3 de dez de 2009

Minha experiência de análise com Fairbairn e Winnicott. Quão completo é o resultado atingido por uma terapia psicanalítica?

Não me parece útil tentar uma resposta puramente teórica à pergunta formulada no subtítulo. A teoria não me parece ser aqui a preocupação maior. Ela é uma serviçal útil, mas má mestra, podendo produzir defensores ortodoxos de todo tipo de fé. Deveríamos sempre ir esclarecendo a teoria e procurar modos de melhorá-la à luz da prática clínica terapêutica. A prática terapêutica é o cerne da questão. Afinal, os bons terapeutas vêm ao mundo sem formação, e eles fazem dela o melhor uso possível.

Talvez a pergunta “Quão completo é o resultado que a terapia psicanalítica pode produzir?” levante a questão: “Quão completo foi o resultado que a nossa análise de formação produziu?” Os analistas são aconselhados a manter-se abertos a aperfeiçoamentos pós-analíticos, de modo que não devemos esperar, de “uma análise”, que ela faça um trabalho total e definitivo.

Precisamos conhecer os desenvolvimentos pós-analíticos se pretendemos avaliar os resultados efetivos da análise inicial. Não podemos lidar com essa questão baseados apenas nos depoimentos de nossos pacientes. Estes serão incompletos com relação à primeira análise e inexistentes subseqüentemente. Como essa questão, no meu caso, tinha uma inesperada e urgente relevância, fui compelido a atracar-me com ela; arriscar-me-ei, então, a contar minha própria análise com Fairbairn e Winnicott, e seus efeitos posteriores: especialmente por ser este o único meio que tenho de apresentar um quadro bem realista do que considero ser a relação entre as respectivas contribuições desses dois brilhantes analistas e do quanto lhes devo. 


 A questão “Quão completo pode ser um resultado?” tinha uma importância imperiosa para mim, devido à sua ligação com um fator inusual, o de uma amnésia total quanto a um grave trauma ocorrido quando eu tinha três anos e meio, relativo à morte de um irmão mais novo. Duas análises fracassaram na tentativa de romper essa amnésia, que, no entanto, foi inesperadamente resolvida após o término de ambas, mas somente, sem dúvida, em razão do que elas conseguiram em termos do “abrandamento” da repressão principal.
Espero que meu estudo suscite um interesse ao mesmo tempo teórico e humano. A longa busca de uma solução para esse problema tem sido um interesse demasiadamente introvertido para poder ser bem acolhido, mas eu não tinha escolha: não podendo ignorá-lo, fiz dele uma vocação que me permitiria ajudar os outros. Tanto Fairbairn como Winnicott pensavam, ambos, que, se não fosse por esse trauma, eu talvez não tivesse me tornado verdadeiramente um psicoterapeuta.

Fairbairn disse-me um dia: “Eu não posso imaginar o que levaria um só de nós a tornar-se psicoterapeuta se não tivéssemos tido nossos próprios problemas”. Ele não era de um otimismo transbordante e, numa outra ocasião, disse-me: “Uma vez fixado o esquema fundamental da personalidade na primeira infância, ele não poderá se modificar. Uma nova experiência pode drenar a emoção dos antigos padrões, mas, contudo, nos antigos leitos secos dos rios, a água pode sempre de novo voltar a correr”.
A ninguém se pode dar uma nova história. Em outra ocasião, ele disse: “Podemos nos fazer analisar durante toda uma vida e isso não levar a parte alguma. 


É a relação pessoal que é terapêutica. A ciência não tem valores, a não ser os científicos, ou seja, os valores esquizóides do pesquisador que está fora da vida e que observa. A ciência é puramente instrumental, útil por um tempo, mas é preciso, em seguida, voltar a viver”. Tal era a sua concepção de “analista espelho”, observador que não estabelece relação, mas se contenta em interpretar.

Ele sustentava que a interpretação psicanalítica não era terapêutica nela mesma, mas apenas na medida em que exprimia uma relação pessoal de genuína compreensão. Pessoalmente, penso que a ciência não é necessariamente esquizóide, mas que é, na realidade, motivada pela prática; ela se torna freqüentemente esquizóide porque oferece um refúgio evidente aos intelectuais esquizóides. Não há lugar para isso numa psicoterapia, qualquer que ela seja. Eu sustentava já a visão de que a terapia psicanalítica não é puramente teórica, mas um relacionamento pessoal de verdadeira compreensão, e tornei-a pública no meu primeiro livro, antes de ter ouvido falar de Fairbairn. Depois de ler seus artigos, em 1949, fui encontrá-lo, pois compartilhávamos filosoficamente o mesmo terreno e nenhuma discordância intelectual iria interferir na análise. Mas a capacidade de estabelecer uma relação não depende unicamente de nossa teoria.

Não é todo mundo que tem a mesma facilidade para estabelecer relações pessoais e cada um de nós pode estabelecer relações mais facilmente com certas pessoas do que com outras. O fator imprevisível do “encaixe natural” entra aqui. Contudo, apesar de sua convicção, Fairbairn não tinha a mesma capacidade para o “relacionamento pessoal” natural e espontâneo que Winnicott. Comigo, foi mais “intérprete técnico” do que pensava ser ou do que eu esperava, mas isso requer um esclarecimento.

Quando vim encontrá-lo na década de 1950, seu estado de saúde se degradava lentamente; sua potência criativa havia estado em seu zênite na década de 1940. Ele contou-me como, nas décadas de 1930 e 40, havia tratado com sucesso um certo número de esquizofrênicos e de pacientes regredidos. Era isso que havia por trás de sua “revisão teórica” da década de 1940. Sentia haver cometido um erro ao publicar sua teoria antes da evidência clínica. Ele trabalhou como psiquiatra na University Psychological Clinic for Children, de 1927 a 1935. Não se pode permanecer impessoal com as crianças. Ele perguntou, um dia, a uma menina em quem a mãe batia cruelmente: “Você quer que eu encontre uma nova mamãe para você, uma mamãe gentil?”

A criança lhe disse: “Não. Eu quero a minha mamãe”, mostrando assim a intensidade do elo libidinal com o mau objeto. O diabo que se conhece é melhor do que aquele que não se conhece, e melhor ainda do que nenhum diabo. A partir de sua experiência com crianças psicóticas regredidas, ele edificou sua revisão teórica, baseada muito mais na qualidade das relações parento-infantis do que nos estágios de crescimento biológico; bem mais uma “teoria da personalidade” do que uma “teoria impessoal de controle da energia”.

Ele resumiu esse ponto de vista dizendo que “a causa da perturbação provém do fato de os pais falharem, de alguma forma, em transmitir à criança que ela é amada por si mesma, como uma pessoa de próprio direito”. Na década de 1950, quando já estava em análise, ele recusou sabiamente assumir o pesado encargo de pacientes muito regredidos. Fiquei surpreendido ao descobrir que, progressivamente, ele ia se tornando um “analista clássico” com uma “técnica interpretativa”, enquanto eu sentia que aquilo de que eu necessitava era regredir ao nível desse grave traumatismo infantil. 


Stephen Morse (1972), em seu estudo sobre a “estrutura” nos escritos de Winnicott e de Balint, concluiu dizendo que eles haviam descoberto dados novos, mas que não haviam desenvolvido uma teoria estrutural de modo a explicá-los, o que, contudo, poderia ter sido feito recorrendo ao que ele denomina a “metáfora Fairbairn-Guntrip”. Como tive o privilégio de fazer análise com esse dois extraordinários analistas, sinto que a posição é um tanto mais complexa do que isso.

