31 de mar de 2011

Cortejados e cortejadores

As refinadas danças entre casais e as brigas entre pretendentes são parte importante do processo de escolha dos parceiros sexuais. Afinal, todos têm interesse em combinar seus genes com os genes de parceiros fortes, saudáveis e bem adaptados ao ambiente. Isso garante uma maior chance de sobrevivência para os filhos.

No Homo sapiens, esse fenômeno é complexo e sofisticado. São as trocas de olhares, as cantadas, as ficadas e o namoro que antecedem o acasalamento. Mas o objetivo é o mesmo, conseguir um parceiro capaz de aumentar as chances de sobrevivência dos descendentes, tudo incluído na rubrica amor e paixão.

Foi Darwin quem notou que o processo de seleção dos parceiros sexuais é uma força poderosa na evolução das espécies. Ele chamou esse processo de seleção sexual. Quando as fêmeas de uma espécie escolhem sempre os machos mais coloridos, resultam, ao longo de gerações, os coloridíssimos pavões. Se a fêmea escolhe o macho vencedor após uma luta entre machos, resultam machos enormes munidos de "armas" poderosas, como chifres.

Na maioria dos casos, os machos assumem o papel de cortejadores, dançam, exibem-se ou se envolvem em disputas. As fêmeas, no papel de cortejadas, detêm o poder, observam e escolhem. Os cortejadores (geralmente machos) acabam por desenvolver a parafernália vistosa ou bélica; as fêmeas, discretas, não exibem seu verdadeiro poder.

Mas existem muitos casos nos quais os papéis estão invertidos: as fêmeas se exibem e os machos escolhem. Nesses casos, são elas as vistosas. Em que grupo se encaixa o Homo sapiens é um assunto muito debatido nos bares e entre evolucionistas. O interessante é que agora foi descoberta uma espécie de borboleta em que machos e fêmeas se alternam no papel de cortejados e cortejadores.

A borboleta africana Bicyclus anynana chamou a atenção dos biólogos porque sua coloração varia ao longo do ano. Como ela cresce e se reproduz em poucas semanas, diversas gerações ocorrem durante um ano. Mas as borboletas que nascem e se reproduzem nas diferentes estações do ano são diferentes. Durante o período de chuvas, as borboletas fêmeas nascem muito coloridas, com várias esferas negras com um centro branco nas asas. Nessa época, os machos que nascem são relativamente descoloridos. Essa situação se inverte na época da seca. Faz algum tempo que se sabe que essa diferença de coloração depende do grau de umidade presente durante o período de desenvolvimento das larvas e pupas. O problema era saber por que essas borboletas possuem esse complexo sistema de alternância de cores.

Os cientistas estudaram o comportamento de casais. Observaram que, nas borboletas que nasciam na época da chuva, são os machos que assumem o papel de cortejadores. Eles dançam em volta das cortejadas, abrindo e fechando as asas, de modo a induzir a cortejada a mostrar sua beleza (as esferas negras com centro branco). Mas esse comportamento se inverte na época das secas, quando as fêmeas assumem o papel ativo e os machos se deixam cortejar.

Para verificar qual dos sexos possuía o poder de escolher o parceiro, os cientistas utilizaram um truque. Pintaram o centro branco das manchas das asas de machos e fêmeas nascidos nas diferentes épocas e observaram quem acabava por se acasalar depois de quatro dias de convivência. Observaram que, nas borboletas da época da chuva, eram os machos quem escolhiam as fêmeas (as sem manchas brancas tinham pouco sucesso em encontrar um par). Isso explica a coloração mais forte das fêmeas nessa época do ano. Mas na época da seca ocorria o contrário: as fêmeas escolhiam e os machos sem mancha branca não acasalavam. Nos dois casos, os que dançavam e forçavam o parceiro a mostrar as manchas eram os que detinham o poder de escolher o parceiro.

É o primeiro exemplo bem documentado da alternância de papéis entre cortejado e cortejadores em uma espécie animal. Ainda não se sabe qual a vantagem dessa alternância de papéis entre os sexos, mas a presença desse duplo sistema de seleção sexual explica por que ambos os sexos apresentam cores vistosas. Essa descoberta demonstra que, ao contrário do que se acreditava, o padrão de seleção sexual pode não ser único em cada espécie animal. A diversidade de comportamentos sexuais, como sempre, é maior que imaginamos. Se você às vezes gosta de cortejar e ser escolhido, mas em outras gosta de ser cortejado e exercer o poder da escolha, não se preocupe. Talvez exista um pouco de borboleta em você.
Fernando Reinach

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