5 de mai de 2009

Atenção!

O monge budista Thich Nhat Hahn, apesar do nome difícil (pronuncia-se Tic Not Run), é conhecido mundialmente pelos ensinamentos simples, como focar a atenção no presente. Tido como o mestre do “aqui e agora”, escreveu mais de 100 livros, entre eles Paz a Cada Passo, que fala em trazer para a vida diária a meditação, praticando a plena consciência ao caminhar, ao atender o telefone, ao lavar os pratos ou mesmo enquanto esperamos o farol abrir. Na década de 60, o pequeno monge começou a viajar o mundo apresentando a trágica situação do Vietnã durante a guerra. Foi quando conheceu Martin Luther King, que ficou profundamente tocado pelos argumentos de não-violência do vietnamita e acabou indicando-o ao Prêmio Nobel da Paz em 1967 (que não foi atribuído a ninguém). O monge é autor de livros memoráveis, como Velho Caminho, Nuvens Brancas, recém-lançado no Brasil, que será o roteiro de um filme sobre a vida do Buda. Quando não está no monastério em que vive na França, segue viajando para transmitir seus conhecimentos. Em agosto deste ano, eu (que sou professor de meditação) e outros cinco brasileiros nos juntamos a mais 700 pessoas de todo o mundo para seguir os passos do monge durante uma semana, em um retiro ao norte da Inglaterra. Todos temos sementes positivas e negativas. Mas podemos escolher qual delas alimentar Saí de Londres de trem e, em duas horas e meia, chegava a Nottingham, cidade na Inglaterra que originou a lenda de Robin Hood. Logo me instalei na universidade, com muito conforto. Na primeira noite, recebemos as instruções gerais, uma apresentação cordial dos procedimentos e horários. Recomendação: dormir cedo porque a meditação matinal começa às 6h30. Sim, a disciplina é importante para treinar a mente. Por isso, o retiro: não tem como escapar, logo cedo todas as pessoas estavam lá para a meditação silenciosa. Em alguns momentos, frases generosas ajudavam a nos concentrar ainda mais na respiração (por exemplo, inspirando eu chego em casa, expirando eu sorrio). Então, chega a hora do café-da-manhã, que, assim como todas as refeições, é feito em silêncio absoluto para nos concentrarmos apenas no ato de comer, percebendo a importância de cada gesto, o gosto, o cheiro, a textura da comida. Costumamos fazer as refeições com amigos, familiares, colegas de trabalho. Normalmente, conversamos durante a refeição, a cabeça viaja em histórias ou, então, engolimos a comida rapidamente para voltar ao trabalho. Aqui, já começa o treino, ao manter a mente concentrada no momento, na refeição feita com calma. Às 10 horas, todas as pessoas se reuniam no centro de conferências da universidade para a fala suave de Thay, como o monge é conhecido por seus alunos, que culminava numa Meditação Caminhando. Uma das características peculiares do retiro é que as famílias são estimuladas a trazer suas crianças. Thay pedia que todos estivessem juntos na primeira meia hora de sua fala, que sempre se concentrava em algo mais prático e tranquilo. Depois os jovens saíam para fazer outras atividades e ele seguia com o assunto de forma mais aprofundada. De tarde, dividíamos as impressões com um grupo menor. Em seguida, jantávamos e encerrávamos o dia com mais meditação silenciosa. Essa era a rotina, que nos mostrava de forma gentil a importância do silêncio, para estarmos mais atentos aos nossos gestos, e da fala, como forma de aprofundar esse entendimento. Meditação andando Após sua fala, Thay se dirigia à frente do centro de conferências e todos iam se postando atrás, formando um conjunto que caminhava em silêncio pelas trilhas entre os jardins e gramados da universidade. Em ritmo tranquilo, nem lento nem acelerado, Thay nos conduzia em silêncio. Em determinado momento, ele parava diante de alguma paisagem ou local agradável, sentava em silêncio e todos sentavam a sua volta, muitos emocionados. Muitos no retiro estavam lá para conhecer um