27 de dez de 2012

A tecnologia vai estragar o futebol



















Chip na bola, árbitros recorrendo a vídeo e cartão vermelho no celular... Tudo isso está vindo para deixar o jogo travado e frio. E você sem assunto no trabalho na segunda-feira

A tecnologia nos ajuda tanto nas mais variadas tarefas que seu uso na arbitragem do futebol só pode ser bom, certo? Errado. Por maior que seja nossa boa vontade progressista, no futebol a tecnologia tem tudo para deixar nosso esporte favorito chato de ver e frio como uma planilha – ou truncado como o futebol americano ou o beisebol, tão adorados naquele país que acha que chato é o soccer. E sem extinguir os erros de interpretação nem as malandragens dos cavadores de faltas e pênaltis.

A Fifa e a International Board, a entidade que controla as regras do futebol, são historicamente lentas para promover qualquer alteração ou inovação nas leis do jogo. Mesmo assim, a implantação de recursos tecnológicos está em plena marcha: no Mundial de Clubes, em dezembro, já estreará o chip na bola, que irá cravar se ela entrou no gol ou não.

Isso já é meio passo para a oficialização do uso das imagens de TV para solucionar lances polêmicos – algo que, embora ainda proibido, vem nitidamente sendo praticado na moita por juízes prevenidos, com a cooperação de gente que fica fora do campo. Na hipocrisia, pois ninguém escancara tal uso, isso já rendeu a expulsão de Zidane na final da Copa de 2006 (pela cabeçada em Materazzi que o árbitro não vira) e a recente anulação do gol de mão do palmeirense Barcos contra o Internacional (o juiz atendeu ao “parecer” de um delegado da CBF).

Pense na quantidade de minutos que aquele Inter x Palmeiras ficou paralisado enquanto se discutia o que fazer com aquele lance. Agora pense como transcorreria um jogo de futebol se, a cada impedimento ou pênalti, o juiz fosse até a beira do campo para ver o tira-teima ou um replay por vários ângulos. Sem parar o cronômetro, haveria pouca bola rolando em 90 minutos. Parando o cronômetro, um jogo iniciado às 22h provavelmente iria terminar lá para 3h da madrugada. E nada garante que, mesmo com imagens, o juiz não irá se equivocar.

Há quem defenda um limite no número de pedidos para cada time para que lances sejam revistos. Mesmo as sim, não seria difícil que um técnico espertão pedisse a paralisação de um jogo só para esfriar o adversário.

Tem mais. Acabou de ser criado o aplicativo de celular Referee Pro, elaborado com consultoria a árbitros da Fifa. Serve como súmula para o juiz registrar tudo que assinala e também substitui os cartões amarelo e vermelho – ele saca seu iPhone e exibe ao jogador advertido a tela com a cor do cartão que quer dar.

Pergunta a você, torcedor: como saber de longe o que o árbitro está marcando com o celular? Ora, diz a empresa Siine, que criou o aplicativo: você acompanha pelo Twitter porque cada informação do aplicativo irá gerar automaticamente um tuíte. Ou seja, em vez de ver futebol, você olha a timeline. E não pense que esse dia está longe: o Referee Pro já teve sua estreia experimental em novembro num jogo de showbol no México. É o app tomando o lugar do apito.

A Favor e Contra
Antes de tomar nossa posição contra o “tecnobol”, falamos com jornalistas esportivos (um deles ex-árbitro da FIFA) em nome da imparcialidade. Eles se dividiram

Anti-tecnologia

“Sou contra tudo que possa interferir na essência do jogo. Chip na bola não interfere no andamento da partida, mas isso é o limite. Acho o resultado do campo sagrado. Nenhum engravatado tem o direito de interferir no que foi decidido no campo, com erro de arbitragem ou não. O futebol não pode ser só um evento para a TV. O futebol é um evento para o povo que vai ao estádio.” Arnaldo Ribeiro, comentarista da ESPN Brasil


“Não existe um ‘intenciômetro’ para julgar se um atleta teve a intenção de meter a mão na bola, ou se um jogador cometeu uma infração de modo imprudente, temerário ou com uso de força excessiva. A regra é subjetiva. Precisa de interpretação. No máximo, podemos usar a tecnologia em bola dentro ou fora. E, mesmo assim, desde que seja 100% segura. O que ainda não é o caso. Mauro Beting, comentarista da Band
Meio a meio

“Esportes evoluíram com a aplicação da tecnologia, como o tênis e o atletismo. Por que o futebol resiste tanto a mudar? Sou favorável, mas em situações absolutamente pontuais. Por exemplo, na hora do gol. O juiz aponta para o meio, mas espera uma confirmação de um quarto árbitro com acesso à imagem da TV. A tecnologia pode minimizar os erros, mas não vai extirpá-los. Eles continuarão existindo.” Maurício Barros, diretor de redação da Placar

Pró-tecnologia

“Se você conversar com ex-árbitros, eles vão falar que alguns usam isso, extraoficialmente. Então, não sei por que tem que ficar discutindo se vai dar certo ou não. Já dá certo parcialmente.” André Rizek, comentarista da SportTV


“Hoje é impossível viver sem a tecnologia. Sou favorável. Alguns já são usados, como o Signal Bip (bandeira eletrônica) e o ponto eletrônico. E o chip na bola será testado no Mundial. Em outros pontos, teria de se fazer uma discussão mais ampla.” Carlos Eugênio Simon, ex-árbitro e comentarista da Fox Sports
Marcelo Orozco

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