15/04/2014

Como fazer o melhor check-up

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Dois artistas populares no Brasil tiveram problemas graves de coração recentemente, apesar de serem adeptos de check-up regulares. O ator José Wilker faleceu por causa de um infarto no sábado 5, aos 69 anos. Amigos próximos relataram que ele havia se submetido a exames recentemente. 

“Fiquei chocado, porque ele se cuidava, fazia check-up”, disse o diretor Denis Carvalho. E o humorista Renato Aragão, 79 anos, também conhecido por zelar pela saúde, sobreviveu a um infarto, ocorrido em 15 de março. 

As histórias dos artistas chamaram a atenção para um fato considerado rotineiro por cardiologistas: na maioria das vezes, os check-ups cardíacos não incluem testes de imagem, os mais efetivos para detectar obstruções arteriais que levam ao infarto. Por isso, pessoas que acreditam estar com boa saúde porque apresentam índices normais dos principais fatores de risco acabam na emergência cardíaca dias ou semanas depois.


CHOQUE
O infarto que levou Wilker à morte surpreendeu os amigos mais próximos

Foi isso que aconteceu com o empresário carioca Hirohito Clemente das Neves Júnior, 51 anos. Aos 42 anos, ele sofreu no hospital duas paradas cardíacas. Antes disso, sentia-se seguro, pois passava bem nos testes anuais que realizava. Chegava a internar-se por um dia em hospitais de excelente nível, no Rio de Janeiro. Foi salvo porque correu ao hospital quando começou a suar e sentir dormência no braço esquerdo. “Agora, a cada dois anos faço uma cintilografia do coração”, conta o empresário, referindo-se a um exame de imagem que não faz parte do pacote habitual de checagem.
Esse tipo de ocorrência está levantando a discussão sobre a eficácia dos check-ups comuns. De fato, há alguns pontos nesse sistema que podem levar à falha na sua capacidade de predição dos riscos. Um deles é exatamente o fato de a maioria não incluir exames de imagem. Ocorre, porém, que a obstrução arterial por placas de gordura só é visível por meio dessa tecnologia. “Além disso, não são apenas as placas de gordura que causam infarto, mas também eventuais espasmos musculares do coração”, afirma o cardiologista Emílio Zilli, diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia. “As pesquisas estão evoluindo também para se averiguar melhor o comportamento das partículas sanguíneas. Às vezes, uma partícula de gordura pode desencadear uma inflamação desastrosa”, explica.
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O cardiologista carioca Carlos Scherr, do Colégio Americano de Cardiologia, também enfatiza a necessidade de testes mais sofisticados. “As placas de gordura podem passar despercebidas num teste de esforço, se forem pequenas, mas não seriam ignoradas em um exame de cintilografia coronariana ou em uma angiotomografia”, afirma. “Mas são procedimentos mais caros e que submetem o paciente à radiação. E há relutância dos planos de saúde de autorizá-los por serem onerosos financeiramente”, diz. A Associação Brasileira de Medicina de Grupo disse, em nota à ISTOÉ, reconhecer que “o médico é sempre o profissional indicado para fazer a avaliação” e que libera exames complementares “nos casos de alto risco.”
O desafio é descobrir quem precisa de investigação mais apurada, o que a entrevista médica pode indicar. Médico do Instituto do Coração, de São Paulo, o cardiologista Sérgio Timerman diz ser adepto da “conversoterapia”. Com ele, o diagnóstico não sai antes de ser traçado um quadro com os hábitos do paciente e o histórico de enfermidades de sua família. “Em consultas de 15 minutos não se faz medicina”, diz. Segundo ele, estudos mostram que pacientes que morreram de infarto muitas vezes tiveram algum sintoma que negligenciaram, como falta de ar. De detalhe em detalhe, é calculado o risco do indivíduo e o teste laboratorial mais indicado. Até um cateterismo pode ser usado em último caso. “Muita gente já foi enterrada com bons resultados de check-up”, afirma Timerman.
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O cardiologista e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Denilson Albuquerque diz que o médico pode fazer uma planilha com os fatores de risco do paciente, mas que o próprio indivíduo também precisa se monitorar. Por exemplo: pesar-se regularmente já que aumentos abruptos podem significar retenção de líquido e consequentes risco de infarto.
Para complementar o esforço por uma melhor prevenção, a credibilidade dos testes é fundamental. Porém, a própria Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial admite que dos 17 mil laboratórios públicos e privados do País, apenas seis mil adotam algum programa de qualidade. O diretor de Acreditação e Qualidade da entidade, Walter Shcolnik, diz que a maior parte dos erros está na coleta, no armazenamento e no transporte das amostras.
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Michel Alecrim - Istoé

A pátria que nos pariu

"Em poucos dias, farei 514 anos, eu, a mãe-pátria amada de mil faces. A pátria que vos pariu. Estou em toda a parte e em lugar nenhum. Sempre quiseram dar-me uma identidade, mas eu não tenho um rosto só. Na verdade, sou uma região dentro de vossas cabeças.
No início, eu era a bandeira catequista para encobrir a missão predatória que faziam no País real. Eu era usada para abençoar índios de camisola e navios negreiros.
Depois, eu fui a mãe escravista e mercantil do império, defendendo o atraso para o bem dos donos do poder. Na República, virei a auriverde mãe positivista, entre flores e raios apontando para um eterno futuro.
Nos anos 30 e 40, virei uma mistura de madona 'art déco' com alegoria populista. Falavam de mim nos hinos, nas capas de cadernos escolares, nas fachadas de hospitais, eu era a virgem mãe nacionalista defendida contra inimigos estrangeiros, mas, na verdade, eu servia para proteger meu pior inimigo: o patrimonialismo enquistado nas dobras do Estado.
O pós-guerra mudou o mundo, mas eu continuei a ser uma grande aquarela brasileira em que cabiam todas as ilusões. Eu era abençoada por Deus e tinha a nitidez dos quadros acadêmicos, eu justificava os crimes dos poderosos com meu firmamento estrelado, minas de ouro, leitos de petróleo, sempre com a promessa de 'futuro'.
Com Brasília, acharam-me 'fora de moda' com minha alma agropastoril. Eu não seria mais Cy, a mãe-do-mato, cercada de curupiras, boitatás, sacis. Virei um canteiro de obras, esqueletos de edifícios - eu era a arquiteta da utopia. Deixei de ser índia. Cobriram minha nudez de Iracema com meias de nylon, grandes luvas negras, 'escarpins' dos anos 60. Nasci para o mundo com a 'missão' juscelinista que acabaria com a miséria pelo parto da modernidade. Mais uma vez, eu era o emblema de uma nova ilusão dos brasileiros. Transformaram-me em aeroporto para o amanhã mágico, um viaduto imaginário por cima da desgraça do povo.
Mas, o subdesenvolvimento persistia, mesmo sob a asa branca da capital utópica, e eu fui transformada numa nova alegoria.
Em 1963, era preciso que eu fosse a mãe das reformas de base e que levasse nas mãos a espiga de milho, a foice dos camponeses e a roda dentada da indústria. Eu iria parir um tipo novo de socialismo sem sangue, um 'socialismo tropical' que viria por decreto do presidente Jango. Eu seria uma mãe-coragem sem guerra que realizaria todos os desejos. E entre as tochas dos comícios delirantes, levadas por jovens que se achavam o 'sal da terra', eu aboliria a luta de classes e seria a mãe da 'revolução cordial'.
Mas meus filhos revolucionários não contavam com a infinita mesquinhez dos poderosos, escondida sob a aparência de cordialidade, pois os donos do poder não queriam me ver sujando as mãos nas favelas e no campo.
Assim, na ditadura militar, eu fui tirada do pedestal popular e uma nova mãe-pátria foi criada, no altar positivista dos tenentistas tardios. Abriram-me novos céus estrelados, fizeram-me de novo a índia de camisola verde-oliva, a triste mãe dos quartéis, a feroz guerreira parnasiana dos discursos militares. Durante esses anos, meus filhos tiveram medo de mim, mãe castradora, seca, cruel.
E então eu virei a deusa trágica dos heroicos guerrilheiros urbanos, a mãe-trapezista dos abismos, a estrela dos suicidas. Os torturadores giravam máquinas elétricas e, entre gritos, pensavam estar me defendendo, a mim, uma vaga mistura de seios ensanguentados e rostos de meninos-cadáveres. Eu fui a mãe dos assassinos. Enquanto isso, eu tinha saudades dos meus filhos do Brasil real, feito de madeira podre, caixote, barbante, lama e favela. Eu estava com eles, mas ninguém me via.
No fim da ditadura, eu renasci como a mãe democrática, o futuro de uma vida nova que viria. Mas chegou a liberdade e eu não cheguei. A liberdade veio torta, marcada pela morte de Tancredo. Os planos econômicos fracassavam e não chegava a felicidade que eu traria. E meus filhos começaram a me maldizer, ao ver que a democracia era de boca, que as instituições eram dominadas pela oligarquia e que o País era pilhado até por 'ex-vítimas da ditadura'. Fui a mãe do desencanto. Fui a mãe odiada.
Hoje, sou a mãe dos desorientados. Sou a mãe de velhos militantes regressistas, comandando massas imaginárias, sou a mãe-suja dos corruptos, sou a mãe terrível que abandonou os filhos no corredor do hospital sem leitos, sou a mãe aborteira, sou a mãe criminosa dos massacres, sou a mãe dos mortos nas prisões, sou a mãe das secas, a mãe da poluição, sou a mãe da fome, a mãe paralítica dos burocratas, sou a mãe dos pixotes assassinados, a mãe das putinhas dos garimpos, a mãe dos esgotos, mãe do medo. Nunca sentira isso antes. Sinto-me uma mãe fragmentada, desmantelada por um velho desejo de desfigurar as instituições em que me apoio. Os homens que mandam no País não me querem, dizendo que me amam ou que amam o povo que não amam.
Nunca, em minha vida de 500 anos, vi este desejo cego de me ignorar (me louvando), num misto de estupidez com hipocrisia. Mas, vejo que meu corpo é maior, que eu sou muito complexa para ser destruída, que as partes fundamentais da verdade vão prevalecer e me manter viva. E em meio aos escândalos, aos roubos, à destruição (agora sim) do patrimônio nacional, vai aparecer meu novo rosto. Meu manto de estrelas será tecido de trapos e deixarei de ser uma deusa longínqua, uma ilusão, e aos poucos os brasileiros aprenderão a me chamar de 'realidade'.
Mas, eu me prefiro assim, pois ressurgirei da morte das mentiras, hinos e discursos corruptos que enganaram meus filhos. E quando os sonhos falsos forem esquecidos, sob um céu de anil, entre rios e florestas, poderei fazer alguma coisa por vocês, filhos queridos."
Arnaldo Jabor

