5 de out de 2008

Revolução na clínica

Na história da psicanálise encontramos três tipos de derivações clínicas da experiência inaugurada por Freud.
Há aqueles, como Jung, Reich ou Adler, que a partir de revisões teóricas chegam a formular projetos clínicos independentes e autônomos.

A psicologia analítica, a bioenergética e a psicologia individual são concepções de tratamento derivadas, mas claramente distintas da psicanálise.
Em segundo lugar, há aqueles que, mantendo-se na órbita dos fundamentos do método psicanalítico, inovam sua técnica, seu alcance ou seus objetivos, como é o caso de Ferenczi, Melanie Klein, ou Winnicott.
Encontramos aqui as inúmeras variantes da psicanálise, seus gêneros, suas escolas, suas tradições locais e internacionais.

Finalmente no terceiro grupo de derivações encontram-se os que importam noções e procedimentos clínicos da psicanálise adaptando-os a outras perspectivas psicoterapêuticas ou contextos de tratamento, com ou sem declaração de proveniência.
Aqui o critério não é o da diversidade interna, nem o da autonomização, mas o da gradualização, ou seja, formas de clínica mais próximas ou mais distantes do limite que definiria essencial ou normativamente a psicanálise. Representam este caso as psicoterapias de inspiração ou base psicanalítica, as aplicações psiquiátricas ou pedagógicas e as formações de compromisso com outros projetos clínicos.

Quando examinamos a posição de Lacan nesse pequeno mapa das formas de clínica psicanalítica encontramos uma dificuldade. Em primeiro lugar ele propõe uma revisão teórica radical na forma de ler e praticar os principais operadores clínicos da psicanálise. Isso de fato dá origem a uma tradição autônoma de transmissão da clínica, com suas regras, associações e genealogias. Ocorre que em vez de caracterizar-se e justificar-se segundo "outros princípios" ela apresenta-se como clínica psicanalítica e ademais rigorosamente freudiana.

Em segundo lugar Lacan inova tal clínica tanto no que diz respeito à sua técnica (notadamente o manejo do tempo e das palavras em análise), quanto ao seu alcance (seja com relação ao tratamento das psicoses, seja das perversões), e ainda quanto aos seus objetivos (tanto em face da proposição radical de uma ética da psicanálise, quanto no que diz respeito ao final do tratamento). Portanto a experiência lacaniana pode ser recebida como um fragmento adicional no quadro da diversidade das psicanálises.
Novamente encontramos objeções para enquadrar a clínica lacaniana neste critério. A adesão de Lacan às suas inovações técnicas, a idiossincrasia de seu estilo, e as conseqüências políticas de suas idéias, determinam que ele seja expulso da Associação Psicanalítica Internacional, em 1963.

Teoricamente isso representaria um caso limite de passagem da condição de "diversidade no interior do mesmo" para a situação de "outra coisa que deve ser expelida". Ora, naquele momento Lacan já havia contribuído significativamente para formar uma nova geração francesa de analistas, contava 62 anos de idade e era figura conhecida e respeitada tanto nos círculos psicanalíticos quanto psiquiátricos.
Portanto sua descaracterização como psicanalista soa apenas como uma manobra político-normativa, francamente indefensável segundo parâmetros atuais. Isso, no entanto, cria esta espécie de paradoxo para localizá-lo como origem de uma orientação psicanalítica entre outras.

Essa situação duplamente anômala (clínica independente, mas não autônoma e clínica diversa, mas excluída normativamente do conjunto) sugere que tratamos aqui de um exemplo do terceiro tipo, qual seja, uma clínica mais ou menos psicanalítica. Ora, esse enquadramento também não é possível. Há um esforço contínuo de Lacan para fundamentar não apenas a psicanálise, como teoria do inconsciente e das pulsões, mas seu método de tratamento.
Um esforço para determinar as condições e limites não apenas de um prolongamento da técnica ou de certas modificações de sua doutrina teórica, mas de toda e qualquer experiência que se queira psicanalítica. Para Lacan o psicanalista, para além de uma pessoa e de uma função, toma parte no próprio conceito de inconsciente. Desta maneira ele contribui para estabelecer alguma unidade do próprio campo psicanalítico e para uma separação mais clara frente a outras modalidades de tratamento psicológico.

