15 de dez de 2010

A vida é bela em Schopenhauer


A filosofia pessimista, atribuída ao filósofo alemão, talvez não passe de um preconceito ou de um mal-entendido, quando analisada com outros olhos e comparada à vida e à mensagem de outros homens excelsos da humanidade, como Platão, Epicuro, Nietzsche, Buda e Jesus. 


O pessimismo pressupõe uma desesperança no futuro, uma previsão ruim daquilo que sobrevirá, ou, como encontrado nos melhores dicionários de nossa língua, "uma tendência para encarar as coisas pelo lado negativo".


Mas o que dizer destas palavras: "A história nos mostra a vida dos povos, e nada encontra a não ser guerras e rebeliões para nos relatar; os anos de paz nos parecem apenas curtas pausas, entreatos, uma vez aqui e ali, e de igual maneira a vida do indivíduo é uma luta contínua, porém não somente metafórica, com a necessidade ou o tédio, mas também realmente com outros. Por toda parte ele encontra opositor, vive em constante luta e morre de armas em punho"?


O que temos aí: extremo pessimismo ou puro realismo? Quem dentre nós poderá ser tão otimista ao ponto de negar a realidade que perpassa a história da humanidade e que pode ser encontrada, sem grandes dificuldades, em qualquer cena urbana ou privada, veiculada pelos meios da comunicação ou testemunhada na porta de nossas casas? O nome Schopenhauer tornou-se quase sinônimo de "pessimismo" ao longo da história da filosofia. 


A tendência didática de rotular ou categorizar pensadores e correntes de pensamento estigmatizou um filósofo que teve como único e máximo pecado ser honesto para com sua filosofia, que concebe a vida, assim com todos os eventos da existência, como expressões diferentes da Vontade - uma força que apenas quer existir, se evidenciar num mundo que não passa de sua representação. Os quase dois séculos que nos separam de Arthur Schopenhauer, entretanto, talvez ainda não se constituam um obstáculo para uma defesa justa de suas ideias e para o vislumbramento de aspectos extremamente positivos de sua filosofia. época em que Schopenhauer viveu, na Europa do final do século 18 e início do século 19, tem algumas características peculiares, que podem muito bem dizer do Zeitgeist de então. Will Durant, em seu A história da filosofia, tenta encontrar razões para uma espécie de pessimismo comum àquele período. 


Diz ele: "Por que será que a primeira metade do século 19 levantou, como vozes da época, um grupo de poetas pessimistas - Byron na Inglaterra, De Musset na França, Heine na Alemanha, Leopardi na Itália [...] e, acima de tudo, um filósofo profundamente pessimista, Arthur Schopenhauer?", e acrescenta como resposta: "[...] Era bem difícil acreditar que um planeta tão lamentável quanto aquele que os homens viam em 1818 estivesse seguro nas mãos de um Deus inteligente e benevolente. Mefistófeles havia triunfado e todos os Faustos estavam desesperados". Durant também é loquaz ao dizer que "o pessimismo é o dia seguinte do otimismo".


Zeitgeist Expressão alemã que significa, em tradução aproximada, "espírito da época". O termo é bastante utilizado por ensaístas, sociólogos, historiadores e críticos de arte para descrever a época em que uma determinada obra artística ou movimento intelectual foi produzido. A banda de rock americana The Smashing Pumpkins lançou em 2007 um álbum intitulado Zeitgeist.

Todo homem, ilustre ou não, é fruto de seu tempo, e também vê o mundo à sua volta como a representação de si mesmo, assim como sentenciado por um antigo filósofo grego: "O homem é a medida de todas as coisas". Schopenhauer vê as coisas do seu tempo, mas, acima de tudo, abrange com seu olhar filosófico, quiçá com sua intuição (como talvez ele próprio preferisse dizer), o passado (constituído de suas incursões pelas escrituras hindus e budistas), o presente (imposto a ele frente a frente) e o futuro (projetado por sua invejável capacidade intelectual).

