23/07/2014

Para viver um grande amor

Com todo respeito a quem diz que viver só é uma questão de escolha, não sou metade evoluída. 

Pra mim viver um grande amor é questão de sobrevivência. Desde que me conheço por gente e que conheço gente do mundo todo, toda gente que eu conheço quer viver um grande amor.

Que graça teria a vida se não fosse pra isso, se não fosse para encontrar um amor grande desses? Um desses que fosse para sempre. Um desses de perder o sono, a fome, o tempo. Um que balance, que chacoalhe, que acabe com as unhas, com o juízo, com a sanidade mental. Mas que depois acalme a alma e sossegue o coração.
Mas para viver um grande amor é preciso viver amores que não sejam grandes, amores que venham pela metade, que cheguem pra depois partir. Daqueles que não deixem saudade, apenas lembranças, e a certeza de que não eram grandes o suficiente.

Passei minha vida procurado por esse amor. Pensei ter encontrado aos 15, quando a gente acha que vai morrer quando o grande amor, que nem era tão grande, mas a gente não sabia que não era grande, acaba.

Depois vieram o Marcio, Andre, o Justin, o Guilherme, o Felipe. Foram todos meus amores, mas nenhum o tal grande amor, que você só descobre que é o tal quando finalmente se depara com algo que nunca sentiu, nunca viveu e nunca experimentou.

Até que um dia, você dá de cara com ele. E nem reconhece, porque ninguém sabe que cara tem o seu bendito grande amor. Não vem com etiqueta, não brilha no escuro, não dá 'match' quando aparece na sua frente.
E você pode perder o bonde do grande amor. Tenho certeza que ele passa algumas vezes por nossa vida, mas nem sempre estamos prontos ou queremos subir - e às vezes é ele que não para. Você nem percebe que pode ser o tal grande amor, porque amores grandes, pequenos e vagabundos começam quase sempre do mesmo jeito.

Eles vêm recheados de sorrisos descontrolados, abraços calorosos, beijos sem-vergonha, conversas sem fim e uma vontade de que as noites não acabem, que os finais de semana sejam eternos. Você quer dar bom dia. Bom almoço. Boa noite. Bom banho. Boa academia. Você só pensa nele o tempo inteiro.

Mas o grande amor quando é grande mesmo continua assim pelos dias que se seguem, pelos meses que se vão, pelos anos que passam. Dá trabalho. É preciso ter um saco de paciência porque ele nunca chega pronto. A gente precisa sovar, amassar e deixar descansar para que o amor cresça e se torne o grande amor.
E ele cresce. E quando você menos espera percebe que não tem apenas um grande amor. Tem um amigo, um companheiro, um parceiro. Alguém que está ali pra encarar numa boa toda a ladainha da alegria e da tristeza, da saúde e da doença. E tudo começa a fazer sentido.

E, então, é preciso estar preparado para dizer eu te amo sem amar mais ou menos, e encarar o tranco de alguém que te ama como você sempre quis, mas nem sabia como era porque nunca tinha vivido um grande amor. É preciso deixar que o amor sufoque, que invada o coração e o pulmão, porque não há grande amor que deixe o fôlego impune e a mente sadia.
Não, não existe a sorte de um grande amor tranquilo.

Esteja preparado para ter briga e ter raiva, ter choro e ter vela. E depois pegar a raiva, apartar a briga e implorar pelas pazes se preciso for. Mais vale um grande amor no coração do que ter razão numa briga de amor.
E depois de tudo, no fim de tudo, quando você deita naquele braço, no meio daquele abraço, tem a certeza de que aquele é o melhor lugar do mundo. E percebe que o seu mundo ficou melhor assim.

Pode ser que ainda inventem, pode ser que para muita gente haja outras motivações, mas eu ainda não conheço nesta vida nada que seja melhor do que viver uma história a dois.
Ao meu grande amor
Mariliz Pereira Jorge

02/07/2014

Dez atitudes ajudam você a esquecer dos problemas e relaxar

Do momento em que você acorda até a hora que volta para a cama é preciso tomar decisões o tempo todo. 
Salvo as escolhas simples, como qual roupa vestir ou o que fazer para o jantar, muitas decisões exigem certo nível de reflexão, já que as consequências delas terão impacto na sua vida e até na vida das pessoas com as quais você convive. No entanto, segundo os especialistas, quanto mais nos concentramos em um determinado problema, mais complicado é resolvê-lo.
"Quando não paramos de pensar em uma questão, a tendência é perdemos a objetividade e o discernimento mental que são necessários para solucioná-la", explica a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da Isma-BR (International Stress Management Association no Brasil), associação voltada à pesquisa e ao desenvolvimento da prevenção e do tratamento do estresse.
A afirmação da especialista vai ao encontro dos resultados do estudo conduzido pela University College London, no Reino Unido, divulgado em 2010. A pesquisa apontou que refletir demais sobre uma situação pode ser extremamente prejudicial, levando a lapsos de memória e até à depressão.

"Quem não se desliga dos problemas não vive bem, porque desenvolve sintomas de estresse, como insônia, taquicardia e ansiedade. Sem contar que, quando nos preocupamos, produzimos menos", diz o médico Marcelo Dratcu, especialista em medicina comportamental pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e autor do livro "Por Que Não Me Disseram Isso Antes!?" (Editora Saraiva).

Assim, mesmo estando imersos em problemas –financeiros, amorosos, profissionais e familiares– vale a pena tomar distância da situação e deixar a cabeça pensar livremente, antes de decidir por qual caminho seguir. E se você acha difícil fazer isso, confira dez dicas para desacelerar a mente e relaxar, mesmo diante de uma adversidade.

1. Mude a sua forma de enxergar as coisas

O ângulo pelo qual você enxerga uma situação é capaz de aumentar ou diminuir um problema. Se olhar só o lado negativo, ficará difícil avaliar se o aborrecimento é realmente grave. "Uma maneira de descobrir se está dando importância demais a um problema é pensar a longo prazo", diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da Isma-BR (International Stress Management Association no Brasil). "Quando algo acontecer, reflita: isso terá impacto na minha vida daqui a duas semanas ou em um prazo ainda maior? Se a resposta for positiva, o problema merece atenção. Caso contrário, não vale a pena colocar tanta energia nele", diz.

2. Anote o que lhe incomoda

Se a sua cabeça está cheia de problemas e questionamentos, tente transferi-los para o papel. Dessa maneira, fica mais fácil enxergar as prioridades do momento e identificar o que não é essencial resolver naquela hora. Essa é uma forma de dar uma folga para a mente, de acordo com os especialistas. Isso porque, sabendo que o que é importante está anotado, você não precisará se esforçar para se lembrar constantemente dos problemas e das ações que está pensando em tomar para resolvê-los.

3. Aceite os contratempos

Problemas e dificuldades sempre vão existir e você terá de encontrar a melhor maneira de resolvê-los, sem sofrer tanto. E quanto antes você admitir isso, melhor. Penar para digerir um problema que já se estabeleceu só aumenta a ansiedade e o nível de tensão no corpo e, como consequência, diminui o bem-estar, a capacidade de gerenciar crises e a clareza mental.

4. Tenha uma válvula de escape

Direcionar a atenção para algo que vai afastá-lo, pelo menos temporariamente, dos pensamentos negativos ainda é a melhor estratégia para se desligar dos problemas, de acordo com o médico Marcelo Dratcu. "Ter um hobby e praticar esportes são atitudes que ajudam muito", afirma. A capacidade de tocar outras atividades, mesmo diante de situações complicadas, prova que você controla os próprios pensamentos e não é controlado por eles.

5. Resolva um problema por vez

O nosso ritmo interno não deve acelerar de acordo com as demandas do mundo contemporâneo, que está cada vez mais agitado. Por mais eficiente que uma pessoa seja, inclusive para lidar com várias tarefas, ainda é mais fácil resolver cada problema individualmente. Assim, diante de muitos aborrecimentos, liste aqueles que têm mais urgência de serem resolvidos e só quando concluir um, parta para o outro.

6. Nunca se esqueça de respirar corretamente

É mais fácil acalmar a mente diante do imprevisível quando respiramos corretamente, de maneira profunda e tranquila. A respiração que mais ajuda no relaxamento é a abdominal, que movimenta o diafragma. Para praticá-la, basta inspirar empurrando o abdômen para fora e expirar encolhendo a barriga. "Essa é a melhor técnica de relaxamento, porque pode ser feita em qualquer lugar", diz Ana Maria.

7. Acredite em algo maior

Você pode ter fé em uma religião, em algo espiritual ou até mesmo material, como a ciência. "Crenças positivas, no geral, ajudam a se desligar dos problemas", diz o médico Marcelo Dratcu. Isso porque acreditar em algo maior que a própria existência traz conforto e ajuda a dar significado às crises. Como consequência, fica mais fácil controlar a ansiedade e a tristeza.

