuais. Mas o novo estudo mostra que as taxas de evasão escolar e pobreza – que normalmente não são consideradas nesse sentido – seriam tão importantes quanto o tabagismo nos Estados Unidos e em outros países.
“Enquanto as políticas públicas de saúde precisam continuar seu foco em comportamentos arriscados para a saúde e na obesidade, devem também redobrar seus esforços sobre fatores não-médicos, como alta escolaridade e programas de redução da pobreza”, ressaltou o pesquisador Peter Muennig.

Os especialistas destacam a importância do estudo, mas alertam que mais pesquisas são necessárias para revelar o perfil dos fatores médicos e não-médicos que afetam a saúde de uma população. “As políticas que identificamos não eliminarão os fatores de risco na população; nossas estimativas podem apenas servir como diretrizes para os formuladores de políticas públicas”, concluíram os autores.
EurekAlert

26 Dezembro 2009

Ponha um tigre em sua cama



O que as pessoas não fazem para chamar atenção.

Richard & Mayumi Heene inventaram que haviam perdido o filho num balão; Tareq & Michaele Salahi entraram de penetras na Casa Branca; Susana Vieira mandou espalhar que espera encontrar um bebê na porta de casa antes do Natal (sério, está na capa da revista Quem).

Ainda sou mais Heróstrato, que, em busca de fama, ateou fogo ao templo de Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e não só concretizou seu desejo como emprestou seu nome ao complexo de que padecem os acima citados. Mas não o abaixo citado:

Massimo Tartaglia. É o italiano que agrediu Silvio Berlusconi com uma estatueta, no domingo passado. Ele é de outra enfermaria, a mesma, aliás, daquele jornalista iraquiano que quase acertou uma sapatada no Bush, em dezembro de 2008. Nenhum dos dois sofre do complexo de Heróstrato, mas, provavelmente, do complexo de Ravachol, este, sim um anarquista terrorista; e até porque não foram movidos por motivo fútil, merecem a nossa compaixão.

Tiger Woods não queria chamar atenção, muito pelo contrário, quando caía na esbórnia com moças de vida airada, escondido dos fãs e da mulher. Seu complexo, na avaliação de um jornalista americano, é o de Messias (por achar que pode tudo, que tudo lhe é permitido), embora o primeiro parâmetro que a todos ocorreu tenha sido mesmo o de Casanova. Detrás daquele mauricinho, daquele Dudu Nobre do taco, escondia-se um sátiro, um tigre permanentemente no cio.

O caso, ou melhor, o escândalo envolvendo Tiger Woods, a mulher e um vasto harém de mariposas midiáticas me impressionou um bocado.

Não me interesso por golfe (quando ouço a palavra taco, a primeira imagem que me vem à cabeça é a iguaria mexicana) e só vi o campeão em movimento naqueles comerciais da Gillette, ao lado de Kaká, Thierry Henry e Roger Federer.

Mas Woods transcende o golfe, como Pelé transcende o futebol, e a muvuca em que se meteu tem implicações que vão muito além do trivial sexualizado do submundo das celebridades.

Seu götterdamerung foi um choque de repercussão mundial, um reality show conjugal e libertino de espantosa audiência. Nem se todas as mães solteiras do Rio depositassem um indesejado bebê na porta de sua casa Susana Vieira atrairia igual atenção da mídia.

Expoente, como Obama, da afirmação negra (e pouco importa que ele se identifique como "calibasian", mistura de afrodescendente com branco, índio e asiático), Woods venceu num esporte que era tão exclusivamente branco quanto o polo e nele se revelou o mais aplicado, perseverante, competente e bem-sucedido dos atletas. Seu triunfo foi um exemplo cabal de que a meritocracia não é uma quimera. Primeiro esportista a bater, em faturamento publicitário, a barreira do U$ 1 bilhão, Woods é uma máquina de fazer dinheiro. Ou era até a madrugada de 27 de novembro, quando bateu com seu utilitário Cadillac num hidrante e numa árvore, perto de onde mora, nas cercanias de Orlando, na Flórida.

Se tivesse contado toda a verdade à polícia e aos repórteres - que sua mulher, Ellin, num acesso de ciúmes, o agredira com um taco de golfe, forçando-o a fugir de casa às carreiras e às tontas, que o vidro do carro não fora por ela estilhaçado para tentar retirá-lo do carro acidentado e sim para acertar-lhe a cabeça - e se confessado arrependido das chifradas na mulher, os alcoviteiros da imprensa não teriam um monturo para ciscar.

Woods fez tudo errado. Envolveu-se com autênticas chaves de cadeia, duas delas, pelo menos, atrizes de cinema pornô e eventualmente boquirrotas e chantagistas, mas, ao contrário do Ronaldo, nenhum travesti; revelou-se, ao longo da crise, pouco perspicaz, além de fraco, descontrolado, exibicionista e mentiroso; desiludiu a mulher, os fãs e, o pior de tudo, os seus patrocinadores.

Porque cometeu algo bem mais grave do que fumar maconha, por exemplo, como fez Michael Phelps, seus contratos milionários com numerosos produtos começaram a ser revistos e cancelados. A Gillette saiu na frente, sábado passado. No domingo, foi a vez da multinacional de consultoria de gestão Accenture, a perda maior (só em 2008 ela investiu US$ 50 milhões em publicidade, 83% desse montante em anúncios com o golfista, seu garoto-propaganda havia seis anos). A Nike prometeu estudar a situação com mais vagar, mas até quando?

Não agiram essas marcas com base em restrições de ordem moral, apenas por razões econômicas; puro business, como bem observou James Surowiecki, na New Yorker desta semana. O capital não sabe o que é santimônia.

Todas as mensagens explícitas e subliminares veiculadas pelos anúncios estrelados por Woods dependiam da imagem pública do atleta, visto como um modelo de disciplina, autocontrole, obstinação, retitude e perceptividade, o homem alfa, o pai de família perfeito. Ao conflitar com essa imagem, o garoto-propaganda perdeu todas as suas bolas de gude, virou chacota de programas humorísticos, que se fartaram de gozar os slogans e bordões dos comerciais e outdoors protagonizados pelo golfista e fazer brincadeiras com o nome dele (coisas do tipo "pegaram o tigre pelo rabo") e os vocábulos golfísticos mais expostos ao double entendre, como taco, bola e buraco.

O escândalo Woods, um vendaval no golfe, no universo corporativo, no mundo da propaganda e nas redes de televisão (caiu pela metade a audiência das transmissões dos torneios de que Woods não participou, no ano passado, porque convalescia de uma cirurgia no joelho), estendeu seus danos a outras celebridades esportivas, ameaçando-lhes o futuro como modelos publicitários. "Eles são imprevisíveis", queixou-se o consultor de uma agência com várias contas de material esportivo e refrigerantes, "e quase sempre irresponsáveis e incontroláveis."

Ninguém ousa prever o futuro de Woods. Que até pode ser cor-de-rosa, com novos contratos publicitários. Ele daria um garoto-propaganda perfeito para o Viagra. Ponha um tigre em sua cama.
Sérgio Augusto

24 Dezembro 2009

Nana Mouskouri - I have a dream