A relação entre Fairbairn e Winnicott é teoricamente importante e, ao mesmo tempo, muito curiosa. Superficialmente, eles eram bastante diferentes entre si no tipo de mente e no método de trabalho, o que os impediu de detectar até que ponto eram, no final das contas, próximos um do outro. Ambos tinham raízes profundas na teoria e na terapia freudianas clássicas, e ambos a ultrapassaram, cada qual à sua maneira.

No plano intelectual, Fairbairn via isso mais claramente do que Winnicott; no entanto, na década de 1950, era ele que se mostrava, na prática clínica, o mais ortodoxo dos dois. Tive mais de mil sessões com Fairbairn na década de 1950 e um pouco mais de 150, com Winnicott, na década de 1960. Para meu próprio benefício, guardei notas detalhadas de cada sessão, assim como toda a correspondência trocada. Winnicott disse-me : “Eu jamais trabalhei com alguém que pudesse me dizer com tal exatidão o que eu disse da última vez”. O artigo de Morse incitou-me , no ano passado, a retomar essas notas e fiquei surpreendido ao constatar a luz que elas lançavam sobre as razões pelas quais meus dois analistas haviam falhado em abolir minha amnésia relativa ao trauma dos três anos e meio.

No entanto, cada um, à sua maneira, havia preparado o caminho que conduziria à resolução pós-psicanalítica desse problema. Faltava-me, pois, reapresentar a questão: “O que é o processo psicanalítico?”. De maneira geral, constatei que Fairbairn foi se tornando mais ortodoxo na prática do que na teoria, enquanto que Winnicott era mais revolucionário na prática do que na teoria. Ambos eram opostos e complementares. Sutherland, na nota necrológica consagrada a Fairbairn (1965), escreveu: Fairbairn tinha algo de um pouco solene – marcadamente aristocrático – mas, ao falar com ele, eu constatava que não era nem solene nem distante. 


A arte e a religião eram, para ele, expressões profundas das necessidades do homem; ele as respeitava profundamente, mas seus interesses revelavam um conservadorismo bastante inabitual. Eu o achava formal nas sessões, o analista de interpretações intelectualmente precisas, mas, depois das sessões, discutíamos teoria e ele se soltava; então, ao conversarmos face a face, eu encontrava um Fairbairn humano. Na verdade, após as sessões, ele era o meu pai bom e compreensivo e, durante as sessões, na transferência, a mãe má e dominadora que me impunha interpretações exatas. Após seu período de criatividade experimental nos anos 1940, sinto que seu conservadorismo lentamente começou a invadir seu trabalho nos anos de 1950.

O choque da morte repentina de sua esposa, em 1952, criou problemas domésticos evidentes. No início dos anos 1950, ele teve o primeiro ataque de gripe viral, que foi se repetindo de modo cada vez mais virulento com a o avanço da década. Após a morte de sua mulher, durante dois anos, ele se debruçou sobre seu belíssimo artigo “Observações sobre a natureza dos estados histéricos” (1954), que concluiu o seu pensamento original. Ele esclareceu sua visão sobre “a psicanálise e a ciência” em dois artigos (1952b, 1955). Mas houve uma mudança sutil no artigo que se seguiu, “Considerações a partir do caso Schreber” (1956).

Aqui, ele recuou de sua psicologia do “ego e das relações objetais”, explicando tudo a partir do medo e das excitações libidinais suscitados pela “cena primária”. Finalmente, em seu último trabalho, “Sobre a natureza e os objetivos da psicanálise” (1958), ele põe toda a ênfase no “sistema interno fechado” de uma ampla análise edipiana, não em termos de instinto, mas de relações internalizadas, libidinizadas e antilibidinizadas, com o objeto mau. Eu o procurei para romper a amnésia do trauma relativo à morte de meu irmão e para descobrir o que havia atrás disso, no período infantil. 


Era lá, eu sentia, que se encontrava a causa das minhas vagas experiências formativas de isolamento esquizóide e irrealidade, as quais, eu bem sabia, tinham a ver com as minhas primeiras relações com minha mãe, ainda que eu só soubesse disso através do que ela me passara. Depois da morte de meu irmão Percy, eu iniciei uma batalha ativa com minha mãe para forçá-la a “relacionar-se” e depois desisti e afastei-me dela. Por conveniência, denominarei essa época de período de más relações objetais edípicas internalizadas: elas preenchiam meus sonhos, mas, freqüentemente, experiências repentinas, claramente esquizóides, irrompiam neles, experiências que Fairbairn, sem hesitar, interpretava como “retraimentos” no sentido de “fugas” das más relações objetais internalizadas.

Ele, repetidas vezes, remetia-me aos conflitos triangulares libidinais e antilibidinais, intervindo em meu “mundo interior”, às “clivagens de objeto” kleinianas e às “clivagens do ego” fairbairnianas, no sentido de excitações libidinais edipianas. Em 1956, escrevi a ele pedindo-lhe que me dissesse exatamente o que pensava do complexo de Édipo, e ele me respondeu: “O complexo de Édipo é capital para a terapia, mas não para a teoria”. Repliquei-lhe que não podia aceitar isso: para mim, a teoria era a teoria da terapia, e o que é verdadeiro para uma tem que ser verdadeiro para ambas.


Conscientemente, desenvolveu-se em mim uma dupla resistência com respeito a ele, em parte, por senti-lo como a minha mãe má, impondo-me seus pontos de vista e, em parte por eu discordar abertamente dele em pontos essenciais. Comecei a insistir que meu verdadeiro problema residia não nas más relações que datavam do período que havia seguido a morte de Percy, mas na falha básica da mãe em relacionar-se, em qualquer sentido, desde o início.

Falei-lhe de minha impressão de que a análise edipiana fazia-me perder tempo, sem sair do lugar, levando-me a usar relações ruins como algo melhor do que relação alguma, mantendo-as operativas em meu mundo interno como uma defesa contra o problema esquizóide mais profundo. Fairbairn viu aí um traço de caráter defensivo de “retraimento” (1952a, cap. I). Eu próprio sentia isso como um problema legítimo e não apenas como uma defesa contra seu sistema fechado “mundo interno de más relações objetais”. 


Mas minha análise edipiana com Fairbairn não foi uma perda de tempo. As defesas tinham que ser analisadas e isso fez-me ver que eu havia de fato reprimido o trauma da morte de Percy e tudo o que estava por trás disto, encobrindo-o com uma complexa experiência de luta constante na relação com minha mãe como objeto mau, relações que, por sua vez, eu tive que reprimir. Era isso que se encontrava na base da torrente de sonhos e da produção intermitente de sintomas de conversão.

Por muito tempo, Fairbairn insistiu que isso era o “núcleo real” de minha psicopatologia. Certamente, ele estava errado, mas era preciso analisar radicalmente para abrir caminho até as camadas mais profundas. Isso aconteceu. Paulatinamente, fenômenos esquizóides regressivos e negativos fizeram irrupção no material que eu levava para ele e Fairbairn acabou, por fim, por aceitar, em teoria, aquilo que não tinha mais saúde para lidar na prática clínica. 


Ele, generosamente, aceitou meu conceito de “ego regredido” que, cindido do “ego libidinal”, desistia da luta sem esperança para obter uma resposta de minha mãe. Quando publiquei essa idéia, Winnicott escreveu-me para perguntar: “O seu ego regredido é retraído ou reprimido?” Respondi-lhe: “Ambos, ao mesmo tempo. Primeiro retraído, e depois reprimido.” Fairbairn escreveu-me para dizer: Esta idéia é sua e não minha; é original e explica o que eu jamais fui capaz de levar em conta em minha teoria: a regressão. A importância que você atribuiu à fraqueza do ego dá melhores resultados terapêuticos do que a interpretação em termos de tensões libidinais e antilibidinais. 


