24 de jun de 2012

Ashtanga - A ioga dos descolados



A ashtanga, uma forma de ioga parecida com ginástica, está mudando a vida dos tipos obstinados e competitivos que constituem a elite mundial

Há pouco mais de dois anos, o ex-piloto de Fórmula 1 Pedro Paulo Diniz, herdeiro de uma das maiores fortunas do país, saiu de São Paulo e foi morar no meio do mato


Decidido a abandonar a agitação da cidade grande, levou a mulher e os dois filhos para uma fazenda no município de Itirapina, interior do Estado. Ali, já produzia alimentos orgânicos sob a marca de sua empresa, a Fazenda da Toca, e fez do local de trabalho sua casa. 

A família Diniz teve de se adequar às possibilidades da região e alterou sua rotina. Pedro Paulo, de 42 anos, agora cria galinhas e se aprofunda em estudos de agricultura. Sua mulher, Tatiane, de 35, ajuda a administrar a produção da fazenda. 

As crianças, de 5 e 3 anos, vão a uma escola nada tradicional, de ensino holístico, construída especialmente para recebê-las. Há um hábito urbano, no entanto, que os Diniz não descartaram. Eles ainda passam duas horas de todas as manhãs praticando uma sequência acelerada de posturas de ioga, na qual respiram de forma barulhenta e transpiram de forma descomunal. Da cidade, o casal trouxe a ashtanga vinyasa, uma linha de ioga de muita exigência física e pouca meditação, em que o progresso é lento e doloroso. Anos atrás, a ashtanga entrou nos costumes de Pedro Paulo e mudou sua filosofia de vida.

A estilista Fernanda de Goeye, praticante de ashtanga há seis anos. O corpo bonito não é o único benefício da prática. Fernanda diz que ficou menos ansiosa 

Antes de conhecer essa forma de ioga, Pedro Paulo, filho do empresário Abilio Diniz, vivia mergulhado em glamour. Morou na Europa por dez anos, durante os quais se dedicou à carreira automobilística e ao luxo. Saía com top models, dava autógrafos na rua, frequentava festas badaladas. Voltou ao Brasil depois de ter passado pela Fórmula 1 como piloto e também como empresário frustrado. Pessoas próximas contam que ele estava deprimido, sentia-se deslocado e sozinho. 

Foi num jantar com a amiga e modelo Fernanda Lima que ouviu falar pela primeira vez da ashtanga, um tipo de ioga que ela dizia mudar a vida. Dali a alguns dias, Pedro Paulo começou a praticar num prédio da Rua Teixeira da Silva, no bairro do Paraíso, Zona Sul de São Paulo. Das 7 às 9 horas, a aula acontecia numa sala minúscula de onde pingava suor do teto, de tão lotada. Ao final de cada prática, ele ajudava a limpar e arrumar o lugar. Não demorou muito até passar a fazer a ioga todos os dias. Tornou-se mais centrado e sumiu das páginas de revistas de celebridade. Na escola de ioga conheceu Tatiane, uma atriz de origem simples que dava aulas de ashtanga e com quem se casou anos depois. O estilo de vida que leva hoje, em constante contato com a natureza e com valores sustentáveis, ele atribui à ashtanga.

A paixão de Pedro Paulo e a forma como a ioga ajudou a mudar sua vida não constituem uma exceção. Criada pelo indiano Pattabhi Jois, morto em 2009 aos 94 anos, a ashtanga se converteu em mania entre as elites do mundo inteiro. Primeiro, pelo vigor físico que exige e pelo corpo magro e atlético que produz. Embora nascida na tradição contemplativa da Índia, ela se assemelha mais a uma ginástica difícil, suarenta e exaustiva, que desafia permanentemente seus praticantes. Os jovens adeptos da ashtanga tendem a ser um grupo de gente forte e bonita. 

