22 de ago de 2008

O que é pensar?

Tenho ouvido muitas vezes: “aqui ninguém pensa”, porque não somos do “tipo pensamento”; frase esta que tem estado continuamente presente, principalmente quando se trata de apresentações de seminários de psicologia. Será que pensar é algo tão difícil? 

Como agimos quando não pensamos? Embasei este pequeno artigo no texto de Heidegger: Che cosa significa pensare? Podemos começar a compreender o que significa pensar quando nós mesmos pensamos. Todavia, pode acontecer que alguém queira ou não pensar. Ser capaz (de pensar) significa deixar que algo chegue a nós no seu ser, e permitir constantemente este acesso. Ocorre que deixamos vir a nós, de modo geral, apenas o que nos apraz, aquilo a que somos apegados. O que amamos, que nos apraz verdadeiramente, é apenas aquilo de já nos amou primeiro, na nossa essência, o que significa que temos uma inclinação para tal. Dizer inclinação significa “voltar-se para a palavra” o que quer dizer literalmente, conforto, encorajamento. Quando esta palavra se encontra em nós, em relação à nossa essência, nos atrai para a essência e nos mantém nela. “Ter” significa aqui, propriamente “conservar”. O que se tem em essência, tem-se apenas a fim de que nós possamos pensar, isto que temos. Conseguimos pensar se conseguimos reter na memória. 

Diz-se que a memória é o re-colher-se do pensamento. Recolher-se em que? Recolher-se no que temos essencialmente, isto é, na medida em que tomamos algo em consideração. Apenas quando amamos aquilo que está sendo considerado, só então somos capazes de pensar. Ou seja, na medida em que damos atenção ao que está sendo considerado. Considerar quer dizer, ter interesse. Inter-essere significa: estar entre e por entre as coisas, estar em meio a algo e perseverar. O que ocorre é que para o tempo moderno, o que interessa é apenas o interessante. Interessante é aquilo que, passados alguns instantes, torna-se indiferente, sendo que o “interessado” passa para uma outra coisa, que importa tanto quanto a primeira, não há perseverança, na coisa que parece interessar. Acredita-se que, para que algo seja interessante, seja preciso conferir-lhe um campo particular. Na realidade, com um tal juízo o que se faz é rebaixar o interessante ao nível do indiferente, para repeli-lo até o nojo. Tudo é interessante, mas nada interessa! O campo onde o pensamento se desenvolve é a filosofia, o que não significa, que qualquer interesse pela filosofia, seja já uma ativa disposição ao pensar. 

Quer dizer que, por mais que, durante anos nos dediquemos a entender determinados escritos ou tratados de grandes pensadores, estejamos preparados para compreender o pensar. O que pode ser considerado, é o que “dá o que pensar”. O fato de que nós ainda não pensamos, deriva pois de que, aquilo que dá o que pensar, se desvia, ele mesmo, do homem. Então nos perguntamos: como e quando tal desvio acontece. Parece que, o que dá a pensar, permanece sempre como que distraído. Tal distração ocorre apenas quando algo esteve antes, próximo, num voltar-se para... Uma coisa é fato: isto que estamos falando, não tem nada a ver com a ciência, pois a ciência não pensa, o que não significa um defeito da ciência mas sim, uma vantagem. Esta afirmação, para a mentalidade comum, é um escândalo! De que se trata? Não há uma ponte que conduza da ciência ao pensamento, a única passagem possível é o salto! O lugar para onde esse salto conduz não é apenas o outro lado do abismo mas, a uma região totalmente diversa. O que nesta, se torna visível não é qualquer coisa que se possa de alguma forma demonstrar, se por demonstração se entende o fato de derivar enunciados concernentes a um certo estado de coisas de premissas apropriadas, através de uma concatenação de raciocínios. Quem pretende demonstrar, não julga segundo um rigoroso e superior critério do saber. Ele simplesmente calcula com base em uma certa medida, e a uma medida inadequada. 

