15 de jul de 2012

Fortuna, drogas e ruina


Misteriosa morte de Eva Rausing, esposa do herdeiro da Tetra Pak, expõe segredos de uma das famílias britânicas mais ricas

Ela era loira de olhos azuis, magra e extravagante. Casada com Hans K. Rausing, herdeiro da companhia de embalagens Tetra Pak, com quem tinha quatro filhos, a socialite Eva Rausing vivia entre as festas mais caras e badaladas de Londres e sob o escaldante sol do Caribe, onde tinha uma casa de 11 quartos à beira da praia. Hans, descrito como um homem monossilábico, nunca teve um emprego, e desfrutava da fortuna da família de maneira discreta. 

Até que, na segunda-feira 9, o império do casal desmoronou. Naquele dia, Hans foi parado pela polícia quando dirigia de forma errática pelas ruas do sul da capital britânica e acabou preso por posse de drogas ilegais. Seria apenas mais um deslize do herdeiro se os oficiais não decidissem revistar sua mansão em Chelsea. Lá, surpreendentemente, encontraram Eva morta. 

Hans foi preso sob a suspeita de ocultação de cadáver e encaminhado para tratamento médico, mas a morte ainda está envolta em mistérios. Eva, de 48 anos, era dona de um vasto histórico de dependência química. Pessoas próximas a ela disseram à imprensa britânica que já esperavam por uma overdose, mas os investigadores não souberam determinar o que a matou, em razão do estado deteriorado de seu corpo. 

A suspeita é de que Hans tenha convivido com o cadáver da mulher por quase uma semana. Segundo o testemunho de um amigo ao jornal “Daily Telegraph”, no último mês, o casal transformou sua luxuosa casa num antro de drogas e usava apenas dois quartos. “Era uma total imundície, ninguém acreditaria que eram bilionários”, disse. “Eles não podiam mais cuidar de si mesmos nem da casa.” Imagens das câmeras de segurança do local foram apreendidas e funcionários, interrogados. A mãe dela, Nancy Kemeny, disse que a filha estava se tratando num centro de reabilitação nos Estados Unidos dias antes de morrer e que viajara a Londres para convencer o marido a se juntar a ela. Para Nancy, Eva morreu por problemas do coração.

As fotos mais recentes do casal mostram a decadência física dos dois. Eva, que era fã de vestidos curtos e brilhantes, aparece com os cabelos sem corte, vestindo um casacão, uma bermuda jeans e uma sandália rasteira. Abatido, Hans veste um boné, camisa polo e um terno escuro sujo. Há 25 anos, Eva e Hans se conheceram numa clínica de reabilitação. O herdeiro voltava de uma viagem à Índia, onde havia se viciado em drogas. Filha de um executivo da Pepsi, Eva foi bem recebida pela família Rausing, que via nela a esperança de resgatar a saúde de Hans. A expectativa frustrou-se publicamente quando, em 2008, Eva foi presa depois que guardas da Embaixada dos EUA em Londres encontraram crack e heroína em sua bolsa. Numa busca mais refinada, policiais encontraram o equivalente a US$ 3 mil em cocaína no carro e na casa dos Rausing. Eles foram processados, mas escaparam da condenação ao aceitar a liberdade condicional. À época, Eva se disse envergonhada e arrependida.

ntes mesmo desse episódio, o casal se destacava pela filantropia voltada a grupos de assistência a viciados. Eva foi administradora da instituição Action on Addiction e doou quase US$ 1 milhão para a Mentor UK entre 1998 e 2010. Ao “Daily Telegraph”, o ex-chefe da Mentor, Eric Carlin, lembrou de uma reunião da organização em que alguém falou: “Nós todos concordamos que não gostamos de drogas”, ao que Eva respondeu: “Não, eu amo drogas. Esse é o problema.” “A droga é democrática, independe de classe social”, disse à ISTOÉ o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. “O crack e a cocaína têm alto potencial de dependência e são procurados por quem busca barato rápido, não glamour.”

Considerada pelo “Sunday Times” a 12ª família mais rica do Reino Unido, os Rausing se mudaram para o país no início dos anos 80 para escapar do alto imposto sobre herança cobrado na Suécia. Hoje Hans Rausing pai está em 88º na lista dos maiores bilionários do mundo, segundo a revista “Forbes”, e tem uma fortuna estimada em US$ 10 bilhões. Desde 1995, ele está afastado da Tetra Pak, quando vendeu sua participação ao irmão por cerca de US$ 7 bilhões.
Mariana Queiroz Barboza

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