24 de fev de 2009

O elo perdido da fala

Nova pesquisa sugere que uma área do cérebro dedicada ao processamento de vozes não é unicamente humana, como durante muito tempo se acreditou O uso de vocalizações – como grunhidos, cantos ou latidos – é extremamente comum em todo o reino animal. No entanto, a espécie humana é a única em que essa capacidade alcançou a sofisticação e a eficiência comunicativa da fala. Mas como nossos ancestrais se tornaram os únicos animais falantes, milhares de anos atrás? Essa mudança ocorreu de forma abrupta, envolvendo a aparição de uma nova região cerebral ou de um outro padrão de conexões mentais? Ou ela ocorreu por meio de um processo evolucionário gradual, no qual estruturas cerebrais, já presentes até certo ponto em outros animais, foram colocadas em prática em um uso mais complexo?Um estudo recente publicado na Nature Neuroscience rendeu novas informações, ajudando a desvendar o que pode constituir o “elo perdido” entre o cérebro de humanos e de outros animais: evidências de que uma região cerebral, especializada no processamento da voz tem uma contraparte no cérebro do macaco reso. O neurocientista Christopher I. Petkov, do Instituto Max Planck para Cibernética Biológica, em Tübingen, na Alemanha, coordenou um grupo de pesquisadores que usou exames de ressonância magnética funcional para medir a atividade cerebral de macacos acordados que ouviam diferentes categorias de sons, incluindo vocalizações de animais de sua espécie. Durante o estudo, os pesquisadores encontraram evidências de uma “área da voz” no córtex auditivo desses espécimes: uma região discreta do lóbulo temporal anterior na qual a atividade era bem maior para as vocalizações dos macacos do que para outras categorias sonoras. Essa região foi observada em vários indivíduos, mesmo sob o efeito de anestesia geral. De forma surpreendente, a área teve redução de atividade induzida pela repetição em resposta a diferentes chamados, vindos do mesmo animal. Segundo os cientistas, parece ter havido uma adaptação neuronal à situação. Tal descoberta sugere que essa área processa informação sobre a identidade do falante, fenômeno também relativo ao processo da fala humana. Talvez a implicação mais notável dessas descobertas seja a de que a região vocal anteriormente identificada no cérebro das pessoas não seja algo único do homem e tenha contrapartida no cérebro de outros primatas. A novidade significa que essa área teve uma longa história evolutiva e, provavelmente, já estava presente no ancestral comum a macacos e humanos há 20 milhões de anos. É sabido que os talentos cognitivos que fundamentam a percepção da voz, tal como o reconhecimento do falante, são compartilhados com muitos outros animais, mas as descobertas de Petkov e seus colegas fornecem a localização mais precisa dessas habilidades no cérebro. Ironicamente, a maior parte da pesquisa sobre a base evolucionária da linguagem se concentrou, até o momento, em uma única função – a percepção da fala – que está presente apenas nos seres humanos e, portanto, é difícil, se não impossível, identificar os precursores evolucionários. As descobertas atuais indicam outra estratégia possivelmente mais recompensadora: talvez examinar o que temos em comum com outros animais – isto é, um rico substrato cerebral para processar e extrair informações relacionadas ao falante –nos permitirá entender processo da fala. Realmente, as descobertas de Petkov indicam que quando nossos ancestrais começaram a falar, já estavam equipados com uma maquinaria neural sofisticada, especializada na ação vocal. Uma característica essencial dos resultados do estudo é que a atividade pertinente à voz era mais forte no hemisfério direito do cérebro. A adaptação neural específica da identidade foi observada apenas no hemisfério direito do cérebro do símio, exatamente como nos estudos de humanos. Isso mostra que o hemisfério direito pode ter representado um papel importante na forma como a fala surgiu em nossos ancestrais, e que uma resposta para o quebra-cabeça da evolução vocal pode não residir apenas no hemisfério esquerdo. Há muito trabalho a ser feito antes de obter se uma compreensão completa do papel funcional da área da voz em macacos e em seres humanos. Várias hipóteses permanecem não testadas. A região vocal representa preferência estrutural por uma composição acústica específica de vocalizações da própria espécie de um indivíduo? Ou é apenas um campo especializado em detectar características vocais em geral? Outra vertente é que a área da voz é, na verdade, um esqueleto “social” ajustado para as vocalizações, porque são pistas para a interação em sociedade e não porque elas compartilham uma estrutura acústica específica? Em conclusão, as novas propostas oferecem um excitante substrato comum para cognição de alto nível ou complexa que pode ser estudada em paralelo entre seres humanos e macacos. Agora que a localização da região vocal no cérebro do primata foi estabelecida, pesquisadores buscarão obter informações suplementares fundamentais em um futuro próximo, explorando a área da voz do macaco com o uso de técnicas eletrofisiológicas mais convencionais, tais como gravar diretamente dos neurônios. Esse trabalho abre caminhos para estudos comparativos de imagiologia neural, nos quais humanos e outros animais realizam tarefas semelhantes, usando metodologias parecidas. Pascal Belin

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