Quando, em 1960, publiquei “Ego-weakness, the hard core of the problem of psychotherapy”, Fairbairn escreveu-me: “Se eu pudesse escrever agora , seria sobre isso”. Eu sabia que minha teoria estava amplamente correta, já que conceitualizava aquilo que eu ainda não conseguira que fosse analisado. Ele aceitou isso, penso, com grande coragem. Completarei meu relato sobre Fairbairn como o analista e como homem ilustrando a diferença de “tipo humano” entre ele e Winnicott, enquanto fator que joga um papel primordial em terapia. A disposição do consultório cria, por si mesma, uma atmosfera que tem significado. Fairbairn vivia no campo e recebia seus pacientes na antiga casa da famíla Fairbairn, em Edimburg. Eu entrava no vasto salão que servia de sala de espera, mobiliada com lindas antiguidades de grande valor, e seguia até o escritório, que era usado como consultório, também enorme, com um antiga estante que ocupava boa parte de uma das paredes.

Fairbairn sentava-se atrás de uma grande escrivaninha plana, como um estadista, pensava eu, numa poltrona de espaldar alto, forrada de veludo. O divã do paciente tinha a cabeceira voltada para a frente da escrivaninha. Às vezes, eu pensava que ele me alcançaria por cima da escrivaninha e me bateria na cabeça. Achava isso estranho para um analista que não acreditava na teoria do “analista espelho”. Não demorou muito para que eu me desse conta de que fora eu que escolhera aquela posição no divã e que havia, ao lado da escrivaninha, um pequeno sofá onde eu poderia sentar-me se assim desejasse, o que, aliás, acabei por fazer.

Que essa situação impositiva tinha para mim um significado transferencial inconsciente, tornou-se claro num sonho, já no primeiro mês. Devo explicar que meu pai havia sido um pregador da igreja metodista local, de brilhante eloqüência como orador público e que, a partir de 1885, ele construiu e liderou um centro evangélico que se tornou em seguida uma igreja, que existe ainda hoje. Em todos os meus anos de sonhador, ele jamais me apareceu de outro modo que não fosse o de uma figura tolerante no que diz respeito à minha mãe, visto que, na realidade, ela jamais perdia a paciência na sua presença. 


Eu queria Fairbairn, na transferência, como o pai protetor, ajudando-me a enfrentar minha mãe agressiva, mas, inconscientemente, eu o sentia de outro modo, pois sonhava que: [...] estava no Centro Evangélico (Mission Hall) de meu pai. Fairbairn estava sobre o palanque, mas tinha o rosto duro de minha mãe. Eu estava deitado, passivamente, sobre o divã, no chão da sala, a cabeceira do divã contra o palanque. Ele desce e me diz: “Você sabe que a porta está aberta?” Eu digo: “Não fui eu que a deixei aberta”; eu estava muito satisfeito de tê-lo enfrentado. Ele retornou então para o palanque. Tratava-se de uma versão mal disfarçada da disposição do consultório de Fairbairn, e mostrava que eu queria que ele fosse para mim um pai protetor, mas esse desejo estava dominado por uma transferência claramente negativa em relação à minha mãe dominadora e severa. Por um bom período, foi esse o papel transferencial de Fairbairn “nas sessões”. 


Ele interpretou isso como a má relação “de tipo gangorra”, entre pais e filhos, com “um no alto e outro embaixo”. Isso só pode ser alterado virando as mesas. Achei isso muito esclarecedor, contendo todos os ingredientes das necessidades não atendidas, da fúria sufocada, da espontaneidade inibida. Era a relação transferencial dominante nas sessões. Após as sessões, Fairbairn se descontraía em nossas discussões sobre a teoria ou a terapia, o bom pai humano. Essa transferência negativa durante as sessões era, eu sentia, caucionada por suas interpretações intelectualmente precisas. 


Uma vez, ele interpretou: “Alguma coisa impede o processo ativo no curso do seu desenvolvimento”. Eu teria dito: “Sua mãe esmagou seu si-mesmo naturalmente ativo”. Mas Fairbairn analisou acuradamente a luta emocional para forçar minha mãe a cuidar de mim após a morte de Percy e mostrou-me como eu havia internalizado essa luta. Isso tinha que ser feito primeiro, mas ele insistia em que esse era o problema edípico central e não pôde aceitar, até ser tarde demais, que isso mascarava um problema bem mais sério e profundo. Ulteriormente, Winnicott constatou por duas vezes: “Nada indica que você tenha tido jamais um complexo de Édipo”. Meu padrão familiar não era edipiano. Era sempre a mesma coisa nos sonhos, como ilustra um dos mais impressionantes: Eu estava sendo atacado e estava sentado num quarto, discutindo isso com meu pai. Era minha mãe que me atacava e eu dizia a meu pai: “Você sabe, eu jamais cederei a ela. Não importa o que aconteça, eu jamais me renderei”. Ele diz: “Sim, sei disso. Eu vou e vou dizer a ela”. 


E ele foi e disse a ela: “Você fará melhor em desistir, pois ele jamais se submeterá”, e ela de fato desistiu. A persistência com que Fairbairn prosseguiu com suas interpretações edipianas, que eu não podia aceitar como definitivas, lançaram-no no papel da mãe dominadora. Ouvi dizer que Winnicott e Hoffer pensavam que minha adesão à teoria de Fairbairn era devida ao fato de esta não permitir a ele analisar a minha agressividade na transferência. Mas eles não me viram derrubar seu cinzeiro em forma de pedestal, nem chutar, “acidentalmente”, é certo, o peso de vidro da porta, e sabemos o que isso significa nas sessões, como ele não tardou a apontar. 


Eles também não me viram, certa vez, espalhar no chão os livros da imensa biblioteca, o que era um ato simbólico, “ato de arrancar uma resposta da mãe”, repondo-os cuidadosamente no lugar, para fazer uma reparação à la Melanie Klein. Mas, após as sessões, nós podíamos discutir e podia encontrar o ser humano caloroso por trás do analista de interpretações precisas. Posso esclarecer melhor tudo isso por uma comparação com Winnicott. O consultório deste era simples, repousante nas cores e no mobiliário, sem ostentação, cuidadosamente planejado, como a sra. Winnicott contou-me depois, por ambos, para que o paciente se sentisse à vontade. 


Eu batia à porta e entrava numa sala. Winnicott chegava com uma xícara de chá na mão, e um animado “Hallo”, indo sentar-se numa pequena cadeira de madeira, perto do divã. Eu me sentava no divã, de lado, ou me deitava, de acordo com a minha disposição, e mudava livremente de posição, segundo o que estava sentindo ou o que estava dizendo. No final, quando eu saía, ele sempre me estendia a mão, amigavelmente. Foi somente quando estava deixando Fairbairn, na derradeira sessão, que me dei conta repentinamente de que, nenhuma vez, durante todo o longo período de análise, havíamos trocado um aperto de mãos e que ele iria me deixar partir sem fazer esse gesto amigável. Eu lhe estendi a mão, que ele imediatamente tomou, e eu vi lágrimas descerem pelo seu rosto. Vi, então, o coração caloroso desse homem de mente refinada e natureza tímida. Fairbairn convidou-me, e à minha mulher, para tomar chá em sua casa, no dia em que fôssemos visitar minha avó em Pertshire. 


Para dar sentido ao término de minha análise com Fairbairn, devo fazer um breve resumo de minha história familiar. Minha mãe era já uma “mãezinha”, sobrecarregada, antes de casar-se, a filha mais velha de onze crianças e viu morrer quatro de seus irmãos. Sua mãe era uma beldade desmiolada, que deixou tudo a cargo de minha mãe, que estava ainda na escola. Aos doze anos, ela fugiu de casa, de tão infeliz, mas trouxeram-na de volta. Sua melhor característica era um forte sentido de dever e de responsabilidade para com a mãe viúva e os três irmãos mais novos, o que impressionou meu pai quando a família filiou-se ao seu Mission Hall.