Uma Clínica Radical
Essa ambição de fundamentar a ação do psicanalista tanto ética quanto epistemologicamente é ao mesmo tempo um convite à exploração de novas formas de intervenção e à construção de um estilo próprio para cada analista. Ou seja, em vez de padronizar a ação, normativizar a formação de analistas e burocratizar os procedimentos clínicos, Lacan tenta fixar alguns princípios com segurança e convidar o psicanalista a pensar e problematizar continuamente as razões de sua prática.
Um exemplo muito discutido desta atitude é o uso do tempo lógico. Investigando a incidência da temporalidade nas relações intersubjetivas Lacan propõe uma espécie de modelo lógico para pensar as relações do sujeito com seu próprio ato no tempo, dada a hipótese do inconsciente. No processo de construção de certezas, decisões e escolhas nos deparamos sempre com o outro e conseqüentemente com nosso próprio desejo inconsciente.

Como interpolar este aspecto decisivo da experiência de qualquer sujeito no interior da clínica psicanalítica? A tese de Lacan é de que o próprio tempo da sessão e do tratamento em seu conjunto deveriam ser ponderados a partir deste aspecto constitutivo dos sujeitos desejantes. Ou seja, quando uma sessão de psicanálise começa nunca se sabe quando ela vai terminar.
Sua duração é variável e dependente do que é efetivamente dito e realizado entre os participantes da cena analítica. Um bom exemplo de como um fundamento teoricamente simples leva a conseqüências práticas, técnicas e éticas difíceis de enfrentar.

Na verdade é bastante intuitivo que nossa experiência com o tempo dependa do tipo de relação na qual estamos e, reversamente, o tipo de relação com o tempo (pressa, atraso, suspensão, indeterminação) condiciona aspectos fundamentais de nosso encontro com o outro. Ora, por qual motivo tal trivialidade teórica, corroborada pela intuição prática mais simples, não poderia ser levada em conta na psicanálise? Se esta é uma experiência radicalmente fundada no sujeito, por que descartar seus elementos constituintes: o tempo, a fala e o desejo?

Portanto, no projeto clínico engendrado por Lacan encontramos essa partilha entre uma exigência radical de produção da singularidade, na forma de receber a tratar cada paciente segundo o conjunto de particularidades e contingências únicos que regem uma vida, e a aspiração universalista de prestar contas da ação clínica do psicanalista segundo critérios comuns, públicos e conceituais. Esta dupla exigência de singularidade e universalidade exprime-se em quatro aspectos de seu programa clínico:

Lacan procura mostrar que a psicanálise é capaz de contar com uma psicopatologia própria, ou seja, que os quadros clínicos há muito conhecidos pela psiquiatria e pela medicina da alma, podem e devem ser redescritos segundo as condições do método psicanalítico. Com isso Lacan consegue despsiquiatrizar e desbiologizar a psicanálise sem que esta deixe de ser uma clínica, no sentido mais rigoroso do termo. Há, portanto, diagnóstico psicanalítico, mas ele não deve ser entendido como detecção de uma doença orgânica ou de um desvio moral, mas como um diagnóstico das formas de relação do sujeito com o outro, especificamente segundo o fenômeno descrito por Freud como transferência.

Há uma semiologia, mas esta não é formada por um conjunto de signos estáveis ou por um dicionário de sintomas, mas pela relação do sujeito com sua própria fala, com a linguagem que esta pressupõe e com os discursos que a organizam. Há ainda um método de intervenção, mas este não equivale a um conjunto de protocolos técnicos que devem ser anonimamente seguidos, mas por uma relação ética com o desejo, inclusive o próprio desejo do analista, que condiciona as interpretações e a condução da cura em seu conjunto.