10/04/2014

Roberto Carlos em ritmo de ditadura

PROXIMIDADE Roberto Carlos é condecorado pelo general Humberto de Souza Mello.  Ele foi listado  entre “artistas  que se uniram  à Revolução”  (Foto: Folhapress)Em 1979, um cantor circulava pelos corredores de Brasília causando alvoroço entre as secretárias. Roberto Carlos, aos 38 anos, cabelos cacheados, fazia visitas pontuais a autoridades do governo. Seus passeios pelo Planalto tinham um propósito: conseguir a concessão para uma emissora de rádio. “Ouvi gritos no corredor e, de repente, entrou o Roberto Carlos em meu gabinete. Tomei um susto. Ele tinha vindo fazer uma visita de cortesia. Isso não era necessário, porque as concessões eram dadas pessoalmente pelo ministro ou pelo presidente. Eu cuidava apenas da documentação burocrática”, diz Rômulo Furtado, na época secretário-geral do Ministério das Comunicações. O ministro era o capitão da Marinha Quandt de Oliveira. O presidente era o general Ernesto Geisel.
Roberto Carlos andava em companhia do radialista Cayon Gadia, seu sócio na empreitada. O governo distribuía concessões de rádio e restavam poucas faixas na frequência FM. Entre as grandes capitais brasileiras, havia um espaço atraente em Belo Horizonte. Na época, a distribuição das emissoras não obedecia necessariamente a critérios técnicos. “O nome de Roberto Carlos e o prestígio dele já eram credenciais suficientes para garantir a concessão”, diz Rômulo. O trabalho de lobby só deu resultado mais de um ano depois. No princípio do governo de João Baptista Figueiredo, Roberto Carlos conseguiu autorização para montar a Rádio Terra, que manteve durante 15 anos em Belo Horizonte – sem que o público nem mesmo os empresários do setor soubessem de sua participação.

PROXIMIDADE Roberto Carlos é condecorado pelo general Humberto de Souza Mello.  Ele foi listado  entre “artistas  que se uniram  à Revolução”  (Foto: Folhapress)
Essa passagem desconhecida da biografia de Roberto Carlos foi o ponto culminante de suas boas relações com o poder ao longo de duas décadas de ditadura no país. Nos anos de chumbo, ele foi condecorado com a Medalha do Pacificador, ocupou cargos em conselhos do governo, livrou-se da censura com a ajuda do ministro da Justiça e foi contratado pelo Exército para atuar em inúmeros shows em homenagem à Revolução. Embora sempre tenha levado uma carreira de empresário paralela à de músico – na época da ditadura, ele tinha boate, postos de gasolina e uma locadora de automóveis –, a rádio foi um negócio bastante vantajoso, já que não teve de pagar nem um centavo pela concessão.
Seu sócio na emissora, Cayon Gadia, morreu em 2007. A mulher dele, Regina Blanco Ferreira, de 72 anos, relembra o caso. “Eles iam a Brasília falar com o presidente Figueiredo e com o Golbery (do Couto e Silva). Cayon ficou impressionado de ver o prestígio de Roberto ”, diz. Roberto Carlos nega. Em resposta  a ÉPOCA por e-mail, ele informa que apenas aceitou o convite recebido pelo sócio e que não se lembra da ajuda de nenhum político ou militar para conseguir a concessão. “Que eu saiba não. Quem tratou de tudo foi o próprio Cayon Gadia”, diz.

Roberto Carlos já era funcionário do Ministério da Educação e Cultura quando os militares tomaram o poder, em 1964. Tinha 23 anos e trabalhava como assistente de relações-públicas na rádio MEC, no Rio de Janeiro. “Ele fazia serviços diversos. Pegava endereços que eu precisava ou ligava quando eu tinha de falar com alguém. Logo pedia para ir embora, porque precisava fazer seus shows”, diz a jornalista Noemi Flores, sua chefe na época, hoje com 92 anos. Depois que mudou de função, Noemi diz que nunca mais viu Roberto Carlos por lá. O nome dele continuou constando como funcionário até que sua exoneração fosse publicada, em 1970.
Em maio de 1967, Roberto Carlos já era uma espécie de unanimidade nacional, quando foi recebido para uma audiên­cia a portas fechadas com o ministro da Justiça, Luiz Antônio da Gama e Silva. Ele era um revolucionário ardoroso, redator e locutor do AI-5, medida mais dura do regime. Precisamente em 1968, ano do AI-5, o cantor lançou seu primeiro filme, Roberto Carlos em ritmo de aventura. O longa-metragem de ação não trazia nenhuma referência crítica ao regime, mas seu trailer foi barrado pela Censura, por questões burocráticas. Os produtores não conseguiram enviar a tempo uma cópia integral do filme, pré-requisito para que o trailer fosse liberado. Diante do impasse, o ministro Gama e Silva enviou um telegrama urgente à Divisão de Censura da Polícia Federal, que atuava sob seu comando. Ele pedia ao chefe da Censura para “abrir uma exceção” e liberar o trailer sem assistir ao filme. “Se trata de uma história cujo protagonista é o mais admirado e popular artista brasileiro”, afirmou o ministro. O trailer foi liberado no dia seguinte.

Em 1971, Roberto Carlos mandou um telegrama de condolências ao ministro da Aeronáutica, marechal Márcio Melo, lamentando a morte de três militares num acidente, durante um show da Esquadrilha da Fumaça. Nesse mesmo ano, um comunicado do Serviço Nacional de Informações (SNI) criticava a imprensa por “atingir a honra” de diversos artistas por meio de “noticiário difamatório”. “A incidência deste desgaste recai seguidamente sobre determinados artistas que se uniram à Revolução de 1964 no combate à subversão e outros que estão sempre dispostos a uma efetiva cooperação com o Governo”, diz o informe. Entre os artistas, aparece o nome de Roberto Carlos e de seu empresário na época, Marcos Lázaro.

Roberto Carlos realizou shows durante as Olimpíadas do Exército, em 1971 e 1972, na Presidência do general Emílio Garrastazu Médici. Os jogos serviam para aproximar os militares da população, enquanto o regime iniciava ações duras contra opositores. O ano de 1972 marca a desarticulação da Guerrilha do Araguaia, que deixou 62 mortos na região amazônica. Foi também o ano em que Roberto Carlos ganhou sua primeira nomeação no governo, para participar da Comissão Nacional Anti-Tóxico, do Ministério da Educação e Cultura. O objetivo da comissão era elaborar projetos para o combate às drogas. A escolha dos integrantes foi feita pelo então coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação na época. Com 31 anos, Roberto Carlos era o integrante mais jovem. “Nos reuníamos periodicamente em Brasília, para que cada conselheiro apresentasse sua proposta. Não vi o Roberto Carlos em nenhuma reunião”, diz Lygia Maria Bastos, hoje com 94 anos, então deputada estadual pela Arena, o partido do governo.

