22 de set de 2008

A química da atração

Uma surpresa: estudos revelam que os homens são tão escravos de seus hormônios quanto as mulheres
Se você é homem, avistou aquele rostinho bonito no meio da multidão e teve a absoluta certeza de que "ela" é a mulher ideal, melhor esperar algumas horas antes de se declarar. Um estudo feito por um instituto britânico de pesquisa, divulgado na semana passada, afirma que as pequenas alterações nos níveis de testosterona que ocorrem ao longo do dia têm influência decisiva na escolha de uma parceira. No início da manhã, quando o organismo masculino está inundado pelo hormônio, as chances são de que ele irá optar pela mulher de traços mais delicados e femininos. À tarde, com o nível mais baixo de testosterona, pode muito bem se deixar encantar por uma moça de traços faciais mais pesados, masculinizados. Uma surpresa do estudo, realizado no Laboratório de Pesquisa da Face da Universidade de Aberdeen, na Escócia, é a revelação de que as preferências sexuais masculinas não são tão mais estáveis que as femininas, como sempre se supôs. "Já havíamos mostrado quanto as mulheres são vulneráveis às mudanças hormonais na hora de escolher seu parceiro, mas ainda não havia um trabalho que avaliasse as oscilações hormonais em homens e suas preferências sexuais", disse a Veja o psicólogo Benedict Jones, de Aberdeen, um dos responsáveis pelo estudo. A pesquisa avaliou trinta homens, todos heterossexuais e saudáveis, com idade média de 20 anos e níveis de testosterona normais (entre 280 e 930 nanogramas por decilitro em homens com menos de 40 anos). Foi pedido a eles que escolhessem a figura mais atraente entre quarenta pares de fotografias com rostos de mulheres e de homens. Cada par era composto de duas fotos modificadas por computador do mesmo rosto. As mudanças eram sutis, mas calculadas com precisão para acentuar as características físicas de cada sexo. A face mais feminina recebeu lábios carnudos, cílios longos e fartos, nariz pequeno e fino. O rosto mais masculino exibia sobrancelhas espessas, queixo proeminente e lábios finos. As fotos foram observadas pelos participantes em quatro sessões, com intervalo de uma semana entre elas. A primeira foi realizada quando o nível de testosterona individual atingia o pico e a última quando a quantidade do hormônio era muito baixa. O resultado não poderia ter sido mais esclarecedor. Com a testosterona nas alturas, os homens escolheram em geral as fotos de mulheres com feições marcadamente femininas. Com os índices baixos, eles optaram muitas vezes por rostos femininos com traços masculinizados. Em alguns casos, até preferiram rostos de homens com feições bem femininas. A testosterona, hormônio produzido a partir da glândula hipófise, é o principal motivador sexual do ser humano, uma espécie de gatilho reprodutivo que detona o desejo em ambos os sexos. Em um homem saudável, os níveis de testosterona podem oscilar 15% durante um dia. É essa pequena margem para cima e para baixo que torna o estudo relevante. "É impressionante como uma flutuação tão pequena implicou mudanças significativas. O estudo comprovou como os hormônios são poderosos nos seres humanos e como eles trabalham a favor da evolução, ajudando na escolha do parceiro ideal", explicou o psicólogo Benedict Jones. As mulheres têm uma matemática hormonal totalmente distinta da masculina – e muito mais complexa. Durante os 28 dias do ciclo menstrual, hormônios femininos, como o estrógeno e a progesterona, e masculino, a testosterona, sobem e descem drasticamente no organismo da mulher. Ao interagirem, esses três hormônios produzem reações psíquicas e físicas distintas em cada uma das quatro semanas do mês. Do primeiro ao quinto dia, a maioria das mulheres não está sequer preocupada com sexo. Na hora de escolherem um parceiro, se realmente precisarem fazer isso, elas vão preferir o sujeito pacato, companheiro de todas as horas, com feições suaves. A partir daí, o estrógeno e a testosterona começam a aumentar. No 14º dia, o nível de testosterona está alto. A mulher entra no período de ovulação, a fase fértil, quando o corpo está preparado para a concepção. Nessa fase do ciclo, aumenta a atração por homens mais másculos. É a vez dos altos, fortes, de traços embrutecidos, como os do ator inglês Daniel Craig, o atual James Bond. Descobrir os elementos que compõem a química da paixão é um desafio. "Tudo o que aparece de novo apenas serve para comprovar a grande teoria da evolução de Charles Darwin. Mas são apenas gotas em um imenso oceano", diz Lisa Welling, do Laboratório de Pesquisa da Face. "A atração é algo rico e complexo, em que inúmeras variáveis, inclusive ambientais, interagem", pondera a psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Apesar das descobertas recentes nos campos da genética, da psicologia e da fisiologia, a total compreensão da química da atração continua um desafio da ciência – um mistério tão grande como o próprio amor.
Gabriela Carelli

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