23 de jan de 2013

São Jorge


'Salve Jorge': da Palestina ou da Capadócia?

No Brasil e alhures são milhões os que veem novelas. Atualmente uma, Salve Jorge, se desenrola na Capadócia, Turquia, onde teria vivido São Jorge.
Entre os estudiosos há uma antiga discussão sobre o lugar de seu nascimento. Ela vem largamente discutida por Malga di Paulo, pesquisadora da vida do santo e que forneceu os dados para a atual novela. Um livro seu deverá sair brevemente. Para Malga, que conhece a fundo a Capadócia, todos os indícios levam àquele lugar como a pátria natal do famoso mártir. Outros o colocam em Lod, na Palestina, hoje Israel, onde se construiu um santuário em sua homenagem. 
É muito pouco o que podemos dizer de forma segura sobre o tema. A escola de historiadores críticos da vida dos santos e dos mártires — surgida a partir  do século 17, os Bolandistas, e sua obra Acta sanctorum — deixa a questão em aberto. Outro grupo, criado  ao redor de A. Buttler, baseando-se nos Bolandistas e acessível em português em 12 volumes, A vida dos santos (Vozes, 1984) assevera: ”Há toda uma série de motivos para se acreditar que São Jorge foi um mártir verdadeiro e real, que sofreu a morte em Lida, na Palestina, provavelmente na época anterior a Constantino (306-337). Fora disso, parece que nada mais se pode afirmar com segurança” (vol. IV, pág. 188).
Minha tendência é afirmar que a Palestina, e não a Capadócia, é o lugar de nascimento de São Jorge. A razão se prende ao fato de que teria havido uma confusão de nomes. Com efeito, havia na Capadócia um bispo chamado Jorge da Capadócia, fato historicamente bem atestado. Entrou na história da teologia, em razão das polêmicas acerca da natureza de Cristo: seria só semelhante à de Deus (arianos) ou seria a mesma (antiarianos)? Tal discussão dividiu a Igreja.  O imperador Constâncio II (um de seus títulos era de papa) queria assegurar a unidade do império mediante uma confissão  única, no caso, a ariana. Militarmente, ocupou Alexandria, foco da resistência antiariana e impôs Jorge da Capadócia como bispo ariano (357-361), mais tarde assassinado. Isso consta até nos manuais de teologia. 
Minha hipótese é que os primeiros compiladores da vida de São Jorge, já no século V e depois, no século 12I, confundiram São Jorge com esse conhecido Jorge da Capadócia, e assim o fizeram nascer aí. Uma hipótese.
Deixando a discussão de lado, importa lembrar a figura de São Jorge mais conhecida: um guerreiro, montado sobre um cavalo branco, vestido de couraça, com uma cruz vermelha num fundo branco, enfrentando terrível dragão com sua lança pontiaguda.
Por seu pai ter sido militar, seguiu essa carreira. Foi tão brilhante que o imperador Diocleciano o incorporou à sua guarda pessoal com a alta patente de Tribuno. Quando este imperador obrigou todos os soldados cristãos a renunciarem à fé cristã e adorarem os deuses romanos, sob pena de morte, Jorge se recusou e saiu em defesa de seus irmãos de fé. Preso e torturado, miraculosamente passou, diz a lenda, ileso do caldeirão de chumbo e de vários envenenamentos. Mas acabou sendo decapitado.
No início, no Ocidente, o santo era venerado apenas como um simples mártir com sua palma típica. Com o tempo e especialmente devido às cruzadas foi feito guerreiro com seus instrumentos próprios, especialmente associado ao enfrentamento com o dragão, símbolo do mal e do demônio.
A lenda mais conhecida no Ocidente é a seguinte:
Certa feita, Jorge, como militar, passou pela Líbia no norte da África. Na pequena cidade de Silene o povo vivia apavorado. Num brejo vizinho reinava terrível dragão. Seu sopro era tão mortífero que ninguém podia se aproximar para matá-lo. Cobrava cada dia dois carneiros. Terminados estes, exigia vítimas humanas, escolhidas por sorteio. Um dia a sorte caiu sobre a filha do rei. Vestida de noiva, ela foi ao encontro da morte. Eis, senão quando, surge São Jorge com seu cavalo branco e com sua longa lança. Fere o dragão e domina-o. Amarra-lhe a boca com o cinto da princesa. Esta o conduz manso como um cordeiro até o centro da cidade. Todos, agradecidos, se converteram à fé crista.
São Jorge é patrono da Inglaterra, já a  partir de 1222, mas oficialmente só em 1347, com Eduardo III, com festa solene (the St.George’s Day). Mas também a Rússia, Portugal, Bulgária, Grécia, a província da Catalunha e muitas cidades mundo afora o têm como seu padroeiro.
Uma polêmica se estabeleceu quando o Vaticano, em 1969, fez uma revisão da lista dos santos e dela retirou  o popular São Jorge, por motivos não totalmente claros. Houve uma grita geral, especialmente, por parte da Inglaterra, da Catalunha e até do time de futebol, o Corinthians, de quem é patrono. O cardeal dom Paulo Evaristo Arns, corinthiano fervoroso, intercedeu junto ao papa Paulo VI para que mantivesse a veneração de São Jorge, ao menos como  clebração optativa. Ao que o papa respondeu: ”Não podemos prejudicar nem a Inglaterra nem a nação corinthiana; prossigam com a devoção”. Em 2000 João Paulo II, com senso pastoral, restabeleceu a festa. São Jorge está presente nas tradições afro: Ogum para a Umbanda e Oxossi para ocandomblé-nagô. No Rio, o dia 23 de abril, sua festa, é feriado municipal, pois é o patrono de fato da cidade.
