26 de jan de 2009

Aditivos para a mente

Sem se preocupar com efeitos colaterais, pessoas saudáveis usam remédios contra distúrbios psiquiátricos e até hipertensão para melhorar o funcionamento do cérebro
Indicados para quem sofre de depressão, hiperatividade ou distúrbios do sono, remédios como Ritalina, Stavigile e outros têm sido usados por um tipo diferente de consumidor. Eles começam a ocupar a farmácia particular de pessoas saudáveis interessadas em melhorar a memória, o humor e a atenção. São indivíduos que querem se sentir "mais do que bem". Conhecida no meio acadêmico como aprimoramento neurológico, ou neuroenhancement, a prática, polêmica, foi defendida recentemente por pesquisadores de sete universidades americanas e britânicas.
Em um manifesto publicado pela revista científica Nature, eles pedem a regulamentação e a liberação de drogas do gênero a quem quiser apenas turbinar o cérebro. Alegam que a medida responderia a uma demanda que acreditam ser irreversível. Nos Estados Unidos, por exemplo, 7% dos estudantes universitários já usaram medicamentos do tipo para melhorar o desempenho. No Brasil, embora o debate ainda esteja começando, é possível encontrar usuários.
As preferidas do momento são as chamadas smart drugs, ou drogas da inteligência, que atuam no aprimoramento da cognição. A mais comum é a Ritalina, indicada contra o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Sua substância ativa dinamiza a comunicação entre as células dos lobos frontais, áreas cerebrais associadas à razão e ao raciocínio. Embora psiquiatras alertem que o remédio não deve ser tomado sem receita médica - efeitos colaterais incluem insônia, perda de apetite e dores gástricas -, as advertências não têm sido suficientes para impedir a procura.
Como no caso da estudante de enfermagem carioca J. S., 18 anos, que toma o medicamento para dar conta da carga de leitura exigida pela universidade: "Uso quando estou desatenta e preciso ler." As compras são acertadas pelo site de relacionamentos Orkut e enviadas pelo correio por um portador de hiperatividade que vende o medicamento com ágio.
O doping cerebral também se vale de anfetaminas, estimulantes do sistema nervoso que deixam as pessoas mais atentas, e beta-bloqueadores, contra hipertensão, que dilatam os vasos sanguíneos e diminuem a ansiedade. Inclui ainda drogas para manter as pessoas acordadas ou combater a perda da memória. Sem falar nos antidepressivos. De fato, pesquisadores da Universidade de São Paulo notaram que doses mínimas desses remédios podem causar uma sensação de bemestar em até 30% de usuários saudáveis.
"Eles ficaram mais tolerantes, autoconfiantes e eficientes", diz Clarice Gorenstein, uma das coordenadoras do trabalho. Mas o uso sem acompanhamento pode ter efeitos indesejados. "A tristeza depois vinha mais forte", conta a estilista carioca Márcia Martins de Lima Mendonça, 49 anos, que tomou antidepressivos por conta própria por mais de dez anos.
A chamada cosmética neurológica gera debates éticos consideráveis. A principal preocupação é quanto à segurança: não se conhecem os resultados do uso não-médico dessas substâncias no longo prazo. No caso específico da Ritalina, indaga-se ainda, por exemplo, se não haveria o risco de os consumidores depositarem excesso de atenção em algum assunto ou atividade. "Ninguém pode prever", diz a psicóloga Luciana Caliman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela pesquisa a percepção da opinião pública brasileira sobre o uso nãomédico da medicação. Na opinião da psicanalista Ana Rosa Trachtenberg, a procura por essas opções pode ser resultado da pouca tolerância atual para o sofrimento e frustrações inerentes à vida. "Assim como as pessoas recorrem a tudo para ter um corpo bonito, agora usam a medicina para buscar a perfeição da mente", diz.
Gustavo de Almeida e Maíra Magro

Um comentário:

Rodrigo José disse...

quero mais informação sobre os medicamentos amigosdofreud@gmail.com

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