8. Durma bem

Ter uma rotina saudável de sono, ou seja, dormir as horas suficientes para o seu corpo se sentir renovado, ajuda a disciplinar a mente. "O sono é reparador e faz com que a gente acorde bem disposto. Então, fica mais fácil encontrar uma nova perspectiva para uma situação que, antes, parecia sem saída", diz Marcelo Dratcu. A psicóloga Ana Maria Rossi concorda. "Quando dormimos bem, a tendência é lidarmos com as situações de um modo mais produtivo e decidirmos mais rápido e com mais objetividade", afirma.

9. Distraia-se com música

Emoções positivas são despertadas sempre que ouvimos músicas das quais gostamos. Ao escutar uma boa trilha, as áreas cerebrais envolvidas com as sensações de prazer e recompensa são ativadas, o que não só nos distrai temporariamente dos problemas, como diminui o nível do hormônio de estresse no organismo, reduzindo a ansiedade. Na dúvida do que ouvir, invista em músicas instrumentais, já que a ausência de letra deixa a mente mais leve.

10. Concentre-se no presente

Viver com a cabeça no passado causa tristeza, assim como pensar demais no futuro traz ansiedade. A saída, então, é pensar no hoje, mas sem se cobrar demais. É preciso ter em mente que, embora muitas coisas não saiam conforme o planejado, nós sempre buscamos resolver os problemas de acordo com os recursos disponíveis no momento e o conhecimento adquirido até então. Por isso, não vale se crucificar demais diante de um dilema. E quando necessário, dê-se ao direito de pedir ajuda.
Marina Oliveira e Thaís Macena

25/06/2014

Qual o sentido da vida?


O sentido da vida é que a vida acaba. Foi a lembrança que me ocorreu numa tarde de inverno, quando, caminhando, olhei para o céu e vi um azul tão azul, mas tão azul, que a única coisa que parecia fazer sentido era ficar ali, à toa, sentindo aquele solzinho. Mas justo naquela quarta-feira azulzíssima eu tinha uma missão: escrever sobre o sentido da vida. Bem que poderia começar e terminar com a primeira frase. Precisa mais? 

Se a vida acaba, nada melhor a fazer do que curtir o céu, o sol, a ausência de nuvens. Por um momento, desejei ser Enriqueta, personagem do cartunista argentino Liniers. Nos quadrinhos, a garotinha cheia de humor e personalidade se dedica às coisas simples da vida, sempre acompanhada de Fellini, seu gato de estimação. Deitar na grama e contar estrelas, ler debaixo de uma árvore e passar horas no balanço, enquanto Fellini persegue borboletas, são algumas das ocupações favoritas de Enriqueta, capaz de observar uma folha rodopiando ao vento e perguntar a ela: "Onde você aprendeu a dançar?".

O pai dessas criaturas delicadas é o argentino Ricardo Siri Liniers. Conhecido pela série Macanudo (bacana, na gíria castelhana), que traz Enriqueta e outros pesonagens, como pinguins e duendes de longas toucas, Liniers, aos 40 anos, é um mestre do gênero cômico que concentra, em quadrinhos, humor, crítica e questionamento existencial. "Prefiro as pessoas que se perguntam sobre o sentido da vida do que as que propõem a resposta", diz ele, ao telefone, de um quarto de hotel em Mendoza, na Argentina, onde passava férias. "Estamos todos nesta mesma bola, girando no Universo. A graça está no mistério. Se soubéssemos as respostas, a vida seria tediosa", acredita Liniers.

O sentido de sua própria existência, ele desenhou aos poucos. "Sempre me pareceu muito difícil que conseguisse viver de `historietas¿. Mas não havia um plano B. Era uma questão passional", conta. Com tiras diárias no jornal La Nación, Liniers se tornou cult e ganhou o mundo: seus quadrinhos são publicados na França, Itália, Espanha, República Tcheca, Peru, México, Canadá. E, claro, no Brasil, onde tem uma coleção de fãs. Como chegou longe assim é algo "misterioso como o mar". A inspiração, muitas vezes, vem das filhas de 3 e 5 anos. "Elas me fazem reviver as dúvidas existenciais", diz. Ou da natureza, como em uma viagem à Antártida, "um planeta gigantesco, assustador", onde se sentiu "chiquito". "É preciso se sentir pequeno para ter a dimensão real dos problemas. A vida é um minuto", reflete. Admite que já se sentiu sem rumo diante da perda de um amigo. Se tivesse de indicar o sentido da vida em uma estrada, o que escreveria na placa? "Ay que ser buena gente", em bom espanhol. "Mas não porque ser bom traga alguma recompensa. Ser bom é a recompensa", sublinha Liniers.


Primeira à direita: desfrute da paisagem

Sigo em frente com a metáfora da estrada. De brincadeira, recorro ao Google Maps. Pronto: o Sentido da Vida fica na avenida dr. Antonio de Barros, 90, Centro, Atalaia, Paraná. Trata-se de uma escola, a 555 quilômetros de São Paulo. Como em uma caça ao tesouro, continuo sem noção de como chegar ao x do mapa. Peço pistas aos passantes: a amiga, a faxineira, o motorista que me leva a uma entrevista. Enquanto ele me leva ao meu destino, faço a pergunta e ele responde surpreso: "O sentido da vida?...". Sua razão de viver são "as crianças", como se refere aos filhos, um rapaz na faculdade e uma menina no colegial. "Mas deve ter algo mais, né?", diz. Desço do carro culpada por botar tamanha minhoca na cabeça daquele homem.

As respostas, a essa altura, soam tão díspares como "salvar o planeta" ou "preparar o purê de batatas perfeito". Numa noite, conversando com Anita, minha filha de 9 anos, insisto na pergunta. "Nossa, mamãe, que assunto dramático!", exclama ela, sem saber o que significa a palavra sentido. Traduzo: "Por que a gente está aqui nessa vida?". "Ah, para viver a vida, né?", diz ela, puxando as cobertas. No dia seguinte, recebo o link para um estudo que investiga o sentido da vida, publicado na revista britânica Journal of Humanistic Psychology. Dirigida por Richard Kinnier, da Universidade do Arizona (eua), a pesquisa partiu da análise de frases e escritos de 200 pensadores - do escritor Oscar Wilde ao imperador Napoleão. Conforme o estudo, para uma minoria de pessimistas como Freud, o criador da psicanálise, e o escritor Franz Kafka, a vida não tem sentido. Para outro grupo, formado por gente como Napoleão e o físico britânico Stephen Hawking, a vida é um mistério. Poucos e bons, como o cantor Bob Dylan, acreditavam que a existência não passava de "uma piada". Já os idealistas diziam que o que vale é "amar, ajudar os demais". Caso do indiano Mahatma Gandhi, que afirmou: "Encontro minha felicidade me colocando a serviço de todas as vidas". Por fim, o resultado: "A vida é para ser desfrutada". Ao menos era essa a crença de 17% das personalidades, algumas tão opostas como o ex-presidente norte-americano Thomas Jefferson e a cantora Janis Joplin, que morreu aos 27 anos e cantava "aproveite enquanto puder". Ou seja, depois de analisar os escritos de 200 pensadores, a conclusão do estudo acadêmico foi a mesma de minha filha de 9 anos (!).


Curva suave à esquerda: não pense, sinta

O enigma que atormenta a humanidade guarda em si uma segunda questão: se a viagem importa mais do que o destino, como fazê-la valer a pena? As respostas estão quase sempre ligadas a crenças religiosas ou filosóficas. Na Antiguidade, a felicidade era a meta, em diversas correntes de pensamento. Para Platão, a alma só ficaria feliz se equilibrasse razão, coragem e instinto. Aristóteles, por sua vez, não julgava a felicidade como uma condição estática. Ele pregava que ela só poderia ser encontrada na contemplação da vida. Na Idade Média, quando o Cristianismo dominou a Europa, a religião transferiu o sentido existencial do individual para o coletivo. A vida terrena entrou em segundo plano, diante da incrível possibilidade de vida eterna. Nesse ponto, o assunto rende tanto que não caberia aqui.

No século 19, foi a vez do existencialismo. Nesta vertente filosófica, o dinamarquês Kierkegaard pôs nos ombros do homem a responsabilidade por seu destino. Na visão dos existencialistas, cada ser humano tem o livre-arbítrio e deve dar à própria existência um sentido. Com auge nos anos 50, a filosofia seduziu pensadores como Sartre e líderes espirituais como o indiano Osho, um cultuado místico contemporâneos, que afirmou: "A vida nem tem sentido nem é sem sentido. A questão é irrelevante. A vida é simplesmente uma oportunidade, uma abertura. Depende do que você faz dela. Depende de que sentido, que cor, que canção, que poesia, que dança você dá à vida".