Assim, sua filosofia traz, evidentemente, a sabedoria oriental, que inspira aqueles que buscam respostas para seu sofrimento nos ensinamentos religiosos; a compreensão do aqui-agora existencial, que une todos os povos e todos os indivíduos como uma única nação de aflitos; e a visão profética, que, relendo os eventos da vida, vaticina para todos, sem exceção, uma espécie de eterno retorno - um retorno ao nada existencial, como último consolo à existência sofrida. Arthur Schopenhauer teve como pai, Heinrich Schopenhauer, um rico comerciante que, além de ser um homem rígido, era um marido rude, e que tem ainda contra si a forte suspeita de ter cometido suicídio atirando-se no canal de Hamburgo. 

A mãe, Johanna Troisener, era uma romântica, oprimida pelo marido, que só conheceu o bom da vida após a morte dele. Apesar do pai ter feito tudo para que o jovem Arthur se interessasse pelos negócios da família, não viveu o suficiente para decepcionar-se com o filho filósofo, enquanto a relação deste com a mãe foi uma das piores. Schopenhauer viveu grande parte de sua vida viajando pela Europa à custa do dinheiro herdado do pai.
Foi um solitário, tinha um cachorro, ao qual deu o nome de Atman (termo hindu para alma), e pouquíssimos amigos. Para si mesmo, considerava sua vida como a ideal - a relação com os humanos não era nada fácil, portanto, preferia a solidão. 

No entanto, essa vida reclusa é rotulada por alguns autores como "uma vida infeliz", o que fornece um ótimo ingrediente para fomentar a denominação que darão a ele de "filósofo do pessimismo". Sua obraprima, O mundo como vontade e representação (1819), só conquistou leitores após sua morte, e Parerga e Paralipomena (1851) trouxe- lhe o tão desejado reconhecimento, mas ele não viveu o suficiente para usufruir dele, pois morreu nove anos depois, no dia 21 de setembro de 1860, solitário como viveu. 

 A Vida como ela é Enxergar as coisas tais como elas são pode ser uma tarefa amarga, mas também pode trazer recompensas surpreendentes para aqueles que antes suspeitam de tudo que é doce demais. É, provavelmente, por essa razão que o filósofo de Danzig impôs a si uma vida de retiro e solidão, tentando ao máximo evitar dissabores provenientes das frágeis e vulneráveis relações humanas, percebendo que esses bípedes (como ele chamava os humanos) ainda não estão preparados para amor e amizade verdadeiros.

Pensemos: quantas pessoas mundo afora já não se desiludiram no amor e na amizade, e como gostariam de jamais terem se apaixonado ou se dedicado fervorosamente a alguém? O pensamento schopenhaueriano é, sem dúvida, um antídoto para péssimos exemplos de relacionamento humano, ou até mesmo uma espécie de cura para males intrínsecos à própria condição humana. Em seu A cura de Schopenhauer, Irvin D. Yalom (o mesmo autor de Quando Nietzsche chorou) apresenta-nos uma trama ficcional, na qual o filósofo, melhor dizendo, sua vida e obra, serve de tratamento para um personagem que sofre de compulsão sexual. O enredo do livro trata de um grupo de pessoas que participa de sessões conjuntas de terapia. 

Cada uma delas, é claro, está ali por um problema particular que precisa resolver, no entanto, todas elas se veem, de repente, bombardeadas por citações de Schopenhauer, recitadas pelo novo integrante, que acabam por dominar as discussões do grupo e, ao mesmo tempo, proporcionar, de forma inusitada, novas perspectivas em suas vidas. Esse livro é, sem dúvida, um exemplo maravilhoso de que, se deixarmos de lado o estereótipo tão massificado de uma filosofia pessimista em Schopenhauer, encontraremos nela sabores e aromas terapêuticos, insuspeitados e benfazejos a qualquer de nós - bípedes. A frase "Nenhuma relação é perfeita porque as pessoas são imperfeitas", que abre o sétimo capítulo de Mais Platão, Menos Prozac (atualmente, uma espécie de manual do chamado aconselhamento filosófico), de Lou Marinoff, tem tudo a ver com o pensamento de Schopenhauer, colocando-o no páreo com os pensadores utilizados nos consultórios dessa prática filosófica e outras abordagens terapêuticas que exploram as mais inovadoras técnicas psicofilosóficas. 

