24 de jun de 2013

A mutação, como escapar do Inferno


Para quem ficou neutro em época de crise moral, Dante Alighieri reservou no Inferno um castigo horrível. Ficar afundado de cabeça, pela eternidade, até a cintura, numa massa de excrementos humanos, mantendo apenas as pernas para fora. Como escrevi ontem, o sentimento que palpita nas ruas, e que de repente tomou conta de uma incrível massa de milhões de cidadãos, reflete um estado terminal do processo de neutralidade, que parecia eterno no povo brasileiro.

Não dá mais – submetidos a transgressões, a imoralidades, ao achincalhe da honestidade, especialmente os jovens com acesso aos meios de informação, deixaram suas cadeiras para reclamar nas ruas. Não através da voz de partidos e políticos, mas diretamente, cada um com sua dose de indignação. Com casca de ovo avermelhada no nariz, fazem paródia do papel a que são condenados: assistir, calados e como palhaços, aos arrotos de demagogia. Decidiram não mais fingir que isso é o que querem para si. Antes que a eternidade os castigue ao suplício dantesco, alguns entenderam que já estão, em vida, afundados nas imundices que tomam conta do país.

Alguns governantes passaram dos limites. Num sistema assumidamente cleptocrático, que premia e ergue ao poder quem mais rouba, é difícil se sentir à vontade. Ademais, a conversa do bem-estar econômico se esgotou, e falaremos disso e da devastação econômica que está por vir em outro capítulo. O ponto principal, agora, é remover a corrupção; isso, sem dúvida, surge como prioridade nacional e não será fácil, pois os corruptos são muitos e poderosos. Com corrupção não há possibilidade de se sonhar vida longa e boa? Trata-se de algo letal e pavoroso. Precisa-se fazer o possível ou, em breve, a fila de inocentes maltratados nos serviços públicos será sem fim.

Para esse pessoal de cartaz na mão, caiu a ficha. “Asinus asino et sus sui pulcher est” – O burro parece bonito a outro burro, e o porco, a outro porco. Não querem partidos, partidários ou representantes de agrupamentos que se idolatram e se escoram reciprocamente. “Va de retro satanás”.

Diga-me quem te representa e te direi quem você é. Enfim, essa constrangedora situação de marginalizados afeta os nervos de quem foi, de repente, desalojado das ruas que lhe pertenciam. Os anúncios mirabolantes em horário nobre de televisão não conseguem acalmar a massa do mundo virtual que caiu no real. Aliás, irritam essa massa, dotada de maior crítica, pois as telas retratam uma ficção, iludem quem “raciocina com o estômago”, como ensina o mestre Lula, mas não quem usa a cabeça.

Como a globalização, que inclui multidões na informação e lhe deu, além de capacidade crítica, dimensão de seus direitos, os fenômenos andam de 8 para 80 em razão de horas. Na Itália, em 2012, um movimento assim elegeu 169 parlamentares por um partido, o Cinco Estrelas. Cinco Estrelas, porque quem paga uma conta alta precisa de um serviço de luxo. Tanto lá e muito mais aqui, o serviço é um lixo, e a conta de imposto, intolerável. Estradas, viabilidade, hospitais, escolas estão na contramão de quanto se paga e que corresponde a 36% de quanto 200 milhões de habitantes podem produzir num ano.

Luxo, para a classe política que se apropria de fatias exorbitantes e ainda fica leniente com a endêmica corrupção. Também obras ditadas pelo interesse da corrupção, de regra as grandes, caras e faraônicas. Dissiparam-se num fracasso R$ 7,2 bilhões da transposição do São Francisco, delírio megalomaníaco, e agora a prioridade do PAC passou a ser o trem-bala num país sem metrôs, portos, e com estradas em estado de paisagem lunar.

A calma e a apatia já eram, tanta gente na rua levanta a dúvida. “Eu era traído, pagava a conta e não sabia?”. Quem se encarregou de chamar a atenção para essa questão é a presidente, com voz robótica, em rede nacional, anunciando que R$ 30 bilhões foram gastos nos preparativos da Copa com empréstimos do BNDES. Oba, o twitteiro se sentiu mais traído ainda; por que razão não emprestar dinheiro para a construção de hospitais, escolas e creches? Aliás, prometeu 6.000 dessas, e nem uma dúzia foi feita em 30 meses de mandato. Os cartazes reclamam hospitais com padrão Fifa.

“Excusatio non petita, acusatio manifesta” de Dilma, e não soou de outra forma ao estarrecido cidadão um arrazoado tão desconectado da realidade. Para alguns, fez lembrar Maria Antonieta, que, sem entender a revolução fora do palácio de Versailles, perguntou as razões e encontrou a solução nas “brioches”.

A ideologia que propala a participação do povo na destinação dos recursos trocou a prioridade de hospitais, creches, escolas e estradas por estádios. Pior, isso depois de receber “vaias” ao lado desse presidente da Fifa que desembarcou no Brasil para “ditar aos caciques tupiniquins como deveriam torrar as finanças nacionais”.

Um “cara” como Joseph Blatter, da Fifa, ente marcado de escândalos, de corrupção e que se faz forte apenas como atravessador da paixão popular pelo futebol. Brasileiro tem que engolir os caprichos bilionários para organizar uma festa de 15 dias e que deixa o país esfolado de recursos para enfrentar suas carências.

Esse é contexto em que se deu a pancadaria nas proximidades do Mineirão no sábado, entre uma PM cutucada por poucos arruaceiros e uma multidão que, de repente, ficou assustada e presa no meio da reação. Essa “tolerância zero” anunciada pela PM para amanhã é um mau começo, os ânimos andam a mil, e uma faísca pode explodir o ambiente saturado de provocadores. Para que colocar simples soldados da PM a se exporem à fúria? Por um jogo de seleção?

Essa juventude que bota o nariz de palhaço chama a atenção de governantes. Cansaram. Acabou. Se o povo condena os gastos da Copa, que se cancele a Copa. O mundo não acaba aí, aliás, pode começar disso uma era de austeridade, de boas conquistas, de seriedade. Seja uma lição para todos!

Se Minas virar palco de desgraças amanhã, não apenas de mortes de arruaceiros que se arriscam, mas de cidadãos indignados com razão, será um desastre maior, será martirizar quem cobra justiça. A prudência remete para uma decisão moderada, com coragem. Não podem alguns simples soldados ou oficias da PMMG pagar a conta de escolhas que não tomaram e que nem passaram por qualquer consulta popular. Quem pariu essas decisões de hospedar a Copa que administre a fera que cutucou! Que mande seu exército e venha a comandá-lo. Pode até ser que seja recompensado.

Enfim, o clima é dos piores, a escolha deverá ser das melhores.

Vittorio Medioli

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