Em 1973, Roberto Carlos foi agraciado com a Medalha do Pacificador, honraria concedida a militares ou civis que de alguma forma contribuíam com o Exército. Mais tarde, a medalha ficou famosa por homenagear os torturadores do regime. Ele a recebeu em São Paulo, das mãos do general linha-dura Humberto de Souza Mello. Segundo a justificativa publicada no Boletim do Exército, a medalha foi concedida “pela inestimável colaboração prestada ao Exército”, em especial durante a realização de sua IV Olimpíada. Os jogos aconteceram no Recife naquele ano, e Roberto Carlos foi a grande atração do show de encerramento. Depois de receber a medalha, ele se apresentou durante a exposição O Brasil de hoje, que enumerava as realizações do governo ao longo de nove anos de ditadura. O músico Martinho da Vila também participou do evento.

Dois anos depois, o jornalista Vladimir Herzog foi torturado até a morte nas instalações do Exército em São Paulo. Sua morte desencadeou uma onda de insatisfação na classe média. Também em 1975, no mês de março, Roberto Carlos apareceu cantando num programa de televisão comemorativo ao 11º aniversário do golpe militar, transmitido em cadeia nacional. O programa contou com pronunciamento de vários políticos ligados à Arena. Também participaram do programa os músicos Jair Rodrigues e Eliseth Cardoso.
 

EXCEÇÃO O trailer do filme Roberto Carlos em ritmo de aventura (cartaz à esq.) foi liberado pela Censura após intervenção do ministro da Justiça (abaixo) (Foto: Reprodução)
Em 1976, Roberto Carlos recebeu a Ordem do Rio Branco, reconhecimento do governo brasileiro pelos serviços prestados à nação. Quem entregou a medalha foi o presidente Ernesto Geisel. Naquele mesmo ano, ganhou seu segundo cargo no governo, desta vez no Conselho Nacional de Direito Autoral, que dava a palavra final em disputas relativas a direitos autorais no país. Os conselheiros participavam de reuniões quinzenais em Brasília. Recebiam passagem aérea, hospedagem e um jeton por reunião. Roberto Carlos ficou três anos na função. “Ele não ia a todas as reuniões, mas era um conselheiro frequente. Não abria a boca. Enquanto os outros conselheiros discutiam, ele apenas se sentava na cadeira. No final ia embora, sem falar praticamente nada”, diz Divaina Borges, então secretária do conselho. Um dos projetos apresentados por Roberto Carlos sugeria a criação de uma entidade que representasse os compositores de jingles publicitários. Os pareceres assinados por ele não foram preservados pelo ministério. “Ele olhava as questões com olhos de grande arrecadador que era, já que recebia direitos autorais como compositor, intérprete e editor”, diz o jurista Carlos Fernando Mathias de Souza, então presidente do conselho.

Roberto Carlos continuava na função quando criou a sociedade Rádio Terra Ltda., em fevereiro de 1979. Segundo o contrato de fundação, as transmissões teriam propósito educativo, cultural e informativo, mas também “cívico e patriótico”. O documento diz que a empresa poderia abrir sucursais ou filiais em todo o país. “Nos corredores do ministério, sabia-se que o desejo deles era criar uma rede de emissoras de rádio em algumas capitais brasileiras”, diz Rômulo Furtado, ex-secretário-geral do ministério. A concessão foi publicada no Diário Oficial em agosto de 1980. Os dois sócios conseguiram apenas uma emissora e levaram quatro anos para colocá-la no ar. Antes disso, Cayon Gadia saiu do negócio. “Ele não gostava de falar muito do assunto. Dizia apenas que pessoas próximas ao Roberto Carlos ficaram com ciúme da sociedade”, diz sua viúva, Regina Blanco. Sua parte foi vendida para José Carlos Romeu, radialista que apresentava shows de Roberto Carlos, e Sérgio Orensztejn, sócio de Roberto Carlos em uma locadora de automóveis.

Roberto Carlos foi à missa de inauguração e praticamente não voltou à rádio, que também não tocava músicas suas. “Ele queria deixar claro que era um negócio do empresário, não do artista”, diz Marco Aurélio Jarjour, que entrou na sociedade e hoje é o dono da emissora. Roberto Carlos vendeu sua parte em 1994. “Não houve motivo especial. Marco Aurélio se interessou em comprar  minha parte, e aceitei a proposta”, disse Roberto Carlos por e-mail.

Roberto Carlos nunca fez músicas exaltando o regime, como a dupla Dom e Ravel. Ao longo da ditadura, manteve uma postura apolítica. Para o governo, era uma posição conveniente. “O perfil do Roberto Carlos era avaliado como positivo pelo regime. Se os militares conseguissem colar sua imagem à de um grande ídolo popular como ele, que ainda por cima não criticava a ditadura, seria interessante para eles. Mas isso não chega a constituir um apoio ou conivência. Houve ingenuidade política”, diz o historiador Carlos Fico. Uma concessão como a Rádio Terra, nos dias de hoje, vale em torno de R$ 2 milhões, segundo a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. 
Marcelo Bortolotti - Revista Época

04/04/2014

Conheça a relação de Steve Jobs com o suco de cenoura mais caro do mundo

Inovação é um enigma para muitos empreendedores e empresas. Ainda é algo da genialidade de um Steve Jobs. E isto impede que muitos se tornem mais inovadores.

O código inicial da inovação já foi quebrado há séculos, mas são poucos ainda que se dão conta disso. Tomando Jobs como referência, o próprio repetia algo que já havia sido dito por uma das suas referências, Pablo Picasso. Picasso dizia que “bons artistas copiam, grandes artistas roubam!” A frase agressiva de Picasso é suavizada em outra de Isaac Newton, que dizia “se consegui ver mais longe, é porque estava aos ombros de gigantes”. Neste caso, os gigantes de Newton eram Galileu Galilei e Johannes Kepler.

A lógica da inovação de Jobs, Picasso e Newton diz que é preciso partir de grandes referências para ir além daquilo que já foi visto então. Encarado desta forma, não faz sentido empreendedores partirem do “zero”….

O código da inovação já foi apresentado e reapresentado em diversos outros estudos dos chamados ‘gênios’. Mas apenas tratar dos gênios pode ampliar a distâncias daqueles que não se consideram os tais. Pessoas ‘comuns’ podem e deveriam inovar mais.

Por isto, acho que vale a pena falar de algo que chamou a atenção de Bill Gates quando ele visitou Steve Jobs e notou a enorme quantidade de sucos da marca Odwalla que havia na Apple. “Por que eles compram o suco de cenoura mais caro do mundo?” – pensou.

Jobs era absolutamente fascinado pelos sucos da Odwalla. Não só porque sua esposa havia trabalhado na empresa, mas também pela obsessão dos seus fundadores em copiar a natureza.

A Odwalla foi criada em 1980 por três músicos, Greg Steltenpohl, Gerry Percy e Bonnie Bassett, em Santa Cruz, Califórnia. A conversa inicial que originou a empresa se deu na discussão que se a Califórnia era uma grande produtora de laranjas por quê havia tão pouca oferta de sucos frescos na região?

O trio comprou uma máquina de espremer laranjas e foi para o quintal de Steltenpohl. A produção inicial de sucos frescos era vendida para os restaurantes da região. De músicos, passaram a estudiosos de sucos e da natureza das frutas e legumes a ponto de criarem um processo que preservava a integralidade do sabor.

Criaram combinações de frutas que entregavam verdadeiras bombas de vitaminas e nutrientes. Uma dos sucos oferecia inacreditáveis 1.500% das necessidades diárias de vitamina C. É claro que o corpo elimina o que não é consumido, mas isto chamou a atenção. O negócio deu tão certo a ponto de atrair investimento da Hambrecht & Quist, que depois ficou famosa por também ter investido em empresas como Apple, Amazon, Genetech, Adobe e Netscape.

O sucesso da Odwalla incentivou Jimmy Rosenberg a criar a Naked Juices em Santa Mônica, Califórnia, em 1983. A ideia e o apelo eram muito parecidos. Só produzir e vender sucos feitos apenas com as melhores frutas e só com frutas.

Nada de água, conservantes e outros antes. Era suco, só suco. Mas além de produzir sucos de excelente qualidade, Rosenberg também se preocupou em criar embalagens inovadoras que atraíssem a atenção do público e que fossem agradáveis de consumir, tendo destinação correta após seu consumo. Isto ajudou a empresa a assumir a liderança de sucos ultrapremium nos Estados Unidos poucos anos depois.

O sucesso da Odwalla e da Naked incentivou Harry Cragoe a largar seu emprego na Califórnia e voltar para a Inglaterra, seu país natal, para criar algo muito parecido, a P&J Smoothies em 1994. A Inglaterra também tinha o mesmo problema identificado por Steltenpohl, Percy, Bassett e Rosenberg uma década antes: sucos ruins, com muita água, açúcar e conservantes. A P&J passou a oferecer sucos integrais com imagem mais simpática, com combinações inusitadas de frutas e embalagens diferenciadas. Foi um grande sucesso!