Devido à sua extraordinária filosofia, a essência do pensamento desse filósofo orbita tranquilamente entre as máximas de Platão e Epicuro, de Buda e Kant, de Jesus e Nietzsche, sem comprometer o teor e a substância delas, nem o valor e a autenticidade de seus autores.

Se o tédio, a angústia, a depressão e a tristeza podem ser vencidas com máximas filosóficas, aliadas a uma abordagem mais ampla e mais fidedigna (nem tanto racional) do mundo, o pensamento de Schopenhauer certamente pode desencadear a desilusão positiva, a desconstrução daquela ilusão criada pelo próprio indivíduo, em face de um mundo caótico, de uma vida infeliz e de uma realidade estressante. A filosofia de Schopenhauer explica que a natureza interessa-se menos pelo indivíduo e mais pela sua espécie. Portanto, tenta preservar essa personalidade que chamamos de "eu" será sempre perda de tempo e acréscimo de sofrimento, pois esse "eu" não pertence a si mesmo, mas é parte de algo bem maior, um "nós", que é sua espécie. 

Se não há consolo em saber que essa personalidade desaparece no oceano existencial - para só então retornar infinitas vezes, como milhões de outras personalidades inconscientes de quantas pessoas já foram, quantas vidas viveram, o quanto amaram, foram amadas ou sofreram - não é culpa do filósofo que assim seja, ele é apenas o decifrador de um código da natureza, que a despeito de nosso apego e romantismo pela vida, do alto de sua sabedoria não racional, não enxerga aqui na Terra homens, mulheres, crianças, pais, filhos, amantes ou rivais, como fomos condicionados a ver aqui embaixo. Ele enxerga apenas a família, a espécie humana, que, num ato de pura vontade e necessidade, mantém a roda existencial girando indefinidamente. 

Destemor da morte Dentre as contribuições positivas da filosofia schopenhaueriana para o bem-viver da humanidade, podemos citar a exortação ao destemor da morte, ou mais precisamente do valor dela em face de uma vida sofrida e miserável, e, acima de tudo, a compreensão de que ela nada mais é do que o fim de todo sofrimento, o retorno ao descanso, à quietude. Valorizar a morte pode parecer à primeira vista desvalorizar a vida, mas pode também dar novo significado à existência de quem se sente realmente um "lutador" neste mundo. A vida da maioria de nós é literalmente uma "luta" e considerar a morte não como uma derrota, ou um fim inglório, e sim como retorno à quietude da própria essência, é comparável à promessa cristã de alcançar o céu ou à perspectiva budista de realizar o nirvana. 

Diz o próprio filósofo: "Trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda a vida a sorte da maioria das pessoas", mas acrescenta, logo adiante, algo que eleva a dignidade humana: "Para uma tal espécie, como a humana, nenhum outro palco se presta, nenhuma outra existência".
Pensamento tão claro e inspirador nos faz lembrar o poeta maranhense Gonçalves Dias, quando em versos nos diz: "Não chores, meu filho; não chores, que a vida é luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate que os fracos abate, que os fortes, os bravos, só pode exaltar". Ou como diria o próprio filósofo: "A felicidade está mais na realização do que na posse ou na saciação", de que concluímos resignadamente que "a vida sem tragédia seria indigna de um homem". 

É Will Durant que nos vai lembrar que a filosofia de Schopenhauer semelha muito os ensinamentos do Cristo (e, é claro, os de Buda). Diz o historiador: "O cristianismo é uma profunda filosofia do pessimismo. O poder através do qual o cristianismo conseguiu vencer primeiro o judaísmo e depois o paganismo da Grécia e de Roma está unicamente no seu pessimismo, na confissão de que nosso estado é excessivamente deplorável e pecaminoso, enquanto o judaísmo e o paganismo eram otimistas".

