10 de ago de 2012

Jetlag social


Síndrome definida pelo descompasso entre os compromissos diários e o relógio biológico provoca sonolência e obesidade

Aquele cansaço permanente de quem faz muitas coisas e não consegue dormir ganhou novo nome: jetlag social. A síndrome, identificada pelo pesquisador Till Roenneberg, da Universidade de Munique, acontece devido ao descompasso entre os compromissos diários e o relógio biológico e faz referência à fadiga provocada por viagens a cidades com o fuso horário diferente. O resultado é o sono sempre atrasado e, num último estágio, a obesidade. Nas mulheres os sintomas são mais comuns que em homens, segundo a psicóloga Marilda Lipp, diretora do Centro Psicológico do Controle de Stress, e vêm acompanhados de uma outra síndrome, a da pressa.

— As mulheres têm mais problemas de sono, porque além do trabalho, se encarregam dos afazeres domésticos, dos filhos, do marido e ainda levam tarefas para a casa. São três jornadas que carregam junto a angústia, a ansiedade e a sensação de não poder parar, características da síndrome da pressa — explica.

Coração disparado, corpo lento e mente exausta
A advogada Manoela Gambardella, de 34 anos, descreve o quadro como “um cansaço mental gigante e uma inquietação muito grande”. Há cinco anos ela perdeu o pai, a avó e se casou. Desde então vem se sentindo irritada, com dificuldade para se concentrar, tem problemas de memória e engordou 30kg. Há nove meses ela teve um bebê, Davi, o que, é claro, diminuiu ainda mais as horas de sono. Hoje, com sorte, Manoela dorme seis horas por noite.

— Fico tensa o dia inteiro, o coração dispara, parece que estou sempre a postos para apagar um incêndio. Isso tudo está dentro de um eixo que eu não encontrei desde que tudo saiu do lugar, há cinco anos. Já fiquei deprimida, agora quero resolver. Tiro muita força do Davi — conta.

A neurocientista Dalva Poyares, médica do Instituto do Sono e professora da Unifesp, acredita que estamos todos dormindo menos sem estarmos geneticamente preparados para isso. Estudos epidemiológicos, segundo ela, mostram que quem dorme menos de cinco ou seis horas tem mais chances de desenvolver problemas metabólicos e cardiovasculares.

— Uma hora de privação de sono por dia reduz a capacidade do indivíduo em até 32%. Uma pessoa brilhante não será tão afetada, mas numa pessoa menos estimulada, isso é percebido em pequenas distrações, como um vendedor que dá um troco errado, por exemplo — explica. O melhor, segundo a médica, é respeitar a sinalização do organismo quanto à necessidade de sono, coisa que pessoas muito empolgadas com seus afazeres acabam não percebendo, se adaptam e ficam mais suscetíveis à insônia no futuro.

Com filhos, neta, marido, casa, loja e cachorro é exatamente assim que vive a empresária Elizabeth Vaz, de 49 anos. Às 7h ela acorda para dar conta dos afazeres domésticos, atender fornecedores, organizar a festa de 80 anos do pai, ver se a pintura do apartamento está sendo feita e só vai parar para dormir à 1h da madrugada.

— Meu corpo não me dá limite, sou ansiosa, elétrica. Mas estou perdendo muito cabelo, emagreci quatro quilos e até consigo um tempo para fazer minhas coisas, mas no maior estresse — relata ela, que há alguns anos teve um tumor no rim e, em seguida, na tireoide. — Tudo isso explode em algum lugar, é claro. E tem uma coisa curiosa: eu não ligo para chocolate, mas em alguns momentos como de uma só vez uma barra inteira, acho que para suprir alguma coisa — analisa.

O doce e o café são apontados por Marilda Lipp como uma energia fugaz à qual se recorre nesses momentos de ansiedade. Mas o mais importante para reverter a situação é entender que ninguém dá conta de tudo.

— É importante pedir ajuda e desenvolver um plano de ação para emergências, porque esse planejamento dá uma sensação de controle e inibe a ansiedade — diz a psicóloga, que dá ainda duas dicas para o dia a dia:
— Dá para fazer exercícios de respiração profunda enchendo os pulmões e inchando a barriga por três vezes para relaxar. Mentalizar imagens da natureza por dois minutos também equivale a férias mentais.

Já a psicóloga Andreia Calçada acredita que esta demanda externa constante não desencadeia situações de estresse extremo de uma hora para outra. Esse acúmulo é que dá lugar à ansiedade e à depressão.
— É fundamental priorizar tarefas para diminuir o nível de cobrança e dar conta apenas do que for possível — ensina.
Fonte: O Globo

Um comentário:

Anônimo disse...

Isso é a globalização e a conquista do feminismo.
Gosto do trabalho de Zygmunt, que estamos andando numa fina casca de gelo.

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