19 de fev de 2009

A sombra paterna na obra de Hilda Hilst

Há cinco anos, a literatura brasileira perdia uma de suas vozes mais emblemáticas
Que azar! Essas foram as palavras do poeta Apolonio Prado Hilst ao constatar que sua mulher Bedecilda Cardoso dera luz a uma menina. Tempos depois, o casal se separa. Mãe e filha mudam-se para São Paulo e Apolonio, então com 35 anos, é internado em um sanatório na região de Campinas, vítima de esquizofrenia. Aquelas palavras do pai motivariam a jovem Hilda a dissuadi-lo. "Meu pai foi a razão de eu ter me tornado escritora. Eu tentei fazer uma obra muito boa para que ele pudesse ter orgulho de mim", declarou certa vez a poeta. Pena Apolonio não ter lido os primeiros versos da filha. A loucura o havia consumido. Hilda Hilst estreou na poesia em 1950, com a reunião de poemas intitulada Presságio. Seus versos despertaram a admiração de Cecília Meireles. Eram tempos do curso de Direito no Largo São Francisco. Ao lado da amiga Lygia Fagundes Telles, a bela Hilda frequentava as principais festas da alta sociedade paulistana e despertava paixões. Vinícius de Moraes e o ator norte-americano Dean Martin foram seus amantes. O último, Hilda conhecera em viagem à Europa, em 1957. Nos anos seguintes, novos livros foram publicados, até que em 1963, após ler Carta a el Greco, do escritor grego Nikos Kazantzaquis, Hilda Hilst decidiu abandonar o cotidiano da alta sociedade para dedicar-se exclusivamente à literatura. "Eu tinha que ser só, para compreender tudo, para desaprender e compreender outra vez. Minha vida era muito fácil, uma vida só de alegrias, de amantes", afirmou. Um dos princípios suscitados pela obra era o isolamento do mundo como forma de alcançar o verdadeiro conhecimento humano.
Em um ato que mais tarde chamaria de "conversão", a poeta mudou-se para a Fazenda São José, em Campinas, propriedade de sua mãe. Três anos mais tarde, seria construída no local a Casa do Sol. Na companhia de amigos e dezenas de cães, Hilda viveria na casa até sua morte. Além de poesia, a autora passa a escrever prosa ficcional e teatro, ambos com alto teor poético. "Toda a minha ficção é poesia", afirmou. Hilda apontava Samuel Beckett e James Joyce como suas principais influências nesses gêneros. Durante 40 anos de produção literária, Hilda Hilst conquistou prêmios e teve a obra traduzida em países como França, Alemanha e Itália. Sua relação com a crítica foi instável ao longo dos anos. Bem quista inicialmente, sua obra recebeu duras críticas, especialmente na fase dedicada ao erotismo, em meados dos anos 1980. Pouco lida e em difícil condição financeira, a autora decidiu fazer versos que agradassem o grande público e consequentemente, vendessem mais. Não foi o que aconteceu. As vendas foram escassas e as críticas, severas. Porém, o conjunto de sua obra foi reconhecido ainda em vida. Os diversos prêmios conquistados, entre eles o Jabuti e o APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), atestam a importância de sua produção literária. Em 1997, o adeus à literatura. Segundo Hilda, tudo já estava dito em seus mais de 30 livros. Era chegado o momento de aceitar o silêncio. Estava conclusa a obra daquela que desejava levar adiante a poesia que o pai, impossibilitado pela loucura, não conseguira. Após 7 anos de hiato literário, o adeus à Casa do Sol. A poeta, que tematizou Deus, a morte e a transcendência, partiu na madrugada do dia 4 de fevereiro de 2004. " Não sei se vou encontrar o papai. Eu queria tanto ficar com ele... ele era lindo." A dramaturga As oito peças que compõem a obra teatral de Hilda Hilst, três delas inéditas em livro, foram recentemente compiladas e publicadas pela Editora Globo. Com organização de Alcir Pécora, o volume conta ainda com posfácio da poeta e dramaturga Renata Pallottini. Todas as peças foram escritas entre 1967 e 1969, período em que o teatro assumia uma forte conotação política, dado o contexto da ditadura militar. O tema central do teatro hilstiano é a dominação, geralmente exercida por uma instituição que se impõe por meio da força. Porém, diferentemente do que predominava na dramaturgia da época, as peças de Hilda Hilst não exaltam o populismo, nem a coletividade. Seus heróis são seres de exceção, responsáveis por criar as melhores hipóteses políticas, ante o conformismo e apatia da maioria. Wilker Sousa

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