26 de abr de 2009

Rabugento e poderoso

Numa entrevista recente, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, definiu desta maneira a atmosfera política ácida na capital de seu país: "Washington é como American Idol – exceto que todos são Simon Cowell". A menção a Simon Cowell é um bom indício da notoriedade que esse inglês de 49 anos conquistou – não apenas na cultura popular dos Estados Unidos, mas ao redor do mundo. Na bancada julgadora do célebre show musical, ele tornou-se um personagem antológico: o jurado rabugento, implacável, brutal. Mas Cowell tem outra faceta, que veio ao primeiro plano nos últimos quinze dias: a de empresário do showbiz. Foi a escocesa Susan Boyle que ajudou a ressaltar esse outro lado. A esta altura, as imagens da mulher feiosa mas de voz excepcional, interpretando de maneira emocionante a canção I Dreamed a Dream, já foram vistas mais de 100 milhões de vezes somente no site YouTube. A apresentação original, contudo, aconteceu no Britain’s Got Talent, um show de calouros da TV britânica que tem Cowell não apenas como jurado, em seu papel habitual, mas também como "dono" (ele produz o show e detém seu formato). Logo ficou claro que Cowell vai lucrar muito com a ascensão dessa diva inesperada. A audiência do Britain’s Got Talent certamente crescerá nas próximas etapas da competição, com os ganhos publicitários que isso acarreta. Além disso, os direitos sobre a carreira musical de Susan pertencem a Cowell, que já anunciou: "É claro que vai haver um disco". Ainda que seja a mais sensacional descoberta de Cowell, Susan não é a primeira nem a única no plantel de sua empresa, a Syco. Além do Britain’s Got Talent, no ar desde 2007, ele está nos bastidores de um outro programa de sucesso, o The X Factor (iniciado em 2004). Estima-se que já tenha amealhado uma fortuna de mais de 200 milhões de dólares. Cowell é filho de um ex-executivo da gravadora EMI e de uma dançarina. Entrou para a indústria musical nos anos 70 e na década seguinte lançou seu próprio selo, o Fanfare – que faliu em 1988. Poucos meses depois, foi contratado como diretor artístico da gravadora BMG e investiu na contratação de artistas pop meio chinfrins, como o grupo Westlife e a cantora Sonia. Então, em 2001, seu amigo Simon Fuller, mentor das Spice Girls, criou um programa de calouros chamado Pop Idol e o convidou para ser jurado. Suas tiradas contra os candidatos eram tão venenosas – e tão divertidas – que Cowell foi exportado para a versão americana do programa, o American Idol. O resto é história. Com audiência média de 25 milhões de pessoas, esse show tornou-se não apenas o carro-chefe do canal pago Fox, mas o programa mais popular da TV americana. Cowell, a estrela, tem salário de 36 milhões de dólares por ano. No começo deste mês, Cowell deu uma entrevista ao jornal inglês The Daily Mirror afirmando que pode deixar o American Idol no fim de 2009. Ele diz estar cansado. Deve ser verdade. Sua vida tornou-se um vaivém entre Inglaterra e Estados Unidos. Num dia ele está num lado do Atlântico, castigando calouros do American Idol; no dia seguinte, está no lado oposto, produzindo e estrelando seus próprios shows. Nem mesmo a estafa mais profunda deve tornar fácil a decisão de abdicar da dinheirama de 36 milhões de dólares. Mas Cowell deve ter feito as contas. Seu contrato com a Fox impede que ele venda uma versão do Britain’s Got Talent (que já está em quarenta países) nos Estados Unidos. Desfeito o vínculo com a emissora, ele ganharia liberdade para levar ao país o seu próprio show. Dias depois da já mencionada entrevista de Obama, Cowell foi ao mesmo programa, o do apresentador Jay Leno, que lhe pediu um comentário. Sua resposta: "Provavelmente Obama quis dizer que as pessoas agora estão mais inteligentes em Washington". Vá discutir com ele... Sérgio Martins

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