O autodesenvolvimento é um atalho precioso nessa busca. Conta-se que, no portal do Oráculo de Delfos, na Grécia antiga, havia dois escritos: "Nada em excesso" e "Conhece-te a ti mesmo". Equilibrar os anseios da alma com as cobranças do mundo moderno é o desafio. "Temos um mundo interno, subjetivo, marcado pelo desejo. Mas há o mundo externo, com suas demandas. Se a vida ficar à mercê de apenas um deles, será prejudicada, ou pelo narcisismo ou pela submissão aos outros", pondera o psicanalista Roberto Girola. Ele compara o sentido da vida a um alinhamento desses mundos, em torno de um eixo. "É o eixo onde organizamos nossa ética e estética, ou seja, os valores e a maneira de ver a vida. Esse alinhamento confere uma dimensão sagrada à existência".

Há quem acredite que "largar tudo" e morar nas montanhas é a trilha ideal para chegar lá. Para outros, a vida urbana, a rotina profissional, a dedicação a uma causa humanitária, podem fazer tanto sentido quanto. Até porque o sentido da vida também é mutante. Para o estudante, é passar no vestibular. Para o formando, encontrar trabalho. O segredo está em identificar o que dá significado à sua vida. A bióloga Fernanda Yokoyama de Carvalho, 35, se encaixa no primeiro grupo. Mãe de quatro filhos, ela e o marido, Ricardo, iniciaram a vida juntos num vilarejo sem luz elétrica, em Lençóis Maranhenses (ma). Seis anos depois, sentiram falta de estrutura e seguiram para São Paulo. Os banhos de lagoa deram lugar a dias diante do computador. "Ricardo chegava em casa, as crianças já estavam dormindo. Fui entristecendo", lembra Fernanda. Grávida do caçula, a bióloga, que sempre gostou de cozinhar, decidiu apostar na gastronomia natural. Assim surgiu a Cozinha da Flor, uma empresa de congelados orgânicos, instalada em um sítio em Santo Antônio do Pinhal (SP). "Foi como plugar a vida de volta na tomada", diz ela. Para quem ensaia uma mudança similar, Fernanda recomenda: "Não pense, sinta. Procure resgatar seu sonho mais antigo, mesmo que pareça utópico. Esse sonho é sagrado".


A saída é por dentro: a porta é o silêncio

O resgate do sonho de ser astronauta, emblemático entre as crianças, é o ponto de partida do livro Sonhar é a Magia da Vida (ed. Ônix). Na ficção, um advogado abandona sua carreira e vai atrás do sonho de infância. O autor, o advogado Daniel Kaltenbach, ao contrário do personagem, não "largou tudo". Aos 41, é vice-presidente de um grupo financeiro. "A maioria das pessoas não vive, deixa-se viver. Aquelas que têm prazer no que fazem são as que cumpriram seus sonhos", acredita. "Quando desenterramos esses sonhos, o Universo conspira a favor. Caso contrário, é como andar na contramão", diz.

"Todos os caminhos levam a lugar nenhum, mas alguns caminhos têm coração", sugere o índio Dom Juan, no best-seller dos anos 70 A Erva do Diabo, de Carlos Castaneda. "Mas como saber se o caminho tem um coração?", questiona o aprendiz. "Qualquer pessoa sabe disto. O problema é que ninguém faz a pergunta. Um caminho sem coração nunca é agradável. Tem-se de trabalhar muito para segui-lo. Por outro lado, um caminho com coração é fácil", responde Dom Juan. "Na cultura indígena, o que dá sentido a vida é o espírito", emenda o ambientalista Kaká Werá, índio de origem tapuia, idealizador do Instituto Arapoty, que difunde os valores indígenas. "A vida é esse espírito manifestado em diversas formas. Em algumas tribos, ela é como um sopro divino que se corporifica. O desafio é vivê-la de acordo com a harmonia que nos inspira este mistério", diz. A natureza, em que tudo se conecta, revela o sentido da vida. "A natureza nos ensina a lei da interdependência que existe em cada coisa vivente. Ensina que a diversidade gera mais abundância. Isso é lição de amor e de unidade, na prática", diz. E deixa a dica: "A saída é por dentro. A porta é o silêncio".


Ponto final: bem-vindo ao ponto de partida

Aos 43 anos, a escritora americana Cheryl Strayed é sinônimo de best-seller. Ela é autora de Livre -A jornada de uma mulher em busca do recomeço (ed. Objetiva), em que narra sua saga de 1.700 quilômetros por uma árdua trilha, e que vai ganhar as telas de cinema em breve, com roteiro de Nick Hornby. Seu segundo livro lançado no Brasil, Pequenas Delicadezas, reúne o melhor de sua coluna Cara Doçura, em um site de literatura, onde ela atua como conselheira para desorientados de todos os tipos. O maior volume de cartas recebidas tem a ver com o amor romântico. "Queremos ser amados e aceitos. Cada carta me lembra quão fortes e resilientes somos capazes de ser, e ao mesmo tempo tão frágeis", acredita Cheryl. O sentido da vida, finaliza, é o amor. "Estou aqui para amar. O amor é a força mais poderosa que existe na terra - o amor romântico, o amor familiar, o amor de amigos e de filhos. Se formos bem no amor, estamos bem em todo o resto", diz a autora.

Recebo as respostas de Cheryl por e-mail, em mais uma quarta-feira azul. Olho para trás e percebo que, sem a menor ideia do que dizer sobre "o sentido davida", o texto se fez na busca. Não há um sentido só. Não existe ponto final. É no caminho que encontramos a escuridão e também a luz. Nada melhor, então, do que dar uma volta e conferir mais uma das máximas de Liniers, em uma tirinha de Enriqueta e Fellini: se o planeta está dando voltas no espaço, todos os dias são uma viagem.
Rosane Queiroz
Tirinhas: Liniers

18/06/2014

Felicidade clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Clarice Lispector

29/05/2014

Que herdamos da Família?


Seguramente não só cadeias do DNA – que as vezes pouco se diferenciam dos outros animais vivos -, tampouco podemos responder que se trata somente dos bens ou dívidas.

Então, que herdamos da família além de uma mensagem genética que é unívoca e inequívoca? Herdamos no melhor dos casos uma língua que é fundamentalmente equívoca o que nos faz habitar, por sermos falantes, no mal-entendido estrutural. 

É este dom que herdamos e do qual precisamos apropriar-nos, o que nos humaniza, o que nos civiliza, o que nos possibilita ser cidadãos pelos laços de discurso que estabelecemos com os outros. Isto é o que está capenga, o que está mancando cada vez mais nos dias de hoje, onde a queixa que escutamos de pais e de filhos, de professores e alunos é a incapacidade de conversar entre eles. Um filho não só está feito de carne, também de palavras e de letras, nesse sentido a criança é primeiramente um objeto caído do corpo materno, é também um sujeito por vir. Proliferam os objetos com os quais as pessoas se ocupam e se satisfazem em detrimento das relações com amigos, colegas de profissão, parentes, e outros. 

Não podemos negar que este é um processo que vemos acelerar-se, nas grandes cidades principalmente, fomentando o individualismo próprio de nossa época. As famílias hoje estão constituídas com diferentes personagens em relação às famílias de 50 anos atrás, porém, há algo estrutural que se mantém, lugares e funções que a língua que falamos cria. Pai, mãe, filhos, irmãos, continuam a ser os lugares nos quais os humanos nos alocamos segundo seja o nosso dizer. Este grupo reduzido que compõe a família moderna mostra uma estrutura profundamente complexa condicionada por fatores culturais. O caráter que especifica a ordem humana é a subversão do instinto a partir da qual surgem as formas fundamentais da cultura que são plenas de infinitas variantes. 

Hoje a ciência tem multiplicado as mães e os pais. Temos a mãe que aporta o ventre, a mãe gestante, uterina, ginecológica ou portadora. A mulher que aporta os óvulos será a mãe genética ou biológica. Temos também a mãe social ou de criação ou do amor em casos de adoção, mais nada disto diz do desejo de um filho. Nós humanos nascemos numa família – quando desejados – que nos transmite a língua que falamos, chamada de língua materna, quer dizer que em primeiro lugar herdamos a língua que nos acolhe no mundo. Portanto, nascemos à grande família humana quando falamos, sendo, então, a língua a morada do homem, parafraseando ao poeta Hölderling. Para o discurso da psicanálise que inaugura Lacan, o inconsciente está estruturado como uma linguagem. 

Ou seja que os sintomas que produzimos são a manifestação do nosso dizer, da nossa maneira de inserir-nos na língua que falamos, são a conseqüência do discurso que praticamos sem saber, o discurso do inconsciente. E quando digo discurso quero assinalar que o discurso do inconsciente é o discurso do Amo que Lacan toma em relação à dialética do Amo (1) e do Escravo que Hegel desenvolve no capítulo 4 (A certeza de si mesmo) da "Fenomenologia do Espírito". Este discurso situa ao homem numa luta a morte pelo reconhecimento do Outro. Nesta luta por puro prestigio quem se submete para não morrer é o Escravo reconhecendo no Outro um Amo. Isto o anula em seu desejo e o transforma num objeto, numa coisa a serviço do Amo, o "cosifica". Porém, o Amo se encontra num paradoxo: é reconhecido como Amo por alguém a quem ele não considera. O Amo, por não poder reconhecer ao Outro que o reconhece (o Escravo), encontra-se num beco sem saída. 

