Sexta-feira, Março 02, 2012

Em busca da realização

Este desejo de elevar o mais possível a pirâmide da minha existência, cuja base me foi dada e me domina, ultrapassa qualquer outro e mal me permite um instante de esquecimento.
Johann Goethe

Voa para bem longe

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
Fernando Pessoa

Musica e palavras

A música pode ser o exemplo único do que poderia ter sido - se não tivesse havido a invenção da linguagem, a formação das palavras, a análise das ideias - a comunicação das almas.
Marcel Proust

Dúvidas...

De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida.
Bertolt Brecht

Quinta-feira, Março 01, 2012

Lucio Dalla - Caruso ... Grazie di tutto!



Caruso
Qui dove il mare luccica,
E tira forte il vento
Sulla vecchia terrazza
Davanti al golfo di surriento
Uno uomo abbracia una ragazza
Dopo che aveva pianto
Poi si schiarisce la voce,
E ricomincia il canto


Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai...


Vide le luci in mezzo al mare,
Penso alle notti là in america
Ma erano solo le lampare
E la bianca scia di un'elica
Senti il dolore nella musica,
E si alzo dal pianoforte
Ma quando vide uscire
La luna da una nuvola,
Gli sembro piu dolce anche la morte
Guardò negli occhi la ragazza,
Quegli occhi verdi come il mare
Poi all'improvviso usci una lacrima
E lui credette di affogare


Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai


Potenza della lirica,
Dove ogni dramma è un falso
Che con un po' di trucco e con la mimica
Puoi diventare un altro
Ma due occhi che ti guardano,
Cosi vicine e veri
Ti fan scordare le parole,...
Confondono i pensieri
Cosi diventa tutto piccolo,
Anche le notti là in america
Ti volti e vedi la tua vita,
Dietro la scia di un'elica
Ma si, è la vita che finisce,
E non ci penso poi tanto
Anzi, si sentiva gia felice,
E ricomincio il suo canto


Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai


Caruso
Aqui onde o mar brilha
e sopra forte o vento
sobre um velho terraço
em frente ao Golfo de Sorrento
um homem abraça uma mulher
depois de haver chorado
depois limpa a voz
e recomeça o canto


Eu te amo tanto
mas tanto, tanto, tanto, sabe?
é uma "corrente"
que faz o sangue queimar nas veias, sabe?


viu luzes em alto-mar
lembrou de noites lá na América
mas eram só lanternas a brilhar
no rastro branco de uma hélice
sentiu doer a música
se levantou do piano
mas vendo a lua surgir
atrás de uma nuvem
até a morte lhe pareceu mais doce
olhou fundo nos olhos da mulher
aqueles olhos verdes como o mar
de repente viu escapar uma lágrima
e pensou esta a se afogar


Eu te amo tanto
mas tanto, tanto, tanto, sabe?
é uma "corrente"
que faz o sangue queimar nas veias, sabe?


Que poder é esse da ópera
onde todo drama é falso
onde com um pouco de maquiagem e representação
podemos nos transformar em outro
mas quando dois olhos te olham assim
tão perto e verdadeiros
te fazem esquecer as palavras
confundem teus pensamentos
então fica tudo tão pequeno
até as noites lá na América
você se vira e vê toda a sua vida
no rastro branco de uma hélice
mas é isso, é a vida que termina
mas ele nem se preocupou
ao contrário, já se sentia tão feliz
que recomeçou seu canto


Eu te amo tanto
mas tanto, tanto, tanto, sabe?
é uma "corrente"
que faz o sangue queimar nas veias, sabe?

Quarta-feira, Fevereiro 29, 2012

Mergulho de cabeça

... Não consigo molhar os pés apenas 
eu mergulho e só paro quando me afogo
eu me queimo e só paro quando derreto
eu me jogo e só paro quando me param.
Martha Medeiros



Estratégia do Nagib

Zezão parou o caminhão na frente da loja do Seu Nagib e falou:

- Seu Nagib, tem aqui um caminhão de arroz sem nota pela metade do preço,  o senhor aceita?

- Claro que Nagib aceita - e vira-se para o filho.

- Kaled, vai bra esquina e se abarecer fiscal vem corendo avisar babai.

Começam a descarregar e, no meio, aparece Kaledinho:
- Babai!... Fiscal vem vindo

- Bára tudo e volta caregar - grita Nagib.

Chega o fiscal:
- Venda grande não é seu Nagib?

- Ôh ôh, melhor venda do ano que Nagib feiz...

- E isso aí tem nota?

- Ainda num tem nota borquê Nagib está esberando carega bra ver quanto mercadoria cabe na caminhon... daí, Nagib tira nota.

- Não pode! diz o fiscal. A nota fiscal tem de ser emitida antes de carregar!

- Ah!.... Antão bára tudo, que Nagib non qué brobrema com receita!...
- Volta, volta, descarega tudo caminhón e guarda lá dentro do loja!....

Inconsciente coletivo do leonino

Carl Jung revolucionou a psicanálise com a descoberta do inconsciente coletivo. 
Esse Leonino usou sua personalidade introvertida com a função superior intuitiva para dizer que somos muito mais que matéria.
Comentário "Anônimo"

Quando comentar, coloque um nome. 
"Carol, Pedro, Chico, Maria..."

Persona e Sombra, na Psicologia Junguiana

"No processo terapêutico, temos que conhecer a persona para ajudar a pessoa a encontrar seu eu verdadeiro"

Persona é uma de origem palavra latina, nome de uma máscara usada pelos atores na antiguidade.

Jung usou este termo para mostrar a maneira como uma pessoa adapta-se ao mundo; é sua máscara, sua maneira de ser socialmente. Essa máscara é necessária para nos adaptarmos à vida e sobrevivermos em sociedade.

A criança já na infância, tenta se comportar para receber aprovação de suas atitudes. Enquanto cresce, pais e professores na escola vão transmitindo seus valores. Assim aos poucos se desenvolve essa “persona”, que estará presente na profissão e nos papéis da vida. Mas com isso podemos nos esquecer de nosso “ego”, nosso verdadeiro eu. Quando alguém se identifica somente com a persona e esquece-se do ego, tende a ficar frio e vazio.