Mas cinco anos depois a P&J foi atropelada por uma startup chamada Innocent Drinks. Em 1999, três jovens amigos, Richard Reed, Adam Balon e Jon Wright trabalhavam como consultores e publicitários e decidiram criar uma barraca de sucos em um festival de música em Londres. O apelo era semelhante ao da P&J, mas havia muita irreverência na forma como os sucos eram vendidos: nomes de sucos engraçadinhos, mensagens inspiradoras nas embalagens, combinações de sabores que encantaram os ingleses e um logotipo que remetia a algo inocente e ‘santo’. Em poucos anos, a Innocent abocanhou mais de 80% do mercado inglês, tornando-se uma das referências mundiais na indústria de alimentos, a ponto de ser comprada pela Coca-Cola em 2013.

O que já é praticado há muito tempo pelos empreendedores inovadores, David Murray organizou no livro “A arte de imitar: Seis passos para inovar seus negócios copiando as ideias dos outros” (Campus, 2011). Murray explica como empresas e empreendedores podem copiar e ainda assim inovar:

1) Copie de lugares próximos: Quando você copia de lugares próximos como os seus dos concorrentes, você é um ladrão de ideias, um plagiador. Mas mesmo assim, é importante copiar o que funciona dos seus concorrentes. Comandante Rolim, empreendedor da TAM, costumava dizer que “quem não tem criatividade para criar, deve ter coragem de copiar!” Mas não chame isto de inovação!

2) Copie de lugares distantes: A criatividade começa quando você copia de lugares distantes na geografia ou no tempo. Dietrich Mateschitz, fundador da Red Bull, viu o que viria a ser fórmula inicial da sua bebida energética na Tailândia. Mas quando começou a vender na Europa, todos o acharam um gênio.

3) Copie de lugares similares: E você atinge seu apogeu criativo quando consegue copiar de situações similares. Dizem que Henry Ford se inspirou em um frigorífico em que cada pessoa era responsável pelo corte específico de carne para desenvolver sua linha de produção. Este brevíssimo capítulo da história da indústria de sucos mostra como copiar de onde se parou fazer com que a sua próxima ideia de negócio seja ainda melhor e mais inovadora.
Estadão

02/04/2014

Cupido

25/03/2014

10 gafes que você não pode cometer numa entrevista de emprego

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A entrevista é um momento importantíssimo no processo de seleção para uma vaga de emprego. Todos os seus movimentos são observados e avaliados. Portanto, concentre-se para permanecer focado no seu futuro profissional e “vender” bem a sua imagem, por meio das habilidades e conhecimentos que domina.

De acordo com a psicóloga e consultora de treinamento e desenvolvimento de pessoas, Meiry Kamia, chegar atrasado, falar mal do chefe ou emprego anterior, não saber nada sobre a empresa contratante e demonstrar falta de energia podem arruinar completamente a busca por uma nova oportunidade de trabalho.

Confira 10 gafes que devem ser evitadas na hora da entrevista:

1. Falar mal do chefe ou emprego anterior. 

Muitas vezes, o candidato está sob pressão no emprego atual, ou foi demitido e sente-se injustiçado, e acaba utilizando a entrevista para desabafar. Isso é péssimo, pois passa a imagem de uma pessoa imatura, que guarda rancor e não sabe reconhecer o que aprendeu em experiências anteriores.


2. Deixar celulares ou iPods à vista e ligados. 

A entrevista é um momento importantíssimo para o candidato. Ele deve se portar de forma adequada. É preciso se concentrar para entrar na entrevista focado no seu futuro profissional. Nada de atender celulares, mandar e receber torpedos ou ficar ouvindo música com fone de ouvido. Comportamentos como esses demonstram descaso e falta de capacidade de concentração.


3. Fazer comentário sem pensar. 
Alguns candidatos, na tentativa de agradar e serem aceitos pela empresa, acabam confundindo a entrevista com um bate-papo no barzinho. Há aqueles que chegam a comentar que têm dificuldade para acordar cedo, não gostam de ler ou que simularam uma doença para participar da entrevista de emprego e justificar a falta no trabalho atual. 


4.Não saber nada sobre a empresa contratante. 

Esse, infelizmente, é um erro muito comum dos candidatos. Muitos não se dão ao trabalho de pesquisar sobre a respectiva companhia . Não conhecem o mercado nem sabem em que área a empresa atua e, por conta disso, não sabem como poderiam agregar valor a empresa. A falta de interesse em buscar mais informações demonstra falta de iniciativa, o que, com certeza, terá um efeito negativo na imagem do candidato.


5.Chegar atrasado. 

À falta de capacidade de chegar no horário combinado passa a impressão de falta de interesse e desleixo (sugere que a pessoa não dá a devida importância ao trabalho). Pode sugerir também falta de capacidade de planejamento (não consegue calcular o trajeto e o tempo para chegar à empresa). Em outras palavras: se não consegue fazer isso em um trajeto simples, o que dirá das atividades da empresa? 


6. Mostrar pouca energia. 
Alguns candidatos demonstram falta de energia na hora da entrevista. Falam em monossílabos, não desenvolvem as respostas, falam baixo, etc. A expressão corporal e facial é responsável por 55% das informações que emitimos durante a comunicação, enquanto o tom de voz soma mais 38%. Sendo assim, se o candidato demonstra uma postura desleixada, cansada e um tom de voz cansado e sem energia, ele demonstra não estar interessado na vaga e no trabalho, apesar de participar da entrevista. Empresas buscam pessoas motivadas, com energia para trabalhar, e não funcionários dispostos a apenas receber o salário no final do mês.


7.Não manter contato visual com o entrevistador. 

Olhar nos olhos é importante no momento da entrevista. O ditado diz: “os olhos são espelhos d’alma”. Isso significa que, através do olhar, passamos informações que não são ditas de forma oral. Por exemplo, sinceridade, brilho dos olhos ao falar de projetos que o motivam, e também inseguranças, receios, mentiras, etc. Se você se preparou para a entrevista e deseja realmente fazer parte da empresa, não tenha medo de mostrar quem você é. Confie na sua vontade, no seu desejo de trabalhar e conquistar os seus sonhos através do seu trabalho.


8. Falar sobre problemas pessoais. 
Alguns candidatos confundem a entrevista com sessão de análise e começam a falar sobre os problemas familiares, falta de dinheiro, etc. Isso provoca uma imagem negativa ao candidato porque demonstra que ele não consegue separar problemas profissionais e problemas pessoais. Indica que o candidato, provavelmente, é do tipo de pessoa que traz os problemas pessoais para resolver durante o trabalho. Como? Fazendo inúmeras pausas durante o expediente para ficar “tricotando” ou desabafando problemas pessoais para os colegas de trabalho. 


9.Falta de visão de futuro. 
Atualmente, as empresas buscam colaboradores que sabem o que querem. Muitos profissionais, infelizmente, não têm a mínima ideia do que buscam através do trabalho. Sendo assim, a relação com a empresa se limitaria a apenas ‘mão de obra’ em troca de ‘salário’. Profissional que não tem perspectiva raramente conseguirá enxergar o valor que poderá agregar ao empregador e também o inverso, o valor que a empresa agregará em sua vida profissional.


10.Falta de preparo para a entrevista. 
Muitos profissionais esquecem que a entrevista é um momento para eles “venderem” a sua imagem, por meio das habilidades e conhecimentos. Não saber responder a perguntas do tipo “quais são seus pontos fortes”, ou “me fale de suas realizações”, ou “comente sobre pontos que você sente que precisa melhorar”, etc, mostra uma grande deficiência em planejamento, preparo, cuidado e falta de autoconhecimento. 
Geovana Pagel

21/03/2014

Senna não é Pelé

Dos mortos só se fala para falar bem.
(Ditado romano)