No próximo artigo tentaremos decifrar o arquétipo de base que subjaz ao guerreiro São Jorge e ao dragão. Enquanto isso, fazemos nossa a oração popular: ”Andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem, tendo mãos, não me peguem e tendo olhos não me enxerguem... E meus inimigos fiquem humildes e submissos a Vós. Amém”.
São Jorge e o dragão: os dois lados do ser humano 
Toda religião, também o cristianismo, possui muitas valências. Além de se centralizar em Deus, elabora narrativas sobre o drama paradoxal do ser humano, gerando sentido, uma interpretação da realidade, da história e do mundo. 
Exemplar é a lenda de São Jorge e o combate  feroz com o dragão narrada no artigo anterior. Primeiramente, o dragão é dragão, portanto, uma serpente. Mas é apresentada alada, com enorme boca que emite fogo e fumaça e um cheiro mortífero. É um dragão simbólico.
No Ocidente, representa o mal e o mundo ameaçador das sombras. No Oriente, é  positivo, símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade (long). Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), símbolo positivo de  sua cultura. Para nós, ocidentais, o dragão é sempre terrível e representa a ameaça à vida ou as dificuldades duras da sobrevivência. Os pobres dizem: “Tenho que matar um dragão por dia, tal é a luta pela sobrevivência”.
Mas o dragão, como o mostrou a tradição psicanalítica de C. G. Jung com Erich Neumann, James Hillmann, Etienne Perrot e outros, representa um dos arquétipos (elementos estruturais do inconsciente coletivo ou imagens primordiais que estruram a psique) mais ancestrais e transculturais da humanidade.  
Junto com o dragão sempre vem o cavaleiro heroico, que com ele se confronta numa luta feroz. Que significam essas duas figuras? À luz de categorias de C. G. Jung e discípulos, especialmente de Erich Neumann, que estudou especificamente este arquétipo (A história da origem da consciência, Cultrix, 1990), e da psicoterapia existencial-humanística de Kirk J. Schneider (O eu paradoxal, Vozes, 1993), procuremos entender o que está em jogo nesse confronto. Ele ensina e nos desafia. 
O caminho da evolução leva a humanidade do insconsciente para o consciente, da fusão cósmica com o Todo (Uroboros) para a emergência da autonomia do ego. Essa passagem é dramática, nunca totalmente realizada; por isso, o ego deve continuamente retomá-la caso queira gozar de liberdade e vencer na vida. 
Mas importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano. O dragão em nós é o nosso universo ancestral, obscuro, nossas sombras de onde imergimos para a luz da razão e da independência do ego. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono), o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro. Numa gravura de Rogério Fernandes (com.br) o dragão aparece envolvendo o corpo de São Jorge, que o segura pelo braço e tendo o rosto, nada ameaçador na altura do de São Jorge. É um dragão humanizado formando uma unidade com São Jorge. Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão), o dragão aparece como um animal domesticado sobre o qual São Jorge de pé o conduz, sereno, não com a lança mas com um bastão. 
A atividade do herói, no caso de São Jorge, na sua luta com o dragão, mostra a força do ego, corajoso, iluminado e que se firma e conquista autonomia, mas sempre em tensão com a dimensão escura do dragão. Eles convivem, mas o dragão não consegue dominar o ego. 
Diz Neumann: ”A atividade da consciência é heroica quando o ego assume e realiza por si mesmo a luta arquetípica com o dragão do inconsciente, levando-a a uma síntese bem sucedida” (Op.cit., pág. 244), A pessoa que fez esta travessia não renega o dragão, mas o mantém domesticado e integrado como seu lado de sombra. Por esta razão, em muitas narrativas, São Jorge não mata o dragão. Apenas o domestica e o reinsere no seu lugar deixando de ser ameaçador. Aí surge a síntese feliz dos opostos; o eu paradoxal encontrou seu equilíbrio, pois alcançou a harmonização do ego com o dragão, do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra,  da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e com a religião. 
A confrontação com as oposições e a busca da síntese constitui a característica de personalidades amadurecidas, que integraram a dimensão de sombra e de luz. Assim o vemos em Buda, Francisco de Assis, Jesus, Gandhi  e Luther King.
Os cariocas têm grande veneração por São Jorge, mais do que por São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”. O povo sente necessidade de um santo guerreiro, corajoso, que vence as adversidades. Aí São Jorge representa o santo ideal. 
Por certo, aqueles que veneram São Jorge diante do dragão não saibam nada disso. Não importa. Seu inconsciente sabe; ele  ativa e realiza neles sua obra: a vontade de lutar, de se afirmar como egos autônomos que enfrentam e integram as dificuldades (os dragões) dentro de um projeto positivo de vida (São Jorge, herói vitorioso). E saem fortalecidos para a luta da vida.         
Leonardo Boff

Um comentário:

Anônimo disse...

Quem impede a gente de enfrentar o dragão e se libertar são aspectos reprimidos.

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