O espelho

No conto “O espelho”, Machado de Assis, descreve um personagem identificado com a 'persona’. Trata-se de um alferes (antigo posto militar) que orgulhava-se de sua farda. Quando saia de férias, ia para a fazenda e trocava a farda por um pijama. Aos poucos notava que sua imagem no espelho estava desaparecendo, e acabava sumindo. Ele ficou desesperado e vestiu a farda novamente, e ao se olhar no espelho, lá estava sua imagem novamente.

"- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior."

"Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando..."

Isso acontece quando se confunde a individualidade com um papel social. A pessoa se identifica somente com a persona e esquece-se de seu verdadeiro eu. Ao incorporar essa máscara a pessoa se sente forte e poderosa, mas não se humaniza, é rígida.

Enfim, essa máscara é apenas um papel que pode ser o de professor, médico, filho, artista... Por isso Machado de Assis - nosso escritor maior - era psicólogo sem saber.

No processo terapêutico, temos que conhecer a persona para ajudar a pessoa a encontrar seu eu verdadeiro.

Mas não ter “persona” é tão negativo quanto tê-la em excesso. Ela é necessária para nos relacionarmos com uma certa civilidade. Ninguém fala tudo o que sente, há um limite, um respeito com o próximo, mas que não nos faça esquecer quem somos verdadeiramente.

O Espelho - Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II



"Buscamos e projetamos no outro aquilo que é oculto em nós no nível inconsciente. Ou seja, a nossa sombra"

No texto acima, citei o conto de Machado de Assis O Espelho para explicar o conceito de persona (máscara) utilizado por Jung.

Outra figura que Jung utilizou para descrever a personalidade é a sombra.

A sombra é o que foi reprimido para formarmos um ego ideal. Ela é inconsciente, e como tudo que é inconsciente, é projetado no outro.

Ela representa nosso inconsciente pessoal. Aparece em sonhos e fantasias. Por exemplo, uma mulher muito passiva e dependente sempre se relaciona com homens violentos. Sua “sombra” deve ser violenta, deve esconder ou ocultar essa característica que ela projeta nos parceiros. Para ela, é ele quem é violento e não ela. Quem sempre culpa “o outro” por seus problemas não conhece a própria sombra.

Uma das funções da terapia é ajudar o paciente a ter contato com sua sombra, seu lado reprimido inconsciente, que não é só negativo. Pode também ser muito positivo e estar reprimido, desconhecido. Por exemplo, uma pessoa apagada pode conter um grande artista em sua sombra.

Em alguns casos é fácil perceber, a pessoa muito generosa, pode esconder um terrível egoísta, a mãe amorosa pode esconder uma bruxa cruel...

Durante a terapia, através dos sonhos, das fantasias podemos identificar aspectos da “sombra e da “persona”, e ajudar a trazê-los para o nível consciente
Leniza Castello Branco

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

Enfim, a emancipação masculina

Lembro de um evento psicanalítico ocorrido em Porto Alegre, anos atrás, sobre “Masculinidade”. De repente, apareceu um engenheiro por lá, adentrando o mundo dos psis. 

Ele queria entender, como homem, a sua falta de lugar no mundo. Não sei se conseguiu, mas sua presença foi um belo movimento para fora do território conhecido, onde as contas já não fechavam, rumo ao insondável. Ainda tateando sobre esse tema tão fascinante, penso que a melhor notícia para todos nós é a confusão sobre o lugar do homem. Sobre isso, Laerte Coutinho, entrevistado no Roda Viva (TV Cultura) de 20/2, fez uma grande observação: os homens nunca fizeram a revolução masculina.

Para começar, quem é Laerte? Se você não ouviu falar dele, está perdendo uma revolução encarnada numa pessoa. Antes, porém, é importante sublinhar que ele talvez seja o maior cartunista brasileiro. Para mim, é um gênio. E não é uma opinião solitária. Não aquele gênio banalizado dos manuais 171 vendidos nas livrarias, mas gênio mesmo, daqueles que nasce um a cada muitos e muitos e muitos anos. Só para recordar, são dele histórias em quadrinhos como “Piratas do Tietê” e personagens como Overman, Deus e Fagundes, o Puxa-Saco. A minha vida, pelo menos, seria mais pobre se eu não pudesse ler todo dia as tirinhas do Laerte publicadas na Folha de S. Paulo.

Em 2010, Laerte passou a se vestir de mulher – publicamente. Tipo ir à padaria de saia e meia-calça. Laerte se tornou ora ele, ora ela, ele/ela no mesmo corpo e na mesma cabeça. E, desde então, não para de dar entrevistas nas quais parte dos entrevistadores tenta, com certo grau de ansiedade, encaixá-lo/a em alguma definição. A novidade, no sentido libertador do novo, mesmo, é que Laerte se coloca para além das definições. Nem acho que cross-dresser (homem que gosta de se vestir de mulher – ou vice-versa – sem necessariamente ser gay) serve para enquadrá-lo/a. Acho que todos nós ganharíamos – “héteros, gays, bissexuais, transgêneros, travestis, transexuais, assexuais etc etc” – se abolíssemos a necessidade de caber em algum verbete. Seres humanos não são como aqueles jogos de montar para crianças pequenas, em que é preciso encaixar o retângulo no retângulo, o triângulo no triângulo e assim por diante. A única definição que vale a pena é justamente a indefinição. Sou aquele/a que é sem se dizer. Ou sou aquele/a que é sem precisar dizer o que é.

E essa é a novidade de Laerte, que é homem, é mulher, é masculino, é feminino e é também alguma coisa além ou aquém disso. Que se veste de mulher, mas fala e caminha como um homem. Que na infância gostava de costura e de futebol. Que vai jantar de saia e unhas vermelhas com uma namorada, mas pode também ter um namorado. Que enfia um pretinho básico sem se tornar efeminado. Que começa a entrevista de pernas cruzadas e, lá pelas tantas, se empolga e abre as pernas sem se importar que no meio delas more um pinto. Laerte é novo/a porque nos escapa. É um homem novo, mas também pode ser uma mulher nova.