Em 2014 se comemora vinte e um anos da última conquista de Ayrton Senna no automobilismo: o vice-campeonato na temporada de 1993 da Fórmula 1. É tradição brasileira desdenhar os segundos lugares. O Vasco da Gama, numa matemática duvidosa, é ridicularizado como campeão de vices campeonatos. Perder uma final de Copa do Mundo equipara-se a uma tragédia nacional. Receber uma medalha de Prata Olímpica, salvo em esportes individuais, é uma gloria relativa. Ainda na F1, o bom piloto Rubens Barrichello tornou-se uma piada, mesmo tendo conseguido o difícil feito de ser vice-campeão duas vezes pela Ferrari, em 2002 e 2004.
Curiosamente, no caso de Ayrton Senna não há espaço para humor. No imaginário popular, seus vice-campeonatos ou foram resultados de roubos descarados ou superioridade esmagadora do equipamento do adversário. Não se admite outras variáveis. O status heroico de Senna é tamanho que tudo que o envolve ganha dimensões sobre-humanas, mesmo a eventual impossibilidade de conquistar o primeiro lugar.
Esse culto a sua personalidade ganhou reforço na campanha de lançamento do documentário inglês “Senna”, dirigido por Asif Kapadia e lançado em 2010. Fui assistir ao filme com baixa expectativa. Esperava uma patriotada melodramática, acrítica e laudatória, como a média dos produtos ligados à marca. O cartaz de divulgação era temerário: abaixo do título lemos “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”. Prognosticava um “Globo Repórter” em película. O fato de ser um longa-metragem sobre um piloto brasileiro, dirigido por um pouco experiente cineasta britânico de origem indiana, que admitiu conhecer pouco de Fórmula 1, não ajudava.
Para minha grata surpresa, o documentário é muito bom. A edição criativa utiliza apenas material de arquivo. Evitou-se o caminho fácil da inclusão daqueles muitas vezes anacrônicos depoimentos ao estilo “eu me lembro”. A trilha sonora, a cargo de Antonio Pinto, é um dos pontos altos da produção. Conduz brilhantemente o espectador pelas cenas, construindo climas, alternando-se de forma eloquente com o ronco dos motores. Para decepção de muitos fãs, o maestro teve o cuidado de não utilizar o “Tema da Vitória”. Foi uma boa ideia, considerando sua vulgarização pela TV. Ademais, sendo uma produção internacional, não fazia sentido incluir uma idiossincrasia conhecida apenas no Brasil.
O filme, sim, é apologético, mas nada exagerado. Louva seu protagonista sem endeusá-lo. Mostra um homem multifacetado, consciente do papel que desempenhava no imaginário mundial e, particularmente, brasileiro. Um atleta obstinado em alcançar a perfeição em seu esporte. Ambicioso, procurava aperfeiçoar-se sempre e quebrar recordes. Sua disciplina era espartana. Muito cuidadoso no trato com a imprensa, soube construir de forma meticulosa uma imagem pública de bom-moço, de homem de família. Sua religiosidade genuína sempre foi destacada. Ao mesmo tempo, o longa revela aspectos obscuros de sua personalidade: o quanto era orgulhoso, fanatizado e irritadiço. Não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desinteressada por cultura, dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas. Curiosamente, essa face de homem comum falando para homens comuns aquilo que eles querem ouvir, sempre foi um dos alicerces de sua popularidade. Com habilidade, sem apelar para excessos de verborragia, deixando as imagens falar mais alto do que as palavras, Kapadia conseguiu tirar proveito desse lado “autor de autoajuda” de Senna, promovendo a identificação emocional imediata entre o espectador comum e seu protagonista.
Inteligentemente, o documentário evita tocar, ou aprofundar-se, em temas escorregadios. A vida particular do piloto é blindada. Seu primeiro casamento é ignorado, assim como suas “amizades” de infância. Nesse vácuo ganha destaque seus dois relacionamentos mais famosos, com a apresentadora Xuxa e com a modelo Adriane Galisteu. Apesar da presença de imagens captadas por câmeras caseiras, o Senna público prevalece sobre o privado.
Da mesma forma, o filme não polemiza sobre a veracidade de algumas lendas sennianas, como o “milagre da sexta marcha”, na qual o piloto teria vencido o GP Brasil de 1991 com a caixa de câmbio emperrada na sexta marcha. Mesmo mostrando que ao final da corrida o piloto desacelerou o carro, quase o parando, para pegar de um fiscal de pista uma bandeira brasileira, voltando a acelerar em seguida, atestando que ele tinha marchas fortes, o diretor não interfere na flagrante dicotomia entre imagem e locução. Deixa para o espectador tirar suas próprias conclusões, acreditar ou não na lenda. Ou talvez, como estava mergulhado na cultura brasileira, Kapadia emulou Nelson Rodrigues na conclusão de que, simplesmente, “o videotape é burro”.
Os mais cínicos poderiam defender que o documentário blinda Senna de julgamentos de valor, colocando-o acima do bem e do mal. Isenta-se de discutir se seu controverso estilo de direção era perigoso, suicida ou apenas arrojado. Não coloca em questão os episódios onde reagiu de maneira antidesportiva. Não problematiza, digamos, se sua atitude de garantir o campeonato de 1990 batendo na Ferrari de Alain Prost foi ou não tão repreensível quanto à mesmíssima agressão que sofreu do francês no ano anterior. Tudo isso é verdade, mas acredito que, consciente das expectativas de seu público, o diretor inglês trabalhou essa cena em seu aspecto puramente cinematográfico: trata-se da justa vingança do protagonista da trama que se desenrola na tela. Nada mais. Pura questão de ação e reação imagética. Mais do que biografia, é cinema.
Nada disso desqualifica o filme. Não são erros, são opções estéticas conscientes. Não se trata de uma cinebiografia não autorizada, interessada em desencavar revelações bombásticas. Não se trata de um tratado fílmico erudito sobre automobilismo, como o ótimo “A Era dos Campeões”. É, ao contrário, uma celebração. Considerando sua proposta básica, “Senna” é um documentário honesto e empolgante. Acredito que muitas de suas qualidades advêm do que inicialmente parecia ser um problema: seu diretor britânico de origem indiana pouco afeito à F-1. É bem possível que um cineasta brasileiro não tivesse o distanciamento político e emocional necessário para trabalhar o tema. Teria feito a patriotada melodramática, acrítica e laudatória que eu tanto temia. De posse do vasto material de arquivo que teve à sua disposição, Kapadia tratou Senna como um personagem com imenso potencial dramático e emocional, não como um mito intocável ou herói invencível.
Infelizmente, como era de se esperar, o filme foi vendido dessa forma no Brasil. Além do apelativo e ufanista slogan publicitário “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”, lia-se acima do título uma frase do tricampeão de F-1 Niki Lauda, aparentemente pronunciada por ocasião do enterro de Senna, em maio de 1994: “Ele foi o melhor piloto que já existiu”. Contudo, Lauda mudou de ideia, considerando que anos depois afirmou que “por tudo que conquistou ao longo dos anos e por ter ficado mais tempo no topo é justo que Michael Schumacher seja considerado o melhor”. No melhor estilo “1984”, de Orwell, há aqui a reescrita da História: o esquecimento em prol da sacralização de uma versão mais conveniente ao mercado. Nesse cenário, lembrar que o “Tema da Vitória” foi composto para Nelson Piquet soa de péssimo tom. Além de herói e campeão, enquanto produto, Senna é mais rentável sendo vendido como o melhor de todos os tempos. Para boa parte dos sennistas brasileiros, principal público-alvo do filme, nada menos parece servir.
Os admiradores de Senna dividem-se em dois tipos básicos: os conscientes e os fanáticos, também conhecidos como “viúvas”. Os primeiros apreciam mais o automobilismo do que idolatram Senna. Costumam ser pessoas centradas e racionais. Sabem que Senna foi um gênio do volante, não era um semideus infalível. Os outros parecem acreditar que a principal razão da existência da F-1 foi fazer o Piloto do Capacete Amarelo brilhar. Lamentavelmente, o primeiro grupo é sufocado pelo segundo.
Brasileiro faz piada com tudo: das asas de frango nos bolsos de D. João VI ao avião que não voava de Santos Dumont, passando pelos travestis de Ronaldo até a surra que Maguila levou de Holyfield. Nada é sagrado. A grande e, talvez, única exceção é Senna, que foi elevado a condição de santo secular por várias gerações de fãs. É comum encontrar crianças que nunca o viram correr afirmando que Senna é seu ídolo, seu espelho, etc. Essa deificação de um atleta de um esporte elitizado, baseada em sua perseverança e hombridade, em um país conformista e cínico como o Brasil, famoso por seus macunaímas, heróis sem nenhum caráter, é um fenômeno sociológico complexo, que merece ser estudado com profundidade pela academia.
Considero particularmente intrigante a tendência das viúvas em interpretar a trajetória de Senna como se fosse um Evangelho Moderno ou a saga do herói, conforme apresentada por Joseph Campbell no livro “O Herói de Mil Faces”. Senna seria um ungido, iluminado desde a infância. Suas palavras são ensinamentos. O acidente em Imola, sua Paixão. Não admitem comparar a grandeza moral e profissional do ídolo com nada ou ninguém. Tratam-no com dois pesos e duas medidas, quando em paralelo com outros pilotos. Mesmo a extraordinária superação de Niki Lauda, campeão em 1975 que sofreu um gravíssimo acidente no Grande Prêmio da Alemanha de 1977, tendo grande parte do corpo queimado, e mesmo assim voltou às pistas para garantir o título daquele ano, e o de 1984, apequena-se diante das inúmeras provas de coragem de Senna.
Para as viúvas, uma vitória de outro piloto é apenas uma vitória, uma vitória de Senna é um triunfo. Uma volta rápida de outro piloto é apenas uma volta rápida, uma volta rápida de Senna é um grande feito. Uma ultrapassagem de outro piloto é apenas uma ultrapassagem, uma ultrapassagem de Senna é uma manifestação de gênio. Uma deslealdade de outro piloto é a deslealdade de outro piloto, a deslealdade de Senna é arrojo. Uma vitória difícil de outro piloto é apenas uma vitória difícil, uma vitória difícil de Senna é um ato de superação. A conquista de um título por outro piloto é apenas a conquista de um título, a conquista de um título por Senna é justiça divina.
Como ensinou Campbell e alguns evangelistas, um herói faz-se desde a juventude. Sinais, que podem variar de impressionar doutores no Templo até domar cavalos selvagens, anunciam o futuro épico. É sintomático que o filme de Kapadia começa com a apresentação do jovem Senna em uma prova de kart. Foi um vencedor por todas as categorias pelas quais passou. Porém, convêm lembrar que seus títulos conquistados na Fórmula Ford 1600, ou na F-2000, ou na F-3, não constituem feitos especialmente notáveis no universo da F-1. É comum entre pilotos de elite vitórias fáceis e sucessivas em categorias menores. Elas podem garantir testes, não necessariamente empregos. O festejado teste que Senna fez na Willians aos 23 anos não convenceu o dono da equipe, Frank, a contratá-lo. O mesmo Frank Willians que, em 1994, declarou que sempre desejou tê-lo em seu time, posteriormente disse que “meu sonho é ter Schumacher em minha equipe, pois ele é o pacote completo”. No circo da F-1 opiniões são fluidas, só nos restando analisar dados para definir opiniões. E é um dado estatístico que, mesmo para os padrões da época, Senna não foi precoce: o Rato Fittipaldi foi campeão pela Lotus aos 25 anos, na temporada de 1972.
Quando começou na F-1, na equipe Toleman, em 1984, o estilo de pilotagem de Senna era comparado aos do canadense Gilles Villeneuve e do Escocês Voador Jim Clark. Os três tiveram muito em comum, na vida e na morte. Principalmente, Senna e Clark. Muito habilidosos, gostavam de correr na chuva e eram excepcionais leões de treino. Colecionavam pole positions. Senna conseguiu 65 em 162 GPs. A média de Clark é um pouco melhor, tendo disputado 73 GPs e feito 33 poles. Com 25 vitórias na F-1, Clark também foi mais hábil que Senna em converter poles em bandeiras quadriculadas. O brasileiro converteu em vitórias apenas 29 de suas 65 poles. Villeneuve e Clark também morreram nas pistas. O canadense num acidente com sua Ferrari no GP da Bélgica de 1982, aos 32 anos. Ainda não havia sido campeão. O Escocês Voador faleceu com a mesma idade em 1968, numa prova de F-2 na Alemanha. Foi bicampeão nas temporadas de 1963 e 1965, pela Lotus. A equipe para qual Senna iria se transferir em 1985.