Nós, com facilidade, podemos encontrar passagens bíblicas que levam a considerações desse tipo, mas que, vistas por um outro prisma, apresentam a morte como uma valorização da vida. Vale lembrar que, proferidas por Jesus, essas considerações em favor da morte tomam ares de inspiradora fé no significado da própria vida. "Aquele que tentar salvar sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontrála- á", disse o Nazareno. E Buda assim se pronunciou: "Olhai ao vosso redor e contemplai a vida. Tudo é passageiro e nada duradouro. Só nascimento e morte, crescimento e decadência, combinação e dissolução". 

E ainda Epicuro, tendo examinado a vida, sentenciou: "A morte não nos concerne, pois quando somos, ela não é, e quando ela é, já não somos". Quando o filósofo diz: "Tão próximo de nós se localiza uma região em que nos livramos de todo nossa miséria; mas quem é dotado de força para ali se manter?", quase podemos ouvir, concomitantemente, a voz do Filho do Homem, dizendo: "O Reino dos Céus está dentro de vós!", e a do Príncipe de Kapilvastu sentenciando: "Ninguém trilhará por ti o caminho - acenda tua própria lâmpada e ande!". Será que ainda restam dúvidas quanto à veracidade e à utilidade de tal filosofia? Será que é preciso um novo rótulo para o frasco de um remédio que, por ser amargo, não merece prescrição para males ainda mais amargos da existência? Creio que não. Schopenhauer diz com despojamento de filósofo o que os avatares ensinam ao modo dos deuses. 

"Quando, por um instante, conseguimos estar livres do jugo da vontade, da objetividade do querer que nos impulsiona, vivemos o estado sem sofrimento, considerado por Epicuro como o mais elevado dos bens e o estado dos deuses", diz o filósofo. A vida magnânima do Cristo culminou com seu martírio, e a de Buda, com uma morte tão comum quanto a de qualquer dos mortais. Para seres excelsos, assim como para o homem comum (produto industrial da natureza, segundo Schopenhauer), a existência conduz inexoravelmente à morte, com maior ou menor grau de sofrimento em seu transcurso. O que condiz muito bem com sua máxima: "Uma vida feliz é impossível; o máximo que o homem pode conseguir é uma vida heroica".

O filósofo defende que nós, seres humanos, nada mais somos do que a objetivação de uma vontade de existir. O que levará Durant a acrescentar em sua obra, com certa jovialidade e otimismo, páginas à frente: "A vontade, claro, é uma vontade de viver, e de viver ao máximo. Como a vida é cara a todas as coisas vivas! E com que paciência silenciosa ela irá esperar o momento propício", o que corrobora as palavras do próprio filósofo, ao dizer: "Mesmo no reino orgânico vemos uma semente seca preservar a força inativa da vida durante três mil anos e, quando finalmente ocorrem as circunstâncias favoráveis, desenvolver-se numa planta". 

Se ainda me for permitida outra comparação, não seria demais lembrarmos as seguintes palavras do mestre de Belém: "Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam". A filosofia de Schopenhauer também realça aquela nobreza que cobre de louros o espírito e o caráter do ser humano, quando este consegue perceber que seu valor como protagonista da existência não está diretamente relacionado com suas posses, e que, por vezes, a riqueza é um entrave ao autoconhecimento, e a pretensa felicidade almejada jamais pode ser outorgada por outrem.

