18 de dez de 2008

''O Fim da Era Madonna''?

Encher dois Maracanãs e três Morumbis. Esse é o desafio da cantora Madonna, 50 anos, que vem neste mês ao Brasil para a turnê de Sticky & Sweet. A base dos shows será o álbum Hard Candy, lançado no primeiro semestre. Os milhares de espectadores que rumarão para os estádios carioca e paulistano não estarão, no entanto, em busca apenas das canções do novo disco. Madonna é um fenômeno que transcende a música. Ela faz parte de uma linhagem que começa em Elvis Presley e passa pelos Beatles, pelos Rolling Stones, por David Bowie e mais alguns poucos cantores e bandas. Esse seleto clube congrega os artistas que, como antenas, captaram o espírito de suas épocas. Tornaram-se, portanto, ícones de diferentes gerações. Assim como os anos 60 foram a "era Beatles", vivemos desde meados dos 80 a "era Madonna". Por isso ela deve ter facilidade em lotar os dois templos do futebol brasileiro, da mesma forma que costumeiramente enche arenas pelo mundo. A pergunta que está no ar, no entanto, é: até quando? A "era Madonna" ainda vai continuar por muito tempo? E, passada sua vigência, ainda serão possíveis, em tempos de internet, cantores que traduzam e mobilizem gerações? Para entender o fenômeno Madonna é necessário voltar no tempo, mais precisamente para os anos 50. Elvis Presley foi o primeiro cantor a ir além da música. Combinando som e imagem — ele era astro de vários filmes —, Elvis se tornou, antes de tudo, um fenômeno comportamental. Seu rebolado antecipou a ainda incubada revolução sexual, que eclodiria na década seguinte. Sua música, o rock and roll, que mesclava o country branco ao soul negro, era a perfeita tradução de uma América cada vez mais multirracial (embora o verdadeiro alquimista da combinação, Chuck Berry, reconhecido como o fundador do gênero, ainda fosse discriminado pela cor da pele). Elvis marca o surgimento do mainstream musical. O termo, um dos poucos de língua inglesa que não têm equivalente em português, indica a corrente hegemônica na cultura. Formam o mainstream os artistas que transcendem suas áreas e captam o zeitgeist ­— palavra alemã que, esta sim, pode ser traduzida por "espírito do tempo".Antes de Elvis, esses ícones vinham do cinema. O cantor de Memphis inaugurou uma dinastia. Depois dele, os Beatles foram a mais perfeita tradução do espírito rebelde com causa dos anos 60. Depois vieram os rebeldes sem causa Rolling Stones e o multifacetado David Bowie, ícone de uma era (os anos 70) em que tudo era possível. Depois deles, apenas Madonna atingiu igual dimensão na habilidade de traduzir o espírito de uma época. E ninguém — nem mesmo os Beatles, que se separaram no auge do sucesso — sobreviveu como ícone por tanto tempo quanto ela. Por uma razão simples. Madonna não é a expressão de um pensamento de época, e sim de vários pensamentos de épocas sucessivas. Ela captou e jogou no mainstream, às vezes de forma pioneira, idéias hoje vitoriosas nos campos estético e comportamental. Entre elas, o novo feminismo, a afirmação dos direitos homossexuais, a combinação de música e imagem no videoclipe, a entrada da moda no mundo da cultura pop, a transferência do eixo criativo da cultura de Nova York para Londres e, mais recentemente, a proeminência dos produtores no trabalho musical. Muitas vezes ela apenas referenda algo que já está acontecendo, mas ainda não foi percebido. De vez em quando, faz alguma aposta, o que a situa como alguém muito mais antenada do que uma simples surfista de tendências. Seu momento atual representa bem isso. Ao mesmo tempo em que chamou dois dos nomes mais quentes do R&B para trabalhar em Hard Candy — o produtor e rapper Timbaland e o cantor Justin Timberlake —, ela estreitou seu vínculo com Eugene Hutz, o cantor de origem ucraniana que lidera o grupo Gogol Bordello, sensação no underground. Após participar de sua turnê remodelando o hit La Isla Bonita, Hutz virou o protagonista de Sujos e Sábios (Filth & Wisdom), estréia de Madonna no cinema como diretora e roteirista de ficção. O longa, como a maioria das empreitadas de Madonna nessa seara, já recebeu uma enxurrada de comentários negativos. O crítico da Rolling Stone americana escreveu que, enquanto uma das personagem sonhava em poder exterminar a fome na África, ele sonhava que o filme terminasse logo.Os filmes de Madonna ­— como os de Elvis e dos Beatles, aliás — sempre foram muito criticados. Sua maior contribuição ao mundo da imagem, no entanto, se dá principalmente em outra seara. Como cravou Norman Mailer na revista Esquire, num perfil da cantora publicado em 