11 de fev de 2009

As galerias de Paris

Até por volta de 1800 as ruas de Paris de modo geral não eram calçadas, havia lama e poeira por toda parte. Não existia o conceito de loja. Quem queria comprar roupa, ou um móvel, ia à oficina de um artesão comprar.
Em 1799 Napoleão incentivou a construção de edifícios que estão até hoje na Rue de Rivoli, do outro lado da rua do Louvre, com as calçadas cobertas pelas arcadas dos edifícios.
Algo semelhante já havia sido feito no Palais Royal, com suas arcadas cobertas e cheias de pequenas lojas. Finalmente as pessoas podiam fazer compras sem sujar seus sapatos e suas roupas de lama ou poeira.
Pouco depois começaram a surgir o que o parisiense chama de "passage", ou passagem, que seria o que nós chamamos de galeria. Uma ruazinha interna, atravessando um quarteirão de lado a lado, com lojinhas de ambos os lados. Pela primeira vez surgiu a loja -- todas tinham dois andares, o de baixo era a loja aberta ao público e o de cima era a oficina. Eventualmente havia outros andares acima, de apartamentos.
O empreendedor escolhia seu local e saia comprando todas as casas que iam de uma rua a outra. Isso era uma operação complicada podendo envolver a compra de muitas, talvez até dezenas, de pequenas propriedades. Idealmente ele comprava casas em torno de uma ruazinha ou caminho já existente. Em seguida construía a galeria e suas lojas seguindo um padrão de qualidade bom. O que havia por trás das lojas continuava existindo, os pequenos imóveis de padrão e tamanho diferentes que continuavam lá.
Numa etapa posterior nos anos 1850 e 1860, o imperador Napoleão III, sobrinho do outro, fez um grande trabalho urbanístico em Paris capitaneado pelo Barão Haussman. Foram abertos os grandes boulevards e pela primeira vez as ruas ganharam calçadas. Essa novidade foi se tornando o lugar da moda -- as senhoras elegantes, que até então iam passear de tarde nas "passages", começaram a trocá-las pelas calçadas dessas novas avenidas, onde se podia ver ao longe (e ser vista) e havia mais espaço.
Como conseqüência o comércio também tomou esse caminho e gradualmente as "passages" caíram em decadência. Do total de mais de 150 em atividade, no auge, por volta de 1870, o número foi diminuindo e hoje existem apenas 17 com atividade comercial. E mesmo assim, atividade parcial, pois um passeio por algumas das mais famosas delas dá a impressão de quase metade das lojas está fechada.
Ainda mais tarde, na segunda metade do século XIX, surgiram os "Grands Magazins", ou lojas de departamento. A primeira foi o "Bon Marché", ali mesmo onde está até hoje, na Rive Gauche. Depois Galleries Lafayette, Samaritaine e outras.
Um passeio pelas galerias Saindo da Rue de Rivoli, ao lado do Louvre, andar um quadra pela Rue de Marengo e daí pegar uma diagonal à direita pela Rue J. J. Rousseau. No meio da quadra, do lado esquerdo da rua, está a "Galerie Vero Dodat". Esta, assim como algumas das outras, ostentam o nome mais pomposo de "Galerie", mas são uma "Passage" como as outras.
Esta é de 1820, uma das pioneiras. Saindo na outra ponta, na rue Croix des Petits Champs, seguir reto durante umas duas quadras. Isso nos levará a uma entrada lateral do grande pátio interno do Palais Royal. Esse enorme e charmoso quadrilátero está rodeado do que eu poderia chamar de galerias, mas estas não se encaixam no conceito das "passages" por serem abertas lateralmente, as outras são totalmente fechadas.
Originalmente o que chamamos hoje "Palais Royal" foi construído no século 17 como residência do Cardeal de Richelieu, ministro do rei Louis XIII (e vilão na história dos Três Mosqueteiros). Este o legou em testamento à família real e mais tarde Louis XIV o deu a seu irmão, o Duque de Orleans. O palácio inicial era constituído de apenas uma das quatro alas que formam esse grande quadrilátero, a ala mais próxima do Louvre.