Finalmente Lacan investigou sistematicamente a questão da causa, descartou qualquer associação do inconsciente com a irracionalidade e estudou a profunda regularidade estrutural dos sintomas, das inibições e das angústias. Ou seja, há uma clínica psicanalítica e esta não é apenas importação deformada ou mimetizada da clínica médica. Trata-se de uma clínica autônoma capaz de oferecer seus próprios fundamentos segundo o crivo da razão e em acordo com critérios de cientificidade, justificação e transmissão que lhe seriam atinentes.

O segundo aspecto do programa clínico lacaniano corresponde à crítica sistemática do exercício do poder na situação de tratamento. Lacan entendeu primeiramente que isso se originava na forma autocrática e subserviente como a formação de analistas vinha sendo tratada nos anos 1940 e 1950. Ou seja, após anos obedecendo regulamentos e mestres esta experiência de dominação tendia a reproduzir-se no interior do tratamento psicanalítico.

O fato motivou Lacan a pensar mais radicalmente essa vocação humana para a servidão voluntária e para a alienação, relação esta que se atualiza nas formas de sintomas, nos tipos de relação neurótica, perversa ou psicótica, e que afinal definem uma espécie de desconhecimento sistemático do sujeito em relação a seu desejo.
Seja no sentido de sua implicação ou reconhecimento neste desejo, seja no sentido de sua realização simbólica, no quadro de uma história ou de suas condições de socialização, esse sistema de desconhecimento do desejo e desresponsabilização de si é o motor da alienação e procede do que Lacan chamou de imaginário. Distinguir a dimensão imaginária da dimensão simbólica na condução do tratamento seria assim um primeiro antídoto para que a "impotência em sustentar autenticamente uma praxis [não se reduza] ao exercício de um poder".

A pedagogia ou ortopedia da alma, assim como a direção da consciência, rumo à adaptação ou conformismo, figuram assim como anti-modelos para a psicanálise lacaniana. Nesse sentido Lacan pretende orientar o tratamento psicanalítico para uma espécie de dissolução das condições que o tornaram possível, ou seja, para uma experiência radical de decomposição da ficção pela qual o psicanalista apresenta-se como soberano mestre de nosso saber inconsciente (função também chamada de sujeito suposto saber). Isso implica também a travessia das identificações, filiações e ideais que se infiltram na relação do sujeito com a lei simbólica. É ainda pretensão do tratamento estabelecer uma espécie de separação com relação à nossa paixão específica pela qual nos oferecemos e nos tomamos como objetos.

O terceiro aspecto saliente no projeto clínico de Lacan é sua insistência de que este seja uma espécie de aventura da verdade. Recuperando a noção forte de experiência, como percurso dialético e transformativo pelo qual um sujeito se encontra e produz suas próprias condições de existência, a psicanálise coloca-se simultaneamente como um empreendimento de descoberta e invenção. Descoberta no sentido de que o trabalho da associação livre em análise, a rememoração e a reapropriação dos desejos desejados por uma vida, levam a uma espécie de reconstituição simbólica do desejo. A descoberta de certas regularidades, por exemplo, na gramática da vida amorosa ou na recorrência de certas injunções da economia libidinal, produz algum incremento de saber sobre a vida do paciente.

A lição clínica de Lacan começa pelo fato de que esse saber, obtido pelo processo de decifração do inconsciente, segundo a rigorosa escuta da fala do paciente, com o menor acréscimo possível de sentido, esse saber não cura o sujeito. É fato que isso produz efeitos de estabilização narcísica, de redução de angústia e até de rearticulação das relações com a realidade e seus laços constitutivos.
Ou seja, há um efeito terapêutico decorrente de tal forma de produzir um saber, de refazer uma história, de recuperar as escolhas de um sujeito segundo determinações que lhe escapam. Contudo uma psicanálise não termina, mas começa neste ponto. Para Lacan uma experiência psicanalítica deve ser capaz de inventar uma verdade, deve ser um acontecimento de verdade na vida de alguém.