Quando eles se casaram, em 1898, meu pai ignorava que ela estava farta de cuidar de bebês e que não queria mais nenhum. Na minha adolescência, ocasionalmente, ela fazia-me confidências e contava-me episódios marcantes da vida familiar, inclusive o fato de só ter me amamentado por acreditar que isso impediria uma nova gravidez; ela recusou-se a amamentar Percy, que morreu, após o que ela repeliu qualquer outra intimidade. Meu pai, filho caçula de uma família anglicana conservadora e do partido conservador, era politicamente de esquerda e, na religião, um rebelde não conformista, que foi também antiimperialista e esteve perto de perder sua posição na City, ao recusar-se a assinar a petição de sua firma, a favor da guerra de Boers.

Essa ansiedade passageira deu à minha mãe a chance de desmamar-me repentinamente e de iniciar um negócio próprio. Mudamos quando eu tinha um ano. Ela escolheu um local ruim para o negócio e perdeu dinheiro, seguidamente, por sete anos, embora tudo tenha sido mais do que recuperado pela mudança que se seguiu. Aqueles sete primeiros anos de minha vida, seis dos quais foram passados na primeira loja, foram o período mais conturbado de minha existência. Fui deixado aos cuidados de uma tia inválida, que vivia conosco. Percy nasceu quando eu tinha dois anos e morreu quando eu estava com três anos e meio.

Minha mãe contou-me que meu pai lhe havia dito que ele teria vivido se ela o tivesse amamentado, e ela ficou furiosa. Foi uma época muito conturbada. Em sua velhice, vivendo conosco, ela contou-me ainda outras coisas reveladoras: “Eu não deveria jamais ter-me casado, nem ter tido crianças. A natureza não me fez para ser esposa nem mãe, mas para ser mulher de negócios” e “Penso que jamais compreendi as crianças. Elas me são totalmente indiferentes”. Contou-me ainda que, aos três anos e meio, entrei no quarto e vi Percy deitado nu e morto em seu colo. Corri e agarrei-o, e disse: “Não o deixe ir. Você nunca o terá de volta”. 


Ela mandou-me para fora do quarto e eu adoeci misteriosamente e pensaram que eu estivesse morrendo. Seu médico disse: “Ele está morrendo de tristeza pelo irmão. Se o seu senso materno não pode salvá-lo, eu também não posso”; então, ela levou-me para uma tia materna que tinha uma família, e lá eu me recuperei. Tanto Fairbairn como Winnicott pensavam que eu teria morrido se ela não tivesse me afastado de si.
Toda a memória dessa época foi totalmente reprimida. A amnésia manteve-se durante todo o resto de minha vida, de minhas duas análises, até eu completar setenta anos, três anos atrás. Mas tudo permaneceu vivo em mim, sendo deflagrado sem ser reconhecido, em situações análogas, muito espaçadas. 


Aos 26 anos, na Universidade, fiz uma boa amizade com um colega que se tornou uma figura fraterna para mim. Quando ele partiu e eu fui de férias, para casa, para minha mãe, adoeci de uma exaustão misteriosa, a qual desapareceu imediatamente assim que deixei nossa casa e retornei à faculdade. Eu não tinha idéia de que esta era equivalente da família de minha tia.
Em 1938, com 37 anos, tornei-me pastor de uma igreja altamente organizada, em Leeds, com uma assembléia de mil pessoas, nos domingos à tarde, e uma congregação noturna de oitocentas pessoas, e atividades educativas, sociais e recreativas bem organizadas. Isso era grande demais para um único pastor e eu tive um assistente que se tornou um outro substituto de Percy. Tão logo as nuvens da guerra começaram a se aproximar, ele partiu. De novo, adoeci repentinamente da mesma misteriosa exaustão.

Isso foi atribuído ao excesso de trabalho, mas, nessa época, eu já tinha conhecimento da psicanálise; havia estudado com Flugel a teoria clássica, conhecia a literatura básica e havia começado uma tese sob a orientação do professor John Macmurray, buscando traduzir a psicobiologia freudiana ou, sobretudo, os dados clínicos, em termos da filosofia das “relações pessoais”, e tinha estudado meus próprios sonhos por dois anos. Logo, estava atento quando esta doença trouxe um grande sonho. Desci até dentro de uma tumba e vi um homem enterrado vivo. Ele tentava sair, mas eu o ameaçava com a doença, trancava-o e saía rapidamente. Na manhã seguinte, eu estava melhor. Pela primeira vez, reconheci o ressurgimento da doença que se seguiu à morte de Percy e constatei que vivia, permanentemente, sobre o topo da sua repressão. Soube, então, que não descansaria até que o problema se resolvesse. 


Fui convocado para a psicoterapia emergencial, durante a guerra, pelo professor de Medicina de Leeds e designado para uma cadeira na Escola de Medicina e continuei a estudar meus próprios sonhos. Recentemente, reli minhas notas e descobri que havia feito apenas interpretações edípicas forçadas, de manual.

O mais importante é que ficaram ressaltados três tipos dominantes de sonho:
1. uma mulher selvagem que me atacava;
2. uma figura paterna, tranqüila, forte, amigável, que me apoiava; e
3. um sonho misterioso de ameaça de morte, o mais claro exemplo baseado na lembrança de minha mãe levando-me, aos seis anos, ao quarto de minha tia inválida, da qual se pensava estar morrendo de febre reumática, e que estava deitada, pálida e silenciosa.

Num sonho: Eu estava trabalhando no andar de baixo, na minha escrivaninha e, subitamente, uma faixa invisível de ectoplasma amarrava-me a uma inválida agonizante no andar de cima, puxando-me firmemente para fora do quarto. Eu sabia que seria absorvido para dentro dela. Lutei e, de repente, a faixa estourou e eu sabia que estava livre. Eu já sabia o suficiente para adivinhar que a lembrança de minha tia moribunda era uma lembrança encobridora do reprimido Percy morto, que ainda exercia sobre mim uma atração inconsciente para fora da vida através do colapso e morte aparente. Eu sabia que, de alguma forma, a qualquer momento, eu deveria fazer-me analisar. 


Em 1946, o professor Dicks, que me havia confiado a direção de sua equipe no novo departamento de psiquiatria, disse-me que, tendo em vista as minhas idéias, eu devia ler Fairbairn, o que fiz, e foi no final do ano de 1949 que o procurei para fazer análise com ele. Durante os primeiros anos, sua análise marcadamente edipiana de minhas “relacões com o mau objeto internalizado” correspondia bem a um período efetivo de minha infância. Após a morte de Percy e meu retorno à casa – dos três e meio aos cinco anos – lutei para coagir minha mãe a cuidar de mim através de repetidos pequenas doenças psicossomáticas, dores de barriga, brotoejas, falta de apetite, constipações e dramáticos, repentinos, estados febris, para as quais ela armava uma cama-tenda, na cozinha, indo e vindo da loja para me ver.

Ela contou-me que o médico lhe disse: “Não retornarei para ver esta criança novamente. Ela me apavora tremendamente com suas súbitas elevações de temperatura e no dia seguinte já está perfeitamente bem”. Mas tudo isso não servia de nada. Por volta dos cinco anos, mudei de tática. Uma nova escola maior deu-me mais independência e minha mãe disse: “Você começou a não mais fazer o que eu pedi”. Ela entrava em violentos ataques de fúria e me batia, e isso durou dos cinco até os sete anos.