O Escravo, pelo contrário, reconhece desde o príncipio ao Outro (o Amo). Será suficiente impor-se a ele, fazer-se reconhecer por ele para que se estabeleça o reconhecimento mútuo e recíproco, que só pode realizar e satisfazer ao homem plena e definitivamente, segundo Hegel. Com este discurso Hegel lhe atribui ao Amo antigo o usufruto ou gozo do trabalho do Escravo o que em Marx será chamado de mais-valia. O que Lacan modifica tem a ver com as conseqüências do gozo que lhe atribui ao Escravo que ocupa esse lugar dialético onde se "cosifica". Nesse processo dialético o saber lhe corresponde ao Escravo e está articulado (o saber) com o gozo do Outro. Este Outro, que não existe, é o produto da articulação lógica entre os significantes que lhe dão existência como campo da linguagem. Nesse campo do Outro, campo da linguagem no qual nos inscrevemos os humanos mostramos a nossa debilidade que é proporcional à sede de sentido. Temos necessidade de sentido. 

O que nos mostra a filosofia desde os diálogos de Platão é o roubo, o rapto, a subtração do saber da escravidão pela operação do Amo que consistia em fazer um saber transmissível do escravo ao amo, até chegar a uma empresa maior em beneficio do amo, como pretendia Hegel com o que ele chamava de Saber Absoluto. A este respeito, a idéia do absoluto ou imaginária do todo, tal qual é proporcionada pelo corpo, é algo que se sustém na boa forma da satisfação e constitui no limite uma forma esférica. Esta mesma forma esférica nos dá a idéia do encerro e da clausura da satisfação procurada no absoluto ou no todo. A totalidade paralisante onde nada mais se ambiciona. É contra isto que nós psicanalistas lutamos, contra a paralisia que produz a falta de um desejo. Por este repasse de saber do escravo o amo moderno não tem mais a estrutura do antigo. O amo moderno não é nada mais que saber, ou seja burocracia. 

O amo moderno para Lacan é o capitalista que frustra de seu saber ao escravo voltando-o inútil. Mais o que se dá ao escravo em troca, numa espécie de subversão, é outra coisa, um saber de amo. Por isto é que historicamente não temos feito outra coisa mais que mudar de amo. Porém o que fica no amo moderno é a essência do amo, ou seja, não sabe o que quer. É isto o que constitui a verdadeira essência do discurso do Amo pelo qual para Lacan este é o discurso do inconsciente onde o sujeito se perde, não sabe o que quer, não sabe de seu desejo. O escravo sabe de muitas coisas, porém o que sabe mais ainda é que ele quer ao amo, mesmo que este não o saiba – o que costuma acontecer – de outro modo não seria amo. O escravo o sabe e esta é sua função como escravo. Por isso é que a coisa funciona faz muito tempo. Na relação entre o amo moderno e o escravo moderno o que substitui agora ao escravo antigo é ele mesmo como produto, tão consumível como os outros; como se diz agora temos o material humano formando parte da sociedade de consumo. Estamos alienados agora e antigamente por sermos falantes. Alienados num discurso que nos condiciona sem que o saibamos. 

Este discurso que herdamos da família humana é o que praticamos no dia a dia, com o qual vemos o mundo e dele fazemos imagens plenas de sentidos. Uma ficção rígida onde, com as pretendidas revoluções sociais, só conseguimos trocar os nomes dos amos para manter um goze obscuro, um caminho à morte que não é outra coisa mais que o que chamamos de "gozo", tendência a voltar ao inanimado que se faz presente numa experiência de discurso como a prática analítica. É nesta experiência onde podemos tomar em conta o estatuto do discurso. Estatuto também no sentido jurídico do termo, posto que é no direito onde nos apercebemos de que modo o discurso estrutura o mundo real. Num certo momento da humanidade a medicina nasce quando alguém assumiu a dor do outro e se ofereceu para aliviá-la. Nesta época a medicina opera cada vez mais de forma veterinária tratando somente as doenças e os corpos, sem escutar aos doentes. 

Com a psicanálise se abre outro campo de tratamento onde os remédios cedem seu lugar à palavra. Uma análise é uma prática onde propomos aos pacientes uma revisão do discurso do inconsciente, da revisão do discurso que nos faz seres falantes, para encontrar-nos com outro discurso que nos permita colocar em curso o desejo de saber. É esta prática que se constitui no miolo da experiência analítica quando se pede ao paciente que abandone toda referencia mais além das quatro paredes que lhe rodeiam e produza palavras, significantes, que constituem a associação livre mediante o qual outorgamos um saber não sabido por esse que nos fala e colocamos em jogo que esse saber não sabido é o que trabalha verdadeiramente. Mais esta via pode levar-nos ainda a uma acumulação de saber e construirmos com ela uma pequena enciclopédia sobre o que nos afeta. É aqui o momento no qual uma vez mais o analista é convocado para com seu ato recolocar agora um outro tipo de saber articulado à verdade como enígma. Um saber em tanto verdade é propriamente o que deve ser a estrutura do que chamamos a interpretação. 

Um saber complexo, um saber do nosso complexo de Édipo, um saber construído sobre a forma singular de inserir-nos na língua, lugar onde praticamos o incesto e o desejo de morte inconscientes, um saber sobre a nossa verdade singular que nos permita orientar-nos nos trilhos do nosso desejo. O que eu disse no começo sobre a criança – que era um objeto caído do corpo materno e de sua condição de sujeito por vir -, e o que estive desenvolvendo nestes breves minutos me permite situar agora à criatura humana como alguém que morando primeiramente na moradia do desejo do outro, precisa alojar-se em seu desejo o qual implica: passar de ser habitada pela linguagem a habitar nela fazendo laços de discurso. Como disse Lacan: ...o inconsciente é o discurso do outro. Este discurso do outro não é o discurso do outro em abstrato, do meu correspondente, nem sequer simplesmente do meu escravo: é o discurso do circuito no qual estou integrado. Sou um entre seus elos. É o discurso do meu pai, por exemplo, em tanto que meu pai há cometido faltas que estou absolutamente condenado a reproduzir: o que chamam super eu. 

Estou condenado a reproduzi-las porque é preciso que retome o discurso que ele me legou, não simplesmente porque sou seu filho, senão porque a corrente do discurso não é coisa que alguém possa deter, e eu estou precisamente encarregado de transmiti-lo na sua forma aberrante a algum outro. Tenho que colocar a algum outro o problema de uma situação vital com a qual muito possivelmente ele vai bater de frente, de sorte tal que este discurso forma um pequeno circuito no qual ficam presos toda uma família, toda uma camarilha, todo um bando, toda uma nação ou a metade do globo. Forma circular de uma palavra que está justo no limite do sentido e do sem sentido, que é problemática. 
Ricardo Eduardo Delfino

27/05/2014

I Started A Joke



Embora esta canção, como referência musical, seja considerada antiga, ela ainda apresenta um vigor atual para as massas que perpetuamente descobrem e redescobrem o talento dos Bee Gees. 

Mesmo aqueles de nós que foram fãs no espaço de uma geração encontram um novo significado nas letras antigas, do mesmo modo que a vida nos encaminha a dimensões nunca antes exploradas.

Muitas vezes vista como um comentário espiritual de Robin, ele nunca afirmou ser esta a base da letra, como tal. A experiência atrai-nos todos a uma diversidade de sentidos, muitas vezes de uma só vez, e inspiração é o que transborda dessa sobrecarga.

Quem sou eu para galgar as grandes mentes do nosso tempo e analisar seus cérebros criativos? Porém, atentei para algo tecido na letra aqui analisada que nunca vi discutido antes. A composição envolve apenas oito linhas de expressão poética, limpas e diretas na aparência e na concepção, ainda mergulhadas no mistério de mil eras. Essa música deixa descoberta partes da alma que tendem a ficar ocultas até mesmo de nosso próprio eu mais profundo.

Vemos nela nossos pecados pessoais de omissão que não parecem tão bonitos em preto e branco e são ainda mais assustadores quando se apresentam em um pacote musical de versos sutis e voz solo. Embora eu perceba onde a temática espiritual, através da canção, ressoa em nós, vejo aqui, também, o comentário pessoal de um dilema moral interior feito pelo sujeito e do processo gradual pelo qual ele racionaliza sua justificativa para não seguir sua voz pessoal interior. Esta pessoa quer desesperadamente largar sua máscara formal e permanecer na pureza da verdade, ao invés de se esconder no silêncio civilizado em face da injustiça.