Não se trata da verdade como conteúdo ou conjunto de saberes mais ou menos confiáveis sobre si mesmo. A psicanálise, para Lacan, não é uma experiência de autoconhecimento, pois só se pode conhecer propriamente objetos, conhecer-se a si mesmo é tomar-se como objeto, portanto alienar-se, logo um contra-senso diante da perspectiva lacaniana.
A psicanálise tem mais que ver com cuidar de si do que com conhecer a si. Para Lacan uma verdade só pode ser semi-dita, e dita em uma dada estrutura de ficção, de modo singular, mas não individual. Ela é muito mais tempo, ou acontecimento local, do que um enunciado universalmente verídico ou plausível, muito mais experiência e formalização de um paradoxo do que evidência clara e distinta.

O quarto aspecto que caracteriza a clínica de orientação lacaniana diz respeito ao que não pode ser curado, ou seja, ao destino do intratável em um determinado sujeito. Aqui aparece um traço anti-psicológico ou anti-filosófico marcante desta concepção de experiência psicanalítica. Ou seja, ela se propõe reduzir o sofrimento, dissolver certos sintomas, mas ela não é capaz de acabar com o que Freud chamava de mal-estar (Unbehagen). Tudo se passa como se no núcleo de certos sintomas (mas não de todos), na forma cristalina de certas angústias (mas não de todas) e no fundo no que há de pior na experiência de alguém, encontrássemos algo que precisa ser reconhecido ou destinado, mas não eliminado.

É o que Freud chamava de pulsão de morte e que compõe um verdadeiro divisor de águas dentro da história da psicanálise entre aqueles que admitem e aqueles que recusam tal conceito. Lacan leu essa noção de várias maneiras: como repetição insidiosa que atravessa a vida de alguém, como fascinação neurótica pelo trauma, como lugar de retorno da alucinação, como uma espécie de molde às avessas para nossa própria sexualidade e eventualmente para nosso masoquismo.
A esta série de fenômenos clínicos e de constatações em torno da forma como lidamos com certas condições como a finitude, o desamparo e a diferença sexual, Lacan deu o nome de Real. Assim como a verdade não se corresponde muito bem com o saber, o Real não se confunde com a realidade.

O Real poderia ser definido como aquilo que, fazendo parte da existência, não entra na realidade. Ele não cabe na realidade, mas é o impossível necessário para que ela exista de forma consistente. Daí as ligações do Real com a criação e com a sublimação. Mais ao final de sua vida Lacan começa a perceber que as ambições clínicas da psicanálise dependiam da forma como se considerasse o Real e da possibilidade e dos limites de tratá-lo pelo Simbólico ou pelo Imaginário.

Lacan nunca publicou um caso clínico em psicanálise. O caso Aimée remonta à sua formação como psiquiatra e neurologista. Nele descobrem-se fatos clínicos que serão revisitados ao longo de toda sua obra: a tendência à autopunição, a importância clínica dos atos disruptivos e o drama humano diante da lei e da luta pelo reconhecimento. Isso é compatível com a estratégia de fundamentação da clínica que apresentamos até aqui. Ao reexaminar em detalhes os casos clínicos de Freud e de psicanalistas que lhe eram contemporâneos ele demonstrava sua confiança no potencial de transmissibilidade de uma experiência singular.

Por outro lado, ao trazer para o exame clínico monumentos da cultura como Antígona, Hamlet e Sade, bem como expoentes de sua época como James Joyce e Marguerite Duras, Lacan parece igualmente confiar na universalidade de seu objeto.
Christian Ingo Lenz Dunker
Picture by Braque

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