18 de jul. de 2007

Por que escrevo?


Por que escrevo?
"Sempre que perguntam por que escrevo, minha resposta tem a ver com 'sobre o que escrevo'. De que falo, ao fazer minha literatura? O rótulo mais comum é "ela escreve sobre mulheres".

Essa é uma constatação precária, pois não são mulheres meus personagens exclusivos, mas homens e crianças, casas com sótãos e porões, dramas ou banalidades.

Falo também do estranho atrás de portas, mortos que vagam e vivos que amam ou esperam. Escrevo sobre o que me assombra – como na infância.Escrever para mim é indagar: continuo a menina perguntadeira que perturbava os almoços familiares querendo saber tudo, qualquer coisa, o tempo todo.

Portanto, escrevo para obter respostas que – eu sei – não existem. E sobre possibilidades de ser mais feliz – essa, eu sei também, depende um pouco de cada um de nós, de nossa honradez interior, nossa fé no ser humano, nosso compromisso com a dignidade.

Escrevo para provocar, e para questionar também: quem somos e como vivemos – como convivemos, sobretudo?Falo do estranho que somos: nobres e vulgares, sonhadores e consumidores, soprados de esperança e corroídos de terror, generosos e tantas vezes mesquinhos.Sei, de minhas criaturas inventadas, muito mais do que expresso em linhas ou silêncios – que são sempre o mais importante de um texto meu: sei se aquela mulher usa algodão ou sedas, se a escada range quando ela caminha – ainda que nenhum desses detalhes apareça no romance.

Conheço a solidão daquele homem, sei se cultiva medos secretos, se pensa na morte, se desejaria ser mais amado. E quando começo a "ser" essa pessoa, quando o clima da obra me envolve e me arrasta, chegou o momento em que o livro quer ser escrito. Estarei aberta a ele, deixarei que essas criaturas subam das profundezas do caldeirão de bruxas que é experiência e alucinação, memória e invenção, perplexidade e amadurecimento, e tentarei dar-lhes voz na minha voz. 'Como uma espécie de possessão... você sente como se estivesse incorporando alguma entidade?' – me perguntou um dia um universitário.Se fosse assim, não haveria trabalho nem arte, apenas um abrir e fechar de portas. São meus e não são, esses vultos com seus destinos e desatinos – e eu os questiono o tempo inteiro.

Faço e desfaço, armo e desarmo, construo e vejo que se esboroam tantos projetos. Qualquer de meus escritos poderia ter um subtítulo: 'O livro das indagações' – porque importa realmente aquilo que não sei... que se insinua, que espia, bota para fora a mãozinha e me chama, sinal sinistro ou doce tentação.De repente, aí estão meus personagens: um olho, o fino contorno de um perfil, um gesto, um riso ou uma tragédia, um êxtase, um silêncio e uma solidão. Sobretudo, escrevo sobre essa busca de sentido que imprime em nós sua marca desde o primeiro instante: esse tatear como num fundo d'água onde nossos dedos deparam com um rosto, sim, este me poderá entender, sim, por aqui vai o meu destino...

Mas as dissonâncias se sobrepõem, e no fundo de cada um de nós existe o medo, a inquietação, a consciência da morte, do talvez-nada. De outro lado, muitas vezes prevalece a solidariedade, o entendimento, a generosidade interior: podemos não ser amargos, podemos não ficar isolados, podemos nos humanizar mais. E disso também falamos, nós os escritores.Escrevo porque tenho necessidade e prazer em elaborar com palavras esse traçado de tantas vidas, antas criaturas, tantos destinos e aventuras que povoam minha imaginação, e que acabarão – ou não – vivendo nos meus textos.

Quando escrevo inicia-se essa escavação, essa arqueologia, começa a desenrolar-se o fio que nasce em mim. Aracne produz novelos para que eu os teça.Escrevo para seduzir leitores que sejam meus cúmplices na inquietação fundamental: 'Tive um pouco de medo daquele seu livro, porque ele me fez pensar demais', é um comentário bastante comum. A mim, parece-me que além da fruição estética, a arte existe para nos fazer pensar. Não se pode esquecer também que escrevo propondo uma releitura atenta dos valores familiares e sociais de meu tempo: cada um de meus romances pode e deve ser lido como uma denúncia da hipocrisia, da superficialidade, da indiferença, da negligência e da mentira nas relações humanas, amorosas, familiares e sociais.

Não é apenas o imponderável e misterioso da existência que me interessa, mas o grande desencontro nas relações, o frio silêncio promovido no diálogo humano e pessoal pelo preconceito e pela apatia, pelo desinteresse e pelo isolamento dos indivíduos, sobretudo no núcleo familiar.O escritor é um ser particularmente antenado, não apenas para o fundo da chamada alma humana, mas, conscientemente, para as realidades a seu redor. E ainda que eu não faça literatura explicitamente engajada, empenho nela um ardente engajamento na aventura existencial humana, e na sua qualidade.Essa chama, essa antena sutil se multiplica e tateia o mundo e o próprio interior, do qual emana uma luz que resiste e transborda.

Os artistas são recipientes de carvões em brasa e têm visões que tentam esconjurar com traços, gestos, música ou palavras... e nesse trânsito entre realidade e sonho, cujas fronteiras para eles pouco importam, vão e vêm entre territórios que igualmente os convocam. Então para mim escrever é transitar – e tentar, quem sabe, fixar relances disso que, com os olhos e com a sensibilidade, todos nós vislumbramos. O escritor fala pelos outros, e nessa medida sua própria existência individual é desimportante: o que vale e o que brilha são seus personagens, seus questionamentos, suas inquietações, suas palavras, sua busca e a sua eterna indagação."
Lya Luft
picture by Carel Weight

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