28 de set de 2008

Marcel Proust

Nascido um ano após o Le Débâcle, o grande desastre militar que se abateu sobre a França de Napoleão III, derrotado e capturado pelos prussianos em Sedan, em 1870, Marcel Proust veio a ser o notável cronista da alta sociedade parisiense da Belle Époque, dos anos que antecederam uma catástrofe ainda maior: a Guerra de 1914-1918. 

Com estilo refinado e repleto de observações sagazes deixou páginas memoráveis sobre a vida íntima dos nobres e dos ricaços do seu tempo. Gente que nem a Revolução de 1789, nem a de 1848 ou a Comuna de 1871, fizeram desaparecer do cenário social francês. 

Numa festa parisiense, nos tempos da Belle Époque, a coquete condessa de Greffulhe disse: "Saberei que perdi minha beleza quando as pessoas não mais se voltarem na rua para me olhar". "Fique tranqüila", respondeu-lhe a amiga, "enquanto se vestir dessa maneira todos continuarão se voltando para olhá-la." 

Num outro salão, a simplória condessa Rosa dizia: "em Viena, onde fui educada" para imediatamente ser interrompida pelo marido: "quer dizer, onde nasceu". Comentando a vida extravagante da bela condessa Potoka, uma maldizente cochichou a um amigo: "Ela é como o sol, ergue-se para um homem um momento antes de ir deitar-se com outro." Ao saber que a senhora Aubernon, uma ativa festeira e hostess de um freqüentadíssimo salão de Paris, estava com câncer na boca, uma das suas inimigas sentenciou: "foi castigada no órgão com o qual pecou". 

Irritado com o casamento de um parente seu com uma moça da família dos Luynes, o conde Aimery de La Rochefocauld, um dos reis do esnobismo parisiense, deixou escapar seu descontentamento bradando que os Luynes "não eram ninguém no ano mil!" Ativo freqüentador de salões, o senhor Brochard foi encarregado de convencer um inconveniente, o barão Jacques Doasan, de moderar sua "linguagem horrível" que chocava os demais convivas. Recebeu como resposta o dito: "prefiro meus vícios a meus amigos."

A uma senhora que durante um jantar insistia para que Gabriele D'Annunzio se definisse a respeito do amor, o poeta implorou: "Leia meus livros, senhora e deixe-me comer." Insatisfeita, repetiu a mesma pergunta à dama ao seu lado: "Sobre o amor?" respondeu-lhe a senhora Laura Baignères, "faço-o freqüentemente, mas nunca falo sobre isso". 

Tais frases de efeito e lances de esgrima verbal do convívio dos salões serviram de matéria-prima para Marcel Proust, frequentador contumaz daquele meio, construir mais tarde, por vezes recolhido a um sanatório (1905-1912), aquele gigantesco painel do haute monde de Paris fim-de-século e que ele intitulou Em busca do tempo perdido. 

Quando apareceu o primeiro volume da série de sete, o Du côte de chez de Swan, "No caminho de Swan", editado pela Bernard Grasset, em 1913, as pessoas que o conheciam verificaram o enorme abismo que existia entre Marcel, um jovem tido como superficial, um efeminado com vocação quase que doentia pelo mundo mundano, uma pessoa que até então tinha sido indiferente a qualquer valor que não estivesse ligado aos salões, com o autor Proust, que se revelou um escritor profundo e sagaz, dotado de uma capacidade sensitiva e perceptiva muito acima do que a literatura francesa havia até então conhecido. 

Daquele universo de futilidades, das incessantes festas e intermináveis reuniões sociais, daquele culto à vagabundagem refinada, Proust tirou maravilhas. Otto Maria Carpeaux, numa oportunidade, definiu o romance de H. Balzac com a sintética afirmação de que A comédia humana era o "romance do dinheiro". 

