17 de jun de 2009

Na casa de Freud

A residência ampla e acolhedora, no número 20 da rua Maresfield Gardens, região oeste de Londres, foi a última moradia do criador da psicanálise. Transformado em museu, o espaço guarda mais que objetos pessoais dos antigos moradores – permanece ali um pouco da história de incontáveis analistas e analisandos
Para muitos pacientes, e para boa parte do público em geral, o psicanalista é uma figura neutra, discreta, reservada, quando não enigmática, de quem se conhece muito pouco. O que tem certo fundamento. No passado, ao menos, muitos psicanalistas temiam o acting out – a expressão de conflitos emocionais, por meio de comportamento impulsivo – e acreditavam que a proximidade com o analisando favoreceria essa “passagem ao ato”. Além disso, alguns profissionais receavam contaminar o tratamento apresentando-se aos pacientes como pessoas comuns. Por causa disso ainda hoje é rara a possibilidade de observar a intimidade de um analista. Pois é justamente essa oportunidade que nos proporciona uma casa-museu situada no número 20 da rua Maresfield Gardens, no distrito de Hampstead, em Londres. E não se trata da residência de qualquer analista: o morador foi ninguém menos que o criador da psicanálise, Sigmund Freud. Em 1938, depois que a Áustria foi anexada pelos nazistas, ele, relutantemente, deixou Viena, onde vivia e trabalhava (no famoso endereço, Bergasse 19), e transferiu-se com a família para Londres. A mudança foi penosa para o homem idoso e doente – lutando com um câncer, ele viria a falecer em setembro do ano seguinte. Na casa aprazível no noroeste da capital inglesa Freud pôde contar com um ambiente confortável e, muito importante, com o apoio da família. Moravam com ele a esposa, Martha, a cunhada Minna, a empregada, Paula Fichtl, e a filha, e também terapeuta, Anna. Extraordinariamente dedicada ao pai, ela continuou vivendo ali até morrer, em 1982. A residência, numa região muito tranqüila da movimentada Londres (e bem acessível, através do metrô, pela estação Finchley Road), é semelhante a outras do bairro: ampla, bonita e acolhedora. Nos fundos há um jardim-de-inverno, desenhado pelo arquiteto Ernst, filho de Freud. Surpreendentemente, os nazistas permitiram que o criador da psicanálise levasse boa parte de seus pertences para Londres, de modo que ali podemos ter uma idéia dos objetos com os quais convivia. O aposento que mais chama a atenção é, sem dúvida, o gabinete com a biblioteca – onde, mesmo exilado, continuou atendendo seus pacientes. O idioma não foi problema: ele falava bem inglês, ainda que com forte sotaque, como se pode constatar em um dos documentários exibidos no museu, em que ele faz, no idioma, uma síntese de sua própria trajetória. É no gabinete que está o divã analítico original, trazido da Bergasse 19. Muito confortável, tem almofadas de chenile e está coberto com um tapete persa ricamente colorido. Sobre a peça há outros tecidos orientais. Para quem já freqüentou consultórios psicanalíticos isto não deixa de chamar a atenção.Por exemplo, quando comecei minha análise, a regra entre os freudianos era atender num ambiente o mais neutro e despido possível. Mas isso, pelo jeito, não preocupava Freud – assim como não o preocupava manter o distanciamento dos pacientes. Quando um deles, o aristocrata russo Sergius Pankejeff, conhecido como “o homem dos lobos” (por causa do famoso sonho em que via esses animais encarapitados em árvores, sonho esse retratado num desenho exposto no museu), ficou financeiramente arruinado, Freud lançou uma espécie de campanha no círculo analítico para ajudá-lo. Ou seja, tratava seus pacientes, ou pelo menos alguns deles, de forma especial. E talvez o divã, com seus tecidos e tapetes, desse testemunho disso. Há mais, porém. No gabinete existem numerosas peças antigas, gregas, romanas, egípcias e do Oriente, algumas obtidas em sítios arqueológicos, a maioria adquirida de antiquários de Viena. A coleção completa totaliza mais de 2 mil objetos. Freud afirmava que sua paixão por antigüidades só era superada pela atração pelos charutos – enfatizando, contudo, que nem sempre esses últimos podiam ser considerados símbolos fálicos. Para Freud, a exploração arqueológica era uma metáfora para a investigação psicanalítica. E as diferentes culturas da Antigüidade tinham para ele significados diferentes. A cidade de Roma, sede do cristianismo, por exemplo, o perturbava. Não por acaso adiou várias vezes sua viagem para lá. Uma das coisas que então o fascinou foi a escultura do Moisés, de Michelangelo, na igreja de San Pietro in Vincoli. Em 1939, ano de sua morte, publicou uma de suas obras mais controversas, Moisés e o monoteísmo. O dono da casa era um leitor voraz. Sua biblioteca inclui livros de psicanálise, medicina, psicologia, ciências biológicas, filosofia. Ganham destaque autores como Charles Darwin, Jean-Martin Charcot e Richard von Krafft-Ebing. Como seria de esperar, são numerosos os textos sobre arqueologia. Mas ali encontramos também grandes obras literárias: Johann Goethe, William Shakespeare, Gustave Flaubert, Heinrich Heine, Nikolai Gogol, Anatole France. Freud dizia que, antes mesmo da psicanálise, poetas e ficcionistas já exploravam os meandros do inconsciente. Em Os dez amigos de Freud, o brasileiro Sérgio Paulo Rouanet estuda as obras prediletas do psicanalista – que, aliás, foi contemplado com o Goethe, famoso prêmio literário oferecido pela cidade de