 Em nossa época, não pensamos. Não pensamos porque aquilo que dá o que pensar, se desvia do homem e não tanto porque o homem não se volta o bastante, ou seja, não dá atenção o bastante ao que pensa. Deste modo, aquilo que se desvia, que se subtrai, se distancia de nós. Mas, justamente por isso, leva-nos consigo, para o seu mundo, em sua direção. Então, isto que se retrai, que se desvia, aparentemente, parece ausente. Esta aparência engana. Nós já estamos indo em direção àquilo que, nos atrai enquanto se subtrai. Então, enquanto estamos indo, atraídos em direção àquilo que se subtrai, somos nós mesmos quem apontamos aquilo que subtrai, e, apontando, nós somos, nossa própria essência. Assim, por exemplo em sua poesia Hölderlin escreve: “Um sinal, nós somos, que nada indica”. Como pensar, este poema? Como poeta ou como pensador? E este outro? “Wer das Tiefste gedacht, liebt das Lebendigste...” [ quem pensou o pensamento mais profundo, ama o mais vivo...] em outras palavras, quer nos levar a ver que: o amor fundamenta-se sobre o fato de que tenhamos pensado o pensamento mais profundo. Este “ter pensado” nasce provavelmente daquela memória em cujo pensar se funda também a poesia e com ela todas as artes. 

Repensemos: o que significa pensar? Por exemplo: o que significa nadar, não podemos aprender em um tratado, mas apenas nadando. É apenas na água que podemos conhecer o elemento no qual o nadador deve mover-se. Mas qual é o elemento no qual se move o pensamento? Admitindo-se que a afirmação de que nós ainda não pensamos seja verdadeira, isto significa que o nosso pensamento ainda não se move no seu elemento próprio, e isto porque, o que dá a pensar, se subtrai. O que de tal modo, se nega e se retrai, permanece portanto, não pensado ainda que se admita a feliz hipótese de que se possa ter um pressentimento claro do que se trata. Assim, resta-nos apenas uma coisa: esperar que o que dá a pensar, volte-se para nós. Mas esperar significa aqui, esperar de olhos bem abertos, procurando, naquilo que já foi pensado, o caminho até o não pensado, que se esconde no já pensado. 

A questão é: onde e como devemos distinguir, em geral, aquilo que antes de mais nada, e sempre, se dá a pensar ao homem? Como pode isto que é o mais considerado, mostrar-se a nós? Já sabemos em qual elemento o pensar se move? O traço fundamental do pensamento tem sido até hoje o perceber. A faculdade relativa se chama razão. O que a razão percebe? Em que elemento se mantém a percepção de modo que, mediante o perceber, ocorra um pensamento? Perceber significa: notar alguma coisa presente, e notando pró-pô-la e assumi-la como presente. Este perceber pro-ponente é um re-presentar, no sentido simples, amplo e ao mesmo tempo essencial, onde nós deixamos pousar e erguer-se a coisa presente diante de nós, na sua posição própria. Daí o grande salto no escuro. O que o pensamento enquanto percepção percebe é o presente na sua presença! Daí é que o pensamento toma a medida que constitui a sua essência como percepção. O pensamento é assim, a apresentação do presente, que nos confia o presente na sua presença e deste modo, coloca-o diante de nós. O pensamento enquanto apresentação, conduz a coisa presente à sua relação conosco, estabelece-a em referência a nós. 

A apresentação é assim re-presentação. A palavra representação é o termo que veio mais tarde de modo corrente, para indicar aquilo que foi, o re – presentar. O caráter fundamental do pensar é o representar. No representar se desenvolve o perceber. O representar mesmo é re-apresentação. Mas porque o pensar reside no perceber? Porque o perceber se desenvolve no representar? E porque o representar é re-apresentação? Parece simples. O representar oculta-se em um fenômeno pouco aparente, o ser, que então aparece como presença. Ser significa presença. Presente é isto que dura, que se desenvolve chegando ao desvelamento e permanece. Em termo modernos, quando nós representamos os objetos na sua objetividade, nós já pensamos. Mas nós todavia, ainda não pensamos verdadeiramente. Aquilo que dá a pensar, permanece, retirado, oculto. Por isso o nosso pensamento não está ainda no seu próprio elemento. Nós ainda não pensamos autenticamente. 
Sonia R. Lyra

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