10 de out de 2009

O lado B dos Beatles num ensaio sério

Por que alguém como o escritor Jonathan Gould, jazzista e erudito, começa um livro sobre os Beatles citando o poeta e também desenhista pré-rafaelita Edward Lear (1812-1888), conhecido por seus poemas nonsense? Simples: para alertar o leitor que Can"t Buy Me Love: Os Beatles, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos (Larousse, tradução Candombá com consultoria de Fernando Nuno, não é mais um entre os 500 títulos caça-níqueis já publicados sobre a banda de rock mais popular de todos os tempos. Aliás, Lear não é citado por acaso. Era o rei do limerick, o poema de cinco versos com uma construção semelhante às rimas pobres de várias canções do grupo de Liverpool, cuja breve existência (oito anos, de 1962 a 1970) não impediu que os Beatles se tornassem o grupo pop que mais vendeu discos no mundo (47 milhões de cópias). Essa é a grande diferença entre o livro de Gould e as inúmeras biografias dos Beatles disponíveis no mercado. Não é mais um produto destinado ao consumo imediato, como as caixas recém-lançadas com a obra remasterizada do grupo, que já venderam mais de 2 milhões de cópias em menos de um mês. É um ensaio longo para gente que lê, não para fãs histéricas que gritavam pelos Beatles quando eles visitaram a América, em 1964, marco zero do livro de Gould. Consumiu 20 anos de pesquisas. Seu autor leu tudo sobre a história do grupo e a origem de cada uma de suas 208 canções - além do contexto em que nasceram. Claro, Can"t Buy Me Love não é o primeiro nem será o último livro a tentar descobrir o que há por trás das letras de cada uma dessas canções dos Beatles. Em novembro, a editora Cosac Naify coloca no mercado The Beatles - a História por Trás de Todas as Canções, de Steve Turner. Turner, conhecido crítico musical inglês, mostra como essas músicas nasceram e as histórias desconhecidas sobre elas. Não é um um livro sobre como as canções foram gravadas nem sobre quem tocou o quê, alerta Turner. Mark Lewisohn, diz, já fez esse trabalho em The Complete Beatles Recording Sessions. Tampouco é um livro de análise musical profunda. Para tal abordagem, recomenda ler Twilight Of The Gods, de Wilfrid Mellers. O livro de Jonathan Gould, que também não pretende esgotar o assunto, é uma mistura agradável de história cultural, biografia e análise crítica. Fica-se sabendo, por exemplo, que Revolution, gravada logo após John Lennon e Yoko Ono aparecerem pela primeira juntos em público, em junho de 1968, foi mais que uma resposta do músico aos levantes estudantis de maio daquele ano. Foi o começo do fim. A performática Yoko resolveu se intrometer na gravação e ajudou o namorado a criar o caos musical (simulacro do social) que se ouve no disco conceitual dos Beatles, o histórico Álbum Branco. Os demais integrantes do grupo não gostaram. O produtor George Martin ficou irritado. Depois disso, os Beatles só durariam mais dois anos. Gould é particularmente habilidoso para saber que o monomito do grupo, a jornada dos Beatles, havia começado individualmente, e não coletivamente, quando eles embarcaram para Hamburgo e se autoinventaram como músicos, artistas e indivíduos. Hamburgo foi uma jornada de iniciação num porto estrangeiro, cuja geografia tem paralelos com a de Liverpool, berço natal dos heróis ingleses. Foi num inferninho chamado Indra Club, antigo bar de strip tease na Grosse Freiheit, que eles cantaram (em alemão) Komm gib mir deine Hand (I Want to Hold Your Hand). Tocavam seis horas por noite para bêbados e depois iam dormir atrás da tela de um cinema imundo, o Bambi Kino. A evolução do senso de identidade do grupo se deu ali, nessa rebeldia contra o ethos burguês, na busca de afirmação marginal e individual dos heróis. George Harrison tinha apenas 17 anos. Paul McCartney tentou incendiar sua cama no Bambi Kino. Foi parar na cadeia. Lennon juntou-se a eles na "humilhante" volta a Liverpool. Can"t Buy Me Love mostra como a postura desses lederjakken, metidos em suas jaquetas de couro, forjou a rebeldia - ainda que domada pela indústria - de jovens da classe trabalhadora, a ponto de algumas de suas mais populares canções retratarem o mundo de subproletários ingleses proibidos de ver O Selvagem de Marlon Brando por decisão do governo britânico. Gould toca num assunto espinhoso, dando a entender que a aproximação de Lennon do empresário Brian Epstein não foi só musical. Epstein, que praticava sexo violento com operários, segundo o autor, mantinha um apartamento para encontros casuais na Falkner Street, em Liverpool, e interpelou timidamente Lennon em 1963, quando a Inglaterra ainda punia com a prisão os homossexuais. Epstein teria sublimado essa paixão ao se tornar empresário do grupo, transformando seus integrantes em comportados teddy boys da classe média. Foi essa a imagem que vingou. O que começou como uma paródia de dandismo da classe dominante por subproletários urbanos virou uma caricatura grosseira. Os Beatles tinham de reinventar essa história. E reinventaram, ainda que por meio de suas canções. Antonio Gonçalves Filho

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