Em janeiro, Laerte foi protagonista de uma polêmica ao ser repelido/a no banheiro feminino de uma pizzaria paulistana por uma cliente que se sentiu incomodada com sua ambígua figura. Surgiram então ideias esdrúxulas, como a de fazer um terceiro banheiro para os que não se enquadrariam nas definições tradicionais. Se o terceiro banheiro vingar, vou começar a frequentar os três, porque começo a achar uma afronta a exigência de que eu tenha de me definir para fazer xixi. Por agora, acho tão ultrapassado haver banheiros separados por qualquer coisa, que nem pretendo me estender nesse assunto. Era apenas para contar um pouco quem é Laerte para aqueles que ainda o/a estão perdendo. E desembarcar no tema que me interessa mais.

A certa altura da entrevista, ele/ela fez a seguinte observação: “Existiu a tal da revolução feminina, que é um dos marcos da humanidade. O que não aconteceu é a revolução masculina”. Laerte referia-se ao fato de que as mulheres já fizeram mil e uma rebeliões e continuam se batendo por aí. Marlene Dietrich, por exemplo, causou comoção por usar calças, mas isso em 1920! Quase um século depois, Laerte nos empapa de assombro por ir ao supermercado de saia. Isso diz alguma coisa, não?

Eu acho que não é nada fácil ser homem hoje em dia porque não se sabe o que seja isso. Mas, se essa dificuldade fez o engenheiro do primeiro parágrafo ousar se sentar na plateia de um seminário de psicanalistas para se entender, esta é também a melhor notícia possível para um homem. A princípio, os homens nunca precisaram fazer nenhuma revolução para conquistar direitos porque supostamente tinham todos eles garantidos desde sempre. Uma posição cômoda, mas apenas na aparência. Podiam fazer o que bem entendiam. Desde que fossem “homens”. E aí é que morava – e ainda mora, em muitos casos – a prisão. Podiam tudo, desde que fossem uma coisa só.

Ser forte e competitivo; sustentar a casa e a família; ter todas as respostas, muitas certezas e nenhuma dúvida; gostar de futebol e de vale-tudo; dar tapas nas costas do colega; falar bastante de mulher, mas jamais de intimidade; nunca demonstrar sensibilidades; dar mesada para a esposa; fazer o imposto de renda; resolver o problema do encanamento... Que peso incomensurável. Era isso ser homem por muitos séculos, sem falar nas guerras. E era preciso estar satisfeito com isso porque, afinal, você estava no topo da cadeia alimentar da espécie, ia reclamar do quê?

Acontece que, hoje, nenhuma das características citadas define o que é ser um homem. Assim como nenhuma característica – tradicional ou não – define o que é ser uma mulher. Do mesmo modo que a anatomia também não é mais capaz de definir o que é ser um homem e o que é ser uma mulher. E nem a escolha da carreira ou a posição na sociedade. Se há algo que define o que é ser um homem e o que é ser uma mulher, este algo está fora das palavras. E isso é o que torna Laerte fascinante: ele se apropriou da confusão e tornou-se a indefinição.

Graças às mulheres, e também aos homens que ousaram sair do armário (e aqui não me refiro somente à orientação sexual), os homens começam a autorizar-se a vagar sem rumo por aí, cada um do seu modo. Até porque não há caminhos já trilhados para seguir, já que não é mais possível apenas refazer os passos do pai ou do avô – nem é suficiente se contrapor totalmente a eles e segui-los pelo avesso. O que há são vidas a serem inventadas.

É claro que muitos homens se arrastam pelas ruas lamentando a perda de lugar. Sem saber o que fazer da existência nem de si, alguns arrotam alto ou espancam gays na tentativa pífia de mostrar que ainda sabem o que são. Perder o lugar e confundir-se não é fácil, não é mesmo. Mas é um espaço inédito de liberdade. É possível arrancar o terno de chumbo e descobrir que pele existe embaixo dele. E faz parte estar ainda em carne viva.

Acho que os homens alcançaram, finalmente, um começo de emancipação. E espero que as mulheres tenham a grandeza de estar à altura desses novos homens que começam a surgir. E enfiem a saudade do macho provedor na lata de material reciclável. Porque há muitas mulheres que ainda suspiram de nostalgia do macho provedor, mesmo se achando modernas e liberadas. Pode até ser que esse seja um bom arranjo para alguém, mas já não há garantias. Faz parte da jornada amorosa acolher a confusão dos homens que amamos porque tudo deve ser mesmo muito novo e muito assustador para eles.

Uma amiga contava, dias atrás, que seu marido passou uns tempos arrebatado pela agente do FBI da série americana “Fringe” (ótima, aliás!). Ocorre que Olivia Dunham, a dita agente, é uma loira linda, inteligente e destemida. E ocorre que o marido da minha amiga não estava encantado no sentido erótico convencional: ele não queria transar com Olivia Dunham, mas “ser” a agente do FBI.

Os leitores com menos imaginação e ainda presos ao velho mundo pensaram nesse instante: o cara é gay. Não, ele não é. Ele pode preferir transar com mulheres – e, no caso, faz minha amiga muito feliz – e se identificar com a agente Olivia Dunham como outros se identificam com os personagens sempre “muito machos” de Sylvester Stallone ou até com o Neymar. Há espaço para tudo. E para todos. Se podemos ter fantasias infinitas, para que se limitar, seja nós o que formos? Minha amiga, que é sábia, achou muito divertido. E, assim, teve a experiência de namorar Olívia Dunham algumas vezes. Ainda não é para qualquer um/a, mas que pena que não é.

Lembram da frase mítica? “Uma terra onde os homens são homens, e as mulheres são mulheres”. Ufa, o faroeste se foi e ninguém sabe bem o que é ser homem nem o que é ser mulher nos dias de hoje. E não, os homens também não são de Vênus, nem as mulheres de Marte. Ou será que era o contrário?

Se estivermos à altura do nosso tempo, descobriremos que há infinitas possibilidades – e não uma só – de sermos seja lá o que for. Como alguém disse no twitter: “Na vida, não limite-se. Laerte-se!”.
Eliane Brum

Domingo, Fevereiro 26, 2012

Algumas frases de Jung

"Existem bilhões de pessoas no planeta e muitos tipos de personalidades diferentes algumas são introvertidas outras extrovertidas algumas se guiam pela lógica e outras pelos sentimentos. Em um mundo com tanta diversidade como aprendemos a lidar com os aqueles que são diferentes ? E como aprendemos a entender e aceitar quem nós somos ?"

"Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências, mas nem mesmo percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas e os resultados somente através das experiências."

"Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade. Se um homem não sabe o que uma coisa é, já é um avanço do conhecimento saber o que ela não é."

"Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos "




Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung nasceu em Kesswil, cantão da Turgóvia, região às margens do lago Constança, Suíça, no dia 26 de julho de 1875. 

Filho de Johann Paul Jung, pastor protestante da igreja reformada e de Emile Preiswerk. 

Sua mãe era uma dona de casa instruída e culta que o incentivou à leitura do Fausto de Goethe na adolescência.

A infância foi vivida no campo, em contato com a natureza e entre os livros da silenciosa biblioteca de seu pai, onde leu textos de filosofia e teologia.

Quando chegou à Universidade de Basiléia para estudar medicina, Jung detinha razoável conhecimento de filosofia, nutrindo especial interesse pelas idéias de Kant e Goethe. O seu entusiasmo filosófico leva-lo-ia, ainda, às idéias de Schopenhauer e às de Nietzsche, que exerceriam significativa influência na construção de sua teoria psicológica.

Concluído o curso de medicina, Jung dedicou-se à psiquiatria, como assistente do professor Eugene Bleuler no Burgholzi Psychiatric Hospital, da Universidade de Zurich, interessando-se preponderamente pela esquizofrenia.

O contato com a obra de Freud ocorreu através do livro A interpretação dos sonhos, cuja leitura por Jung deu-se em dois momentos. No primeiro, a obra não lhe causou impacto nem despertou interesse. Em segunda leitura, percebeu a extensão e a profundidade com que Freud tratou a questão dos sonhos. Essa leitura aproximou os dois maiores estudiosos do inconsciente numa amizade, fecunda e tumultuada, que durou cerca de sete anos.

Nos primórdios de sua relação com Freud, Jung permaneceu receptivo à teoria da sexualidade infantil. Todavia, ao longo do tempo em que estudou e praticou a psicanálise freudiana, não conseguiu encontrar, nos seus fundamentos teóricos, elementos que dessem conta dos fenômenos com os quais se defrontava no tratamento de psicóticos, principalmente esquizofrênicos. Nesses pacientes, a doença decorria de grave dissociação da mente, não apresentando traços de uma etiologia sexual.

A partir desse impasse, Jung desenvolveu estudos de alquimia, mitos e lendas na busca de elementos que contribuíssem para a elucidação das questões levantadas pela clínica da psicose. Foram principalmente essas questões que o fizeram demandar outras perspectivas de análise, tais como a abordagem simbólica e a hermenêutica. Com o instrumental teórico oferecido por esses métodos, identifica nos mitos, lendas e processos alquímicos a estrutura e a dinâmica psíquica por ele encontrados na clínica da psicose.

A partir dessa constatação, são fundados os pilares em cima dos quais Jung afima que essa estrutura, enquanto forma, seria um componente da psique, presente em todos os indivíduos desde o nascimento, chegando então à sua hipótese mais refinada - a da existência de um substrato desconhecido na mente humana, responsável pelo lado obscuro da psique, que ele denominou de inconsciente coletivo que configura a dimensão objetiva da psique e contém o aprendizado resultante da experiência humana em todos os tempos, herdado pelo indivíduo como disposições ou virtualidades psíquicas.

O inconsciente coletivo, dotado de propósito ou intencionalidade, cuja força energética repousa em elementos primordiais ou arcaicos denominados arquétipos, é determinante dos fatos psíquicos. Jung considera que é a psique coletiva, no seu embate com o ambiente externo e suas exigências, que gera o que ele denominou de inconsciente pessoal, e não as vicissitudes da pulsão como postula a teoria freudiana.

Galileu, ao abandonar o finalismo e quaisquer considerações qualitativas no exame da realidade, marcou o início da ciência moderna: a física passa a apoiar-se exclusivamente em relações quantitativas e mensuráveis. Esse modelo, influenciado pelo racionalismo cartesiano, consolida-se com Isaac Newton, cujo método de investigação centra-se nas relações de movimento, base de quaisquer fenômenos encontrados na natureza.

A mecânica newtoniana vê o espaço e o tempo como entidades dotadas de grandeza absoluta. As relações de movimento existentes num universo dominado pelo espaço e pelo tempo constituem os pilares da física, paradigma da ciência moderna, modelo que foi extrapolado para as ciências biológicas, humanas e sociais.

Na procura de respostas fora do quadro teórico da ciência moderna, Jung contrapõe-se ao modelo científico dominante, buscando sustentação teórica na perspectiva finalista, abolida da ciência desde Galileu e, desse modo, expõe-se à crítica da comunidade científica, diante da qual tem o seu status de pesquisador questionado, sendo-lhe atribuída atitude mística na condução dos estudos psicológicos.

Adotando postura empirista, Jung encaminha-se para uma abordagem fenomenológica do fato psíquico, com sustentação no método hermenêutico. Wilhelm Dilthey, filósofo neokantiano, que se preocupou fundamentalmente com as diferenças entre a metodologia das ciências naturais e a dos estudos humanos, aponta esse método como o mais adequado para as ciências humanas. A hermenêutica é a ciência da compreensão e da interpretação que constituem a especificidade das ciências do espírito.

Como a dimensão inconsciente da psique é inacessível a um exame direto, o modo possível de investigação da realidade psíquica estaria fundado no exame e na interpretação dos seus produtos. Freud e Jung usam, ambos, o método interpretativo como caminho de aproximação da realidade psíquica. Na perspectiva freudiana essa interpretação é analítica, causal e reducionista. Enquanto do ponto de vista junguiano é amplificadora, finalista, prospectiva e sintética.

O fato de Jung ter-se definido pelo finalismo não significa que tenha assumido algum tipo de irracionalidade em seu trabalho científico. O seu racionalismo não é de ordem cartesiana, mas sustenta-se na estrutura interpretativa, com metodologia fenomenológica. No corpo de sua obra, encontram-se referências em que ele opõe-se à interpretação metafísica ou sobrenatural da realidade psíquica, argumentando que o dado empírico ou fenomenológico é o único que conta e que pode ser examinado pelo estudioso da psicologia humana.

J.J. Clarke diz que Jung estaria mais à vontade no ambiente científico contemporâneo, que parece romper com a linearidade do modelo newtoniano. De fato, o paradigma emergente sinaliza que a realidade escapa ao enquadramento linear, causal e mecanicista proposto pela ciência moderna.