1994, o pulo-do-gato de Madonna não está puramente no trabalho como atriz, nem como intérprete de canções pop, nem como compositora. Está na arte de fazer videoclipes. O jornalista e escritor — que tem a biografia de outro ícone da cultura de massa no currículo, a atriz Marilyn Monroe — escreveu que Madonna era a maior artista de "música e imagem" do mundo e que o videoclipe talvez fosse a mais nova forma de arte popular norte-americana.Madonna foi sem dúvida alguma a artista que melhor soube usar o videoclipe. Ela nasceu praticamente junto com a MTV, no começo da década de 1980. E, a cada novo clipe que mandava para a emissora, ela anunciava um novo estilo. Surgia vestida de um jeito diferente, dançando de um jeito diferente, criando uma nova polêmica. Um dos primeiros grupos a implicar com o estrago que a imagem de Madonna começava a fazer foi o das feministas. Mas logo a vulgaridade da artista foi traduzida como "feminismo afirmativo" por uma das grandes pensadoras feministas da época, a controversa Camille Paglia. "Madonna é a verdadeira feminista. Ela expõe o puritanismo e a ideologia sufocante do feminismo americano, ainda encalhado numa atitude de lamúria adolescente. Madonna ensinou as moças a ser plenamente femininas e sexuais, mantendo ao mesmo tempo controle sobre suas vidas", escreveu. O auge desses questionamentos feministas se deu quando a cantora lançou Sex, um explícito álbum de fotos eróticas que, lançado em 1992 no Brasil, chegou a ser debatido em programas populares, como o Domingo Legal, de Gugu Liberato. No mesmo período, a MTV iniciava suas operações no Brasil e Madonna podia ser vista a todo instante roçando em dois homens vestidos em trajes sadomasoquistas no clipe de Justify My Love, parceria da cantora com o roqueiro Lenny Kravitz. Hoje, tudo isso soa corriqueiro. Uma cantora como a novata Katy Perry pode sair do mercado gospel para se lançar no mercado secular com uma faixa intitulada I Kissed a Girl (Eu Beijei uma Garota), que isso não choca mais ninguém. Katy, aliás, foi um dos nomes mais badalados de 2008 e tem noção de que seu caminho foi pavimentado por Madonna. Na época de Sex e Justify My Love, Madonna já era vista e entendida como um ícone gay, imagem que só foi sendo reforçada a cada novo single. Deeper and Deeper, extraí­do do álbum Erotica, falava de um jovem em conflito com sua primeira paixão homossexual. No clipe da música, uma Madonna masculinizada, com cabelo curto, contracena com garotos de programa, travestis, drag queens, DJs e muitas mulheres (uma delas, a futura cineasta Sofia Coppola), algumas se beijando, tudo isso dentro de uma boate em Hollywood. Ela começava a se aprofundar na cultura da dance music. Não por acaso, as festas rave explodiam na Europa e a música eletrônica experimentava um novo momento, muito mais popular. Madonna dava seu aval ao culto hedonista e aos ventos libertários que essa cena representava.Um pouco antes, a bordo da turnê Blond Ambition, Madonna foi uma das pioneiras em encarar a moda como cultura pop. O figurino do show, em que se destacavam os hoje famosos sutiãs pontudos, foi assinado pelo estilista francês Jean-Paul Gaultier. Na época, a chamada alta-costura era algo totalmente distante dos jovens que curtiam Madonna. Hoje, a geração Sex and the City discute grifes e marcas de sapato da mesma maneira que os jovens dos anos 70 reconheciam os estilos dos guitarristas das bandas de rock. Em poucas áreas Madonna é tão antenada quanto na moda. Depois de trazer Gaultier para o main­stream, a cantora, na turnê seguinte, buscou a colaboração de dois desconhecidos estilistas italianos. Quando passou por Paris, a turnê The Girlie Show escandalizou os franceses, que trataram seus figurinos como "coisa de carcamano". Os italianos em questão eram Domenico Dolce e Stefano Gabanna, que mais tarde se tornariam tão famosos quanto Gaultier. A turnê The Girlie Show foi a primeira de Madonna a passar pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, e os brasileiros puderam conferir ao vivo as inventivas criações dos dois estilistas.No fim dos anos 90, já quarentona e com uma filha para criar, Madonna lançou o álbum Ray of Light e passou a viver quase um namoro com a crítica musical, algo que dura até hoje. Vertentes como o tecno e o trip hop já estavam bem assimiladas pela mídia, e a cantora soube escolher os melhores produtores europeus para trabalhar com ela desde então. O primeiro foi William Orbit, depois Mirwais e, por último, Stuart Price. Madonna nunca foi de aceitar ingerência de gravadora em seus trabalhos. Mas, a partir de