16 de dez de 2009

As verdadeiras necessidades

Nenhum conselho me parece mais útil para te dar do que este (e que nunca é demais repetir!): limita sempre tudo aos desejos naturais que tu podes satisfazer com pouca ou nenhuma despesa, evitando, contudo, confundir vícios com desejos.
Porventura te interessa saber em que tipo de mesa, em que baixela de prata te é servida a refeição, ou se os escravos te servem com bom ritmo e solicitude? A natureza só necessita de uma coisa: a comida.
A fome dispensa pretensões, apenas reclama ser saciada, sem cuidar grandemente com quê. O triste prazer da gula vive atormentado na ânsia de continuar com vontade de comer mesmo quando saciado, de buscar o modo como atulhar, e não apenas encher o estômago, de achar maneira de excitar a sede extinta logo à primeira golada! Tem, por isso toda a razão Horácio quando diz que a sede não se interessa pela espécie de copo ou pela elegância da mão que o serve. Se achas que têm para ti muita importância os cabelos encaracolados do escravo, ou a transparência do copo que te põe à frente, é porque não estás com sede. Entre outros benefícios que devemos à natureza conta-se este, e fundamental, de prover sem artifícios a quanto nos é indispensável.
Apenas no que é supérfluo nos podemos permitir a escolha, recusando isto ou aquilo como «pouco bonito», «pouco requintado» ou «desagradável à vista»!
A preocupação do criador do universo ao determinar as leis da nossa existência foi a nossa saúde, não os hábitos sofisticados; e enquanto o indispensável à saúde se encontra à nossa total disposição, os requintes do luxo só os podemos obter a troco de penas e angústias. Tiremos, portanto, partido deste inestimável benefício que devemos à natureza; pensemos que a nenhum outro título ela merece mais a nossa gratidão do que por nos facultar o uso sem repugnância de quanto podemos naturalmente desejar! Sêneca

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