Quando as varas quebravam, ele me mandava comprar outra. Aos sete anos, entrei para uma nova escola, ainda maior que a anterior, e paulatinamente desenvolvi uma vida própria, fora de casa. Quando eu tinha oito anos, mudamos para uma outra loja e, desta vez, seu negócio teve um extraordinário sucesso. 


Ela tornou-se menos deprimida e me dava todo o dinheiro que eu necessitava para meus passatempos e atividades ao ar livre, para o escotismo, o esporte e, gradualmente, esqueci, mas não inteiramente, as memórias dos sete primeiros anos tão infelizes. Foram, portanto, todos os medos, as raivas, a culpabilidade, os sintomas psicossomáticos passageiros, os sonhos perturbados, tudo o que exprimia os conflitos que me marcaram dos três e meio aos sete anos, que a análise de Fairbairn tomou a encargo.
Já idosa, minha mãe dizia: “Quando seu pai e sua tia Mary morreram e eu fiquei sozinha, tentei ter um cachorro, mas tive que desistir. Não conseguia parar de bater nele”. Foi isso que aconteceu comigo. Não é pois, surpreendente, que eu tivesse um mundo interno de relações libidinalmente excitadas, com maus objetos internalizados, e eu devo muito a Fairbairn pela análise radical que ele fez de tudo isso. Mas, após os três ou quatro primeiros anos, convenci-me de que isso estava me fazendo marcar passo, retendo-me num mundo interno sadomasoquista, de más relações objetais com minha mãe, como uma defesa contra problemas totalmente diferentes, pertencentes ao período que havia precedido a morte de Percy.

Esse material mais profundo continuava tentando emergir. O pico veio em dezembro de 1957, quando meu velho amigo, cuja partida da faculdade havia provocado a primeira irrupção da doença relacionada a Percy, em 1927, subitamente morreu. Pela terceira vez fui tomado de exaustão. Mantive-me o bastante para trabalhar e viajar para Edimbug, para a análise, sentindo que, agora, eu chegaria ao fundo das coisas.

Então, justo quando sentia que ia fazendo algum progresso, Fairbairn adoeceu, com uma séria gripe viral da qual quase morreu e ficou sem trabalhar durante seis meses. Tive que reinstalar a repressão, mas imediatamente começava a “intelectualizar” o problema que eu não podia elaborar com ele ao vivo. Isso não era pura intelectualização, por pensamento deliberado. Insights espontâneos não paravam de surgir e eu os anotava assim que apareciam com impositiva intensidade.

Foi a partir daí que escrevi três artigos; eles se tornaram a base do meu livro Schizoide Phenomena, Object Relations and the self (1968): “Ego-weakness, the hard core of the problem of psychoterapy” escrito em 1960 (capítulo 6), “The Schizoid problem, regression and the struggle to preserve an ego” (capítulo 2), escrito em 1961, e “The maniac-depressive problem in the light of the schizoid process” (capítulo 5), escrito em 1962. Em dois anos, esses insights levaram-me além do ponto no qual Fairbairn havia ficado. Ele admitiu com generosidade que esses artigos eram uma extensão válida e necessária de sua teoria. 


Quando Fairbairn retomou seu trabalho, em 1959, falei-lhe da morte de meu amigo e de sua própria moléstia. Ele me fez então uma interpretação crucial: “Creio que, depois de minha doença, não sou mais nem o seu bom pai, nem a sua mãe má, mas o seu irmão morrendo sobre você”. De repente, vi a situação analítica com extraordinária clareza; escrevi-lhe uma carta que ainda possuo, mas que não enviei. Sabia que ela provocaria nele uma tensão maior do que ele poderia suportar em sua precária saúde.

Repentinamente, eu percebi que eu jamais poderia resolver meu problema com um analista. Escrevi: “Estou num dilema. Devo pôr término à minha análise para ter a chance de finalizá-la, mas agora eu não mais o terei para me ajudar”. Uma vez que Fairbairn havia se tornado meu irmão na transferência, perdê-lo, seja eu mesmo terminando a análise, seja ficando com ele até a sua morte, isso representaria a morte de Percy e eu me encontraria só, ante o total ressurgimento desse acontecimento traumático, sem alguém para vir em minha ajuda. Fairbairn poderia ter me auxiliado com isso na análise transferencial?

Certamente não, em seu precário estado de saúde; terminei, pois, nesse mesmo ano, a minha análise. Tenho muitas razões para ser imensamente grato a Fairbairn por ter permanecido comigo, a despeito da saúde que declinava, até que eu alcançasse aquele insight crítico. A força motivadora por trás de meus escritos teóricos, de 1959 a 1962, foi a reativação do trauma acerca de Percy, que causou um fluxo compulsório de idéias espontâneas. Eu pude contê-las e usá-las para a pesquisa construtiva, em parte porque estava gradualmente deixando Fairbairn, em parte porque este tinha admitido a validade de minhas idéias, e, em parte, porque eu havia decidido iniciar uma análise com Winnicott antes da morte de Fairbairn. 


Fairbairn foi quem primeiro me apresentou a Winnicott, em 1954, pedindo a este que me enviasse seu artigo “Regression within psycho-analytical set-up” (reimpresso em Winnicott 1958). Winnicott o fez, juntando ao artigo, para minha surpresa, uma carta em que dizia: “Eu o aconselho a analisar a questão da sua relação com Freud, de modo que você possa ter sua própria relação com Freud, e não a de Fairbairn. Ele estragou o seu bom trabalho, por querer derrubar Freud”.

Trocamos três longas cartas, de cada lado. Eu afirmei que minha relação com Freud havia sido estabelecida anos antes de eu ter ouvido falar de Fairbairn, quando estudava sob orientação de Flugel, na Universidade de College de Londres. Eu rejeitva a psicobiologia freudiana dos instintos, mas reconhecia a grande importância das suas descobertas em psicopatologia. Com relação a essa correspondência, dou-me conta, hoje, que antecipei em dezoito anos a conclusão de Morse (1972), quase com suas próprias palavras, a saber, que o “verdadeiro si-mesmo” de Winnicott não tem lugar na teoria freudiana.

Ele só poderia ser encontrado no id, mas isso é impossível, pois o o id é apenas uma energia impessoal. Senti, de fato, que Winnicott havia deixado Freud tão para trás na terapia, quanto Fairbairn o havia feito na teoria. Em 1961, enviei a Winnicott um exemplar de meu livro Personality Structure and Human Interaction (1961). Ele me respondeu dizendo que já havia adquirido um exemplar. Eu lia os artigos de Winnicott assim que eram publicados, assim como Fairbairn, que o descrevia como “clinicamente brilhante”. Em 1962, eu não tinha mais dúvida: ele era o único ao qual eu podia recorrer para ajuda adicional.

Eu só podia ir a Londres uma vez por mês para algumas sessões, mas a análise que eu havia feito tornava mais fácil o aproveitamento destas. De 1962 a 1968, tive 150 sessões, cujo valor não é proporcional ao número. Winnicott disse ficar surpreendido de tanto trabalho poder ser feito em sessões tão espaçadas, o que era devido, penso, em primeiro lugar, a todo o trabalho preliminar feito com Fairbairn e, também, ao fato de eu conseguir manter viva a análise nos intervalos entre as sessões; mas, acima de tudo, aos insights profundamente intuitivos de Winnicott com relação ao exato período de minha infância primitiva que eu tanto precisava examinar.