Como se percebe, ao contrário do que as viúvas pregam, a Lotus não era uma carroça. Era, sim, uma escuderia com tradição na F-1. O que relativiza o cartel de Senna em seu início de carreira. Em 1984 terminou em 9º lugar no campeonato, em 1985 conseguiu um 4º, repetiu o desempenho em 1986 e em 1987 ficou em 3º. Venceu, com a McLaren, em 1988. Ou seja: em cinco anos venceu um campeonato e teve um terceiro lugar. Fazendo uma comparação livre, Nelson Piquet, após estrear no meio da temporada de 1978 na pequena equipe Ensign, passou para Brabham em 1979 e ficou em 15º lugar, conseguindo o 2º lugar no ano seguinte e o título em 1981. Em 1982, um ano conturbado, caiu para 11º. Recuperou o título em 1983. Em pouco mais de cinco anos conseguiu um vice-campeonato e dois títulos.
Segundo a reescrita da história realizada pelas viúvas, Senna era dono de uma concentração de monge budista, foi o mais veloz dos pilotos, o supremo acertador e construtor de carros. O pioneiro do automobilismo brasileiro Chico Rosa, em entrevista para revista “Grande Prêmio”, apresenta uma opinião diferente: “O Ayrton era um cara que tinha coisas excepcionais, mas não era um piloto completo. Considero que, entre os pilotos brasileiros, o mais completo foi o Nelson. E acho que o Ayrton foi muito menos completo do que o Schumacher. O Ayrton era imbatível em chuva e em classificação, mas tinha muitos defeitos em estratégia de corrida e um problema de desconcentração muito complicado. Concentrado, ele era um piloto. Desconcentrado, ele era um piloto qualquer. E tinha muito esse problema. Ele era um cara que se concentrava que nem um louco para fazer classificação. Por que ele ia bem nas classificações? Porque ele conseguia manter a concentração que exigia para ser rápido daquele jeito por um período de dez minutos, que eram duas voltas lançadas. Nisso, ele era absolutamente imbatível. Agora, ele não conseguia ficar guiando por duas horas com a mesma concentração. Ele foi um mau acertador de carros, nunca soube acertar, e não foi um bom estrategista. Agora, ele era muito rápido. Dava gosto de vê-lo guiar em uma classificação”.
Muito veloz em treinos, nem tanto em situação de corrida. Em seus 162 GPs, Senna somou 19 voltas mais rápidas. Seu antecessor no estilo aguerrido, Jim Clark, teve 28 em seus citados 73 GPs. Prost, muitas vezes considerado excessivamente cuidadoso, fez 41 em 202 GPs disputados. Piquet fez 28 em 208, enquanto Mansell cravou 30 em 191. O argentino pentacampeão Fangio conseguiu 23 em 52 GPs. O austríaco Gerhard Berger possui duas voltas mais rápidas do que o amigo brasileiro, 21 em 210 largadas. Michael Schumacher, ainda em atividade, conta, atualmente, com 76 na carreira. Em todo caso, as viúvas não gostam muito de matemática.
Tornou-se prática comum entre as viúvas falsear deficiências reconhecidas pelo próprio piloto. Como citado por Chico Rosa, sempre foi notória a falta de habilidade de Senna no acerto dos carros. Em entrevistas para a revista “Playboy”, de abril de 1988, Nelson Piquet ironizou o fato. Disse que na McLaren ele poderia se sair bem “porque, finalmente, encontrou alguém para acertar os carros para ele”. Refere-se ao Professor Prost. Os mais afoitos desdenhariam o falastrão Piquet, dizendo que se tratou de mera provocação. Esquecem ou não sabem que Senna, à contragosto e medindo as palavras, admitiu a acusação. Em entrevista para a mesma revista, publicada na edição de agosto de 1990, a repórter Mônica Bergamo perguntou-lhe: “Seus adversários diziam que ele (Prost) acertava o carro, e você vinha na cola, aprendendo. Era assim?”. Hesitante, Senna respondeu: “Eu tinha que aprender com ele, que é experiente e conhecia a McLaren”. A essa altura, entre 1988 e 1989, Senna estava longe de ser estreante. Se fosse um acertador inato já teria demonstrado na Lotus ou mesmo na Toleman.
O mito de que Senna era um profundo entendedor da sofisticada mecânica dos bólidos da F-1 é também improcedente. Para constatar isto basta recordar a célebre polêmica que travou com os engenheiros da Lotus em 1986, quando afirmava que o chassi do carro era o melhor da F-1, mas o motor Renault era ruim. Em 1987, a equipe passou a usar motor Honda e o rendimento do carro diminuiu em vez de melhorar. A constatação final foi a de que, na verdade, o problema era no chassi. Outro dado: durante seu contrato com a McLaren, era prática comum Senna tirar férias exatamente no período de desenvolvimento dos carros. Na Willians, essa dificuldade ficou ainda mais evidente. Em setembro de 2000, Osamu Goto, antigo chefe da Honda, deu uma entrevista para a revista “Autosprint”, onde comparou Senna e Prost: “O Ayrton Senna era um piloto espetacular, dono de uma habilidade impressionante e sabia como tirar o máximo daquilo que podíamos oferecer a ele. O Alain Prost era, também, excelente e podia sempre nos dar algo a mais do que oferecíamos a ele”.
Apesar de dono de verdadeiras “voltas de placa”, Senna não foi perfeito. Cometeu erros tacanhos, dignos de Mansell em seus piores dias. Desatento, bateu sozinho no guard rail enquanto liderava o GP de Mônaco de 1988. Enroscou-se em Gerhard Berger e Riccardo Patrese logo na primeira curva do GP Brasil de 1989, perdendo o bico do carro e ficando três voltas atrás. Confessou: “Coloquei a segunda marcha rápido demais”. Deixou o carro morrer na largada do GP Brasil de 1988. Repetiu o erro no autódromo de Suzuka, no Japão, quase deixando o primeiro título escapar. Conseguiu sair em 15º lugar, pegando no tranco, porque a largada ficava em uma descida. Ganhou posições aproveitando-se da chuva que começou a cair. Curiosamente, sua recuperação fantástica revalorizou o erro, o ressignificou como elemento de dramatização do triunfo. No documentário, Kapadia soube explorar muito bem isso.
A fórmula de construção do herói exige que seus feitos sejam propalados como únicos. Porém, como é comum, também no caso de Senna, muitas de suas façanhas foram repetidas ou melhoradas por outros pilotos. O triunfo em Suzuka não foi inédito. Em 1983, o irlandês John Watson venceu em Long Beach, após sair em 22º lugar. Rubens Barrichello venceu em Hockenheim, em 2000, largando em 17º lugar. Mesma posição na qual saiu o finlandês Kimi Räikkönem no Japão, em 2005. Mesmo o “da sexta marcha”, para quem acredita, foi emulado por Schumacher que, com o câmbio travado na quinta, percorreu 42 voltas do GP de Barcelona de 1994, chegando em segundo.
Diante dessas informações, não raro as viúvas alegam que as condições com que Senna realizou seus grandes feitos foram mais adversas. Duvidoso. Também costumam afirmar que o brasileiro sempre foi prejudicado pelo regulamento. Essa é uma meia verdade. É importante lembrar que a F-1 é um esporte legalista. Saber pilotar com o regulamento no bolso pode ser um fator decisivo. Senna foi beneficiado em 1988, quando fez 94 pontos contra os 105 de Prost, em números absolutos. Sagrou-se campeão devido a extinta regra do descarte dos piores resultados, somando ao final 90 pontos contra 87 do francês. No campeonato seguinte, uma decisão legalista ao extremo tirou-lhe uma vitória soberba; e o título. “Dura lex, sede lex”. Prost sabia o que estava fazendo quando correu para a cabine de direção da prova, após o choque das McLaren. Naquele momento, era mais um advogado do que um piloto. Não estranharia se estivesse de toga por baixo do macacão e peruca branca sob o capacete. Deve ter se lembrado da máxima “aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei”.
Realmente, Senna não se dedicou a fazer amigos no Circo da F-1. Berger, para quem deu uma vitória de presente no GP do Japão de 1991, foi uma exceção. Era considerado desleal pela maioria de seus contemporâneos. As viúvas costumam interpretar essa antipatia como inveja. Uma inveja ao estilo daquela que Salieri teria nutrido por Mozart, conforme vista no oscarizado filme “Amadeus”. Historiadores confirmam que, na verdade, Salieri, que foi professor de piano de Beethoven, ajudou como pôde o promissor novato Wolfgang, quanto ele chegou à corte de Viena. Da mesma forma, parece-me pouco provável que figuras consagradas como Prost e Piquet tivessem motivos para invejar um jovem piloto que ainda tinha muito o que provar. Em sua entrevista para “Playboy”, Piquet mencionou que “no dia em que o Prost e o Senna estiverem disputando um título, por exemplo, todo mundo vai dar preferência (nas ultrapassagens) para o Prost, porque o Senna sempre sacaneaou todo mundo”. Numa entrevista de 1988, publicado no livro “O Circo e o Sonho”, de Nice Ribeiro, Nigel Mansell mostrou-se indignado após ter sido fechado por Senna no GP Brasil: “Sou profissional, recebo para desenvolver um trabalho, não para bancar o louco, desrespeitando a ética das pistas e pondo vidas em risco. Com o Prost, o Rosberg e os outros, a competição sempre foi limpa e honesta. O Senna, pelo contrário, demonstrou que quem tentar superá-lo será colocado para fora da pista. Acho que quem compara o Senna com o Gilles Villeneuve insulta a memória do Gilles, um esportista brilhante e leal”.
Enredados em seu fanatismo quase religioso, é difícil para as viúvas conceberem que Senna não é unanimidade entre fãs de automobilismo ou especialistas na área esportiva. Em 2000, a revista “Isto É” promoveu a seleção do Esportista do Século. Inicialmente, a redação organizou uma enquete com 30 notáveis, que selecionaram aleatoriamente, sem qualquer restrição de período de atuação ou categoria esportiva, os maiores atletas brasileiros de todos os tempos. Senna figurou em 28 listas. Foi esquecido por dois dos votantes. Em todo caso, a lista preliminar foi levada à votação popular e Senna sagrou-se vencedor da enquete, com 87,62% dos votos. O segundo colocado foi Pelé, com 80,75%.
Curioso notar que Pelé foi a única unanimidade no colégio eleitoral, sendo citado em todas as 30 listas. Perdeu para Senna na votação popular como perdeu para Maradona na eleição via internet para eleger o maior jogador do século, promovida pela Fifa. O primeiro caso é compreensível, considerando-se os fatores emocionais envolvidos, o fim trágico do piloto, a força do Instituto Ayrton Senna, etc. O segundo só demonstra a desinformação dos votantes.
Alguns pilotos chegam a certo nível de excelência que se torna quase impossível medir o real alcance de seu talento. Talvez Senna seja mesmo o melhor piloto de todos os tempos, se fatores do imponderável forem colocados na balança. O que as viúvas precisam admitir é essa possibilidade de estarem errados em seus dogmas. Muita gente séria defende que o melhor foi Jim Clark, a despeito de ter sido apenas bicampeão. O tetracampeão Prost é um forte candidato. Os cinco títulos da lenda Fangio o colocam no páreo. A perícia de Piquet em desenvolver carros vencedores não pode ser ignorada. O estilo elegante de Stewart tem seus admiradores. Em termos de superação, Lauda parece ser imbatível. Os números de Schumacher são desconcertantes. Enfim, se existe diferença entre esses monstros é mínima. Gênio é gênio, ponto. O eleito para o trono do automobilismo fica ao gosto do freguês.
Mas o fato é que Senna não é Pelé. No futebol, a distância entre Ele e seus pretensos concorrentes é oceânica. Os defensores de Maradona, ao contrário dos de Senna, não possuem nenhum argumento sequer razoável. Fazem polêmica oca. Os números, os títulos, a habilidade com as duas pernas, o senso tático, estão a favor do Rei. Outros candidatos, como Cruyff e Beckenbauer, admitiram o óbvio. Parte da irrefutabilidade do reinado de Pelé é o fato dele ser ótimo ou excepcional em todos os fundamentos do futebol, sem, necessariamente, ser o melhor em nenhum. Citando as palavras do jornalista André Fontenelle, para revista “Placar”, “Pelé não foi o maior jogador de todos os tempos: foi outra coisa, porque a lista de tudo o que fez o põe em uma categoria à parte, acima de tudo. Os mortais que discutam entre si”.
Imagino que algumas viúvas, ressentidas por minhas colocações nesse texto, possam bradar que eu mesmo sou uma viúva do Rei. Na verdade, torço para que alguém o supere e eu possa estar vivo para ver. Enquanto isso, considerando que Pelé morreu em 1978, só restando um cavalheiro chamado Edson, considero-me uma viúva alegre. Achei, por exemplo, o documentário “Senna” muito melhor do que “Pelé Eterno”.
Ademir Luiz

