23 de nov de 2008

Uma panela de água e sal

O habitual rio de desgraças nos chega pelos jornais e TVs: política e polícia, mediocridade geral e alienação particular, todo o drama humano – não insolúvel, mas nunca resolvido. A crise atual, que mal começa e vai piorar, tem de um lado o medo, de outro a arrogância, e produz férias forçadas ou desemprego. Tem gente que ainda diz que não há crise. Tem gente cortando despesas e tremendo nas bases do otimismo, por modesto que ele seja. Tem gente mandando a gente deixar de bobagem e consumir. Que fazer? Os vinte grandes do mundo – em parte responsáveis pelo que nos atinge – almoçam em torno de uma mesa luxuosa num intervalo do seu jogo de vantagens, poder e enganos. Num país vizinho, uma mãe de 20 anos com cara de anciã e menos de 1,5 metro de altura, com um bando de filhos mirrados, segura um bebê, o único que vagamente sorri. Indagada sobre o que tem em casa para lhes dar de comer, a mãe responde olhando para o jornalista: "Hoje é uma panela com água e sal". Fala quase num tom de quem pede desculpas. A panela aparece, realmente fumega no fogãozinho de pedras dentro do casebre. Desligo o noticioso como se fosse um filme obsceno – é um filme obsceno. Mas ligo outra vez: é preciso saber. Notícias da pobreza brasileira: crianças comendo nos lixões, mais famílias meio anãs porque desnutridas, um menino esquelético de belíssimos olhos escuros cansado de carregar água ladeira acima – baldes de água leitosa tirada de uma poça barrenta. Enquanto isso, trilhões em dinheiro circulam pelos mercados (Vou receber e-mails repetindo que empobrecer os ricos não ajuda aos pobres: nem todos entendem o que escrevo, mas botar a cara na janela é para isso também.). Não acredito em grandes mudanças neste tempo de ideologias confusas e cabeças loucas, em que a gente muda de partido ou de ideal como quem compra um celular novinho. Mas tenho esperança em algumas transformações individuais. Talvez esteja me tornando ferrenhamente individualista, não por egoísmo, mas por esperar que cada um tente fazer a sua pequena parte. Trabalho de formiguinha: se alguém pagar à empregada o melhor que pode pagar, em vez de lhe dar o mínimo que a lei exige, alguma coisa já mudou. Se, em vez de querermos atordoadamente ter e aparecer, participar e pertencer e sobressair, pensarmos em alegria e afetos; se acreditarmos que o bom e o belo são possíveis, apesar de tudo; se conseguirmos ser um pouco menos cegos e arrogantes, quem sabe começaremos a cair na real e a ajeitar a ordem do mundo que anda tão torta. Um pai de aluno, numa escola onde estive, estava preocupado com "o excesso de possibilidades que se oferecem a jovens e crianças", e com razão. Isso é tão preocupante quanto a vasta miséria. A desigualdade sempre vai existir, pois não somos bonecos feitos em série: haverá os menos talentosos, os mais inteligentes, os mais enérgicos e os menos capazes. Mas aquela mãe com seus filhos esqueléticos não precisava existir. Agora, na televisão, três crianças, de 5, 7 e 8 anos, três lindas menininhas, enchem pequenos baldes com areia. Não é para brincar: elas estão, diz o irmão de uns 12 anos, "trabalhando". Ajudam a família carregando areia morro acima, a prefeitura do seu vilarejo paga por isso. Não é no Brasil, mas é perto, e, com certeza, por aqui temos esse tipo de crime. Essa gente não pensa em crise: do nascimento à morte, sua vida é uma escuridão de fundo de poço. Para eles, o que conta é a dor da barriga sem comida e a da alma sem esperança. Desligo a TV e vou cuidar da vida. Carrego, mais do que o caos nas finanças do mundo, o palavrório dos vinte figurões e as dificuldades que se avolumam. Aquela mãe de metro e meio com seus sete filhos tristes. O pano de fundo é uma fumegante panela de água com sal, toda a sua refeição para esse dia.
Lya Luft
Picture by Karen Dupré

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