Mais tarde, por volta de 1780, o então duque e herdeiro do palácio fez um empreendimento imobiliário construindo as outras três alas, com as arcadas com pequenas lojas no térreo e apartamentos para alugar em cima. Como a propriedade pertencia a um membro da família real a polícia não tinha jurisdição sobre a área. Isso levou durante um certo tempo a que os inquilinos fossem praticantes de atividades ilegais: bordéis, cassinos e outros. O duque fechava os olhos, o que interessava eram os aluguéis pagos pontualmente todo mês.
Mas continuando nosso passeio, ao entrar no palácio seguir para a direita até o canto oposto. Na parte esquerda dessa ala "dos fundos" está o restaurante "Véfour", possivelmente o mais antigo de Paris. O conceito de restaurante nasceu aí. Até então existiam as estalagens (pousadas na linguagem de hoje?) onde as pessoas dormiam em viagem, e eram alimentadas. Mas o conceito de sair de casa para comer bem, pagando caro por isso, era novo. Os aristocratas não iam ao restaurante - tinham um bom cozinheiro em casa, e comiam bem sem sair, ou na casa dos amigos. Quem ia ao restaurante era a burguesia que podia pagar por esse prazer e não tinha esquema de "haute cuisine" em casa.
Mais para a direita nessa mesma ala "dos fundos" está a pequena "Passage Perron", passando por baixo dos apartamentos do P. Royal e levando à rua de trás, a rue de Beaujolais. Andar para a direita algumas dezenas de metros, em seguida atravessando a rua e subindo uns degraus, o que leva a outra mini-passage, a Passage des deux Pavillons. Esta leva à rue des Petits Champs em frente à Gallerie Vivienne, uma das mais bonitas e mais bem conservadas de Paris. Esta tem a peculiaridade de dobrar à esquerda, em ângulo reto, em vez de seguir em frente.
Pouco depois da abertura da "Vivienne" anunciou-se a abertura de uma concorrente, a "Colbert", dentro da mesmo quadra. Iria concorrer diretamente com a primeira. Não sabemos como foi essa briga. O que se pode constatar é que a "Vivienne" está bem conservada e viva, com alguns estabelecimentos comerciais ativos, incluindo uma ótima casa de chá, enquanto a outra esteve fechada para reformas durante muitos anos. Abriu recentemente, mas com a maioria das lojas vazias.
Andar pela rue des Petits Champs em direção oeste. Quando chega, do lado esquerdo, a esquina com a rue Moulins, do lado direito sai a Passage Choiseul. Esta é bem comprida e conta com algumas lojas interessantes. A "passage" leva à rue St. Augustin, a qual leva à Place de la Bourse, onde está a Bolsa de Valores, uma construçao ridícula do tempo de Napoleão, imitando um templo grego.
Logo após a Bolsa chega-se à rue St. Marc e desta sai a Passage des Panoramas a qual tem a peculiaridade de ter várias saídas. Fomos dar no Boulevard Montmartre e atravessando este pegamos a Passage Jouffroy. Esta é grande e tem dentro um hotel, o Chopin, e um museu, o Grévin. Na saída desta damos em frente à Passage Verdeau a qual leva ao Faubourg Montmartre (não confundir com o Boulevard do mesmo nome, nem com a "rue" idem). O mapa mostra ainda uma Passage Deux Soeurs, andando para a esquerda pelo Faubourg, mas esta está fechada, aparentemente abandonada.
A esta altura a gente de repente percebe que a cidade mudou. Duas quadras antes ainda estávamos num bairro de padrão alto, agora estamos numa região decadente, com tipos estranhos passeando pela calçada. Chega a dar certo medo e a vontade é de achar um táxi rápido e sair dali.
Uma outra galeria interessante está no sexto arrondissement, região de St. Germain des Près. Passeando pela rua St. André des Arts, que corre paralela ao Boul. St. Germain, entre os números 59 e 61, vi uma passagem, com o nome "Cour du Commerce", e entrei. Na primeira metade é uma "passage couverte", ou seja, da família das descritas acima, com lojas de aparência razoável.
Depois vem um trecho em que estamos numa ruela entre pequenas casas, a céu aberto. Dá a impressão de que o construtor não conseguiu comprar todas as casinhas para fazer a galeria inteira. Finalmente, chegando ao Boul. St. Germain, a passagem se bifurca, parte segue reto e parte dobra à direita, e ambas as partes passam sob um arco do edifício que dá para a rua. É bastante pitoresco.
Opinião e Notícia

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