Se tentássemos o mesmo para definir Em busca do tempo perdido, poderíamos dizer que foi o "romance do ócio". Praticamente nenhum dos seus personagens, ao contrário dos de Balzac, manifesta qualquer preocupação em "ganhar a vida". Quem trabalha nos seus livros são os domésticos e os criados em geral, abrindo as portas dos salões, servindo os convidados ou emprestando seus ouvidos a um irresistível mexerico dos patrões. 

Seus personagens principais, Charles Swan e o barão de Charlus, vivem de rendas e cultivam um refinado gosto artístico: um é profundo conhecedor de quadros, o outro é conferencista e poeta ocasional; são, em tudo, soberbos diletantes. O personagem de Charlus, aliás, veio-lhe à mente pelo seu convívio com Roberto, o conde de Montesquieu, um ativo sodomita que pertencia ao gratin e conhecia intimamente toda a aristocracia francesa. Já o refinado e enigmático Stéphane Mallarmé (1842-1898) havia se fascinado com a personalidade do conde, a quem conheceu pessoalmente, um excêntrico decadente que se auto descrevia como "um galgo de sobretudo", que o inspirou a compor o poema "Prose pour des Esseintes (1885). 

Alguém que, tal como o conde, havia mandado incrustar turquesas no casco da sua infeliz tartaruga de estimação e que se dizia ser "soverain des choses transitoires", um soberano das coisas transitórias. O próprio Proust nos alerta de que seus personagens não se abrem pelo esforço de uma só chave,. Por vezes, são precisas seis ou mais; são compostos de várias outras figuras exemplares que ele encontrou em seu périplo pela vida luminosa dos salões e nos retiros extravagantes da alta sociedade parisiense. 

Quanto ao dito de que ele teria sido um revolucionário em seu formalismo técnico, Albert Thibaudet publicou um interessante ensaio Marcel Proust et la tradition française, onde concluiu que por mais inovador que La recherche du temps perdu pareça, de fato se enquadra na tradição literária francesa que tem como antepassados o moralista Michel de Montaigne (1533- 1592) e o cronista das sociedades decadentes que foi Louis de Rouvroy, duque de Saint-Simon (1675 – 1755).

Interessa observar que talvez o seu roman fleuve seja a prova viva de uma das maiores falácias difundidas pela historiografia liberal e pela marxista sobre os efeitos radicais e duradouros da Revolução de 1789. Segundo a interpretação histórica dessas correntes, a queda da Bastilha teria gerado um novo mundo, o mundo dos valores burgueses, dominado pela lógica do capital e pelos interesses do lucro. À nobreza só restou o declínio. Mas a uma acurada leitura sociológica do que Proust registrou, verifica-se que os valores e gostos aristocráticos estavam longe de terem sido eclipsados pelas revoluções.

Não só estavam vivíssimos como eram admirados, imitados e invejados pelo resto da sociedade, basta ver a freqüência do público aos balés, à ópera, às corridas no hipódromo e pelas temporadas de férias no litoral da Normandia (num dos castelos locais, em Cambremer, no Pays d´Auge, durante suas tantas retiradas para o mar, Proust começou a escrever "A sombra das raparigas em flor") 

Assim parece correta a tese de Arno J. Mayer (*) sobre a força da tradição quando disse que o que realmente sepultou aquele mundo não foram os eventos de 1789, nem mesmo o Terror de 1793, mas sim o dilúvio bélico que sobre ele se abateu em 1914. Sua cova verdadeira não foi aberta pelo furor dos jacobinos ou pelos communards mas sim pelos soldados que cavaram as trincheiras do Marne e de Verdun sob o fogo centrado da artilharia. Apesar de o próprio Proust confessar que seus estudos revelavam "o nada da vida de salão", somente se explica o fascínio de sua narrativa pela mística, quase inalterável, que o mundo da alta sociedade até hoje exerce sobre o imaginário do homem comum. É um Olimpo povoado por seres humanos cuja dedicação ao fútil e ao superficial é estrategicamente praticado para mais e mais distingui-los do resto dos mortais.

Voltaire Schilling 
(*) Arno J. Mayer - A Força da Tradição: a persistência do Antigo Regime (1848-1914).

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