I started a joke
Which started the whole world crying
But I didn't see
That the joke was on me.
Eu comecei uma piada
A qual fez o mundo inteiro começar a chorar.
Mas eu não percebi
Que a piada era sobre mim.

Ele especula as consequências de tal ação de sua parte. Sabe que sua declaração vai perturbar o mundo que, até este ponto, estava vivendo confortavelmente em seu próprio autoengano superficial. Como a sua visão é tão diferente de tudo o mais, ele sabe que isso vai perturbar a tranquilidade sedada daqueles que o cercam.

Em retaliação defensiva, ao invés de reexaminar, se transformando e admitindo o erro de seus caminhos, a sociedade iria virar as costas, em uma expressão de desdém coletivo, e proclamar que a verdade fundamental que ele expôs é apenas a loucura de um brincalhão.

I started to cry
Which started the whole world laughing
Oh if I'd only seen
That the joke was on me
E eu comecei a chorar
O que fez o mundo inteiro começar a rir.
Se eu somente tivesse percebido
Que a piada era sobre mim...

Ele percebe que não será levado a sério e chora na frustração de ser o único que teve essa consciência da verdade e da realidade. Sente-se sozinho e pequeno no universo. Assim, ele sabe que o mundo comprazerá em sua aparente fraqueza, fracasso e arrogância. Sabe que eles se unirão para aniquilar impiedosamente seu discurso e ameaçá-lo onde quer que vá, todos os dias da sua vida.

I looked at the sky
Running my hands over my eyes
And I fell out of bed
Hurting my head from things that I said
E eu olhei para os céus,
Passando minhas mãos sobre meus olhos.
E eu caí da cama
Me machucando pelas coisas que disse.

Ele olha para cima, buscando a aprovação celeste e solução para questão. Tenta limpar os olhos à procura de um sinal do despertar milagroso dos que o rodeiam. Só quando ele começa a secar os olhos na fé de que, por causa de sua sinceridade de coração, certamente a mudança ocorrerá agora, é que cai de seu estado de sonho para a realidade. Precipita-se penosamente de volta da graça para o momento.

A atrocidade de toda a situação se lança sobre ele como um tsunami assim que ele distingue as consequências do que iniciou com sua simples declaração sobre a verdade. Seu pensamento paralisa e suas próprias palavras não podem mais fazer sentido, como se elas se afogassem num turbilhão de confusão entre as emoções humanas e a verdade da alma. Ele acaba morrendo quebrado, partido, porque conhece a verdade, mas nunca a reivindicou com a máxima determinação, devido à sua falta de perseverança com relação às convicções pessoais. Via a si mesmo como totalmente inadequado para desafiar o que não aprovava neste mundo, por isso nunca se ergueu em nome do que acreditava.

'Till I finally died
Which started the whole world living
Oh if I'd only seen that the joke was on me
Até que eu finalmente morri,
O que fez o mundo inteiro começar a viver.
Se eu apenas tivesse percebido que a piada era sobre mim...

Após sua morte, a civilização perpetua em sua alegre ignorância, incólumes da voz da verdade que manteve encoberta. Ele se foi, e com ele, a ameaça potencial que representou para uma sociedade melindrosa e eufórica.

No final, ele percebe que de fato tinha tido razão e que era a sociedade que estava realmente errada. Compreende, então, tarde demais, que teria feito a diferença se não tivesse cedido a seus próprios medos imaginários.


Ele perdeu uma vida inteira reprimindo a si mesmo e à verdade que havia conscientizado. Tornou-se o seu pior inimigo. Ele amordaçou sua própria alma - e não a sociedade, a qual ele tentou responsabilizar por sua inércia. Acabou se tornando a mesma coisa que uma vez ele moralmente repeliu furioso - um mudo, vítima do autoengano de uma pretensiosa sociedade urbana.
Mary Lee Foote - Tradução Charles Alberto Resende 

22/05/2014

Tempo que voa...

Ontem passado.
Amanhã futuro.
Hoje agora.

Ontem foi.
Amanhã será.
Hoje é.

Ontem experiência adquirida.
Amanhã lutas novas.
Hoje, porém, é a nossa hora de 
fazer e de construir.
Chico Xavier

Remédio pra pressão


Eu tomo um remédio para controlar a pressão.
Cada dia que vou comprar o dito cujo, o preço aumenta.
Controlar a pressão é mole. Quero ver é controlar o preção.
Tô sofrendo de preção alto. 

O médico mandou cortar o sal.Comecei cortando o médico, já que a consulta era salgada demais.

Para piorar, acho que tô ficando meio esquizofrênico. Sério!
Não sei mais o que é real.
Principalmente, quando abro a carteira ou pego extrato no banco.
Não tem mais um Real.


Sem falar na minha esclerose precoce. Comecei a esquecer as coisas:
Sabe aquele carro? Esquece!
Aquela viagem? Esquece!
Tudo o que o presidente prometeu? Esquece!

Podem dizer que sou hipocondríaco, mas acho que tô igual ao meu time:
- nas últimas.
Bem, e o que dizer do carioca? Já nem liga mais pra bala perdida...
Entra por um ouvido e sai pelo outro.

Faz diferença... 
"A diferença entre o Brasil e a República Checa é que a República Checa tem o governo em Praga e o Brasil tem essa praga no governo"

" Não tem nada pior do que ser hipocondríaco num país que não tem remédio" .
 Luiz Fernando Veríssimo

13/05/2014

Os cegos do castelo

Nando Reis: Fama, dinheiro, álcool, cocaína, sexo, mortes: dos venenos que há no mundo, ele provou todos

Fama, sucesso, dinheiro, álcool, cocaína, sexo, mortes: dos venenos que há no mundo, Nando Reis provou todos – e parece imunizado. 

