27 de ago de 2009

Bullying

Acena é clássica em filmes americanos: os grandalhões da equipe de futebol infernizam a vida do protagonista da trama, em geral um garoto tímido e franzino, incapaz de se impor diante da brutalidade dos colegas. O garoto indefeso é perseguido, ridicularizado, humilhado e, nas cenas mais dramáticas, até surrado, enquanto seus algozes saem impunes. No decorrer da película, o personagem principal, com auxílio de seus amigos nerds, rebela-se contra a tirania dos agressores e passa de vítima a herói. Na vida real, no entanto, as histórias em que há esse tipo de violência nem sempre acabam com o mesmo final feliz e hollywoodiano. O fenômeno conhecido como bullying tem consequências preocupantes para a saúde física e principalmente emocional de seus atores — tanto faz se são os agressores, as vítimas ou as testemunhas. E o que é pior: a intimidação, o medo e a vergonha sedimentam um pacto velado de silêncio entre os jovens. É comum que pais e educadores só se deem conta do que está acontecendo quando a situação chega a extremos. Diante de quadro tão crítico, a pergunta é uma só: o que fazer? “Em primeiro lugar, manter a calma”, aconselha o pediatra Aramis Antônio Lopes Neto, do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria. Entender o fenômeno é um excelente começo. Sem tradução direta para o português, o termo é utilizado para designar violências físicas e psicológicas praticadas de forma recorrente por um indivíduo ou um grupo deles contra um mesmo colega, que acaba se tornando uma espécie de bode expiatório. Mais frequente na escola, nada impede que aconteça no condomínio, no bairro, na família e no trabalho — adultos também podem sofrer com esse tormento. A maneira de agredir varia muito: verbal, física, moral, material e até sexual. As crianças apelidam, batem, amedrontam, discriminam. De uns tempos para cá, e-mails, blogs, fotos e SMSs incrementaram o arsenal da garotada — criando a variante batizada de ciberbullying. O motivo que justifica o ato violento, em geral, é apenas um pretexto, qualquer coisa que diferencie a vítima: estatura, peso, pele, cabelo, sotaque, religião, notas, roupas, classe social ou outra característica que sirva ao preconceito. “O bullying faz muito mal à saúde”, enfatiza o pediatra Lopes Neto. “Para que se desenvolva adequadamente, uma criança depende do bem-estar físico, psíquico e social. O ambiente violento abala esse equilíbrio e impede que os jovens cresçam de modo saudável”, resume. Entre as consequências, podem aparecer fobias, depressão e, nos casos mais graves, estresse pós-traumático. Vale repetir que todos os que vivenciam essa história podem ser afetados. Se o quadro de perseguição está em um estágio inicial, e afetar sobretudo crianças pequenas, pais e orientadores têm plenas condições de contornar a situação sozinhos. “Quanto antes as agressões forem identificadas, mais fácil será neutralizá-las”, garante a pedagoga Cléo Fante, presidente do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobe), que fica em Brasília. A família e a escola devem trabalhar juntas, buscando uma abordagem indireta, de refl exão e conciliação, e nunca de confrontação e repreensão. “As ferramentas mais eficazes para ensinar regras de convivência saudável aos filhos são o afeto incondicional, o diálogo e as atividades educativas, como jogos esportivos, aulas de arte e ações solidárias”, orienta Cléo. “Já nos casos sérios, em geral com adolescentes, a ajuda de um médico ou terapeuta será necessária”, diz ela. “E talvez os envolvidos tenham até mesmo de ser transferidos de escola.” O psicólogo José Augusto Pedra, consultor do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), diz que os pais também precisam estar atentos às próprias atitudes dentro de casa. Gestos, tons de voz, toques e expressões faciais marcam a moçada muito mais do que discursos, especialmente até os 7 anos de idade. Lógico: pais que vivem ausentes ou estressados por causa do trabalho e que costumam usar gritos, tapas e murros para exercer sua autoridade vão transmitir esse modelo de relacionamento aos filhos, mesmo sem perceber. “As crianças incorporam comportamentos e acabam reproduzindo-os quando estão em um ambiente sem hierarquia, seja como vítimas, seja como agressoras”, enfatiza Pedra. Ficar atento a isso tudo é crucial para qualquer roteiro terminar bem. Giuliano Agmont

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