14 de ago de 2011

Voa, Byafra!

A dureza de passar um tempinho com o Byafra é que o Byafra vai passar um tempão com você. Não por vontade dele. E muito menos pela sua. Mas será inescapável. Você vai ali buscar um cafezinho e o Byafra vai junto, em algum recôndito do seu cérebro: "Voar, voar/Subir, subir..." 

Está preso no engarrafamento tentando ouvir no rádio as novidades sobre a montanha-russa das bolsas, o Byafra não deixa: "Ir por onde for / Descer até / O céu cair..." Toma um banho, procura bobagens na TV, dorme, acorda, mais um cafezinho, pensa em algo agradável, a Scarlett Johansson, o último CD do Chico. Inútil. "Anjos de gáááás/Asas da ilusããão..." Então você apela. Se imagina nadando no Tietê, lembra da seleção do Mano, dos desmandos de Brasília. "E um sonho audaaaaaaaaz / Feito um balão..." Melhor desistir. Caiu no labirinto, amigo, abraça o Ícaro.

Vamos, pois, às talvez não tão necessárias apresentações. Pros que não ligam os versos ao poeta, o Byafra é o antigo Biafra, niteroiense, cantor e compositor romântico, visitador contumaz do Chacrinha, do Bolinha, do Raul Gil e do hit parede dos anos 80. Oito canções em novelas da Globo, 15 discos, 3 milhões de cópias vendidas - 800 mil só do LP Existe uma Ideia, de 1984, cuja primeira faixa do lado A era esta grudenta Sonho de Ícaro, da lavra de Pisca e Cláudio Rabello. Andava meio sumidão, fazendo shows pequenos em cidades menores ainda. A certa altura, achou por bem enfiar um "y" no nome de guerra para evitar que as eventuais buscas no Google lançassem os interessados lá pras bordas da Nigéria. Do trono do mela-cueca ao desterro do mass media, enfim. Até que...

Sábado, intervalo do Jornal Nacional. Comercial de seguro de carro da Bradesco Seguros. Na tela, um meliante arromba um automóvel e dá a partida. O Byafra aparece no banco de trás, microfone em punho, blazer com ombreiras, franjinha e sorrisinho travado de sempre: "Voar, voar / Subir, subir..." O ladrão parte com o carro, mas vai se desesperando com o insuportável "sistema antifurto". Não aguenta mais. Finalmente, a pá de cal. O Byafra lasca um daqueles seus adoráveis falsetes: "Anjos de gáá-ááááááás..." O bandido larga o veículo no meio da rua, foge a pé e um locutor em off passa a régua: "Vai que o seu carro não vem com o Byafra cantando. Aí é melhor ter um Bradesco Seguro Auto. Afinal, vai que..."

Em dois dias, a procura pelo nome do anunciante na internet cresceu 23% nas contas da agência AlmapBBDO, que criou a peça. As palavras "Byafra", "Bradesco Seguros" e "Vai que..." saltaram para a lista dos temas mais comentados do Twitter. E os pedidos de show do Byafra triplicaram, ou quase. "Nossa média eram três por mês. Já temos oito apresentações confirmadas para setembro", informava um satisfeito Robson Williams, empresário do artista, na última quinta-feira. Ele trouxe o Byafra de Niterói para participar de dois programas de TV em São Paulo. O Vitrine, da TV Cultura, que vai ao ar na próxima terça, e o Ratinho, do SBT, ao vivo. Entre um e outro, encaixou meia dúzia de entrevistas por telefone, todas com o mesmo mote: o sucesso da autoironia a que o seu pupilo se permitiu no comercial.

