21 de set de 2008

O que acontece com a humanidade?

Em março desse ano, a população brasileira ficou chocada quando a menina Isabella Nardoni foi lançada do sexto andar do prédio onde seu pai morava. As pessoas acompanharam a história, com novidades e teorias a cada dia. O caso ainda não foi definitivamente resolvido, mas o enorme interesse pelo crime surpreendeu. A população está carente de soluções e apega-se a casos isolados como metáforas para o término da violência no mundo. E a mídia aproveita dessa fraqueza humana para ganhar audiência. “É uma carência de ética e seriedade nos meios de comunicação. Afinal, casos desse tipo vendem. A exploração da tragédia humana e a exposição tem sido a mola propulsora da mídia. Há uma confusão entre informar e explorar certas notícias”, comentou Joyce Kelly Pescarolo, membro do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná. Mas o caso da menina Isabella não é isolado. A violência virou tão banal que nem notamos mais quando uma pessoa é morta por reagir a um assalto. Mas por que o mundo está tão violento? No Brasil, especialistas costumam dizer que a violência é causada, na maioria das vezes, pela desigualdade social. Uma boa parte dos crimes é conseqüência da injustiça social, mas como se explica o caso Richtofen, por exemplo? E os norte-americanos que atiram contra pessoas em escolas e clínicas médicas? Fator social O desenvolvimento social e econômico do país está diretamente ligado aos números da violência. Quanto mais desenvolvido o local, menor será a violência. Talvez por isso, o Brasil seja um dos campeões em crimes de todo o mundo. Apesar de a economia ter crescido nos últimos anos, o desenvolvimento social ainda deixa muito a desejar. Especialmente quando se trata de distribuição de renda. Segundo dados do IBGE, enquanto os 10 % mais ricos da população ficam com 46% da renda, os 50% mais pobres retém apenas 13%. Cerca de 30% dos brasileiros vivem na pobreza e mais de 14 milhões de pessoas não sabem ler e escrever. No relatório de desenvolvimento da ONU, de 2006, o Brasil aparece em décimo lugar no ranking dos países com a pior distribuição de renda do mundo.Esses fatores contribuem para o aumento da violência nas cidades do país. O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) realizou um estudo que comprova que o quadro de extrema desigualdade está entre as principais causas da violência entre jovens. “Há uma relação entre desigualdade social e violência. Desigualdade é diferente de pobreza e possui dois pólos: ricos e pobres, ambos cometendo violências, pois a violência rompe os processos de identificação entre as pessoas. Ou seja, se consideramos que a violência está aumentando, ela aumenta em todos os setores, pois a violência não é um fenômeno da pobreza”, disse Joyce Pescarolo.Patrícia Oliveira da Silva, membro da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência do Rio de Janeiro, disse que o aumento da violência está relacionado também a falta de penalidade aos criminosos. “A situação chegou onde está por causa da impunidade. Se não houver punição por parte das autoridades, nunca vamos conseguir resolver esse problema”, disse. A rede começou por causa de uma chacina que aconteceu em Borel, em 2003, quando quatro jovens foram mortos por policiais, e os culpados pelas mortes não foram punidos. A falta de cumprimento da lei também está ligada à desigualdade social, pois na maioria das vezes só vai para a cadeia a minoria esquecida pelas autoridades. O cacique Ambrósio Vilhalva que participa do filme ítalo-brasileiro“Birdwatchers”, concorrente no Festival de Veneza, disse que no Brasil a justiça é feita apenas para aqueles que tem condições de pagar. “O índio não tem direito a nada. Tem justiça para os grandes empresários, para ele tem juiz, deputado, senador. Para os índios, pobres e negros, não”, comentou emocionado na entrevista coletiva do filme. Fator físico Uma parcela dos estudiosos da violência acredita que o problema não está relacionado apenas ao ambiente em que vivemos, mas, também, aos fatores genético e biológico. Segundo esses pesquisadores, uma pessoa que cede à violência possui um fator físico de predisposição a isso. O médico americano William Walsh afirma que indivíduos violentos, geralmente, nascem com genes que vão influenciar o comportamento. “Estudos feitos no Canadá mostram que cromossomos anormais têm uma influência muito grande, sobretudo o cromossomo XYY. Pessoas com esse cromossomo têm incidência 40% superior de criminalidade”, disse. Segundo o médico, a grande prova de que a genética é fator determinante na personalidade violenta é um levantamento feito pela Universidade da Califórnia com irmãos gêmeos criados em lares diferentes que mostrou que quando um gêmeo era delinqüente a probabilidade do gêmeo fraterno também ser criminoso era de 33%. No caso de gêmeos idênticos (univitelinos) a probabilidade subia para 69%.E não é apenas a genética que influencia o comportamento criminoso de um indivíduo. Durante o acompanhamento que doutor William Walsh e sua equipe fizeram com ex-presidiários para diminuir a reincidência, foi descoberto que essas pessoas tinham alguns problemas físicos em comum. Esses criminosos tinham taxas anormais de algumas substâncias no sangue, como chumbo, cádmio, zinco, magnésio e cobre. "Pegamos pessoas que o sistema judiciário considerou impossíveis de reabilitar e tratamos alguns desses desequilíbrios, enquanto demos placebo para outros. Os resultados foram inacreditáveis, em termos de diminuição considerável da taxa de reincidência daqueles que tratamos", disse o médico. Nossa culpa?Um indivíduo pode ter a predisposição física, mas não se tornar violento porque não sofreu influências do ambiente onde vive; tinha uma família equilibrada e uma boa educação. O contrário também pode acontecer: a pessoa ter estímulo social, mas não físico. Joyce ainda acredita que de todos os fatores que influenciam na violência, o social ainda é o mais importante deles. “Creio que o indivíduo é um ser biopsicossocial, mas o fator determinante sobre todos os outros é social. É o social que nos torna humanos e acho que é esse mesmo social que tem o potencial para nos desumanizar”, disse. Segundo os teóricos que defendem o convívio social do indivíduo como fator causador de crimes, o aumento da violência é um reflexo da sociedade. Se o mundo está caótico e desorganizado, sem valores morais e sociais, a probabilidade de um ser humano desenvolver o lado violento é maior, o que faz com que a violência aumente, em um ciclo sem fim. Isso nos faz refletir que talvez tenhamos alguma parcela de culpa nesse surto de crimes que vem acontecendo. Se não fazemos a nossa parte para que a sociedade seja mais equilibrada, contribuímos com a injustiça social, o que leva ao aumento da violência. Será que se cada um se esforçar para melhorar o mundo em que vivemos, ou pelo menos à nossa volta, conseguiríamos acabar com a violência? Se os teóricos estiverem certos, sim, pois mesmo que a pessoa tenha predisposição genética não vai ser influenciada pelo ambiente, deixando o gene da violência adormecido.
Thays Biasetti

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