18 de dez. de 2007

Quando a felicidade bate à porta


O fato se deu no glorioso ano de 1979. Tinha então 20 anos de idade e todos os sonhos do mundo. A vida acadêmica (cursava o primeiro ano de jornalismo) me parecia limitada, hipócrita, inadequada, incabível, ridícula e tacanha para o estilo de vida que desejava ter.

Ansiava ardentemente por viagens interoceânicas, novos odores, mulheres que falassem outras línguas, praças com árvores floridas, livrarias repletas de obras instigantes...
De repente, Paris. Lá estava eu numa quitinete (studiô, segundo os franceses) de uma brasileira amiga de uma amiga de uma amiga, aquelas coisas. E, para meu espanto e felicidade, dois dias após a minha chegada, ela me informou que estava viajando para o sul da França e que eu poderia ficar no apartamento até que voltasse.
Voilá! Sozinho em uma quitinete no bairro de Marie de Montreuil, Rue des Vincennes, Paris, com o que me lembrava da língua francesa aprendida no ginásio (conjugação do verbo connaître e outras mumunhas), temperatura de 5 graus, céu compacto, cinza, escurecendo às 4 horas da tarde.
Mas, quando estamos felizes e soltos, as coisas acontecem por si só. Dois ou três dias depois da partida da brasileira, alguém tocou a campainha. Eram 7h da noite. Abri a porta e vi uma garota belíssima com uma mala a seu lado. Perguntou-me algo em francês. Não entendi. Gesticulei para que entrasse. Levei sua mala para o interior. Depois de desastradas tentativas de conversação, entendi que ela se chamava Isabelle e que era amiga da brasileira inquilina. Quanto ao que estava fazendo, de onde vinha, para onde ia e por quanto tempo ficaria em Paris, impossível saber.
Começava ali uma silenciosa e dourada história de amor. Deitados na cama, nos comunicávamos através de nossos pés, de nosso apaixonado silêncio, olhos brilhando na escuridão...
Felizes, enamorados, como que sonhando, resolvemos, numa noite, voltar a pé para casa. No meio do caminho, começou uma neve delicada e fina. Uma neve que jamais esquecerei, talvez por ter sido a primeira e mais linda que vi em toda a minha vida. Passados 30 minutos dessa mágica e alva chuva, o asfalto negro tornou-se brilhantemente branco. Estávamos às margens do Rio Sena e ela me pediu para que a esperasse um pouco. Desceu a escada que dá para o rio e ali fez um mítico e glorioso xixi. Sua urina caía sobre as águas geladas do Sena produzindo uma volumosa fumaça. Tudo dentro de um sonho. Tudo em Paris.
Um dia ela fez sua mala e tentou explicar-me que precisava partir. Entendi, com um frio na barriga, que Isabelle era casada e que estava de passagem por Paris. Que já deveria ter ido para Nova York encontrar com o seu marido há muito tempo. Mas que tinha se apaixonado por mim. E não conseguia me deixar. Resolvemos viajar juntos para Londres. De lá ela pegaria um vôo para Nova York.
Nunca mais consegui voltar para Paris.
Ciro Pessoa

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