"Eu achei o máximo, topei assim que li o roteiro", explica o Byafra, enquanto um cabeleireiro do SBT lhe aplica uma escova com secador no ralo capacete tingido de castanho-médio. Educado, o cantor se desdobra nas atenções. "Eu uso um xampu que minha mulher traz da Argentina, está vendo como fica sedoso?", ele interage com o coiffeur antes de retomar o fio da meada. "Não vi o comercial como sendo uma sacanagem comigo. O negócio é que o personagem do ladrão não gosta da minha música, prefere Sabotage, Racionais. Por isso ele sai correndo. Isso não me ofende. Eu canto para agradar a quem gosta da minha música, não tenho a pretensão de conquistar quem não gosta."

O Ratinho vem combinar como será o programa. "Eu pergunto se você ficou chateado com o comercial e aí a gente começa o papo", detalha. O compositor-humorista Juca Chaves, outro convidado da noite e ali por perto com seu alaúde, arrisca mais uma piada: "Ah, você diz que ficou chateado até chegar o cheque do cachê..." Silêncio. Protegido por cláusulas contratuais, esse é um tema que as partes não comentam. No mercado se afirma que o Byafra ganhou entre R$ 120 e R$ 150 mil. E os autores da música, R$ 100 mil cada um. Eles não confirmam.

Aos 53 anos, o Byafra dos bastidores de hoje é praticamente o mesmo dos holofotes de antanho. Talvez com a franja mais rala, com o rosto mais vincado ao redor dos olhos e com a cintura mais larga, mas o jeito meio desconfortável de sorrir e de (pouco) se mexer quando canta continuam iguais - assim como seus hits. Não existe Byafra sem Leão Ferido ("Tenho que ser bandido / Tenho que ser cruel") ou Seu Nome ("Quando escuto a sua voz / Estremeço, me dá um nó"). Ele ficou 20 anos casado com a primeira mulher, está há dez com a segunda. Tem duas filhas, uma de 30 e outra de 13, e uma neta de 3 anos. Só sua mãe, dona Delva, lhe chama pelo nome: Maurício. Maurício Pinheiro Reis, o caçula de três irmãos. O apelido Biafra foram os amigos de infância que deram, nos tempos em que Mauricinho era tão magricela quanto aqueles africanos de Biafra que eles viam na TV lutando uma guerra de independência. Se encantou pela música quando ganhou da avó uma flauta doce, único instrumento que domina além das próprias cordas vocais. Recentemente, encarou um ano de cursinho pré-vestibular e agora faz duas faculdades simultaneamente: canto e educação artística. É um sujeito agradável, articulado, conhecedor de música barroca, renascentista e das baladas do Stevie Wonder. Tímido como um playmobil, tem enorme dificuldade de falar de si. Mas fala:

- A timidez é parceira antiga. Quantos e quantos bailes eu fui e não dancei com ninguém... Simplesmente não tirava as meninas para dançar porque tinha medo de receber um não... Então ficava sozinho, vendo a banda tocar. No Chacrinha, me apavorava quando ele pegava meu braço e me arrastava para a plateia, gritando: "Quem quer Byafra?! Olha o Byafra aí!" Eu achava que ia desmaiar de tanta vergonha.

- E um tímido desse calibre virou artista?

- É que não é sempre assim. Tem uma história engraçada. Quando minha filha mais velha era adolescente tinha aquilo de ir levá-la em festas e depois, tarde da noite, ir buscá-la. Mas ela demorava pra sair, eu morrendo de sono no carro, um porre. Um dia eu vesti minha pior camiseta e a calça de moletom mais esfarrapada para ir apanhá-la. Entrei direto na festa: "Então, filha, vamos pra casa?" Ela saiu rapidinho, mais envergonhada do que eu, e nunca mais me fez esperar.

- E você nem precisou cantar...

- Hahahaha.

- Já fez análise pra ver essa timidez?

- Fiz, mas não para timidez. Fiz quando tive duas paralisias faciais seguidas, causadas por golpes de ar. Eu achava que teria a terceira a qualquer momento e não conseguia fazer nada. A terapia resolveu.

- Como você se define politicamente?