Para Jung a ciência é projeção psíquica dos cientistas e os modelos teóricos aproximações e não retratos fiéis da realidade. Nessa perspectiva, o conhecimento científico está mais perto de uma metáfora por meio da qual o mundo é interpretado que de um conjunto de dados articulados enunciadores de uma verdade confirmada. Para ele, cada teoria, como criação da mente, está subordinada à interioridade do cientista que a formulou, cuja realidade psíquica é projetada no mundo exterior na forma de teoria científica. Jung via a ciência como um mito destinado a explicar o universo cuja natureza íntima, para ele, permaneceria para sempre incognoscível. Essa visão é um dos pilares em que se assenta o quadro epistemológico do modelo científico emergente.

Carl Gustav Jung faleceu em 06 de junho de 1961. Criador da psicologia analítica e reconhecido como um dos sábios do século, deixou significativas contribuições científicas para o estudo e compreensão da alma humana. Sua obra reflete profundo interesse pelas questões espirituais, enquanto fenômenos psíquicos.

Jung e os Fenômenos Mediúnicos


Uma série de três artigos foi publicada pela centenária revista italiana “Luce e Ombra” (Luz e Sombra), enfocando as experiências mediúnicas do fundador da moderna psiquiatria, Carl Gustav Jung (1885-1961), que privou da convivência do igualmente famoso Sigmund Freud(1856-1939), considerado o Pai da Psicanálise. Jung, porém, por aceitar a reencarnação e a comunicabilidade dos espíritos, deu um largo passo para melhor conhecer e compreender determinados sintomas da loucura, visões, sonho e algumas manifestações patológicas mal interpretadas pela ciência, como, por exemplo, a catalepsia, vista pelo cientista da psique como um determinado tipo de mediunidade.


No primeiro dos artigos, divulgados pela revista italiana e assinado pela médium e divulgadora espírita Paola Giovetti, importantes revelações são feitas e narrada a intimidade do Dr. Jung em reuniões mediúnicas, sem esquecer de trazer à tona como tudo havia começado para o jovem Carl Jung, desde tenra idade. Ele sabia do teor dos diálogos mantidos pelo seu pai com o Espírito Emilie, que fora nada mais nada menos que sua mãe, desencarnada quando era ainda bem pequeno. Esses encontros, entre o pai e o espírito da mãe, eram tão freqüentes e levados a sério que o pai de Jung mantinha uma cadeira propositadamente vazia em seu escritório, para “acomodar” o espírito visitante e com ele manter longos diálogos. E estas tertúlias provocaram ciúme na nova esposa, pois o pai de Jung era casado em segundas núpcias. Donde se pode concluir pela autenticidade do fenômeno, e neste caso específico, que o Sr. Jung fosse médium auditivo e muito bem dotado de mediunidade de vidência.

Eis, sem dúvida, o ponto de partida, o toque inicial que iria se desenvolver no correr dos anos e que acompanharia Carl Jung por toda a sua existência terrena, fazendo dele um grande estudioso dos fenômenos mediúnicos e deles tirando substanciosos ensinamentos e provas contundentes da comunicabilidade entre encarnados e desencarnados.

O segundo artigo, também divulgado no mesmo número da revista, pois estão seqüenciados, descreve a intimidade de Carl Jung na Suíça e é o resultado de uma visita que lhe foi feita em março de 1949 pelo estudioso da fenomenologia espírita Gastone de Boni, amigo de Ernesto Bozzano. Foi uma longa e proveitosa entrevista, que revelou interessantes detalhes sobre o comportamento de Jung, que residia então às margens do lago Zurique, num pequeno castelo onde vivia com a família, também conhecido como "La Torre".

Diante daquele estudioso e divulgador espírita, Carl Jung sentiu-se bem à vontade para comentar suas experiências e oferecer ao entrevistador uma série de fotos, inclusive com a família, e que foram estampadas pela revista para ilustrar os referidos artigos. Nesta entrevista, Jung estendeu-se sobre o assunto, e esse rico diálogo entre ambos veio contribuir para uma melhor apreciação sobre a real personalidade do Dr. Jung e de como este via e interpretava a mediunidade e os Espíritos que se serviam deste veículo de comunicação entre os mundos físico e material.

No terceiro artigo apresentado pela entrevista, o último da série, temos a assinatura do atual presidente da “Fondazione Biblioteca Bozzano – De Boni”, Massino Biondi, que dá um enfoque ampliado da vivência de Jung junto aos médiuns e aos espíritos. Igualmente contribui com uma riqueza de detalhes curiosos e valiosos sobre a infância de Carl Gustav Jung. Evidentemente, e não poderia deixar de ser, o enfoque é sob as lentes do Espiritismo.

O primeiro artigo traz o sugestivo título “O envolvimento de Carl Gustav Jung com as temáticas paranormais e espirituais”. O segundo é intitulado “Uma visita a Carl Gustav Jung”. E o terceiro e último da série, “Horizontes espiritistas de Jung”, que também traz revelações preciosas sobre as experiências mediúnicas vividas por Jung com dois grandes e reconhecidos médiuns austríacos, e da amizade entre Jung e o pesquisador Scherenck-Notzing.

“O pensamento e a obra de Jung (Carl Gustav Jung – 1875-1961) fazem parte do patrimônio cultural do nosso tempo, não somente porque se referem à psicologia e à psiquiatria, mas igualmente aos problemas religiosos, aos temas existentes entre religião e psicologia e, antes de tudo, aos fenômenos paranormais, pois é grande o envolvimento de Jung com as temáticas paranormais e espirituais”.

Assim começa o artigo da médium e divulgadora espírita italiana Paola Giovetti, sobre o fundador da moderna psiquiatria, texto esse estampado pela revista “Luce e Ombra” (Luz e Sombra), de Bolonha, com judiciosos comentários e interessantes revelações sobre este que foi discípulo de Sigmund Freud(1856-1939) e de quem recebeu as primeiras noções sobre psicanálise. O artigo, como divulgou o SEI de 4 de setembro, é intitulado “O envolvimento de Carl Gustav Jung com as temáticas paranormais e espirituais”.