Há mais de um ano sem se drogar e casado pela segunda vez com a mãe de seus quatro filhos, de quem ficou separado por quase uma década, o cantor e compositor onipresente no hit parade nacional falou à Trip sobre família, amor, música, loucura, duas tentativas de suicídio, a relação com os ex-colegas de Titãs e a sensação de experimentar a vida sob este novo ângulo: a lucidez
Deve ser para organizar a narrativa da própria vida que Nando Reis escreve. Suas canções são tão intensamente autobiográficas (num esforço de memória, ele só consegue se lembrar de uma que não tenha sido construída a partir de experiências muito pessoais) que toda conversa com ele parece uma reedição em prosa de hits que o grande público conhece bem, como “Relicário”, “All Star” e “Cegos do castelo”. Nando desenha sua história em público.
Também estão expostos nas canções todos os seus venenos. O ato da composição sempre foi para ele algo intimamente ligado ao álcool e à cocaína. A ponto de ter de parar de compor (e lançar um álbum só de covers, Bailão do ruivão, em 2010) para também tomar distância dos vícios. Nesta entrevista – concedida na casa ampla e cheia de discos e obras de arte em que mora, no Pacaembu, em São Paulo – ele equaciona essas relações tão perigosas com o amor pela vida e o medo da morte. Apesar de tudo o que já experimentou e do tão fundo que foi, não veste a fantasia puída de “roqueiro autodestrutivo”. Já morreu muitas vezes (e foram duas tentativas reais de suicídio), mas só foi até o ponto em que ainda era possível voltar atrás.
Esse personagem, no entanto, apareceu com frequência também no palco. Em muitos dos shows que fez na carreira, estava completamente chapado, expurgando em cena as angústias descritas nas letras. Esse tipo de experiência, ele diz, vem desde os tempos primordiais com os Titãs, banda que fundou em 1982 e com a qual rompeu 20 anos depois para seguir em carreira solo.
E foi no pós-Titãs que sua vida profissional tomou dimensões inimagináveis. Desde a segunda metade da década passada, Nando frequenta, ano a ano, a lista dos maiores arrecadadores de direitos autorais do Brasil. Segundo a tabela oficial do Ecad, o compositor é o oitavo no ranking dos titulares com maior rendimento em shows em 2013. Chico Buarque é o nono; Caetano Veloso, o 11º; Paula Fernandes, a 14ª; e Djavan, o 15º. Os números impressionam mais se levarmos em conta que Sei, seu álbum de inéditas mais recente, foi lançado um ano antes de maneira completamente independente, à parte de uma grande gravadora – as 15 faixas foram lançadas na internet, pelo preço que o comprador achasse justo pagar.
Por que letras tão herméticas ganharam o gosto popular? Não há uma explicação muito segura. Mas alguns fatos certamente ajudaram a construir esse caminho de consagração. Um deles, quando Nando ainda estava nos Titãs, foi a gravação de canções suas por Marisa Monte, então sua namorada, no álbum Mais (1991). “Diariamente”, incluída nesse trabalho, pode ser considerada um clássico do pop brasileiro. Depois veio Cássia Eller (1962 – 2002), cujos álbuns de maior repercussão foram produzidos por ele – Com você... Meu mundo ficaria completo (1999), Acústico MTV (2001) e o póstumo Dez de dezembro (2002). Dali, eclodiriam hits nacionais como “O segundo sol”, “Luz nos olhos”, “Relicário” e “All Star”.
Mas não foram somente as cantoras que serviram de combustível ao compositor popular que Nando se tornaria. Foram determinantes no percurso as inclusões de canções dele nos álbuns dos mineiros do Jota Quest e do Skank. Talvez o público nem se dê conta disso, mas hits absolutos dessas bandas, como “Do seu lado” (Jota) e “Resposta”, “É uma partida de futebol”, “Dois rios” e “Ainda gosto dela” (Skank) são de autoria de Nando Reis.
Hoje, aos 51 anos, José Fernando Gomes dos Reis, um são-paulino apaixonado que já foi colunista de futebol, parece interessado em reescrever sua história com outras tintas. E isso inclui a sobriedade. Ele conta que está “limpo” há um ano e três meses. Retomou o casamento (em casas separadas) com Vânia Reis, a mulher que conheceu ainda na adolescência e com quem tem quatro filhos – Theodoro, 28 anos, Sophia, 25, Sebastião, 19, e Zoe, 14. Ismael, seu quinto filho, tem 8 anos e mora no Rio Grande do Sul com a mãe, Nani (Nando tem também uma neta, Luzia, filha de Theodoro).
Toda essa família nós já conhecemos pelo rádio. Ou pelos discos. “Back in Vânia”, “Sophia/ Meu medo é te ver machucada/ Errei por ter te machucado/ Seu pai é um homem indomável/ Um provável homem doce”, “Tenho cinco filhos, fiz uma família/ Trouxe de Saturno um anel de leão/ Onde, hoje, moram minha mãe Cecília/ Cássia e Marcelo/ Dentro do meu coração”, “Meu mundo não teria razão/ Se não fosse a Zoe”, “O mundo é bão, Sebastião”.
Tudo parece biografia, mas é música. Mesmo que ele quisesse muito, não haveria nada que Nando Reis pudesse esconder.
que é veneno pra você? E que veneno mais o modificou na vida? Tem muitas definições do que é veneno. Você pode partir do que faz mal, mais do que o que te altera. Parto do princípio de que veneno deve ser isto: aquilo que não circula bem dentro do seu organismo e da sua cabeça. Acho que a coisa que mais me machucou foram as mortes. Há três mortes muito determinantes na minha vida. Primeiro a da minha mãe, que morreu de câncer. Eu tinha 26 anos, a Sophia [sua filha] tinha acabado de nascer e os Titãs tinham estourado, realizado o sonho de ver nossa música popularizada, fazendo turnê pelo Brasil. Fui bem atingido por isso. Eu estava distante, muito deslumbrado, e a morte dela se deu sem que eu tivesse me dado muito conta do próprio processo da doença. Isso deu uma quebra que eu associo, inevitavelmente, à relação com a cocaína, que é uma droga que eu usei muito e que se misturou muito com a minha vida.
Mas não era só você que usava cocaína na banda. Os Titãs usavam drogas, teve o episódio da prisão do Arnaldo [Antunes]… E até um certo tempo eu era amedrontado com isso. Eu era moralista, meio careta, achava que era uma coisa que não devia ser feita. Tinha fumado maconha, mas parei cedo, porque ela começou a despertar em mim uma paranoia. Eu não posso fumar. Engraçado… Recentemente eu tive um sonho em que eu tinha voltado a fumar e isso me fazia bem. Tem esse ranking das coisas que são mais poderosas e deletérias e te agridem mais, como se a maconha fosse inofensiva e a cocaína o demônio. Mas o impacto e a maneira como cada um usa é tão particular. Bem, mas voltando para a resposta original, daquilo que mais me machucou e me intoxicou, no sentido de deixar algo correndo nas minhas veias, raiva, foi a morte da minha mãe e, anos depois, a morte do Marcelo [Fromer] e da Cássia [Eller]. No ano de 2001, acho… sempre confundo.
Cássia foi em dezembro de 2001. O Marcelo… Foi uns seis meses antes. Isso foi um negócio que teve um impacto violento. Despertou muita raiva também e foi determinante pras minhas reações. A minha reação a essas duas mortes se deu no meu desentendimento com os Titãs, na cristalização da nossa separação, que era um processo. Mas, já que eu falei de drogas: eu me envolvi muito com isso. Usei muita cocaína e álcool. Estou há um ano e dois meses sem beber, porque eu também achei que estava dando muito problema. Essa percepção de quão tóxicos estavam se tornando esses dois elementos na minha vida, que sempre se misturaram com a minha relação de trabalho… Sempre bebi, desde pequeno. Há algo na minha família, essa coisa do glamour… Diferentemente do meu pai e do meu avô, que tomavam seu uísque e tal, eu bebia a trabalho, sabe?
trabalho era meio uma razão pra fazer isso. Era. E eu sempre fui tímido, o álcool era útil para essa desinibição, que tem a ver com as loucuras, inseguranças e tudo o mais. E um efeito muito prazeroso. A questão das drogas tem a ver com isto: elas sempre me deram prazer. A lícita e a ilícita: o álcool, que é permitido, e a cocaína, que não é. Elas sempre se misturaram na minha relação com o trabalho. A decisão de cortar tem a ver com a idade, com o corpo, com o uso abusivo que eu sempre fiz... e a percepção de que não está funcionando tão bem. Embora fiquem registrados na minha memória os picos de prazer. E, no meu caso, a produção... porque eu sempre fui muito produtivo com cocaína. Sempre usei muito pra compor e tudo o mais. Mas uma hora começou a atrapalhar, fiz shows ruins. Ano passado, percebi que estava tudo ruim e que eu nunca tinha experimentado essa perspectiva que estou tendo agora. Não que eu nunca tivesse feito tentativas. Já fui ao AA, carrego a fichinha do AA na carteira desde que fui pela primeira vez.
Você é alcoólatra? Sou um pouco reticente com essa questão da nomenclatura de alcoólatra, não alcoólatra. A própria literatura é. Resolvi experimentar a abstinência do álcool e me dei conta de que eu vivia uma abstinência de muitas outras coisas que eu não tinha percebido. A abstinência da relação afetiva. A abstinência do próprio prazer físico, das atividades, da lucidez. Estou abstinente de álcool, e de cocaína consequentemente, mas ganhei outras coisas. Estou muito satisfeito com isso. Quando você pergunta se eu sou alcoólatra, acho que essa não é a definição. Bem, pode ser que sim... Mas não faz muita diferença pra mim. Pretendo experimentar voltar a beber. Tenho uma atração por estados alterados. Fico reticente de declarar isso publicamente... não quero a vigilância de ninguém, a não ser a minha. Mas, enfim, estou de férias!

"Estou feliz por não me intoxicar mais, embora não saiba o quanto isso é definitivo"