Frankfurt. Mas só uma parte de seus livros estão no museu; muitos foram adquiridos pelo New York State Psychiatric Institute e estão agora na Universidade Columbia, em Nova York. Outros foram doados para a Biblioteca do Congresso, em Washington. Num pequeno número de volumes encontra-se um “ex libris”, um selo pessoal de proprietário – dado a Freud por um discípulo – e que representa, claro, Édipo diante da Esfinge. A mesma imagem aparece em uma gravura de parede. Ali estão também retratos de Jean-Martin Charcot, sua mulher, Martha, e as amigas Lou Andreas- Salomé e Marie Recordações de Anna A casa também guarda recordações de Anna Freud, que ali viveu 44 anos: permanece exposto, por exemplo, o tear que ficava no seu quarto de dormir. Como Penélope esperando Ulisses, Anna usava parte de seu tempo tecendo; e tricotava durante as sessões de seus pacientes, o que, de novo, é algo surpreendente segundo os critérios de hoje. A mais nova dos seis filhos de Sigmund e Martha Freud, ela foi uma criança rebelde, que tinha muito ciúme da irmã Sophie. Quando esta casou, Anna suspirou aliviada; como escreveu ao pai, esperava que “agora as brigas entre ambas cessassem”. Anna nunca se casou. Concluiu seus estudos, iniciou a carreira como professora e, em 1918, começou sua formação psicanalítica analisando-se com o pai, o que atualmente seria considerado estranho, mas na época era algo perfeitamente aceito. Especializou-se em análise infantil e escreveu muito a respeito do tema; deu a seu trabalho uma importante dimensão social e dirigiu instituições psicanalíticas. Foi decisão de Anna transformar a residência da família em um museu que honrasse a memória de seu pai – o que aconteceu em 1986. Há outros dois museus Freud, um em Viena, outro em Pribor, República Tcheca, na casa onde ele nasceu. Mas o de Londres vale uma visita. É como descobrir os bastidores da psicanálise. O príncipe do Egito
Freud lera algo, em trabalhos sobre egiptologia, sobre o príncipe Thotmes, que poderia, a seu juízo, ser Moisés; achou que o assunto deveria ser aprofundado por meio de pesquisa, mas não chegou a fazer isso. Não é difícil entender o conflito que o tema representava para ele, sintetizado na primeira frase do livro: “Privar um povo do homem celebrado como o maior de seus filhos não é um empreendimento gratificante ou fácil, principalmente quando se é parte desse mesmo povo”. A isso se deve acrescentar a circunstância histórica: colocar em juízo uma figura exponencial do judaísmo numa época de feroz anti-semitismo seria, no mínimo, uma inconveniência. Isso, no entanto, não dissuadiu Freud de seu propósito: “Nenhuma ponderação poderia induzir-nos a faltar à verdade”. Ele começa discutindo a idéia de que Moisés era egípcio. O nome viria do termo egípcio mose, menino; Ptah-mose, por exemplo, significa o menino (ou o filho) de Ptah. Tal idéia estava longe de ser nova. Já tinha sido aventada por historiadores da Antigüidade, como Estrabão e Celso, pelo sociólogo alemão Max Weber e por pesquisadores bíblicos como John Tolland, isso sem falar nas alusões ao tema na obra dos psicanalistas Otto Rank e Karl Abraham. A ser verdadeira esta suposição, o monoteísmo dos hebreus seria uma forma de religião egípcia. Como se processou tal transformação? Em Totem e Tabu Freud descrevera a horda primitiva matando o pai, o macho mais forte, devorando-o e mais tarde cultuando-o. Em Moisés e o monoteísmo o tema do assassinato reaparecerá. Moisés, nobre egípcio, introduz os judeus, que viviam em servidão, ao culto monoteísta e intolerante de Aton, nome cuja semelhança ao de Adonai (uma das formas de tratamento para Deus, em hebraico) o autor nota. Moisés conduz o povo para fora do Egito, mas é assassinado – idéia que Freud tomou do erudito Ernst Sellin. O povo judeu passa a adorar Jeová, uma divindade do deserto considerada cruel e vingativa, até que um novo profeta, assumindo o nome de Moisés, apresenta uma religião, também monoteísta, mas baseada em princípios morais. Diz Peter Gay, biógrafo de Freud: “Um fundador assassinado por seus seguidores, incapazes de se alçarem a seu nível, mas herdando as conseqüências do crime e se corrigindo sob o peso de suas lembranças – não podia haver nenhuma fantasia mais talhada para Freud. Tocava-o mais de perto o fato de se considerar o criador de uma psicologia subversiva, agora se aproximando do fim de uma longa e encarniçada carreira que encontrara sólidos e constantes obstáculos, por parte de inimigos abusivos e desertores covardes”. Moisés e o monoteísmo foi, de maneira geral, mal recebido nos círculos judaicos, religiosos ou não. O filósofo Martin Buber rotulou-o como “um escrito não-científico, baseado em hipóteses infundadas”. Nos grupos cristãos a rejeição não foi menor, já que a análise de Freud não se restringe ao judaísmo. O assassinato de Moisés, diz, só veio aumentar o fardo da culpa ancestral carregada pelos judeus, e que começa com a noção do pecado original. Essa culpa, porém, ultrapassou os limites grupais; ela “se tinha apoderado de todos os povos do Mediterrâneo, como um vago mal-estar, como uma premonição cataclísmica”. O cristianismo proporcionou uma válvula de escape a esta opressiva situação, afirma Freud. O judeu Saulo de Tarso, depois chamado Paulo, deu-se conta de que o sacrifício de Jesus, filho de Deus, representaria oportunidade de expiação coletiva da culpa. Moacyr Scliar

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