Jung, filho de pastor protestante, desde cedo tomou contato com os relatos mediúnicos, interferências e comunicações espirituais através da leitura da Bíblia, em que aparecem os profetas (médiuns, na concepção espírita) sendo utilizados pelos espíritos orientadores para se comunicarem com o povo hebreu e assim orientá-lo. Nestas leituras tiveram início as indagações de Jung sobre os espíritos e seu relacionamento com a humanidade encarnada. Assim, desde criança Jung já se ocupava em traduzir ou entender os sonhos e os mistérios dos elementos psíquicos do mundo invisível.

Ainda na infância se viu privado da assistência materna, com o retorno de sua mãe ao Mundo das Verdades Imortais. Entretanto, e para seu consolo, a alma da bondosa genitora retornara do Além e se fazia presente no gabinete de trabalho do pai. Assim, naquele estúdio era mantida uma cadeira vazia para “acomodar” o espírito que, pontualmente e uma vez por semana, se apresentava e mantinha longos diálogos com o pai de Jung. Este fato foi presenciado por todos os moradores da casa e o fenômeno se dava de forma tão intensa que a segunda esposa do Sr. Jung sentia ciúmes com a presença daquele espírito de singular beleza.

Aos 20 anos de idade, Jung entra para a faculdade, ocasião em que desencarna o pai, que era seu amigo e mestre. Esse inesperado acontecimento lhe traz uma recordação muito triste por se lembrar ainda de quando se despediu de sua mãe querida. A partir daí se acentuaram no jovem Jung o interesse em entrar em contato (não sabia como) com o outro lado da vida. Por uma feliz coincidência, despontou nessa época a mediunidade ostensiva em uma de suas primas, Helene Preiswerk, que facilmente entrava em transe mediúnico, pondo-se em contato com os espíritos. Jung viu aí a oportunidade para obter as informações que desejava. 

Ele não se decepcionou, embora não ficasse de todo satisfeito com os resultados obtidos através da mediunidade de Helene. Expliquemos: as entidades que dela se serviam não eram as mais bem dotadas de conhecimentos e sabedoria. Estas experiências, que poderiam levá-lo ao desânimo, ao contrário, fortaleceram ainda mais seu interesse pelo intercâmbio com o invisível.

Pouco tempo depois, Jung se serviu desta experiência para apresentar uma tese ao professor Eugen Bleuer, com quem iniciara seus estudos de psiquiatria. Esta tese teve um título, aliás muito sugestivo: “Psicologia e patologia dos assim chamados fenômenos ocultos.”

Jung, até então, não dera interpretação, em termos espiritistas, àquelas manifestações mediúnicas e para as personalidades desencarnadas que se comunicavam através da médium Helene. Por outro lado, jamais negara o fenômeno, como ficou comprovado pela tese apresentada ao Prof. Bleuer, na qual afirma e autentica aquelas comunicações. Helene, por sua vez, declarava tratar-se de entidades desencarnadas, espíritos oriundos das esferas invisíveis, pois, segundo acreditava, seria incapaz de produzir aquelas manifestações observadas por Jung e atribuídas ao inconsciente, embora ele mesmo visse nos fenômenos “estruturas desconhecidas da personalidade tendentes a emergirem”.

Jung interpretava as manifestações a partir da psique, da qual tudo se originaria, sem atribuir aos Espíritos a sua causa geradora. Não se referia ao espírito, diretamente, mantendo-se na fronteira entre os dois mundos. Logo, porém, ele, senhor de uma sadia e forte personalidade, afirmaria: “Cheguei, vi e descobri alguns objetivos referentes à psique humana. Estas experiências (as mediúnicas) varreram fora da minha precedente filosofia a dúvida, o que me possibilitou chegar a uma posição muito interessante, do ponto de vista psicológico”.

Allan Kardec (1804-1869), dentro de uma visão mais ampla e que oferece um panorama coerente da vida, definiu o Espiritismo como ciência, filosofia e religião, sendo, por isto, uma árvore frondosa e capaz de acolher toda manifestação do sentimento e do conhecimento humanos.

Assim, a investigação sobre a realidade espiritual, a reflexão acerca da mesma e a associação desses esforços às noções de Deus e do destino, se incluem, naturalmente, no Espiritismo.

Carl Gustav Jung (1875-1961) foi um dos grandes colaboradores para a divulgação dos fenômenos mediúnicos, embora não conste que tenha feito uma profissão de fé nos moldes espíritas, pois, como cientista, evitou pronunciar-se ostensivamente quanto à realidade das comunicações, a sobrevivência da alma e até mesmo a reencarnação, embora toda a sua vida tenha sido cercada por médiuns e fenômenos.

Destacamos a mediunidade de sua mãe Emilie, que possuía a faculdade de vidência, naquele tempo interpretado como “segunda vista”, e que proporcionou algumas revelações na intimidade familiar, como descreve a Profª. Paola Giovetti em longo artigo recentemente divulgado pela revista “Luce e Ombra” (Luz e Sombra), da Itália, no qual afirma: “Este interesse pelos fenômenos ocultos foi sempre característico na família materna de Jung, e o próprio Jung, em avançada idade, confessou que a mediunidade de sua prima Elene lhe possibilitou caminhar muito em direção ao que ele chamava ‘reino das sombras’, e que ela foi ‘uma alma realizada”. Assim, enaltecendo a médium, Jung enaltece e valoriza a mediunidade.

Avançando em estudos sobre a fenomenologia mediúnica, Jung modifica a usada conceituação do subconsciente para empregar um novo termo, e assim definir os fenômenos mediúnicos: sincronicidade, conforme texto de uma carta enviada ao estudioso da paranormalidade, o inglês Dr. John R. Smythies, na qual se lê: “No meu trabalho sobre a sincronicidade não me esgoto de fazer especulações”. Isto escrevia ele em 1952, quando em seus estudos constatou e existência de relações significativas entre ocorrências nas quais não se observava uma ligação de natureza causal.

Jung dedicou boa parte de sua vida ao estudo dos sonhos e das visões, e ele mesmo viveu experiências interessantes neste vasto campo, embora lutasse com sérias limitações, pois agia sem o amparo e sem a interpretação que a Doutrina Espíritas oferece e que o ajudaria a melhor compreender que todos os espíritos reencarnados gozam de parcial liberdade enquanto repousa o corpo físico, o que lhes permite entrar em contato com outros espíritos, encarnados ou não.