É uma espécie de ano sabático. É, um enorme sabático dessa relação com tudo. Espero que tudo que venha a acontecer se reorganize em outros moldes. Os moldes em que estava já foram suficientemente vividos. Repetir aquelas situações, principalmente de insatisfação, é muito doído. Mas nunca fui adepto de reverter o estágio de cocaína tomando remédio. “Vou tomar um Rivotril pra dormir, um Lexotan pra interromper.” Eu vivia tudo, achava que era importante… loucuras. Tenho 51 anos. Estou bem feliz por não me intoxicar mais, embora não saiba o quanto isso é definitivo.
Você falou de compor com cocaína. Como está a história da composição hoje? Está bem. Compor ou não compor sempre foi uma das coisas que mais me angustiam na vida. A ideia de não fazer uma música, de não gostar da música, sempre esteve presente. E continua. Tem coisas… Este ano eu concluí um trabalho com o Samuel [Rosa]. O Skank deve lançar um disco agora, eu fiz nove músicas. Acho que entraram cinco ou seis no disco. Trabalhei bem. Sóbrio. Fiz músicas interessantes, boas. Mas é difícil, muitas vezes eu tenho vontade de cheirar pra compor. A lembrança do quanto deu certo não se apaga da memória.
Nunca teve aquela história de fazer uma coisa loucão e na hora em que acorda ver que não era tão bom quanto você achava? Mais ou menos. Tenho uma autocrítica ferrenha, às vezes paralisante, e o álcool, a cocaína ou qualquer outra substância que atenue esse impacto sempre foram bons. O disparador, o começo. A coisa chata de fazer muito drogado é que às vezes você não se lembra de como foi e parece que foi uma coisa meio mágica. Mas eu sou um trabalhador. Tenho um lado obsessivo de gostar, de quando eu pego o violão, me debruço sobre uma música, escrevo muito.
Você falou dos shows que estavam ficando ruins. Mas também fez ótimos shows quando estava bem maluco, não? Nesse período de total sobriedade, fiz grandes shows. De mergulhar naquilo que se está fazendo sem deixar outro pensamento te dispersar. A coisa que mais fode um show é você estar cantando e ter um pensamento paralelo. A sobriedade é muito melhor pra cantar e eu, que nunca fui um grande cantor, com recursos técnicos, tinha uma ideia de que só se ficasse doido eu teria interesse pelas coisas. Isso é falso. Durante muito tempo também eu estava tão doido que eu queria acabar o show pra ir pro hotel cheirar. O show às vezes era um martírio. Um show bom pra mim é quando eu me comunico não só com a plateia, mas também com a banda, e quando eu não deixo que a minha armadura se feche nos meus pensamentos e me ponha num lugar onde não estou.
Você é um dos dez maiores arrecadadores do Ecad… Será que ainda estou na lista?
Está. E faz tempo. Não é maluco que o Brasil, em certo ponto tão careta, reacionário, absorva tão bem sua personalidade outsider? Eu nunca fui mesmo sóbrio, convencional. Usar ou não usar drogas, beber ou não beber nunca foi o que me fez ser careta ou louco. Dizem que as músicas que eu faço são o que eu sou… É engraçado, às vezes eu acho que eu tenho um “não lugar” na história da música brasileira. Grande parte do meu repertório, que me coloca nessa lista, é muito popular. Mas parece que aos olhos da produção cultural brasileira isso me descredibiliza, como se eu fosse um artista pop de segunda linha. Não sou o cult, tenho 51 anos, tenho uma carreira de 30 e tantos anos, já fiz músicas de sucesso com os Titãs, muitas músicas minhas fizeram sucesso na rádio. Mas não sou premiado em nada. Nas edições do prêmio do José Maurício Machline [Prêmio da Música Brasileira], que deve comemorar 25 anos, nunca fui indicado. Ano passado acho que fui indicado a melhor capa... Vai tomar no cu! É ridículo.
Você se ressente desse não reconhecimento? Não estou reclamando… Estou fazendo uma observação do lugar estranho em que estou. É como se eu fosse visto, pelo fato de eu ser popular e fazer muitos shows, é como se isso não tivesse um primor de trabalho ou poético ou melódico ou de composição que merecesse qualquer tipo de olhar. Acho estranho, esquisito. Gosto de ser um dos dez mais, mas isso é somatória. Provavelmente tem uma participação grande das pessoas que gravaram as músicas que eu fiz com o Samuel, muitas delas foram hits estrondosos de rádio.
Seu trabalho é muito autobiográfico. Seu último disco é quase completamente dedicado à volta do seu casamento com a Vânia. Queria que você falasse dessa relação. Esse casamento é seu antídoto? Bicho, a monotonia pode ser um puta veneno. E um casamento… Eu acho que nunca me separei da Vânia, mesmo estando afastado dela. Não só por conta dos quatro filhos, mas pelo tempo, pela amizade, pela admiração, pela afinidade de pensamento e pelo cuidado durante a separação, que durou quase oito anos nesse último período. Tive até um filho, o Ismael, com a Nani, que não é fruto de um casamento. Nossas vidas poderiam de fato ter se estruturado para outros casamentos e relações, mas isso não aconteceu. Eu voltei pra ela muito feliz, embora a gente tenha duas casas.
Há quanto tempo vocês estão juntos? Conheço a Vânia desde que eu tinha 15 anos. Atravessei tantas coisas, criei tantas coisas… Ela me dá tranquilidade. É a pessoa que sempre consulto para fazer as coisas e com quem eu, atualmente, estou nessa nova organização que a minha sobriedade trouxe. Não me lembro de ter passado um dia sem ter falado com ela ao telefone, mesmo separado, ou ter deixado de pensar nela, sabe? Fui pra um lugar lindo e pensei na Vânia. Queria comentar as coisas com ela, mesmo estando namorando, envolvido com outra pessoa… E ela identicamente. Fico feliz de estar ao lado de uma pessoa que eu sempre trouxe dentro de mim. É um sentido maior.
Muda muita coisa na relação, depois de tanto tempo? Mudou bastante. Os quatro filhos que tenho com a Vânia cresceram… E é engraçado, ando pensando nisso. No fato de ter tido primeiro o Theodoro e a Sophia, que hoje têm 28 e 26 anos, e depois, num outro momento, o Sebastião, que tem 19, e a Zoé, de 14. Acho que eu tive a crise dos 40 aos 50. Não no sentido de uma mudança externa, na percepção de “ah, estou perdendo cabelo”, mas pensando na finitude das coisas. Fiquei um pouco de saco cheio na minha ideia de sempre estar postergando a felicidade ou criando planos. As músicas que eu escrevo falam muito mais de um ideal. Muito mais daquilo que persigo do que do que vivo. Isso me aborrece um pouco.
Por quê? Eu não quero viver tanto de planos, essa ideia de ficar completamente apaixonado, criando coisas. Quando eu me separei da Vânia, fiquei anos... Namorei a Anna Butler em três períodos diferentes, namorei a Nani, a mãe do Ismael, depois namorei a Adriana. Eu tava sempre imaginando que ia formar uma nova família, casar de novo. E, sempre que essas relações se desenvolviam, uma hora tinha um impedimento meu de que elas se concretizassem. E uma certa desconfiança também, não da legitimidade do afeto que eu tinha por essas mulheres. Uma desconfiança do projeto no qual estava me lançando com elas, então vinham as interrupções.

"Eu penso muito agora: quero viver! O próximo passo é parar de trabalhar tanto"

coisa destrutiva das drogas também não interferia? Não é porque usei drogas que tenho uma relação destrutiva. Eu sou um ser vital, construí um monte de coisas, não é justo comigo que eu não usufrua dessas coisas. Minha volta com a Vânia, ainda mais depois dessa tarefa de criar os filhos, tem isso. Eu penso muito agora: quero viver! Meu próximo passo é parar de trabalhar tanto. Minha vida custa muito caro, minha estrutura é cara, o que me aborrece. Tenho medo de criar uma relação predatória com meu próprio trabalho. Não tenho mais saco para deslocamentos, por exemplo.
você ainda viaja muito. Nesta semana tenho que viajar. Cinco shows em cinco estados diferentes. Tenho a sensação de que vivo muito uma coisa e deixo de viver outras. Quero ser mais equilibrado. Então, meu casamento com a Vânia, uso ele quase como um símbolo. Um símbolo de um casamento com a vida, e não só com o trabalho.
Você tem discos pra todas as namoradas. Seu trabalho, por ser autobiográfico, tem relação com o que acontece na sua vida amorosa? Tem. Meu trabalho tem esse lado vital, que eu falo e defendo. É um traço muito antigo meu. A música que eu mais gosto do disco Sei é a “Pré-sal”. Porque ela descreve muitas coisas relacionadas com a minha infância. O título foi dado pela minha irmã. Um dia reuni meus irmãos aqui e mostrei as músicas que eu ia gravar. Minha irmã olhou e falou: “Acho que essa música deveria chamar ‘Pré-sal’, porque ela é tão profunda, é anterior à consciência”.
Como é essa relação com seus irmãos? Tem dois episódios muito determinantes na história da minha família. Eu sou o quarto filho de cinco. Carlito é o mais velho... meu pai e minha mãe se casaram muito jovens, ela tinha 19 anos. Com 21, já tinha três filhos. O Zeco, o terceiro, teve meningite e ficou surdo. Cinco anos depois eu nasci, ruivo. Não há nenhum ruivo na história da família, eu sou um acidente genético. E três anos depois de mim nasceu a Lulu, Maria Luiza. Ela teve meningite também, que degenerou para uma encefalite e deu uma paralisia cerebral. Ela foi superafetada por essa paralisia. O Zeco, apesar de surdo, sempre estudou em escola normal. Minha mãe sempre foi defensora da inserção, da inclusão. Que ele não ficasse restrito ao gueto dos surdos e mudos, da linguagem de sinais. O caso da Lulu era mais grave, então ela ia a uma escola especializada, para pessoas com problemas neurológicos e motores graves. 
Conviver com isso foi marcante na sua vida? Ela tinha surtos de agressividade, uma coisa terrível. Então era um pouco constrangedor pra mim, meus amigos iam lá pra casa e se assustavam com aquilo. Nossa vida familiar foi muito marcada por esses episódios. Somos paulistanos de classe média alta... mas eu sempre fui estranho. Pela ruivice, pela minha família, pela minha história. Essa estranheza, nem facilitadora, nem dificultadora, foi a minha marca particular. Minhas músicas autobiográficas sempre estão em primeira pessoa porque são de fato a minha história. Cada um de nós precisa se haver com aquilo que é. E essa é talvez a força política da minha música, a defesa do indivíduo. Não no individualismo contra o coletivo, pelo contrário: pra você se incluir coletivamente de uma forma saudável, você precisa ser satisfeito com o que é.
Em uma banda de oito, era preciso se colocar... Eu nunca fui bom, eu sempre perdi lá dentro. Tanto que eu tive que fazer muitas coisas fora. O Marcelo [Fromer], ele que me alertou: “Bicho, você faz um monte de coisa. Por que você não compõe?”. A quantidade de músicas que eu apresentava pro Titãs e era gravada era pouca. Eu era um autor minoritário dentro do grupo, não era bom na competição lá dentro. Acho que fui engolido muitas vezes e desenvolvi vinganças. Tem um lado estranho da minha personalidade, da minha relação com os Titãs. E é paradoxal: sou um sujeito que se arrisca muito. Mas meus riscos são meio calculados. Já quase me fodi nessas de saber até onde posso ir.
Por exemplo? Já tentei me matar. Saca? Evidentemente era a infelicidade da vida que eu levava, somada a uma raiva, somada a um foda-se... E, claro, muita droga.
Tentou se matar como? Exagerando na droga? Não, não. Eu tenho uma resistência física absurda. Nunca tive ressaca, sou daqueles caras que cheiravam, cheiravam, e depois iam fazer coisas. Nunca faltei em um show, nunca perdi hora, raramente perdi um voo. É uma característica minha. Tentei me matar foi porque eu estava bebendo muito, minha vida estava desorganizada. Eu tava separado da Vânia e ela falou: “Do jeito que você tá, não vai pegar as crianças”. Isso foi o fim. Tomei duas caixas de Lexotan. Tive uma intoxicação e fui socorrido. Também já cheguei a ficar na beira de um prédio, olhando pra baixo. Já fui salvo, sobrevivi. Nunca bati o carro... Tudo isso pra dizer que, embora eu tenha me arriscado muito, eu sabia que eu ia voltar. Sempre voltei. 

