26 de jul de 2009

Como um médico com excesso de peso convence o paciente a emagrecer?

A mãe saiu da sala de exames para me interceptar: ela sabia que eu provavelmente teria de falar com sua filha sobre seu ganho de peso, disse ela, mas, "por favor, não use a palavra 'gorda', nem mesmo 'acima do peso'. Não deixe que ela se sinta mal consigo mesma". A menina tinha uns oito anos de idade. Quando analisei seu gráfico de crescimento, ficou claro que o equilíbrio tinha se modificado no último ano, e seu peso aumentava muito mais rápido que sua altura. Valia a pena ter uma conversa. No entanto, eu tinha tanta consciência sobre meu peso quanto o dela. Pensava: como posso dar conselhos nutricionais, quando tudo que você tem de fazer é olhar para mim e confirmar que nem eu mesmo sigo meus próprios conselhos? Como conciliar isso com o pedido racional de sua mãe: "Não deixe que ela se sinta mal consigo mesma"? No fim das contas, como posso impedir a famosa epidemia da obesidade infantil quando toda semana quebro minhas promessas de emagrecer? Que valor tem um médico gordo? "Os conselhos que devemos dar nas clínicas pediátricas se resumem, basicamente, a: 'coma menos, se exercite mais'", disse a Dra. Julie C. Lumeng, professora-assistente de pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan e especialista em obesidade infantil. "Isso é uma blasfêmia, quando dou esse conselho às famílias, meu coração não está envolvido, pois muitas vezes as famílias ficam com um olhar vitrificado. Quando eu mesma recebo esses conselhos, reajo da mesma forma". O que significa quando o médico claramente não consegue seguir se próprio conselho? Fiz essa pergunta ao Dr. David Ludwig, diretor do Programa Peso Ideal para a Vida, do Hospital Infantil de Boston, um programa multidisciplinar de assistência às crianças obesas. "Esse assunto pode ser interpretado de várias maneiras diferentes", respondeu ele. "O médico que tem dificuldades em manter seu próprio peso tem a vantagem da experiência pessoal do ponto de vista do paciente - o que pode melhorar a compaixão e oferecer outras visões que um médico sem esse problema não teria". "Por outro lado", continuou, "o paciente pode enxergar o médico obeso ou gordinho como incapaz de compreender o problema básico a ponto de colocar em prática seus princípios". A preocupação militante acerca da obesidade infantil aumentou nos últimos anos, com muitas novas pesquisas e mais testes e intervenções clínicas. No entanto, nesse meio tempo, as crianças americanas se tornaram mais pesadas - já diagnostiquei diabetes tipo 2 em muitos de meus pacientes, e eu mesmo não perdi muito peso. Aprendemos mais sobre os fatores de risco. Por exemplo, um estudo de 2007, realizado por Lumeng, descobriu que quanto menos horas as crianças dormem na terceira série, maiores tendências elas têm de serem obesas na sexta série, independentemente de outros fatores familiares. Sua pesquisa atual foca em como as crenças das mães sobre a obesidade e a alimentação afetam o risco de obesidade das crianças. Entretanto, a própria Lumeng tem lutado contra a balança - ela afirma ter perdido 22 quilos no último ano, após um alarme de diabetes gestacional - e entende como é difícil traduzir suas próprias crenças na prática diária. Quando ela chega em casa, após um longo dia de trabalho, ela sabe que deve mandar seus três filhos desligarem a televisão e irem andar de bicicleta, enquanto ela cozinha brócolis e salmão para o jantar. "Eu sei disso tudo, eu pesquiso sobre o assunto", continuou ela. "Porém, quando se está exausto, se teve um dia difícil no trabalho, todo mundo fica irritável. Você pode até saber o que tem de fazer, mas quando chega o momento..." Eu poderia apelar para o argumento de que é mais fácil achar um ponto em comum com seus pacientes quando você entende suas fragilidades. Ao falar com um adolescente que está tomando drogas, ou um paciente que fuma perto de uma criança pequena, posso facilmente assumir o papel paternalista de uma integridade moral: Como você pode persistir nesse comportamento destrutivo e perigoso, agora que eu lhe expliquei o quanto ele faz mal? Por outro lado, você pode argumentar que, quando um médico dá um conselho que, para ele, é obviamente difícil de seguir, existe uma piscada de olhos de cumplicidade, implícita e perigosa: agora que eu lhe contei tudo sobre hábitos alimentares saudáveis, vamos cozinhar juntos - vamos mudar nossos hábitos amanhã mesmo! No fim das contas, Lumeng se vê diante do mesmo conselho que a faz lançar um olhar vitrificado: "Tive alguns pacientes que me disseram: 'Puxa, doutora, a senhora realmente perdeu peso - como conseguiu?' E eu tenho de dizer: 'Bem, eu me exercito mais e como menos!'" De volta à sala de exames, com aquela menina de oito anos, tomei alguns passos precoces e inseguros em direção à discussão sobre o tema. Mostrei a ela seu gráfico de crescimento, no papel rosa (para garotas). Veja - eu disse, - você está crescendo. Está ficando mais alta, está adicionando músculos ao corpo enquanto cresce. Porém, precisamos lhe dar um pouco mais de tempo para crescer antes de ganhar mais peso. E falamos sobre nutrição (cortar bebidas doces, fast food, comer diante da televisão). E falamos sobre exercícios (que tal sapateado, futebol, natação?). Finalmente, olhei para sua mãe, no fundo dos olhos, e disse, sem planejar muito: "Se fosse fácil, eu seria magro e estaria em forma". Perri Klass - médico
Picture by Fernando Botero

Um comentário:

Rita Roquette de Vasconcellos disse...

interessante este post
obrigada

Abraço

Rita V.

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