5 de jul. de 2009

Tão jovens e tão ameaçados

Era uma sexta-feira e a residente de medicina Lúcia Gutheil Gonçalves, então com 24 anos de idade, estava pronta para aproveitar a noite de Porto Alegre. Havia acabado de se maquiar e, para ir embora, só precisava pegar a bolsa. No momento em que tentou fazer o gesto, no entanto, seu braço não se moveu. Lúcia pensou em sentar-se para relaxar. Dessa vez, foi a perna direita que não obedeceu ao comando. Ela caiu. Deitada no chão e com a parte direita do corpo paralisada, alcançou o celular e ligou para a mãe: "Meu corpo não se move". Não conseguiu emitir nem mais uma palavra – a essa altura, sua voz já soava empastada. Sua mãe, médica, entendeu o que estava acontecendo e agiu rapidamente: em apenas meia hora, a residente recebeu o diagnóstico de derrame cerebral em um pronto-socorro hospitalar. A cada ano, no Brasil, cerca de 20 000 jovens como Lúcia são acometidos por derrame cerebral, doença que se caracteriza pela interrupção do fluxo sanguíneo no cérebro. O número, por si só, surpreende, já que a doença é comumente associada aos mais velhos. Outro dado espantoso: em grande parte das vezes, o derrame entre jovens decorre de um segundo mal também relacionado ao processo natural de envelhecimento, a aterosclerose – a deterioração e o estreitamento da parede das artérias causados pelo acúmulo de placas de gordura e de cálcio. Um estudo conduzido no Rio Grande do Sul com 682 homens e mulheres vítimas de derrame mostrou que 20% dos participantes com até 45 anos apresentavam esse distúrbio. Nos anos 80, apenas 10% dos casos de derrame entre pacientes da mesma faixa etária eram decorrentes de aterosclerose. "Trata-se de um quadro extremamente preocupante", diz o neurologista Maurício Friedrich, do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, um dos coordenadores da pesquisa. Os jovens sofrem cada vez mais de doenças associadas aos velhos porque seu estilo de vida, para evitar meias palavras, é uma porcaria. Tabagismo, má alimentação, stress e sedentarismo, além de influenciar diretamente no desenvolvimento de distúrbios extemporâneos, também agravam fatores de risco preexistentes. "A adoção de hábitos saudáveis é tão importante que poderia evitar pelo menos 30% dos casos de aterosclerose", diz Eli Faria Evaristo, neurologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Tal redução, por sua vez, teria um forte impacto na diminuição dos casos de derrame cerebral." O derrame é a doença que mais mata no Brasil – a cada ano, 100 000 brasileiros morrem vítimas da doença. Além da aterosclerose, problemas congênitos e arritmias cardíacas estão entre as suas principais causas. Dos que sobrevivem a ele, cinco em cada dez ficam com sequelas permanentes. A gravidade da doença depende tanto do local atingido quanto do número de vasos que foram comprometidos pela falta de irrigação sanguínea. O tratamento é, na maioria das vezes, feito com trombolíticos – medicamentos que facilitam a circulação sanguínea. Em metade dos casos, as sequelas da doença podem ser completamente revertidas. Para isso, é fundamental que o paciente receba socorro rapidamente. No caso de derrames leves, pacientes atendidos em até quatro horas têm 50% de possibilidade de ter as lesões totalmente revertidas. Já as vítimas atendidas em até uma hora têm mais de 90% de chance de sair ilesas – graças à presteza da mãe, foi esse o caso de Lúcia, a residente gaúcha. Adriana Dias Lopes

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