"Impossível retornar aos Titãs, mas eu queria muito retornar a amizade, a convivência"

Como é estar exposto assim, diante dos filhos? Tem uma música sobre a Sophia... Essa música é muito explícita sobre essa relação difícil. A Sophia sempre reagiu negativamente, apontando “eu não gosto que você fique muito doido”. Se afastou de mim, nunca se esquivou desse assunto. Nenhum filho gosta de ver pai bêbado, ausente. É deprimente. Ela sempre falou: “Acho uma merda você beber, cheirar”. E a música, eu escrevi muito louco, aliás. Há mensagens subliminares sobre esse assunto em várias outras músicas minhas. “Cegos no castelo” é uma. Todo mundo acha que eu estou falando sobre os Titãs. Mas é muito da minha cegueira, meu isolamento. Castelo é um lugar onde metaforicamente eu me encastelava. Falava de mim e da minha relação com a cocaína.
Está tudo certo entre você e os Titãs hoje? Tá, supercerto. Adoro todos eles, adoro a nossa história, os discos que a gente fez. Era muito apaixonada a minha relação com eles, durante muitos anos. Uma separação é sempre desagradável e claro que vieram à tona coisas que não precisavam ter vindo, a dor de cada um dos lados, a raiva de cada um pela incompreensão. A minha saída tinha a ver com me sentir incompreendido, ver o meu espaço cerceado, naquele momento parecia isso. Depois eu vi que eu tava querendo mais espaço e uma necessidade absoluta de controle, de não ter que dividir tanto. Você só pode estar numa banda se você deseja aquilo, a coisa democrática. Tava ficando chato, eu era sempre a voz dissonante. Mas não há mágoa.
Vocês se veem? Estive com Paulo [Miklos] há dois meses, a morte da Raquel [mulher dele] me tocou profundamente, me fez sentir saudades deles todos. Impossível retornar aos Titãs, mas eu queria muito retornar a amizade, a convivência. Com o Paulo, por exemplo, a gente passou uma noite aqui em casa, 5, 6 horas conversando, bebendo cerveja sem álcool, que eu adoro. É muita afinidade, sabe? Há muitas coisas que eu vivi com eles, da forma de pensar, da maneira de ouvir música, de comentar. Tenho vontade de ligar, sabe? Não tô falando só de nostalgia, tô falando de linguagem. Eu admiro muito a forma, a inteligência de todos eles. O Paulo Miklos é um sujeito brilhante. É um dos caras mais engraçados que eu já vi. No Natal, fomos almoçar eu e ele na casa do Arnaldo, eu adoro. Relações como essa podem se manter mesmo sem contato, que elas estão intactas. Tenho certeza, com todos eles. Com Paulo, Charles, Arnaldo, Brito, Branco, Belotto. Lamentavelmente não posso encontrar o Marcelo.
Você tem medo de morrer? Ando pensando muito na morte, sim. Acho que principalmente… Meu pai tá com 83 anos e a sua saúde sofreu um ligeiro revés. Então olhar pra ele e pra mim, os filhos crescendo… Tenho pensado nisso, sim. Não tem coisas que eu nunca fiz e preciso fazer antes de morrer, sabe? O que incomoda são sinais de mudança no próprio corpo. Eu treino, faço musculação, academia, mas claro que é diferente hoje. Essa percepção do tempo passando e de que não há como reverter, isso aflige, incomoda. Incomoda, não: assusta. A mudança de hábitos, de parar de beber, de ver que cheirar não dá mais, tá relacionada com isso também. De percepções de que passou um tempo. Mas tenho um pouco de raiva de ter que parar. Eu gostava daquela infinita energia e alegria que as drogas e o álcool me traziam, mesmo que ilusória.
tem a coisa da vaidade? Sim, tenho questões que sempre me acompanharam e que agora exijam talvez mais... Antigamente eu cheirava e ia treinar, sabe? Na academia. O que é bastante estúpido de certa maneira. É uma coisa impensável hoje. Se eu cheirar tenho que ficar dois dias de molho, é um horror. Acho detestável trocar, nesse cálculo racional, bem objetivo e realista, dois dias que eu perderia por uma noite de farra, sabe? Não quero perder as coisas boas em nome de algo que eu já fiz bastante.
Pra parar de beber e cheirar você tem que botar um negócio no lugar, pra segurar a onda? Vou ser bem honesto: eu não bebo porque eu tô tomando um negócio chamado antietanol.
Pra que serve? É um remédio que você toma e para de produzir uma enzima que metaboliza o álcool. Então, se você ingerir álcool, é tão tóxico que você vai parar no hospital. Eu sei que a minha força de vontade não seria suficiente pra eu parar de beber, então eu decidi experimentar esse negócio. Se eu pus coisas no lugar? Acho que comecei a fumar mais cigarro, mas quero controlar. Um dos meus pânicos com a idade é sofrer doença. Não sou um cara que vive bem com dor e com doença. Preciso estar apto, não só porque tenho muita coisa pra fazer, mas porque gosto dessa aptidão, entendeu?
Você começou a tomar esse remédio só pra parar de beber? Fui lá no Rodrigo Bressane, meu psiquiatra, e ele me passou esse remédio. Que se eu beber eu passo mal. Fiquei muito intrigado e pensei: “Pô, não quero ser castigado”. Mas queria parar de beber, experimentar esse outro barato. E é bom. Porque tem uma certa contabilidade pra uma pessoa pra beber como eu bebia, que usou drogas como eu usei e que já tem 51 anos. Percebi uma queda de qualidade em alguns aspectos, nas relações afetivas e tudo o mais. Já não sei por que eu tô falando isso...
Você estava falando do barato de não ter barato. Ah, sim. Teve um resgate com a minha essência, vamos dizer assim. Continuo sendo a mesma pessoa, não tive nenhuma depressão, não fiquei mal-humorado, não fiquei chato, não tive síndromes. Nenhuma. Pelo contrário, fiquei eufórico, comecei a achar graça em um monte de coisas. Resgatei um monte de coisas que estavam de lado. Minha casa voltou a ficar cheia, minhas relações ficaram boas. Por outro lado, a vida normal é um saco, velho. Não é assim essa maravilha... Mas não é nem com drogas, nem sem drogas. Então vamos combinar que é uma escolha. Tô muito satisfeito com essa escolha. Eu tava sofrendo muito com a vida que eu levava.
Você falou das novas músicas que fez com o Samuel Rosa. Você vê diferenças nessas canções, feitas nessa fase de sobriedade? Não... acho que aquilo que dá qualidade ou uma marca às minhas músicas é a forma como eu penso, ou mesmo como eu lapido o trabalho. A droga sempre foi uma ótima despertadora de apetite, mas, a partir do momento em que estou envolvido, tanto faz o processo mental. Nunca fui bobo de achar que uma coisa estaria boa apenas porque eu estava doido. Ou porque tô careta. É muito mais na hora de “tá bom, vamos abrir o violão e pegar essa coisa”. É pra esquentar. Pra responder mais objetivamente: não há diferença de qualidade, de característica. Minha forma de pensar é minha, careta ou louco. Não muda.
Marcus Preto Revista TRIP

 Chora não, Gugu. A gente some mas volta 
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