Ele capacitou-me a alcançar uma evidência extraordinariamente clara de que minha mãe tinha tido, era quase certo, um primeiro período de maternidade natural comigo, seu primeiro bebê, durante dois meses talvez, antes que os problemas de personalidade viessem me privar dessa “boa mãe”. Eu havia quase que completamente esquecido da carta que não enviei a Fairbairn, sobre meu dilema de não ser capaz de terminar a análise, nem de dar-lhe prosseguimento, uma vez que o analista havia se tornado

Percy na transferência. Terminá-la seria o equivalente à morte de Percy, sem ninguém para ajudar-me com as conseqüências. Se não a terminasse, estaria usando meu analista para evitar a irrupção do trauma e também não conseguiria nenhuma ajuda com isso, além de haver o risco de ele morrer sobre mim. Minha amnésia com relação àquele trauma primitivo tampouco foi rompida por Winnicott. Apenas recentemente dei-me conta de que, de fato, involuntariamente, ele havia alterado toda a natureza do problema, capacitando-me a alcançar, retroativamente, uma derradeira mãe boa, e de encontrá-la, recriada nele, na transferência. Descobri, ulteriormente, que ele me havia posto na posição de enfrentar o duplo trauma da morte de Percy e da falha de minha mãe comigo. 


Conforme releio minhas anotações, fico surpreendido com a rapidez com que Winnicott chegou ao cerne da questão. Na primeira sessão, mencionei a amnésia do trauma da morte de Percy, e senti que já tinha tido, com Fairbairn, uma análise radical das “defesas do mau objeto internalizado” que eu havia construído contra isso, mas não havíamos chegado ao que eu sentia ser o meu problema básico, não a mãe como objeto mau ativo da infância tardia e sim aquela mãe primitiva que falhou em relacionar-se. Quase no final da sessão, ele disse: “Não tenho nada de especial para dizer ainda, mas, se não digo nada, você pode começar a sentir que eu não estou aqui”. 


Na segunda sessão, ele disse: Você sabe sobre mim, mas eu ainda não sou uma pessoa para você. Você pode ir embora com o sentimento de estar só e de que eu não sou real. Você deve ter tido uma doença antes do nascimento de Percy, e sentido que sua mãe o deixou a encargo de si mesmo. Você recebeu Percy como seu si-mesmo-bebê, que necessitava ser cuidado. Quando ele morreu, você ficou sem nada e entrou em colapso. Essa era uma perfeita interpretação de relações objetais, mas vinda de Winnicott e não de Fairbairn. Muito mais tarde, eu disse que, ocasionalmente, me sentia “num estado estático, imutável e sem vida, no mais profundo de mim mesmo, sentindo que não podia mexer-me”. Winnicott disse: Se cem por cento de você se sentisse assim, provavelmente você não poderia se mexer e alguém teria que acordá-lo. 


Depois que Percy morreu, você entrou em colapso, desnorteado, mas arranjou-se para preservar o suficiente de si mesmo para continuar a viver, energicamente, e pôs o resto num casulo, reprimido, inconsciente. Gostaria de ter tempo para ilustrar, em maior detalhe, seu penetrante insight, mas preciso dar outro exemplo. Eu disse que as pessoas, freqüentemente, tecem comentários sobre minha atividade e energia incessantes, e que, nas sessões, eu não gostava das lacunas de silêncio e, às vezes, falava muito. Fairbairn interpretava que eu estava tentando tirar a análise de suas mãos e fazer o seu trabalho: roubar o pênis do pai, rivalidade edípica. Winnicott lançou uma luz inteiramente nova sobre essa verborragia: O seu problema é que a doença relativa ao colapso nunca foi resolvida. Você teve que se manter vivo a despeito disso. Não pôde tomar, como garantida, a sua continuidade de ser. Teve que trabalhar duramente para manter-se existindo. Você teme parar de agir, de falar, de manter-se acordado. Sente que talvez possa morrer num lapso, como Percy, porque, se cessar de agir, sua mãe não pode fazer nada. 


Ela não saberia salvar nem Percy nem você. Você está amarrado ao medo de que eu não possa mantê-lo vivo, de modo que você liga as sessões mensais, para mim, com suas anotações. Nada de lapsos. Você não pode sentir que é uma preocupação constante para mim, porque sua mãe não podia salvá-lo. Você sabe o que é “ser ativo”, mas ignora o que é “apenas crescer”, “apenas respirar” enquanto dorme, sem ter que fazer nada em relação a isso. Comecei a ser capaz de permitir alguns silêncios e, certa vez, sentindo-me um pouco angustiado, fiquei aliviado por ouvir Winnicott mexer-se. Não falei nada, mas, com sua excepcional intuição, ele disse: Você começou a sentir medo de que eu o tivesse abandonado. Sente o silêncio como um abandono. 


O lapso não é você esquecendo sua mãe, mas sua mãe esquecendo você, e, agora, você reviveu isso comigo. Você está encontrando um trauma ainda mais primitivo, que talvez você nunca recuperasse sem a ajuda do trauma de Percy, que o repetiu. Você precisa recordar sua mãe abandonando você, na transferência comigo. Eu mal consigo transmitir a impressão poderosa que causou em mim perceber Winnicott indo direto ao vazio de minha “situação de relação objetal” na infância, com uma mãe que não se relacionava. Bem no final de minha análise, tive um súbito retorno à condição de falar muito na sessão. 


Desta vez, Winnicott fez uma afirmação diferente e extraordinária: É como se você desse à luz um bebê com a minha ajuda. Você produziu meia hora de fala concentrada, rica em conteúdo. Senti-me fazendo esforço em ouvir e em manter a situação para você. Você precisava saber que eu poderia suportar a sua fala incessante e que eu não seria destruído. Tive que suportar isso enquanto você estava em trabalho de parto, sendo criativo, não destrutivo, produzindo algo rico em conteúdo. Você está falando sobre “relacionar-se com o objeto”, “usar o objeto” e está descobrindo que não o destrói. Eu não poderia ter feito esta interpretação há cinco anos atrás. Mais tarde, ele apresentou o seu artigo “O uso de um objeto” (em Winnicott, 1971) na América, e encontrou, o que não foi surpresa, eu penso, muita crítica. Só um homem excepcional poderia ter alcançado aquele tipo de insight. 


Ele se tornou um bom seio materno para meu si-mesmo primitivo no meu inconsciente profundo, no ponto em que minha mãe real tinha perdido sua qualidade materna e não mais pudera suportar-me como um bebê vivo. Ainda não era claro para mim, como depois veio a ficar, que Winnicott havia transformado toda a minha compreensão do trauma da morte de Percy, particularmente quando ele acrescentou: Você também tem um bom seio. Tem sido sempre capaz mais de dar do que de receber. Sou bom para você, mas você também é bom para mim. Fazer sua análise é uma das coisas mais reasseguradoras que acontecem comigo. O rapaz antes de você me faz sentir que não presto para nada. Você não tem que ser bom pra mim. Não preciso disso e posso passar sem isso, mas de fato você é bom para mim. Finalmente, eu tinha uma mãe que podia valorizar seu filho, de modo que eu podia enfrentar o que estava por vir. 


Mal vale a pena mencionar que o único ponto em que eu discordava de Winnicott era quando ele falava ocasionalmente sobre “alcançar o seu sadismo primitivo, o incompadecimento e a crueldade do bebê, sua agressividade” de um modo que sugeria não a minha luta furiosa para extrair uma resposta de minha mãe fria, mas “a teoria instintual” de Freud e Klein, o id, agressividade inata. Pois eu sabia que ele rejeitava o “instinto de morte” e tinha ido muito além de Freud quando cheguei a ele.

Certa vez, ele disse para mim: “Nós diferimos de Freud. Ele queria curar sintomas. Nós estamos preocupados com pessoas vivas, vivendo e amando por inteiro”. Em 1967, ele escreveu, e deu-me uma cópia de seu artigo, “A localização da experiência cultural” (em Winnicott, 1971), no qual disse: “Vejo que estou no território de Fairbairn: “a busca do objeto” “como oposta à” “busca da satisfação””. Senti, então, que Winnicott e Fairbairn tinham juntado forças para neutralizar meus primitivos anos traumáticos. 


