8 de abr de 2012

Budismo - Remédio para a dor

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer tinha acabado de escrever sua obra-prima, O Mundo como Vontade e Representação, quando, em 1818, teve contato com escrituras budistas pela primeira vez. E surpreendeu-se com o que encontrou ali. Considerado um dos pais do realismo pessimista, identificou nelas uma série de similaridades com seu próprio pensamento. Acima de tudo, ficou encantado com um detalhe: a ausência de Deus. Esse é um dos pontos mais polêmicos e populares no budismo. 

A Wikipédia, por exemplo, no verbete God in Buddhism ("Deus no Budismo"), diz: "A refutação da existência de um Criador é um ponto-chave para distinguir uma visão budista de uma não budista". Historicamente, a religião surgiu como uma "resposta" ao complexo hinduísmo. Aos milhões de deuses hindus, no entanto, o budismo contrapôs uma religião simples, que prefere não tocar no assunto "Deus". Por outro lado, um estudioso como Ananda Coomaraswamy - ex-diretor do Museu de Belas-Artes de Boston, nos EUA, e especialista no tema - costumava afirmar: "Quanto mais nos aprofundamos no budismo, mais difícil se torna distingui-lo do hinduísmo em sua visão do divino". 

Quem está com a razão? Para decifrar essa charada, nada melhor do que recorrer ao fundador da crença budista: Siddharta Gautama. Gautama nasceu em Lumbini, na Índia, no ano de 485 a.C. Segundo a lenda, ele deu alguns passos e disse em bom páli - dialeto aparentado do sânscrito - que era a mais nobre das criaturas, e que aquele seria seu último nascimento. O pai governava um pequeno feudo. Na corte, um dos sábios brâmanes (a casta sacerdotal hindu) predisse que o futuro do jovem era dúbio. Se amasse o mundo, viraria um grande monarca, unificando todos os reinos da Índia. Mas, se tomasse desgosto pelas coisas mundanas, acabaria na solidão. O rei tentou encaminhar o futuro do filho, construindo para ele um castelo nos arredores de Kapilavastu. 

O plano era cercá-lo de prazeres, para que, afastado dos infortúnios, se transformasse num grande governante. A estratégia não funcionou. Aos 29 anos, Siddharta Gautama saiu pela primeira vez dos domínios do feudo. Num passeio, viu um velho, um doente e um cadáver, tudo novidade para ele. "Se o destino final do homem é o sofrimento e a morte, minha vida não faz sentido", teria dito. Em novo passeio, conheceu um homem de manto e cabeça raspada - era um monge. Agora, sim, seu destino estava selado. Naquela mesma noite, Gautama fugiu do palácio para ser monge mendicante. Aos 35 anos, atingiu a iluminação. Em suas próprias palavras, tornou-se um Buda, que em sânscrito quer dizer "O Desperto". Assim nasceu o budismo. 

Os ensinamentos de Gautama podem ser resumidos em 4 pontos (ou As 4 Nobres Verdades): o sofrimento é inevitável; ele nasce do apego ao mundo; o sofrimento acaba - e a iluminação começa - quando percebemos o caráter ilusório do mundo; a iluminação é alcançada por quem segue o caminho traçado por Buda. O "caráter ilusório" das coisas já estava presente na doutrina hindu, e Siddharta Gautama foi enfático em corroborá-lo. Mas, ao contrário dos líderes espirituais do hinduísmo, jamais fez qualquer comentário sobre a figura de Deus. O budismo, assim, tornou-se uma raridade no universo religioso: a única religião não teísta da história. "Buda evitou o debate tragicômico sobre a existência de Deus para se preocupar com questões muito mais importantes", escreveu recentemente o budista Ed Halliwell, colunista do prestigiado jornal britânico Guardian. 

"Ele dizia que essa discussão não ajuda a eliminar o sofrimento, finalidade primordial de seus ensinamentos." Certa vez, conta Halliwell, Gautama viu-se pressionado pelo monge Malunkyaputta, seu seguidor, que insistia em perguntar-lhe sobre Deus. A resposta veio com outra pergunta: ao ser atingido por uma flecha envenenada, a primeira coisa a ser feita é descobrir quem a atirou, por que, e que tipo de flecha é aquela, ou removê-la para tratar o ferimento? "Se você se preocupasse primeiro com todas essas respostas", disse o Buda, "morreria antes de encontrá-las."
Álvaro Oppermann

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