A outra razão pela qual a ashtanga vem atraindo adeptos entre ricos e bem-sucedidos de Nova York a São Paulo é que ela, de alguma forma, ajuda a disciplinar as personalidades teimosas e determinadas que atrai. Os alunos se empenham em aperfeiçoar a postura do corpo, competindo consigo mesmos e com os demais, ignorando as dores que frequentemente acompanham as sessões. A prática disciplinada do exercício parece ajudar a concentração e o controle do próprio temperamento. A apresentadora e ex-modelo Luciana Gimenez tinha fama de mandona nos corredores da emissora de televisão onde trabalha, a Rede TV!. Há nove anos, foi apresentada à ashtanga por um amigo. Agora, faz três vezes por semana. “Eu me sinto mais conectada com a realidade, fico mais humilde”, afirma. Os funcionários de Luciana confirmam (e comemoram) a melhora de seu gênio. Ela diz que a motivação para enfrentar as dificuldades da ashtanga é a exigência de força e superação que a prática exige.

As histórias de descoberta e conversão se assemelham. Há seis anos, a irmã e o então namorado da estilista Fernanda de Goeye, de 36 anos, figura frequente na alta sociedade paulistana, levaram-na a praticar ashtanga pela primeira vez. “Não me identifico com o ritmo lento da ioga, então hesitava em aceitar os convites”, diz. A ashtanga tomou o lugar das corridas, que haviam machucado seu joelho. Para ela, ioga seria apenas exercício físico. Somente depois de meses de prática intensa, sentiu que algo mudava além do físico. Diz que a insônia e a ansiedade que a perturbavam desapareceram. Aprendeu a relaxar. “Me sinto mais equilibrada. Por isso, não abro mão da ashtanga.”
A bilionária Sonia Jones, sob um retrato do guru Pattabhi Jois 

Fora do Brasil, a ashtanga conta com alguns divulgadores fanáticos e famosos. A cinquentona Madonna, com seus braços e pernas musculosos, é um deles. Sting, que diz fazer ioga e sexo todos os dias, é outro. A estilista Donna Karan também está na lista. Ninguém, porém, está mais associado à ashtanga do que a socialite nova-iorquina Sonia Jones, de 44 anos, ex-modelo e mulher do bilionário Paul Tudor Jones, sócio do fundo de investimento Tudor e dono de uma fortuna de US$ 3,3 bilhões. Sonia se mudou da Austrália para Nova York em 1986, para investir na carreira de modelo. Lá, conheceu Jones, com quem se casou. Os Jones têm quatro filhos. Sonia atribui à cesariana do último deles, em 1999, um problema nas costas que a fez deixar de sentir seu corpo da cintura para baixo. 


Segundo ela, somente a ashtanga foi capaz de lhe devolver a saúde. A partir daí, ela se apaixonou pela prática, mudou sua forma de viver, entregou-se à filosofia da ioga e quis estar rodeada por praticantes. Viajou inclusive para a Índia, ao encontro do mestre, Pattabhi Jois, de quem se tornou discípula e amiga. Além de praticar disciplinadamente há 13 anos, ela se associou recentemente ao neto de Jois para construir estúdios de ioga modernos e atraentes chamados de Jois Yoga, onde se ensina ashtanga numa versão que ela afirma ser fiel aos ensinamentos do mestre. 

“A ashtanga foi concebida com o propósito de ser eclética. Ela compactua com qualquer intenção”, afirma Cristóvão de Oliveira, de 47 anos, o professor mais conhecido de ashtanga no Brasil. Por suas aulas passaram Pedro Paulo Diniz e a apresentadora Fernanda Lima. Cristóvão começou a ensinar Ashtanga no Brasil em 2000, depois de passar mais de um ano na Índia. Aprendeu a ioga com o próprio Jois, em sua casa. “Apaixonei-me pela ashtanga na primeira aula”, diz ele. “A sala estava cheia de corpos esculturais fazendo uma ginástica medonha. Fiquei impressionado.”