famoso escritor e fazer um retiro budista. Mas foram surpreendidos por um retiro terapêutico, em que éramos levados a analisar profundamente a natureza de nossas emoções, nossas relações com parceiros, familiares, filhos e profissionais. Um exemplo disso é o reconhecimento de que temos sementes positivas e negativas. As sementes positivas são as emoções de amor, compaixão e generosidade que possuímos. Porém também temos as tais sementes negativas de raiva, ódio e medo. Então, estimular as sementes positivas em nós, e nos outros, gera o efeito dominó de florescimento de qualidades. E quanto às sementes negativas? O que Thich ensina é que não precisamos negálas, mas aprender a reconhecer e identificar seus efeitos prejudiciais. Com o tempo e a prática, reduzimos seu impacto nocivo. Ele contou a história de uma criança, maltratada por seu pai, que possuía uma forte tendência agressiva em relação à irmã menor. Com a plena atenção, a criança lentamente foi trabalhando seus impulsos de violência e transformando- os em gestos de amorosidade para com a irmã. Eterno recomeço Muitos dos ensinamentos de Thay eram reforçados pelas apresentações dos monges à noite. Uma das mais significativas foi a palestra da irmã Anabel, sempre sorridente, e da irmã Chan Khong, sobre como recomeçar relações. Isso mesmo. Recomeçar uma relação sem a carga e o peso de questões mal resolvidas. Eram pequenas dicas de como devemos reconhecer que estamos chateados com o outro e comunicar as dificuldades que surgem de determinado comportamento (sementes negativas), pedindo a compreensão da outra parte. Do outro lado, a pessoa é estimulada a ouvir, sem dar respostas imediatas, validando a posição apresentada, e muitas vezes a retornar ao assunto posteriormente, depois de sensata reflexão e meditação, pare recomeçar a conversa baseado num acordo sobre o assunto. Pedir desculpas é um ponto importante desse processo. Para os casais, isso é sugerido fazer constantemente, antes que pequenos problemas se tornem grandes distâncias. Mas a técnica também deve ser feita em outras relações. Se você perceber que algo está estranho, pode perguntar ao outro: “Em algum momento eu o magoei?” Chan Khong contou que, certo dia, uma criança pequena respondeu ao pai: “Sim, de manhã eu te mostrei um desenho. Você nem olhou, pois só se preocupava em falar ao celular”. Essas pequenas técnicas, aplicadas com frequência, tendem a manter muito próximo e de forma compreensiva o caminhar das relações. Já no fim do retiro, participamos de uma sessão de perguntas e respostas com Thay. Por que estamos aqui? “A melhor pergunta seria como nós aproveitaremos melhor o fato de estarmos aqui, e não o porquê.” Como posso fazer para me defender dos problemas? “Com compaixão em seu coração, você se sentirá seguro.” Então foi a vez da minha pergunta: “Na sua opinião, qual a melhor forma de preparar o corpo para a prática espiritual?” “Sua pergunta pressupõe que exista uma separação entre a prática espiritual e o corpo. Minha resposta é: apenas pratique, pratique e você verá que não existe essa divisão.” “Meu marido morreu e minha filha não conheceu o pai. O que fazer com essa ausência de memória? “Existem crianças com os pais vivos, mas sem conexão. Mas o pai pode estar sempre aí. Quando eu tinha febre, minha mãe colocava sua mão em minha testa e eu me sentia aliviado quase imediatamente. Esta mão (ele mostra sua mão) é a mão da minha mãe, é a continuação da mão de minha mãe. Se eu a coloco em minha testa, posso sentir minha mãe. Você pode fazer o mesmo: ela é a continuação do próprio pai, não estão separados. Se ela quiser ver a mão de seu pai, basta olhar para a própria mão e entrar em contato.” Antes de nos despedirmos, Thay conduziu uma belíssima cerimônia. Deixei a Inglaterra com vontade de semear sementes positivas para cultivar um planeta mais humano. Vitor Caruso

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