Devo completar este relato com uma coisa que eu não poderia prever. Winnicott, ao se tornar a boa mãe, liberando-me para ser vivo e criativo, transformou o significado da morte de Percy de uma maneira que viria a me capacitar a resolver aquele trauma e o dilema sobre como terminar minha análise. Relacionando-se comigo no meu inconsciente profundo, Winnicott permitiu-me ver que não foi apenas a perda de Percy, mas ser deixado sozinho com a mãe incapaz de preservar-me vivo que causou meu colapso a um estado de morte aparente.

Mas, graças ao seu profundo insight intuitivo, eu agora não mais estava sozinho com a mãe que não se relacionava. Eu o vi pela última vez em julho de 1969. Em fevereiro de 1970, fui advertido pelos médicos que eu estava seriamente sobrecarregado de trabalho e que se eu não me aposentasse “a Natureza faria isto por mim”. Devo ter sentido inconscientemente que isso era uma ameaça de que a “Mãe Natureza” iria, por fim, esmagar o meu si-mesmo ativo. Cada vez que eu descansava, encontrava-me sob a compulsão de retornar ao passado, na forma de ensaiar todos os detalhes da partida da minha “figura fraterna” pastoral, em 1938, e a minha reação de adoecimento por exaustão.

Logo vi que isso era significativo e levou-me a uma urgência de escrever a história toda de minha vida, como se eu tivesse que descobrir tudo o que havia acontecido comigo. Em outubro, contraí pneumonia e tive que passar cinco semanas no hospital. O médico atendente me disse: “Relaxe, você é hiperativo”. Eu ainda não tinha percebido que estava lutando contra uma inconsciente e compulsiva regressão. Nunca tinha ligado a idéia de “aposentadoria” com o medo profundo de perder minha batalha com minha mãe para manter vivo, ao final, o meu si-mesmo ativo. 


Após um longo inverno de convalescença, soube que, no ano novo de 1971, Winnicott havia tido um ataque de gripe. Imediatamente indaguei sobre seu estado de saúde a Masud Khan, e este responde-me que ele já estava de pé e que gostaria de ter notícias dos amigos, de modo que lhe escrevi. Um pouco depois, o telefone tocou e aquela voz familiar disse: “Olá, obrigado por sua carta” e conversamos um pouco. Aproximadamente duas semanas depois, o telefone tocou novamente e sua secretária me disse que ele tinha falecido. Naquela mesma noite tive um sonho alarmante. Vi minha mãe, preta, imóvel, olhando fixamente o espaço, ignorando-me completamente enquanto eu ficava de pé ao lado, olhando-a fixamente e me sentindo congelado numa imobilidade: era a primeira vez que eu a tinha visto assim num sonho. Antes, ela estava sempre me atacando.

Meu primeiro pensamento foi: “Perdi Winnicott e estou sozinho com minha mãe, afundada em depressão e me ignorando. Foi assim que me senti quando Percy morreu”. Pensei que eu teria que sentir a perda de Winnicott como a repetição do trauma de Percy. Apenas recentemente ficou-me claro que não foi nada disso. Não sonhei com minha mãe dessa maneira quando meu colega de faculdade morreu ou quando meu amigo pastor partiu. Nessas ocasiões, eu me senti doente, como após a morte de Percy. Desta vez foi bem diferente. Aquele sonho deu início a uma sequência impositiva de sonhos que ocorriam noite após noite, fazendo-me retornar, em ordem cronológica, a todas as casas em que eu havia morado, em Leeds, Ipswich, College, à segunda loja de Dulwich e, finalmente, à primeira loja e casa dos primeiros sete anos ruins. Figuras da família, minha esposa, minha filha, tia Mary, meu pai e minha mãe, eram recorrentes; meu pai sempre apoiador e minha mãe sempre hostil, mas nenhum sinal de Percy.

Estava tentando manter-me no período, pós-Percy, de batalhas com minha mãe. Então, uns dois meses depois, dois sonhos romperam finalmente a amnésia relativa à vida e à morte de Percy. Fiquei abismado de ver-me claramente num sonho, com a idade de três anos, totalmente reconhecível, segurando um carrinho-de-bebê onde estava meu irmão com aproximadamente um ano. Eu estava tenso, olhando ansiosamente à esquerda, para minha mãe, para ver se ela tomava algum conhecimento de nós. Mas ela estava fitando fixamente, à distância, ignorando-nos como no primeiro sonho da série. Naquela noite, o sonho foi ainda mais assustador: Eu estava de pé com um outro homem, um dublê de mim mesmo, buscando ambos alcançar um objeto morto. De repente, o outro homem caiu em colapso, num montinho. Imediatamente, o sonho mudou para um aposento iluminado onde vi Percy novamente. 


Sabia que era ele, sentado no colo de uma mulher que não tinha rosto, braços ou seios. Era apenas um colo para sentar-se, não uma pessoa. Ele parecia profundamente deprimido, com os cantos da boca caídos e eu tentava fazê-lo sorrir. Recuperei, naquele sonho, a lembrança de meu colapso, quando o vi [Percy] como o objeto morto que eu tentava alcançar. Mas eu havia feito mais. Eu havia, de fato, retornado, nos dois sonhos, a um período anterior à morte de Percy, para ver a mãe “sem rosto”, despersonalizada, e a mãe preta, deprimida, que falhou totalmente em relacionar-se com ambos de nós. Winnicott tinha dito: “Você aceitou Percy como seu si-mesmo-bebê que precisava ser cuidado. Quando ele morreu, você não tinha mais nada e entrou em colapso”. 


Por que eu sonhei com o “colapso”, primeiro, para só depois retornar e ocupar-me de Percy? Meu sentimento é que meu colapso foi a minha primeira reação de desesperança aterrorizadora pelo choque de encontrar Percy morto no colo de minha mãe; mas, na família daquela tia, agarrei rapidamente a oportunidade de permanecer vivo ao encontrar outras pessoas para quem viver. Aquela série de sonhos fizeram-me reavivar e reexaminar todas as minhas anotações de análise até que percebi que, apesar de a morte de Winnicott ter-me lembrado a de Percy, a situação era totalmente diferente. O processo impositivo de regressão não se iniciara com a morte de Winnicott, mas com a ameaça de “aposentadoria”, como se minha mãe, enfim, me arruinasse. 


Eu não sonhei com a morte de Winnicott, mas com a de Percy e com a incapacidade total de minha mãe de relacionar-se conosco. Que melhor sonho-evidência poderia alguém ter da visão de Winnicott de que “Não existe tal coisa como um bebê?”: isto é, deve existir uma “mãe e um bebê”; e que melhor evidência para a visão de Fairbairn de que a base da realidade psíquica fundamental é a “relação objetal pessoal”?
O que me deu força no inconsciente profundo para encarar novamente aquele trauma básico? Deve ter sido porque Winnicott não estava, e nem podia estar, morto para mim, nem certamente para muitos outros. Nunca senti que meu pai estivesse morto, mas, de uma forma profunda, vivo dentro de mim, capacitando-me a resistir à ativa influência paralisante e inibidora de minha mãe. Agora Winnicott havia entrado em relação viva precisamente com a parte de mim anteriormente perdida, que adoeceu porque minha mãe havia falhado comigo. 