Num desses momentos de parcial liberdade, Jung-espírito entrou em contato com vários desencarnados, sendo que um destes era uma entidade culta, que dialogou com ele em latim. Isto o deixou em desvantagem, pois não dominava inteiramente aquela língua. E despertou sob forte agitação, como que envergonhado. Outro exemplo: quando em desdobramento (na terminologia espiritista), Jung vai ao encontro do espírito do pai em busca de orientação e conselho em relação à maneira de conduzir seus estudos psicológicos. Pouco antes do falecimento de sua genitora, Jung teve um outro encontro com o pai, na erraticidade, e este lhe falou de um problema consciencial gerado durante a vida de casado, quando cometera pequeno deslize de adultério.

Numa carta datada de 1934, Jung escreve ao Prof. J.B. Rhine narrando um importante fenômeno físico ocorrido na sala de sua casa quando teve os sentidos atraídos para um determinado armário, onde se guardava os talheres de uso normal. Ao abrir uma gaveta, notou que a faca mais usada pela família estava quebrada em quatro pedaços. A revista “Luce e Ombra” publica a foto da faca, como ilustração.

Veremos, em novas oportunidades, outros valiosos e importantes fatos mediúnicos na vida desse respeitável cientista.

Carl Gustav Jung (1875-1961), ao contrário de seu mestre Freud, deu largos passos no campo da experimentação mediúnica, estudando as diversas formas de manifestações que, como ele pôde constatar, não se limitavam a uma única religião, a um único povo, a uma única cultura, ocorrendo até mesmo entre as chamadas populações primitivas da África, e sendo hoje compreendidas e aceitas como uma interação ou intercâmbio entre os dois planos da vida. 

Em viagens de estudo, para ter uma visão mais ampliada desses eventos mediúnicos, Jung foi pesquisar junto à sociedade indígena norte-americana e pôde, igualmente, verificar que aquela comunidade praticava o mediunismo e que o sentimento religioso entre eles era fundamental para manutenção desse liame ancestral, isto é, em atitude receptiva para conectarem com os seus falecidos líderes e orientadores.

Jung selecionou um grupo de abalizados pesquisadores para poder ampliar seus conhecimentos, embora tivesse ele criado a “teoria da sincronicidade”, e assim explicar, ou ao menos tentar explicar, a fenomenologia mediúnica. A prova desse interesse está na correspondência que manteve com J.B. Rhine, da cidade de Durham (EUA), e que é considerado o pai da parapsicologia científica. Também manteve continuado contato com o não menos famoso professor Hans Bender, catedrático de parapsicologia na Faculdade de Freiburg (Suíça), e para ambos Jung defendia a tese que tais fenômenos poderiam ser explicados através da teoria da sincronicidade, embora ele mesmo já não tivesse dúvidas quanto à sobrevivência da alma, a continuidade da vida e a comunicabilidade entre os dois mundos.

Carl Jung teve a vantagem de agir com absoluta honestidade e até mesmo com imparcialidade ao estudar, examinar e julgar os fenômenos mediúnicos. E esta atitude o colocou acima de muitos inquirentes mal-intencionados e despreparados, que se aproximaram desse manancial apenas para tentar denegrir médiuns e enodoar a limpidez e transparência da Doutrina Espírita. Assim, pôde ele angariar a simpatia, não somente dos homens honestos, mas atrair a atenção dos bons espíritos, que viam nele colaborador de alta importância para divulgação da realidade espiritual no seio da sociedade acadêmica, onde ele era destaque e a sua personalidade infundia respeito e acatamento.

Corria o ano de 1922 e Jung foi premiado com a visita espiritual do seu genitor, há muito desencarnado, e com ele manteve interessante quanto valiosa conversa, e, pelo conteúdo do diálogo entre ambos, se presume que tenha durado toda a noite, enquanto o seu corpo físico atendia a necessidade fisiológica do sono, possibilitando a Jung-espírito gozar dessa parcial liberdade e entrar em contato com o espírito do saudoso pai, que se apresenta rejuvenescido e sem a sua proverbial autoridade paterna. Estiveram juntos, reunidos na biblioteca, e o pai lhe fala claramente da breve desencarnação desta que é atualmente sua mãe. Pede a Jung, como psicólogo que era, escrever uma obra que tratasse diretamente dos problemas conjugais, da complexidade do matrimônio.

Este encontro, em nível espiritual, foi tão autêntico e marcante que Jung viria descrevê-lo nestes termos:

“Pensava mesmo com particular alegria na possibilidade de apresentar-lhe minha esposa e os meus filhos, de mostrar-lhe a casa e contar-lhe tudo o que tinha feito e que tinha acontecido nesse período”.

Segundo Jung, esta foi a primeira visita (que ele lembrava) que o espírito do pai lhe fez desde a desencarnação, ocorrida em 1896, repentinamente.

As questões ligadas à nossa natureza espiritual devem ser tratadas de maneira respeitosa.

Nesse interessante trabalho da médium e divulgadora espírita Paola Giovetti, publicado na revista "Luce e Ombra", conforme noticiou o SEI 1901, de 4 de setembro de 2004, vamos encontrar Carl Gustav Jung (1875-1961) relatando uma experiência vivida através de um sonho que tivera.

Neste, encontrara o Espírito de um amigo recém-desencarnado que relutava em aceitar vida após esta vida, o qual também detestava o estudo da Psicologia. "Parecia indicar - afirma Jung - que depois da morte o homem pode chegar a um grau de conscientização que não tenha conseguido conquistar em vida, pois as alterações são inevitáveis e os pontos de vista se modificam igualmente. No sonho - prossegue - vi que ele estava sentado a uma mesa juntamente com a filha que havia estudado Psicologia em Zurique (Suíça), e esta ciência não tinha entrado no quadro de interesses daquele homem (agora Espírito. A filha, em desdobramento, ali estava para lhe falar exatamente sobre o tema. Ele estava fascinado com aquilo que ela lhe dizia; grande era o interesse por aquela ciência da alma. Quando me viu, pois éramos amigos, apenas me saudou com um aceno de mão, que logo aceitei como uma despedida, dando a entender que não gostaria de ser incomodado. E assim fui 'expulso' dali, mas pude notar também que ela lhe falava da situação vivida por ele naquele momento, e que estava obrigado a aceitar a realidade da sua nova existência espiritual, coisa com a qual ele jamais se preocupara quando vivo."

