26 de jul de 2009

Comprovação da Teoria da Relatividade de Einstein

Há exatos 90 anos, durante um eclipse no interior do Ceará, foi provada a teoria da relatividade de Einstein 


Diz que o povo abarrotou a igreja, em frente do acampamento onde tinham sido instaladas as lunetas e equipamentos de medição dos gringos. As senhoras, terços enrolados nas mãos em prece, achavam que o mundo ia se acabar. Diz que algumas corriam pelas ruas batendo panelas, na esperança de espantar os maus espíritos. 


Já as grávidas foram trancafiadas em seus quartos desde o dia anterior para que não gerassem filhos escuros como as trevas. E diz que às 8 horas, 58 minutos e 28 segundos da manhã do dia 29 de maio de 1919, a sombra da Lua cobriu por completo a circunferência do Sol. Os galos, confusos, puseram-se a cantar como se fosse noite. E, por não mais que cinco minutos, as estrelas saltaram aos olhos dos cientistas maravilhados. O eclipse, acompanhado por uma equipe de astrônomos ingleses, americanos e brasileiros, mudaria não apenas a rotina dos então cerca de 6 mil habitantes da pequena Sobral, a 235 quilômetros de Fortaleza, no Ceará, mas os próprios rumos da ciência naquele início do século 20. 


À época, a cidade, que tem hoje 155 mil habitantes e é conhecida por ser a terra natal dos irmãos políticos Cid e Ciro Gomes, era iluminada por lampiões e puxada por charretes e carroças. Foi essa espantosa expedição científica que levou o primeiro automóvel visto por lá, um Ford Modelo T, o famoso Ford Bigode. E as mães sobralenses, sobressaltadas, recomendavam às crianças que não se metessem com o carro "para ele não ‘pisar’ nelas", diverte-se o físico cearense Emerson Ferreira de Almeida, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú. 


Aos 38 anos, Emerson é o responsável pelo Museu do Eclipse, erguido há dez anos pelo então prefeito e atual governador Cid Gomes na praça central, da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, local exato onde os astrônomos primeiro fincaram suas lunetas. O que levou alguns dos mais proeminentes cientistas do mundo àquele vilarejo perdido no interior do Ceará foi um conjunto de condições astronômicas e atmosféricas indispensáveis para a realização de um ambicioso experimento. 


A equipe chefiada pelo astrônomo inglês Arthur Eddington desejava testar a teoria da relatividade geral, publicada em 1915 por um então desconhecido Albert Einstein, afirmando que a massa dos corpos celestes deforma o espaço próximo a eles, de modo que um raio luminoso se curva para seguir tal deformação - a chamada "deflexão da luz pela gravidade". Até então, a teoria da gravitação universal, de Isaac Newton, admitia que a gravidade dos corpos celestes atraía a luz, mas sem deformação do espaço. A única maneira de se verificar quem estava mais próximo da verdade em sua explicação da "curvatura da luz" seria fotografando a posição das estrelas durante um eclipse total do Sol, em uma região da Terra em que o fenômeno fosse perfeitamente observável. "Sabia-se que em 1919 a sombra da Lua passaria exatamente por Sobral. 


E a cidade foi escolhida para o experimento, com a Ilha Príncipe, possessão portuguesa na costa ocidental da África", conta Emerson. Pode-se imaginar as dificuldades de logística naqueles anos conturbados que sucederam à 1ª Guerra Mundial. Ainda assim, com o apoio de Frank Dyson, o Astrônomo Real, e de autoridades científicas norte-americanas, Eddington angariou as necessárias £ 1.100, uma pequena fortuna à época, e organizou duas equipes: uma para Sobral, outra para Príncipe. Além de tudo isso, era preciso contar com condições climáticas favoráveis no dia da coleta dos dados. Para o azar de Eddington, que preferiu a Ilha Príncipe, São Pedro não ajudou: o dia amanheceu chuvoso e, das 16 fotos gravadas em placas de vidro emulsificadas, apenas duas imagens se mostraram úteis - ainda que imprecisas. Em Sobral, reza a lenda que as nuvens se abriram no momento em que o eclipse se formava. 


E 7 das 16 tentativas de registro feitas pelo grupo encabeçado pelo britânico Charles Davidson e pelo irlandês Andrew Crommelin, com a ajuda do brasileiro Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, saíram impecáveis. Para se comparar o desvio da luz das estrelas com e sem a presença do Sol e provar o efeito da gravidade do astro rei sobre ele era preciso fotografar o mesmo campo celeste em uma noite clara e em condições análogas. Os astrônomos aguardaram dois meses no Brasil pelo momento certo, período durante o qual compreensivelmente optaram pela brisa costeira de Fortaleza. "Finalmente pudemos sair do clima enervante de Sobral", registra em seus diários um encalorado Crommelin. Completada a fase de coleta de dados, veio a de medição das placas fotográficas com as posições das estrelas à noite e durante o eclipse, processo delicado e penoso. Os números obtidos iriam mostrar se a teoria newtoniana continuava a mais correta ou fora desbancada pelas equações de um jovem, e até então anônimo, físico alemão de cabelos desgrenhados. 


 No dia 6 de novembro de 1919, durante a reunião do Joint Eclipse Meeting, em Londres, Eddington e Dyson enfim apresentaram os resultados. O matemático e filósofo Alfred North Whitehead, presente ao evento, descreveu a cena: "Havia um elemento dramático naquele cerimonial tão cênico e tradicional, o qual se dava tendo como pano de fundo um retrato de Newton, que nos lembrava que a maior das generalizações científicas acabava, naquele exato momento, após mais de dois séculos, de receber a sua primeira modificação". Einstein estava certo. Nas palavras do historiador inglês Paul Johnson, "o mundo moderno começou em 29 de maio de 1919, quando fotografias de um eclipse solar, tiradas na Ilha Príncipe, na África Ocidental, e em Sobral, no Brasil, confirmaram a verdade da nova teoria do universo". 


O mistério que permanece é por que a saga de Sobral continua tão pouco conhecida no Brasil e no mundo. Dentro da própria comunidade científica internacional prevalece uma tendência a sobrevalorizar a expedição à Ilha Príncipe em detrimento de Sobral. "A superioridade dos dados de Sobral é bem clara", sustenta o astrônomo Augusto Damineli, professor titular do Instituto de Astronomia Geofísica e Ciências Atmosféricas, da USP. "A memória se perdeu ao longo do tempo talvez porque o Observatório de Greenwich, de onde vinham os astrônomos que foram para Sobral, perdeu importância após a 2ª Guerra Mundial. 


Já o de Cambridge, de onde eram os que foram para a Ilha Príncipe, adquiriu importância crescente." Damineli acredita que a polêmica terá destaque na Assembleia Geral da União Astronômica Internacional, em agosto, no Rio de Janeiro. O maior interessado, porém, jamais deixou de pôr luz nos méritos da experiência cearense. Durante sua passagem pelo Rio, em 1925, já convertido em gênio da ciência e celebridade mundial, Albert Einstein reconheceu, em uma entrevista a Assis Chateaubriand: "A questão que minha mente formulou foi respondida pelo radiante céu do Brasil". 
Ivan Marsiglia

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