31 de mai de 2012

Rabiscos estratégicos

Desenhar cenários para a Síria pode ser basicamente um exercício escolar (ou acadêmico, para parecer mais sofisticado). 

Já vi alguns do gênero que o país irá se converter em mais um estado falido. A máfia Assad irá controlar alguns setores do país, a Irmandade Muçulmana terá o seu quinhão e numa terra de ninguém estará operando a rede Al Qaeda.

Quem quiser se aventurar a desenhar seus cenários, bom exercício. Faz bem para a mente para esquecer das cenas do aqui e agora, como massacre de crianças pelas tropas e milícias da ditadura Assad.

O nó na Síria faz parte de um emaranhado de crises que vários atores não conseguem desenrolar. A opção de alguns, como potências ocidentais, é o simbolismo para escamotear a impotência para decisões mais vigorosas.

Temos assim sanções, moções, a expulsão de diplomatas sírios, as monocórdicas declarações de indignação e advertências soltas no ar, como as do chefe do estado-maior das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey, de que poderá haver uma uma intervenção militar caso não cessem as atrocidades.

Pergunta acadêmica? Intervenção exatamente a favor de quem? Mais apropriado (e fácil) falar que se está contra esta coisa horrenda que é o regime Assad. Enquanto isto, sabemos que os russos estão a favor de Bashar Assad, mais exatamente de algum regime que garanta o status sírio como o último estado-cliente de Moscou no Oriente Médio.

O que não falta é apelo. Indignação moral é típica dos intervencionistas humanitários (nos sabores liberais e neoconservadores). O editorial de terça-feira do Wall Street Journal esbravejou contra as Nações Unidas e fez o inevitável paralelo com Srebrenica, na Bósnia, onde, em 1995, oito mil muçulmanos foram massacrados pelos sérvios enquanto os capacetes azuis holandeses da ONU não faziam nada. Na frase amarga de um ativista de Houla, palco do massacre da semana passada na Síria, como em Srebrenica, o trabalho dos monitores da ONU foi contar o número de mortos.

Na Síria, ocorrem massacres aos olhos e contas da ONU. Aliás, as milícias pró-Assad, dominadas por sua seita alauíta, lembram as milícias sérvias que circulavam na guerra civil da Bósnia nos anos 90. Srebrenica levou o governo Clinton a passar ao largo da ONU e intervir nos Balcãs. OWall Street Journal passou o pito esperado no governo Obama, que nem clintoniano consegue ser, dizendo que seu objetivo é meramente deixar passar as eleições de novembro, sem precisar recorrer ao uso de força no Oriente Médio (só mandando de vez em quando tropas especiais e uns aviões não-tripulados para matar terroristas no Iêmen).

Oportunista, o oponente republicano Mitt Romney, secundado pelo neoconservador John McCain (derrotado por Obama em 2008), cobra ações, como armar os rebeldes sírios. Mas quem são os rebeldes? E se as armas ficarem nas mãos de setores ligados à Irmandade Muçulmana ou, pior, da rede Al Qaeda? A bem da verdade, Romney se distanciou de muitos republicanos que acusaram Obama de ter puxado o tapete de Hosni Mubarak no ano passado, permitindo o avanço da Irmandade Muçulmana no Egito. Como Obama, ele percebeu que uma mudança de guarda era inevitável no Egito. Mas sobre a Síria, armar rebeldes pode significar uma guerra civil em larga escala, com ramificações regionais. O presidente Romney está pronto para esta parada? Conversa de palanque eleitoral é moleza.

Obama, de fato, não tem uma estratégia muito rígida. Não atua com indignação moral (o que alimenta a narrativa de alguns setores conservadores de que seja um apaziguador). Obama esta mais para a escola cerebral da realpolitik. Ele acolhe as mudanças democráticas da primavera árabe, mas se a conversa é sobre Arábia Saudita, deixa para lá. Falando em sauditas, aí está um pessoal disposto a armar rebeldes na Síria. Os sauditas tramam contra a ditadura Assad ao mesmo tempo em que tramam para manter a ditadura do Bahrein (aqui com cumplicidade americana).

Mas já fizemos estes rabiscos tortos antes nesta coluna. Precisamos reconhecer que indignação moral só pode ser o ponto de partida. Uma decisão sobre intervenção militar num atoleiro como a Síria envolve cálculos estratégicos, políticos e prudência. Claro que processo decisório pode ser impelido por indignação moral em algumas circunstâncias. E se Assad aprontar alguma coisa da escala de Srebrenica? O pai dele fez coisas pavorosas há 30 anos na cidade de Hama, mas antes de imagens transmitidas por telefones celulares e do Youtube.

Evidentemente que precisamos rabiscar muito quando falamos de Síria. O país não pode ser traçado isoladamente. Temos o risco de uma conflagração entre sunitas e xiitas (os blocos liderados, respectivamente, por sauditas e iranianos). Os contornos da atuação turca são muito complicados. O governo Erdogan é assertivo como campeão democrático e muçulmano no Oriente Médio, mas tem a carga neoimperialista otomana (e ainda por cima integra a aliança ocidental da Otan). Preocupa-se também com os clamores curdos dentro da Síria (enquanto bate pesado nos seus curdos dentro de casa).

As ansiedades de Israel são imensas. Difícil extrapolar o que é pior ou melhor para os israelenses. Assad é um status quo tolerável, mas a queda seria um golpe nos iranianos. É sintomático que o cauteloso primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pela primeira vez tenha rompido o silêncio na crise síria para expressar indignação com o massacre na cidade de Houla.

Para o governo Obama, o que mais preocupa no momento na região é evitar uma guerra entre Israel e Irã e as expectativas de avanços nas negociações nucleares na semana passada estavam infladas. Obama não quer encrenca na campanha eleitoral (em Atenas, Damasco ou Teerã), embora seja cobrado pelos republicanos para tomar providências na Sïria e Irã (a Grécia pode pegar fogo). Mas especialmente a Síria, nos rabiscos estratégicos do governo Obama, leva jeito de Afeganistão. Lembram-se? Aquele atoleiro em que os americanos decidiram ficar com um pé dentro e um pé fora. Por que enfiar um na Síria? No máximo, Obama pode empurrar alguém para enfiar antes (turco ou saudita) ou se for jogado na vala comum por um episódio do gênero Srebrenica.

Crianças, podem desenhar o que bem entenderem (ou não)
Caio Blinder

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