Este relato de Jung é precioso e coerente com o que temos lido nas obras da Codificação Espírita e demais obras correlatas, escritas por médiuns dignos de nossa confiança, e ditadas por Espíritos de elevados conhecimentos e possuidores de grande moralidade.

Uma outra interessante experiência vivida por Jung foi aquela ocorrida em 1944, quando quebrou uma perna, pois teimava em andar de bicicleta, e, por isso, se viu obrigado a ficar quietinho na cama onde seria surpreendido com um princípio de infarto do miocárdio, que o levou a estados de inconsciência e a sofrer de delírios com visões que indicavam estar em perigo de morte.

"Um dia, após ser atendido com oxigênio, me vi fora do corpo e viajando pelo espaço, numa crescente subida, e abaixo de mim aparecia a Terra, o globo envolvido em esplêndida luz azul; e distinguia os continentes e o azul escuro do mar. Então, quis saber a que altura me encontrava, e fui informado que estava a 15OOkm. A visão da Terra de tal altura era a coisa mais maravilhosa que jamais tinha visto."

Jung realizou muitas outras viagens astrais, pois se fizera digno de grande assistência por parte dos instrutores do Mundo Maior.

Paola Giovetti colocou a seguinte nota de rodapé na matéria em que relatou estes acontecimentos:

"Jung viu estas coisas quando ainda os vôos espaciais estavam bem longe. Sob à luz daquilo que sabemos hoje, e recordando as imagens da Terra enviadas do espaço, a visão de Jung apresenta um especial sabor de realidade."

Jung teve as visões (viagens astrais), praticamente todas as noites que se seguiram ao infarto, isso durante três semanas: ecos e reflexos da sua primeira experiência Cósmica. É impossível fazer uma idéia da beleza e da intensidade dos sentimentos durante aquelas visões.

Para Carl Gustav Jung, ou simplesmente Jung, a vida não se limitava ao estreito espaço do berço ao túmulo e o homem, ser racional, era dotado de faculdades extra-sensoriais que lhe permitiam ultrapassar os limites comuns de espaço e tempo, devassando o passado distante e tendo premonições acerca do futuro.

Jung (1875-1961) foi discípulo, de 1907 a 1912, do fundador da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), quando rompeu com o antigo professor para desenvolver seu próprio trabalho mais acentuadamente na área da Psicologia, pois, segundo suas palavras, era necessário “ajudar o homem na procura de sua alma”. Neste sentido, o discípulo Jung superou o próprio mestre, quando tomou a iniciativa de romper com as limitações acadêmicas e enveredar pelo vasto mundo do psiquismo, aceitando a continuidade da vida, a sobrevivência do princípio inteligente que anima o corpo somático e que continua vivo após a desagregação deste. Jung estava convencido de que o ser humano não era um simples composto de células, músculos e nervos, pois ainda afirma ele que “toda vida aspira à eternidade”. E assim viu dilatar-se à sua frente um novo horizonte, descobrindo, também, um novo sentido para a vida.

A revista “Luce e Ombra” (Luz e Sombra) na sua edição 1103 divulga valiosa reportagem sobre Jung e mostra o cientista ao lado do Prof. Scherenck Notzing assistindo a reuniões de mediunismo prático, proporcionadas pelo médium austríaco Rudi Schneider (1908-1975), cuja mediunidade de efeitos físicos mereceu a atenção de destacados pesquisadores tais como Richet, Eugene Osty, Gustave Geley, Harry Price, Bozzano e cujas reuniões de materializações foram assistidas por eminentes personalidades da época, entre as quais se destacava Thomas Mann, prêmio Nobel de literatura e considerado um dos maiores escritores da língua alemã. As experiências de Thomas Mann, e o seu testemunho favorável aos fenômenos mediúnicos, foram abordadas no SEI 1931, de 2 de abril.

A propósito de Rudi Schneider e de seu irmão Willi Schneider (1903-1971), também notável médium, a revista “Luce e Ombra” (Luz e Sombra) publicou em outra edição extensa matéria em que focaliza, a par de sua retidão moral, as extraordinárias faculdades paranormais de que eram portadores, dentre as quais, destacava-se a de efeitos físicos.

Carl Jung, que já tivera provas irrecusáveis da comunicabilidade dos Espíritos, tomado de grande interesse em ampliar contato com o mundo invisível, presenciou durante os anos de 1930 e 1931 as reuniões de efeitos físicos, onde não havia a menor margem para fraudes, pois, como afirmou:

“Impossível era que alguém naquele ambiente, sóbrio e composto por homens de inteligência sadia, cujo interesse era a pesquisa conclusiva sobre tais aparições tangíveis, era impossível, repito, que homem ou espírito tivesse conhecimento de particularidades que só a mim pertenciam e que foram ditas pela figura de um fantasma emergido das profundezas do desconhecido”.

Fica evidente que Jung fora merecedor de tais revelações e a Espiritualidade conhecia o grande significado, o alto valor do seu testemunho junto à comunidade científica, e nesse particular junto àqueles que se dedicam ao estudo da mente humana que, por si mesma, é incapaz de emitir um único pensamento, de elaborar uma única idéia. Segundo aprendemos com a Doutrina Espírita, “pensar é um atributo da alma, sendo o corpo instrumento de manifestação desse princípio inteligente”. E o grande psicólogo, vencendo a barreira dos preconceitos que detém a maioria dos cientistas, abeira-se do mundo invisível, entrando em contato direto com as inteligências desencarnadas.

Jung publicou precioso livro – “Memórias, sonhos e reflexões” – em que narra, a seu modo, no seu linguajar, sob ótica própria mas de inegável valor, a sua interpretação sobre as percepções extra-sensoriais.

Em síntese: “Carl Gustav Jung deu um largo passo, avançou racionalmente em direção ao ilimitado, enobrecendo ainda mais o seu viver entre os homens e, ao mesmo tempo, deixou contribuição favorável à Doutrina Espírita”.

“Luce e Ombra”: Piazza Azzarita, 5 – 40122 Bologna – Itália – telefax: 051-554033.

SEI – Serviço Espírita de Informações - www.vivercomalma.com.br
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