Cristóvão, que cresceu no ABC paulista e fez curso técnico de ajustador mecânico, dá aulas em seu ashram (como são chamados os lugares próprios à prática da ioga), na Serra da Cantareira, a uma hora da cidade de São Paulo. Às 7 horas da manhã de uma segunda-feira, já há 20 pessoas na sala de prática. Do lado de fora, os termômetros de temperatura marcam 10 graus. Dentro, é como se funcionasse uma estufa. A respiração ujjayi (pronuncia-se udjai), usada na ashtanga, é barulhenta e ajuda a esquentar o corpo. Consiste em inspiração e expiração realizadas pelo nariz a partir da passagem de ar por trás da garganta. Ao ritmo dessa respiração, os praticantes executam uma sequência de posturas denominadas asanas (pronuncia-se ássanas).

Fica-se em cada postura por cinco respirações, depois se avança para a próxima. A sequência completa, chamada de série, leva duas horas. A ashtanga tem seis séries, com graus crescentes de dificuldades. Mestres como Cristóvão fazem até a série 4. A maioria dos praticantes nunca passa da série 1. Os movimentos exigem força e muita flexibilidade. Os alunos se ensopam de suor. Todos praticam sozinhos, sem interrupção, cada um em seu próprio ritmo. Não se ouvem vozes, exceto quando Cristóvão sai da posição de observador e se dirige a algum aluno, para corrigir imperfeições de postura. São os ajustes, famosos no mundo da ashtanga pela dor que provocam e pelo risco de graves lesões que acarretam.

Cris, como é chamado pelos alunos, segura pernas, puxa braços, empurra costas e faz o que for preciso para que a posição fique correta. Ajusta conforme entende as necessidades de cada um. Afirma que nunca machucou ninguém. Há quem grite. São muitos os que choram, reclamam, pedem para que ele pare. Em vão. Há um componente autoritário na relação mestre-discípulo, parte irremovível do charme da ashtanga. Duas horas depois, a prática chega ao fim. Antes de sair da sala, os alunos sorridentes abraçam o professor – inclusive aqueles que sofreram ajustes dolorosos. A maioria voltará na manhã seguinte.

A ashtanga começou a se disseminar lentamente no início dos anos 1960, quando alguns iogues americanos descobriram a existência do guru Jois, na cidade indiana de Mysore. Eddie Stern, que deu aulas de ashtanga durante dez anos a Madonna e à atriz Gwyneth Paltrow, disse que Jois era um poderoso guru espiritual. “Ele era um verdadeiro mestre. Não esperava que fôssemos robôs, mas que crescêssemos usando nossa liberdade”, diz Stern. Pelo menos uma vez por ano – às vezes, duas ou três –, durante 18 anos, Stern voltou a Mysore para encontrar seu mentor. Jois foi pela primeira vez aos Estados Unidos em 1975, depois passou a voltar regularmente. Há um documentário sobre uma de suas visitas a Nova York, em 2001, que captura com perfeição o clima de devoção descolada e bem-sucedida que cercava o guru e a prática da ashtanga. “Quem é competitivo, exigente, agressivo se entrega à ashtanga com mais facilidade”, diz Cristóvão.

A convergência entre personalidades competitivas e as exigências físicas da ashtanga são o campo ideal para polêmicas fundamentalistas – sobretudo no vácuo criado pela morte do guru. Os atuais conflitos e bate-bocas entre praticantes se baseiam em discussões acerca de tradição. Cristóvão, a bilionária Sonia Jones e seu sócio, Sharath Jois, o neto do guru, são acusados de deturpar os valores e os ensinamentos de Pattabhi Jois, cuja origem é objeto de muita indagação. Jois contava que aprendera a sequência de posturas que ensinava a partir de um texto de mais de 5 mil anos, que seu mestre descobrira numa biblioteca da Índia. O livro, entretanto, nunca foi visto por ninguém. Mark Singleton, um pesquisador de ioga da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, tem uma explicação mais contemporânea. Ele diz que a ashtanga nada mais é que uma mistura de antigos exercícios europeus e indianos consagrados. Jois, um indiano de origem humilde que mal falava inglês, criou uma resposta única para esclarecer qualquer tipo de pergunta que lhe faziam: “Pratique e tudo virá”. É o que milhares de pessoas tentam fazer.

LUÍZA KARAM

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