- Meu pai, Wilson Reis, que já morreu, era do PCB. Jornalista, trabalhou com o Samuel Wainer na Diretrizes e na Última Hora. Foi preso pela ditadura, o que me causou uma gagueira danada, que depois passou. Lembro dele chegando em casa, barbudo e magro, depois de seis meses na cadeia.

- Nos anos 80 diziam que você fazia música alienada, no mínimo. E no máximo, música chata. Isso te magoava?

- De jeito nenhum. Eu sempre fui um cara prático. Fazia o que a gravadora queria: pop romântico com refrão fácil de cantar. Uma vez eles me pediram algo mais ousado e eu levei Nos Caminhos do Porto Argentino, uma letra política que dizia assim: "Quantos meninos no fundo do mar / Uma estrela cadente caiu do luar / ou foi um cometa que passou / ou um avião que mergulhou". Mas eles queriam outro tipo de ousadia. Queriam que eu cantasse sem camisa, que eu virasse sex symbol. O plano não vingou, é claro.

Ele jura que nunca se cansou da Sonho de Ícaro, mesmo nos shows da baixa, quando convinha cantá-la umas cinco vezes, pro público não pedir o dinheiro do ingresso de volta. O letrista Cláudio Rabello também aprecia sua criação, embora ela não seja a mais rentável entre as suas mais de mil composições. Ele não sabe ao certo, mas as campeãs de arrecadação de direitos autorais talvez sejam Doce Mel, gravada pela Xuxa, e Caça e Caçador, do Fábio Jr. O Rabello, que largou a faculdade de medicina no sexto semestre pra viver de música e hoje conta 63 anos, lembra bem quando o parceiro Pisca apareceu com a fita contendo a melodia da Sonho de Ícaro, que ainda nem nome tinha. "Era só o Pisca ao piano fazendo lálá, lálá/lálá, lálá. Fiquei dias ouvindo aquilo, até que uma hora, durante o jantar, me veio o ‘Voar, voar/Subir, subir’. Peguei o bloco de notas e escrevi o restante num jorro só. Achei que jamais seria gravada, porque ficou com seis minutos e pouco, longa demais prum pop romântico, e não falava nada com nada. É metáfora do começo ao fim, metáfora sobre drogas, sobre a ditadura. É sobre liberdade, na verdade, uma viagem filosófica por esse bem universal inatingível que, na mitologia, fez o Ícaro se estrepar de tanto perseguir."

Para o publicitário Marco Gianelli, vulgo Pernil, um dos pais da ideia, o sucesso do comercial se deve a um pacote e não apenas a uma música, sejamos sinceros, com alto poder de chateação. "Se fosse para ser só irritante eu preferia usar o Restart, que considero muito mais chato que o Byafra. Mas não era isso. Precisávamos de alguém carismático, bem-humorado e com um hit facilmente identificável." Se o Byafra não topasse, o plano B do Pernil era o Oswaldo Montenegro com Lua e Flor. E o plano C, a Tetê Espíndola com Escrito nas Estrelas." Os citados não gostaram de saber. "Isso no mínimo é falta de informação, porque eu não estou no ostracismo. Pelo contrário, estou no auge da carreira e justamente por isso não estou precisando de grana", informou, por telefone, o Montenegro. "E eu não sou chato. Eu tenho uma música chamada O Chato. As pessoas confundem..." Tetê Espíndola mandou um e-mail de poucas palavras: "Não vi o comercial, não vou me manifestar. Cada um tem suas necessidades".

Noves fora, a se lamentar só a dificuldade de inscrever a propaganda nos concursos internacionais. Obviamente faltará repertório aos jurados internacionais para analisar um Byafra e seu Sonho de Ícaro. Mas esses publicitários brasileiros são danados e os diretores João Dornelas e Pedro Pereira, que pilotaram as seis horas de gravação numa madrugada fria de São Paulo, têm a solução. Basta trocar o Byafra pelo saxofonista encaracolado Kenny G, já pensou? Uia! Melhor não pensar. Vai que...
Christian Carvalho Cruz

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