20/03/2014

Formação da personalidade

É durante a primeira infância que encontramos os principais elementos para a formação física do ser humano. Elementos estes que acompanham o indivíduo durante toda a sua vida. A formação da personalidade humana ocorre a partir do momento da fecundação e dura a vida inteira.
Da mesma forma acontece com os elementos formadores da personalidade e comportamento dos seres humanos, eles acompanham os indivíduos durante toda a vida, atravessando todas as fases do desenvolvimento humano.

A personalidade é um conjunto de qualidade externas que fornece as características de determinado indivíduo. Tais características, podem e devem ser apreciadas por outras pessoas, pois é a partir delas que identificamos e diferenciamos uma pessoa da outra. É através da personalidade que identificamos os padrões de conduta e comportamento de determinada pessoa. É através destas que se pode predizer qual poderá ser a sua reação diante de determinada situação, estímulos ou condições externas.Deste modo, qualquer conceito que se possa atribuir a palavra “personalidade” está se referindo, em qualquer momento, ao processo de desenvolvimento psicossocial. Quando o individuo nasce não informa através de sinais que possui uma consciência ou sabedoria acerca da sua existência e da existência de outras pessoas, porém na medida que os estímulos e as situações do meio em que vive vão se perfazendo, o indivíduo, vai ganhando características próprias e formando sua personalidade.

