10 de fev de 2009

Nos 200 anos de Darwin, seu legado prossegue em nova disciplina

Muita coisa mudou desde que o homo sapiens se afastou do chimpanzé, adicionando mais um galho às ramificações da árvore da vida. A brutalidade da tese com que o britânico Charles Darwin destituiu o homem do epicentro do mundo natural, confirmando que espécies divergem de um ancestral comum por meio da seleção natural, está hoje praticamente pacificada. Mais que isso, o chamado darwinismo já se aplica a outros ramos do conhecimento humano, como a genética, a agricultura e até mesmo a arte, passando a servir de embasamento para uma nova disciplina: a psicologia evolutiva ganhou fôlego no início da década de 90 ao buscar explicar como mecanismos psicológicos se desenvolveram para solucionar problemas de adaptação enfrentados por nossos ancestrais no período nomeado pela paleontologia como Pleistoceno (de 1,8 milhão a 10 mil anos atrás). – Trata-se de uma tentativa de compreender a natureza humana, as propriedades universais da mente como parte de um processo de adaptação – explica Daniel Fessler, professor de psicologia evolutiva na Universidade da Califórnia, em Berkeley. – É entender que a seleção natural se faz como resultado de restrições impostas pela maneira como as adaptações interagem entre si e integram os mecanismos psicológicos que controlam o comportamento. A questão fundamental é que nenhum biólogo evolucionista acredita que o processo de evolução leve à perfeição. Por ter de obedecer à física do mundo e ao equilíbrio entre suas próprias características, o organismo é naturalmente otimizado para sobreviver num determinado ambiente. Como disse Freud, segundo Donald Plumer, em Does the center hold?, a dignidade humana sofreu dois grandes baques: Copérnico tirou o homem do centro do universo, e Darwin o chamou de animal. Fessler explica que o parto de uma mulher, por exemplo, é difícil e perigoso porque o cérebro do bebê é demasiadamente grande. Contudo, e por ser bípede – outra vantagem – a biomecânica da mulher exige que sua pélvis seja relativamente estreito. Assim o tamanho do cérebro se restringe à largura da pélvis que o acomoda. Diferenças que igualam Pois a mesma coisa que ocorre com a adaptação do corpo feminino para parir ocorre na maneira como a mente opera. O objetivo da psicologia evolutiva é entender as características da mente como resultante das adaptações que sofreu, ou como um produto de interações entre adaptações. As leis da física não mudaram nos últimos 200 mil anos. Cair de uma certa altura continua sendo perigoso e muitas vezes fatal para os seres humanos. Ao reconhecer que quedas sempre foram arriscadas, o cientista evolutivo Russel Jackson investigou a percepção de distâncias verticais pelas pessoas, comparando-a à percepção de distâncias horizontais. Jackson descobriu que os humanos tendem a magnificar muito mais as distâncias verticais do que as horizontais, e somos mais propensos a exagerá-la quando a contemplamos de cima para baixo do que de baixo para cima. Jackson teorizou que esse comportamento é um exemplo de desenvolvimento da percepção por razões de adaptação. No momento em que se exagera a altura, o organismo se torna cada vez mais cauteloso. Ora, se o fenômeno desse exagero está identificado em diferentes grupos humanos, isso sugere que é uma característica básica do cérebro humano, já que a física da Terra continua obedecendo às mesmas regras, resumiu Jackson. Para outras características comportamentais não é preciso nem reconhecer desafios do ambiente, diz Fessler. O sentimento de repugnância, por exemplo, leva o ser humano a agir cautelosamente em relação a pessoas e coisas que podem ser focos de doenças, como cadáveres, esgoto e o cheiro da carne podre. A psicologia evolutiva também estuda algumas variações entre seres humanos, como as psicopatologias de origem genética, e cogita a possibilidade de que elas não são de fato doenças, e sim estratégias alternativas. Os sociopatas que não sentem emoções morais, como a culpa ou o orgulho, são extremamente perigosos pois muito menos sujeitos ao controle da sociedade. Sabe-se porém que a sociopatia ocorre com pequena frequência em todas as populações. A psicóloga americana Linda Meely propõe que o fenômeno é um exemplo de “seleção dependente da frequência”: há diferenças genéticas na população e, em alguns instantes, a seleção natural age de modo que uma variação rara venha a persistir porque sua vantagem depende exatamente de sua raridade. Se o sociopata tiver sucesso, sua vantagem desaparecerá pois não seria mais uma vantagem num mundo de sociopatas. A ideia de Linda é que a sociopatia não significa que algo está quebrado. A seleção natural manteve certas características raras em alguns porque continua a ser vantajoso para o organismo se a característica não for compartilhada com muitos. Uma questão que permanece em aberto é se o ser humano continua evoluindo como espécie, no momento em que as variações que determinam a seleção natural são aquelas que beneficiam o indivíduo e aumentam suas chances de reprodução. A medicina moderna interfere e anula o que antes eram vantagens e desvantagens críticas do ser humano. – Eu uso óculos – diz Fessler. – Quando vivi numa tribo na Malásia, percebi que quase ninguém era míope, pois aqueles que não conseguiam ver direito não tinham boas chances de sobreviver e se reproduzir. A seleção neste caso era a acuidade da visão. Com a tecnologia médica, a necessidade desta seleção desaparece. Quanto mais avanços, mais reduzimos diferenças críticas para o sucesso. Joana Duarte

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