então, seria impossível pensar numa interferência de fora. Ela já havia mostrado que até mesmo nos fiascos, como quando se envolveu na produção do filme Evita, em que atuou e gravou a trilha sonora, carregava consigo milhares de seguidores, como se liderasse uma seita ou representasse alguma religião. Hoje, o que a indústria parece buscar são artistas que tenham esse domínio total do processo criativo. Apesar de ainda surgirem cantoras e grupos vocais criados por empresários, o modelo atual de Madonna é o mais adequado neste momento em que as companhias do disco penam para sobreviver. Diferentemente de Michael Jackson ou Axl Rose, Madonna nunca demorou décadas para entregar um novo álbum, torrando milhões da gravadora.No começo desta década, Madonna se casou com o cineasta Guy Ritchie e foi viver na Inglaterra. Na esteira do brit- pop de Oasis e Blur, da eletrônica de Prodigy e Chemical Brothers e do cinema de Danny Boyle (Trainspotting — Sem Limites) e do próprio Guy Ritchie, que estourou em 1998 com Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, o Reino Unido vivia um excelente momento cultural. Mesmo grupos americanos como Strokes e White Stripes foram descobertos primeiro pelos britânicos para depois caírem no gosto dos americanos e do resto do mundo. No meio dessa excitação, Madonna lançou o álbum Music (2000), cujo clipe da faixa-título trazia como protagonista o rapper Ali G, personagem criado por um humorista fenômeno na Inglaterra, mas que fora dali ainda não era ninguém. Seu nome: Sacha Baron Cohen, que seis anos mais tarde ficou internacionalmente conhecido como o intérprete do repórter cazaque Borat. Desde que se mudou para a Inglaterra e passou a criar uma família (com Ritchie ela teve mais um filho), Madonna se envolveu em menos escândalos. O conturbado relacionamento com o temperamental ator Sean Penn havia ficado no passado, assim como os beijos lésbicos e as polêmicas com a Igreja. Mas ela voltou aos tablóides recentemente ao adotar David Banda, um garoto de Malaui, que ela conheceu durante as gravações do documentário I Am Because We Are, sobre as mazelas daquele país, praticamente destruído pela epidemia de aids. Depois de já ter posado com a criança no colo, o que ajudou a promover seu documentário, Madonna "descobriu" por meio da imprensa que o menino africano não era órfão e que seu pai acusava as autoridades de Malaui de o terem forçado a aceitar a adoção pela popstar. Para quem acompanha a saga de Madonna, o que importa mesmo é que a cantora demonstra que nos próximos anos estará muito mais envolvida com a África.Hard Candy, o último tiro de Madonna, teve como alvo o hip hop, que é um estilo tão ou mais dançante quanto o que ela vinha explorando até então. No clipe de 4 Minutes, o primeiro single do álbum, Madonna surgiu toda atlética e botocada, saltando por cima de carros e fazendo movimentos de ginasta, como se fosse uma espécie de heroína. Ela quase não aparenta ter a idade que tem. Com sua capacidade de se reinventar, é difícil prever quando irá parar. O que pode talvez abreviar a sua carreira e, quem sabe, dificultar o surgimento de novas Madonnas é a própria mudança no chamado "espírito do tempo". Em dois dos já tradicionais debates promovidos por Bravo! (na Livraria da Travessa e na Casa do Saber, ambas no Rio de Janeiro), o mítico executivo da indústria do disco André Midani chamou atenção para uma mudança cultural radical: o fim do conceito de mainstream. Segundo ele, com a falência das gravadoras e o surgimento da internet, o papel do músico como antena de uma época e emblema de uma geração pode estar com os dias contados. Elvis, Beatles, Stones, Bowie e Madonna eram líderes das paradas de sucessos, apareciam na televisão, monopolizavam os cadernos culturais dos jornais. Era, assim, impossível escapar da exposição a suas músicas e suas idéias, a não ser que desse para tirar férias em outro planeta. Hoje, cada um tem sua parada de sucessos particular no iPod. Em dificuldades financeiras, as gravadoras já não têm poder de fabricar sucessos, e a importância da televisão e do rádio diminuiu com a internet, onde o ouvinte tem acesso à produção musical de todos os tempos. É ele quem escolhe, e não os programadores das emissoras, o que quer ouvir. Para o bem e para o mal, como nota o ensaísta inglês Chris Anderson no livro A Cauda Longa, vivemos o fim da era da massificação. Madonna talvez seja o último fruto desse tempo. Para o bem e para o mal, a "era Madonna" pode estar chegando ao fim.
José Flávio Júnior

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