Diz o filósofo: "Os homens estão mil vezes preocupados em ficarem ricos do que em adquirirem cultura, embora seja inteiramente certo que aquilo que um homem é contribui mais para sua felicidade do que aquilo que ele tem". E ainda: "A felicidade que recebemos de nós mesmos é maior do que a que conseguimos em nosso meio", o que vai concordar diretamente com Aristóteles, ao dizer que "ser feliz significa ser autossuficiente". Quantos homens não recebem honras apenas porque são ricos e poderosos, enquanto outros, verdadeiramente valorosos, são esquecidos, apenas porque são simples e sem posses? Schopenhauer, ao tratar da renúncia das riquezas, cita Siddhartha Gautama e São Francisco de Assis. Sobre este último, ele relata um evento em que, estando o nobre e jovem Francisco num baile em que se apresentavam as belas filhas dos notáveis da época, foi perguntado: "Então, senhor Francisco, não ireis brevemente eleger uma entre estas belas?", ao que teria respondido: "Elegi para mim uma muito mais bela! La povertá". 

O filósofo vê o apego à individualidade como "egoísmo", uma insensatez para com a qual a natureza não se permite compactuar. Ser um e, ao mesmo tempo, ser todos, ou pelo menos muitas possibilidades de ser muitos outros, é mais próprio e adequado ao fluir existencial, à vontade da Natureza, ou, se preferirmos, à vontade de Deus.

São Francisco de Assis Francesco Giovanni di Pietro Bernardone nasceu em 1182 (ou 1181) na cidade de Assissi (Assis), na Itália. Filho de um comerciante, conta-se que vivera uma juventude mundada e excessiva, dedicando-se posteriormente a uma vida religiosa e devotada aos pobres. Fundador da Ordem dos Frades Menores, ou Ordem Franciscana, sua figura é uma das mais admiradas pelos católicos.

Siddhartha GautamaPríncipe de Kapilvastu é o título atribuído a Siddhartha Gautama, fundador do Budismo. Kapilvastu era um principado localizado na região de Lumbini, atualmente pertencente ao Nepal. Em algumas fontes de consulta, o nome do distrito aparece como Kapilavastu.

Alguns podem até achar falta de modéstia em Schopenhauer, mas, observando criteriosamente seus escritos, pode-se encontrar os créditos que ele declara a seus colaboradores, como quando diz: "Reconheço que o melhor de meu desenvolvimento próprio deve-se, ao lado da impressão do mundo intuitivo, tanto à da obra de Kant, como à dos sagrados hindus e à de Platão". Como homem culto que foi, fez um estudo aprofundado das religiões orientais, assim como do cristianismo e do judaísmo, e sua ética pode ser comparada tanto com a budista quanto com a cristã, conforme ele mesmo declara:

"A todas as éticas da filosofia europeia, a minha se dispõe na relação do Novo Testamento ao Antigo, conforme o conceito bíblico desta relação. [...] Minha ética [...] possui fundamento metafísico, utilidade e objetivo: em primeiro lugar mostra teoricamente o fundamento metafísico da justiça e do amor humanos, e em seguida também aponta o objetivo a que estes, quando realizados com perfeição, devem conduzir. [...] Poder-se-ia denominar minha doutrina a filosofia propriamente cristã; por mais paradoxal que possa parecer àqueles que não atingem o cerne das coisas, mas permanecem em sua superfície".

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844- 1900), ao tomar conhecimento da obra de Schopenhauer, ficou muito entusiasmado com o compatriota, chegando mesmo a escrever um livreto intitulado Schopenhauer Educador. Nele podemos ler logo de início: "Se tentar descrever o acontecimento que foi para mim o primeiro olhar lançado sobre os escritos de Schopenhauer, devo primeiramente me deter um pouco a uma ideia que me perseguia em minha juventude [...], imaginava que o terrível esforço, o temível dever de ter de me ocupar de minha própria educação me seria poupado pelo destino, porque encontraria no devido tempo um filósofo que fosse meu educador, um verdadeiro filósofo que pudesse ser seguido sem hesitar, uma vez que poria nele mais confiança do que em mim mesmo".

Esse educador foi Schopenhauer, até Nietzsche romper com ele. Mas isso não diminui em nada o valor de Schopenhauer, e podemos continuar citando os elogios do homem-dinamite, enquanto admirador dele: "Sou desses leitores de Schopenhauer que, desde a primeira página, sabem com toda a certeza que lerão todas as outras e prestarão atenção à menor palavra que alguma vez tenha proferido". Nietzsche, posteriormente, como mencionado, tornar-se-ia opositor daquele que antes chamara de seu "educador", mas tal rompimento é comum em discípulos que precisam se afastar de seus mestres para que suas próprias ideias não sejam ofuscadas. É muito fácil encontrar em Nietzsche falas que soam com o mesmo tom e timbre da voz de seu ex-educador. 