Ele tomou seu lugar e tornou possível e seguro lembrar-me dela num sonho real – revivendo sua paralisante indiferença esquizóide. Aos poucos, surgia dentro de mim uma firme e crescente convicção e eu me recuperava da sublevação vulcânica decorrente daquela série de sonhos que compeliam a uma regressão, sentindo-me, enfim, colhendo os frutos do que eu havia buscado em análise por cerca de vinte anos. Depois de todas as lembranças detalhadas, sonhos, sintomas de eventos traumáticos, pessoas e tensões emocionais específicas terem sido elaboradas, uma coisa permanecia: a qualidade da atmosfera predominante das relações pessoais que compunham a vida familiar naqueles primeiros sete anos.

Ainda permanece uma tristeza por minha mãe, que foi tão prejudicada na infância, que ela não pudera ser, nem me capacitava a ser, nossos “si-mesmos verdadeiros”. Não posso ter um conjunto diferente de memórias. Mas isso é compensado pela minha descoberta em análise de quão profundamente meu pai tornou-se uma posse mental segura para mim, apoiando-me na minha luta para encontrar e ser meu “verdadeiro si-mesmo” e também, pela resolução, com Fairbairn, da minha transferência negativa, nele, de minha mãe dominadora, até que ele se tornasse um outro bom pai que confiava em mim e, finalmente, pela entrada de Winnicott no vazio deixado por minha mãe que não se relacionava, de tal maneira que eu pude experimentar a segurança de ser eu mesmo.

Devo acrescentar que, sem a compreensão e o apoio da minha esposa, eu não poderia ter tido estas análises nem alcançado tais resultados. O que é a psicoterapia psicanalítica? A meu ver, é a provisão de uma relação humana confiável e compreensiva de um tipo que estabelece contato com a criança traumatizada e profundamente reprimida, de um modo que a torna progressivamente mais capaz de viver, na segurança de um relacionamento real, com a herança traumática dos mais precoces anos de formação, à medida em que esta se infiltra ou irrompe na consciência. 


A terapia psicanalítica não é como uma “técnica”, no sentido das ciências experimentais, uma “coisa em si”, objetiva, que opera automaticamente. É um processo de interação, uma função de duas variáveis, as personalidades de duas pessoas trabalhando juntas em direção ao crescimento livre e espontâneo. O analista cresce assim como o analisando. Deve haver alguma coisa errada se um analista fica estático enquanto lida com tais experiências dinâmicas pessoais. 


Para mim, Fairbairn construiu, como pessoa, sobre o que meu pai fez por mim, e como analista, capacitou-me a descobrir, detalhadamente, como minhas batalhas para tornar-me independente de minha mãe, dos três anos e meio aos sete anos, haviam contribuído para a formação de minha personalidade. Sem isso, eu poderia, na idade avançada, ter-me deteriorado, tornando-me uma pessoa tão esquisita quanto a minha mãe. Winnicott, um tipo completamente diferente de personalidade, compreendeu e preencheu o vazio deixado pela minha mãe desde o início da minha vida até os meus três anos e meio.

Eu precisava de ambos e tive muita a sorte de encontrá-los. Justamente suas diferenças tornaram-se estímulo para os diferentes aspectos de minha personalidade. As idéias de Fairbairn eram “conceitos lógicos precisos”, os quais esclareciam questões. As idéias de Winnicott eram “hipóteses imaginativas” que desafiavam o indivíduo a explorar além. A título de exemplos, compare os conceitos de Fairbairn de ego libidinal, anti-libidinal e central como teoria da estrutura endopsíquica com os “si-mesmos verdadeiros e falsos” como insights intuitivos da confusa realidade psíquica de pessoas reais. Talvez um único analista não possa fazer tudo o que um analisando precisa e devamos nos contentar em deixar os pacientes nos utilizarem tanto quanto puderem. Não ousamos posar como oniscientes ou onipotentes por termos uma teoria.

Também Fairbairn disse certa vez: “Você tira da análise o que nela investiu”, e acho que isso é verdadeiro tanto para o analista quanto para o analisando. Eu diria que o desenvolvimento de insight claro e consciente representa ter tomado posse completa dos ganhos já alcançados emocionalmente, o que coloca o indivíduo em condições de arriscar esforços emocionais maiores para realizar mais crescimento emocional. Isso representa não apenas compreensão consciente, mas um fortalecimento do cerne interior da capacidade de ser “si-mesmo” (selfhood) e da capacidade de “relacionar-se”.

No que concerne o material psicopatológico, sonhar expressa a nossa estrutura endopsíquica. É um modo de experienciar, na beira da consciência, nossos conflitos internalizados, nossas memórias de lutas originadas no nosso mundo externo e, em seguida, como memórias e fantasias de conflitos que se tornaram parte da nossa realidade interna, a fim de manter as “relações objetais” vivas, ainda que apenas “as más relações objetais”, porque precisamos delas para manter a posse do nosso “ego”. A minha experiência foi que, quanto mais profundamente aquele fluxo final de sonhos descia no meu inconsciente, mais o sonhar ia desaparecendo e sendo substituído pelo “despertar humorado”.

Descobri que eu não fantasiava nem pensava, mas simplesmente me sentindo consciente de estar aprisionado num estado de espírito do qual, como começava a dar-me conta, eu já estava consciente há muito tempo e que, desde então, havia penetrado profundamente no meu inconsciente: um humor embotado, mecânico, desvitalizado, sem interesse por coisa alguma, calado, fechado em mim mesmo, desempenhando movimentos rotineiros com uma sensação de perda de qualquer sentido de existência Experimentei isso durante várias manhãs consecutivas, até que comecei a achar que estava esmaecendo e passando a um interesse normal na vida: o que, afinal, parece ser o que se poderia esperar. 


Existe uma ordem natural, peculiar a cada indivíduo e determinada pela sua própria história, na qual (1) os problemas podem tornar-se conscientes e (2) as interpretações podem ser relevantes e modificadoras. Não podemos decidir isso, e sim apenas assistir ao curso do desenvolvimento do indivíduo. Finalmente, com relação à difícil questão das fontes da teoria, parece-me que a nossa teoria deve estar arraigada na nossa psicopatologia. Isso estava implícito na corajosa auto-análise de Freud numa época em que tudo era obscuro. 


A idéia de que poderíamos pensar uma teoria da estrutura e do funcionamento da personalidade sem que tivesse relação alguma com a estrutura e funcionamento da nossa própria personalidade constituiu uma impossibilidade auto-evidente. Se nossa teoria for rígida demais, é provável que esteja conceituando as defesas do nosso ego. Se for flexível e progressiva, poderá conceituar nosso contínuo processo de crescimento, iluminar os problemas e as possibilidades terapêuticas de outros.

Uma vez que a “falta básica” de Balint e o “núcleo incomunicável” de Winnicott são considerados fenômenos universais, certamente devem constituir a forma deles de “intuitivamente sentir” sua própria realidade básica e, portanto, a de outros. Ao contrário dos constructos teóricos exatos e intelectualmente definidos de Fairbairn, que trazem os desenvolvimentos progressivos lógicos existentes na teoria, eles abrem caminho para explorações mais profundas do período da primeira infância, no qual, independentemente da carga genética do bebê, a habilidade ou falha da mãe em “relacionar-se” é o sine qua non da saúde psíquica do bebê. Encontrar bons pais no início é a base da saúde psíquica.

Na falta disso, encontrar um genuíno “objeto bom” no analista é tanto uma experiência transferencial como uma experiência da vida real. Na análise, assim como na vida, todas as relações têm uma natureza sutilmente dual. Durante toda a vida introduzimos dentro de nós figuras tanto boas como más, que nos fortalecem ou perturbam, e ocorre o mesmo na terapia psicanalítica: o encontro e a interação de duas pessoas de verdade em todas as suas complexas possibilidades.
Harry Guntrip

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