Estes estímulos afetam o indivíduo, atingindo o sistema nervoso central, bem como os demais órgãos sensoriais do corpo, fazendo com que comece a formar uma estrutura psicológica chamada de “eu” ,a qual é considerada como parte consciente do ser humano. O “eu”, segundo ao autor, tem por função principal lidar com a realidade, isto de forma racional e equilibrada. O “eu” também amadurece e na medida em que isto vai acontecendo, ele vai aprendendo a se relacionar com outros aspectos mais reais da vida humana. Dentre estes aspectos pudemos destacar a percepção sensorial, a coordenação motora, a inteligência, a adaptação ao meio em que vive, e a acumulação de conhecimento, dentre outros aspectos importantes. Durante a formação da personalidade de um indivíduo é preciso se levar em conta todos os mecanismos de formação sejam eles primários ou secundários, pois ambos são fatores que impulsionam a formação da personalidade.

Todos seres humanos nascem com determinados instrumentos inatos, os quais são imprescindíveis para a vida humana, estes são chamados de “motivos primários” e tais instrumentos são encontrados em todos os indivíduos vivos. Os “mecanismos primários” podem ser a vontade de se alimentar , dormir, respirar, ou seja, são as necessidades básicas que qualquer indivíduo tem e necessita. Além das necessidades primárias, existem também as necessidades psicológicas, porém estas variam de cultura para cultura e de lugar para lugar. As necessidades psicológicas são denominadas de “necessidades secundárias”, pois estas são adquiridas mediante contato com o meio, porém tais necessidades, ainda assim, são necessidades gerais sentidas por todos os indivíduos, como por exemplo, a necessidade de se sentir amado, estas são características inerentes a todos os seres humanos.

Durante a primeira infância a criança utiliza bastante os impulsos biológicos, os quais são de extrema necessidade para garantir a sua sobrevivência, além disso, são estes que determinam o comportamento do indivíduo que atravessa esta fase. Os impulsos biológicos do seres humanos não são dirigidos para satisfazer as necessidades sociais, mas sim, as necessidades físicas como comer , beber, dormir, etc.,porém logo depois que os indivíduos aprendem a satisfazer as suas necessidades primárias, eles começam a orientar suas vontades a outros objetivos, mais relacionadas com o mundo ao seu redor. Assim, os estímulos e processos sensoriais que vão servir para ampliar o seu mundo e aumentar suas potencialidades, acabam fornecendo a ele a chance de acionar o seu desenvolvimento cognitivo. Com o passar do tempo tal desenvolvimento vai ganhando controle sobre os impulsos biológicos dos indivíduos, a partir de então, a personalidade começa a se formar, pois é a partir deste momento que os instintos primários e secundários se harmonizam de alguma forma.

O processo de formação da personalidade ocorre através do processo de socialização, pois é com base nisto que os impulsos biológicos e culturais se interagem, porém o processo evolutivo do individuo só começa na primeira infância. No entanto, é necessário frisar que o processo evolutivo não ocorre somente na primeira infância, porém tudo que acontece nesta fase é de extrema importância para compreender as nuances psicológicas dos seres.
Lane Reis

16/03/2014

Beleza em tempo de privação

Então, é isso. Barbie precisa ser ultralongilínea para que mãos infantis possam vesti-la e despi-la sem dificuldade. Ou seja, só num corpinho liso, enxuto e sem obstáculos, as roupas deslizam em caimento perfeito. O esclarecimento foi dado recentemente por Kim Culmone, desenhista-chefe da Mattel, fabricante desta que é a coqueluche entre as meninas desde 1959. Kim me fez entender por que já travei tantas batalhas em provadores de roupa, suando em bicas debaixo de uma iluminação cruel, na tentativa de fazer deslizar uma mísera sainha pelos quadris de uma mulher não exatamente gorda, mas longe de ser o tipo mignon. E agora sei por que zíperes emperrados sempre me irritaram. Seja lá como for, são acidentes de percurso.
Lembro de minha filha, ainda criança, testando modelitos e penteados na sua Barbie. Passava horas no tira e põe, em silêncio, falando sozinha ou numa farra com amigas igualmente viciadas na boneca. E quando desaparecia o bendito sapatinho, ficando o par incompleto? Um deus nos acuda pela casa, móveis revirados, lixeiras, idem, sempre sobrava para o cão a suspeita do sumiço. E assim caminha a humanidade: certamente vou rever a cena quando netas vierem animar a minha existência.
O que me intriga é a longevidade dessa boneca de formas, digamos, absurdas: os peitos são protuberâncias que não se coadunam com a cintura muito mais delineada do que a caixa de um violino. As pernas, finas, retas e compridas, parecem um par de hashi, aqueles pauzinhos para comida japonesa. E os pés, o que dizer dos pés eternamente prontos para o salto? Barbie não sente cãibra. Nem tem calos. Dorme, acorda e vive nas alturas.
Recentemente, o artista gráfico Nickolay Lamm lançou um crowdfunding pela internet, com o propósito de angariar fundos para fabricar uma rival da heroína. Não é a primeira vez que essas rivais pintam em cena, mas, agora, a novidade agitou o mercado de brinquedos. Em um mês de doações, o americano arrecadou meio milhão de dólares para o lançamento da sua Lammy, a boneca de formas naturais: não tão alta, nem tão magra, nem tão tábua quanto a blondie. Aliás, Lammy é morena.
Seu criador martela um conceito: average is beautiful, em livre tradução, a beleza mediana tem lá seus encantos. E assim ousa fazer o contradiscurso para essa esqualidez fashion valorizada por uma sociedade que já decretou: o mundo é dos magros. Ponto.
Lammy usa maquiagem, veste roupas esportivas, tem braços e pernas fortes. Faz o gênero malhadora light. Nick Lamm começou a empreitada pesquisando o que seria uma Barbie "normal", mas daí chegou a uma boneca loura que, perto da verdadeira, parecia um botijão de gás. Resolveu então parir uma criatura nova.
A Mattel saiu em defesa do seu ícone. Contra-atacou pela internet com uma campanha em que afirma que o padrão Barbie não tem nada que se desculpar (#unapologetic, certamente inspirada em Rihanna...) e sapecou um slogan bem bolado: Be Youtiful. Seja linda, você mesma. Não dê bola para gordinhas invejosas que a chamam de varapau. Nem para cafonas que não entendem o glamour de um guarda-roupa em Pantone 219, o mundialmente famoso cor-de-rosa Barbie - uau! Mesmo assim, dizem que a Mattel já iniciou conversas com Lamm, de olho no potencial da boneca saudável.
Esse tititi ao menos esboça uma reação à beleza pré-fabricada, tamanho ultrapequeno. O índice de doenças nervosas a partir de distúrbios alimentares, especialmente a anorexia e a bulimia, tem alarmado a Organização Mundial de Saúde (OMS), que por sua vez ainda não dispõe dos dados globais do problema. Mas a letalidade mantém-se alta (fala-se em 15, 20% dos casos). Em Berlim, na inauguração da Barbie Haus, casa-museu com toda a tralha pink da boneca, ativistas da organização Femen botaram pra quebrar. Com seios à mostra, as jovens feministas protestaram contra um "símbolo sexista" que leva meninas à distorção da própria imagem e a doenças graves.
Por que então essa busca por um corpo de medidas perigosamente irreais? A fotógrafa britânica Sheila Pree Bright há anos denuncia a ditadura estética de um feminino feito de privações. E o faz a partir de manipulações no computador, fundindo imagens de bonecas com imagens de mulheres. Esse trabalho, Plastic Bodies, já foi visto em exposições pelo mundo, sempre com grande interesse. Também há tentativas de lançar as Barbies plus size, mais gorduchas. Não emplacam. E mesmo as Barbies étnicas acabam repetindo estereótipos da boneca branca - só que em "pele" negra: olhos grandes, nariz afilado, rosto comprido, bochechas sulcadas. E muita magreza.
Esta semana ficamos sabendo que a bióloga gaúcha Ana Paula Maciel, ativista do Greenpeace, presa tempos atrás na Rússia por protestar contra a exploração de óleo no Ártico, posou para a Playboy brasileira. No ensaio fotográfico, deram um trato nas longas madeixas de Ana Paula, providenciaram maquiagem matadora e vestiram a moça com um biquíni metalizado - figurino mais para domadora de circo ou assistente de mágico do que para ativista verde. Ela diz que seu cachê vai para a criação de uma entidade protetora dos animais. E jura que os leitores a verão sem retoques na revista. Não sei se Ana Paula vai fazer muito pelos bichos com suas fotos. Mas pode fazer pelas mulheres se insistir em ser vista e admirada com seus quilinhos a mais, distribuídos num corpo onde a perfeição não é uma meta.
O corpo da mulher continuará sendo protagonista no espetáculo da vida. Que ao viço da infância, sucedam o tônus da juventude e depois as marcas que o tempo deposita. Que elas cheguem mansamente, incorporadas sem traumas e tratadas com carinho. Pensei nisso ao ver a veterana atriz francesa Fanny Ardant, numa aparição fugaz no filme A Grande Beleza. Além do pretinho clássico, ela vestia um magnífico sorriso de mulher madura. Se você ainda não viu, vale conferir.
Laura Greenhalgh
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