Além disso, o amor fati (amor pelo destino) nietzscheano pode parecer aos mais apressados uma contraposição à valorização da morte schopenhaueriana, mas, quando analisada de perto, demonstra-se quase irmã gêmea desta. Revoltado com a insistente perseguição a sua filosofia, Arthur Schopenhauer lança seu grande desabafo contra as forças dominantes do pensamento filosófico de então, para colocar cada um em seu lugar. "Agora terei de ouvir novamente que minha filosofia é desesperada somente porque me expresso conforme a verdade, mas as pessoas querem que se lhes diga que o Senhor Deus tenha feito tudo do melhor modo. Dirijam-se à igreja, e deixem em paz os filósofos. 

Ao menos não exijam que estes exponham suas doutrinas conforme seus ensinamentos: isto, fazem-no os trapaceiros; os filosofastros: a estes, podem encomendar doutrinas à vontade". Durant tece seus elogios ao filósofo de Danzig da seguinte forma: "Devemos a Schopenhauer o fato de nos ter revelado nossos corações secretos, de nos ter mostrado que nossos desejos são os axiomas de nossas filosofias e de ter aberto caminho para uma compreensão do pensamento não como um simples cálculo abstrato de eventos impessoais, mas como um inflexível instrumento de ação e de desejo". função da filosofia é, sem dúvida, promover o melhoramento da qualidade cultural e intelectual do ser humano, para que a humanidade, como um todo, seja favorecida e possa caminhar a passos largos para melhores dias, deixando escrito nas páginas invisíveis da história os relatos de lutas e glórias que perfazem a existência da espécie humana, mas não cabe a ela, de modo nenhum, instrumentar-se de mentiras doces e de vãs lucubrações somente para, sentada no trono de "mãe das ciências", governar o "Reino de Utopia", de tal forma a envergonhar até mesmo o grande Thomas Morus, que provavelmente se contorceria em seu túmulo de tanto asco e revolta.

Thomas MorusPríncipe de Kapilvastu é o título atribuído a Siddhartha Gautama, fundador do Budismo. Kapilvastu era um principado localizado na região de Lumbini, atualmente pertencente ao Nepal. Em algumas fontes de consulta, o nome do distrito aparece como Kapilavastu.

O filósofo do pessimismo, como ficou conhecido Arthur Schopenhauer, tem muitas coisas positivas a ensinar tanto aos miseráveis quanto aos prósperos, tanto aos bípedes sem instrução quanto aos bípedes bem-instruídos, tanto aos pessimistas quanto aos otimistas. A beleza de sua filosofia não é óbvia e vulgar como alguns gostariam que fosse, ela é como o véu de Maya dos hindus, que impõe ao comum dos homens uma ilusão multicolorida, enquanto esconde por trás de si o esplendor da eternidade.

O próprio filósofo pode nos dizer algo sobre isso, para que tudo o que aqui foi dito não fique como não dito: "Mas certamente a verdade será sempre paucorum hominum, e portanto deve esperar, tranquila e comodamente, pelos poucos que, por terem um modo de pensar fora do comum, possam achá-la. [...] A vida é curta, mas a verdade vai longe e tem vida longa; falemos a verdade".
Jaya Hari Das

2 comentários:

Mariana Magalhães disse...

Uma aula...! Muito bom o texto! Quanto ao pessimismo ou realismo, fico com o realismo.

Sarah disse...

Nunca podemos dizer que a vida é só tragedia, amargura e tristeza, ela também tem o seu encanto.

Acredito que a fé é que nos move, mesmo com esse mundo desumanizado, ainda há esperança. A esperança, elimina o desamparo.

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